quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Lições da Antiguidade que se perderam e se tornaram inúteis em países como o Brasil

A esposa de Hieron, rei de Siracusa, perguntou ao poeta Simônides o que valia mais: “Ser rico ou ser sábio?”. E o poeta respondeu: “Rico, pois vejo os sábios estarem sempre batendo nas portas dos ricos”. Mas, acrescentou: ”Isso é porque os sábios sabem de que precisam e, se os ricos não procuram os sábios , é porque não conhecem mais as suas necessidades”.

Se eu transferir para o mundo de hoje essa afirmação de mais de 2 mil anos atrás, teremos nada mais, nada menos que a ascensão do poder político, a grande expressão do poderio moderno.

Evidente que não estou inferiorizando os poderes militar e econômico, mas estes já não são suficientes, e passam a ser submetidos como instrumentos do poderio político.


Quantas vezes que as Forças Armadas afirmaram que a função é proteger a “democracia”, logo, o sistema político, e por pior que este se apresente?! No Brasil, depois da devolução da democracia pelos militares, a política tomou de assalto o país e o poder.

Goethe, célebre poeta alemão, autor de Fausto, uma de suas obras-primas, encenada pela primeira vez em 1829, vinte anos depois de realizada, resumiu com perfeição o que aconteceria 120 anos depois:

O dr. Fausto, movido pela ambição de possuir todos os bens que pudesse conseguir, entregaria sua alma para o diabo. Seria o caso de perguntar o significado de se ter tudo, se a criatura humana perde a si mesma?

O trágico da ambição que se transforma em valor absoluto está exatamente nesse sentido. A ambição que se satisfaz com a pura ambição, pois em lugar de levar o ser humano a possuir, leva-o a ser possuído, e o homem não domina mais nada, mas é dominado por tudo; não dirige porque dirigido. A ambição, que se elege critério absoluto, é insatisfação insanável, permanentemente angustiante.

Dito isso, falta ao cidadão, à sociedade brasileira, necessariamente refletir muito bem sobre essa verdade de fato: na vida humana ou vivemos de acordo com o que pensamos ou acabamos pensando de acordo com o nosso modo de viver.

Exemplo? O próprio poder político!

Qual é a essência do pensamento político nacional? Aproveitar o tempo eleito para enriquecer, e tanto faz se lícita ou ilicitamente.

O parlamentar vira escravo da sua ambição, do seu modo de viver, pois está com o maior dos poderes nas mãos. E possui uma outra circunstância favorável ao seu modo de pensar: a impunidade, pois ele é quem legisla.

No século XVI, quase 500 anos atrás, Francis Bacon, considerado como o fundador da Ciência Moderna, em sua obra Novum Organon, já questionava: “De onde se deduzem os princípios que hoje nos servem de base?”

Respondo: no caso do povo, sobreviver; em se tratando do poder político, a ambição movida pela própria ambição.

No Brasil, o poder político enreda-se em si mesmo, e deixa de ser útil à sociedade para se transformar em pária, pois nada produz, nada faz, nada resolve. O poder político satisfaz seus membros e permite condutas condenáveis, criticáveis, eivadas de má fé e más intenções, porém detentores do poderio moderno!

Cabe aqui lembrar outra curiosidade, advinda da notável e fundamental à humanidade, cultura grega: Dédalo, filho de Himetion, descendente de Erecteu, rei de Atenas, discípulo de Mercúrio, artista notável, construtor, estatuário, inventor, que construía estátuas movidas por mecanismos internos parecendo seres vivos – prestem atenção, por favor! –, matara seu sobrinho, e foi condenado à morte.

Fugiu para Creta, e ficou na Corte do rei Minos – sigam lendo com atenção, peço.

Lá, construiu o afamado Labirinto, construção tão repleta de intrincadas veredas, que quem ali entrasse não conseguiria sair. Dédalo foi a primeira vítima do seu próprio engenho. Minos, irritado com ele, manda prendê-lo no Labirinto com o seu filho Ícaro e o Minotauro. Para nós, o Poder é o Labirinto. Quem está lá dentro não sabe como sair. Se consegue, perdeu a si mesmo, e desfila perante a sociedade como corrupto e desonesto.

O comportamento antidemocrático é usado despudoradamente como natural pelo ambicioso, pois tem impunidade, julga-se acima dos demais porque compõe o poderio moderno, a política deletéria e deplorável.

Então o desespero, as trocas de partido, a deslealdade, os desvios de verbas destinadas à saúde popular, dinheiro sendo conduzido entre as nádegas, cuecas, caixas de uísque, helicópteros, pois é preciso atender à escravidão do poder que eles próprios elaboraram.

Brasil é o pior dos Brics e ainda brinca com fogo

O Brasil é, de longe, a maior decepção entre as quatro grandes países emergentes incluídos no histórico trabalho da Goldman Sachs que criou o grupo do Brics - Brasil, Rússia, Índia e China. Se você quer saber quais desses países mais corresponderam às previsões de crescimento econômico, basta ler a sigla de traz para frente. A China foi disparadamente melhor, seguindo-se Índia e Rússia, com o Brasil na lanterna.

O estudo da Goldman Sachs é normalmente atribuído a Jim O’Neill, que formulou o conceito e a sigla em 2001, mas foi assinado por Dominic Wilson e Roopa Purushothaman, com a publicação do “Dreaming With BRICs: The Path to 2050”. Embora tenha sido divulgado em outubro de 2003, esse “paper” trabalha com uma série histórica que começa no ano 2000. A previsão principal é que os quatro grandes emergentes - o texto original não inclui a África do Sul - deverão se tornar, até 2050, a maior força da economia mundial, superando em valor de PIB os países do G-6 - Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália.

As projeções, porém, são extremamente detalhadas, a ponto de estimarem o crescimento ano a ano para cada um dos quatro Brics até 2050. Passados os primeiros 20 anos dessa projeção, já é possível fazer um balanço do acerto parcial da previsão. O economista Robinson Moraes, coordenador de Pesquisa Econômica do Valor Data, comparou os dados projetados com a expansão real dos PIBs (método convencional) e o resultado está nos gráficos ao lado, de fácil compreensão. A linha vermelha mostra o crescimento efetivo de cada país e a azul indica a projeção feita pelo estudo. Se a Goldman Sachs tivesse acertado em sua previsão, o PIB do Brasil teria crescido 101,7% nos primeiros vinte anos do século, mas deve crescer apenas 43,6%, já levando em conta as estimativas do FMI para a recessão deste ano. A Rússia também não correspondeu às expectativas e cresceu apenas 78,4% no período, bem menos que os 127,3% previstos no trabalho da Goldman Sachs. A China e a Índia superaram as projeções: cresceram respectivamente 425,4% e 229,8%, bem mais que os previstos 249,3% e 206,1%.

É incrível a semelhança das curvas das linhas do Brasil e da Rússia. Observe que ambos os países acompanharam praticamente a trajetória prevista na primeira década do século, superando razoavelmente a crise global de 2008. A partir de 2014, porém, passaram a ter crescimento sistematicamente inferior ao previsto no estudo.

Por que Brasil e Rússia ficaram para trás na corrida do Brics? As causas têm diferenças e semelhanças. No caso da Rússia, segundo analistas, houve grande impacto na economia interna das sanções aplicadas pelas potências ocidentais a partir de 2014 por causa da anexação da Crimeia. Ocorreu também uma queda dos preços do petróleo, principal produto de exportação russo. Além disso, problemas internos como a falta de reformas e a expansão do Estado são citados como inibidores de investimentos. E houve ainda, a partir de 2014, a adoção de uma severa política de restrição de gastos governamentais que desaqueceu a economia. Por tudo isso, mais de 20 milhões de russos, de uma população total de 145 milhões, vivem hoje abaixo da linha da pobreza.

No caso do Brasil, ainda vivemos uma disputa de diagnósticos. Por que o país desabou a partir de 2014? Os mais ortodoxos dirão - alias, já se cansaram de dizer - que tudo foi consequência de políticas irresponsáveis dos governos petistas, principalmente o de Dilma Rousseff, que criaram um grande problema fiscal e desestimularam investimentos. Os heterodoxos da esquerda também já se cansaram de dizer que tudo correu muito bem até 2013 - o gráfico abaixo mostra isso -, mas a economia desabou depois que passou a predominar a teoria da austeridade fiscal.

Esse embate nunca vai terminar. Fato é que o Brasil ficou parado no tempo nos últimos seis a sete anos. E há semelhança preocupante entre o que ocorre hoje com o Brasil e a derrocada russa a partir de 2014. Lá, as sanções externas se deram por questão geopolítica, a guerra com a Ucrânia pela posse da Crimeia. Aqui, as ameaças já começaram e as possíveis sanções envolvem questões ambientais, porque a comunidade internacional não aceita a catastrófica política brasileira nessa área.

Por enquanto, com Donald Trump na Casa Branca, o Brasil ainda pode continuar com sua política irresponsável, mas, se Joe Biden vencer as eleições, poderá sofrer uma asfixia econômica semelhante à da Rússia após a anexação da Crimeia. Não haverá mais complacência global para negacionismos ambientais. Para quem já é o pior do Brics, seria um desastre. O governo brasileiro, literalmente, brinca com fogo.

Lilia: defender a fauna aquática da Amazônia é defender o mundo

A exuberância vital da Amazônia na tríplice fronteira da Colômbia com o Peru e o Brasil tem uma qualidade estática. Destila uma aparente harmonia, embora esconda múltiplas tensões em sua tranquilidade. Aqui, entre os meandros de seus abundantes afluentes, que descem carregados de matéria orgânica, onde uma biodiversidade excepcional prolifera na inundação de suas águas lentas, nada o boto cor-de-rosa da Amazônia. Desde a antiguidade, este mamífero aquático ocupa um lugar sagrado nas cosmologias indígenas, como o faz em muitos cantos da imensa bacia amazônica.

Também para Lilia Isolina Java Tapayuri, líder comunitária da etnia Cocama, na reserva Tikuna-Kokama-Yagua, o boto cor-de-rosa é sagrado. Ele ocupa uma parte central em sua vida e trajetória profissional que a levou a ter um papel importante na conservação da fauna fluvial deste recanto da selva amazônica.

Lilia, de 35 anos, nasceu na comunidade de San Francisco, a poucos quilômetros a noroeste de Puerto Nariño, no rio Loretoyacu, um afluente do Amazonas. A fauna do rio a atrai desde pequena, que marcou tanto o significado de sua espiritualidade, quanto sua vida profissional.

Na cosmovisão dos povos indígenas do Trapézio Amazônico, em um mundo dominado pela água, o boto cor-de-rosa reina: uma criatura esguia, porém enigmática, inteligente e cobiçada. Nos últimos tempos, o boto tornou-se um ícone das iniciativas que lutam para preservar o ecossistema, que alcançaram também esta remota região amazônica.

Lilia, da etnia Tikuna da Amazônia colombiana, se
dedica à proteção dos seres vivos que habitam os rios

Estes indígenas, reassentados longe de seu território de origem no interior da floresta pela exploração da seringueira no século XIX, permaneceram junto ao rio, mesmo quando os preços da borracha despencaram e a escravidão dos índios foi abandonada. Com a chegada dos missionários messiânicos em meados do século XX, abandonaram suas casas comunais, consideradas promíscuas pelos ministros da igreja, e reassentadas em casas retangulares unifamiliares, com cortinas separatórias, paredes de madeira e telhados de zinco.

Apesar da evangelização, muitos preservaram em seu sincretismo fragmentos de seu universo místico ancestral, que divide o mundo em três níveis – água, ar e terra – e no qual a fauna aquática desempenha um papel central. E é neste contexto que, para Lilia, a conservação e defesa da fauna fluvial, como o peixe-boi, o boto, a lontra e o jacaré, significa não apenas defender a floresta e o ciclo biológico do ecossistema, mas também os estilos de vida dos povos indígenas e sua espiritualidade.

Mas de toda a rica fauna aquática amazônica, é o boto cor-de-rosa quem ocupa um lugar central no imaginário indígena. Lilia diz que ele aparece em rituais de celebração como o “pelazón”, um doloroso rito de passagem que consiste em arrancar todos os fios de cabelo das meninas, quando entram na puberdade. O boto aparece à comunidade como uma pessoa, sempre usando atributos humanos como um chapéu, um relógio, um cinto, ou sapatos. “Nessas reuniões”, explica Lilia, “o único capaz de determinar qual das pessoas presentes é um boto, é o xamã”. A pessoa misteriosa, que assiste a estes ritos festivos disfarçada, desaparece nas primeiras horas da manhã, deixando quase nenhum vestígio.

“Um dia o xamã disse aos donos da festa: se vocês não acreditam que ele não é uma pessoa, mas um animal, que é a Yakuruna, a mãe das águas, vamos fazê-lo beber toda a chicha, vamos embriagá-lo”. E a festa começou, e as meninas o fizeram dançar e lhe deram chicha até que se embebedou. Não conseguiu chegar ao rio, e adormeceu na margem. E quando brilharam os primeiros raios de sol, o homem começou a se transformar em um golfinho. E então o xamã lhes disse: vejam, o chapéu daquele boto é uma raia; o relógio é um caranguejo; o cinto é uma jiboia; e os sapatos são peixes. E foi assim que eles descobriram a Yakuruna."

“E a partir daquele dia descobriram também que as mulheres que viviam nas margens dos rios haviam desaparecido”, continua Lilia com olhos brilhantes e a voz um pouco quebrada pela emoção da história. “Elas se encantaram e como moravam perto da água, a Yakuruna as levou embora. Elas haviam se apaixonado pelo boto. Algumas engravidaram e deram à luz a bebês com forma de boto.”

Lilia tem uma relação muito poderosa com a Yakuruna, e hoje dedica sua vida à defesa diária de um ecossistema submetido a múltiplos e contínuos testes de pressão. Felizmente, foi possível controlar as ameaças da pesca ilegal, que anos atrás era muito agressiva devido à presença de barcos refrigerados, em sua maioria do Peru, do outro lado do rio, e métodos de pesca não tradicionais que dizimavam a população de peixes com muita rapidez.

Há alguns anos, uma balsa foi instalada no Lago Tarapoto, para controlar a entrada e saída de canoas, o que tem sido decisivo para o trabalho de conservação deste ecossistema. Dezenas de espécies protegidas estão sendo monitoradas, e Lilia, com coragem e autoridade inquestionável, dirige as operações da balsa, de onde é feita a contagem das populações de diferentes espécies de peixes e mamíferos aquáticos, como lontras, peixes-boi e golfinhos.

Mas a trajetória de Lilia, como o de tantas outras mulheres indígenas, é de luta e determinação constantes. Em meio a um patriarcalismo dominante, em um mundo em que a cosmovisão ancestral coloca os homens na água e as mulheres na terra, o domínio masculino tende a ser absoluto. Essa realidade exige que as mulheres tenham ousadia adicional, se quiserem trabalhar de igual para igual com os homens.

E foi isso que Lilia conseguiu graças à sua relação emocional e espiritual com os botos cor-de-rosa. Seu fascínio a levou a colaborar, ainda quando menina e com o apoio do pai, no cuidado de alguns espécimes. Através de sua sensibilidade especial no cuidado dos animais, Lilia encontrou a porta para aquele mundo, historicamente dominado, material e espiritualmente, pelo homem.

É notável o carinho e a ternura com que Lilia acolhe e mima em seus braços um peixe-boi estressado e desconsolado, que foi encontrado perdido por alguns pescadores. Lilia conta que, devido às mudanças nas condições climáticas e à diminuição do fluxo dos rios, as margens do rios estão mais secas, criando um ambiente que facilita o aparecimento de peixes-boi bebês encalhados, longe do alcance de suas mães.

Lilia abraça e alimenta o pequena peixe-boi com dedicação e carinho. A cena revela até que ponto a relação com a natureza e os seres vivos, não tão diferente dos humanos, é uma questão de empatia e sensibilidade, duas qualidades raras no universo masculino.

Como o peixe-boi, o boto é um animal inteligente e poderoso na água, mas fora dela é um ser absolutamente vulnerável. Ele requer hidratação contínua, carícias para aliviar o estresse extremo, cuidados com suas pequenas e poderosas pupilas.

Foi através desses cuidados que Lilia achou seu lugar no mundo. Seu avô, que já se dedicava a catalogar e proteger a população de botos, apreciou a devoção com que Lilia olhou para o animal enquanto ajudava a manter sua cauda imobilizada. Essa atividade não requer força, mas ternura. Foi esse poder de acalmar os botos que fez Lilia crescer dentro da Fundação Omacha e se tornar a coordenadora da área de fronteira de Puerto Nariño.

Ela compartilha com Aldo Curico, seu marido, essa vocação para o cuidado. Lilia e Aldo moram juntos há 13 anos e juntos passam seus conhecimentos para os três filhos, além de compartilhar o projeto de conservação. Lilia se uniu a Aldo como parceira na luta ambiental e na proteção do território. Ele conhece as áreas de reprodução da fauna aquática, e a acompanha nos longos dias dedicados ao cuidado dos animais.

As atividades permitem manter sua família, e Lila pode conciliar seu papel de mãe e seu desempenho profissional como líder ambiental, ao mesmo tempo que incentiva outras mulheres indígenas a fazerem o mesmo e se unirem à luta para conservar a vida selvagem e prevenir mudanças climáticas, que já afetam o território.

Mas a luta das mulheres indígenas aqui é longa e difícil. Como uma área de enorme beleza natural, a terra Tikuna foi recentemente sujeita à exploração turística, o que trouxe uma certa prosperidade, sem dúvida, mas ao mesmo tempo levou a uma proliferação de atividades ilícitas de todos os tipos. Entre as mais dolorosas e perversas, estão o tráfico de crianças, prostituição infantil e de jovens indígenas adolescentes, agredidas por turistas e outros tipos inescrupulosos.

No ano passado, foram detidos em Puerto Nariño vários indivíduos envolvidos na exploração sexual de meninas e adolescentes colombianas, peruanas e brasileiras. A porosidade da fronteira e a facilidade de mudar de jurisdição nacional em 15 minutos de canoa ao atravessar o rio, favorece a impunidade do crime.

O mesmo é válido para o tráfico de madeira obtida ilegalmente. Não parece ser uma atividade em grande escala, mas barco após barco, a madeira desce o Amazonas, atravessa fronteiras, quebra regulamentos. Ou com a pesca do pirarucu, um saboroso peixe amazônico, cuja caça é proibida na Colômbia durante alguns meses, mas não no Brasil ou no Peru. Como resultado, o peixe acaba sendo consumido também deste lado da fronteira, tornando praticamente impossível determinar sua nacionalidade.

Mas a covid-19, que chegou com toda a sua força incontrolável à Amazônia, trouxe ainda mais incerteza a essa dinâmica já complexa. Mais de 350 mortes e quase 15.000 infectados (dados de 30 de julho) são o prelúdio do que pode acabar acontecendo no território fronteiriço onde moram Lilia e sua família.

Além disso, a restrição da mobilidade também reduziu os controles ambientais sobre os afluentes. Agora, o desafio como comunidade proteger-se para evitar a propagação do vírus. “No início foi um pesadelo para nós, principalmente ouvir que era uma doença que não tinha cura, mas nos tratamos com base nas folhas e cascas das plantas”, diz Lilia, apegada à fé no saber ancestral e espírito de luta dessas comunidades indígenas para as quais, desde os tempos da conquista, resistir é existir.

Apesar das inseguranças deste território distante, Lilia está determinada a defender a floresta e o mundo aquático que a habita, dia após dia. Após alguns dias, ela leva o pequeno peixe-boi para Leticia, capital do departamento do Amazonas na região fronteiriça, onde há melhores instalações para seus cuidados.

Os xamãs dizem que entrar na água é como levantar uma cortina, e cruzar para o outro lado. É como atravessar a porta para outro mundo. E Lilia sabe que este mundo está se afastando destes territórios a uma velocidade já inalcançável.

Mas ela também sabe que ainda há uma oportunidade para que a água, a vida selvagem e a floresta tropical preservem uma harmonia universal que era, no passado, sua única natureza. Essa é sua luta.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Pensamento do Dia

 


Ponto final coisa nenhuma

A vacina contra o coronavírus não será obrigatória e ponto final, decretou o presidente Jair Bolsonaro. Resta-nos a esperança de que este ponto final de agora, como o foram tantos outros, seja um mero arrebatamento da ignorância. Não voltaremos à idade da pedra, mesmo que seja necessário recorrer ao papa, ao pajé ou ao Tribunal de Haia.

Ponto final quer dizer fim. Não permite réplica. A não ser que se subverta o sinal gráfico convencionado.

O ponto final, no discurso de Bolsonaro, pode significar vírgula; talvez, ponto e vírgula; com certeza reticências; muitas vezes exclamação ou até parênteses. Quem sabe, pausa para um gole d’água; também uma intervenção abusiva, subentendida a determinação para que se mude de assunto.

Correndo o risco de glamourizar um evidente vício verbal, o histrionismo de Bolsonaro, ao banalizar a conclusão do seu pensamento com a expressão superlativa, virou marca. Todo mundo aceita, ninguém discute.


Bolsonaro é espectador do seu próprio governo. Não demonstra convicção, compromisso ou segurança nas decisões. Fala uma coisa agora e seu contrário minutos depois. Subversão total do ponto final.

Exemplo: não se fala em Renda Brasil até o fim do meu governo e ponto final. Foi o que disse antes de receber o relator e autorizar o prosseguimento do projeto relativo ao programa renegado. Talvez, no caso, coubesse só uma vírgula, abrindo caminho a um advérbio de tempo. Não se fala mais nisso, agora.

Quando o assunto foi retomado com renovado vigor, a condenada Renda Brasil tornou-se Renda Cidadã, e todos já tinham esquecido a peremptória ordem anterior.

O presidente admitiu, gerando abalos ao mercado de ações, que o governo estuda mesmo, apesar dos desmentidos, a hipótese de furar o teto de gastos e ponto final. Esta não esperou o dia amanhecer e o próprio Bolsonaro tratou de buscar outros recursos da ortografia, detendo-se na exclamação e no travessão. O caminho está livre a qualquer estudo, quis dizer Bolsonaro, antes de exclamar: meu governo jamais transgredirá com o rigor da política fiscal!

O tema do aumento da carga tributária e criação do novo imposto sumiu numa gaveta temporária de hipóteses lesa-voto, a serem examinadas depois das eleições de 2020. Não se sabe como reaparecerá no discurso de Bolsonaro que, inúmeras vezes, garantiu que no seu governo não tem volta da CPMF e ponto final. Como esta é uma obsessão do ministro da Economia, o presidente teve de mudar a pontuação ou demiti-lo.

Agora, com reticências, o novo imposto transformou-se em uma condicionante para desoneração da folha, depois para financiar a renda mínima, em seguida voltou a instrumento de combate ao desemprego, até ser recolhido a um dos escaninhos que abrigam os estelionatos eleitorais premeditados.

Em abril, registrou-se o que se imaginou ser o ponto final dos pontos finais. Na reunião ministerial em que reclamou da ineficiência do serviço de informação da Presidência, fez revelações bombásticas. Disse que possuía informantes particulares e se queixou da falta de ascendência sobre a Polícia Federal. Bolsonaro foi taxativo: “Vou interferir e ponto final”.

Quando a interferência virou inquérito no Supremo Tribunal Federal, por denúncia do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, o sinal gráfico passou a ser um parênteses de negação do fato em todas as suas versões.

O ponto final da vacina é especial, trágico. Com uma carga pesada de dramaticidade e letalidade. Assusta os escalões inferiores, insufla decisões pessoais precipitadas, causa pânico nacional e horror internacional. É grave, desafia a Ciência, que não é um partido ou paixão acidental.

O governo assume riscos de crime contra a humanidade. Ponto final coisa nenhuma.

A razão ou a estupidez


Muita gente gostaria que um imã se levantasse
E tomasse a palavra diante de uma multidão muda
Ilusão enganosa, não há outro imã fora a razão
Só ela nos guia de dia como de noite
Abu-I-Ala, poeta muçulmano cego

Estado geral da democracia

Não precisa fazer interpretações para concluir que a democracia brasileira vai mal. Basta juntar os fatos. Não são feitos mais os ataques verbais às instituições nem as passeatas pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso, mas isso não significa que o presidente Bolsonaro mudou. Ele é o mesmo que sempre desprezou valores democráticos. A paz com o centrão não é governabilidade, está mais para conluio. Partidos, políticos e o presidente têm o mesmo objetivo: manter o poder e suspender o combate à corrupção.

O episódio do senador Chico Rodrigues traz uma série de lições. Alguém pode concluir que tudo funcionou bem, afinal a Polícia o encontrou, o Supremo o afastou inicialmente, ele próprio pediu afastamento. É uma visão benigna, mas não realista. O fato é que o vice-líder do governo se sente tão à vontade que leva maços de dinheiro para casa. A PF que o encontrou continua trabalhando, mas ela está sendo esvaziada. Até quando terá essa autonomia? Até que ponto poderá chegar? O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, deixou no ar um silêncio eloquente sobre o escândalo. O ministro do Supremo que afastou Chico Rodrigues foi criticado por senadores. Eles não queriam julgá-lo no Conselho de Ética. Os colegas o aconselharam a dar um “jeitinho”: sair por 121 dias, entregar o mandato ao filho suplente e deixar tudo em casa. O presidente da República fingiu que não tinha com ele a anunciada “quase união estável”.



Há outros sinais preocupantes para onde se olhe. O governo inteiro vem sendo militarizado. Ontem, o Senado aprovou sem reclamar os nomes da diretoria da nova Autoridade Nacional de Proteção de dados. Ela será presidida por um militar, e eles serão três dos cinco diretores. O órgão precisa de autonomia em relação ao governo. Ele vai fiscalizar e editar normas da Lei Geral de Proteção de dados de todos nós. Os militares não têm em relação às informações a preocupação de proteger a privacidade. Por treino profissional, e pela ideologia do atual governo, eles tendem a ver isso dentro da doutrina que definem como “de segurança nacional”.

O governo mandou espiões para a última Conferência do Clima, em Madri, como informou o repórter Felipe Frazão do “Estado de S.Paulo”, e deu a eles status de negociadores. Desta forma estava mentindo para a ONU e constrangendo negociadores brasileiros. O general Heleno disse que isso foi feito para vigiar “maus brasileiros”. Essa é uma visão tipicamente autoritária. Quem outorgou ao general o direito de definir quem são os maus brasileiros? São os que desmatam ilegalmente a Amazônia ou os que denunciam que isso está sendo feito?

O Rio, como mostrou o relatório de diversas ONGs, tem 57% do seu território sob o controle da milícia. Isso é uma ameaça nacional. O presidente Bolsonaro e seus filhos têm todo um mar de ambiguidade em relação à milícia, que vai da ligação direta, como a mantida com o o ex-policial militar e líder de bando miliciano Adriano Nóbrega, morto na Bahia, até as frequentes declarações de apoio ao bando.

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se depender de mim terão todo o meu apoio”, disse Bolsonaro em 2003. Em 2018, reafirmou: “Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga não tem violência”. O então candidato estava aprovando a extorsão a que estão submetidos os moradores das áreas controladas pelos milicianos. Quando um grupo criminoso tem o apoio implícito ou explícito de quem governa o país, isso é um imenso perigo.

O truque atual é capturar as instituições, esvaziá-las da sua autonomia, mas deixá-las em pé. Assim, alguém pode dizer: mas estão lá as instituições funcionando. A suposta “pacificação” de Bolsonaro não é respeito à autonomia e à independência dos poderes. Ele quer proteção para ele, seus filhos, sua família. Os parlamentares querem que a investigação de corrupção pare de importuná-los, porque já não sabem mais onde enfiar dinheiro quando a Polícia Federal chega. Diante de todos os sinais — e há muitos outros — só o desatento dorme tranquilo com a democracia brasileira.

Tudo dominado? Quase

Indicado para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ministro Celso de Mello, o desembargador federal Kassio Nunes Marques será sabatinado hoje, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado (CCJ). A presidente da comissão, senadora Simone Tebet (MDB-MT), pretende ler e sustentar o parecer favorável do líder do MDB, Eduardo Braga (AM), que está impossibilitado de fazê-lo por motivo de saúde. Com toda certeza, Marques passará por algum constrangimento, quando nada, devido ao currículo anabolizado, mas seu nome será aprovado pela maioria. A rejeição à sua indicação está confinada aos senadores do grupo Muda Senado.

A indicação de Kassio Marques surpreendeu, todos esperavam alguém “terrivelmente evangélico”, como prometera o presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, trata-se de um magistrado do Piauí, católico, indicado pelo senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, o principal partido do Centrão. A tese de que foi resultado de um acordo com os ministros do Supremo Dias Toffoli e Gilmar Mendes não procede; ambos prefeririam que o nome escolhido fosse um magistrado com passagem pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), cujos ministros Luís Felipe Salomão, Humberto Martins e Luiz Otávio de Noronha eram cotados para vaga.

Um almoço na casa de Toffoli, com a presença do presidente Jair Bolsonaro e seu indicado, ao qual compareceu o ministro Gilmar Mendes, gerou a especulação de que a indicação era fruto de um acordo com o Supremo, cujo objetivo seria blindar o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Segunda Turma do Supremo, no processo das rachadinhas da Assembleia Legislativa fluminense. O evento gerou mal-estar na Corte e provocou reação do novo presidente do STF, ministro Luiz Fux, que propôs e aprovou, por unanimidade, uma mudança regimental que transferiu os julgamentos sobre inquéritos e processos criminais para o plenário do Supremo, o que acabou com essas especulações.

Kassio Marques chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com sede em Brasília, na cota dos advogados, por indicação da então presidente Dilma Rousseff. Não por acaso, agora, tem o apoio do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que faz oposição a Bolsonaro, e da bancada do PT no Senado. O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), que preside a Casa, trabalha ostensivamente para aprovação do nome de Kassio, sendo o primeiro a comunicá-la aos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes.

A propósito, o voto de Kassio Marques no Supremo pode ser decisivo para Alcolumbre viabilizar sua reeleição no Senado. Seus movimentos junto ao Palácio do Planalto e aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) miram esse objetivo. Internamente, tem uma posição bastante consolidada, graças aos acordos de bastidor que fez com as bancadas do MDB e do PT. Apesar de já ter maioria em plenário para aprovar uma mudança regimental que viabilize sua reeleição, Alcolumbre depende de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que considere a mudança um assunto interna corporis, ou seja, que deve ser decidido pelo próprio Senado. A reeleição é considerada inconstitucional pelos senadores que integram o grupo Muda Senado.

Por essa razão da reeleição, o presidente do Senado tem evitado bolas divididas. É o caso do escândalo envolvendo o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), seu correligionário, flagrado na semana passada com R$ 33 mil na cueca, durante uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal em sua residência. Alcolumbre não deu um pio sobre o caso, que desgastou tremendamente o Senado, mas atuou fortemente para que Chico Rodrigues se licenciasse do cargo. Com isso, evitou que o plenário do Supremo Tribunal federal (STF) julgasse a liminar do ministro Luís Roberto Barroso que afastou o parlamentar do cargo. Também trabalhou para que o Conselho de Ética do Senado não se reunisse para apreciar o caso.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal investigam um esquema de desvio de recursos públicos destinados ao combate ao novo coronavírus em Roraima, que chegaria a R$ 20 milhões em emendas parlamentares. Chico Rodrigues é suspeito de lavagem de dinheiro e está sendo acusado de tentar obstruir a ação da Justiça. Como se licenciou do cargo, o ministro Barroso suspendeu a liminar que havia determinado seu afastamento do Senado por 90 dias e solicitou ao presidente do Supremo, Luiz Fux, que retirasse o caso da pauta da sessão plenária de hoje.
Luiz Carlos Azedo

Tânatos

Não há outra explicação, a não ser a pulsão de morte descrita por Sigmund Freud em sua teoria, para um presidente de um país no qual quase 160 mil pessoas morreram em menos de um ano usar uma cerimônia oficial para, numa só tacada, divulgar desinformação sobre vacina e vender mais um medicamento sem eficácia científica comprovada, sem nenhum dado que ampare a “descoberta”.

A teoria das pulsões aparece pela primeira vez na obra de Freud em 1920, mas ganha contornos culturais, sociológicos e políticos nove anos depois, quando ele publica O Mal-Estar na Civilização. Neste texto ele descreve a dicotomia entre as pulsões do indivíduo – a pulsão de vida (Eros) e de morte (Tânatos) – e as expectativas da sociedade (ou da civilização).

Bolsonaro age movido a pulsão de morte desde os primórdios de sua curta passagem pelo Exército, em toda a sua carreira de defensor de tortura e assassinato nos porões e, agora, como promotor de caos no enfrentamento da pandemia de covid-19.



Se não, qual a justificativa para um presidente adotar um tom de pura picuinha e dizer explicitamente que, sob suas ordens, a Anvisa, uma agência que tem o dever de fiscalizar e regular a política de saúde, pode atrasar a aprovação de vacinas ao sabor das disputas político-partidárias que ele insiste em antecipar?

Qual a explicação para que, 116 anos depois da Revolta da Vacina, o Brasil esteja mergulhado, por obra e graça do presidente e de seus acólitos, num pântano de desinformação e calhordice em que se propagandeia de forma irresponsável que alguém (Quem? Os governadores? A polícia? Vozes da cabeça dos malucos?) vai invadir a casa de pessoas e vaciná-las à força com substâncias vindas da China (a mesma que, insinuam eles, criou um vírus em laboratório para subjugar o mundo) sem comprovação científica?

No mesmo evento em que usa mais um órgão de Estado, a Anvisa, como aparelho de suas intenções mesquinhas, o presidente dá voz ao ministro-astronauta para promover mais um medicamento sem eficácia científica comprovada em nenhum estudo sério do mundo, como sendo capaz de, nas fases iniciais da covid-19, reduzir a carga viral.

Para isso, o ministro em questão promete para dali a alguns dias (quando?) os estudos que supostamente corroboram a irresponsabilidade, ao mesmo tempo em que usa gráficos chupados de um desses bancos de imagem públicos da internet para mostrar a suposta eficácia. Garganteia diante de um chefe aparvoado que o que deveria ser um estudo de anos foi feito em quatro meses.

Tal show de mistificação, num país que não estivesse anestesiado pelos absurdos cotidianos e impunes, seria contraposto imediatamente pelo Ministério Público, pelo Judiciário, pelo Conselho Federal de Medicina e a comunidade científica, em uníssono. Com a exigência de apresentação imediata de dados, sob pena de punição.

Aqui, o contraponto fica por conta de cientistas usando suas redes pessoais para cobrar o ministro, jornalistas científicos fazendo o mesmo e, talvez, alguma representação de partido de oposição.

O Ministério Público Federal é hoje uma instituição em que os procuradores estão calados porque temem ser alvo de perseguição (volto a isso na coluna de domingo).

Diante de cenário de terra arrasada, dá até um alívio que o Ministério da Saúde se descole do teatro da morte e anuncie convênio para comprar 46 milhões de doses de vacina do Instituto Butantã quando os estudos comprovarem sua eficácia. Resta saber se também o ministro não será admoestado pelo chefe a recuar, se o Tânatos e os delírios persecutórios decorrentes dele apontarem que ele está jogando a favor de seus adversários.

Brasil de bunda pra lua

 


Prisioneiros do Passado

As pesquisas mostram força eleitoral do atual presidente, apesar de todos seus erros e desastres se seu governo. Na politica externa, deixando o Brasil isolado como um pária no mundo. No Meio Ambiente, se identifica com incentivo a queimadas, desprezo à natureza e à biodiversidade.. Sua falta de compromisso com os direitos humanos leva-o a ter ministros com manifestações racistas, machistas, sem respeito aos povos indígenas, apoiadores de torturadores e da ditadura. No combate à epidemia, seu fracasso é claro, por omissão, sem ministro por meses, sem estratégia, incentivando descuidos e defendendo magia no lugar de ciência. Na economia, que seria o campo para o qual parecia em condições de corrigir a crise que herdou, está fracassando e provavelmente abandonará a responsabilidade fiscal, ganhando prestígio popular no primeiro momento, mas jogando o país na inflação e nas consequências da perda do determinante fator Confiança. Na ética, seu governo, sua família e a adesão à velha política demonstram tolerância, omissão e prática corrupta.

Apesar disto, há reconhecimento de que a força de Bolsonaro não diminui e possivelmente será forte candidato à presidência em 2022.

Muitos explicam esta força graças às transferências de renda, copiando os governos anteriores do PSDB/PT, também graças à adesão ao “centrão” e a provável irresponsabilidade fiscal que elevará gastos públicos.


Mas tudo indica que a força de Bolsonaro não vem apenas do populismo, vem da fragilidade de seus opositores. Apesar de manifestações verbais, seus opositores carregam o peso dos erros do passado e não oferecem ideias para o futuro. Propostas que tragam esperança ao povo e empolgue aos eleitores.

Além disto, falta uma liderança carismática com crédito político que unifique e lidere alternativa com viabilidade eleitoral. Não há propostas claras para um Brasil diferente. A oposição, dividida, se limita a oferecer volta ao passado, especialmente liberdade de costumes e compromisso com a democracia.

Bolsonaro adotou a velha proposta de transferência de renda para os pobres e caminha para usar irresponsabilidade fiscal como forma de financiar projetos de infraestrutura. Sem uma alternativa convincente e sedutora, sem reconhecimento dos erros que cometidos, sem uma unidade carismática que represente as forças progressistas, Bolsonaro será reeleito na hora que o eleitor tiver de escolher entre continuarmos como estamos ou regredirmos ao que fomos. O eleitor precisa de um sonho que sirva para construir um Brasil diferente no futuro. A falta disto nos deixa prisioneiros do passado.

Ódio é dos idiotas


Tenho minha boa quantidade de defeitos, sou passional, mas no meu jardim faz décadas que não cultivo o ódio, porque aprendi uma dura lição que a vida me impôs: o ódio acaba idiotizando, ele nos faz perder objetividade

Jose Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai ao renunciar ao cargo de senador devido à pandemia

Chiquita Bacana

Dessa conversa resultou profunda modificação nos rumos da política norte-americana na América Central e serviu como experimento para o exercício da autoridade de Washington nos países do sul ao longo do século vinte. É o início da utilização em larga escala daquilo que hoje se chama fake news.

Sam Zemurray, nascido em 1877 nas proximidades do Mar Negro, fugiu para os Estados Unidos por causa das perseguições a judeus em sua terra. Foi morar em Selma, no Alabama. Edward l. Bernays também era judeu emigrante, mas frequentava a alta sociedade em Nova Iorque. Ele se dizia o pai das relações públicas, uma especialidade que se tornou importante arma política, social e econômica do século XX.

No seu livro Propaganda, Bernays explica os fundamentos de seus estudos e as razões de seu trabalho. ‘’A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e da opinião das massas é um elemento importante da sociedade democrática. Quem manipula esse mecanismo desconhecido da sociedade constitui um governo invisível, que é o verdadeiro poder no nosso país (…) A minoria inteligente tem que fazer uso contínuo e sistemático da propaganda’’.

Sua teoria começou a ser aplicada na Guatemala, nos anos cinquenta pela famosa empresa bananeira, a United Fruit.



Sam Zemurray venceu sozinho. Começou com um investimento de US$ 150 e construiu um negócio milionário. Ele não inventou a banana, mas conseguiu popularizar o produto e fazer com que a fruta estivesse na mesa do café da manhã de milhões de norte-americanos. Ficou milionário, mas adquiriu péssima fama nos países em que operava.

Ele não hesitou em invadir terras, tratar mal seus trabalhadores e sempre se compôs com os poderosos a preço de elevados subornos. Provocou guerras, colocou e tirou do poder diversos políticos, não pagou impostos e manipulou a política externa dos Estados Unidos. A dupla inventou o perigo comunista na América Central. Justificou a invasão de países e a derrubada de governos legítimos.

No princípio de 1950, a United Fruit operava em Honduras, Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Costa Rica, Colômbia e em várias ilhas no Caribe. Gerava lucros astronômicos. A função de Bernays era tornar a imagem da empresa mais palatável aos olhos do público norte-americano. Ele produziu obra impressionante. Entre suas ações espetaculares uma é especial: foi ele quem levou Carmem Miranda para os Estados Unidos.

Chiquita Bacana se vestia de banana nanica. A atriz luso-brasileira arrasou em Hollywood, sempre coberta por frutas tropicais, participou de vários filmes e ajudou a vender muita banana produzida pela United Fruit. Essa história é narrada com maestria por Mario Vargas Llosa, fantástico escritor peruano, que tem em seu currículo um prêmio Nobel de Literatura. O livro chama-se Tempos Ásperos, editora Alfaguara.

No Brasil, o livro chega em momento apropriado. Dentro de trinta dias haverá eleições municipais. As fake news vão transitar com desembaraço. Quem mentir mais e com maior competência será vencedor. Em outro cenário, o governo federal está diante de pesada oposição internacional por causa dos problemas na Amazônia.

Alguns argumentos atendem a problemas particulares. Há muitas ações de relações públicas, no seu pior sentido, neste mundo de grandes interesses.

A eleição nos Estados Unidos terá fundamento nas afirmações delirantes de Donald Trump. Mas seus delírios terão consequências no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Se Joe Biden vencer a eleição um dos primeiros atingidos será o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Será mais fácil substituí-lo do que abrir um contencioso com Washington.

É o caso do meio ambiente: é mais fácil demitir Ricardo Salles, reconhecido destruidor de florestas e uma espécie de general Custer a destempo, do que brigar com europeus.

O Brasil precisa entrar no século 21. O pensamento dominante nos centros de poder nacionais ainda não absorveu a ascensão da China como potência de primeira grandeza. O fluxo de comércio entre Brasil e Estados Unidos está no menor nível dos últimos anos. Queda livre. A relação comercial com a China, ao contrário, cresce aos saltos.

É urgente assinar o acordo do Mercosul com a União Europeia. O objetivo é gerar empregos aqui. É razoável que os dogmáticos sejam sacrificados. A consequência será reeleição ou derrota. Além disto, como já se viu, resta o rebolado da Chiquita Bacana para americano consumir, brasileiro ingênuo comemorar e a United Fruit faturar.

O nome do crime é milícia

A má notícia vem de um consórcio de pesquisadores: metade dos bairros do Rio de Janeiro estão ocupados por milícias. Um em cada três moradores da cidade vive em áreas controladas por essas organizações criminosas. A boa notícia está nas livrarias. É “A República das Milícias”, do repórter Bruno Paes Manso, com um retrato da construção dessa ruína social. 

Paes Manso mostrou como os justiceiros surgiram até de forma simpática: “Milicianos de PMs expulsam tráfico”. Isso em 2005, passaram-se 15 anos e a simpatia é atraída para a notícia de que na semana passada a polícia do Rio matou doze milicianos.

Policiais expulsando traficantes de drogas em nome da benemerência era uma lenda urbana. Logo veio o controle das vans que faziam transporte ilegal de passageiros. (A Fetranspor, guilda dos empresários que faziam transporte legal, corrompia parlamentares e governadores.)

É difícil acreditar que Jair Bolsonaro não conhecesse a cidade em que vivia quando disse, em 2018, que “as milícias tinham plena aceitação popular, mas depois acabaram se desvirtuando. Passaram a cobrar gatonet e gás”.

Bolsonaro tinha no seu entorno o ex-sargento Fabrício Queiroz e o ex-capitão Adriano da Nóbrega. Um está preso. O outro, foragido, foi queimado no interior da Bahia.

Pela lenda urbana 1.0, a milícia vendia segurança, cobrando de R$ 15 a R$ 60 por família no bairro que protegia. A milícia “desvirtuada” cobraria pelo gás ou pelo gatonet (cerca de R$ 50). É a lenda urbana 2.0. Mesmo deixando-se pra lá que cobram entre R$ 30 e R$ 300 aos comerciantes, em pouco mais de uma década, elas avançaram nos mercados de regularização de terrenos e de construções ilegais. Privatizam espaços públicos achacando camelôs e motoristas que estacionam seus carros.

Outra lenda urbana esteve na ideia segundo a qual as milícias combatiam o tráfico de drogas. Pode ser que isso já tenha acontecido, mas hoje elas toleram os traficantes ou se aliam a eles. Não é preciso ser um gênio para perceber que essa fusão é inevitável. 

Quando Bolsonaro defendia os milicianos era apenas um parlamentar federalmente inexpressivo e municipalmente astuto. Hoje é o presidente da República. No seu estado ajudou a eleger um juiz que prometia “balinha na cabeça” e foi afastado por mau uso do dinheiro da Viúva. O prefeito da cidade que persegue o apoio do capitão foi apanhado usando o dinheiro da Viúva para custear uma milícia que constrangia cidadãos insatisfeitos com a saúde pública.

Bolsonaro, como Wilson Witzel, elegeu-se com um discurso político de defesa da lei e da ordem. O governador do Rio perderá a cadeira e deverá batalhar para ficar solto. Bolsonaro e os generais da reserva que levou para o Planalto estão reciclando suas agendas moralistas. Para quem falava em segurança e combate à corrupção, a pesquisa das milícias e o livro de Bruno Paes Manso estão aí para mostrar que não adianta olhar para o lado. A menos que se pretenda colocar mais uma lenda urbana na ciranda, a dos confrontos nos quais morrem os milicianos que expulsavam os traficantes. Como o tráfico vai bem, obrigado, o que se fez foi colocar na praça um novo tipo de bandido, o miliciano. Como as milícias são quase sempre recrutadas na polícia, com a proteção de governantes, seria melhor olhar para dentro.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Pensamento do Dia

 


A pandemia vai começar

Quase 20 milhões de brasileiros foram salvos de cair na pobreza neste ano com o auxílio emergencial. Outros 10 milhões saíram temporariamente dela em 2020 por conta do benefício. São algo como 30 milhões de pessoas em risco com o seu fim em 31 de dezembro. O auxílio segurou os efeitos devastadores que a pandemia poderia ter no sustento das famílias mais pobres: com o seu fim abrupto, parte desses efeitos terão sido meramente adiados.

Os dados do parágrafo anterior foram calculados para o mês de julho pelo pesquisador Rogério Barbosa, do Centro de Estudos da Metrópole. Ele estimou também haver uma taxa de desemprego oculto de quase 40% entre os mais pobres. Esse número não é captado nas formulações tradicionais (taxa de desemprego aberta), porque inclui os trabalhadores que gostariam de um emprego, mas não procuraram um no isolamento. A partir de 1.º de janeiro, uma multidão sem renda deve passar a procurar ativamente emprego, o que pode provocar uma alta expressiva nos números oficiais de desocupação.

Em 2021, um terço dos brasileiros poderá estar vivendo com menos de meio salário mínimo – projeta Marcelo Neri, da FGV Social. Barbosa, Letícia Bartholo, Monica de Bolle e Pedro Souza estimaram proporção semelhante, mas para o número de cidadãos com renda inferior a um terço do mínimo.

Por isso, é extremamente preocupante a abordagem conformista externada pelo ministro da Economia em live da XP Investimentos, na sexta-feira. Diante das dificuldades de financiar um programa permanente para substituir o auxílio emergencial, afirmou que “é melhor voltar ao Bolsa Família do que fazer um movimento louco e insustentável”.

É preciso ficar claro: o Bolsa Família já estava em crise antes da crise. Apesar da retomada do PIB, havia 3 milhões de pessoas habilitadas para o programa em uma espécie de fila de espera por falta de orçamento. Se a fila fosse física, iria de Brasília a São Paulo. Para além disso, o programa convivia com valores muito modestos tanto no tocante aos valores pagos quanto aos dos critérios para receber o benefício.




Vejamos: uma mãe com renda de R$ 300 por mês vivendo com um filho recebeu R$ 1.200 por mês no auxílio emergencial. No Bolsa Família, seriam R$ 41 mensais. Se a renda dela fosse um pouco maior, de R$ 400, o valor recebido no Bolsa seria zero: a família não seria pobre o suficiente para receber qualquer valor. Frise-se que para receber o auxílio emergencial essa família de duas pessoas poderia ter renda de até R$ 1.000.

É evidente que um benefício generoso como o auxílio emergencial é atualmente impagável, o que não quer dizer que os valores envolvidos no Bolsa Família não sejam draconianos. Como Rogério Barbosa mostra, os números do Bolsa estão há anos muito atrás da inflação (o pico do valor médio foi em 2014, e o da linha de pobreza em 2010).

Existem muitas possibilidades de avançar. Uma em voga nas últimas semanas é a proposta do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), que propõe fazer mais com a mesma quantidade de recursos empregadas hoje em programas como o abono salarial. No entanto, exigiria que o presidente da República voltasse atrás quanto a sua negativa para a reforma do abono.

Uma possibilidade, mais progressiva do ponto de vista da distribuição de renda, foi a levantada na última semana pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Gastos com benefícios de servidores e militares poderiam ser suspensos para fortalecer a política social. Exigiria que o presidente revisse o posicionamento de que os atuais servidores não devem ser afetados por mudanças.

Há ainda um conjunto de propostas no Congresso com interpretações menos conservadoras sobre o teto de gastos, admitindo a possibilidade de que a despesa com um programa como o Bolsa Família possa ultrapassar o teto – compensado por ganhos de arrecadação sobre os mais ricos.

É intuitivo que os padrões de distanciamento social nos próximos meses vão ditar a magnitude da alta do desemprego e da pobreza com o fim do auxílio. Por ora, o aumento parece inevitável: trabalhos como o de ambulantes não se adaptam ao Zoom.

Dez milhões de pessoas deixaram de trabalhar em 2020 e é improvável que com o encerramento dos programas temporários todas voltem rapidamente aos postos anteriores.

Se o auxílio emergencial pode ter sido sobredimensionado para uma crise econômica que até agora foi menos severa do que poderia ter sido, o fato é que somente “voltar ao Bolsa Família” pode representar um choque imenso. Em 2020, com o auxílio emergencial, o Brasil observou mínimas históricas na desigualdade e na pobreza extrema. A partir de 2021, pode observar um movimento rápido e expressivo no sentido contrário: números de pobreza e de desigualdade como não víamos há anos ou mesmo décadas. Um movimento insustentável.

Fogo, grileiros e gado ameaçam terra de indígenas isolados que liderou desmatamento

Terra indígena (TI) mais desmatada da Amazônia em 2019, a Ituna-Itatá concentra este ano mais de 600 focos de calor detectados pelo satélite S-NPP, monitorado pelo Inpe. Mais da metade desses focos foram registrados na primeira quinzena de outubro, em um processo de ocupação que envolve ainda esquemas de grilagem, criação e "lavagem" de gado.

O território por onde o fogo avança vivencia uma investida sem precedentes de invasores não indígenas que pressionam toda a região do Médio Xingu, no Pará, afetando também outras terras indígenas nas proximidades, como as TIs Trincheira Bacajá, Cachoeira Seca e Apyterewa. Diferentemente desses outros territórios, a Ituna-Itatá abriga indígenas isolados, sobre os quais pouco se sabe, mas cuja presença foi descrita em dois pareceres técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai).

A Ituna-Itatá é uma terra indígena de 1.420 km² em fase de estudo e com restrição de uso, estágio que impede o ingresso e a permanência de pessoas sem autorização da Funai. No entanto, 94% dessa terra pública foi recentemente registrada no Cadastro Ambiental Rural (CAR) em nome de "proprietários" autodeclarados, segundo um levantamento realizado pelo Greenpeace.

O trânsito de forasteiros e a crescente pressão sobre o território faz com que esse grupo de indígenas precise se deslocar, afastando-se dos conflitos e também do contato.



"Os indígenas da região do Xingu, de vez em quando, trazem notícias sobre os grupos isolados que habitam a área. Em 2012, 2014, os relatos indicavam que estavam mais ao norte. Em 2016, os Asurini e os Araweté começam a relatar vestígios frequentes desses isolados um pouco mais ao sul da terra indígena. Esse conhecimento indígena sobre as dinâmicas territoriais desses grupos deve pautar as ações de monitoramento e fiscalização do Estado brasileiro", considera Angela Kaxuyana, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Delimitada em portaria de 2011, como condicionante da hidrelétrica de Belo Monte, a TI fica localizada entre os municípios de Altamira, que teve um acréscimo substancial da população desde o início das obras da barragem, e Senador José Porfírio, que pode ser impactado pela instalação da maior mina de exploração de ouro a céu aberto da América Latina, empreendimento da empresa canadense Belo Sun.

O processo de ocupação da Ituna-Itatá por não indígenas começou a avançar em 2014, ainda no governo Dilma Rousseff. A partir de 2016, ano do início da operação de Belo Monte e do governo Michel Temer, avançaram os registros do CAR dentro da TI e também os índices de desmatamento.

"A pressão ali aumentou com o término das obras de Belo Monte, acho que por dois motivos: primeiro, pela disponibilidade de mão de obra oriunda do período de construção da usina; e segundo, porque os empresários da região, que estavam lucrando com atividades ligadas à obra, também acabaram ficando sem essa renda, voltando seus investimentos para atividades ilegais", avalia um ex-servidor público que atuou na região e prefere não ser identificado.

Desde 2018, o Observatório De Olho no Xingu, da Rede Xingu +, monitora o desmatamento na Ituna-Itatá pelo sistema Sirad X. Entre janeiro de 2018 e setembro de 2020, foram detectados mais de 150 km² desmatados. Em menos de três anos, o desmatamento atingiu cerca de 11% do território.

Pelos dados do Prodes/Inpe, o desmatamento na TI se intensificou em 2017/2018 e explodiu em 2019, já no governo Jair Bolsonaro, apresentando um aumento de mais de 750%, em relação ao ano anterior. O período viu o desparecimento de 120 km² de cobertura florestal.

Com a realização de operações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as taxas de desmatamento caíram no início deste ano, chegando a quase zero, em alguns meses. Agora, entre agosto e setembro, foi possível identificar pelo sistema Sirad X novos pontos de desmatamento, ainda pequenos. Mas, como a tendência de retirada de floresta na TI costuma crescer no final do ano - foi assim em 2018 e 2019 -, o reaparecimento de áreas desmatadas serve de alerta.

"Está havendo novos desmatamentos na região. Tem a abertura ainda de pequenas áreas, bem em um ramal que sai de um terreno na Ituna-Itatá e entra na terra indígena vizinha, a Koatinemo. No ano passado, a gente divulgou a abertura desse ramal, e, agora, estou vendo na imagem que os novos desmatamentos estão beirando esse ramal", relata Thaise Rodrigues, analista de geoprocessamento do Observatório De Olho no Xingu. Além da TI Koatinemo, as pressões na Ituna-Itatá avançam também sobre a Trincheira Bacajá.

"Estão ocorrendo queimadas na Ituna-Itatá, tanto em propriedades que já haviam sido desmatadas há mais de um ano, acredito que para fazer uma limpeza do terreno, quanto em áreas que foram desmatadas no início do ano, acredito que para consolidar [a ocupação], porque são áreas em que ainda tinha sobrado muita vegetação, e agora, na imagem de setembro, eu estou vendo que colocaram fogo", explica a analista da Rede Xingu+.

Queimadas e desmatamento dentro da Ituna-Itatá estão a reboque principalmente da especulação pela posse da terra e da invasão de atividades como a pecuária. Os pontos atuais de fogo na terra dos indígenas isolados muitas vezes coincidem com áreas desmatadas.
"Tem uma guerra ali pela regularização daqueles lotes, daquelas áreas invadidas. Como é autodeclaratório, a gente vê sobreposição de CAR, uma briga de facções que fazem vários cadastros, disputando aquele território", diz o ex-servidor público.

O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um registro eletrônico da situação ambiental de imóveis rurais no país. Criado no âmbito do novo Código Florestal, em 2012, deveria servir para a regularização ambiental dessas propriedades, mas, pelo seu caráter autodeclaratório, por vezes é usado como instrumento para tentar validar a ocupação irregular de terras públicas.

Um levantamento feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), divulgado em junho, identificou quase 10 mil registros no CAR sobrepostos a terras indígenas em diferentes fases de regularização ou com restrição de uso, em todo o país. O estado com mais casos do tipo é o Pará, com 2.325 registros, sendo 1.290 "propriedades" em TIs em processo de regularização e 1.035 em TIs com restrição de uso.

Na Ituna-Itatá, até outubro, foram feitos 229 cadastros sobrepostos aos seus limites. Desses registros no CAR, 35,8% correspondem a áreas acima de mil hectares, o que indica que mais de um terço das sobreposições de terra são feitas por grandes proprietários e grileiros interessados na especulação de grandes terrenos, e não por pequenos posseiros.

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) cancelou cadastros ambientais rurais sobrepostos à Terra Indígena Apyterewa recentemente. Questionado sobre a possibilidade de cancelamento de cadastros na Ituna-Itatá, Rodolpho Bastos, secretário adjunto de regularidade ambiental da Semas, informou que as ações de análise do CAR em TIs feitas pelo órgão são voltadas para terras indígenas regularizadas, o que não incluiria a Ituna-Itatá, ainda em fase de estudo. Bastos ressaltou que o CAR é um instrumento de regularização ambiental, e que a regularização fundiária de terras indígenas caberia à Funai e ao governo federal.

O ciclo da grilagem na Ituna-Itatá se completa com a compra ou arrendamento de terra ocupada e desmatada para fazer pasto e criar gado. Em artigo publicado em junho deste ano, analistas ambientais que atuaram na região pelo Ibama citam que foram encontradas cerca de 2 mil cabeças de gado dentro da terra indígena.

"O rebanho é comercializado por meio de guias de trânsito animal falsas ou enganosas, uma vez que é proibido aos frigoríficos adquirirem animais criados em áreas não autorizadas, o que inclui as áreas protegidas. As falsas declarações de origem do rebanho não oferecem garantias sobre o devido controle sanitário, o que, além de contribuir para o desmatamento, pode colocar em risco a saúde da população", explicam os autores do artigo, entre os quais está Hugo Loss, ex-coordenador de operações de fiscalização do Ibama exonerado após realizar megaoperação contra crimes ambientais na região.

Para o Greenpeace, trata-se de prática de "lavagem de gado". A ONG, em parceria com a Repórter Brasil, identificou "propriedades" na Ituna-Itatá registradas no CAR em nome de pessoas que vendem gado para outros pecuaristas que, por sua vez, comercializam os animais com grandes frigoríficos, como a Marfrig Global Foods, a Frigol e a JBS.

Em fevereiro, Edward Luz, conhecido como o "antropólogo dos ruralistas", tentou impedir uma ação de retirada de gado realizada pelo Ibama na Ituna-Itatá. Ele dizia, em um vídeo-selfie, que estava fazendo cumprir ordem do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para que nenhum patrimônio da população fosse destruído. Luz acabou detido, mas foi solto horas depois.

Segundo o presidente da Associação dos Produtores Rurais e Agroindustrial do Vale do Bacajaí (Asprub), Pedro Ferreira do Nascimento, conhecido como Pedro Pintado, a Ituna-Itatá passou por cima de parte da Gleba Bacajaí, de propriedade do estado do Pará. Ele alega que a Asprub defende os produtores rurais que estavam na gleba antes de 2011, mas condena a presença de invasores posteriores à criação da TI.

"Tem parte da intenção da 'reserva' que os órgãos federais e os órgãos estaduais erraram e muito. Mas, em 80% da intenção de reserva, os órgãos federais fizeram a coisa certa, e quem tá lá dentro cometendo crimes, tá errado. Por isso que eu fui em Brasília pedir pra tirar 20%, recuar um pouco pra salvar pessoas que tinham direito lá dentro, o que ia evitar o esbulho que tá acontecendo agora", defende Pedro Pintado.

Há ações de políticos e ruralistas que questionam a própria existência da Ituna-Itatá. Em projeto de decreto legislativo de março deste ano, o senador Zequinha Marinho (PSC-PA), que já foi vice-governador do Pará, tenta sustar portarias que restringem ingresso, locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros da Funai na área da TI. No texto do projeto, o senador alega que "não há tribos isoladas na região" e que "sequer há um povo indígena ali habitando". A matéria está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal.

O InfoAmazonia questionou a Funai sobre o que tem sido feito pela Fundação para garantir a restrição de uso da Ituna-Itatá e proteger os indígenas isolados que lá estão. Em nota, o órgão informou que tem feito ações de proteção territorial na área em articulação com o Ibama, a Polícia Federal, o Centro Gestor e Operacional Ituna-Itatá do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e a Secretaria de Segurança Pública do Pará. A nota diz ainda que a Funai está planejando uma série de expedições terrestres e sobrevoos no local, a fim de avançar na etapa de localização geográfica referente ao registro de povo indígena isolado na área.

Ao Ministério da Defesa, perguntamos por que não houve atuação preventiva da Operação Verde Brasil para evitar as queimadas na Terra Indígena Ituna-Itatá, considerando que, pelo ciclo do desmatamento, retiradas da floresta, como a registrada ano passado, costumam ser seguidas pelo fogo; e se haveria equipes da Operação atuando na TI para conter os focos de incêndio. Não houve resposta.

Tudo é perigoso

A música Divino, Maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, veio à lembrança por causa da morte do jovem Caio Gomes Soares, atingido por uma bala perdida após levantar da cama para pegar um suco, por volta das 7h de ontem, no Catumbi, Rio de Janeiro. Faleceu nos braços da irmã, sem tempo de receber socorro. É uma canção de 1968, que faz parte do antológico disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses, do qual participaram também os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão e Gal Costa, que interpretou a canção da forma explosiva que viria a ser sua marca registrada.

“Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”. Atenção para a estrofe e para o refrão: a música fala do perigo ao dobrar uma esquina, do que pode cair do alto de uma janela, do cuidado ao pisar no asfalto e do sangue no chão. Não havia naquela época o perigo de levar um tiro por ir até a geladeira, para tomar um refrigerante, em certas localidades do Rio de Janeiro.

Um tiroteio entre traficantes e policiais no Morro da Coroa teria sido a origem do disparo que matou o jovem Caio, num bairro tradicional do Rio de Janeiro, muito próximo do centro histórico da cidade, um dos cenários de Memórias Póstumas de Brás Cubas. A obra de Machado de Assis inaugurou o nosso realismo, ao retratar a escravidão, as classes sociais, o cientificismo e o positivismo de sua época. Entre o Rio Comprido, Santa Teresa e o Estácio, hoje, o Catumbi não é mais um bairro abastado. É um território em frequente disputa entre traficantes e milicianos, principalmente por causa da proximidade do Morro de São Carlos, onde existe uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Polícia Militar fluminense, e o túnel Catumbi-Laranjeiras, de acesso à Zona Sul carioca, que o transformou num bairro de passagem.



Numa estatística macabra, desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o número de homicídios no Brasil não para de subir. Estamos perdendo novamente a batalha para a violência, resultado de uma política de segurança pública que facilita a venda de armas, estimula a justiça pelas próprias mãos e tolera a formação de milícias, fenômeno que está sendo exportado do Rio de Janeiro para os demais estados do país, sem que se tenha muita noção do perigo que isso representa.

Pesquisa divulgada neste fim de semana sobre a expansão de organizações criminosas no Rio revela que milícia e tráfico estão presentes em 96 dos 163 bairros da cidade, nos quais vivem 3,76 milhões de pessoas, do total de 6.747.815 habitantes da capital fluminense: 2,1 milhões de pessoas (33% da população) vivem em área sob o comando de milícias; 1,1 milhão de pessoas (18,2% da população) vivem em área dominada pelo Comando Vermelho; 337,2 mil pessoas (5,1% da população) vivem em área dominada pelo Terceiro Comando; 48,2 mil pessoas (0,7% da população) vivem em área dominada pelo Amigos dos Amigos.

Enquanto isso…

Em Brasília, a cúpula do Senado pressiona o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) para que se licencie do cargo, antes do julgamento da liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, que o suspendeu do mandato, previsto para amanhã, no plenário da Corte. O parlamentar foi flagrado pela Polícia Federal (PF) tentando esconder R$ 33,1 mil na cueca, durante operação de busca e apreensão em sua residência. Agora, alega que o dinheiro era destinado ao pagamento de funcionários e tenta justificar a sua posse, argumento que não cola na opinião pública, mas é a linha de defesa de seus advogados. Os senadores do grupo Muda Senado querem cassar seu mandado no Conselho de Ética, mas o presidente do órgão, senador Jayme Campos (DEM-MT), seu colega de partido, se recusa a convocar uma reunião do colegiado — prefere sugerir que Chico se licencie logo.

Por sua vez, Bolsonaro resolveu reiniciar sua campanha negacionista contra a obrigatoriedade do uso da vacina contra a covid-19: “Tem uma lei de 1975 que diz que cabe ao Ministério da Saúde o Programa Nacional de Imunização, ali incluídas possíveis vacinas obrigatórias. A vacina contra a covid — como cabe ao Ministério da Saúde definir esta questão — não será obrigatória”, disse, em cerimônia no Palácio do Planalto, para apresentação de pesquisa sobre um medicamento. Completou: “Qualquer vacina precisa ter comprovação científica e ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. Foi uma resposta ao governador de São Paulo, João Doria, que anunciou ontem a intenção de iniciar a vacinação contra a covid ainda neste ano. Uma vacina chinesa que está sendo testada pelo Instituto Butantan.

A história omitida

Ver a bela Taormina sem turistas é tristíssimo. As casas aparecem penduradas nas colinas como se prestes a despencar sobre um mar nublado; os hotéis, os bares, os restaurantes e as lojas choram de desgosto com seus donos e empregados de braços cruzados nas portas, esperando que os impossíveis os salvem da ruína. Mas em meio a essa desolação está essa força da natureza, Antonella Ferrara, que tornou possível este milagre: que o festival literário Taobuk se realize por mais um ano, e com Svetlana Aleksievitch, a jornalista bielorrussa que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, como convidada de honra. A cerimônia terá lugar no belíssimo teatro grego (que é, na realidade, romano), como sempre.

Embora adore Taormina, e a Sicília, estou aqui por Svetlana, sobretudo. Li este ano seu livro sobre Chernobyl (Vozes de Tchernóbil) e, acho que pela primeira vez na vida, tive vontade de conhecer sua autora e conversar com ela. A conversa foi frustrante porque ela fala só russo, além do bielorrusso, e andava com uma tradutora búlgara, o que não facilitava as coisas. É uma mulher muito simples, de 72 anos, que estudou e se dedicou ao jornalismo a vida toda e agora está com problemas com o chacal que aterroriza seu país há 26 anos – Alexander Lukashenko –, porque ela é um dos sete líderes do Conselho de Coordenação dirigido pela oposição contra a fraude eleitoral que ele perpetrou recentemente para se eternizar no poder. 

Depois de Taormina, Svetlana se refugiará na Alemanha porque teme ser detida em Minsk, onde reside. Em Vozes de Tchernóbil, e suponho que em suas outras reportagens publicadas em revistas e jornais, e depois compiladas em livros, ela dialoga com centenas de homens e mulheres sobre o fato central, e depois transforma aquelas conversas em monólogos de pessoas isoladas ou de grupo humanos, que vertem uma grande diversidade de opiniões e exibem um riquíssimo mostruário sobre o ocorrido – no caso de Chernobyl, a explosão de um dos quatro reatores da central nuclear –, que permitem ao leitor formar uma opinião a respeito ou, como neste caso, flutuar em um mar de dúvidas. 


O que se passou realmente naquela pequena cidade ucraniana muito perto da fronteira bielorrussa e russa, em 26 de abril de 1986, à uma hora e vinte e três minutos da madrugada, quando, por causa da explosão, ficaram destruídos o quarto bloco de energia e o edifício que o continha naquela central nuclear? 

Ficamos sabendo do ocorrido de um modo fragmentado: pela esposa, recém-casada, de um bombeiro, que é chamado para apagar o incêndio e que parte para lá do jeito que estava, de calça e camiseta regata. E pelos gatos apreensivos que subitamente deixam de comer os milhares de ratos mortos que aparecem nas ruas. A esposa do bombeiro voltará a encontrar o marido em um hospital de Moscou, dias mais tarde, agonizando, com o corpo coberto de chagas putrefatas, e os gatos de Chernobyl perecerão também, contaminados pelas radiações ou abatidos pelos soldadinhos encarregados de não deixar vivo na região nenhum animal que pudesse contaminar as pessoas. 

Assim vão aparecendo camponeses, professores, dirigentes políticos, adolescentes, idosos, médicos, historiadores, militares, pastores e esses estranhos ofícios surgidos do nada, os saqueadores, as dosimetristas, os liquidadores, e os avozinhos daquela menina aterrorizada que se enforcou. Eram os tempos de Gorbachov e da perestroika, e ele queria salvar o comunismo e a URSS, abrindo o diálogo e com lampejos de liberdade por todas as partes. Mas já era tarde demais, o comunismo e a URSS estavam mortos e enterrados, e as aparições do novo líder na televisão, acalmando os ânimos, garantindo que a normalidade havia sido restabelecida em Chernobyl, não mereciam crédito por parte de ninguém, principalmente daqueles que, na vastíssima zona afetada, continuavam se contaminando, adoecendo, morrendo, e as mulheres dando à luz crianças carecas, sem dedos, sem orelhas e sem olhos. As igrejas se enchiam de gente, e os comissários caiam em prantos com os corpos atacados pelos “rem” e os “roentgen”, que finalmente tinham aprendido a diferenciar, inutilmente. 

Poucas vezes li um livro tão impactante, que tão claramente apresentasse o porvir que nos espera se continuarmos tão suicidas e estúpidos a encher o mundo de centrais nucleares que poderiam nos fazer desaparecer, como as vítimas de Chernobyl, em uma carnificina mundial, da qual ninguém escaparia, salvo, talvez, algumas espécies de bactéria metade ser vivo, metade pedra. A mulher que o escreveu, Svetlana Aleksievitch, está diante de mim e não perdeu a razão escrevendo essas páginas explosivas. 

Come devagar, com certo apetite, afastando os véus que cobrem metade do seu rosto, e que, segundo as línguas viperinas, se devem às radiações que sofreu enquanto colhia aqueles materiais sobre Chernobyl. Não é verdade, claro. Tem o rosto limpo e diáfano. Passando pelo russo e o inglês, que ela mal arranha, lhe digo que seu livro me deixou desperto por várias noites, e ela me pergunta sobre os incas. Existe muita literatura sobre sua mitologia? Digo-lhe que sim, mas, como eles não conheciam a escrita, foram os cronistas espanhóis que recolheram os primeiros relatos sobre os deuses e milagres do Incario. Svetlana não conhece a América Latina e gostaria de ir lá, algum dia. 

Não lhe pergunto, claro, o que não se diz em seu livro e tampouco na esplêndida série que foi feita sobre ele, e que ninguém sabe, e que, claro, ninguém nunca saberá: o que exatamente aconteceu em Chernobyl naquela noite de espanto? Quem teve a culpa? Foi um erro humano? Foi uma máquina mal concebida? Por que explodiu aquilo que não deveria explodir de modo algum? Eram as perguntas que todos se faziam, a começar por Gorbachov, e que tanto no livro como no filme permanecem subjacentes a essa pesquisa extraordinária e quase perfeita da qual resultaram as Vozes de Tchernóbil. Perguntas que não têm resposta por uma razão óbvia, mas inexprimível. Ninguém sabe, ou melhor dizendo, todos sabem, mas não se pode nem se deve dizer. Por quê? Por uma razão muito simples: porque todos somos culpados ao mesmo tempo, por ação ou por inação.

Desde o funcionário de última categoria que falsificava suas informações para se dar valor e justificar seu trabalho até o diretor da central, que fazia o mesmo, e pelas mesmas razões que o último de seus empregadinhos, para fazer saber a seus chefes que ali, sim, as coisas eram bem conduzidas, porque havia alguém que sabia fazer seu trabalho etcétera. Todos alteravam a verdade um pouquinho, ou muito, porque não podiam fazer outra coisa sem se enfraquecer e se tornarem vulneráveis às sanções e à silenciosa luta contra todos, que era a vida dentro do sistema. Quem, o que falhou? Todos e ninguém, ninguém falhou, simplesmente aconteceu assim, e não é possível nem conveniente perder tempo tentando averiguar isso. 

O melhor – e nisso está a genialidade do livro e da série – é calar e tentar fazer frente às consequências do ocorrido, mesmo que seja suicidando-se, como aquele professor que explode os próprios miolos, depois de tirar os sapatos, como todas as noites. Despeço-me de Svetlana Aleksievitch dizendo-lhe que a admiro muito, que poucos escritores fizeram pela literatura deste tempo o que ela fez escrevendo um livro que acreditava ser apenas jornalismo.