quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Desemprego crescente está descapitalizando o FGTS e o INSS, ao mesmo tempo

O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, como todos sabem, tem sua arrecadação à base de 8 por cento das folhas salariais dos empregados regidos pela CLT. Contribuição dos empregadores, portanto, dedutível do imposto de renda. Dessa forma, quanto mais alta estiver a taxa de emprego e o nível de remuneração, mais elevada estará a receita. Mas vem acontecendo exatamente o contrário. Desemprego crescente, arrecadação declinante.

Na edição de 19 de agosto do Diário Oficial, a Caixa Econômica Federal publicou o relatório sobre o desempenho do FGTS no exercício de 2015. Houve decréscimo em relação à receita de 2014. Em 2014,a diferença entre a arrecadação e os saques foi de 18,45 bilhões , em 2015 desceu para 14,4 bilhões de reais. A perda terá sido de 4 bilhões? Nada disso. Temos que incluir, no ano passado, a inflação de 10,6 por cento, registrada pelo IBGE.

A queda nominal ficou em 4 bilhões , mas a perda real alcançou , em inúmeras redondos, 6 bilhões de reais.


A arrecadação, portanto, não acompanhou os desembolsos. Os saques, decorrentes das demissões sem justa causa, atingiram nada menos que 99,1 bilhões de reais. No final de 2015, o saldo do FGTS ficou na escala de 364 bilhões de reais.

A liberação de recursos do FGTS não se encontra condicionada às demissões, tem origem também nas aposentadorias. Porém, neste caso, não entra a multa rescisória de 40 por cento a ser paga pelos empregadores sobre os saldos existentes. Mas esta é outra questão. O que é fundamental destacar é que a fonte da arrecadação, tanto do FGTS quanto do INSS, depende do mercado de trabalho. Se este se retrai , escolhem as receitas do FGTS e do INSS. E, também em consequência, declina o consumo, numa primeira fase, e o Imposto de Renda no final da ópera. Pois quanto menos se recebe, menos se pode comprar e pagar o IR.
No caso do INSS, a perda decorrente da alta do desempenho é bem maior que a do FGTS. Isso porque o INSS tem contribuição dos empregados e também quanto a das empresas, sendo que estas têm de recolher 20% sobre a folha de salários. Os empregados, 11% até o teto de 5,1 mil reais por mês, valor máximo das aposentadorias e pensões.

Além de tudo isso, existem centenas de milhares de episódios de sonegação e de trabalhos sem carteira assinada, especialmente no setor de serviços e, sobretudo, no meio rural.

As dívidas para com a seguridade Social elevam-se á estratosfera de 1 trilhões e 800 bilhões de reais . Relativamente ao FGTS, revela o relatório da CEF, existem 1 bilhão e 800 milhões inscritos na dívida ativa. Será o único setor de endividamento existente? Fica a dica. Não importa no caso.

O importante é que há que atinja nível mensal de renda mais de 100 vezes maior do que o salário mínimo. Porém, os que se encontram nos andares mais altos não consomem cem vezes mais do que aqueles em patamares abaixo. Por aí, pode-se dimensionar a importância decisiva do trabalho na economia brasileira.

Portanto, o Brasil somente poderá sair da crise atual se o projeto econômico financeiro levar em conta o valor real do emprego e do salário. Dentro da dualidade eterna: o capital empreende, o trabalho consome. Esta roda gira sem cessar. É preciso atenção para a problema. É o que tem faltado.

MEC reprova livros didáticos por ver racismo e machismo nas imagens

O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) reprovou livros didáticos por considerar racistas e machistas imagens de mulheres, negros e até indianos em problemas sociais – como enchentes em São Paulo, dramas da seca na África e na Índia e até mesmo campanhas de saúde pública criadas pelo próprio governo federal.

Uma coleção de quatro volumes de Ciências da Natureza foi excluída do Programa Nacional do Livro Didático porque os avaliadores consideraram que algumas imagens caracterizam “discriminação e violação dos direitos humanos” ao reproduzir “estereótipos e preconceitos de condição social, étnico-racial e de gênero”.

Uma das imagens consideradas nocivas é a de mulheres africanas carregando vasos de barro, que ilustra a abertura de um capítulo sobre o drama da falta de água no planeta. Segundo o parecer, assinado em abril, ainda no governo Dilma, fotos como essa “trazem situações que retratam condições de inferioridade com relação aos negros e mulheres. Colocam também a mulher como vítima de desigualdade de direito a condições adequadas de vida”.

A mesma avaliação recebeu a foto de uma enchente cujas vítimas são pardas, e uma pintura naif que poderia muito bem ser interpretada como simpática ao movimento negro. Para o FNDE, as imagens ainda “enfatizam o desnível sociorracial acentuando distorções com conotações especificamente raciais e ferem o conceito de igualdade social”.

Na prática, o critério politicamente correto do MEC veta qualquer imagem dos livros em que mulheres, pardos ou negros estejam relacionados a notícias negativas. Acaba privando os estudantes da informação sobre o perfil étnico das pessoas que mais precisam de ajuda na sociedade brasileira.

Uma das imagens classificada como contrária aos direitos humanos foi produzida pelo próprio governo Dilma. Retrata o cantor Thiaguinho e sua bem-sucedida luta contra a tuberculose. Parte de uma campanha do Ministério da Saúde de conscientização sobre a doença, o cartaz ilustra o capítulo sobre doenças transmissíveis do livro de sexta série.

Até mesmo um cartaz de conscientização sobre a tuberculose, criado pelo Ministério da Saúde, foi considerado racista pelo MEC

O MEC viu racismo contra negros até mesmo em imagens que não são de negros. Foi o caso de uma fotografia de indianos com baldes na mão cercando um caminhão-pipa. A própria legenda no livro da sexta série informa que a foto é de Nova Déli e que a Índia é um dos países que mais sofrem com o racionamento de água.


A aprovação do FNDE define o sucesso de vendas de uma coleção de livros didáticos, pois seleciona as obras que serão usadas por 32 milhões de alunos do Ensino Fundamental de escolas públicas.

A autora da coleção, que prefere não se identificar por temer perder oportunidades no mercado editorial, foi professora de Ciências e Biologia na rede estadual e federal por 25 anos, escreve livros há 20 anos e já ganhou o prêmio Jabuti na categoria didáticos. Ao receber a notícia da reprovação dos livros, ela imaginou que os motivos seriam técnicos ou pedagógicos. Quando leu o relatório, ficou revoltada. “Nunca vi na minha vida uma barbaridade e uma perseguição como essas”, diz.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As migalhas e as dúvidas

Depois dos jogos, a orla Conde será tomada pelos cracudos? Pelos tarados? Pelos fantasmas dos inocentes (negros jovens na maioria) que têm morrido na guerra promovida pelo Estado contra o tráfico?

Não sei.

A cidade olímpica irá se transformar num grande parque para urubus, macacos, capivaras e outros animais famintos desalojados da floresta e dos mangues? Ficará ao relento, depreciando-se a olhos nus e incapazes de tomar qualquer providência contra isso?

Não sei.

A grana embolsada por esse e aquele sangrará os estoques de remédios dos ambulatórios? Sujará mais ainda a baía que deveria ter despoluído?

Não sei.

Não sei se não sei, mas gostaria muito de não saber. Saber, nesse caso, é pior do que não saber.
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Na confusão na qual estou metido ecoa a frase do Luiz Antonio Simas (historiador carioca) que minha amiga Shirley Vilela compartilhou no Facebook. Ele diz: “Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária. A cultura do samba veio desse aparente paradoxo. Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura.”

A caminho de um lançamento de livro na Prainha, cruzei, na orla Conde, com a bateria de uma escola de samba. Atrás e ao lado dela, as pessoas, mais brasileiros que gringos, dançavam. Dançavam porque a vida é dura. Dura porque muitos perdem seus empregos; porque a lista de futuros prefeitos é pouco animadora; porque as cicatrizes da esgrima política — os que trocaram suas convicções pela política suja contra os que sempre praticaram a política suja e, por um tempo, aliaram-se aos ex-convictos para lhes dar, em seguida, uma rasteira — ainda vão doer por muito tempo; porque, silenciada a festa, os tiros que continuam ceifando vidas no Alemão, na Maré, nesse céu de favela que temos por aí vão zoar fortes como nunca.

Vou de frase feita: não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Desacorçoado, me abraço ao pessimismo e concluo cheio de clichês: a rapadura, apesar de doce, é dura. Eu não sei sambar.

Alexandre Brandão

Agora que tudo acabou...

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C.S., taxista que faz ponto próximo à minha casa, me disse certa vez, referindo-se ao período eleitoral: “Lá vêm os políticos atrás do meu voto. Eles só se lembram de mim nesta época do ano”. E eu tive que advertir que também ele só se lembrava dos políticos nesta época do ano. Nós não exercemos o direito de escolher nossos representantes – nós nos livramos de um aborrecimento. No dia seguinte à eleição, nem recordamos mais do nome do candidato no qual votamos. E assim vamos vivendo neste que não é um país, mas um ajuntamento de pessoas que nem mesmo interesses gerais convergentes possuem
Luiz Ruffato 

Precisa-se de uma oposição

Começa amanhã o julgamento de Dilma Rousseff. Ela será condenada. Os julgamentos que decidem o destino dos presidentes são políticos. Formalmente, Dilma será deposta pelo desembaraço de sua contabilidade criativa, mas sempre será repetida a frase da senadora Rose de Freitas, líder do governo de Michel Temer no Senado: “Na minha tese, não teve esse negócio de pedalada, o que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar”.

Pura verdade, que pode ser contraposta a outro julgamento de impeachment de um presidente, o de Bill Clinton em 1999. Ele era acusado de práticas mais simples, comuns e disseminadas do que as “pedaladas fiscais”. Uma pessoa pode não entender de contabilidade pública, mas entende o que a estagiária Monica Lewinsky fazia com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. Clinton foi absolvido porque o país não estava paralisado, e a renda per capita dos americanos cresceu enquanto a dívida pública encolheu. Com Dilma, aconteceu o contrário. Todo mundo sabia o que Clinton fez e, apesar disso, achou-se que deveria continuar. No caso de Dilma, não se sabe direito o que eram as pedaladas, mas acha-se que ela deve ir embora.

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Quando Dilma entregar as chaves do Palácio da Alvorada, estará encerrado um ciclo de 13 anos de poder do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, Lula vestiu a faixa, e a oposição foi para o poder. Hoje ninguém haverá de dizer o mesmo. Michel Temer era o vice-presidente de Dilma, e seu primeiro escalão ampara-se em figuras que sustentaram o comissariado petista. Henrique Meirelles presidiu o Banco Central de Lula, Eliseu Padilha e Gilberto Kassab foram ministros de Dilma. Mudança imediata, drástica e irrecorrível, só a do garçom Catalão, do Palácio do Planalto, que hoje está no gabinete da senadora Kátia Abreu, ministra de Dilma e adversária do impeachment.

O PT foi apeado do governo e, de uma maneira geral, abriu espaço para quem nunca saiu dele. O tempo dirá quanto custou ao comissariado o inchaço de sua base de apoio e, sobretudo, a expansão de seus interesses pecuniários. Lula e Dilma viveram o engano de um governo com o mínimo possível de oposição. Depostos, Dilma cuidará da vida, Lula tentará se reinventar, mas alguns comissários sabem que suas carreiras estão encerradas. Outros seguem a ordem de batalha do coronel Tamarindo em Canudos: “É tempo de murici, cada um cuide de si”. Astro dessa categoria é Cândido Vaccarezza, líder do PT na Câmara até 2012. Dois anos depois, ele perdeu a eleição. Deixou o partido e aninhou-se na campanha de Celso Russomanno (PTB) pela prefeitura de São Paulo.

Cortando aqui e perdendo ali, sobra uma militância cujas raízes estão nos anos 70 do século passado. Defendiam o fim da unicidade sindical, a reforma da CLT, as negociações diretas entre empresas e trabalhadores e tinham horror a empreiteiros. (A recíproca era verdadeira.) Esse era um tempo em que os sindicalistas do PT eram bancários. Com o acesso aos fundos estatais, alguns viraram banqueiros e, como João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido, estão na cadeia.

Oposição, com algumas ideias na cabeça e pouco dinheiro no bolso, é tudo o que o Brasil precisa.

Elio Gaspari 

As humanidades na encruzilhada do século 21

Num mundo hipertecnológico, numa economia que alguns acreditam ter entrado em “estagnação secular”, as humanidades passaram a ser vistas como um “luxo cultural” supérfluo, com redução de seu peso no ensino fundamental e perda de sua importância e de recursos no ensino superior e no financiamento da pesquisa. Na propaganda das universidades privadas ou dos programas de ensino público, a ênfase imagética é posta nas ciências exatas ou físico-naturais (incluídas as biológicas). O preconceito é tão arraigado que nem é percebido. As humanidades seriam incapazes de conclusões exatas e de prognósticos precisos, de “gerar tecnologia”, em suma, não seriam “científicas” ou mesmo “úteis”.

É esquecer que a filosofia foi o berço de toda a ciência, é isolar a ciência da sociedade que a gera e à qual deveria estar dirigida. As ciências humanas são a ponte principal, embora não a única, dessa vinculação. É esquecer, sobretudo, que as ciências sociais nasceram do esforço histórico para estender os métodos da ciência matemática da natureza aos fenômenos humanos. Nas palavras de Max Weber, elas nasceram para “deixar de lado o ingênuo otimismo que via na ciência, ou seja, na técnica cientificamente fundamentada, o caminho real para a felicidade”. Seu conjunto teórico-epistemológico reformulou as “humanidades” previamente existentes (história, geografia, filosofia) e até a análise e a produção literária. Quem duvida, por exemplo, que a psicanálise e a sociologia revolucionaram a escrita ficcional e até a poesia? E acerca da pesquisa lembremos Jean Piaget: “O que de começo parece menos útil pode ser o mais rico em consequências imprevistas, ao passo que uma delimitação inicial de finalidade prática impede que se domine o conjunto das questões, sendo suscetível de deixar escapar aquilo que é mais indispensável e mais fecundo”.

Educação Médica: Ética em pesquisa   Aprovada a resolução sobre ética em pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais:

O projeto enciclopedista do Século das Luzes estava animado por um espírito de sistematização que incorporava tanto os conhecimentos oriundos das ciências físicas e naturais como os das ciências sociais. Isso foi possível graças à elaboração das grandes sínteses científicas, sem separação ou divisão das ciências em humanas, biológicas e exatas. Nos períodos anteriores havia íntima relação entre ciência e filosofia, que não se distinguiam muito bem (na Idade Média ambos os campos do saber eram identificados) ou a sua relação era óbvia (nos grandes sistemas científicos do século 17 a ciência era parte da filosofia). No século 18 encontramos a separação entre elas, pelo menos na formulação de seus problemas. Esse foi o século das especificações das várias disciplinas científicas e das especializações. Já no século 19 e sobretudo no século 20 houve uma separação radical entre ciência e filosofia e uma fragmentação crescente das ciências humanas.

O lugar das ciências humanas na universidade e na sociedade está determinado pela especificidade do seu objeto, contraposto ao tecnicismo crescente das ciências “duras”. A implosão das ciências humanas não as eliminou, mas colocou a necessidade do resgate crítico da sua unidade. O destino das humanidades não é alheio ao da ciência em geral: para Thomas S. Kuhn, a história da ciência é a das revoluções científicas, a das transições de um paradigma para outro, explicada pelo fato recorrente de que homens racionais, que são racionais em virtude de serem homens, e não por serem cientistas, encontrarem fatos que seus paradigmas científicos não conseguem explicar. O “inventário” das ciências humanas concluiu repondo a necessidade de sua recomposição unitária.

Tanto a evolução das ciências humanas quanto a das físico-naturais (em especial a biologia) tendeu a criar uma ponte entre esses domínios aparentemente opostos. Uma zona fundamental de ligação entre as ciências da natureza e as do homem é constituída pelo intercâmbio dos métodos. A identidade parcial entre sujeito e objeto do conhecimento, por outro lado, não constitui uma exclusividade das ciências humanas, pois essa mesma identidade irrompeu também nas ciências físico-naturais. Ela sublinha, por sua dificuldade própria, a centralidade das humanidades como locusde conhecimento analítico, sintético e crítico.

No entanto, as humanidades em geral tenderam a ser minimizadas no ensino fundamental para serem ameaçadas também no ensino superior. Jordi Ibáñez, defendendo as humanidades “frente a uma Administração que as despreza” (sic), afirmou emApuntes sobre las Humanidades en Tiempo de Crisis: “Para que o mundo da política e suas meias mentiras não sujem todo, para que a luta pelo poder não nos submeta a uma extensa e sustentada pantomima baseada na prática da intoxicação, é necessário pensar em zonas sagradas, em muros de contenção, em pontos de referência nos quais a possibilidade de dizer o que as coisas são seja ainda uma experiência consistente, dotada de realidade e sentido”. Palavras mais do que válidas para nosso país.

A interação das ciências naturais com as ciências humanas é uma das chaves para a abordagem abrangente dos problemas encarados pela sociedade, que ultrapassam os limites impostos pela fragmentação científica. Na USP, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), principal centro de humanidades do País, deve ser o fermento principal do seu caráter interdisciplinar, resgatando a especificidade e a unidade das ciências humanas. A faculdade superou, na década de 1990, um debate sobre sua divisão. Em anos recentes, porém, a FFLCH passou a padecer problemas estruturais que comprometeram sua finalidade, determinados pelos recursos escassos e pela combinação perversa da falta de professores com superlotação das salas de aula. Nenhuma queda ou enxugamento de recursos pode justificar essa situação. Um país sem ciências humanas em constante desenvolvimento é um país cego sobre seu passado, seu presente e, sobretudo, sobre seu futuro.

Imagem do Dia

Sutherland Falls e o lago Quill (Nova Zelândia)

O Brasil irreal de Temer

Não vamos nos deixar iludir: a nossa tímida recuperação econômica deve-se principalmente ao fato do banimento do PT do poder que deixou a classe empresarial e o povo em geral mais esperançosos e otimistas quanto ao futuro do país. Contribuem também para isso o afastamento da Dilma da presidência, a operação Lava Jato – que intimida os corruptos – e a perspectiva do fim da influência do PT na máquina pública. Portanto, ainda não podemos atribuir ao Temer e a sua equipe essa reação discreta da economia. Até agora, o presidente só gastou. Gasta bilhões com o aumento dos salários do servidores públicos e ameaça gastar – veja só! – muito dinheiro com a publicidade estatal no próximo ano.

Charge do dia 19/08/2016

É espantoso saber que o governo projeta torrar em 2017 mais 20% em publicidade institucional, como apurou o jornalista Ivanir Bortot, do site “Os divergentes”. Isto quer dizer o seguinte: Temer vai liberar para divulgação oficial a bagatela de 350 milhões de reais. É isso mesmo, 350 milhões de reais! Em um país em crise, não deixa de ser uma afronta ao contribuinte que um governo, que pretende economizar e enxugar as empresas estatais, destine mais recursos à publicidade do que a administração corrupta da Dilma que fez a festa das agências e da mídia com 290 milhões de reais e, mesmo assim, está sendo apeada do poder.

Nesse pacote de bondades, o governo vai destinar R$ 800 mil à capacitação dos servidores da Secom. Analisando assim, friamente, parece uma quantia irrisória, mas não é. É o seu dinheiro, contribuinte, que vai ajudar o pessoal da secretaria de Comunicação a se qualificar, como se o órgão fosse uma escola de ensino profissionalizante. É assim, pingando um real aqui e outro acolá, que o governo perde a noção dos gastos. Afinal de contas quem paga por tudo isso é o idiota do brasileiro que vê seus impostos irem para o ralo no entra e sai de governo.

Temer precisa agir com mais rigor quanto aos gastos públicos. Com pulso e determinação para evitar escorregar nas armadilhas dos burocratas que derretem o dinheiro do contribuinte com a mesma frieza dos ar-condicionados de suas salas refrigeradas. Não conheço nenhum país do mundo que gaste tanto em publicidade oficial como o Brasil para alegria da mídia e das agências de publicidades, muitas internacionais, que se instalam por aqui de olho nas verbas públicas milionárias. O culto à personalidade é típico de déspotas de terceiro mundo que gastam somas milionárias para mostrar um país irreal.

O dinheiro da publicidade e dos cartões corporativos bem que poderia estar em outras rubricas para ajudar o país a sair da crise econômica e recuperar os empregos na faixa perigosa de mais de 11 milhões de desocupados. Limitar os gastos públicos que cresceram mais de 50% acima da inflação ao longo das duas últimas décadas, como quer Meirelles, não vai isoladamente resolver o problema do déficit fiscal, enquanto o governo não cortar na carne. E cortar na carne significa reduzir o número de comissionados, acabar com os cartões oficiais, reduzir as passagens aéreas dos servidores privilegiados, acabar com ministérios inúteis, auditar e fiscalizar todas as obras superfaturadas da administração petista, incentivar a indústria e o comércio e reduzir impostos para gerar mais emprego e renda.

Até agora o governo não mostrou austeridade para conter seus gastos. Não se sabe até hoje qual a economia gerada com o fim de alguns ministérios, não se conhece uma decisão ousada de Temer para colocar o país nos trilhos. O que existe de verdade é um oba-oba de reuniões políticas incansáveis para gerar factoides otimistas sobre o país. Ah, você há de dizer: ainda está cedo. Não, um bom administrador se conhece em 48 horas. Se ele não se mostrar eficiente nos primeiros dias, certamente caminhará à sombra da incompetência e da má gestão.

O Brasil pós-Dilma precisa mostrar a sua cara.

Lembrete

Não deixes portas entreabertas
Escancare-as.
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas.
Passam apenas semiventos
Flora Figueiredo

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R$ 1 bilhão por dia

A festa foi bonita. Mas, exceto por Munique-72 e Atlanta-96, marcados por ataques terroristas, o espetáculo olímpico é sempre bacana. O problema é o custo. E aqui fica difícil qualificar a Rio-16 de qualquer expressão mais leve do que aventura irresponsável.

Pelo quadro publicado na edição de ontem da Folha, a Olimpíada consumiu R$ 39 bilhões, dos quais R$ 17 bilhões são dinheiro público, que é o que nos diz respeito. Como foram 17 dias de eventos e competições, temos a bagatela de R$ 1 bilhão por dia. Esses são dados oficiais, então não será surpresa se ainda aparecerem mais alguns restos a pagar.

É claro que nem tudo é dinheiro jogado fora. Uma parte dos custos se refere a investimentos que ficam, como o Metrô, no qual a administração estadual colocou R$ 8,6 bilhões. A dificuldade aqui é que o governo fluminense, agora virtualmente falido, poderia ter feito uso mais sábio de tais recursos. O mesmo vale para outros legados. Será que eles eram mesmo prioridade?

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Raciocínio semelhante pode ser feito para o desempenho esportivo. Como mostrou Roberto Dias na edição de ontem, o Brasil aumentou significativamente os investimentos públicos em esporte, que saltaram de R$ 2 bilhões no ciclo 2008-2012 para R$ 3,7 bilhões em 2012-16, para que obtivéssemos no Rio apenas duas medalhas a mais do que em Londres.

E, convenhamos, apoiar o alto rendimento para ganhar medalhas me parece um objetivo meio besta. Investimentos públicos em esporte deveriam estar voltados principalmente para dar condições para a população exercitar-se e motivá-la a fazê-lo, melhorando sua qualidade de vida e reduzindo as contas da saúde.

Não ignoro que organizar um evento como a Olimpíada traz ganhos difíceis de ponderar, como a melhora da autoestima nacional e da imagem externa do país. Custa-me crer, porém, que tais benefícios justifiquem o R$ 1 bilhão por dia.

Hélio Schwartsman

O lorotário da 'presidenta'

O comparecimento da presidente afastada, Dilma Rousseff, ao julgamento de seu impeachment foi agendado e ela tratou na semana passada com o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), do rito a ser adotado na sessão. Foi-lhe atribuída a intenção de reverter a crônica da condenação anunciada com um discurso capaz de constranger oito dentre os julgadores, que foram seus ministros, a votar por sua volta, depois de terem aprovado a pronúncia dela na votação anterior. Eles figuraram entre os 55 favoráveis a seu afastamento, e não entre os 21 que decidiram paralisar o processo, menos da metade dos 43 necessários (metade mais um).

O crítico severo poderá achar destemperado o gesto, o que condiz com seu temperamento tempestuoso. Mas é contrário a todas as leis da probabilidade e da lógica. Pois é Dilma a maior responsável pelo calvário que ela mesma, seu criador, Luiz Inácio Lula da Silva, e o Partido dos Trabalhadores (PT), de ambos, estão vivendo neste agosto de seu desgosto. Em março de 2014 o Estadão publicou documentos, até então inéditos, revelando que em 2006, quando era ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, ela aprovou a compra onerosa de 50% de uma refinaria da belga Astra Oil em Pasadena, no Texas (EUA). Divulgada a notícia, explicou a discutível decisão dizendo que só a apoiou por ter recebido “informações incompletas” de um parecer “técnica e juridicamente falho”. Sua primeira manifestação pública sobre o tema foi chamada, e com toda a razão, de “sincericídio”.

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Pois às vésperas de se impor como candidata à reeleição presidencial, contrariando a vontade de Lula, responsável por sua eleição em 2010, Dilma acendeu o estopim de uma bomba que viria a explodir no colo de ambos, ao delatar e encalacrar o ex-diretor internacional da petroleira, Nestor Cerveró. Aí, este, como delator premiado na Operação Lava Jato, virou um algoz de que Lula e ela não se livraram e, ao que tudo indica, nunca se livrarão.

A expulsão de Lula do páreo provocou ressentimento nesse patrono de seus triunfos. Apesar de tudo, Dilma reelegeu-se. Mas isso complicou seu desempenho no cargo em quase todas as decisões importantes que tomou, ou deixou de tomar. Ela obteve 51,64% dos votos e Aécio Neves, do PSDB, 48,36%. A diferença foi de 3,4 milhões. Essa foi a menor margem de sufrágios em segundo turno desde a redemocratização. No entanto, ela reagiu como se tivesse obtido a votação total. Em contraste com a atitude educada do opositor, que a saudou pela vitória, afirmou: “Não acredito que essas eleições tenham dividido o País ao meio.” Assim, inaugurou uma falsa aritmética, na qual o mais sempre vale tudo.

Seu primeiro erro fatal, após empossada pela segunda vez, foi atender a seus espíritos santos de orelha Cid Gomes e Aloizio Mercadante Oliva, entrar na fria de enfrentar Eduardo Cunha e o PMDB do vice eleito com ela, Michel Temer, e apoiar Arlindo Chinaglia (PT-SP) na disputa pela presidência da Câmara. Perdeu no primeiro turno por larga maioria, na primeira de uma série de derrotas que, mesmo nas vezes em que teve apoio de menos de um terço, ela nunca aceitou.

Tentando corrigir esse erro, ela prometeu os votos do PT no Conselho de Ética da Casa para evitar a punição de Cunha, que, acusado de corrupção ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mostrara força reduzindo a pó projetos do governo com “pautas-bomba”. Só que o PT lhe puxou o tapete, negou apoio ao desafeto e aprofundou o fosso que a separava do parceiro majoritário na base parlamentar. Cunha virou algoz, aceitando o processo de impeachment contra ela da lavra de um fundador do PT, Hélio Bicudo, do ex-ministro da Justiça do tucano Fernando Henrique Miguel Reale Júnior e da professora de Direito da USP Janaína Paschoal.

Nos 272 dias sob julgamento no Congresso – 160 no cargo e 112 dele afastada (se for mesmo impedida em 1.º de setembro) – ela atribuiu o dissabor à “vingança” de Cunha. Este, de fato, o abriu, mas não foi decisivo na maioria contra ela na comissão da Câmara (38 a 27), composta à feição dos interesses de sua defesa por intervenção do STF. Nem em mais quatro sessões: duas na comissão (15 a 5 e 14 a 5) e duas no plenário do Senado (55 a 22 e 59 a 21). E mais: mesmo tendo até agora logrado adiar sua cassação, o ex-presidente da Câmara não provou ter os votos de que precisa para manter o mandato.

Outra conta de seu lorotário é a do presidente em exercício, seu único sócio na chapa vencedora de 2014, com 54,5 milhões de votos. Temer tem o dever funcional, exigido pela Constituição, de assumir seu lugar, não merecendo, assim, as acusações que amiúde ela lhe faz de “traidor e golpista”.

Na dita “mensagem ao Senado Federal e ao povo brasileiro”, divulgada em palácio e na presença decorativa de repórteres, ela repetiu as lorotas de hábito. Pela primeira vez reconheceu ter cometido um “erro”. Este seria a escolha do vice e, em consequência, a aliança com o PMDB. Esqueceu-se de que sem esses aliados não teria sequer disputado o segundo turno em 2010 e 2014. Comprometeu-se ainda a adotar “as medidas necessárias à superação do impasse político que tantos prejuízos já causou ao povo”. Sem contar sequer com um terço do Senado e da Câmara, cujas decisões têm sido referendadas pelo STF, contudo, a única medida que ela poderá tomar será imitar Fernando Collor, atualmente seu prestativo serviçal, e renunciar. Para tanto, contudo, a Nação não aceita pacto de nenhuma espécie, seja a imunidade penal pessoal, seja outro privilégio. Não tem, muito menos, como convocar plebiscito para eleger quem cumpriria o resto do mandato, se a ele renunciar.

Só lhe restará, então, voltar ao merecido ostracismo, do qual não deveria ter sido retirada, e responder pelos vários crimes de que é acusada – e nega.

Olimpíada não traz legado para saúde de cidade-sede

A Olimpíada incentiva a prática esportiva, mas o estímulo dura pouco e não traz benefícios de longo prazo para os níveis de atividade física da população da cidade-sede. O legado dos Jogos para saúde seria, assim, "inexistente".

A avaliação é de Pedro Curi Hallal, pesquisador brasileiro e professor de Escola Superior de Educação Física da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul.



"Apesar de as pessoas se sentirem motivadas a fazer um esporte por causa da Olimpíada, não há evidência científica de que o evento aumente os níveis de atividade física da população da cidade-sede a longo prazo, diz ele à BBC Brasil.

"Mas os Jogos são um momento ideal para se falar sobre a prática esportiva", ressalva.
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Hallal foi um dos autores de uma série de artigos analisando o progresso na atividade física da população mundial no último ciclo olímpico ─ período de quatro anos entre os Jogos. O estudo, que contou com especialistas de todo o mundo, foi publicado em uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo, a Lancet.

Uma das principais conclusões é de que o sedentarismo custou à economia mundial entre US$ 67,5 bilhões a US$ 145,2 bilhões (R$ 215,8 bilhões a R$ 464,1 bilhões) só em 2013. No Brasil, o custo foi de US$ 2 bilhões (R$ 6,4 bilhões).

Na pesquisa, Hallal e outros especialistas citam um levantamento realizado pelo australiano Adrian Bauman, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Sydney.

Bauman analisou os Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno a partir da Olimpíada de Sydney, em 2000, e descobriu que não houve "efeitos significativos" nos níveis de atividade física das populações das cidades-sede.

Na Inglaterra, palco da Olimpíada anterior, o legado de Londres 2012 para a prática de esportes ainda é tema de debate local: o mais recente levantamento da organização Sport England, de junho, mostra aumento no número de pessoas com 16 anos ou mais que praticam esporte ao menos uma vez por semana.

Mas esse número teve altas e baixas desde 2012, a ponto de, no ano passado, o governo prometer rever sua política de estímulos ao esporte, segundo o jornal The Guardian. Uma das maiores preocupações era com uma tendência de queda da prática esportiva entre as classes econômicas mais desfavorecidas.

Como a Olimpíada do Rio acabou recentemente, ainda não houve tempo para verificar se o impacto será semelhante aos observados nas demais Olimpíadas. Mas Hallal acredita que a tendência deve se manter ─ e explica as razões.

"Durante a Olimpíada, as pessoas com certeza se sentem motivadas e estimuladas a experimentar um esporte. O meu filho de sete anos, por exemplo, ficou impressionado com o desempenho do Usain Bolt (velocista jamaicano) e me pediu para levá-lo a uma pista de atletismo e cronometrar seu tempo", diz ele.

"O problema é que o nível de atividade física das pessoas no seu cotidiano é determinado por uma série de fatores que são muito mais complexos do que a simples vontade de praticar um esporte", acrescenta.

"Transformar as instalações olímpicas em espaços públicos não garante o uso. É preciso um investimento contínuo em promoção da saúde e do esporte", defende.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a adaptação completa do Parque Olímpico como legado deve durar "dois anos".

De acordo com a Prefeitura do Rio, o Complexo Esportivo de Deodoro, onde foram realizadas algumas competições ─ como canoagem, hipismo e hóquei ─ terá uma utilização mista. O Parque Radical, por exemplo, vai se tornar uma área pública de lazer.

Além disso, o Estádio Aquático se transformará em dois ginásios, que serão instalados em áreas onde não há opção para práticas de esporte atualmente.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Charge O Tempo 22.8.2016

Quem não acredita em igualdade com liberdade

Nos tempos zangados que estamos vivendo, é comum os críticos das políticas de esquerda agarrarem-se à certeza de que ações de intenção igualitária não prezam a democracia, as liberdades dos cidadãos que trabalham, produzem e não devem carregar o ônus de benefícios dados a “pesos mortos” da nação. Do outro lado, não é raro encontrarmos na defesa dessas políticas uma referência desqualificadora à “democracia burguesa”. Alguma esquerda ainda não se convenceu de que a democracia pode transcender conflitos de classe, é um valor universal do Ocidente. E na má-fé desses mal-entendidos está uma das raízes da impossibilidade de se discutir política, hoje, aqui, entre nós.

Quem tem o poder de fabricar o discurso corrente pensa mais ou menos assim: há os que produzem riqueza, criam empregos, fazem crescer a economia; e há os que não. Quando o Estado carrega parte dessa riqueza dos seus donos para quem não a produziu, comete um roubo. Os produtores são defraudados. E o Estado sabe disso. Em lugar de estimular o crescimento da economia para gerar empregos faz demagogia populista. Compra com isso a gratidão do povo. E se elege enquanto a farsa durar. Fragilidades desse raciocínio: a distribuição de renda pelo Estado não é feita para os que, crescendo a economia, seriam empregados. É feita para os não empregáveis, os das margens. Dito com as palavras certas: os pobres mesmo, os que não serão incluídos quando a economia crescer. A economia globalizada de dominância financeira não é feita para eles. É feita para o “mercado”. 

Consta de ações desvinculadas da produção real. De especulação com indicadores financeiros que são números de números, não coisas. E de “sinais”. É preciso “enviar sinais para o mercado”. Para que ele se acalme. Sinais ao mercado são em geral capitulações de boas políticas sociais, que custam dinheiro. Por exemplo, um ajuste fiscal que não leva em conta as diferenças sociais, uma reforma da previdência que desconsidera o fato de que há regiões do país em que a expectativa média de vida não é de 73 anos, e um aposentado aos 65 usufruirá seu descanso por apenas alguns meses. O mercado se acalma, as expectativas se alinham para cima. Vivemos hoje mais de expectativas do que de realidades. Congelam-se as despesas do Estado por 20 anos. — Pensam: boa expectativa! — Mas com isso também se frigorificam os investimentos em educação e saúde. — Como assim?, reagem os congeladores. O mínimo constitucional está garantido para a saúde e a educação! — Pois é, o mínimo. E se em 20 anos houver aumento de receita do Estado, o mínimo continua como referência, e o excedente, que devia irrigar o que há de mais importante para um país, vai para outros lugares, não congelados. Os juros da dívida não estão congelados. A dívida cresce sem parar, os juros, altos, também. Paguem-se os juros da dívida. — Bom sinal! O mercado fica feliz. A economia se alegra. A educação continua ruim, a saúde segue doente. E os pobres, pobres. Porque o Estado congelou despesas que só dão despesa.

A base dessa visão é o direito de propriedade. Direito muito justamente garantido pela Constituição. A dívida é propriedade de alguém, que precisa ser remunerado. De fato, deve. Mas, se o devedor é o Estado e os juros são pagos com o congelamento da saúde e da educação e rédea curta nos programas sociais, quem paga é o povo. O povo pobre paga mais, paga com um futuro que deixará de ter. Também está inscrito na Constituição o princípio dos limites sociais da propriedade. Mas isso, desdenham os donos do mercado e da dívida, é excrescência de uma Constituição capenga. Direito à propriedade e limitação desse direito são uma contradição que precisa ser eliminada. Os donos do mercado e da dívida trabalham nisso, devagar, pelas beiradas do mingau.

E tem mais, dizem: as políticas sociais de esquerda são autoritárias, precisam de um Estado inchado, que custa os tubos ao contribuinte, o povo. São, portanto, na verdade, antipopulares, porque oneram injustamente a sociedade. E por que são autoritárias essas políticas? Porque — resposta pronta — a esquerda não ama a democracia. Usa-a. Assim que puder, joga-a fora. A democracia “formal”. “Burguesa.” A que pode ser um estorvo para as “aventuras populistas”. — Infelizmente, ainda há mesmo uma esquerda que não tem grande apreço à democracia. Amar a democracia exige aceitar perder, corretamente, no voto. Nada demais. Há uma esquerda que não sabe perder (no voto). E com essa atitude legitima a dicotomia entre a liberdade democrática e o projeto de igualdade social.

Precisamos olhar para essa esquerda. Ela, essa, específica, é parte do problema. Não é parte da solução. E Deus sabe que uma solução precisa vir. Já ninguém aguenta mais. — No próximo sábado, sem falta.

Para que serve um velho

Sinto falta dos velhos. Eles sumiram. Há os que se esconderam, porque ninguém mais quer ouvi-los, e há os que se portam como jovens, na ânsia de serem ouvidos. O velho mesmo, o velho clássico, o velho sábio que nos fazia baixar as orelhas e sentar de perna de índio em volta da cadeira, esse velho nós estamos matando.

Ponha-se no lugar dele: quando era jovem, há algumas décadas, sua meta era entrar no mundo dos velhos – porque eram os velhos que detinham o poder, o saber e o sucesso na carreira. Agora que virou velho, sua meta é entrar no mundo dos jovens, porque são os jovens que detêm o poder, o saber e o sucesso na carreira. Quem aguenta uma rasteira dessas?

O publicitário Dado Schneider, 55 anos, repete em suas palestras que, justo na vez dele, justo na hora de ele ficar velho, houve essa transformação inédita na história da humanidade: um volume brutal de conhecimento passou a ser transmitido das gerações mais novas para as gerações mais velhas. E há um efeito hediondo nessa inversão de papéis.

Porque, se os jovens agora gozam de poder e saber, que serventia têm os velhos? Se o nosso guru se chama Google, se o modelo de sucesso é Zuckerberg – 32 anos –, se a compreensão do mundo parece melhor na juventude, qual é a vantagem da velhice? Quem vai parar para ouvir um velho? Pior: quem vai aceitar ser velho?

'OLD MAN' graphite drawing by Pen-Tacular-Artist
É triste que o velho mesmo, o velho clássico, o velho sábio que nos fazia baixar as orelhas e sentar de perna de índio em volta da cadeira, morra no momento em que mais precisamos dele – um momento em que "estamos nos afogando em informações mas famintos por sabedoria", como disse o biólogo E. O. Wilson.

Quer dizer: temos acesso ao conhecimento como ninguém jamais teve, mas falta quem nos oriente. Falta quem nos situe nessa biblioteca de fragmentos, quem nos ajude a filtrar essa enxurrada de informações que mais atormenta do que educa. Falta quem nos ensine a lidar com essa nova vida – ou, em outras palavras, nos falta sabedoria. Que nada mais é do que saber empregar o conhecimento.

Em toda a história da civilização, os velhos exerceram um papel crucial. Na Roma antiga, o conselho de anciãos, que já era comum nas sociedades orientais, ganhou o nome de Senado – e os anciãos passaram a fiscalizar autoridades e a controlar as finanças públicas. Porque o jovem, ele é importante quando precisamos de iniciativa, ímpeto e energia, mas nada disso basta sem prudência, traquejo e paciência. Aos 30 anos de idade, Alexandre, o Grande, já havia conquistado o mundo, mas seu maior conselheiro era o velho Aristóteles.

Que conselheiro nós temos hoje? Qual foi a última vez que você parou para ouvir um velho, frente a frente, sem qualquer obrigação familiar, apenas pelo prazer de beber um pouco de sabedoria? Ainda dá tempo, mas seja rápido. Porque esse velho nós estamos matando.

Conceder reajuste ao STF agora seria escárnio

Os ministros do Supremo Tribunal Federal querem elevar seus vencimentos de R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil. A reivindicação desafia a paciência dos 12 milhões de brasileiros que tiveram seus contracheques mastigados pela crise. Os salários das togas do Supremo servem de referência para outras remunerações de servidores. Quando sobem, puxam os demais.


No final da descida da cascata, a coisa custará algo como R$ 5 bilhões por ano. Ou R$ 15 bilhões até 2019. Que totalizarão R$ 73 bilhões quando somados aos R$ 58 bilhões do pacote de reajustes que Michel Temer já concedeu a 14 categorias de servidores. No caso do Supremo, o valor do reajuste foi sugerido pelos próprios beneficiários. A aprovação cabe à Câmara e ao Senado. A sanção, ao presidente da República.

Na Câmara, 2 em cada 10 deputados estão pendurados em processos que aguardam julgamento no Supremo. No Senado, 4 em cada 10 senadores estão na mesma situação. No Planalto, há um presidente interino cuja efetivação depende do resultado de um julgamento que é comandado no Senado pelo presidente do STF, o ministro Ricardo Lewandowski.

Quer dizer: convertido em sindicato de si mesmo, o Supremo pede a um Legislativo imundo e a um Executivo provisório que lhe conceda o reajuste que o próprio tribunal estipulou. Ninguém disse ainda, talvez por medo, mas esse processo se assemelha muito a uma chantagem.

Como em qualquer reivindicação salarial, há bons argumentos em sua defesa, sobretudo num país inflacionário. A questão é que o Estado brasileiro quebrou. Os magistrados não são obrigados a permanecer no tribunal. Se preferirem, podem trocar o salário 20 vezes acima da média remuneratória do país e a segurança do serviço público pelos lucros e incertezas da atividade privada. Só não podem injetar escárnio na crise.

Imagem do Dia

Templo entre os rochedos de Wulong , no Japão

O mundo moderno está a ponto de provar que o ''bem' é idiota

"Você quer comer manteiga? Você quer um vestido bonito? Você quer viver deliciosamente? Você quer conhecer o mundo?"

O que vocês acham dessas propostas como forma de sedução, meninas?

Quem viu o excelente filme "A Bruxa", de Robert Eggers, sabe do que estou falando. O filme é um show do gênero terror para quem gosta de terror sofisticado e não desse lixo previsível que anda por aí, do qual até o Demônio (sim, com letra maiúscula) fica envergonhado.

A própria imagem da boca da jovem Tomasin (personagem principal do filme) melada de manteiga já pode nos dar a dimensão da consistência do Demônio neste filme: o que você colocaria na boca lambuzada de manteiga da jovem Tomasin? E a pergunta essencial: o que ela pediria para você colocar na boca lambuzada de manteiga dela?

Antes, um reparo: que nenhum inteligentinho imagine que estou "demonizando o sexo", tá? Normalmente inteligentinhos não entendem nada de sexo, e muito menos de mulher. Porque são "do bem".

Sim, Nelson Rodrigues dizia que teríamos saudade do canalha honesto um dia, eu digo que já estamos com saudade do Demônio honesto hoje em dia. O Demônio do filme "A Bruxa" é um Demônio honesto. Já explico por quê.


Conheço alguns satanistas por força do meu trabalho com pesquisa em religião. Todos que conheço são quase veganos. O máximo que pregam é o "combate" à Igreja Católica (coisa que qualquer criança no jardim da infância aprende nos últimos cem anos). Nem sabem o que foi o calvinismo (denominação protestante do filme). Os calvinistas eram gente de fibra, criaram os Estados Unidos. O mundo que legaremos para o futuro será um misto de praça de alimentação de shopping e gente tosca pedindo coisas de graça.

Nada como medir forças com o pecado e o Demônio (do tipo do filme) para criar músculos. Um Demônio honesto merece uma missa.

Os satanistas de hoje estão preocupados com o aquecimento global. Nada entendem do que um satanista decente entenderia. Você está se perguntando sobre o que um satanista decente entenderia? Preste atenção. Mas deixe de lado qualquer presunção de bondade que você tenha sobre si mesmo. Você quer mesmo conhecer o mundo?

Essas perguntas que abrem essa coluna são feitas pelo Demônio à jovem Tomasin na sequencia final do filme "A Bruxa". Ele pede a ela que assine seu livro (significando o pacto com ele), ao que ela responde, prontamente: "O que você tem para me oferecer em troca?". Aí, ele faz essas perguntas para ela. O que ele tem a oferecer para ela em troca é manteiga, beleza, delícia e o mundo inteiro.

Não vou contar mais nada. A pergunta dela para o Demônio indica que estamos diante de uma mulher sincera e de verdade.

O filme é construído a partir de textos do século 16. Textos de tribunais calvinistas (puritanos ingleses) em que manifestações do Demônio eram descritas. Almas superficiais veriam nisso apenas "patriarcalismo", "repressão", "abuso religioso", ou seja, tudo o que inteligentinhos veem em toda parte por conta de sua crassa pobreza de espírito.

A verdade é que o Demônio no filme é um especialista em natureza humana (sei que inteligentinhos ficam nervosos com essa termo, "natureza humana", mas quem liga para eles?). O Diabo é um humanista. Sempre foi. No filme, ele está preocupado em fazer Tomasin gozar. E o gozo, como bem sabia a psicanálise (não sabe mais), é "coisa de mulher que conversa com Deus e o Diabo".

A honestidade do Demônio está no fato dele saber que um pacto com ele significa o vício no gozo. E quem é viciado no gozo sabe que não há muita saída. Uma vez dentro da sua beleza e sua delícia ("Você quer um vestido bonito? Você quer uma vida deliciosa?"), fazemos qualquer negócio para permanecer gozando. Até morrer de gozar.

Outro dia, numa conversa, confessei que se fosse me dada apenas a possibilidade de ser um autor de livros de autoajuda, um palestrante motivacional ou um assassino profissional, eu escolheria esta última opção, por ser a mais sincera.

O mundo contemporâneo está a ponto de provar o que o Demônio nunca conseguiu fazê-lo: que o "bem" é idiota.

Ela seria o próprio dilúvio

São poucos os que acreditam, mesmo no PT, na possibilidade de uma reviravolta na sorte da já considerada ex-presidente Dima Rousseff. Está condenada. Tem uma semana para mudar o voto de sete senadores, dos 59 que já se manifestaram pelo seu impeachment. Missão quase impossível, apesar de viável na teoria.

Enquanto agora faltam dez dias ou um pouco mais, especula-se com a hipótese de Madame ser reconduzida ao poder. Seria o que de pior pudesse acontecer ao Brasil. Começa que ficaria sem vice-presidente, pois Michel Temer renunciaria. O atual ministério estaria demitido, por inteiro. No Congresso pareceria fora de propósito formar maioria, ainda que fosse grande o contingente de adesistas dispostos a dar o dito pelo não dito.


Na economia, os ínfimos resultados obtidos por Henrique Meirelles dariam lugar à maior das crises já verificadas na Republica. O número de desempregados se multiplicaria, assim como a falência atingiria a maior parte das empresas nacionais.

A maior dúvida, porém, diria respeito à mesma Dilma. Teria ela condições de governar uma nação nesse caso posta em frangalhos? Em que forças se basearia, já desligada do PT e sem um partido que não a tivesse repudiado? Onde buscaria apoio, sequer para encontrar auxiliares dispostos a acompanhá-la? Trata-se de um imperativo categórico reconhecer o malogro de um governo novamente chefiado por ela. Nem poderia repetir o vaticínio de Luís XV, aquele do “depois de mim o dilúvio”, pelo reconhecimento de que ela seria o próprio dilúvio.

Por tais motivos, afasta-se a visão do caos…

Orfandade olímpica

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O Brasil é uma terra de atletas órfãos, onde a sobrevivência é um gesto heroico e cotidiano
Katia Rubio, autora de 24 livros sobre psicologia do esporte e estudos olímpicos

Enlouquecimento global

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Evgeny Kazantsev
Segundo dados da Nasa, recentemente divulgados, 2016 deverá ser o ano mais quente no planeta desde pelo menos 1880. Antes disso não havia registros globais. O passado mês de julho já foi, em média, à escala planetária, o mais abrasador de sempre.

Há cerca de três anos a revista “Science” divulgou um estudo segundo o qual existe uma relação direta entre clima e violência. Uma equipe de pesquisadores das universidade de Princeton e Berkeley, liderada por Solomon Hsiang, cruzou dados sobre clima com outros sobre violência humana, ao longo de vários séculos. Os cientistas afirmam ter encontrado fortes evidências de que o aumento da temperatura, em particular quando associado a mais chuva, tende a elevar os índices de violência, quer individual, quer de grupo.

Lembrei-me, ao ler este estudo, de uma conversa que tive, há já muitos anos, com o romancista, poeta, cineasta e antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho. Foi na larga varanda do apartamento dele, no bairro da Maianga, em Luanda, durante a estação das chuvas. A cidade inteira era como um navio prestes a naufragar no calor. Ruy Duarte, poeta extraordinário — imagino o deslumbramento com que os leitores brasileiros o descobrirão um destes dias —, além de rara e curiosíssima figura humana, cresceu entre os horizontes sem fim do sul de Angola, por onde o pai, um aventureiro português, se passeava, caçando elefantes, e acabou transformando essa experiência inicial no centro de toda uma vida. Não fez outra coisa, quer enquanto poeta, cineasta ou antropólogo, senão debruçar-se, com curiosidade e paixão, sobre o universo dos pastores nômades do deserto do Namibe. Na tarde que hoje recordo vestia apenas um pano colorido atado à cintura, o traje tradicional desses mesmos pastores, além dos colares e pulseiras que sempre usava.
—Já reparaste que as maiores paixões, quase todos os grandes desastres de amor, bem como os piores crimes, ocorrem durante a estação das chuvas? — perguntou-me.

Devo ter olhado para ele com mal disfarçada incredulidade, pois logo me citou uma mão cheia de exemplos, uns íntimos, outros gerais e públicos. Comecei eu próprio a procurar histórias de conflitos desesperados e vastas loucuras de amor. A maioria ocorrera, em conformidade com a tese de Ruy, nos meses mais quentes, os quais, em Angola, são também os das grandes tempestades. Fiquei interessado:

— E porque acontece isso?

Ruy acreditava que o excesso de energia no ar, resultante da soma do calor e da chuva, enlouquece os espíritos. É como se as pessoas estivessem sob o efeito de uma droga poderosa, à qual não têm como escapar. Na época, eu estava escrevendo um romance sobre a extrema violência que se seguiu à independência de Angola, em particular a decorrente de uma suposta tentativa de golpe de Estado, a 27 de maio de 1977 (fim da estação das chuvas), na sequência da qual foram assassinados largos milhares de dissidentes. A conversa com Ruy deu-me o título para o livro: “Estação das chuvas”.

Ruy Duarte de Carvalho não tinha nenhuma base científica para sustentar a sua tese. Era pura intuição poética. Como tantas vezes acontece, contudo, a poesia parece ter-se antecipado à ciência.

Num outro exemplo interessante, a equipe liderada por Solomon Hsiang concluiu, que os períodos mais quentes e secos da oscilação sul do El Niño duplicam a probabilidade de qualquer país nos trópicos começar uma nova guerra civil.

A acreditar nas teses em causa vivemos em cima de brasas. Nos próximos anos, à medida que o aquecimento global se for agravando, iremos ter mais guerras.

Os políticos que se esforçam por desacreditar os estudos sobre o aquecimento global são, por coincidência, os mesmos que costumam defender os interesses dos fabricantes e traficantes de armamento. Veja-se o exemplo de Donald Trump. Não estou a sugerir que os fabricantes de armamento sejam responsáveis pelo aquecimento global, mas imagino que estejam atentos ao fenômeno.

No plano particular, convém ter cuidado com os amores da estação das chuvas, que, no Rio, acontecem sobretudo entre dezembro e abril. Ou seja, no fim do verão e naquela estação esquiva e quase metafísica à qual os cariocas gostam de chamar outono.

Se acaso, durante esses meses, cometermos algum ato tresloucado, arrastados por uma paixão avassaladora, empurrados por uma força maior do que nós, podemos sempre culpar o aquecimento global. Não foi o excesso de calor, afinal, a justificação de Meursault, o protagonista d’ “O estrangeiro”, de Camus, quando, numa praia argelina, cego pela luz do sol, assassinou um árabe?

José Eduardo Agualusa

O que o Rio ainda pode aprender com o legado dos Jogos de Londres


Parte da área do Parque Olímpic 2012 foi transformado em parque
No dia em que os Jogos de Londres acabaram, em 2012, a capital britânica já tinha um plano cuidadosamente traçado e um órgão público pronto para conduzir o legado olímpico.

Mas, ainda que as autoridades tenham conseguido revitalizar uma área degradada, que por anos carregou a fama de violenta e de mal servida de serviços e transporte públicos, nem tudo saiu exatamente como planejado.

"Há muito mais acerto que erro. Mas há coisas negativas, em especial relacionadas aos que moravam na região antes das intervenções e acabaram sendo pressionados a sair, a ir embora", observa Eduardo Fraga, empreendedor cultural que teve a oportunidade de acompanhar neste ano o trabalho da empresa pública criada exclusivamente para executar o projeto do legado.

A BBC Brasil conversou com especialistas e moradores da região de Stratford, no leste de Londres, sobre o legado dos Jogos de 2012.
Transporte, limpeza e o parque público, ainda que tenha que se pagar para usar a piscina olímpica e a pista de ciclismo, são apontados como heranças bem sucedidos da última Olimpíada. Ainda assim, há elefantes brancos e promessas não cumpridas.

O destino da vila dos atletas e dos novos empreendimentos erguidos nos arredores do Parque Olímpico é um dos itens da lista do legado que atraem duras críticas.

A promessa de manter 50% das moradias (não apenas da vila mas também as construídas ao arredor do parque) na categoria "economicamente acessível" não foi integralmente cumprida. A área atraiu novos investidores e moradores, o que fez o preço dos imóveis subir e acabou pressionando as autoridades locais a mudarem os planos.

Atualmente, cerca de 30% das moradias estão destinadas ao público mais carente com os chamados aluguéis sociais, além da compra compartilhada na qual o poder público ajuda pagando parte do imóvel e que atenderia a profissionais com renda mais baixa como policiais, bombeiros e enfermeiros.

Promessa de manter 50% dos imóveis
"economicamente acessíveis" foi descumprida
"O conceito de habitação economicamente acessível por si só é complexo e controverso. Ainda assim, as novas habitações estão sendo ocupadas não exatamente por uma maioria mais carente e nem por todos os que ali moravam antes das transformações", avalia o pesquisador Erick Omena, que faz doutorado em planejamento urbano em Oxford.

Omena pesquisa táticas de dominação para conduzir processos de remoção de moradores e estudou o caso de Londres. Ele diz que na área do parque olímpico foram destruídos dois acampamentos de ciganos, que acabaram sendo desmembrados e levados para quatro outras áreas, 450 unidades habitacionais destinadas a solteiros em situação vulnerável, uma horta e um jardim comunitário, além de uma moradia universitária.

"Existia um senso de comunidade ali que acabou sendo perdido", salienta o pesquisador, lembrando ainda que não se criaram tantos empregos quanto os prometidos.

"Essa conta exata dos empregos gerados e dos perdidos ainda precisa ser feita", diz Omena, observando que o shopping construído na região já estava previsto antes dos Jogos, mas ajudou a absorver parte da mão de obra local.

A área foi de fato revitalizada, ainda que não fosse um espaço totalmente abandonado. Hoje não há nada que remeta à pilha de geladeiras enferrujadas um dia fotografada bem no local onde foi construído o Parque Olímpico.

Ganhou uma eficiente rede de transporte, prédios novos e Parque Olímpico foi reformado, mantendo alguns dos equipamentos onde atletas competiram, oferecendo uma imensa área verde, fontes que funcionam no verão e charmosos passeios nas beiras dos canais.

Com tudo limpo e novinho, acabou atraindo interesses e pessoas de outros lugares.Image captionCom tudo novo, bairro ficou caro - muitos moradores não estão conseguindo continuar ali

O estudante brasileiro Danilo Freire foi um dos que foram morar próximo ao Parque Olímpico, num alojamento para universitários.

"Quando eu cheguei a Olimpíada já havia terminado, então eu não passei pela fase de construção, mudanças. As moradias são novas, e os preços são altos. Como o bairro é mais pobre do que a média, ficou ainda mais difícil de comprar uma casa legal na região", conta Freire.

Ainda que duas universidades tenham planos de construir unidades na região e o museu Victoria & Albert se prepare para abrir uma unidade ali, muitos dos locais não estão conseguindo se manter na vizinhança e, assim, deixam de desfrutar do legado diariamente.

Havia uma pista de ciclismo pública, mas que agora tem acesso limitado a quem paga - uma hora custa 40 libras (R$ 172) e paga-se 15 libras (R$ 64,50) para usar a de mountain bike. A preço da piscina é 5 libras (R$ 21,50) para adultos nadarem por uma hora.

"Houve a privatização de equipamentos públicos", lamenta Omena, que questiona a prometida "mobilidade social" aos que ali moravam.