quarta-feira, 28 de julho de 2021

Brasil bate no fundo do poço do isolamento internacional

No momento, praticamente não existe um chefe de governo democrático que queira se encontrar com Jair Bolsonaro. Na União Europeia, evita-se prudentemente o presidente brasileiro, pois isso não pegaria bem junto ao eleitorado. Nem mesmo os fãs do britânico Boris Johnson devem ter uma opinião muito boa de Bolsonaro, conhecido no exterior sobretudo por duas coisas: a devastação da Floresta Amazônica e sua catastrófica gestão da pandemia, com mais de 550 mil brasileiros mortos.

Como ninguém quer se encontrar com Bolsonaro, ele aceita o que vem. Nesse caso foi, justamente, Beatrix von Storch, deputada federal e vice-porta-voz da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Não se trata de um partido normal: o Departamento Federal de Proteção da Constituição – uma espécie de Abin alemã – levantou suspeitas de que a sigla abrigaria extremistas e impunha ameaças à ordem democrática, chegando a colocá-la sob observação do serviço secreto.

Além disso, o presidente do Brasil se encontrou com uma mulher que tachou a chefe de governo alemã, Angela Merkel, de "a maior criminosa da história da Alemanha do pós-guerra". O fato de ele se deixar ser visto ao lado dessa pária sublinha mais uma vez o desastre que o bolsonarismo perpetrou na política externa brasileira.


A perda de importância do país é dramática: Bolsonaro reduziu o Brasil de peso-pesado internacional a mero peso-mosca. É mais ou menos como se Merkel marcasse uma reunião com o deputado (e palhaço) brasileiro Tiririca, para discutir com ele o futuro da Europa e da América Latina.
O problema não são os avós

Como mostram as fotos do encontro, Bolsonaro e Von Storch se divertiram à beça. Poucas vezes se viu o presidente com um sorriso tão largo, e a ultradireitista alemã tão relaxada. O problema do encontro não é a ascendência de Beatrix von Storch – como enfatizaram diversos veículos de imprensa brasileiros. De fato, ambos seus avôs estiveram profundamente envolvidos nos crimes nazistas: um como ministro de Adolf Hitler (e criminoso de guerra condenado), e o outro como membro convicto do Partido Nacional-Socialista (NSDAP) e oficial da milícia SA.

Só que milhões de alemães têm antepassados que veneravam Hitler, injuriavam os judeus e se apoderaram de suas fortunas quando foram deportados e assassinados. Os avôs e bisavôs da maior parte dos alemães eram soldados da Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas, ou até membros do NSDAP ou da força paramilitar SS.

Um de meus avôs viveu por um breve período num apartamento em Gleiwitz (hoje Gliwice, na Polônia) que pertencia a judeus deportados. A cidade fica próximo ao campo de extermínio de Auschwitz, e minha mãe se lembra até hoje que em certos dias "chovia cinza". Ninguém lhe explicava por quê.

Meu outro avô voltou para casa de um campo de prisioneiros soviético cinco anos após o fim da Segunda Guerra, mudo e sem reconhecer os filhos. Ele jamais falou sobre a guerra. Nós supomos que ele vivenciou coisas terríveis e talvez também tenha participado de atrocidades.

Não se pode condenar os alemães de hoje à punição coletiva. E tampouco se pode acusar Beatrix von Storch de ter a família que tem. O que pode lhe ser imputado é ela dar continuidade à ideologia criminosa de seu avô. Ela disse que é lícito atirar em refugiadas e seus filhos que tentem atravessar a fronteira para a Alemanha, e pertence a uma sigla, a AfD, cujos deputados e funcionários disseram coisas como estas:

"Afinal, agora nós temos tantos estrangeiros no país que valeria a pena mais um Holocausto."

"Eu desejo tanto uma guerra civil e milhões de mortos, mulheres, crianças. Para mim, tanto faz. Seria tão bonito. Quero mijar nos cadáveres e dançar em cima dos túmulos. Sieg Heil!"

"Esse tipo de gente [estrangeiros e esquerdistas], é claro que temos que eliminar."

"Quando a gente chegar, vai ter arrumação, vai ter purgação!"

"Homossexuais na prisão? A gente também devia fazer isso na Alemanha!"

"Precisamos atacar e acabar com os meios de comunicação impressos."

"Lares para refugiados em chamas não são um ato de agressão."

"Fuzilar a corja ou mandar de volta para a África abaixo de pancadas."

É possível que tais declarações nem soem tão estranhas para os leitores brasileiros. Seu presidente já soltou coisas do gênero, por exemplo: "Fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando com o FHC. Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."

Portanto, é inegável o parentesco de espírito entre Bolsonaro e Von Storch. Ambos são representantes da nova ultradireita global, que prega racismo, homofobia e autoritarismo, e para tal se serve de táticas, formulações e teorias de conspiração análogas. O mais absurdo que compartilham é a afirmação de que defenderiam "valores conservadores e cristãos". Eles não defendem valor nenhum!

Jair Bolsonaro e Beatrix von Storch são irmão e irmã no espírito. O fato de o presidente brasileiro – assim como seu filho Eduardo, ou o ministro da Ciência Marcos Pontes – se encontrar com essa pária da política alemã mostra, acima de tudo, quão solitário e absolutamente incompetente esse governo se tornou. Está isolado por ser incapaz de travar um diálogo com quem pense diferente. Diplomacia lhe é uma palavra desconhecida. Para o Brasil, que há poucos anos ainda tinha um peso no mundo como país de referência, é uma tragédia.
Philipp Lichterbeck

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Pensamento do Dia

 


Chutando o futuro

Desde as cavernas, o homem sente a necessidade de prever o futuro. Lendo as sombras da fogueira, jogando ossos no chão ou interpretando os sinais da natureza, tentando adivinhar o dia de amanhã para se sentir no controle de seu destino.

Hoje evoluímos um pouco e usamos desde astrologia até big data para traçarmos nossos caminhos de vida com alguma segurança. A taxa de acertos era aceitável até março de 2020, quando a pandemia foi decretada e jogou para o alto os planos de bilhões de pessoas e zilhões de empresas.

Logo prever o futuro se tornou um campeonato de chute. A ignorância sobre o vírus fez de governantes, médicos e cientistas meros videntes tentando adivinhar números de fatalidades nos próximos meses. Os curandeiros de Facebook misturando remédios milagrosos e vitaminas com cúrcuma para evitar o contágio.

No meio da catástrofe, começamos a acreditar nas previsões de um homem novo nascendo na adversidade. Um novo homem espiritualizado, empático, generoso começa a rever seus valores para sobreviver. O rabino inglês Jonathan Sacks definiu a pandemia como “o mais perto de uma revelação divina a que um ateu poderia chegar”. Fé é o que não falta nas trincheiras ou nas UTIs.

Na Itália, as pessoas trancadas em casa foram para as varandas cantar em coro unindo o mundo todo numa corrente de alegria e compaixão. Profissionais da saúde desbancaram os fantasiados da Marvel para se tornar nossos super-heróis. As doações de cestas básicas e respiradores ajudaram a aliviar o desespero. A natureza se recuperou longe do homem e suas fumaças, e, apesar da dor indescritível das mortes solitárias, tudo indicava que havia uma semente de um renascimento da humanidade no meio da tragédia.

O tempo passou, e a ciência tomou as rédeas novamente. Menos chutes e mais dados deixaram claro que máscaras e distanciamento eram as únicas armas para controlar o volume de doentes nos hospitais enquanto as vacinas não ficavam prontas.

Mas a ciência perdeu a sua aura de confiabilidade. Tantas previsões conflitantes geraram a disputa entre fechar tudo para proteger a vida e abrir para proteger a economia, a guerra de sempre entre as coisas do coração e as do bolso. Revoltas contra máscaras e lockdowns estouraram incentivadas pelos Trumps e Bolsonaros do mundo, que parecem adorar ver o circo pegar fogo e ouvir os gritos de quem ficou preso dentro.

As vacinas chegaram muito antes do previsto, e o que deveria ser festejado como uma conquista milagrosa da humanidade é tratado com desdém por quem acredita nas imbecilidades propagadas pelos piromaníacos de circo.

Enquanto a Índia, o Brasil, o Equador e a África do Sul sofriam de falta de vacina, oxigênio e leitos, o Primeiro Mundo nadava em imunizantes que, muitas vezes, não eram usados por ideologia ou pura paranoia de uma gente mimada pela fartura.

Globalizamos mercadorias, mas não mais a empatia. Mesmo com a falta de vacinas no Terceiro Mundo, parece que hoje não há mais espaço nos países ricos para movimentos solidários como o Live Aid, organizado por Bob Geldof em 1985, que coletou milhões de dólares para combater a fome na Etiópia.

A pandemia deixou claro: a previsão que importa para os próximos anos não será sobre o trabalho remoto, nem o ensino domiciliar, ou o fim do turismo de negócios. Será como conseguiremos medir e remediar o abismo que se formou entre pobres e ricos. No mercado de trabalho, entre os homens e as mulheres obrigadas a abandonar seus empregos para cuidar das crianças. Será sobre a escalada da desigualdade que aumentou a distância entre quem tem e quem não tem. Seja internet para poder estudar em casa, seja comida, emprego ou acesso a um sistema de saúde decente.

Já dá para prever que a tendência do mundo é se tornar menos global, mais fechado e tribalista. Mas não dá para saber se sairemos dessa motivados para a busca do bem comum, mais generosos uns com os outros ou se precisamos aceitar nossa condição de seres egoístas e autocentrados que sempre fomos. Para mim, é ingênuo buscar no outro um ser humano que faça jus ao adjetivo. Vamos procurar esse novo homem, menos egoísta e mais solidário, dentro de nós mesmos.

Não precisamos de videntes para nos dizer que tentar controlar o destino é enxugar gelo. Melhor seguir o grande Zécrates Pagodinho, o “filósofo de Xerém”, tradutor de Carpe Diem para o samba: “Deixa a vida me levar, vida leva eu / Sou feliz e agradeço, por tudo que Deus me deu”.

Privilégios políticos são abraço de urso para a Igreja

Muitos se questionam por que razão a fé cristã cresce nalguns países e áreas do mundo e diminui noutros. A verdade é que o extremo desenvolvimento da ciência e da tecnologia, assim como a difusão do conhecimento e a democratização do ensino superior parecem ter concorrido para o decréscimo da influência social das igrejas cristãs. Além disso o processo de secularização e o aumento da sociedade do bem-estar nos países desenvolvidos também não serão alheios ao fenómeno. Durante muito tempo, acreditava-se que o aumento da prosperidade impediria os indivíduos de procurar um poder superior para responder às suas necessidades quotidianas, pelo que haveria uma ligação entre riqueza e ateísmo.

Porém, um estudo realizado com uma amostra global de 166 países de 2010 a 2020, revisto por pares e publicado na revista Sociology of Religion (Universidade de Oxford) desafia tais tentativas de explicação, e aponta antes para um fator aparentemente surpreendente. Afinal o que determina a vitalidade cristã nas sociedades estará relacionado com a medida em que os governos dão apoio oficial às igrejas em termos legais e políticos. Ou seja, quanto maior for esse apoio governamental mais se reduz o número de cristãos, uma relação que se mantém mesmo levando em conta as tendências demográficas gerais.


Note-se, porém, que tal apoio dos governos não deve ser confundido com liberdade religiosa ou direitos decorrentes da cidadania, mas apenas com privilégios atribuídos pelo estado às confissões.

Os autores do estudo, Nilay Saiya e Stuti Manchanda, falam em três paradoxos que ajudam a explicar o fenómeno. O primeiro é o do pluralismo. Embora em diversos setores da fé cristã se acredite que a melhor forma de ela prosperar seja a exclusão do espaço social das outras religiões, a verdade é que o cristianismo revela-se mais forte nos países em que se vê obrigado a competir com outras tradições de fé em igualdade de oportunidades. Adam Smith ajudaria a explicar o paradoxo através do exemplo da economia de mercado que estimula a competição, a inovação e o vigor entre empresas concorrentes. De igual modo seria de esperar que o mercado religioso não regulamentado tivesse efeito idêntico nas instituições religiosas. A pesquisa revela que em sete dos dez países do mundo nos quais a população cristã cresce mais rapidamente não existe praticamente apoio oficial ao cristianismo.

O segundo paradoxo é o do privilégio. Nove dos dez países que revelam o declínio mais rápido da população cristã no mundo oferecem os maiores apoios públicos às igrejas. Esses privilégios podem incluir financiamento do estado para fins religiosos, acesso especial a instituições do estado e isenções de regulamentos impostos a grupos religiosos minoritários. Portanto, se a competição entre religiões estimula a vitalidade cristã, o favoritismo estatal às igrejas compromete essa vitalidade, decerto contra a intenção dos governos.

As igrejas favorecidas podem até utilizar a sua posição de privilégio para exercer influência sobre a sociedade, mas isso apenas sucede por via de rituais e símbolos, como uma religião civil e não pelo fervor espiritual. Os casos históricos no âmbito do protestantismo são imensos na Europa, desde o Reino Unido com a Igreja de Inglaterra aos países escandinavos com o luteranismo. Mas o fenómeno verifica-se igualmente nos países de tradição católica como Portugal, Espanha, Bélgica e Itália, onde durante o século vinte os governos discriminaram ativamente os não católicos nas áreas de direito da família, radiodifusão religiosa, política tributária e educação. Coisa semelhante acontece na Rússia com a igreja ortodoxa.

O terceiro paradoxo é o da perseguição. Já no século II Tertuliano dizia que “o sangue dos mártires é a semente da igreja”. A fé cristã cresce rapidamente em diversos países muçulmanos, como o Irão e o Afeganistão, onde sofre uma perseguição duríssima. Também a China vive um crescimento exponencial. O sociólogo das religiões Fenggang Yang afirma que desde a década de 50 o cristianismo protestante cresceu 23 vezes, prevendo que em 2030 a China terá mais cristãos do que qualquer outro país no mundo e em meados do século metade da China poderá ser cristã.

É por isso que os partidos populistas de direita, apesar de alcançarem ganhos eleitorais momentâneos em nome duma defesa da “nação cristã” (resta saber o que será isso…), a prazo estarão apenas a contribuir para um declínio mais acentuado da fé na Europa.

Meia-volta, volta e meia, os militares no Brasil

Civis que ocuparam o cargo de ministro da Defesa garantem que as Forças Armadas não embarcam numa aventura golpista. Eles sabem mais do que eu. No entanto tenho algumas dúvidas.

Não são dúvidas turbinadas pelo preconceito ou pelo ressentimento. Como jornalista, sempre destaquei ações positivas dos militares; no Congresso, mantive as melhores relações com assessores parlamentares das Forças Armadas, entre eles o general Villas Bôas.

Os fatos abalam qualquer certeza. Desde a não punição do general Pazuello até as recentes notícias sobre ameaças do ministro da Defesa, o curso dos acontecimentos nos leva à desconfiança. É difícil imaginar como uma sucessão de pequenas atitudes autoritárias pode conduzir a uma firme decisão democrática, no dia D e na hora H, como diz Pazuello.


Outro dia, um general ficou bravo comigo porque critiquei Pazuello por sua audácia ao assumir um cargo para o qual não tinha a mínima competência. Mencionei sua obediência cega a Bolsonaro, e o general entendeu minha crítica como uma tentativa de minar o conceito de disciplina dos militares. E disse que era capaz de matar ou morrer pela pátria.

Na verdade, peço muito menos que matar ou morrer: simplesmente pensar. Bolsonaro não merece uma obediência cega. Ninguém merece. O que está em jogo é uma noção de dignidade dos militares, discussão importante, pois, do seu prestígio, depende parcialmente a consistência da defesa nacional.

O perigoso esporte de humilhar generais, título do artigo que provocou a ira dos generais, continua a ser praticado. O general Ramos soube de sua saída da chefia da Casa Civil pela imprensa e confessou que se sentiu atropelado por um trem.

O general Mourão é enviado numa missão a Angola para defender, em nome do Brasil, a política da Igreja Universal do Reino de Deus. Isso não é política de Estado, e a tarefa não deveria ser aceita por um general.

Tenho muita tranquilidade em discutir o conceito de obediência na política. Não acho que seja uma extensão do conceito de disciplina militar. Nisso, sempre discordarei dos generais da direita, assim como discordei dos generais da esquerda nos longos debates sobre o chamado centralismo democrático.

O melhor instrumento que a sociedade tem para tratar da questão militar que aparece volta e meia é precisamente determinar uma meia-volta: aprovar o projeto que impede militares da ativa de ocupar cargos civis no governo. Votar logo essa proposta de voto impresso, decidir democraticamente se o teremos ou não.

Isso não basta. Concordo com o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann: o Congresso é omisso ao não discutir os grandes temas da defesa nacional. A omissão dos parlamentares passa aos militares uma sensação de irresponsabilidade ou mesmo de ignorância em relação à dimensão do tema. Impede que a variável ambiental tenha a importância estratégica que merece, atrasa uma solução negociada para o futuro da Amazônia.

A fragilidade da representação política contribui também para que os militares tenham uma visão resignada do Congresso. Nos Anos de Chumbo, seus aliados eram da Arena, partido dos coronéis nordestinos; na eleição indireta à Presidência, o candidato dos militares era Paulo Maluf.

Não me espanta que o governo atual tenha se transformado numa associação entre militares e o Centrão. A escolha ideológica sempre foi mais importante que uma sempre anunciada recusa à corrupção.

Durante a Guerra Fria, a ideia de se unir com qualquer um para evitar o comunismo tinha um poder maior de atração. De lá para cá, a sociedade brasileira evoluiu, o comunismo fracassou, apesar da sobrevivência autoritária do PC chinês.

Resistir aos impulsos autoritários de Bolsonaro dará à sociedade brasileira mais força contra qualquer nova ameaça aos fundamentos da democracia. O argumento ganha um peso maior se for aceito pelos militares. Ele é a base real da conciliação.
Fernando Gabeira

Ossos de boi, arroz e feijão quebrado formam cardápio de um Brasil que empobrece

Em Cuiabá, a capital de Mato Grosso e do milionário agronegócio brasileiro, uma fila se forma na rua lateral do Atacadão da Carne antes das 9h desta quarta-feira. O açougue é conhecido pelo preço “mais em conta”. Mas na última semana ganhou uma involuntária fama nacional justamente por causa dessa fila, onde centenas de pessoas esperam horas debaixo do sol quente, sentados na calçada, até que uma porta lateral se abra às 11h e um funcionário comece a distribuição do que restou da desossa do boi. São, de fato, ossos com resquícios da carne vendida e que servem de uma improvisada fonte de proteína da população mais humilde. “É a maior felicidade a gente conseguir um ossinho aqui, porque está feia a crise! Eu estou desempregado e não tem para onde a gente recorrer. Faz tempo que eu não como carne, se não fosse o ossinho. Tudo está caro!”, conta Joacil Romão da Silva, de 57 anos.


A pandemia de coronavírus aprofundou ainda mais a situação precária vivida por milhões de brasileiros. O desemprego aumentou, os preços subiram e a fome explodiu. São mais de 19 milhões de brasileiros passando fome, segundo a última pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). Em 2018, eram 10,3 milhões. A perda de poder aquisitivo deixou, ainda, mais da metade do Brasil sem acesso pleno e permanente a alimentos. São 116,8 milhões de brasileiros (55,2% da população) que não necessariamente comem as três refeições por dia (insegurança alimentar). Três anos atrás, o IBGE registrava 36,7% da população nesse status, o que já era alto em comparação com 2013: 22,9%.

A ação do açougue de Cuiabá já ocorre há mais de 10 anos. Mas, antes da pandemia, a fila reunia entre 20 e 30 pessoas, segundo Edivaldo Oliveira, de 58 anos, dono do local. “Agora, triplicou ou mais. Hoje são 200 pessoas. Estamos com dificuldade para atender e a gente está se esforçando ao máximo. Mas é muita gente mesmo”, conta. Os sinais de desarranjo estão por toda parte. Nos preços, que saltaram 15,3% entre julho de 2020 e junho 2021 somente no caso dos alimentos (IPCA). No alto desemprego, que já atinge cerca de 15 milhões de pessoas no Brasil. No aumento da população morando nas ruas e nas filas de doação de marmita vista em qualquer ponto de São Paulo.

Os supermercados já oferecem opções mais baratas inclusive para substituir o arroz e o feijão, os dois principais alimentos da dieta brasileira. Um pacote de cinco quilos de arroz ficou 48% mais caro no último ano e pode chegar a 30 reais em alguns locais. Assim, algumas marcas oferecem nos supermercados os chamados “fragmentos de arroz”, opção mais barata, por vezes usada como ração para animais. Uma das empresas que passou a oferecer é a Rampinelli, que colocou esse produto no cardápio em 2016. Os mercados também já têm disponível a “bandinha de feijão” —feijão quebrado. O preço do feijão preto subiu 22% no último ano e o pacote de um quilo chega a custar 10 reais em alguns supermercados, enquanto que as bandinhas de feijão valem metade do preço.

Ana Paula dos Anjos, de 38 anos, também busca ajuda no Atacadão da Carne. O preço do alimento subiu 38% no último ano. Além disso, ela conta que há um ano e dois meses está afastada do trabalho por causa de um acidente que sofreu na empresa. Sem assistência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e sem auxílio da empregadora, virou rotina frequentar a fila em busca de doação. “Estou me virando, passando por necessidade. Sou eu quem sustento a casa e muitas vezes deixo de comer para alimentar meus filhos. Três vezes na semana estou aqui”, conta ela, que cuida dos quatro filhos sozinha. “Meus filhos choram querendo as coisas para comer e o jeito é pedir ajuda.”

Além de recorrer ao Atacadão da Carne para a alimentação diária, Celina Mota, de 56 anos, também consegue no mercadinho do bairro legumes e frutas que não foram vendidos e seriam descartados. “Conversei com o rapaz lá e ele me arranjou essas verduras, que eu cozinho um pedaço a cada dia. Com os ossinhos vai ajudar. Dá para ir vivendo”, garante ela, que também está desempregada. É com a ajuda que recebe que ainda consegue alimentar os netos. “Eu faço ensopado, frito, corto tudinho e congelo para ir comendo durante a semana. E assim vou me virando”, complementa, mostrando tomates, banana e batata doce que conseguiu arrecadar.

O açougue não atende somente pessoas dos bairros periféricos da região. De acordo com Edvaldo Oliveira, o dono do local, já houve registro de pessoas de cidades vizinhas enfrentando a chamada “fila dos ossinhos”. “Eu vejo que a fome e a necessidade dessas pessoas são muito grandes. Para pegar uma sacolinha de um quilo ou um quilo e meio de ossinho, elas chegam antes das 9h e ficam às vezes até 13h esperando. E elas são gratas por isso, por algo que as pessoas que têm mais estabilidade não dão valor algum”, comenta. A esposa do comerciante, Samara Oliveira, de 38 anos, espera que a exposição que o açougue ganhou inspire outros empresários a serem solidários. “Não é só de carne que eles precisam, eles precisam de arroz, feijão, precisam de uma farmácia que venha aqui ajudar com remédios, de roupas. É um ‘oi, como vai, você está bem?’”, afirma.

A fila tornou-se um ícone da pobreza do Brasil de hoje e foi noticiado em todo o país. Gente, como Gustavo da Silva Costa, de 25 anos, se solidarizou e levou mais de 20 quilos de frango para doar. “É uma quantidade que, infelizmente, foi pouco devido à quantidade de pessoas aqui”, afirma. A distribuição dos frangos não demorou nem um minuto, as pessoas correram até onde o rapaz estava para receber um pacote. “Eu vi uma reportagem e decidi ajudar. Muita gente pode somar e ajudar essas pessoas, que realmente precisam. No mercado de trabalho, infelizmente, não tem mais oportunidades”, afirma o motoboy.

domingo, 25 de julho de 2021

A democracia morre no fim deste enredo

O agressor da democracia não vai parar. É como o agressor da mulher que, após perdoado, volta a atacar e muitas vezes o fim é a morte da vítima. Quem me fez esse raciocínio foi uma autoridade da República. Todos os dias a democracia apanha do presidente Jair Bolsonaro. Os generais e os civis que o cercam reforçam suas atitudes ou tentam justificá-lo. Essa violência só vai parar no fim deste governo, mas deixará cicatrizes. Quando as instituições estão funcionando, ninguém precisa dizer em notas e declarações.

— O presidente fala uma coisa e na hora que aperta ele recua, igualzinho ao homem que agride mulher. O agressor recua, garante que a ama, algumas pessoas asseguram que ele vai mudar e a violência cresce. Um dia ele chegará com um revólver e vai matar a mulher. É dessa certeza que surgiu a Lei Maria da Penha — explicou a pessoa com quem eu conversei sobre as crescentes ameaças do presidente e dos generais que o seguem, da reserva ou da ativa, nessa mesma lógica de agredir e negar que agrediu, prenunciando outro ato que seja ainda mais forte.


Nesse último episódio, revelado pelo “Estadão”, o ministro da Defesa, Braga Netto, enviou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira, com o seguinte teor: “a quem interessar, se não tiver eleição auditável não terá eleição.” Foi dentro de uma escalada de agressões. Tudo se passou entre os dias 7 e 8 de julho. A nota do ministro da Defesa e dos comandantes militares tentando coagir a CPI do Senado foi no dia 7. No dia 8, Bolsonaro afirmou que ou vai ter o voto impresso ou não vai ter eleição, o general Braga Netto mandou o mesmo recado golpista, e o comandante da Força Aérea deu uma entrevista ao GLOBO elevando o tom da ameaça contida na nota, sendo em seguida apoiado pelo comandante da Marinha. O atentado foi combinado. Eram instituições funcionando. Com o objetivo de destruir a democracia.

O roteiro que se seguiu era previsível. Vieram os desmentidos com palavras ambíguas, as afirmações de que a democracia vai bem, e novo ataque do presidente. A nota de Braga Netto repetiu a ingerência em assuntos sobre os quais as Forças Armadas não têm que se pronunciar, ao defender o voto impresso que eles apelidaram de “auditável”. A quem disse que o ministro da Defesa estava invadindo a esfera política, Bolsonaro respondeu. “Quando vejo algumas autoridades tuitarem que isso é uma questão política, que certas pessoas não devem se meter nisso, quero dizer a vocês que isso é uma questão de segurança nacional. Eleições são uma questão de segurança nacional”, disse o presidente fechando aquele dia de debate sobre o recado do general. Isso autoriza as intervenções militares no tema que o presidente elegeu como pretexto. Todo golpe autoritário inventa seu pretexto. Esse é o de Bolsonaro. O de Donald Trump foram as acusações mentirosas de fraude. Ao fim, os trumpistas invadiram o Capitólio.

O agressor da democracia brasileira instalou cúmplices em postos estratégicos. Braga Netto é da reserva, mas a carreira militar é usada para ele sempre falar escudado nas Forças Armadas. Os atuais comandantes assumiram com o mandato de mostrar que os militares defendem o projeto político de Bolsonaro. Foram escolhidos para apoiar o agressor. O general Luiz Eduardo Ramos quando foi para o governo era da ativa e estava no comando do II Exército. Ele fez parte do canal dessa bolsonarização dos militares. O almirante Flavio Rocha, da SAE, está ainda na ativa. O projeto é deixar sempre a impressão de que as Forças Armadas vão agir para proteger Bolsonaro.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, e seus auxiliares diretos agiram várias vezes de forma contrária ao papel constitucional da PGR. O ministro André Mendonça teve atitudes e defendeu teses que feriam a Constituição. A Polícia Federal colocou seus documentos sob sigilo quando a publicidade tem que ser a regra numa República. Aras foi reconduzido, Mendonça foi indicado para a corte constitucional, um delegado da Polícia Federal é o ministro da Justiça. As agressões à democracia deixam cicatrizes. Algumas delas podem ser permanentes.

A democracia está sendo agredida. O agressor é o presidente da República. Ele tem ajudantes militares e civis. O maior risco é não ver o perigo, porque, como nos casos de violência contra a mulher, o fim pode ser a morte.

Alimento da baderna

A mentalidade anarquista do presidente age para destruir e desmoralizar as instituições e banalizar o desrespeito pessoal, funcional e institucional. Isso alimenta o fanatismo e terminará em violência
Santos Cruz,  general ex-ministro do governo Bolsonaro

Manifesto de igrejas evangélicas apoia o movimento 'Fora, Bolsonaro'

As igrejas evangélicas começam a abandonar Bolsonaro, que aposta na morte contra a vida. Mais de 40 movimentos e coletivos dessas igrejas assinaram, segundo o site Brasil 247, um manifesto denominado “Coalizão evangélica contra Bolsonaro”.


O manifesto é todo baseado em demonstrar que a política de Bolsonaro contradiz os textos evangélicos e será lançado em uma transmissão ao vivo da Frente Evangélica pelo Estado de Direito. O documento começa com um duro texto do Evangelho de João (10:10), que diz: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

Todo o manifesto evidencia que a política de Bolsonaro que valoriza a destruição da vida e esquece os fragilizados e desamparados se opõe diretamente aos valores do cristianismo original, todos eles voltados para salvar vidas e resgatar o que o mundo despreza.

“Na contramão disso”, diz o texto, “vemos o (des)governo do presidente Jair Bolsonaro como um agir maligno, que já permitiu a morte desnecessária de mais de meio milhão de irmãos e irmãs em nosso querido Brasil”.

O texto dos evangélicos afirma, sem rodeios, que “Bolsonaro não esconde suas pretensões autoritárias de implantar novamente uma ditadura, tendo loteado seu Governo com milhares de militares, de quem espera apoio aos seus planos de opressão e poder, destruindo de vez a Constituição Federal de 1988, que promete ‘construir uma sociedade livre, justa e solidária, sem discriminação de raça, sexo, cor, religião ou quaisquer formas de discriminação’”.

O texto dos evangélicos destaca as “inúmeras ameaças de golpe feitas ao país, tanto pelo presidente Jair Bolsonaro como por alguns de seus aliados”, e afirma, com dureza, que Bolsonaro “veio para roubar, matar e destruir” e por isso, diz, “nos colocamos ao lado das inúmeras organizações que se movimentam em defesa do nosso povo e contra os avanços autoritários dos dominadores do poder”.

Uma das afirmações mais graves é quando assevera que Bolsonaro “governa à base de mentiras e manipulando o discurso do Evangelho” e acrescenta que “as vidas dos brasileiros, principalmente dos negros, dos pobres, dos indígenas, das mulheres, dos LGBTQIA+ e dos favelados estão sendo roubadas todos os dias”. Por tudo isso, os evangélicos, diz o manifesto, “em nome da vida e em nome de Jesus, clamamos pelo Fora Bolsonaro!”

O documento termina com uma citação da Bíblia, a de Provérbios 31.8, que diz:

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.

É a primeira vez no Brasil que toda uma série de grupos evangélicos levanta sua voz contra os abusos de um Governo e de um presidente que, dizendo-se cristão, age em total desacordo com os ensinamentos dos livros sagrados. Esses evangélicos desmascaram com o manifesto a farsa de um movimento político como o bolsonarismo, que em nome de Deus pisoteia todos os valores essenciais dos ensinamentos de Jesus.

O manifesto deverá ter ressonância não só no Brasil, mas no exterior, onde é acompanhada com interesse e preocupação a involução do movimento das igrejas evangélicas com a conduta genocida e golpista de Bolsonaro. É o início de uma ruptura que deverá ter reflexos nos próximos movimentos da política negacionista e golpista em que o Brasil se precipita, ameaçado a cada dia com um golpe militar que cerceia as liberdades conquistadas com tanto esforço por uma sociedade que apostou na democracia que hoje, como escreveu Jamil Chade neste jornal, “está mais ameaçada do que nunca”.

O fato de 40 grupos de igrejas evangélicas terem aderido ao “Fora, Bolsonaro”, acusando-o de governar contra a vida e a favor da morte e da democracia, é uma novidade importante, pois até agora o evangelismo parecia apoiar maciçamente o bolsonarismo, em clara contradição com os ensinamentos cristãos de que o líder golpista se serviu para atrair votos evangélicos, com o slogan “Deus acima de todos”.

A dissidência evangélica que parece ter tomado o caminho do “Fora, Bolsonaro” poderá ter repercussão nas próximas manifestações nacionais de protesto contra o genocida. Pode ser um precedente para que outras entidades continuem aderindo a esse movimento para arrancar do poder um presidente que se mostra cada vez mais radical em seus afãs autoritários e golpistas enquanto crescem as massas de brasileiros que mergulham na pobreza e até na miséria.

Este despertar das igrejas evangélicas, que começam a ver a contradição de um presidente que se proclama cristão enquanto toda a sua política se baseia em atropelar os ensinamentos da Bíblia, pode ser um germe de oposição capaz de contagiar outros grupos que estão se conscientizando de que o Brasil com Bolsonaro está mergulhando no abismo autoritário do desprezo pela vida e a cada dia se distancia mais dos princípios de democracia e liberdade cunhados na Constituição.
Juan Arias

O cheiro do golpista

Pode não ser verdade, mas é bem provável que seja. O episódio golpista que envolveu o general Braga Netto, ministro da Defesa, tem traços genuínos e cheiro de verdade. Só o “Estadão”, que publicou a matéria em que conta a ameaça às eleições feita pelo general, pode garantir a veracidade da informação. E o jornal não só garantiu como reafirmou sua convicção na correção da matéria. Todos os demais podem afirmar que ela é bem provável, ou muito provável, ou mais do que provável. O general tem sotaque de golpista, cacoete de golpista e é amigo e subordinado do golpista-mor da República. Só por um milagre ele próprio não seria um golpista potencial.

Braga Netto é também subserviente ao presidente de maneira absoluta. Parece um cão de guarda, com a diferença que o militar age por vezes por imitação. O cachorro só se manifesta se ordenado pelo dono. A ameaça do general teria ocorrido depois de inúmeras declarações de Bolsonaro no mesmo sentido. No dia 8 deste mês, o presidente reafirmou que poderia não haver eleição se ela não fosse auditável (que na linguagem golpista significa voto impresso). Bolsonaro falou no cercadinho do Alvorada ao grupo de cegos apoiadores que aplaudem e riem de todas as suas tolices. No mesmo dia, Braga teria mandado alguém avisar o presidente da Câmara que se a eleição não for com voto impresso e auditável não haverá eleição em 2022. Alguma dúvida?

Um acinte. Um abuso. Uma violência típica de generaleco de republiqueta. Pode não ter ocorrido, mas Braga já deu outras demonstrações de seu afeto ao golpismo. Na posse do comandante do Exército, no dia seguinte à sua própria posse na Defesa, o general disse que as Forças Armadas estariam prontas para garantir a manutenção do projeto escolhido nas urnas pelos brasileiros. Seria o mesmo se dissesse que os militares não aceitariam um revés que ameaçasse o mandato de Bolsonaro, o presidente que cometeu mais de 30 crimes de responsabilidade pelos quais poderia ser legalmente afastado. Sob qualquer ângulo que se veja, aquela declaração só poderia ser feita por um general golpista, querendo entrar com o seu coturno pesado num jogo para o qual não foi convidado.


Mais adiante, há duas semanas, publicou nota intimidando o presidente da CPI da Covid. Omar Aziz, para quem não se lembra, disse que a banda podre das Forças Armadas envergonham os bons militares. A nota, assinada por Braga e pelos comandantes militares, afirmou que Exército, Marinha e Aeronáutica “não vão aceitar ataques levianos”. Parecia querer dizer que militar ladrão não incomoda militar honesto, poderia ter acrescentado “somos todos companheiros de farda”. Francamente. Braga Netto terá que se entender ele mesmo com a CPI, afinal era chefe da Casa Civil e coordenador do grupo de combate à Covid quando ocorreram todos os equívocos que vêm sendo relatados na comissão. E que resultaram em milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

O desmentido do general à reportagem do “Estadão” foi solene, mas não definitivo. Ele deveria ter dito o que disse o vice Hamilton Mourão: “É lógico que vai ter eleição (mesmo sem o voto impresso). Quem é que vai impedir eleição no Brasil? Por favor, gente. Nós não somos uma república de banana”. Não, Braga preferiu manter-se general menor e voltou ao velho lenga-lenga de que as Forças Armadas estão “comprometidas com a estabilidade institucional do país e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”, embora essas não sejam atribuições conferidas a elas pela Constituição. Até porque, sabe-se lá o que ele entende por liberdade do povo. Em nome dessa liberdade, outros generais já cometeram inúmeras atrocidades registradas pela História.

As armas dos desarmados

O Brasil tem o privilégio de não ter conflito com vizinhos, ou mesmo com países distantes, nem motivações imperialistas. Nosso Exército surgiu para consolidar o território nacional, Com exceção da guerra contra a invasão paraguaia e da heróica participação na defesa da democracia nos campos de batalha da Itália, nossos tanques de guerra, mesmo quando silenciosos, parecem apontar para os centros do poder civil, o Planalto, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal. A história mostra que nossas Forças Armadas se sentem um poder moderador, pronto para intervir diante da corrupção, de desmandos ou do que eles considerem desvios ideológicos dos políticos civis.


Com exceção da Abolição e da República, e da luta contra o fascismo na Europa, nossas Forças Armadas parecem estar sempre do lado das forças civis conservadoras que defendem o status quo contra a distribuição de riquezas e aumento nos direitos dos trabalhadores. Mas saíram delas líderes comunistas como Prestes e Lamarca, além de muitos oficiais, generais, almirantes e brigadeiros, presos, cassados e expulsos em 1964.

Se estes fossem maioria no comando, o poder moderador teria imposto um caminho contrário, como ocorreu em 1889, quando o golpe militar destituiu o imperador e implantou uma república. O problema de dar às Forças Armadas o poder de intervir não é a visão ideológica que seus comandantes têm, porque eles são substituídos e mudam, o problema é que eles já demonstraram que não são opção melhor do que os civis, seus métodos são muito piores do que os democráticos e não permitem correção de erros e rumos.

Entre 1964 e 1985, o Brasil viu que a calma imposta pelos quarteis contra a desordem civil não foi a solução para a construção da nação eficiente, justa e sustentável, caminhando para o progresso. Apesar de que a nossa tem demonstrado incompetência de gestão, preferência pelos ricos e privilégios e irresponsabilidade com recursos públicos, ela é um caminho histórico mais eficiente para acertar e para corrigir erros. Por mais que errem, como nas eleições de 2018, no longo prazo da história, 100 milhões de eleitores acertam mais do que meia dúzia de ditadores, sejam generais ou caciques civis.

Os desarmados acertam mais do que os armados, por argumentarem e aceitarem derrotas. Para os desarmados, perder um argumento é visto como grandeza, apertam a mão do vencedor e continuam em frente. Para o armado, perder um argumento é desonra e ele se sente rendido, não derrotado, e não aceita. Os generais Geisel e Figueiredo tiveram a grandeza de aceitar a perda do poder para os argumentos do frágil poder civil.

Os constituintes que assumiram o poder não souberam desarmar definitivamente as Forças Armadas dentro do território. Abriram mão de arma nuclear que ameaçaria possíveis ou ilusórios inimigos externos, mas deixaram que os tanques dos aviões e de guerra possam apontar para nossas instituições democráticas. Ameaçando interrompê-las sempre que os civis demonstram incompetência e descuidos com a coisa pública.

Muitos continuam acreditando no espírito público dos comandantes, mas este espírito pode ser prisioneiro do imediato e instigado a intervir, salvar a pátria no presente, embora condenando seu futuro. Eles afirmam que a culpa seria dos políticos que não souberam usar a democracia para servir ao país, e em nome de defendê-lo ameaçam a democracia. Por isto, se sentem no direito de ameaçar usando as armas que dispõem para conseguirem o que desejam, sem necessidade de usá-las. Até porque o perigo das armas não está apenas em serem usadas para matar ou assustar a vítima, mas em desmoraliza-la com a simples ameaça de seu uso.

Por isto o poder não deve se submeter a aceitar o uso de armas militares, nem mesmo apenas como chantagem de ameaças de uso delas. Aceitar a ameaça de uso de armas é pior do que ser vítima fatal delas, porque além de perder o rumo da história perde-se a honra e a forças da legalidade estas armas dos desarmados.

sábado, 24 de julho de 2021

A recorrente indústria das eleições no Brasil

Está na hora de redefinir como financiar campanhas eleitorais. O Congresso Nacional turbinou as máquinas da indústria de eleições no Brasil. Passou o Fundo Eleitoral para R$ 5,7 bilhões! E fez a sociedade aumentar sua rejeição aos políticos e a Política. É preciso voltar ao financiamento misto – público e privado – e adotar o sistema eleitoral distrital misto, que torna as campanhas mais baratas.

Há tempo, com a fragmentação partidária e a personalização das campanhas (induzida por nosso sistema eleitoral proporcional uninominal), as eleições viraram uma indústria de votos. No auge do marketing político, tornaram-se também um espetáculo midiático. A proibição do financiamento privado teria a finalidade de estancar a industrialização do espetáculo da democracia. Mas não estancou. Piorou.

O aumento dos Fundos Eleitoral e Partidário; das emendas individuais e de bancadas; e, agora, das emendas do Relator, são vistos pelos brasileiros como um escárnio. Os recursos dos fundos são “protegidos” pela metonímia de que são recursos públicos. Ora, não existe dinheiro público, existe dinheiro dos contribuintes. Aí é que está. Virou um ralo.


Estamos assistindo o fortalecimento do poder das oligarquias partidárias. Suprassumo, no Brasil do Século XXI, da Lei de Ferro das Oligarquias de Robert Michels, formulada para designar a estrutura oligárquica do Partido Social-Democrata alemão no início do Século XX. Ao mesmo tempo, estamos assistindo o esgotamento do nosso sistema eleitoral uninominal, que induz a proliferação de candidatos e a competição entre eles. Há, então, uma disputa ferrenha pelo controle dos recursos dos partidos pelas oligarquias partidárias. Está aí a raiz da indústria das eleições.

O escárnio dos Fundos e as emendas “secretas” escancararam, para a sociedade, a premência de reformas políticas. Não as reformas regressivas – como a do distritão –, que estão em andamento na Câmara. Mas, sim, a agenda da permanência da cláusula de barreira e da proibição de coligações proporcionais. – e, também, da mudança do sistema eleitoral, do regime de governo e da legislação partidária, para vigorar em 2026.

É preciso conter a retomada do avanço da indústria das eleições. E atacar o verdadeiro cerne da questão político-institucional no Brasil: (a) o sistema atual não permite a formação de maiorias estáveis de governo; e (b) não estimula graus razoáveis de representatividade da representação política, isto é, a aproximação entre eleitores e eleitos.

Na trilha de Montesquieu, há que se renovar sempre a qualidade das instituições. Pois as virtudes e vícios do Estado decorrem de deficiências institucionais, muito mais do que de virtudes e vícios dos seus dirigentes e dos cidadãos. A causa maior de nossos problemas está nas regras, e o efeito está nos indivíduos. Até agora, o debate focou apenas o efeito: os indivíduos. É preciso focar a causa: o sistema e suas regras.

Brasil vive momento mais perigoso de sua jovem democracia

Teremos eleições em 2022? A mera existência de uma pergunta como essa em pleno século 21 é um dos sintomas mais dramáticos da ameaça que a democracia brasileira atravessa.

Ao longo dos últimos meses, governo, milícia digital e cúmplices de um movimento autoritário disseminaram dúvidas sobre a legitimidade das urnas no país, contradizendo auditorias nacionais e internacionais. O objetivo nunca foi o de construir um sistema mais sólido.

Mas, assim como toda a estratégia do bolsonarismo, a meta é a de minar a credibilidade e desmontar a confiança popular sobre as instituições.


O projeto não é novo. A extrema-direita no Brasil iniciou os ataques contra a democracia ao colocar opositores, imprensa e sociedade civil como alvos de uma operação de destruição de reputações, além de borrar as fronteiras entre a Justiça e o Executivo.

Para esse grupo no poder, jamais houve um limite sobre o que era possível fazer para justificar a morte — inclusive no cadastro do SUS — de qualquer um que representasse um questionamento.

Ao disseminar mentiras como política pública, as autoridades buscaram retirar qualquer legitimidade dessas vozes.

Não faltaram ainda ofensivas para rever a história do Brasil, transformando o Golpe de 1964 em um ato a ser comemorado.

Enquanto isso ocorria, um avanço claro era feito para fechar qualquer tipo de canal para permitir a influência da sociedade civil na condução das direções do país. Operações para esvaziar a imprensa também passaram a ser recorrentes, com ataques verbais do presidente Jair Bolsonaro, a opacidade sobre decisões de estado, a lentidão de seus serviços de imprensa em dar respostas aos jornalistas e campanhas declaradas apelando à população para considerar a imprensa como inimigos.

Ao longo de dois anos e meio, o resultado foi a redução do espaço cívico, as dúvidas sobre informações apuradas de maneira profissional e a construção deliberada de um cenário de incertezas.

Agora, o palco está montado para uma guerra suja. Irresponsável e nefasto, Bolsonaro deixou de flertar com o autoritarismo. Hoje, ele é o golpe.

Não podemos esperar pelos tanques para agir. Eles talvez nunca virão. Mas a destruição da democracia, por um sistema sofisticado, está em curso.

Em 2022, viveremos a eleição mais importante de nossa jovem democracia. O que estará em jogo não é o destino de um candidato. Mas de uma nação. E, por isso, a luta diária por sua realização se confunde com a própria sobrevivência da liberdade. Não há mais tempo a perder.

Por que não faz sentido celebrar 'placar' de curados da covid

A questão já havia vindo à tona no ano passado, com o Ministério da Saúde — e muitos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro — enaltecendo uma obviedade: que o número de curados de covid-19 é maior do que o número de mortos pela doença. A CPI da Pandemia escancarou essa questão, com governistas exibindo plaquetinhas com o saldo total dos considerados recuperados, enquanto parlamentares da oposição costumam mostrar a quantidade de mortos.

Atualmente, de acordo com dados oficiais, o Brasil se aproxima dos 550 mil mortos em decorrência da epidemia, enquanto curados ultrapassam a marca dos 18 milhões. Em dois momentos recentes, o debate ganhou contornos midiáticos. Em depoimento prestado à CPI, a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência, atentou para o fato de que celebrar os curados é lembrar de uma doença que traz "dor, sofrimento e sequelas".

Na mesma toada, o epidemiologista Pedro Hallal, pesquisador na Universidade Federal de Pelotas, afirmou à CPI que exaltar o número total de recuperados seria algo semelhante a comemorar o gol da seleção brasileira no fatídico jogo em que o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014.

"O intuito do meu comentário é [frisar] o fato de que existir muitos recuperados é consequência de ter existido muita gente infectada, o que já é má notícia por si só", comenta Hallal à DW Brasil.

Também à comissão parlamentar, a médica Nise Yamaguchi, que ficou conhecida por defender tratamentos sem comprovação científica contra a doença, exaltou que o Brasil "é um dos países que têm mais curados no mundo".

"Naturalmente é muito importante ter esse dado de recuperados, monitorá-lo, até para futuras análises se essas pessoas apresentam algum tipo de sequela após a infecção aguda gerada pelo [coronavírus] Sars-Cov-2", diz a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

"No entanto, para acompanhar e entender o andamento da pandemia, outros dados como a taxa de crescimento de casos e óbitos diários são mais informativos. Além disso, se temos um grande número de recuperados, é porque tivemos um grande número de pessoas infectadas. E com um grande número de pessoas infectadas, infelizmente vemos também um número intolerável e exacerbado de óbitos pela doença."


Hallal ressalta que estudos já indicam que muitos dos sobreviventes de covid-19 "vão ter sintomas de longa duração persistentes, alguns até com sequelas mais graves". "Esse é um motivo pelo qual comemorar o número de recuperados não faz sentido algum", afirma.

Mas, afinal, o que é estar curado dessa doença ainda tão desconhecida? Pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a biomédica Karina Possa Abrahão ressalta que "a ciência ainda está descobrindo os desdobramentos" da covid-19.

"Curar é uma palavra filosoficamente debatida. O que é realmente curar?", reflete. "Se cura é o dia em que não existe mais o vírus Sars-Cov-2 no corpo do indivíduo, podemos dizer que a pessoa está curada em três semanas, embora haja relatos de infecção persistente. Então é um período curto, mas pode ser que a gente venha a entender que a cura seria a cura das sequelas, os danos residuais que afetam o organismo mesmo depois que o vírus foi eliminado pelo corpo."

E é aí que está o xis da questão. Ainda não se sabe com exatidão qual o percentual dos que apresentam problemas a médio e longo prazo, inclusive por se tratar de uma doença nova. Em março, a revista científica Nature Medicine trouxe uma compilação de dados apontando que o percentual de pacientes com sequelas pós-covid gira em torno de 10% a 30%.

O estudo cita fadiga, dor torácica, dificuldades respiratórias, distúrbios cognitivos e dores nas articulações e monitorou casos a partir de três semanas após o diagnóstico de covid-19. Parte dos avaliados apresentou essas sequelas de 4 a 12 semanas depois do diagnóstico; e parte seguiu com elas após as 12 semanas.

Especialistas frisam, contudo, que é preciso cautela ao analisar quaisquer estudos sobre o tema no momento, pelo fato de que em geral o acompanhamento só vem sendo feito com pacientes que chegaram a ser hospitalizados. Ainda não dá para mensurar o impacto futuro da doença naqueles que a desenvolveram de forma leve — e ficaram em casa — ou mesmo nos assintomáticos.

Pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a fisioterapeuta Mirelle Saes alerta que o sistema de saúde precisa se preparar para o período pós-epidêmico levando em conta aqueles que seguirão precisando de tratamentos.

"Ainda não se tem conhecimento do tempo de persistência dos sintomas residuais da doença, nem de suas complicações a longo prazo. Algumas pesquisas, que avaliaram a presença de sintomas após um ano de infecção, identificaram sintomas persistentes em até 50% dos investigados", afirma ela, citando que estudos preliminares apontam que 10% daqueles que ficam com sequelas acabam morrendo pelo agravamento do quadro.

Saes diz que já é possível considerar que a covid se apresenta em duas formas: a aguda e a crônica. "Ainda se tem pouco conhecimento sobre a covid longa, a crônica, mas se acredita que seja uma doença multissistêmica, que ocorre após o período de infecção, que pode ser leve ou grave", diz. "Frente a isso, o sistema de saúde deve adotar medidas considerando que o paciente recuperado da infecção ainda pode apresentar a covid em sua forma crônica, com duração longa e incerta, e que exige cuidados contínuos e qualificados."

De fadiga a danos cardíacos, passando por problemas respiratórios, perda de olfato e anormalidades renais e gastrointestinais, são muito variados os quadros que têm surgido no pós-covid. Aqueles que passam um tempo intubados também apresentam dificuldades motoras.

"E já sabemos que em torno de 30% dos casos com sintomas acabam desenvolvendo alguma sequela neurológica por meses, como distúrbios do sono, dores de cabeça, problemas de memória, ansiedade, depressão e dificuldade de concentração", pontua Abrahão. "Há estudos preliminares, ainda não publicados, que mostram que indivíduos que tiveram covid aumentam a expressão de marcadores de prognóstico para o desenvolvimento de doenças como Parkinson e Alzheimer. Precisamos ficar atentos para o futuro."

Diversas iniciativas estão buscando compreender melhor essa situação. É o caso do Estudo Coalização Covid-19 Brasil, uma parceria entre hospitais e o Ministério da Saúde que tem monitorado as sequelas nos que foram ali hospitalizados. A pesquisadora Saes participa de um projeto chamado Sulcovid, que deve acompanhar 4 mil indivíduos pós-infecção — atualmente, estão na primeira etapa, em que os pacientes contraíram o vírus de três a seis meses atrás. Mas a ideia é repetir as entrevistas com 12 e 18 meses.

"Se considerarmos que 18 milhões de pessoas estão livres do vírus [no Brasil], consideradas curadas da fase aguda, e que destes, estima-se que pelo menos 30% apresentam sequelas, estamos falando de 5,4 milhões de pessoas com sintomas residuais da doença", diz a pesquisadora Saes. "Possivelmente, a quantidade é ainda maior, visto que casos leves da doença são subnotificados. O SUS precisará se organizar para acolher essa nova demanda."

"A gente ainda não conhece essa doença por completo”, enfatiza Abrahão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) vem demonstrando preocupação com as sequelas da covid-19 desde pelo menos agosto do ano passado.

Abrahão prevê que o mundo sofrerá uma "segunda pandemia" no rescaldo da covid-19. "Vai ser a das doenças mentais, decorrentes não só das sequelas da covid, mas também do período de isolamento social, distanciamento e da crise econômica. Tem uma bomba-relógio para estourar em breve", acredita ela.

A cegueira da governação

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
Padre António Vieira, "Sermões"

sexta-feira, 23 de julho de 2021

O absurdo observado por Ignácio de Loyola Brandão em 1961 virou o Brasil de 2021

“Não verás país nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, publicado em 1981, é uma obra-prima da literatura do absurdo, que antecipa em 40 anos o nosso estranhíssimo Brasil enfermo de hoje.

Autores da literatura do absurdo têm o dom de ver nas minúcias da realidade e nas entrelinhas anômalas da vida cotidiana indícios de uma sociedade que, aparentemente, ainda não existe. E parece que não vai existir. Mas que está lá, na invisibilidade enganadora da falsa consciência do real, do que é ainda gestação de relações sociais e de mentalidades. Uma sociedade de contraste com tudo que estamos habituados a considerar uma sociedade “normal”.

Parece fantasia de escritor imaginoso. Cada vez mais, porém, essas obras são verdadeiras etnografias de transformações sociais que levarão a sociedades tão absurdas quanto suas antecipações literárias.

Em seu primeiro livro, “Depois do sol”, Loyola traz à luz de seus contos as revelações da noite da cidade de São Paulo. A noite como o inverso do dia, não apenas como o diferente, a sociedade oculta. Na antropologia brasileira, as realidades invertidas da noite de exu foram estudadas por Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade, em “O segredo da macumba”. O que confirma a etnografia subjacente à literatura do absurdo.

O absurdo de “O outro lado do espelho”, de Lewis Carroll, é cada vez mais real. Alice, a personagem do livro, era real, existia e entendia a narrativa nele contida. As histórias de Franz Kafka são o absurdo naturalizado.


Na fábula política do avesso do avesso de “A revolução dos bichos”, de George Orwell, podemos, com facilidade, identificar sociedades que conhecemos, a começar da nossa, naquela conclusão fatídica: no baile de humanos com porcos, “já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

Em “Não verás país nenhum”, Loyola descreve uma estranha São Paulo, progressivamente corroída pelo absurdo de um sistema de dominação e de um modo de vida decorrente, aos quais as personagens se ajustam com pequena estranheza.

Souza, a personagem principal, aos poucos será diluído no emprego que não o emprega. Adelaide, sua mulher, esposa adjetiva e praticamente imaginária, revelará com o tempo que ela é, na verdade, o oposto da mulher pelo marido imaginada. Os habitantes da cidade enferma são realidades irreais, desencontradas consigo mesmas, conformadas no inconformismo meramente residual.

Loyola não pretendeu fazer sociologia, embora haja no livro um fundo de temas sociológicos, do tipo tratado pela sociologia fenomenológica, a que de certo modo analisa as relações sociais a partir do imaginário que lhes dá sentido.

O absurdo descrito no romance, com o tempo, foi se confundindo cada vez mais com a realidade. A invasão da casa-refúgio da classe média, de Souza, é patrocinada por um sobrinho de Adelaide, a esposa que se fora e já não existe. Estranhos passam a nela viver como se fosse sua própria casa. Estavam à vontade no que não era seu, enquanto Souza já não estava à vontade na casa que supunha sua. É o direito de propriedade que se esfuma.

A realidade da classe média vai se desgastando para passar a ser aquilo que era, uma fantasia cruel, um vazio. Uma classe cada vez mais excluída até o ponto de se tornar parte do monturo, do lixo da cidade. Ela se torna uma classe de descartáveis, sem lugar, seres que não são, confinados no nada, desprovida dos valores e privilégios da sociedade de consumo, de suas coisas cada vez mais inúteis como os móveis de apego simbólico levados para o lixão.

Sem objeto, os sociólogos têm sua cota de desfiguração na sociedade que se esvai. A transformação do modo de ser da sociedade do absurdo reduzido a pseudoconceitos. Eles começavam a se esmerar na conceituação sociológica que nada conceitua a não ser a superficialidade de uma sociedade já desprovida de práxis e de protagonismo histórico. A sociedade que é não sendo, a da alienação absoluta.

O absurdo observado por Loyola em 1961 tornar-se-ia a sociedade brasileira de 2021. O Brasil de hoje não é uma surpresa, um acidente, um erro de cálculo. Lentamente, há 60 anos, ele já estava sendo o que é hoje. O poder se tornou um jogo de aparências, um faz de conta, não raro um circo. O povo deixou de ser agente de sua própria história para se tornar espectador passivo e indiferente.

À luz da sociedade cinzenta da atualidade, das incertezas de agora, dos abusos do poder paralelo e oculto, das invisibilidades planejadas que nos manipulam e manipulam nossa própria vida, podemos reler “Não verás país nenhum” como obra de antecipação do Brasil de agora. Ninguém podia imaginar, porém, que a metamorfose ocorreria tão depressa e de maneira tão amplamente perturbadora.

Pensamento do Dia

 


Um Brasil sem futuro

Falta um ano para as eleições presidenciais, e só tem turbulência em volta. Mas, entre disparates golpistas, a Arena renascendo e os generais aloprados, temos outro problema grave. No longo prazo, talvez mais grave. Quem frequenta o circuito dos encontros com pré-candidatos, lê atento os jornais e conversa com políticos de todos os partidos logo percebe o tamanho. Quase nenhum dos principais líderes políticos vive no século XXI. Constroem suas ideologias, à direita ou à esquerda, sobre os alicerces de uma realidade que não mais existe. E isso quer dizer que, como está, não importa que grupo suceda a Bolsonaro. Governará o país sem um diagnóstico da transformação em curso.

Há exceções. Alguns deputados federais e mesmo senadores, um ou outro dirigente partidário, mesmo técnicos e acadêmicos que dão apoio às candidaturas. Mas são exceções e, quase sempre, gente com influência menor nos altos-comandos das legendas.

Isso não tem rigorosamente nada a ver com idade. Joe Biden é um político do tempo da Guerra Fria que já se candidatara à Presidência quando a internet apareceu, já concorrera duas vezes à Casa Branca quando se falou a sério de mudanças climáticas e, quase octogenário, redirecionou o Estado a toda no sentido da era em que vivemos.


Sua visão de EUA se traduz em dois pilares. Uma sociedade e uma economia que sejam digitais e verdes. As frentes para tocar esse projeto, no entanto, são muitas. Uma é dar infraestrutura ao país para que possa crescer nesse caminho. Isso quer dizer redes físicas de banda larga por toda parte. Também quer dizer subsídios, investimentos e incentivos para a conversão de antigos e criação de novos negócios. Mas também é um cuidado pesado com retreinamento de mão de obra. E, principalmente, a compreensão de que, se a operário basta o ensino médio, no século XXI um percentual maior da população precisa ter formação superior. Este é um século em que o PIB está relacionado ao número de cérebros bem-educados. País que não dá universidade a muita gente é país pobre.

Outra perna do trabalho é enfrentar os monopólios do Vale do Silício. Há motivos pontuais — a pandemia de desinformação, que abala democracias e faz morrer gente. Mas, no médio e longo prazos, é mais que isso. Com talentos e recursos financeiros concentrados em poucos grupos fortes demais, como é a natureza dos monopólios, a criação trava, o mercado congela, a inovação desaparece.

Operários em fábricas não voltarão mais. Toda a classe em cima da qual Karl Marx ergueu sua leitura de uma revolução futura deixará de existir. Afinal, “quarta era industrial” é metáfora, não descrição. A Era Industrial acabou. Assim como o tempo do combustível fóssil está terminando — sim, ele resistirá ainda um quê a mais, só que não muito. Bata na porta de uma petroleira, e a moça da recepção logo corrigirá: “Não, aqui somos uma empresa de energia”.

Isso não quer dizer que não exista mais necessidade de esquerda. O digital criou um tipo de precarização de serviços, com Ubers e Rappis, que precisa ser resolvido. Tampouco aponta para a extinção da direita — empresários precisam de mais apoio do que nunca para fazer a transição digital. É um processo complexo, difícil, inevitável — que, no Brasil, não está sendo feito em inúmeros setores. Isso torna o país ainda menos competitivo.

A conta da incompetência de todos os governos passados com educação chegou. Precisaremos resolver a educação pública de qualidade com urgência. Isso e um projeto econômico verde para a Amazônia são as prioridades do próximo Planalto. Só que formar daqui a 20 anos não bastará. Os empresários Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski vêm defendendo um programa de importação de cérebros. Estão certos, e é inevitável.

É o básico para qualquer governo pós-pesadelo.

Liberdade da vacina


Quanto mais pessoas vacinadas, mais livres seremos novamente
Angela Merkel

São todos cúmplices

Não resta espaço para dúvida de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, mandou o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ameaçando caso o voto impresso não fosse aprovado.

Lira trucou a ameaça e, como o governo Jair Bolsonaro tem DNA golpista, mas é eminentemente composto de pessoas despreparadas e algo covardes, o presidente e seu general recolheram as ameaças, ao menos por ora, e o resultado foi que o PP e o Centrão avançaram algumas casas para tomar conta de tudo — se apossando de novo até de espaços dos militares.

Foi o Centrão que tirou o general Eduardo Pazuello da Saúde. Mantendo Roberto Dias, o assessor que o general e seu sub, o coronel Elcio Franco, não conseguiram demitir.

Agora é de novo um alto expoente do PP, seu presidente, Ciro Nogueira, que faz outro general pegar o quepe. Luiz Ramos, assim como Pazuello, verga a espinha e aceita ir para um ministério de menor importância.

O mesmo faz Paulo Guedes, ao bater continência para o capitão e para a ala política que já comanda a maior parte do Orçamento e aceitar perder um naco de seu “superministério” para acomodar outro demitido de luxo.


Para onde esses arranjos por baixo da mesa levam o Brasil? Para a esculhambação institucional e política a cada dia mais absoluta e para a constatação óbvia de que não temos um governo, mas uma bodega tocada à base de muita fisiologia, nenhum trabalho, zero planejamento e uma única ideia fixa: a reeleição cada vez mais difícil de alguém que nunca poderia presidir qualquer país.

Quem ameaçou, Braga Netto, e o aliado de quem foi ameaçado, Ciro Nogueira, dividirão a mesa às reuniões ministeriais como se nada tivesse acontecido. O resto das autoridades, aquelas a quem sempre cobro neste espaço, seguirão fingindo acreditar nos desmentidos frouxos, sem se dar conta de que, de bravata em bravata, vai-se corroendo a democracia a partir de dentro.

Está claro que Braga Netto não fala em nome do conjunto das Forças Armadas. Mas também resta evidente que a quantidade de golpistas que ousam dizer suas ideias em voz alta é maior hoje no meio militar que em 2018. Isso já é altamente nocivo para o ambiente político e institucional brasileiro. E nos cobrará um preço enorme.

Também é evidente que Lira, Nogueira e os demais “progressistas” — ah, as ironias das siglas partidárias — não vão com Bolsonaro para uma tentativa canhestra de invasão do Congresso, à Trump. Mas também é cristalino quanto ganharam poder e dinheiro do Orçamento, em múltiplas frentes, só para blindar o presidente e tentar ajudá-lo a se livrar da CPI da Covid e a emplacar seus nomes no Senado.

Além dos bilhões das emendas do relator, nome oficial do orçamento secreto cujo tesoureiro é Lira, agora há o fundão multiplicado. Será que Bolsonaro, agora que o PP deixou vazar a ameaça de Braga Netto e que Ciro Nogueira está de mudança para o Planalto, vai mesmo vetar a farra? Ainda mais diante da possibilidade de fusão de PSL, PP e DEM, partido que pode ser seu próprio destino numa cara campanha eleitoral no ano que vem? Difícil de acreditar nisso, hein?

Não espanta que Bolsonaro, diante desse cenário, declare seu amor filial ao Centrão. Nem mesmo surpreende que os militares, tirados por ele da caserna, comecem a demonstrar nostalgia da ditadura.

Mas chama muito a atenção o silêncio covarde dos que se diziam democratas, iam às ruas pedir o fim da corrupção — e agora se calam diante da escalada diária de mortes, ruína social e econômica e autoritarismo.

São industriais, integrantes do mercado, profissionais liberais e outros que apertaram 17 e agora não têm a coragem de admitir que elegeram o pior presidente do Brasil. São tão cúmplices quanto os fardados e o Centrão.

No Brasil, Robin Hood trabalha para os ricos

No país a que chamamos de Brasil, levou-se muito tempo, séculos, para os governantes se preocuparem minimamente com o desenvolvimento de seu próprio povo, particularmente com a maioria pobre e majoritariamente negra. No império, os negros eram proibidos de estudar. Depois da abolição da escravidão, em 1888, a proibição acabou, mas as poucas escolas construídas localizavam-se longe, muito longe, de onde viviam os negros dos grandes centros urbanos _ dificultar a mobilidade foi, aliás, um dos principais expedientes do apartheid sul-africano que tanto chocou o mundo de 1948 a 1991.


Na Ilha de Vera Cruz, o fim da escravidão como fator de acumulação de capital jamais foi aceito pelos “proprietários” de escravos. Barões do café e outros representantes das oligarquias rurais que detinham o poder econômico naquela época exigiram indenização pelo “prejuízo financeiro” imposto a eles pelo imperador Dom Pedro II. Insatisfeitos, ajudaram a acabar com a monarquia m 1889, pouco mais de um ano após a abolição, a fundar, por meio de golpe militar, uma República de araque (porque dominada por duas oligarquias de dois Estados), e a pressionar os presidentes do novo regime a importar mão-de-obra da Europa para embranquecer nossa classe trabalhadora.

Tanto ódio por outro ser humano condenou este país ao fracasso, à construção de uma sociedade profundamente injusta, desigual, racista, violenta com os mais pobres e com a maioria negra, irreconciliável. Um leitor indignado fez certa vez paralelo com os Estados Unidos para contestar a ideia de que o racismo, e não a taxa de juros, a péssima infraestrutura e o sistema tributário caótico, é o maior entrave ao desenvolvimento do Brasil. Ocorre que, nos EUA, os negros representam 12% da população; aqui, 56%, numa contagem subestimada.

Ora, se uma minoria branca e endinheirada não aceita conviver com a maioria negra e pobre, nós temos um problema, Houston. Negros americanos, descendentes como os do Brasil de africanos escravizados, lutam por direitos e igualdade desde sempre e, mesmo assim, foram submetidos a regimes de segregação racial, em alguns Estados, até a década de 1960. A segregação oficial foi banida, políticas afirmativas para tentar igualar oportunidades entre negros e brancos foram adotadas, iniciativas de compensação pelo horror sofrido durante séculos de escravidão e de segregação se tornaram realidade, mas, mesmo assim, a população negra americana continua sendo discriminada de maneira ignominiosa, talvez, pela maioria branca, em todos os setores da sociedade do país mais rico do mundo.

Aqui, a maioria da população, negra, oprimida por quase 400 anos de escravidão “oficial” e por outros 133 de discriminação dissimulada e, portanto, covarde, começou a se beneficiar de políticas afirmativas apenas neste século e restritas ao Estado.

Cotas de 10%, 20%, reservadas ao maior contingente populacional do país, são humilhantes e estão longe de resolver o problema secular que nos assola e nos impede se sermos uma nação.

As consequências do nosso péssimo começo _ não se pode falar nem em “contrato social”, afinal, como bem explica Luiz Guilherme Schymura, presidente do Ibre-FGV, não há contrato quando uma das partes é infinitamente mais beneficiada pelos recursos do Estado do que as outras _ estão aí, na paisagem urbana de nossos centros urbanos, na estagnação econômica que nos assola há 40 anos, na concentração de renda que relega 50 milhões à miséria e a mais de 100 milhões à pobreza e à falta de oportunidades para ascender e ter uma vida razoavelmente digna, na violência que tira a vida de cerca de 60 mil brasileiros todo ano, a maioria de pele negra ou parda. A Constituição de 1988 é, sem dúvida, o maior avanço que este país já teve na conformação de um arcabouço legal que nos permita começar a mudar essa paisagem. Desde então, os gastos sociais cresceram de forma significativa, mas os grandes problemas permanecem intocados.

Um deles é o domínio do orçamento público por interesses de grupos específicos, que curiosamente têm conseguido aumentar suas benesses nas últimas duas décadas, talvez, por saberem que, em algum momento, realizar-se-á em plena Brasília, localizada a mais de mil quilômetros do mar, o último baile da Ilha Fiscal (festa de gala que simbolizou o fim da monarquia, realizada no pequeno palácio, localizado na Baía da Guanabara).

"Não é segredo e tampouco exagero observar que muita gente enriqueceu no Brasil pela via da captura do Estado. Exemplos recentes incluem subsídios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desonerações tributárias, gastos tributários e outros. Essa forma de enriquecimento constitui um verdadeiro veneno social”, escreve Arminio Fraga ex-presidente do Banco Central, em seu sucinto e ao mesmo tempo iconoclasta estudo “Estado, Desigualdade e Crescimento no Brasil”.