Há pouco mais de um mês, Jair Bolsonaro admitiu o que realmente o aflige na pandemia do coronavírus. O presidente não está preocupado com a escalada da doença, a escassez de testes ou o risco de colapso nos hospitais. Ele só pensa na própria popularidade, que julga ameaçada pela retração econômica.
Aconselhado por empresários sem escrúpulos e por um Posto Ipiranga sem combustível, o capitão se convenceu de que a recessão fará sua base eleitoral derreter. Com isso, também iria pelo ralo o sonho do segundo mandato. “Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo”, desabafou, em entrevista à Rádio Bandeirantes.
Bolsonaro fez a declaração em 16 de março, véspera da primeira morte pela Covid-19 no país. Desde então, ele se lançou em campanha contra a ciência, a medicina e o consenso internacional em torno das medidas de isolamento. A cruzada culminou na demissão do ministro da Saúde, quando o país ultrapassava a marca de duas mil vítimas da infecção.
Para quem não consegue dimensionar a tragédia em curso, vale lembrar que o maior acidente aéreo em solo brasileiro, a queda de um Airbus da TAM em Congonhas, matou 199 pessoas. Em um mês, o coronavírus produziu um saldo de vítimas equivalente a dez aviões. Agora a conta cresce em ritmo superior a um avião por dia. Só na sexta-feira, foram 217 mortos.
Se tirasse os olhos do WhatsApp para examinar o noticiário internacional, Bolsonaro veria que seu cálculo está furado. Em países que devem sofrer uma retração econômica maior que a nossa, a popularidade dos governantes cresceu na pandemia. Isso ocorreu em países como Itália, França e Espanha, para os quais o FMI projeta quedas entre 7,2% e 9,1% do PIB. O tombo previsto para o Brasil é de 5,9%.
A aprovação de Conte, Macron e Sánchez cresceu porque os três apostaram em quarentenas rígidas. Com isso, indicaram que sua prioridade é salvar vidas, mesmo que isso retarde um pouco a retomada da economia. Os governos têm ferramentas para acelerar o crescimento, mas ainda não dispõem de meios para ressuscitar os mortos.
Ao empossar o novo ministro da Saúde, o capitão admitiu que sua estratégia tem um problema. “Essa briga de começar a abrir o comércio é um risco que eu corro, porque se agravar vem para o meu colo”, disse. Como sempre, Bolsonaro se referia ao risco de perder votos. O risco de perder a vida ele empurra para a população.
domingo, 19 de abril de 2020
Keynes ético
Descobriu-se que respirar e comer são igualmente importantes para a saúde e a vida, mas o oxigênio é mais urgente que a comida. Da mesma forma que na guerra em que a produção de armas e o salário dos soldados são mais urgentes do que a produção de automóveis e o salário dos operários. Por isso mesmo, passaram a chamar essas estratégias de economia de guerra. Este exemplo correto para os tempos da pandemia do coronavírus deveria servir para o momento posterior: uma economia de guerra para superar a persistência da pobreza. E enfrentar as outras epidemias que nos contaminam há séculos: 100 milhões de pessoas sem tratamento de esgoto, 35 milhões sem água, 12 milhões sem saber ler, 70 milhões sem educação de base, 13 milhões de desempregados, milhares com dengue, malária e sarampo. A economia de guerra adotada para enfrentar as consequências do coronavírus deve dar lugar a outra economia de guerra para enfrentar o “politicus vírus” que contamina as prioridades dos nossos gastos públicos.
Enquanto no keynesianismo tradicional dos países ricos o governo transfere renda para o beneficiado não produzir mercadoria, e o mercado oferece os bens privados para os pobres, que já contam com os serviços públicos básicos, no keynesianismo produtivo e social o governo promove incentivos sociais, transferência de renda condicionada à produção dos bens e serviços cuja oferta elimina a pobreza.
Passada a pandemia do coronavírus, o populismo vai defender a manutenção das atuais rendas criadas como emergência, sem aproveitar o poder mobilizador dessa transferência para que se produza o que os pobres precisam, em troca da renda. Mas, para que o pobre se beneficie plenamente, é preciso que o custo seja feito com responsabilidade. Quem defendeu a Ciência no enfrentamento da epidemia do coronavírus deve respeitar a aritmética fiscal, porque sem ela os pobres e os jovens pagarão depois o que receberem agora. Com a inflação e a dívida pública, como tem sido feito há décadas. Por isso, para ser eficiente e justo na guerra pela abolição da pobreza, o keynesianismo ético deve ser produtivo, social e responsável.
Homo strepitans
E por acaso ele se cala? Por acaso considera o excepcional desses dias a ponto de conter sua natureza estrepitosa? Considera nada, cala-se nada. Veja os da prefeitura, mal o sol nasce, pondo uma serra elétrica para rasgar o ar da manhã bem debaixo das nossas janelas. O vizinho fazendo um prédio inteiro de gente confinada amargar o gemido da sua furadeira. Do outro lado da rua, faz já quatro dias, alguém corta um piso de cerâmica com outra serra. Então esse trabalho de estorvar lhes vale a vida? Querem se sobrepor ao nosso silêncio, querem arranhar toda pretensão de paz alheia, ensurdecer a alegria incomum dos pássaros nas tardes incomumente despoluídas. Parece um impulso tão colado a esse homem que já faz parte constitutiva de seu ser. Não é o excesso de energia sem vazão de uma criança a jogar bola dentro de um apartamento, não é a fome da alma em lançar música aos quatro ventos, não é de vida represada esse barulho da cidade aparentemente sem movimento. É de uma suprema indiferença. De um diabólico prazer, talvez. Que lhe interessam os céus de repente estonteantes de vermelhos e lilases? Ele não irá parar por nada, a menos que o corpo não aguente. “Viva a cloroquina!”, gritavam os que faziam festa, semana passada, na casa da esquina. O deboche dessa gente comparsa da morte aliciando seu exército de suicidas. Gritam, grunhem, profissionais dos infernos, produzem a trilha sonora da nossa loucura num diligente envenenamento. Se a paz não for de todos, não será de ninguém, é o que parecem dizer também. Que esses dias, afinal, são de guerra, mesmo dentro da primeira manhã cheia de pássaros. Ele, esse homem-serra, homem-martelo, indiferente, está aí para nos lembrar que, sim, mal amanhece, é guerra.
Bolsonaro contra todos
Mas o risco não é dele, não, o risco é nosso, de todo o povo brasileiro, especialmente daqueles mais pobres que supostamente estaria defendendo. Na sua cruzada contra os governadores e os demais poderes da República, Bolsonaro acusa o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de querer derrubá-lo em conluio com o Supremo Tribunal Federal.
Já havia se lamentado publicamente pelo fato de o STF ter dado aos governadores e prefeitos autonomia para definir regras de defesa sanitária em seus estados e municípios. Num populismo descarado, critica as medidas repressivas dos governos, para fazer com que os recalcitrantes cumpram o isolamento social ficando em casa.

As autoridades têm o poder, dado pela Constituição, de tomar medidas legais contra aqueles que põem em risco a vida da coletividade, tanto que o Código Penal considera crime “infringir determinação do poder publico destinada a impedir a introdução ou propagação de doenças contagiosas”.
Embora ressalvasse que não estava querendo incentivar a desobediência civil, incentivou na prática ao dizer que “prisões ilegais devem ser rechaçadas”. Talvez tenha sido um mero erro de português, mas não há maneira de rechaçar uma ação repressora sem um enfrentamento.
Bolsonaro posa de defensor dos direitos individuais, logo ele, que defende a tortura e a ditadura, vem agora falar em direito de ir e vir, em liberdades individuais. Não passa de uma jogada política arriscadíssima dele, que resolveu acelerar o processo de confronto com os outros poderes da República.
Claramente, sente a necessidade de se impor diante dos outros poderes, e não se conforma com a ideia de que existem limites numa democracia. A briga com o Congresso já é muito longa, mas na quinta-feira, em entrevista à CNN, sugeriu que o deputado Rodrigo Maia queria uma negociação na base da corrupção, e que o Congresso só o deixa trabalhar se fizer concessões não republicanas.
Com isso, joga o povo contra o Congresso e os governadores, numa disputa política que pode nos levar a um beco sem saída. Na democracia, não há como governar contra todas as instituições e todos os poderes. Creio que o espírito reformista continuará prevalecendo, mas o caminho que Bolsonaro está escolhendo para negociar com o Congresso indica mais um erro de estratégia.
Ele está chamando ao Planalto líderes do centrão, oferecendo cargos em troca de apoio parlamentar. Dificilmente conseguirá montar uma maioria estável dessa maneira, e talvez já seja tarde demais para isso. A previsão de que o pico da pandemia ainda está por vir fragiliza sua tentativa de abrir a economia em curto prazo, pois esse gesto temerário poderá deteriorar ainda mais sua imagem pública.
A perspectiva de crescimento do número de infectados e de mortes isolará o país se oficializarmos uma política sanitária contrária às orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). O presidente Bolsonaro falou em abrir as fronteiras do país, mas do jeito que as coisas vão, temo que os países fronteiriços é que controlarão a entrada e saída pelo Brasil, com receio da medidas de relaxamento sanitário.
Uma coisa é preparar um planejamento para a volta gradativa à normalidade, outra é decidir esse passo sem cumprir as exigências mínimas da própria OMS, que prevê capacidade do sistema de saúde de testagem para controle da transmissão; minimizar surtos em asilos de idosos; administrar a importação dos casos; engajamento da sociedade e prevenção no trabalho e escolas.
Caso aconteça uma saída da quarentena não negociada com toda a sociedade, e apoiada pela maioria, estaremos diante de um impasse constitucional, pois nem o Congresso nem o Supremo aprovarão. Impasse fomentado por Bolsonaro com segundas intenções – de ganhar cada vez mais poderes.
Mortos não dão voto
Mil óbitos são tão importantes como se fossem 200.000. Não podemos minimizar essa situaçãoCarmen Zanotto (Cidadania-SC)
Um governo ainda pior do que parece
São tantos e tão frequentes os disparates e impropérios ditos pelo presidente Jair Bolsonaro que o país passou a considerá-los normais. Mesmo multiplicadas nestes tempos de coronavírus, as asneiras diárias já nem mais espantam. Mas conseguem, como se calculadas fossem, encobrir o quanto o governo é inepto, pernicioso, ruim.
A gravidade da Covid-19 – 2,2 milhões de infectados e 160 mil mortos no mundo, 2,2 mil no Brasil em apenas um mês, hospitais abarrotados e falta generalizada de equipamentos -, somada aos desatinos cotidianos do presidente, costuma ocupar quase 100% do noticiário. Deixam em segundo plano, longe dos holofotes ou relegados ao pé de página, os absurdos praticados no dia a dia de seu governo.
A começar pela mentira deslavada do presidente quanto à recuperação econômica, que já não acontecia antes do vírus. Afirmar que “estávamos praticamente voando no último trimestre” é desfaçatez, burrice ou ambos. O PIB de 2019 foi de apenas 1,1%, muito aquém do que o seu Posto Ipiranga prometia entregar. E o primeiro trimestre deste ano fechou em março, mês já impactado pelo coronavírus.
O problema é o resto.
Enquanto o país dirigia os olhos para a exoneração de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o governo demitia o presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, que vinha combatendo o esvaziamento do Conselho. Três dias antes, o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, afastava Olivaldi Azevedo, diretor do Ibama, que conduzia uma megaoperação contra madeireiros ilegais em reservas indígenas no sul do Pará.
Na área ambiental são desastres atrás de desastres.
Números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que os alertas de desmatamento na floresta amazônica cresceram 29,9% em março. Uma terra arrasada que alcança 326,51 km² contra 251,3 km² do mesmo mês do ano passado. Também em março, dois jovens morreram baleados em um garimpo ilegal em Aripuanã, a 976 km de Cuiabá. Por lá testemunhas afirmam que a fiscalização faz corpo mole porque aguarda a legalização da área.
É preciso seguir as recomendações ditadas pela ciência, é preciso ficar em casa para reduzir a velocidade de contágio do vírus e evitar a explosão do sistema de saúde. Mas é igualmente preciso manter o índice de indignação. Não deixar a barbaridade ser tratada com complacência e impedir que o desatino seja corriqueiro, normal.
Acima de tudo é preciso estar sempre alerta para não sucumbir diante de um governo obtuso, que tem a desconstrução e o ódio como balizas. Não só no combate à Covid-19, mas em todas as áreas.
A gravidade da Covid-19 – 2,2 milhões de infectados e 160 mil mortos no mundo, 2,2 mil no Brasil em apenas um mês, hospitais abarrotados e falta generalizada de equipamentos -, somada aos desatinos cotidianos do presidente, costuma ocupar quase 100% do noticiário. Deixam em segundo plano, longe dos holofotes ou relegados ao pé de página, os absurdos praticados no dia a dia de seu governo.
A começar pela mentira deslavada do presidente quanto à recuperação econômica, que já não acontecia antes do vírus. Afirmar que “estávamos praticamente voando no último trimestre” é desfaçatez, burrice ou ambos. O PIB de 2019 foi de apenas 1,1%, muito aquém do que o seu Posto Ipiranga prometia entregar. E o primeiro trimestre deste ano fechou em março, mês já impactado pelo coronavírus.
A lorota ajuda Bolsonaro a manter o discurso de que a economia pode matar mais do que o vírus, assim como outras sandices - “tem de enfrentar o vírus, não adianta se acovardar, ficar em casa” - o auxiliam a manter o ibope junto ao seu público. Servem ainda para exacerbar a personalidade egocêntrica, alguém incapaz de enxergar além de seu umbigo, nem quando a vida das pessoas está em jogo. “É um risco que corro. Se agravar, vem para o meu colo.”
Felizmente, as instituições, Justiça e Parlamento, e a sociedade têm posto freio no presidente em todas as aloprações que dizem respeito ao coronavírus.
O problema é o resto.
Enquanto o país dirigia os olhos para a exoneração de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o governo demitia o presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, que vinha combatendo o esvaziamento do Conselho. Três dias antes, o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, afastava Olivaldi Azevedo, diretor do Ibama, que conduzia uma megaoperação contra madeireiros ilegais em reservas indígenas no sul do Pará.
Para confirmar a sequência de absurdos que regem o bolsonarismo, os dirigentes foram expurgados por excesso de competência, algo incompatível com esse governo.
Na área ambiental são desastres atrás de desastres.
Números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que os alertas de desmatamento na floresta amazônica cresceram 29,9% em março. Uma terra arrasada que alcança 326,51 km² contra 251,3 km² do mesmo mês do ano passado. Também em março, dois jovens morreram baleados em um garimpo ilegal em Aripuanã, a 976 km de Cuiabá. Por lá testemunhas afirmam que a fiscalização faz corpo mole porque aguarda a legalização da área.
Em fevereiro, Bolsonaro assinou projeto de lei autorizando a mineração e a geração de energia em reservas indígenas. Na época, disse que se pudesse confinaria ambientalistas na região amazônica para que eles deixassem “de atrapalhar os amazônidas de dentro das áreas urbanas”. Já defendera na sua live semanal que o índio tinha evoluído, cravando a máxima: “Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.
Pouca atenção se dará também ao fato de Bolsonaro ter revogado portarias do Comando Logístico do Exército (Colog) de rastreamento, identificação e marcação de armas de fogo e munições. A canetada supressiva endereçada a um restritíssimo grupo de fãs do clã, serve como luva ao crime organizado, interessado em ocultar a origem de sua artilharia. Mas teve destaque no Twitter do presidente e de seus filhos, como se fosse algo de grande valia para os brasileiros.
É preciso seguir as recomendações ditadas pela ciência, é preciso ficar em casa para reduzir a velocidade de contágio do vírus e evitar a explosão do sistema de saúde. Mas é igualmente preciso manter o índice de indignação. Não deixar a barbaridade ser tratada com complacência e impedir que o desatino seja corriqueiro, normal.
Acima de tudo é preciso estar sempre alerta para não sucumbir diante de um governo obtuso, que tem a desconstrução e o ódio como balizas. Não só no combate à Covid-19, mas em todas as áreas.
Problemas grandes, líderes pequenos
Henry Kissinger pensa que o mundo não será o mesmo depois do coronavírus. “Estamos passando por uma mudança de época”, diz o famoso diplomata, para depois nos alertar que “o desafio histórico para os líderes de hoje é gerir a crise e ao mesmo tempo construir o futuro. Seu fracasso nessa tarefa pode incendiar o mundo.”
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a relação entre as grandes potências nunca foi tão disfuncional quanto agora, acrescentando que o coronavírus “está revelando dramaticamente que devemos nos unir e trabalhar juntos ou seremos derrotados pela pandemia”. Segundo Martin Wolf, o prestigioso colunista inglês: “Esta é a maior crise que o mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial e também é o desastre econômico mais grave desde a depressão dos anos trinta. O mundo chegou a este momento quando existem enormes divisões entre as grandes potências e quando o nível de incompetência nos mais altos níveis governamentais é espantoso”.
Há muitas coisas que não sabemos. Quando teremos uma vacina? Qual será o impacto do vírus nos países pobres onde a superlotação é a norma e ficar em casa sem trabalhar é impossível? O que acontece se a covid-19 vai e vem em diferentes ondas? Mas a pergunta mais preocupante é se aqueles que nos governam estarão à altura. Martin Wolf conclui: “Não conhecemos o futuro. Mas sabemos como deveríamos tentar moldá-lo. Conseguiremos fazer isso? Essa é a pergunta. Tenho muito medo da resposta”.
Falar mal dos líderes políticos é normal. Assim como criticar sua gestão. Mas é preciso ter cuidado com o desdém pelos Governos. A disputa política faz com que a inaptidão e a corrupção daqueles que nos governam sejam exageradas. Governar, vamos reconhecer, é difícil, e está ficando cada vez mais difícil. O poder se tornou mais fácil de obter, mas também mais difícil de usar e, portanto, mais fácil de perder. Às vezes parece que não há como um líder sair bem depois de dirigir um país. Em vez disso, vemos frequentemente líderes honestos e bem-intencionados cujas reputações foram massacradas por seus críticos. E, como sabemos, neste século os ataques políticos são potencializados pelas redes sociais, os bots, os trolls e outras ervas daninhas cibernéticas. É aconselhável sermos cautelosos e prudentes ao criticar nossos governantes.
Quando a crise financeira global eclodiu em 2008, quem estava no comando do G20 era Gordon Brown, o então primeiro-ministro britânico. Este ano é a vez do rei da Arábia Saudita, que devido à idade avançada e saúde precária delegou o papel ao filho Mohammad bin Salman. Sim, ele mesmo. O que mandou esquartejar um jornalista que o criticava. Este é o líder que deve convocar, mobilizar e coordenar a comunidade internacional para enfrentar o coronavírus e suas consequências econômicas.
Nos EUA, o Conselho Nacional de Economia é a principal fonte de ideias e políticas econômicas do presidente. Desde a sua criação, em 1993, foi liderado por alguns dos economistas norte-americanos de maior prestígio. Donald Trump nomeou Lawrence Kudlow, cuja credencial mais conhecida para o cargo foi ter sido comentarista de assuntos econômicos na televisão. Este não é um caso isolado. O Governo Trump não se destaca pela capacidade e experiência de seus altos funcionários.
Na Europa o panorama em relação à confiança suscitado pelos que hoje estão no poder tampouco é muito inspirador. Uma das coisas de que precisamos dos governantes nestes tempos é que tenham bom senso. Quanta certeza sobre o futuro dão a você as ações e o bom senso mostrado até agora por Boris Johnson, Viktor Orbán, Pedro Sánchez, Pablo Iglesias e Luigi Di Maio? No mundo em desenvolvimento, Jair Bolsonaro, Andrés Manuel López Obrador e Daniel Ortega estão no noticiário por terem negado a pandemia; o presidente filipino, Rodrigo Duterte, por ter ameaçado matar aqueles que não respeitassem a quarentena, e Narendra Modi por usar a desculpa do vírus para aprofundar a discriminação contra os muçulmanos na Índia.
Não quero romantizar o passado, nem sugerir que os líderes de antes sempre foram melhores. Houve de tudo. Tivemos Hitler e Churchill, Mao e Mandela. Mas não há dúvida de que essa pandemia surpreendeu o mundo em momentos de grande fragilidade institucional. As crises fecham muitas portas, mas também abrem outras. Esta crise terá muitas consequências inesperadas. Talvez uma delas seja uma forte reação contra os governantes pequenos e a chegada de líderes que estejam à altura dos grandes problemas que temos.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a relação entre as grandes potências nunca foi tão disfuncional quanto agora, acrescentando que o coronavírus “está revelando dramaticamente que devemos nos unir e trabalhar juntos ou seremos derrotados pela pandemia”. Segundo Martin Wolf, o prestigioso colunista inglês: “Esta é a maior crise que o mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial e também é o desastre econômico mais grave desde a depressão dos anos trinta. O mundo chegou a este momento quando existem enormes divisões entre as grandes potências e quando o nível de incompetência nos mais altos níveis governamentais é espantoso”.
Há muitas coisas que não sabemos. Quando teremos uma vacina? Qual será o impacto do vírus nos países pobres onde a superlotação é a norma e ficar em casa sem trabalhar é impossível? O que acontece se a covid-19 vai e vem em diferentes ondas? Mas a pergunta mais preocupante é se aqueles que nos governam estarão à altura. Martin Wolf conclui: “Não conhecemos o futuro. Mas sabemos como deveríamos tentar moldá-lo. Conseguiremos fazer isso? Essa é a pergunta. Tenho muito medo da resposta”.
Falar mal dos líderes políticos é normal. Assim como criticar sua gestão. Mas é preciso ter cuidado com o desdém pelos Governos. A disputa política faz com que a inaptidão e a corrupção daqueles que nos governam sejam exageradas. Governar, vamos reconhecer, é difícil, e está ficando cada vez mais difícil. O poder se tornou mais fácil de obter, mas também mais difícil de usar e, portanto, mais fácil de perder. Às vezes parece que não há como um líder sair bem depois de dirigir um país. Em vez disso, vemos frequentemente líderes honestos e bem-intencionados cujas reputações foram massacradas por seus críticos. E, como sabemos, neste século os ataques políticos são potencializados pelas redes sociais, os bots, os trolls e outras ervas daninhas cibernéticas. É aconselhável sermos cautelosos e prudentes ao criticar nossos governantes.
Tenho tudo isso em mente ao pensar nos líderes que estão no comando do mundo hoje. Apesar dessa cautela, no entanto, é inevitável concluir que o atual grupo de líderes é, de fato, com algumas exceções, patético e perturbador.
Quando a crise financeira global eclodiu em 2008, quem estava no comando do G20 era Gordon Brown, o então primeiro-ministro britânico. Este ano é a vez do rei da Arábia Saudita, que devido à idade avançada e saúde precária delegou o papel ao filho Mohammad bin Salman. Sim, ele mesmo. O que mandou esquartejar um jornalista que o criticava. Este é o líder que deve convocar, mobilizar e coordenar a comunidade internacional para enfrentar o coronavírus e suas consequências econômicas.
Nos EUA, o Conselho Nacional de Economia é a principal fonte de ideias e políticas econômicas do presidente. Desde a sua criação, em 1993, foi liderado por alguns dos economistas norte-americanos de maior prestígio. Donald Trump nomeou Lawrence Kudlow, cuja credencial mais conhecida para o cargo foi ter sido comentarista de assuntos econômicos na televisão. Este não é um caso isolado. O Governo Trump não se destaca pela capacidade e experiência de seus altos funcionários.
Na Europa o panorama em relação à confiança suscitado pelos que hoje estão no poder tampouco é muito inspirador. Uma das coisas de que precisamos dos governantes nestes tempos é que tenham bom senso. Quanta certeza sobre o futuro dão a você as ações e o bom senso mostrado até agora por Boris Johnson, Viktor Orbán, Pedro Sánchez, Pablo Iglesias e Luigi Di Maio? No mundo em desenvolvimento, Jair Bolsonaro, Andrés Manuel López Obrador e Daniel Ortega estão no noticiário por terem negado a pandemia; o presidente filipino, Rodrigo Duterte, por ter ameaçado matar aqueles que não respeitassem a quarentena, e Narendra Modi por usar a desculpa do vírus para aprofundar a discriminação contra os muçulmanos na Índia.
Não quero romantizar o passado, nem sugerir que os líderes de antes sempre foram melhores. Houve de tudo. Tivemos Hitler e Churchill, Mao e Mandela. Mas não há dúvida de que essa pandemia surpreendeu o mundo em momentos de grande fragilidade institucional. As crises fecham muitas portas, mas também abrem outras. Esta crise terá muitas consequências inesperadas. Talvez uma delas seja uma forte reação contra os governantes pequenos e a chegada de líderes que estejam à altura dos grandes problemas que temos.
A fome como bandeira nas janelas da Colômbia
Nestes dias de cidades adormecidas e silenciosas, as janelas dos bairros mais pobres da Colômbia gritam por ajuda. Pedaços de pano, fantasias infantis ou camisetas vermelhas foram amarrados em paus e pendurados como bandeiras, como o mais doloroso SOS da pobreza e da fome.
Começou em Soacha, nos arredores de Bogotá, o lugar onde moram cerca de 50.000 deslocados pelo conflito armado; o município onde anos atrás o Exército pegou um grupo de garotos pobres, vestiu-os como guerrilheiros e os assassinou; a cidade onde residem milhares de migrantes venezuelanos e na qual 36% da população vive em extrema pobreza. Soacha é hoje, na esteira do coronavírus, um enorme amontoado de trapos vermelhos.
“Se você vê um pano vermelho na porta de seu vizinho, isso significa um pedido de solidariedade”, diz um anúncio da prefeitura de Soacha, idealizadora dessa estratégia, que revela a desigualdade do confinamento.
− Boa tarde, vizinha − diz uma mulher no vídeo da campanha, aproximando-se de dois idosos. − É que vi seu paninho vermelho e trouxe uma ajudinha.
− Obrigado, que Deus a abençoe − responde outra, que beija um saco de arroz.
A Colômbia é um país patriota. A bandeira é exibida por todo motivo: nas celebrações da independência do país, nos feriados, nas vitórias da seleção. Assim que o coronavírus começou a se espalhar, María Juliana Ruíz, mulher do presidente Iván Duque, pediu que a população pendurasse na janela a bandeira tricolor em sinal de entusiasmo para superar a pandemia. Mas a realidade transformou os panos vermelhos na bandeira que tremula agora. Basta olhar o edifício da Praça La Hoja, no centro de Bogotá. Um prédio de 14 andares onde vivem vítimas do conflito armado cujas janelas estão infestadas de trapos vermelhos, como se fossem um grande grito de fome.
A imagem se repete nos bairros populares de Medellín, onde soam os panelaços e a pessoas saem com bandeiras brancas pintadas de vermelho; na quente Ciénaga (no departamento de Magdalena), no norte do país; ou nas ladeiras confusas da área de Ciudad Bolívar, na capital, onde têm ocorrido protestos populares e repressão policial. Ou no bairro de Bosa Porvenir, também em Bogotá, onde dezenas de pessoas tiraram os panos vermelhos das janelas e saíram com eles às ruas para protestar, agitando-os e cantando o hino da Colômbia. “Somos uma família de nove pessoas e não estamos em nenhuma lista do Governo, tenho uma mulher grávida e duas crianças em casa e não tenho nada para alimentá-las. Por isso estou aqui”, dizia uma mulher enquanto sacudia uma camisa vermelha de pontos brancos.
O ponto em comum é que nessas casas residem pessoas que geralmente vivem de bicos, na informalidade − como 45% dos colombianos −, e com a quarentena obrigatória não podem sair para buscar seu sustento. Como disse o prefeito de Soacha, Juan Carlos Saldarriaga, “podem morrer mais pessoas de fome do que pelo coronavírus”. Mas não são as únicas a usar os panos vermelhos. A prefeitura de Envigado, o município mais rico da Colômbia, pendurou um na entrada de sua sede administrativa. “Nós nos unimos a essa iniciativa popular para pedir uma ajuda mais ágil do Governo nacional e dos empresários”, disse o prefeito Braulio Espinosa.
A chamada “estratégia do pano vermelho”, para promover a solidariedade entre a população, é em si mesma um sinal de protesto. O Governo de Iván Duque anunciou um subsídio de 160.000 pesos (210 reais) e a prefeitura de Bogotá, um de 423.000 pesos (524 reais) a 350.000 famílias. Essa ajuda não foi oferecida a todos os necessitados e, para aqueles que a receberam, o prolongamento da quarentena faz com que seja insuficiente. “Quando íamos chegando, as pessoas gritavam: ‘Chegou o pessoal do censo, ponham o pano vermelho para ver se nos dão alguma coisa’”, contou um jovem funcionário da prefeitura de Bogotá que esteve nas ruas de terra de Cazucá, em Ciudad Bolívar. Lá, como em muitos cantos da Colômbia, os mais vulneráveis parecem estar presos entre duas lajes de cimento que os vão deixando sem ar.
Como ocorre com os símbolos que nascem do povo, os caminhos do pano vermelho são imprevisíveis. Algumas vezes, lembra o velho pano dessa cor que identificava os liberais na Colômbia. Outras vezes, essa ideia de identificar as moradias traz à memória a letra D, de demolição, que o Governo chavista de Nicolás Maduro pintava nas casas dos colombianos deportados da Venezuela.
Assim como o lenço branco das mães da Praça de Maio na Argentina e o verde do direito das mulheres de decidir, o pano vermelho caminha para se tornar a bandeira da desigualdade que ficou exposta com o coronavírus e ultrapassa as fronteiras da Colômbia.
Começou em Soacha, nos arredores de Bogotá, o lugar onde moram cerca de 50.000 deslocados pelo conflito armado; o município onde anos atrás o Exército pegou um grupo de garotos pobres, vestiu-os como guerrilheiros e os assassinou; a cidade onde residem milhares de migrantes venezuelanos e na qual 36% da população vive em extrema pobreza. Soacha é hoje, na esteira do coronavírus, um enorme amontoado de trapos vermelhos.
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| Em Bogotá, janelas exibem panos vermelhos como pedido de ajuda |
− Boa tarde, vizinha − diz uma mulher no vídeo da campanha, aproximando-se de dois idosos. − É que vi seu paninho vermelho e trouxe uma ajudinha.
− Obrigado, que Deus a abençoe − responde outra, que beija um saco de arroz.
A Colômbia é um país patriota. A bandeira é exibida por todo motivo: nas celebrações da independência do país, nos feriados, nas vitórias da seleção. Assim que o coronavírus começou a se espalhar, María Juliana Ruíz, mulher do presidente Iván Duque, pediu que a população pendurasse na janela a bandeira tricolor em sinal de entusiasmo para superar a pandemia. Mas a realidade transformou os panos vermelhos na bandeira que tremula agora. Basta olhar o edifício da Praça La Hoja, no centro de Bogotá. Um prédio de 14 andares onde vivem vítimas do conflito armado cujas janelas estão infestadas de trapos vermelhos, como se fossem um grande grito de fome.
A imagem se repete nos bairros populares de Medellín, onde soam os panelaços e a pessoas saem com bandeiras brancas pintadas de vermelho; na quente Ciénaga (no departamento de Magdalena), no norte do país; ou nas ladeiras confusas da área de Ciudad Bolívar, na capital, onde têm ocorrido protestos populares e repressão policial. Ou no bairro de Bosa Porvenir, também em Bogotá, onde dezenas de pessoas tiraram os panos vermelhos das janelas e saíram com eles às ruas para protestar, agitando-os e cantando o hino da Colômbia. “Somos uma família de nove pessoas e não estamos em nenhuma lista do Governo, tenho uma mulher grávida e duas crianças em casa e não tenho nada para alimentá-las. Por isso estou aqui”, dizia uma mulher enquanto sacudia uma camisa vermelha de pontos brancos.
O ponto em comum é que nessas casas residem pessoas que geralmente vivem de bicos, na informalidade − como 45% dos colombianos −, e com a quarentena obrigatória não podem sair para buscar seu sustento. Como disse o prefeito de Soacha, Juan Carlos Saldarriaga, “podem morrer mais pessoas de fome do que pelo coronavírus”. Mas não são as únicas a usar os panos vermelhos. A prefeitura de Envigado, o município mais rico da Colômbia, pendurou um na entrada de sua sede administrativa. “Nós nos unimos a essa iniciativa popular para pedir uma ajuda mais ágil do Governo nacional e dos empresários”, disse o prefeito Braulio Espinosa.
A chamada “estratégia do pano vermelho”, para promover a solidariedade entre a população, é em si mesma um sinal de protesto. O Governo de Iván Duque anunciou um subsídio de 160.000 pesos (210 reais) e a prefeitura de Bogotá, um de 423.000 pesos (524 reais) a 350.000 famílias. Essa ajuda não foi oferecida a todos os necessitados e, para aqueles que a receberam, o prolongamento da quarentena faz com que seja insuficiente. “Quando íamos chegando, as pessoas gritavam: ‘Chegou o pessoal do censo, ponham o pano vermelho para ver se nos dão alguma coisa’”, contou um jovem funcionário da prefeitura de Bogotá que esteve nas ruas de terra de Cazucá, em Ciudad Bolívar. Lá, como em muitos cantos da Colômbia, os mais vulneráveis parecem estar presos entre duas lajes de cimento que os vão deixando sem ar.
Como ocorre com os símbolos que nascem do povo, os caminhos do pano vermelho são imprevisíveis. Algumas vezes, lembra o velho pano dessa cor que identificava os liberais na Colômbia. Outras vezes, essa ideia de identificar as moradias traz à memória a letra D, de demolição, que o Governo chavista de Nicolás Maduro pintava nas casas dos colombianos deportados da Venezuela.
Assim como o lenço branco das mães da Praça de Maio na Argentina e o verde do direito das mulheres de decidir, o pano vermelho caminha para se tornar a bandeira da desigualdade que ficou exposta com o coronavírus e ultrapassa as fronteiras da Colômbia.
A chance desperdiçada
Onde você estava e o que fez quando o coronavírus matou tanta gente?Bolsonaro desperdiçou a chance de poder responder que estava na presidência e que liderou o país na penosa luta contra o maior flagelo que se abateu sobre a humanidade neste início de século
Agora é pra valer

Quem fica mais nu a cada dia não é apenas o chefe da nação que se pensava rei — é o Brasil cru, sem fantasia, que vai emergir da pandemia. “Vai ser a devastação de uma raça chamada favela”, alerta Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (Cufa), do Data Favela e da FHolding. Athayde nada tem de incendiário. Ele se faz ouvir por conhecer o universo do qual fala. Em recente entrevista ao “Jornal do Commercio”, elencou as duas únicas opções para os 13,5 milhões que moram em favelas no Brasil — correr ou morrer afogado. “A favela está se contaminando. É gente que não pode parar, mas que ninguém vê...”, disse, referindo-se à base da pirâmide de serviços essenciais sem a qual o resto do país em quarentena entra em colapso. Athayde preferiria não falar de convulsão social, mas adverte que “as pessoas não vão morrer de sede do lado de uma caixa d’água porque ela tem dono”. E conclui: “A pior crise é a crise de perspectiva. A favela não quer desordem, sabe que é ela quem vai tomar o tiro de borracha. Mas ela perde a capacidade de sonhar. Por não ter mais nada, vai fazer o quê?”
Uma amostra do horizonte social se estreitando pode ser visto na tumultuada disponibilização do auxílio emergencial de R$ 600 para os trabalhadores informais mais vulneráveis. Pela previsão inicial do governo, o total de beneficiados alcançaria 51,4 milhões, número já corrigido para mais de 70 milhões, ou 40% da força de trabalho nacional em idade adulta. É tentacular o tamanho desse Brasil carente de rede de amparo que agora sai da invisibilidade e se posta em filas de até 10 horas em frente a agências da Caixa Econômica Federal. É todo um povo fora dos cadastros do governo, ou cujos dados são precários, irregulares, e que sempre viveu na berlinda da cidadania. Uma parcela de povo que tinha mais o que fazer do que regularizar sua pendência eleitoral. Voto obrigatório também dá nisso.
A operação de fazer chegar R$ 600 a esse mundão invisível é das mais complexas, sem dúvida. Como supor que ela seria alcançável apenas via internet, realizável através do preenchimento de um aplicativo de cadastramento? Na aflição de perder a vez, quem ficou horas tentando contornar as dificuldades do sistema tratou de se garantir correndo inutilmente para agências físicas da Caixa e da Receita, formando muralhas humanas hospitaleiras ao vírus. Quem sempre recebeu migalhas confia pouco em promessas.
Mais tarde do que cedo, o fluxo emergencial haverá de se regularizar, mas até lá a Covid-19, nascida na China mais de quatro meses atrás e aportada no Brasil em fevereiro, terá feito outras tantas vítimas. Que haverão de se somar ao passivo social da era anterior ao coronavírus — entre outros, uma fila de espera no INSS de 1,6 milhão de pedidos de benefícios aguardando análise.
O temido colapso das redes públicas de saúde agora bate com impiedade à porta do Brasil. Metade dos leitos de UTI do país, ou quase a metade, está instalada em hospitais privados. Considerando-se que 75% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS, e que é esta faixa da população que começa a ser ceifada pelo vírus, a tragédia anunciada se instala pra valer.
A história já comprovou que ser humano (do verbo ser, não do substantivo “ser humano”) é uma atividade coletiva. Veremos o quanto. A partir desta semana a brutalidade da disseminação da Covid-19 no Brasil começa a exibir suas entranhas. Com a nau em Brasília em modo disfuncional.
O dia seguinte
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| Peste (1898), Arnold Bocklin |
As pessoas se lançaram aos supermercados em uma debandada de guerra nuclear. Eu também vou. Para comprar areia para o banheiro das gatas. Não há fila porque é um supermercado chinês, mas estaria igualmente vazio se fosse de italianos ou de espanhóis, só que os chineses têm a má sorte que a nacionalidade se note em seus rostos. À noite eu telefono para o meu pai. Ele está furioso. Ele é apenas 19 anos mais velho do que eu. Diz que meu irmão e seus funcionários querem trancá-lo em casa por medo de que os contagie. Digo a ele que não é por eles, mas por ele, que é ele que não deve ser infectado. Ele grita, indignado: “Eles têm medo, eu não! É uma guerra contra os velhos, um vírus perfeito para aniquilar estorvos”. Penso naquela frase que martelam: “É perigoso para os idosos, não tanto para os jovens”, no alívio que muitos devem sentir ao pensar “Ah, eu tenho 45, 32, 20”. Nos “salvos?” pelo acaso das datas. Tudo o que parecia sólido é menos sólido do que o ar.
Até dias atrás falávamos do avanço da direita, da xenofobia, do nacionalismo, de Trump e de Bolsonaro como as bestas negras. Agora, em um cenário de guerra química, nas varandas da Itália o hino nacional é cantado e até os mais hereges se sentem transtornados de patriotismo, atordoados de emoção, cantando “Estamos prontos para morrer, a Itália chamou”. Os cidadãos clamam a seus Governos que lhes impeçam de viajar, que os vigiem, que fechem as fronteiras, que expulsem os estrangeiros, que a polícia patrulhe. A quarentena obrigatória transformou a delação em orgulho cidadão, a suspeita em solidariedade: “Denunciou o vizinho porque não cumpria a quarentena”. O confinamento é vivido como alívio, o controle social como dever. A distância com o outro como “sinal de amor”.
“Isto é uma marca da peste”, dizia meu avô quando lhe perguntava sobre um buraco que tinha na testa. Ele era sírio. Na Síria tivera “a peste negra”. É provável que tenha sido a mesma que matou a família da minha avó, também síria, que uma manhã de seus 12 anos, foi à missa –eram cristãos ortodoxos– e, quando voltou, “um ar ruim tinha vindo” e descobriu que os irmãos e a mãe estavam mortos. Para salvá-la, a avó a colocou em um navio com destino à Argentina e nunca mais souberam uma da outra. Ela falava daquela manhã fatídica com um pranto que me envergonhava. Se agora minha avó tivesse 12 anos, não teria nenhum lugar para se esconder. Nenhum lugar para ir.
O homem com quem vivo mencionou há alguns meses, quando matavam camelos na Austrália para que não acabassem com a água necessária para apagar incêndios, a frase “rifle sanitário”. Encontro um artigo de 2009, assinado pelo engenheiro Saúl A. Ubici, de Bahía Blanca. Diz que o rifle sanitário tem como objetivo “eliminar animais perigosos para deter o avanço da doença (…) consiste na eliminação pura e simples dos doentes, por precaução. Uma espécie de eutanásia sem consulta para evitar males maiores”. O artigo fala de vacas com febre aftosa.
Não sei que peste meu avô teve, qual delas matou a família da minha avó. Não lamento não ter perguntado a eles. Fico feliz em tê-los acompanhado na agonia, em ter podido mentir-lhes: “Não se preocupe, amanhã você estará melhor”. Fico feliz que eles não tenham morrido como agora fazemos morrer os idosos: sozinhos, talvez com que lembranças, com que medos.
Todos os meus amigos estão longe: na Espanha, no Chile, no México. Penso naquele poema de Borges: “Quem nos dirá de quem, em nosso espaço, / Sem sabê-lo, nos temos despedido?”.
Teremos um mundo depois disso. Mas que mundo teremos depois disso?
Leila Guerriero
Os 'dinossauros'
Ninguém sabe como os dinossauros foram extintos. Entre 208 e 144 milhões de anos atrás, esses animais dominavam os ambientes de terra firme: eram herbívoros, em sua maioria, mas havia algumas espécies carnívoras que se alimentavam de anfíbios, insetos e até mesmo de outros dinossauros. No final do período Cretáceo, foram extintos juntos com diversas outras espécies de animais e plantas. Uma das teorias sobre essa extinção é a de que certos movimentos sofridos pelos continentes provocaram mudanças nas correntes marítimas e também no clima do planeta. Isso teria feito a temperatura baixar, o que causou invernos mais rigorosos. Outra, de que um asteroide colidiu com a Terra e provocou uma catástrofe, com terremotos, tsunamis e incêndios gigantes, que liquidaram a cadeia alimentar. Não existe nenhuma teoria de que tenham sido extintos por uma superbactéria ou um vírus mortal.
Já foram identificadas aproximadamente 3,6 mil espécies de vírus, que podem infectar bactérias, plantas e animais, bem como se instalar e causar doenças ao homem. Gripe, catapora ou varicela, caxumba, dengue, febre amarela, hepatite, rubéola, sarampo, varíola, herpes simples e raiva são as doenças viróticas mais conhecidas. Nenhuma delas se equipara, por exemplo, ao ebola, cuja letalidade é de 90%, ou ao HIV, que já foi de 100% e hoje está sob controle. Ambas não têm vacina reconhecida.
Uma epidemia acontece quando um determinado número de pessoas fica doente e o vírus se propaga exponencialmente. Para os epidemiologistas, o número mágico é 400 para cada 100 mil indivíduos. Esse é o rubicão natural de propagação de um vírus, a partir do qual, na linguagem dos sanitaristas, a epidemia “decola”. As gripes são as epidemias mais comuns, porque seus vírus sofrem permanentes mutações, exigindo campanhas anuais de vacinação. Os antibióticos são utilizados para combater infecções causadas por bactérias, que muitas vezes se propagam em simbiose com os vírus, mas não eliminam os vírus. Por isso, deveriam ter outro nome, talvez antibacterianos, o que facilitaria a vida dos médicos com seus pacientes, que não entendem a diferença entre uma coisa e outra e ficam querendo a medicação.
Os vírus são difíceis de combater. Como os tratamentos quimioterápicos para a infecções virais são limitados, descanso, hidratação e analgésicos são as alternativas mais comuns para reduzir os incômodos das doenças virais, exceto nas infecções respiratórias graves. A cura ocorre, entretanto, porque o sistema de defesa do organismo parasitado passa a produzir anticorpos específicos que combatem o vírus invasor das células. Os vírus são formados por proteínas diferentes daquelas no organismo parasitado, que acabam neutralizadas pelos anticorpos. Assim, caso o vírus invada o organismo novamente, a memória imunológica desencadeará rapidamente uma resposta imune específica contra o vírus, e a doença não se instalará novamente. Quando isso não ocorre, aí, sim, temos um grande problema pela frente.
Vários membros da família Coronaviridae infectam humanos e causam uma infecção respiratória discreta. Alguns membros desta família que infectam animais silvestres, quando transmitidos aos humanos, causam uma Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), como é o caso do Sars-cov-1, da MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e do Sars-cov-2, responsável pela atual pandemia denominada Covid-19. O vírus pulou dos morcegos para animais silvestres que, ao chegarem ao mercado de Wuhan, na China, infectaram os homens. As teorias de que os chineses comeram morcegos ou fabricaram o vírus para dominar o mundo são mentirosas e racistas, disseminadas com o propósito de promover uma nova “Guerra Fria” entre o Ocidente e a China.
O mundo já teve outras pandemias, como a gripe espanhola, que matou 50 milhões de pessoas, mas que nem de longe se propagou com a velocidade no novo coronavírus, devido à globalizaçao. No Brasil, estamos vivendo um momento dramático por causa disso, com o sistema de saúde pública em estresse, devido ao aumento rápido do número de casos, com mais de 200 mortes por dia. A situação é delicada: o presidente Jair Bolsonaro é contra a política de isolamento social adotada por governadores e prefeitos para reduzir a velocidade de propagação da doença e preparar o sistema de saúde para receber seu impacto. Substituiu o ministro Luiz Henrique Mandetta pelo oncologista Nelson Teich, no Ministério da Saúde, com o claro propósito de flexibilizar o regime de quarentena e retomar as atividades econômicas paralisadas em razão da epidemia. Acha que 70% da população terão a doença de forma branda, porém, poré,m devem voltar logo ao trabalho para não perderem os empregos. Diz o samba: “quem acha vive se perdendo.”
O risco de colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) é real. Mesmo que ocorra a tragédia anunciada, de fato, não devemos temer o fim da espécie. A maioria das pessoas está desenvolvendo seu sistema imunológico para se defender do vírus e com ele conviver, como acontece com outras doenças. O problema é que essas pessoas transmitem o vírus para as demais, inclusive os nossos “dinossauros”, ou seja, os mais idosos, que adquirem lesão pulmonar grave devido à produção de moléculas inflamatórias (citocinas) pelo sistema imune inato e têm também problemas de coagulação, devido à reação inflamatória sistêmica (coagulação intravascular disseminada) ou à produção de anticorpos contra fosfolipídeos (síndrome antifosfolipide).
Enquanto não se tem uma vacina, esses sintomas estão sendo tratados com drogas utilizadas para combater outras doenças, como a cloroquina, usada contra a malária, e drogas anticoagulantes, em especial a heparina. Muitos, porém, não resistem. Ou seja, é melhor os “dinossauros” ficarem bem espertos, em casa.
Já foram identificadas aproximadamente 3,6 mil espécies de vírus, que podem infectar bactérias, plantas e animais, bem como se instalar e causar doenças ao homem. Gripe, catapora ou varicela, caxumba, dengue, febre amarela, hepatite, rubéola, sarampo, varíola, herpes simples e raiva são as doenças viróticas mais conhecidas. Nenhuma delas se equipara, por exemplo, ao ebola, cuja letalidade é de 90%, ou ao HIV, que já foi de 100% e hoje está sob controle. Ambas não têm vacina reconhecida.
Uma epidemia acontece quando um determinado número de pessoas fica doente e o vírus se propaga exponencialmente. Para os epidemiologistas, o número mágico é 400 para cada 100 mil indivíduos. Esse é o rubicão natural de propagação de um vírus, a partir do qual, na linguagem dos sanitaristas, a epidemia “decola”. As gripes são as epidemias mais comuns, porque seus vírus sofrem permanentes mutações, exigindo campanhas anuais de vacinação. Os antibióticos são utilizados para combater infecções causadas por bactérias, que muitas vezes se propagam em simbiose com os vírus, mas não eliminam os vírus. Por isso, deveriam ter outro nome, talvez antibacterianos, o que facilitaria a vida dos médicos com seus pacientes, que não entendem a diferença entre uma coisa e outra e ficam querendo a medicação.
Os vírus são difíceis de combater. Como os tratamentos quimioterápicos para a infecções virais são limitados, descanso, hidratação e analgésicos são as alternativas mais comuns para reduzir os incômodos das doenças virais, exceto nas infecções respiratórias graves. A cura ocorre, entretanto, porque o sistema de defesa do organismo parasitado passa a produzir anticorpos específicos que combatem o vírus invasor das células. Os vírus são formados por proteínas diferentes daquelas no organismo parasitado, que acabam neutralizadas pelos anticorpos. Assim, caso o vírus invada o organismo novamente, a memória imunológica desencadeará rapidamente uma resposta imune específica contra o vírus, e a doença não se instalará novamente. Quando isso não ocorre, aí, sim, temos um grande problema pela frente.
Vários membros da família Coronaviridae infectam humanos e causam uma infecção respiratória discreta. Alguns membros desta família que infectam animais silvestres, quando transmitidos aos humanos, causam uma Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), como é o caso do Sars-cov-1, da MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e do Sars-cov-2, responsável pela atual pandemia denominada Covid-19. O vírus pulou dos morcegos para animais silvestres que, ao chegarem ao mercado de Wuhan, na China, infectaram os homens. As teorias de que os chineses comeram morcegos ou fabricaram o vírus para dominar o mundo são mentirosas e racistas, disseminadas com o propósito de promover uma nova “Guerra Fria” entre o Ocidente e a China.
O mundo já teve outras pandemias, como a gripe espanhola, que matou 50 milhões de pessoas, mas que nem de longe se propagou com a velocidade no novo coronavírus, devido à globalizaçao. No Brasil, estamos vivendo um momento dramático por causa disso, com o sistema de saúde pública em estresse, devido ao aumento rápido do número de casos, com mais de 200 mortes por dia. A situação é delicada: o presidente Jair Bolsonaro é contra a política de isolamento social adotada por governadores e prefeitos para reduzir a velocidade de propagação da doença e preparar o sistema de saúde para receber seu impacto. Substituiu o ministro Luiz Henrique Mandetta pelo oncologista Nelson Teich, no Ministério da Saúde, com o claro propósito de flexibilizar o regime de quarentena e retomar as atividades econômicas paralisadas em razão da epidemia. Acha que 70% da população terão a doença de forma branda, porém, poré,m devem voltar logo ao trabalho para não perderem os empregos. Diz o samba: “quem acha vive se perdendo.”
O risco de colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) é real. Mesmo que ocorra a tragédia anunciada, de fato, não devemos temer o fim da espécie. A maioria das pessoas está desenvolvendo seu sistema imunológico para se defender do vírus e com ele conviver, como acontece com outras doenças. O problema é que essas pessoas transmitem o vírus para as demais, inclusive os nossos “dinossauros”, ou seja, os mais idosos, que adquirem lesão pulmonar grave devido à produção de moléculas inflamatórias (citocinas) pelo sistema imune inato e têm também problemas de coagulação, devido à reação inflamatória sistêmica (coagulação intravascular disseminada) ou à produção de anticorpos contra fosfolipídeos (síndrome antifosfolipide).
Enquanto não se tem uma vacina, esses sintomas estão sendo tratados com drogas utilizadas para combater outras doenças, como a cloroquina, usada contra a malária, e drogas anticoagulantes, em especial a heparina. Muitos, porém, não resistem. Ou seja, é melhor os “dinossauros” ficarem bem espertos, em casa.
sábado, 18 de abril de 2020
A distribuição da dor
Ainda há quem ouse dizer que estamos no mesmo barco. Como se sabe, há metáforas que iluminam, outras obscurecem. A do barco pertence ao segundo tipo. Flávia Oliveira colocou o dedo na ferida.
Se a tempestade é a mesma, as condições de seu enfrentamento são diversas, havendo barcos de diferentes tipos: dos poderosos navios de casco de ferro aos barquinhos de papel que podem afundar a qualquer momento. Sem contar os que nem barcos têm e boiam no mar revolto, agarrados a pedaços de madeira encontrados ao léu.
Este é o mundo que nos foi concedido viver.

Há um pouco mais de dez anos, aconteceu a crise econômica de 2008, suscitada pela especulação de títulos imobiliários no mercado estadunidense. Os governos e os bancos centrais intervieram com presteza e salvaram centenas de indústrias e financeiras à deriva, pela própria incúria e irresponsabilidade.
Argumentou-se então que tudo se justificava para salvar a sociedade do caos e defender os empregos das gentes. Aqui e ali ouviram-se vozes favoráveis a processar os principais especuladores. Para servir de exemplo. Era preciso colocar uma folha de parreira para cobrir aquelas vergonhas. Em vão. Não se tem notícia, salvo umas poucas falências, de punições aos responsáveis, cujo nomes e sobrenomes eram conhecidos. Quem pagou a conta, como de hábito, foi a sociedade, em particular os que vivem de salários, no chamado “processo de socialização das perdas”.
Ficou por isso mesmo. E tudo voltou ao que era dantes no quartel de Abrantes. A jogatina retomou os freios nos dentes. No controle, o espectro do mercado e os gênios das finanças, com seus inacreditáveis bônus e rendimentos, ditando os rumos. Estranhos gênios que, a cada dez anos, fazem fila, de pires nas mãos, implorando a ajuda do Estado. As desigualdades voltaram a ganhar ritmo, como demonstrou Thomas Piketty, baseado em evidências estatísticas.
A pandemia neste momento afunda de novo o mundo em crise aguda, com consequências ainda imprevisíveis. Alguém poderia objetar: quem é que poderia prever uma doença? Não só era possível prever, com base em antecedentes conhecidos, como previsões foram de fato formuladas por lideranças políticas e cientistas, mas desconsideradas. Seria viável, sim, lidar melhor com a tragédia, construindo e equipando hospitais, constituindo reservas, dotando as sociedades de indústrias capazes de produzir artigos indispensáveis, formando pessoal qualificado para segurar eventuais trancos que certamente viriam, pois foram anunciados, e vieram.
Estão aí agora, atormentando as gentes, exigindo novos trilhões para que os sobreviventes da pandemia possam continuar a viver.
Quem pagará a conta desta vez? Paumgarten fez uma melancólica e amarga reflexão: “Quando a Covid-19 recuar, deixará uma severa crise econômica. Mas, como no passado, algumas pessoas lucrarão”. Quanto à dor, será distribuída de forma desigual e injusta.
Estaremos condenados ao triunfo da injustiça e da esperteza? E se pudermos imaginar, como um antigo já disse, que as pessoas nem sempre aceitarão morrer calmamente?
Isso é Bolsonaro
Dizer que ele representa os militares seria uma generalização absurda e um desprestígio da categoria. Os militares compõem uma camada intelectual de relevância incontestável para o Estado brasileiro. Como se sabe, Bolsonaro foi afastado do Exército por indisciplina. Tornou-se político profissional com votos da corporação militar por longos 28 anos. Como parlamentar e agora como presidente permanece um defensor das demandas dos militares – vide a reforma da Previdência. É certo que recheou o Ministério com muitos deles, o que não garantiu identidade absoluta entre o presidente e os militares convidados.
Não há novidade também na caracterização de Bolsonaro como representante da extrema direita. Não apenas ele, mas seus filhos – igualmente políticos profissionais, vale ressaltar – não escondem isso de ninguém, até mesmo as ligações internacionais com essa corrente política. Tal posição, distinta de outras correntes e personalidades desse campo, acabou por definir mais precisamente Bolsonaro como expressão de uma facção da direita que tem cultivado um comportamento fascistizante.

O presidente não abre mão de concentrar em si a narrativa e a estratégia de seu governo. Embora em ambas não haja um programa determinado, coerente e sistêmico, que ele faça questão de explicitar. Mas há uma ênfase digna de menção: a persona (o “mito”) sobrepõe-se ao governo e por isso a dimensão pessoal está sempre à frente da institucional, no limite do decoro. A pessoalização existe, porém, sem nenhum afeto, nem o maneirismo típico da nossa tradição ibero-americana. A Bolsonaro não interessa o savoir-faire da política, as gentilezas com outros atores, mesmo com possíveis aliados.
Ele modula seu comportamento pelo que entende ser o jogo duro do poder. E para isso adota o método do confronto permanente, pondo sempre em relevo as discrepâncias ideológicas no lugar das soluções para os problemas da Nação. A confrontação é essencial para sua estratégia de manter o apoio de parcela significativa do eleitorado, rumo à reeleição de 2022.
Tudo isso lhe garantiu a iniciativa política até aqui. Mas 2020 começou mal para ele e para todos nós. A divulgação do “pibinho” (1,1%) de 2019, a disparada do dólar, a fuga de investimentos e, por fim, o ingresso do Brasil na pandemia do covid-19 alteraram o cenário. A pandemia jogou Bolsonaro nas cordas, fazendo-o perder a iniciativa política. Em poucos dias deu mostras de faltar-lhe o chão e de que sua estratégia maior poderia estar comprometida.
Desde então as ações do presidente visam à recuperação da iniciativa perdida. Com parte da sua equipe contaminada pelo vírus, Bolsonaro lançou-se numa escalada desesperada: não hesitou em cumprimentar os poucos manifestantes que pediam o fechamento do Congresso e do STF. Em seguida, com declarações estapafúrdias, atacou os governadores que determinaram o isolamento social para conter o avanço da epidemia. Essa atitude produziu uma fratura na estrutura federativa do País, criando embate institucional, desorientação política, além de complicar o combate à pandemia.
Mesmo na defensiva, Bolsonaro tenta manter a opção por uma “guerra de movimento” definida desde a campanha e a posse, cujo objetivo é destruir a democracia da Carta Constitucional de 1988 e implantar um regime iliberal no Brasil. Essa espécie de “revolução reacionária” levada em fogo brando (sem violência aguda, até o momento) não pode parar até as eleições de 2022. É nela que Bolsonaro imagina consolidar sua legitimidade e impor ao País uma “nova hegemonia”, não mais com os valores e ideias da “esquerda”. Para ele 2022 é o turning point.
Mas até lá haverá muita turbulência. O certo é que, para confrontar o frágil reformismo liberal-democrático que marcou a trajetória do País desde o fim da ditadura, Bolsonaro não cederá à “guerra de posições”. Em sua avaliação, esse é um ambiente hostil. No limite, poderia fazê-lo, mas imagina que estaria compactuando com um modelo que, segundo ele, marcou os governos dos presidentes que o antecederam, com custos e problemas que não saberia gerenciar.
Diante da pandemia, Bolsonaro age com mão pesada: escanteia governadores e prefeitos, desafia orientações epidemiológicas, desestrutura a federação e tensiona ao limite a relação com o Congresso. Mas não ganha nenhuma posição. Busca resgatar sua “guerra de movimento” e colocar nas ruas os que o apoiam incondicionalmente, pouco se importando em ver o País à beira da conflagração.
Com a recessão às portas, o que pode comprometer sua reeleição, Bolsonaro visa a combater as lideranças que ameaçam seu caminho rumo a 2022. Isso é Bolsonaro.
A ironia dos trilhões gastos em armas incapazes de matar um vírus e de nos fazer felizes
O drama que a sociedade está vivendo, desconcertada, assustada e impotente diante desse vírus, é uma boa lição de humildade às nações mais poderosas. Pensemos somente nos Estados Unidos da América com um Presidente guerreiro como Donald Trump incapaz de parar o vírus. A honradez de um povo e sua segurança não passam pelas armas de guerra. E personagens arrogantes como Trump que são exemplos de discórdia e que entram em guerra até com a OMS em um momento tão doloroso à humanidade vão na contramão do sentir da comunidade mundial.
Na América que se sente poderosa e invulnerável por ter as armas mais sofisticadas da terra, um simples vírus acaba de deixar sem trabalho e comida 22 milhões de pessoas.
Se somente uma parte dessa barbaridade gasta a cada ano em fabricar novas armas fosse empregada em melhorar a saúde e pesquisa médico-científica, e em engendrar uma melhor justiça social, hoje as maiores potências armamentistas não se sentiriam tão impotentes e desnorteadas com o novo vírus.
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| Desfile fúnebre dos caminhões militares levando mortos do coronavírus em Bergamo (Itália) |
Se não fosse trágico, porque cria dor e morte, seria até cômico que um vírus seja capaz de se vingar da suposta onipotência do Homo sapiens.
A pergunta que hoje se fazem os pensadores em todo o mundo é se essa lição de humildade a que o coronavírus está nos submetendo servirá pelo menos para nos fazer repensar nosso modo de vida até hoje enlouquecido pelo consumismo e o deus do lucro a qualquer custo. Se servirá para repensar nossas estruturas atuais de poder injustas e classistas que condenam milhões de pessoas à pobreza e até à fome e à insegurança.
Ou se, pelo contrário, sairemos desse inferno ainda mais orgulhosos deixando no esquecimento o grito dos sem voz porque foi sequestrada pelos novos poderosos. Esses poderosos que poderiam sair com mais vontade de dominar o planeta voltando a apostar mais na força das armas e do dinheiro do que na regeneração de uma nova esperança universal.
Nunca é tarde, entretanto. E esse teste inédito para nossa geração pelo global e o imponderável também pode fazer o milagre de despertar uma nova consciência social de nossa fragilidade e onipotência. Pode servir para recriar juntos uma nova civilização menos baseada no poder e na cobiça de um punhado de pessoas que tiranizam a maioria.
E para tomar consciência de que todos, sem distinções classistas, somos vulneráveis. Que precisamos nos armar de maior compreensão com a dor alheia. Que as melhores e mais eficazes armas são as das mãos e corações abertos à solidariedade, à compaixão e à procura da paz a todos.
Melhor um mundo com mais medo das armas invisíveis e imponderáveis da natureza, a que estamos maltratando e humilhando, do que a arrogância de nos sentir donos das lojas de armas fabricadas com o sangue dos que sempre pagam a conta da dor.
Que essa tragédia se transforme na humildade de nos saber todos tão insignificantes que um simples vírus desarticula o mundo.
Nada pode ser pior para nossa civilização do que não saber entender a lição que a natureza tão mortificada e depredada está nos impondo.
Seria uma piada se os que até hoje dominaram o mundo com um capitalismo assassino despertassem do susto da pandemia como se nada houvesse ocorrido.
O que a humanidade está vivendo nesse momento não é um “sono ruim em uma pousada ruim”, na expressão de Cervantes em Dom Quixote, e sim uma chamada de atenção para nos despertar de nosso sonho imoral de que os pobres seguirão aceitando continuar sendo carne fácil de resignação.
A dor e a raiva dos sempre humilhados e desprezado pelos que sentem-se amos de todos porque são os donos das armas de morte, podem se transformar em um novo vírus que derrubará seus sonhos de onipotência.
Ou os poderosos pensam que os pobres não acabarão um dia se cansando de se conformar pacificamente com as migalhas que caem de suas mesas?
A tragédia do coronavírus pode servir, como última lição, aos que decidiram que eles são os donos da vida dos outros, entendam que querer perpetuar essa distância entre saciados e famintos pode também acabar sepultando a eles.
Ainda temos tempo. Que esse retiro forçado de todos nos sirva para refletir que, ou aceitamos no futuro viver com mais simplicidade, sem consumismos desenfreados, sem nos importar de que existam pessoas deixadas à sua própria sorte, ou todos podemos acabar vítimas dos imponderáveis da natureza que possui um código de comportamento que não é o nosso.
Se não entendermos a gravidade simbólica dessa pandemia teremos saído dela todos mortos física, social e até espiritualmente.
O vírus nos fez ver que estamos em um fim de época, de revisão do conceito de sociedade, algo como foi o fim da escravidão.
Esse teste nos obriga a repensar conceitos que acreditávamos imutáveis e intocáveis como a divisão de classes, o sentido da globalidade e das fronteiras, o injusto sistema financeiro. E até da moeda e do dinheiro. Também nos obrigará a uma revisão da cultura e da religião.
Se nada mudar depois dessa convulsão teremos perdido a oportunidade de começar a ensaiar juntos um modo diferente de ver e organizar um mundo em que exista um lugar digno para todos.
Mas há uma estrela que brilha no céu ofuscado desse momento. Cresce o número de pessoas que se comovem com a dor alheia e oferecem exemplos de generosidade inédita em nossa sociedade egoísta.
Duas pequenas histórias me emocionaram e me doeram ao mesmo tempo: a primeira na Itália, onde um padre no hospital recusou o respirador para oferecê-lo a alguém mais jovem. A segunda, a mãe brasileira doente junto com o filho de 24 anos. Ela deixou ir antes ao hospital lotado o filho que acabou morrendo e a mãe que por fim se salvou sequer teve o consolo de poder se despedir de seu filho. São fatos reais e sentimentos de empatia que estão despertando o melhor que temos dentro de nós e que o turbilhão da vida havia escondido.
É o rosto luminoso e regenerador do ser humano que a tragédia está resgatando e nos diz que a esperança de um mundo mais humano e compassivo ainda não morreu.
Ou será utopia? Talvez, mas a verdade é que sem uma adição de esperança e nas mãos somente dos profetas do pessimismo, o abismo de dor que nos espera será muito maior.
Responsabilidade intransferível
Ou seja, o País começa a entrar na fase aguda da crise, com perspectivas funestas, o que demanda a ação rápida, decisiva e inteligente das autoridades no sentido de preservar vidas, mesmo que isso prejudique a economia – afinal, empresas podem superar prejuízos e trabalhadores podem recuperar empregos, mas, como é terrivelmente óbvio, mortos não ressuscitam.

Nenhum esforço regional, por mais competente que seja, é capaz de substituir a liderança federal no combate à pandemia. Por isso, a responsabilidade primária, irrenunciável e intransferível pela condução do País na crise é do presidente da República, Jair Bolsonaro, e ele terá de arcar com o peso de suas decisões sobre a vida de todos os cidadãos. O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, assumiu essa mesma responsabilidade quando aceitou o cargo, e por isso mesmo o País acompanhou, atento, suas primeiras palavras, na esperança de encontrar ali um compromisso cristalino com a ciência e o bom senso.
O que se viu até aqui, porém, foi um ministro ciente de que ocupa um cargo político, a ele designado por questões exclusivamente políticas. Tratou de equilibrar-se entre a demanda de seu chefe para determinar o fim do isolamento social e o fato incontornável de que esse isolamento é a única forma, hoje, de enfrentar a pandemia.
O ministro Teich se diz em “completo alinhamento” com o presidente Bolsonaro, que considera exageradas as medidas de isolamento social, mas dias antes de ser nomeado publicou um artigo em que defendeu o isolamento como “a melhor estratégia no momento”. Ou seja: enquanto era apenas um profissional de saúde, o doutor Teich reafirmava aquilo que todos os gestores de saúde sabem; quando se tornou ministro, assumiu o típico discurso político – que muito fala para nada dizer.
Para começar, o novo ministro declarou que é preciso “conhecer melhor” a doença a fim de criar estratégias para a volta à normalidade. Ora, é exatamente isso o que o mundo inteiro está tentando fazer há meses, ainda sem resultados. Segundo o ministro Teich, será necessário elaborar um amplo “programa de testes”, embora o Brasil esteja muito atrasado na aplicação desses exames, por variados motivos, e nada indica que essa situação mudará num futuro previsível.
Para piorar, Bolsonaro mandou suspender uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria com operadoras de celular, para monitorar o fluxo de pessoas pelo País e assim identificar o nível de adesão à quarentena. Alegando um risco à privacidade inexistente nesse caso, o presidente dificulta a produção de informações necessárias para preparar o sistema de saúde. Desse jeito fica difícil “conhecer melhor” a doença, como quer o ministro da Saúde.
Assim, justamente no momento em que o País mais precisa de determinação e rumo, ante a expansão exponencial da pandemia, o novo ministro da Saúde tem a oferecer apenas palavras ditas sob medida para satisfazer Bolsonaro, que só confia naqueles que o adulam e cultiva antagonistas como método de governança.
A missão do ministro Teich já não seria fácil de qualquer maneira, pois se está diante de um dos maiores desafios globais de saúde pública em um século. Mas essa missão será ainda mais árdua porque é preciso lidar também com um presidente que não acredita em resultados eleitorais chancelados pela Justiça Eleitoral, tampouco nos números da devastação na Amazônia, mas diz acreditar piamente na eficácia de um remédio contra a covid-19 que ainda está em testes; e esse presidente, ademais, encara o novo coronavírus não como uma emergência de saúde pública, mas como arma invisível usada por seus supostos inimigos – dos governadores de Estado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia – para derrubá-lo.
Temos, no entanto, grandes esperanças de que o ministro Nelson Teich saberá ultrapassar todos os obstáculos que contra ele já se erguem no caminho da superação desta crise global.
A síndrome de Caim
A demissão do Ministro Mandetta ocorreu na segunda-feira. O ritual consumado confirma: a teocracia é o novo sistema de governo brasileiro, fundamentado na encarnação da divindade no governante. O Presidente se acha investido nesses poderes.
Primeiro sinal: o candidato se apresentou como Salvador/Messias, eleito por parcela do eleitorado que acreditou e outra que votou no “menos pior”.
Segundo sinal aconteceu quando o candidato sofreu grave atentado. Sobreviveu: milagre e predestinação.
Terceiro sinal veio de uma atitude de fé respeitável: utilizar o jejum e a oração como remédios para matar um vírus ainda não vencido pela ciência. Trata-se de gesto de solidariedade humana que deve ficar circunscrito à religiosidade individual.
Quarto sinal: o chefe de Estado, o líder tem o dever de, no exercício do poder, pacificar, conciliar e formar consensos, com vistas no futuro do País. Mas não é Profeta. Nem tem o dom da Graça para conduzir o povo à Terra Prometida.
No entanto, o Presidente revelou aos olhos de uma nação perplexa que, ao longo de quinze meses, gastou tempo, energia e confiança ao criar conflitos pessoais, nacionais, institucionais e internacionais. Sem contar com o clima permanente de beligerância contra inimigos diabólicos, imaginários, e agora, invisíveis.
Ressalte-se, ainda, que a narrativa de Mito não se confunde com os personagens simbólicos dos povos e sim, literalmente, com a mentira que se apropria dos seres humanos como enfermidade: a mitomania.
Mito, o poeta Fernando Pessoa define como “o nada que é tudo”.
O quinto sinal vem da Síndrome de Caim que, na narrativa bíblica, mata seu irmão Abel por inveja, levando às últimas consequências a frustração do desejo de ser reconhecido pelos atributos de sua própria vítima.
O destino de Mandetta, o herege, estava selado: arder nas fogueiras inquisitoriais pelas suas reconhecidas virtudes e não pelas suas possíveis falhas. A propósito, a mais grave falha de Mandetta foi conduzir com acertos, sensatez, racionalidade e fraternidade, a tarefa gigantesca de salvar o máximo de vidas, ameaçadas por uma calamidade mundial. Mal sabia o Ministro da Saúde que estaria cometendo um crime imperdoável, aos olhos da presidência: tornou-se admirado pela população. Para isso, não há perdão.
Ministros, o recado está dado. Cuidado com a avaliação das pesquisas de opinião: o teto é a mediocridade turbinada por uma personalidade a merecer devida atenção dos especialistas em patologias comportamentais.
Primeiro sinal: o candidato se apresentou como Salvador/Messias, eleito por parcela do eleitorado que acreditou e outra que votou no “menos pior”.
Segundo sinal aconteceu quando o candidato sofreu grave atentado. Sobreviveu: milagre e predestinação.
Terceiro sinal veio de uma atitude de fé respeitável: utilizar o jejum e a oração como remédios para matar um vírus ainda não vencido pela ciência. Trata-se de gesto de solidariedade humana que deve ficar circunscrito à religiosidade individual.
Quarto sinal: o chefe de Estado, o líder tem o dever de, no exercício do poder, pacificar, conciliar e formar consensos, com vistas no futuro do País. Mas não é Profeta. Nem tem o dom da Graça para conduzir o povo à Terra Prometida.

No entanto, o Presidente revelou aos olhos de uma nação perplexa que, ao longo de quinze meses, gastou tempo, energia e confiança ao criar conflitos pessoais, nacionais, institucionais e internacionais. Sem contar com o clima permanente de beligerância contra inimigos diabólicos, imaginários, e agora, invisíveis.
Ressalte-se, ainda, que a narrativa de Mito não se confunde com os personagens simbólicos dos povos e sim, literalmente, com a mentira que se apropria dos seres humanos como enfermidade: a mitomania.
Mito, o poeta Fernando Pessoa define como “o nada que é tudo”.
O quinto sinal vem da Síndrome de Caim que, na narrativa bíblica, mata seu irmão Abel por inveja, levando às últimas consequências a frustração do desejo de ser reconhecido pelos atributos de sua própria vítima.
O destino de Mandetta, o herege, estava selado: arder nas fogueiras inquisitoriais pelas suas reconhecidas virtudes e não pelas suas possíveis falhas. A propósito, a mais grave falha de Mandetta foi conduzir com acertos, sensatez, racionalidade e fraternidade, a tarefa gigantesca de salvar o máximo de vidas, ameaçadas por uma calamidade mundial. Mal sabia o Ministro da Saúde que estaria cometendo um crime imperdoável, aos olhos da presidência: tornou-se admirado pela população. Para isso, não há perdão.
Ministros, o recado está dado. Cuidado com a avaliação das pesquisas de opinião: o teto é a mediocridade turbinada por uma personalidade a merecer devida atenção dos especialistas em patologias comportamentais.
Solidariedade e apoio mútuo d. C.
O aspeto mais comovente desta crise é o florescer da sociedade solidária no canteiro de uma cultura contemporânea marcadamente individualista. Do dia para a noite, promove-se, como que por instinto coletivo, um espírito universal de apoio aos mais fracos, cuidado entre gerações, de atenção ao outro, ao doente, ao vizinho do lado. Sem hesitar, assumimos o sacrifício global em nome da proteção dos mais frágeis e dispomo-nos a arcar, todos, com as consequências.
A mudança de comportamentos leva geralmente tempo, mas o impulso solidário civil foi imediato: de prédios onde os vizinhos não se conheciam, brotaram movimentos para proteger os mais velhos das saídas para compras e farmácia. Nas famílias disfuncionais, telefonaram-se parentes que se organizam em tempo recorde para pôr os avós a salvo. Em Itália – logo que a catástrofe se impôs – ouviram-se vozes que cantavam à varanda, tentando fazer com que a esperança fosse a última a morrer. Nas redes sociais, surgem movimentos para proteger os mais pobres, assim como os direitos de quem não tem casa e os de quem está para ficar sem ela. Criam-se campanhas de donativos e crowdfunding. Reconhecendo o papel das artes na saúde mental coletiva,
músicos e agentes dispõem-se a transmitir concertos grátis, em livestream, apelando a que fiquemos em casa. Museus como o Louvre, o Hermitage, o Metropolitan Museum of Art ou a Galeria Uffizi, abrem portas online a quem queira espreitar coleções. Tudo isto num estalar de dedos. Aparentemente, o pânico da doença que se alastra pelo contacto com os outros faz com que passemos a pensar mais neles. Já são vários os filósofos, psicólogos e sociólogos a escrever sobre isto.
No plano político, será interessante ver como, da esquerda à direita, o apelo consensual é, em situação de emergência, a mais Estado Social (mais saúde pública, apoios, intervenção social, regulação da economia) e cuidado com o próximo. No plano europeu, a discussão em torno de como a UE vai gerir esta crise parece evidenciar, aos olhos do cidadão-comum, a importância de um bloco justo, humano e solidário, que honra os valores basilares. A indignação face às infelizes declarações do ministro das finanças holandês veio dar sinais de um novo tempo que conserva bem viva a memória da Europa austera, da troika obscura, ineficaz e castigadora dos mais pobres – como até Christine Lagarde (então presidente do FMI) acabou por admitir – e se recusa a repetir a dose. Não estamos, europeus, dispostos a tolerar as mesmas desumanidades. Num cenário em que Portugal bateu, ainda há meses, o recorde de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu –apenas 31 em cada 100 portugueses com direito a fazê-lo foram votar – será de acreditar que, se as eleições fossem este mês, mais pessoas quereriam saber? Poderá este momento resgatar o sentimento cívico, de cidadão europeu, nacional, mundial? Eric Klinenberg, diretor do Institute for Public Knowledge da Universidade de Nova Iorque, estima que a pandemia possa ser o fim do nosso romance com a sociedade de mercado híper-individualista, por expor a fragilidade de um sistema económico assente no pensamento individual. Ao mesmo tempo, situações como esta parecem ajudar a evidenciar o peso da política na vida de todos: aspiramos a uma sociedade mais culta e consciente perante as filas para a ponte 25 de Abril – aspirando, assim, a mais investimento em cultura e educação -, sonhamos com mais valorização da ciência e saúde enquanto aplaudimos, todos juntos, à varanda – sonhando, assim, com mais investimento na saúde e investigação científica – e pedimos mais humanismo e pensamento coletivo – pedindo, com isso, um sistema bem longe do “cada um por si” neoliberal global. Quando o medo toca às portas todas, compreendemos instantaneamente aqueles que fogem, aqueles que temem e aqueles que lutam, mostrando que, afinal, sabemos todos fazê-lo maravilhosamente. Seremos capazes de levar isto connosco para o futuro?
Não sabemos quanto tempo durará a crise, mas sabemos que será profundamente dura e difícil para todos. Resta-nos tentar garantir que aprendemos com ela.
A mudança de comportamentos leva geralmente tempo, mas o impulso solidário civil foi imediato: de prédios onde os vizinhos não se conheciam, brotaram movimentos para proteger os mais velhos das saídas para compras e farmácia. Nas famílias disfuncionais, telefonaram-se parentes que se organizam em tempo recorde para pôr os avós a salvo. Em Itália – logo que a catástrofe se impôs – ouviram-se vozes que cantavam à varanda, tentando fazer com que a esperança fosse a última a morrer. Nas redes sociais, surgem movimentos para proteger os mais pobres, assim como os direitos de quem não tem casa e os de quem está para ficar sem ela. Criam-se campanhas de donativos e crowdfunding. Reconhecendo o papel das artes na saúde mental coletiva,

No plano político, será interessante ver como, da esquerda à direita, o apelo consensual é, em situação de emergência, a mais Estado Social (mais saúde pública, apoios, intervenção social, regulação da economia) e cuidado com o próximo. No plano europeu, a discussão em torno de como a UE vai gerir esta crise parece evidenciar, aos olhos do cidadão-comum, a importância de um bloco justo, humano e solidário, que honra os valores basilares. A indignação face às infelizes declarações do ministro das finanças holandês veio dar sinais de um novo tempo que conserva bem viva a memória da Europa austera, da troika obscura, ineficaz e castigadora dos mais pobres – como até Christine Lagarde (então presidente do FMI) acabou por admitir – e se recusa a repetir a dose. Não estamos, europeus, dispostos a tolerar as mesmas desumanidades. Num cenário em que Portugal bateu, ainda há meses, o recorde de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu –apenas 31 em cada 100 portugueses com direito a fazê-lo foram votar – será de acreditar que, se as eleições fossem este mês, mais pessoas quereriam saber? Poderá este momento resgatar o sentimento cívico, de cidadão europeu, nacional, mundial? Eric Klinenberg, diretor do Institute for Public Knowledge da Universidade de Nova Iorque, estima que a pandemia possa ser o fim do nosso romance com a sociedade de mercado híper-individualista, por expor a fragilidade de um sistema económico assente no pensamento individual. Ao mesmo tempo, situações como esta parecem ajudar a evidenciar o peso da política na vida de todos: aspiramos a uma sociedade mais culta e consciente perante as filas para a ponte 25 de Abril – aspirando, assim, a mais investimento em cultura e educação -, sonhamos com mais valorização da ciência e saúde enquanto aplaudimos, todos juntos, à varanda – sonhando, assim, com mais investimento na saúde e investigação científica – e pedimos mais humanismo e pensamento coletivo – pedindo, com isso, um sistema bem longe do “cada um por si” neoliberal global. Quando o medo toca às portas todas, compreendemos instantaneamente aqueles que fogem, aqueles que temem e aqueles que lutam, mostrando que, afinal, sabemos todos fazê-lo maravilhosamente. Seremos capazes de levar isto connosco para o futuro?
Não sabemos quanto tempo durará a crise, mas sabemos que será profundamente dura e difícil para todos. Resta-nos tentar garantir que aprendemos com ela.
Aviso internacional
Gostaria de agradecer ao ministro [Mandetta] pelo serviço dele ao povo. É essencial que não só o Brasil mas todos os governos tomem decisões baseadas em evidências. Todos temos o dever de proteger nossas populações mais vulneráveisMichael Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS)
Não podemos deixar a periferia à própria sorte na crise do coronavírus
O coronavírus restaurou um senso de igualdade entre as pessoas ao salientar o que temos em comum: a fragilidade humana. De um ponto de vista abstrato, faz sentido. Materialmente, no entanto, o que se observa é que a covid-19 vem exacerbando desigualdades. Enquanto as vítimas de áreas abastadas surgem aos poucos e dispersas, por negligência à quarentena, nas periferias o povo se vê em uma guerra em que dois soldados de uma mesma equipe podem acabar morrendo dentro de um mesmo quarto.
Muitos já desistiram do presidente, mas nem mesmo os governadores e prefeitos mais dedicados a vencer essa guerra conseguiram oferecer soluções que deem conta da realidade desigual, complexa e bastante particular de nosso país.
O problema é evidente: enquanto observamos bairros nobres parados, com a quase totalidade de seus moradores confinados em casa, muitas das favelas do país notaram apenas uma pequena redução em suas atividades. Isso se dá, ao menos em parte, porque 47% dos trabalhadores destas comunidades são autônomos e outros 8% informais. Para eles, parar de trabalhar significa abdicar de sua renda, decisão que a imensa maioria não pode se dar ao luxo de tomar. De acordo com pesquisa do Data Favela, 72% dos residentes dessas comunidades não têm reservas de dinheiro o suficiente para manter seu já baixo padrão de vida por sequer uma semana.
Se a poupança dos moradores das favelas é insuficiente para sustentar seus custos de vida habituais, que dirá então para arcar com as despesas adicionais que estão sendo impostas em decorrência da pandemia. Além de maiores gastos com remédios e produtos de higiene, muitos estão tendo que financiar refeições extras para seus filhos, que antes se alimentavam nas escolas. Há casos, ainda, de pais que, sem poder parar de trabalhar para cuidar das crianças em casa, estão tendo que custear creches particulares, uma vez que as públicas foram paralisadas.
Colocar luz sobre essa realidade não visa concordar com o ideia que chegou a ser defendida por nosso desastroso presidente de que escolas e creches públicas deveriam seguir funcionando. Muito menos sustentar que não há nada a ser feito para a proteção da população a não ser deixar que aqueles que precisam de renda sigam trabalhando. Tais absurdos acarretariam na disseminação massiva da doença, potencializada pela limitação dos equipamentos de saúde, falta de saneamento básico, abastecimento de água intermitente e precariedade das condições de moradia que assolam as favelas.
Para se ter uma ideia, em São Paulo, bairros periféricos como Brasilândia e Capão Redondo possuem menos de 0,05 leitos hospitalares por mil habitantes, enquanto em bairros centrais como Bela Vista e Jardins esse número é maior do que 30 por mil habitantes. Adotar a lógica do laissez-faire nas comunidades periféricas seria homicida.
É necessário, portanto, pensar em soluções que conversem com a realidade das favelas. O projeto da Renda Básica Emergencial, que entrou em vigor esta semana, é, sem dúvida, um grande avanço na direção correta. Vale ressaltar, no entanto, que algumas dificuldades na obtenção do auxílio evidenciam que ainda há certo descompasso entre nossos governantes e a realidade das periferias. Um fato que chama atenção, por exemplo, é o de a forma preferencial de cadastro para o recebimento do benefício ser online, em um país no qual cerca de 20% da população não tem acesso à Internet em seus domicílios. De forma, geral, contudo, a Renda Básica Emergencial parece ser a solução mais eficiente de garantir que os moradores das periferias fiquem seguros em suas casas, protegendo a si e às suas comunidades.
Há, porém, ainda muito a ser feito. Além da garantia de renda, são necessárias respostas a outros problemas que vêm sendo enfrentados pelas favelas e que tendem a intensificar a crise. A garantia de acesso à água corrente, a distribuição de produtos de higiene e alimentos dentro da própria comunidade, evitando deslocamentos desnecessários, e a reserva de quartos de hotel para pessoas pertencentes a grupos de risco que não podem ficar isoladas em suas próprias casas são apenas algumas das soluções que precisam começar a avançar para garantir segurança às comunidades periféricas.
Colocar em prática todas elas, é claro, trará custos significativos ao Estado. Contudo, se o aumento de gastos, até ano passado, parecia imprudente, hoje ele é tido como única solução possível pela maioria da população e dos economistas. Mais absurdo que aumentar despesas, nesse momento, seria acreditar que as soluções, até agora propostas para o centro, servirão à periferia, largando as favelas à própria sorte e entregando as periferias das grandes cidades, de bandeja, para um doloroso destino.
Samuel Emílio, embaixador do Teach For All no Brasil e Fellow do Programa ProLíder, do Guerreiros Sem Armas e da Arymax
Muitos já desistiram do presidente, mas nem mesmo os governadores e prefeitos mais dedicados a vencer essa guerra conseguiram oferecer soluções que deem conta da realidade desigual, complexa e bastante particular de nosso país.
O problema é evidente: enquanto observamos bairros nobres parados, com a quase totalidade de seus moradores confinados em casa, muitas das favelas do país notaram apenas uma pequena redução em suas atividades. Isso se dá, ao menos em parte, porque 47% dos trabalhadores destas comunidades são autônomos e outros 8% informais. Para eles, parar de trabalhar significa abdicar de sua renda, decisão que a imensa maioria não pode se dar ao luxo de tomar. De acordo com pesquisa do Data Favela, 72% dos residentes dessas comunidades não têm reservas de dinheiro o suficiente para manter seu já baixo padrão de vida por sequer uma semana.

Se a poupança dos moradores das favelas é insuficiente para sustentar seus custos de vida habituais, que dirá então para arcar com as despesas adicionais que estão sendo impostas em decorrência da pandemia. Além de maiores gastos com remédios e produtos de higiene, muitos estão tendo que financiar refeições extras para seus filhos, que antes se alimentavam nas escolas. Há casos, ainda, de pais que, sem poder parar de trabalhar para cuidar das crianças em casa, estão tendo que custear creches particulares, uma vez que as públicas foram paralisadas.
Colocar luz sobre essa realidade não visa concordar com o ideia que chegou a ser defendida por nosso desastroso presidente de que escolas e creches públicas deveriam seguir funcionando. Muito menos sustentar que não há nada a ser feito para a proteção da população a não ser deixar que aqueles que precisam de renda sigam trabalhando. Tais absurdos acarretariam na disseminação massiva da doença, potencializada pela limitação dos equipamentos de saúde, falta de saneamento básico, abastecimento de água intermitente e precariedade das condições de moradia que assolam as favelas.
Para se ter uma ideia, em São Paulo, bairros periféricos como Brasilândia e Capão Redondo possuem menos de 0,05 leitos hospitalares por mil habitantes, enquanto em bairros centrais como Bela Vista e Jardins esse número é maior do que 30 por mil habitantes. Adotar a lógica do laissez-faire nas comunidades periféricas seria homicida.
É necessário, portanto, pensar em soluções que conversem com a realidade das favelas. O projeto da Renda Básica Emergencial, que entrou em vigor esta semana, é, sem dúvida, um grande avanço na direção correta. Vale ressaltar, no entanto, que algumas dificuldades na obtenção do auxílio evidenciam que ainda há certo descompasso entre nossos governantes e a realidade das periferias. Um fato que chama atenção, por exemplo, é o de a forma preferencial de cadastro para o recebimento do benefício ser online, em um país no qual cerca de 20% da população não tem acesso à Internet em seus domicílios. De forma, geral, contudo, a Renda Básica Emergencial parece ser a solução mais eficiente de garantir que os moradores das periferias fiquem seguros em suas casas, protegendo a si e às suas comunidades.
Há, porém, ainda muito a ser feito. Além da garantia de renda, são necessárias respostas a outros problemas que vêm sendo enfrentados pelas favelas e que tendem a intensificar a crise. A garantia de acesso à água corrente, a distribuição de produtos de higiene e alimentos dentro da própria comunidade, evitando deslocamentos desnecessários, e a reserva de quartos de hotel para pessoas pertencentes a grupos de risco que não podem ficar isoladas em suas próprias casas são apenas algumas das soluções que precisam começar a avançar para garantir segurança às comunidades periféricas.
Colocar em prática todas elas, é claro, trará custos significativos ao Estado. Contudo, se o aumento de gastos, até ano passado, parecia imprudente, hoje ele é tido como única solução possível pela maioria da população e dos economistas. Mais absurdo que aumentar despesas, nesse momento, seria acreditar que as soluções, até agora propostas para o centro, servirão à periferia, largando as favelas à própria sorte e entregando as periferias das grandes cidades, de bandeja, para um doloroso destino.
Samuel Emílio, embaixador do Teach For All no Brasil e Fellow do Programa ProLíder, do Guerreiros Sem Armas e da Arymax
Vamos lá, Leitor, aperte o cinto e abrace a boia
Desculpe, Leitor, a nota é curta como curtíssima é minha paciência com esse governo sem eira nem beira: despreparado, desestruturado, sem cultura, sem educação. Um governo que vive exigindo que o levem a sério, que pede por respeito, que se diz ignorado.
Mas que tem uma qualidade: é sincero. Bolsonaro se declara despreparado para o cargo!
Ele está certo. Não tem nenhuma qualificação para o cargo. Assim como não teve para prosseguir na carreira militar e como não teve nenhum brilho na carreira parlamentar. Aos 65 anos, ainda está, tal qual um adolescente, em busca da rota que deve seguir. Talvez o motivo seja este: preocupado em orientar e cuidar dos filhos, esqueceu de cuidar de si e de sua vida.
No excelente artigo de Juan Arias, do El Pais, “Bolsonaro se isola obcecado por seu messianismo perigoso”, transcrito no Blog do Noblat, li que “o Brasil vive um daqueles momentos históricos em que um erro de cálculo pode arrastar o país para uma aventura da qual um dia terá de se arrepender”.
Temo que esse momento histórico acabe de acontecer. Trocar o Ministro da Saúde quando ainda estamos no início de uma pandemia que vem matando milhares de pessoas no mundo inteiro, foi um erro de cálculo que assustou-nos a todos. Luis Henrique Mandetta conseguiu, por obra e graça de seu modo firme, educado e culto de falar, convencer o Brasil, de norte a sul, da única arma poderosa que um país despreparado como o Brasil tem: o isolamento social.
Em que o ministro errou a ponto de levar o presidente da República a querer demití-lo? Ele só cometeu um erro. Foi tão correto, inteligente, preparado e dedicado ao posto que ocupava que despertou nos brasileiros uma admiração incomensurável. Foi o que bastou para despertar o ciúme e a inveja do inseguro presidente que sentiu ameaçada pelo dr. Mandetta sua ambicionada reeleição em 2022.
Coitado. É duro, muito duro, quando se é psicologicamente fraco como Bolsonaro, sofrer por ciúmes. Ainda mais quando a reeleição é sua única ambição, e sua segurança, pois nela ele apoia o continuado poder dos zeros, seus filhos que, sem o pai, não são nada.
Pobre Brasil. Acaba de trocar o piloto experiente por um co-piloto inexperiente, com o avião com o tanque quase vazio. O que será que vai nos acontecer?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Mas que tem uma qualidade: é sincero. Bolsonaro se declara despreparado para o cargo!
Ele está certo. Não tem nenhuma qualificação para o cargo. Assim como não teve para prosseguir na carreira militar e como não teve nenhum brilho na carreira parlamentar. Aos 65 anos, ainda está, tal qual um adolescente, em busca da rota que deve seguir. Talvez o motivo seja este: preocupado em orientar e cuidar dos filhos, esqueceu de cuidar de si e de sua vida.
No excelente artigo de Juan Arias, do El Pais, “Bolsonaro se isola obcecado por seu messianismo perigoso”, transcrito no Blog do Noblat, li que “o Brasil vive um daqueles momentos históricos em que um erro de cálculo pode arrastar o país para uma aventura da qual um dia terá de se arrepender”.

Em que o ministro errou a ponto de levar o presidente da República a querer demití-lo? Ele só cometeu um erro. Foi tão correto, inteligente, preparado e dedicado ao posto que ocupava que despertou nos brasileiros uma admiração incomensurável. Foi o que bastou para despertar o ciúme e a inveja do inseguro presidente que sentiu ameaçada pelo dr. Mandetta sua ambicionada reeleição em 2022.
Coitado. É duro, muito duro, quando se é psicologicamente fraco como Bolsonaro, sofrer por ciúmes. Ainda mais quando a reeleição é sua única ambição, e sua segurança, pois nela ele apoia o continuado poder dos zeros, seus filhos que, sem o pai, não são nada.
Pobre Brasil. Acaba de trocar o piloto experiente por um co-piloto inexperiente, com o avião com o tanque quase vazio. O que será que vai nos acontecer?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
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