domingo, 27 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


A chance

O mundo precisa lavar-se e pausar por uma semana, escreveu em 1947 W.H. Auden, um dos mais admiráveis autores de língua inglesa do século XX. O verso no original tem aparência ainda mais simplória quando retirado de seu conjunto — o monumental poema “The age of anxiety” (A era da angústia), quase tão extenso quanto um livro. Nele, Auden trata da busca humana por algum significado e identidade no mundo cambiante do pós-Segunda Guerra. Na narrativa em verso, quatro personagens reunidos num bar de Nova York contemplam onde foram parar suas vidas, sonhos e perdas. Hoje, passados quase 80 anos, cá estamos, igualmente aflitos e perturbados com a condição humana, o tempo a escoar, a pandemia a cavalgar, o futuro de cada um em suspenso. Juventude, posses, família, relacionamentos, esperança, status social, tudo parece incerto, adiado ou precário.

Aquém do noticiário nacional de emergência máxima (a combustão acelerada de Jair Bolsonaro graças à investida letal da CPI da Covid), sempre aparece um fait-divers que também diz montes sobre o Brasil miúdo. Dias atrás, o repórter Artur Rodrigues, da Folha de S.Paulo, pinçou um anúncio publicado num site de vagas de emprego, o Trabalha Brasil. Rodrigues apontou uma novidade trazida pela Covid-19 ao anúncio: a exigência de a candidata ao emprego ter tomado a vacina da Pfizer.

Pela descrição da vaga em Campinas (SP), um casal oferecia R$ 1.600 mensais a uma “babá/governanta” para cuidar de duas crianças, organizando suas rotinas, alimentação, atividades diárias (estudos, cursos, lazer). Fossem estrangeiros, a remuneração oferecida seria escandalosa. Pagar o equivalente a US$ 320 mensais por 160 horas trabalhadas (ou seja, US$ 2 a hora) é tido como ilegal em qualquer país desenvolvido do planeta. A exigência de cinco dias da semana no emprego, mais meio sábado, por salário tão minguado também seria tachada de exploração abusiva.

No Brasil de quase 15 milhões de desempregados, é provável que não faltassem candidatas. Mesmo assim, não seria fácil encontrar quem coubesse no figurino nobre (além da vacina de grife, ter boa bagagem cultural, carteira de motorista, “responsabilidade pela residência e suas dependências”) e também na realidade nativa de sempre: apenas uma folga remunerada por mês (ou 15 dias de férias ao ano), limpeza e serviços domésticos quatro ou cinco vezes por semana.

O anúncio preferiu não explicitar a preferência por cor.


Numa sociedade que ainda não conseguiu acabar com a função segregadora de seus elevadores de serviço, algumas mudanças são bem mais resistentes que a Covid-19. Elevadores existem em qualquer país do planeta, sendo indispensáveis para a entrega de cargas. Só nos mais racistas, porém, é preciso armar barraco no condomínio para fazer cumprir a lei que proíbe toda sorte de discriminação. Sempre é bom relembrar a história contada pelo saudoso geógrafo baiano Milton Santos, de uma experiência vivida por ele na Salvador dos anos 1950. O professor fora visitar um amigo recém-instalado num edifício inaugurado havia pouco. Surpreendeu-se ao entrar no ascensor dividido por uma partição mambembe com duas sinalizações — “social” e “de serviço”. À falta de dinheiro para instalar dois elevadores, foi a solução encontrada pela incorporadora e pelos condôminos para honrar a divisão de castas.

Vem aí, portanto, a inevitável discriminação social por vacinas. Pode-se entender o desejo frenético por uma agulhada da Pfizer, considerada imunizante de grande eficácia contra o vírus (94% para prevenir os sintomas). Mas ele é, e continuará sendo por longo tempo, inalcançável para a imensa maioria dos brasileiros. Ainda chafurdamos num país que estende o braço sem encontrar vacinas — o índice de apenas 12% de vacinados com duas doses não é uma fatalidade, e sim um crime de irresponsabilidade, da mesma forma que é crime o Brasil ter mais de 510 mil vidas jogadas fora pelo desvario do governo.

Ninguém, nem país algum, será o mesmo de antes da chegada da pandemia. A questão é saber se estamos a construir um futuro melhor que nosso passado. O tempo corre. Para o poeta grego C.P. Cavafy, quando falamos em ‘‘tempo’’, falamos de nós mesmos. “Quase todas as abstrações não passam de pseudônimos. Nós somos o tempo”, escreveu ele. Se assim é, temos uma grande chance para o amanhã no Brasil.

“Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam…”, escreveu Jack Kerouac. Não é preciso tanto. O caminho está apontado pelos senadores da CPI da Covid.

Há mais de um século, Brasil adotava quarentena e rastreamento contra doenças vindas do exterior

Em 1893, quatro navios que chegavam com grupos de imigrantes italianos a São Paulo tiveram que dar meia-volta. O motivo: uma epidemia de cólera que assolava a Europa e que fez vítimas entre os passageiros durante a viagem.

As embarcações foram proibidas pelas autoridades brasileiras de atracar nos portos de Santos (SP) e Rio de Janeiro, como registrou a historiadora Fernanda Rebelo (1975-2018), que se dedicou ao estudo da história das ciências e da saúde pública no Brasil.

A estratégia era impedir a chegada da doença no país, já que locais para quarentena e tratamento de doentes estavam cheios.

"Era uma medida mais drástica, mas mostra a atenção de autoridades naquela época em relação a epidemias", explica o historiador Henrique Trindade, pesquisador do Museu da Imigração, em São Paulo.


Se o navio registrasse doenças, poderia ter de
 ficar mais de uma semana em quarentena

A própria Hospedaria do Brás, onde hoje funciona o Museu, foi inaugurada devido a um surto de varíola em São Paulo, em 1887 — na ocasião, para proteger os novos imigrantes dos casos já registrados em outro alojamento, o do Bom Retiro.

O novo prédio, uma das maiores hospedarias da Américas, foi construído fora dos então limites da cidade, como uma forma de evitar o contato da população local com doenças que potencialmente poderiam ser trazidas de outras partes do mundo. E também o contrário, para preservar a força de trabalho saudável que chegava.

Mas essas não foram medidas pontuais na história do Brasil, como mostram o vasto registro em documentos históricos. Desde meados do século 19, com a intensificação do trânsito de pessoas pelo mundo, a preocupação com as fronteiras era uma prioridade.

Se o navio registrasse doenças antes da chegada ao Brasil, poderia ter de ficar mais de 1 semana em quarentena

Em 2020, com o início da pandemia de covid-19, o debate sobre medidas para proteger as "entradas" de países voltou ao radar.

Alguns, como a Coreia do Sul, conseguiram implementar medidas eficazes de rastreamento e controle em aeroportos, como quarentena obrigatória, aplicativo com monitoramento de passageiros e testes em massa nos terminais.

Outros, como o Brasil, não adotaram medidas semelhantes. Só em dezembro de 2020 (ou seja, nove meses após o início da pandemia) o governo passou exigir que passageiros vindos do exterior exibissem testes negativos para covid-19 nos aeroportos.

Ao menos desde 1810, ainda como colônia portuguesa, o Brasil se utilizava de quarentena nos portos e inspeção de navios como uma política pública para impedir a chegada de doenças ao território.

Havia ainda naquele tempo o tráfico de africanos, que forçadamente eram retirados da África para serem escravizados por aqui. Ao longo do século 19, essas medidas também se estenderam aos navios que de forma cada vez mais frequente traziam levas de imigrantes, principalmente da Europa.

Com esses novos trabalhadores, interessantes ao governo para "europeizar" o Brasil, a preocupação sanitária se intensificava.

"Por um lado, você tem a preocupação de evitar que quem chegasse pudesse trazer doenças. Por outro lado, você também tem, especialmente na corte, na cidade do Rio, a preocupação de que aqueles sujeitos saudáveis não fossem contaminados pelas epidemias daqui", relata o historiador Rui Fernandes, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador no Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores.

Em 1829, após a Independência, o país aprovou um regulamento para a inspeção de saúde pública nos portos, que tinha por atribuição verificar o estado sanitário das embarcações e decidir se estavam desimpedidas ou deveriam aguardar quarentena.

Navios que vinham de locais da Europa onde havia surtos de doenças como a cólera precisavam passar dias sendo inspecionados por médicos. No Rio, as embarcações deveriam ficar em ancoradouros como o de Jurujuba, em Niterói, onde também havia o Hospital Marítimo de Santa Isabel.

Em um relatório do Império de 1856, o ministro dos Negócios dizia que "estabelecimentos desta natureza são de indispensável necessidade em portos tão frequentados como este da capital".

Também já havia a defesa de diminuir o uso de quarentenas como método e a necessidade de investimento em tecnologias de desinfecção e construção de lazaretos, locais para onde poderiam ser levados os doentes.

O principal lazareto, o da Ilha Grande, no Rio, ficaria pronto em 1886, logo após estourar uma epidemia de cólera na Europa.

Foi ali que ficou focado o serviço para quarentena de navios que vinham de portos como os de Triestre, na Itália, e Fiume, na atual Croácia, considerados locais de surto da epidemia, e até de Uruguai, Argentina e Chile, devido ao aparecimento da doença nos países vizinhos.

"Muitas vezes a própria tripulação já informava ao porto que aquele navio estava infectado. E aí nesse caso não era permitido que ele nem chegasse à Baía de Guanabara, ele já era levado lá pra Ilha Grande", explica Fernandes.

Com o telégrafo, os portos da América também ficavam sabendo rapidamente de epidemias.

Mas as quarentenas não ficaram restritas aos navios. As medidas também se estenderam às próprias hospedarias, como a do Brás, em São Paulo, e da Ilha das Flores, no Rio.

"Temos registros de quarentenas que geraram conflitos entre imigrantes e autoridades públicas. Eles chegavam obviamente angustiados, com medo, num país novo e, se tivessem algum tipo de doença, eram separados até de familiares", diz Trindade, do Museu da Imigração de São Paulo.

Na Ilha das Flores, hoje conectada ao continente na cidade de São Gonçalo (RJ), o local servia também para que imigrantes saudáveis não precisassem frequentar o centro do Rio, com condições sanitárias precárias, antes de seguir para lavouras e colônias no interior.

"Relatórios administrativos buscavam enfatizar que essa política sanitária era exitosa. Mas quando a gente cruza com alguns da imprensa do período, você identifica que nem sempre era exitoso", destaca Fernandes.

Já no final do século 19, um relatório do governo paulista apontava que a cólera que devastou partes da Europa chegou ao Brasil, apesar das quarentenas. A "culpa" foi atribuída às bagagens.

Segundo explica Trindade, com base nos registros do Museu da Imigração, foi quando se intensificaram medidas de se desinfectar roupas e malas para combater essa e outras doenças. Também havia cada vez mais uma preocupação com as perdas econômicas causadas pelas quarentenas.

Num surto de febre amarela no interior de São Paulo, também foram instaladas nas estações ferroviárias estufas e pulverizadores para desinfecção de bagagens e passageiros. Pessoas que embarcavam em cidades assoladas por algum surto eram colocadas em um vagão específico, já que não se sabia que a doença não era transmissível de pessoa pra pessoa.

Com avanço dos estudos bacteriológicos, surgiu o uso do aparelho de gás Clayton.

Em artigo na revista História, Ciências, Saúde, da Casa Oswaldo Cruz, a historiadora Fernanda Rebelo relata: "uso do gás sulfuroso seco, produzido sob pressão do aparelho de Clayton, nas condições em que foi empregado (grau de concentração de 8%), foi perfeitamente eficaz na desinfecção dos navios, para tornar inofensivos os objetos contaminados pelos micróbios da febre tifoide, da cólera e da peste".

"Além disso, o processo permitia destruir todos os ratos e insetos como pulgas, percevejos, baratas."

Com algumas dessas novas tecnologias, o governo começou a abolir as quarentenas de navios. Como mostram documentos da época, imigrantes desembarcados também passaram a gozar de liberdade de locomoção desde que indicassem a residência de destino, onde seriam visitados por funcionários da Inspetoria Geral de Saúde do Porto do Rio de Janeiro, durante o prazo de incubação da doença registradas nos navios.

As medidas para evitar o espalhamento de doenças também ocorriam dentro do Brasil.

Durante a epidemia de cólera que atingiu a parte paulista do Vale do Paraíba no final de 1894, registros em jornais da época mostram que o tráfego ferroviário entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro foi interrompido, para evitar a propagação da doença à então capital federal.

Empresários paulistas criticavam as medidas, que prejudicavam o comércio e a indústria. Por vezes, minimizavam a força da epidemia e faziam duras críticas à administração. A interrupção durou alguns meses, mas depois foi substituída por medidas como passaporte sanitário, desinfecção de passageiros e proibição de comércio de produtos como carne e leite.

Para o historiador Henrique Trindade, a política sanitária do período "contribuiu para que algumas epidemias do final do século 19, do começo do século 20, não fossem tão mortíferas quanto poderiam ser".

Mas também não impediu que doenças se alastrassem pelo Brasil, como a cólera, em 1899. O surto, porém, fez o país criar as suas duas mais importantes instituições de pesquisa em saúde: Fiocruz e Butantan.

'Mito' em surto: temor dos mortos, das ruas, CPI e Salles

Na visita a Guaratinguetá (SP), segunda-feira, o presidente da República tirou de vez o simulacro de máscara que lhe encobria o rosto, e os brasileiros viram, sem disfarce, o ocupante do Palácio da Alvorada amedrontado por seus demônios e fantasmas, em estado de aparente transtorno, ou surto, e nem precisa ser psicólogo ou psiquiatra para chegar a esta conclusão. A dúvida é quanto à causa (ou motivos, que parecem múltiplos) de seu nervosismo e destempero, basta rever vídeos e áudios que correm pelas redes sociais e sites da internet, no Brasil e no mundo. Sintomático o acesso de fúria do mandatário ao gritar ordens, de público, para assessores e auxiliares de seu governo, mas principalmente para a repórter da afiliada da TV Globo na região, durante a caótica entrevista coletiva na pacata Guará: “Cale a boca! Essa TV Globo é uma merda”. E desfiou um desaforado, aluado e desconexo palavreado retórico, com xingamentos, ofensas e desvarios como não se tem notícia na história republicana e democrática do Brasil. Salvo, talvez, o caso do sucessor do presidente Venceslau Brás, em 1915, o mineiro Delfim Moreira, reconhecidamente amalucado, que cogitou até criar galinhas no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Há quem diga que, em Guaratinguetá, Bolsonaro teve uma explosão nervosa retardada. Efeito do editorial do Jornal Nacional, lido com força máxima por William Bonner e a colega de bancada, Renata Vasconcelos, na edição para não esquecer, do sábado em que o Brasil atingiu a vergonhosa e sinistra marca de 500 mil mortos pela pandemia Covid-19. Mas logo ficou patente que havia mais incêndios sob as chamas e chispas de fogo que o mandatário do Planalto soprava pelas narinas e boca às vésperas dos festejos a São João.

Além de distribuir xingamentos e ofensas a jornalistas em geral, e em especial à repórteres e fotógrafos que não se pautam por seu destrambelhado e autoritário “manual de redação”, no cercado da sua claque de adeptos no Alvorada, passou a maldizer também à CNN pela cobertura das manifestações, por “vacinas no braço, comida no prato e fora Bolsonaro”, no país, em especial na Avenida Paulista, do estado governado pelo tucano João Dória JR, inimigo visceral desde sua posse no cargo. As presenças de Boulos (Psol), Haddad (PT) e Orlando Silva (PC do B) puxando o ato que tomou 9 quarteirões da monumental avenida da megalópole brasileira, e os protestos do Rio de Janeiro – com a destacada presença de Chico Buarque de Holanda usando máscara no meio da multidão – também contribuíram para deixar em frangalhos o sistema emocional do capitão presidente.

Sem falar no embrulho chamado Ricardo Salles, o pior e mais suspeito ministro do Meio Ambiente da história do Brasil, que precisou ser expurgado, na quarta-feira junina, de triturar os nervos do mandatário, em queda expressiva nas pesquisas de opinião, que tinha em Salles, amigo do peito e arauto dos desmandos no governo. Há, ainda, os efeitos da Comissão Parlamentar de Inquérito Covid-19 e a “bomba” da superfaturada compra da vacina indiana Covaxim, que causam pesadelos e novos surtos como manifestados em Guaratinguetá. E nem apareceu ainda o nome da terceira via para 2022. Haja cordas!

A teia bolsonarista nos porões da internet

A pandemia do novo coronavírus já havia fechado fronteiras de diferentes países e ganhava corpo no Brasil em maio do ano passado. O país contabilizava, à época, 100.000 casos e 7.000 mortes pela covid-19, e seguia numa progressão que já se mostrava descontrolada, sobretudo pelo descompasso das ações do Governo ao que até hoje é preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na manhã do dia 3 daquele mês, um domingo ensolarado, o presidente Jair Bolsonaro devotou-se a apoiar manifestantes em frente ao Palácio do Planalto. Não usava máscara, tampouco seguia a orientação de autoridades médicas e científicas para evitar ―ou ajudar a formar― aglomeração. Diante de fiéis seguidores, disse que havia chegado ao seu limite, e que pedia a Deus para não ter problemas.

Cercado de seguranças, gravou um vídeo para a equipe responsável pelas suas redes sociais. Nele, minimizava os primeiros efeitos da pandemia, a qual, mais de um ano depois, colocaria o Brasil na lista dos países com um dos mais altos índices de mortalidade em decorrência da covid-19: “Sabemos o efeito do vírus, infelizmente muitos serão infectados e perderão suas vidas, mas é uma realidade.” O indisfarçável desdém em relação à doença, no entanto, tinha um outro propósito naquele dia.

O colérico convescote à porta da sede do Governo reunia uma trupe de homens e mulheres de camisas e faixas verde e amarela, alguns enrolados em bandeira do Brasil, não para exigir medidas sanitárias que pudessem conter o avanço da doença, mas aguerridos em campanha pela reedição do Ato Institucional 5 (AI-5) e por intervenção militar, processo inconstitucional dada a apologia contra a democracia.


Os principais alvos eram o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional, após medidas contrárias ao pensamento bolsonarista. “Queremos a independência verdadeira dos três Poderes, não apenas uma letra da Constituição. Não vamos mais admitir interferência”, disse Bolsonaro, em tom peremptório se comparado à preocupação com as vítimas do coronavírus desde àquela ocasião.

Dias antes, um dos ministros do STF, Alexandre de Moraes, havia barrado o nome de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal, sob o argumento de que a nomeação representava um desvio de finalidade do Governo para interferir politicamente na PF. Ramagem é amigo dos filhos do presidente, e a tentativa de acomodá-lo no cargo levou à crise do Planalto com o ex-juiz Sergio Moro, que abandonou o barco quando percebeu que não tinha carta branca para, como ministro da Justiça, indicar sequer alguém para o maior posto da PF.

Considerados antidemocráticos, os atos realizados pelo país àquela altura eram apenas a face visível de um trabalho estrategicamente elaborado desde a campanha presidencial nos porões da internet, com ajuda de apoiadores da chamada linha de pensamento conservador que ganhou brado com a chegada de Bolsonaro ao poder. Para investigar as denúncias de mau uso das redes por parte do Governo a fim de insuflar uma faixa do eleitorado contra os Poderes constituídos, a polícia então instaurou em abril do ano passado um inquérito com a finalidade de investigar quem são os responsáveis pela atuação nas redes, quem financia e qual a relação de cada um deles com o comando do Governo federal. Revelou-se, a partir daí, uma ação coordenada entre os mais diferentes agentes, de parlamentares a empresários, passando por influenciadores digitais e donos de sites colocados sob suspeita pela PF.

Com a popularidade por vezes em xeque, o Governo era apontado como um incentivador de perfis dominados por robôs, que, com nomes e apelidos diferentes, repetiam à exaustão uma mesma crítica (muitas vezes com igual erro de português) ao STF ou a algum parlamentar na mira dos bolsonaristas. Com 1.023 páginas, o inquérito montado em oito meses de investigação revela a estreita relação de agentes públicos e apoiadores também com os filhos do presidente. Segundo o relatório, aliados ao clã Bolsonaro formavam o que foi batizado de gabinete do ódio, o que já se sabia há tempos, mas agora desvelado nas investigações com detalhes até então resguardados pela privacidade das redes sociais. Trecho do documento diz que o grupo incitava “parcela da população à subversão da ordem política ou social e à animosidade das Forças Armadas contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional”. Eduardo e Carlos Bolsonaro foram intimados na condição de testemunha para falar sobre os atos antidemocráticos. Assíduos nas redes sociais, eles fazem críticas costumeiras às medidas adotadas pelo STF e pelo Congresso contra o Governo do pai.

Nunca antes um inquérito da PF havia vasculhado tamanho volume de indícios que colocam o governante do país em situação tão desconfortável quando o assunto é a destituição do Judiciário ou do Legislativo.

As investigações se concentraram por um tempo numa figura de zerada expressão pública, mas com trânsito aparentemente livre entre Bolsonaro e seus familiares. Tido como um dos participantes do gabinete do ódio, Tercio Arnaud Tomaz é lotado como assessor no gabinete de vereador de Carlos Bolsonaro, no Rio, mas dava expediente no Palácio do Planalto numa sala contígua a do gabinete presidencial, no terceiro andar. Ao lado de outros assessores, Arnauld opera ou administra, segundo a polícia, perfis disseminadores de falsas informações. Há cerca de dois anos, ele foi chamado para “impulsionar” as redes bolsonaristas.

O foco das investigações em torno de Arnauld ganhou tinta quando a polícia descobriu ―e o STF decidiu divulgar ao liberar o sigilo do inquérito― que a atuação dele não se restringia aos corredores palacianos. Ex-recepcionista de hotel alçado à condição de mentor intelectual do grupo que produziria fake news, além de memes e piadas para atacar moralmente os adversários do presidente, Arnaud teve suas redes devassadas. Foram encontradas 31 pessoas vinculadas a contas operadas ou administradas por ele.

Mas foi ao quebrar o sigilo dos perfis que a polícia descobriu um elo ainda mais forte da atuação dos Bolsonaros no ambiente profundo do mundo virtual. Arnauld já havia acessado as contas Bolsonaronews e Tercio Arnaud Tomaz através da rede da primeira-dama Michelle Bolsonaro. E não foi em Brasília. “Trata-se, ao que tudo indica, do endereço residencial do presidente Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro”, segundo um dos analistas da PF que relatou no inquérito.

Todos os integrantes da família Bolsonaro negam irregularidades no uso de suas redes sociais. A polícia descobriu ainda que tais perfis administrados por Arnaud foram acessados 1.045 vezes também de computadores do Senado Federal, da Câmara, da Presidência da República e até do Comando da Brigada de Artilharia Antiaérea. “Ao que tudo indica, as contas objeto desta análise, removidas pelo Facebook de suas redes sociais, se enquadram na tipologia ‘Operações executadas por um governo para atingir seus próprios cidadãos. Isso pode ser particularmente preocupante quando combinam técnicas enganosas com o poder de um Estado’”, diz o relatório da PF.

Assessores ligados aos filhos de Bolsonaro atuam, de acordo com a investigação, em contas sem autenticação usadas para atacar opositores do Governo. Para tentar entender melhor como funciona a dinâmica dos ataques na internet, a PF foi abastecida com informações da Atlantic Council, empresa especializada em analisar comportamentos inautênticos nas redes sociais. Verificou-se, a partir daí, que três grupos ―chamados Rio, Brasília e São Bernardo do Campo― tinham atuação relevante entre os bolsonaristas.

Uma das informações obtidas através da Atlantic é que Fernando Nascimento Pessoa operava seis contas ocultas em redes sociais. Pessoa é assessor de Flávio Bolsonaro desde 2014 e investigado no caso da rachadinha à época em que trabalhava para Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

O relatório destaca nomes como a ativista Sara Giromini (conhecida como Sara Winter) e o jornalista Oswaldo Eustáquio. Mais que apoiadores, ambos tinham cargo no Governo e atuavam a favor do presidente Bolsonaro enquanto recebiam salários no ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela religiosa Damares Alves. Sara e Eustáquio chegaram a ser presos durante a investigação, e desde então diminuíram, ao menos publicamente, suas presenças nas redes.

Foram oito meses de investigação, até dezembro, quando a Polícia Federal encaminhou o inquérito para o STF. Alexandre de Moraes, então, enviou o documento para a Procuradoria Geral da República, que, cinco meses depois, em maio deste ano, pediu o arquivamento do processo. O ministro do STF solicitou mais informações à Procuradoria, antes de decidir se daria ou não por encerrado o processo que investiga aliados do Governo. Antes, porém, Moraes liberou o sigilo de toda a investigação, resguardando apenas os documentos obtidos ao longo da apuração.

Na última quinta, a PGR reiterou ao STF pedido de arquivamento dos processos contra deputados com trânsito livre na Presidência. O vice-procurador Humberto Jacques de Medeiros afirmou: “Não se pode prolongar investigação sabidamente infrutífera”. O procurador-geral, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro, tenta uma indicação para o STF.

A julgar pela transcrição das mensagens, fotos e cópias de documentos anexados ao inquérito, as investigações devem dar fruto. O que já era percebido nas redes sociais foi revelado com detalhes pelas investigações. Os dois primeiros anos do Governo Bolsonaro foram marcados por forte atuação de agentes da Secretaria Epecial de Comunicação (Secom) junto às chamadas redes aliadas para propagar o que era de interesse do Governo, consequentemente, contra as ações do Congresso e principalmente do STF. Foram ataques direcionados a Moraes que levaram o deputado bolsonarista Daniel Silveira à prisão, de onde saiu obrigado a usar tornozeleira eletrônica.

O inquérito mostra que o ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, abraçou a causa bolsonarista e estabeleceu, em sua gestão, uma forte relação com os influenciadores digitais da direita. Segundo relatório da PF, em abril de 2019 Wajngarten assumiu o comando da Secom e tratou de se aproximar do blogueiro Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e amigo dos filhos do presidente.

Na ocasião, mostra o documento, Wajngarten se apresentou para Allan dizendo que poderia aproximá-lo de veículos tradicionais de imprensa e que, naquela semana, já havia promovido encontros de parlamentares com a cúpula do SBT, da Band e se encontraria com “bispos da Record”. Wajngarten nega que tenha havido interesse político na aproximação. “Minha gestão sempre foi técnica e profissional. Cabe à Secom atender a todos os veículos de maneira equânime”, afirmou.

O foco da operação policial nas ações que vinham sendo tomadas por pessoas próximos ao presidente terminou por um revés no comando das investigações. A delegada Denisse Ribeiro, responsável pelo caso, foi afastada do posto duas semanas depois de pedir ao STF autorização para realizar busca e apreensão nos gabinetes da Secom e da Presidência.

O conteúdo conservador dos blogs e páginas em rede social não rendem apenas seguidores com o mesmo viés ideológico. Desde a campanha de Bolsonaro à Presidência, pelo menos 12 perfis já receberam 4 milhões de reais via monetização de suas redes de apoio ao Governo. As páginas ganham reforço financeiro também de doadores espontâneos. O relatório da PF identificou que apenas o site Terça Livre, de propriedade de Allan dos Santos, receberia 100.000 reais por mês via plataformas de crowdfunding. “Durante busca e apreensão executava na residência de Allan dos Santos foi encontrada uma planilha de doadores do canal com mais de 1.700 linhas”, diz o documento da PF.

Nesse material consta, por exemplo, a doação de 70.000 reais por parte de uma servidora do BNDES, além de outros 40.000 reais por parte de um funcionário da secretaria da Fazenda, no Rio. O engajamento de pessoas simpáticas ao ambiente conservador tem suscitado desconfiança entre os investigadores. Allan dos Santos nega irregularidades ou responsabilidade na divulgação de notícias falsas. “Resta saber se essas doações são por pura simpatia à causa ou se tem gente tendo que rachar salário para abastecer um ambiente perverso à democracia”, diz um delegado da PF de São Paulo que ajudou nas investigações ao longo do ano passado.

Diz o documento: “Segundo os dados discutidos por pessoas ligadas à gestão financeira do Terça Livre, entre 13 de abril e 2020 e 13 de maio de 2020, foram realizadas 1.581 transações, das quais 659 sem reconhecimento de identificação de CPF.” À letra da lei, transações financeiras que ocultam a identificação dos negociadores revelam, no mínimo, uma dinâmica inapropriada. No rol de aliados também ouvido pela Polícia Federal, o empresário Otavio Fakhoury aparecia até então não só como um entusiasta do Governo bolsonarista, mas um dos grandes críticos ao STF e ao Congresso, fórmula capaz de transformar em aliado qualquer amigo de primeira hora da família Bolsonaro.

Uma análise feita no celular de Fakhoury mostra sua disposição em atacar o STF quando o assunto desagrada o Governo, como aconteceu quando o ministro Luís Roberto Barroso o criticou o uso de hidroxicloroquina como medicamento para prevenir a covid-19, num tratamento precoce sem qualquer comprovação científica, mas até hoje usado como uma bandeira bolsonarista.

Numa conversa em maio de 2020, semanas depois daquele domingo ensolarado em que Bolsonaro apoiou o ato contra o STF, Fakhoury endossou as críticas da deputada Bia Kicis (PS) contra o ministro Barroso. Defensora fervorosa da atual Administração, o que lhe rendeu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Câmara, Kicis reclamou com o empresário que Barroso estava tentando barrar o uso do remédio como tratamento precoce a covid-19. “Canalhas. Olha, vai ser muito difícil terminar esse governo sem entrar de cabeça numa guerra institucional contra eles, porque eles é que invadem o Executivo”, respondeu Fakhoury.

Dois meses antes, o empresário havia procurado Eduardo Bolsonaro para que o deputado tentasse lhe ajudar a conseguir um dial de FM para migrar a rádio que ele administra na internet. Numa das mensagens interceptadas pela polícia, o empresário dispara: “Precisamos da FM, nossa arma para a guerra política.” O empresário declarou que a expressão “guerra política” não ultrapassa o limite do debate de ideias.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado nas eleições para a Câmara em 2018, decidiu atender prontamente ao pedido do empresário e buscou apoio do bispo RR Soares. Dia depois do encontro com o religioso, disse ao empresário que pelo menos três rádios estariam à venda, e que ele (Fakhoury) deveria tratar com os negociadores. Procurada, a assessoria de imprensa do deputado não respondeu sobre as conversas com o empresário.

Sem precedentes no Brasil, a investigação pela Polícia Federal de atos antidemocráticos revelou uma relação dissoluta do Governo com sua base fisiológica, dentro e fora do poder. Ao que tudo indica, a dinâmica adotada pelo clã Bolsonaro para blindar o Planalto já não é uma dúvida para as autoridades federais, resta saber se, quando, quanto e quem pode ter recebido recursos para jogar nas trincheiras pró-bolsonaristas.

Nesse sentido, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União decidiu pedir, na última quinta-feira, ao STF que compartilhe dados não só a respeito da organização, mas do financiamento desses atos, virtuais ou não. A ideia é entender se houve dinheiro público nesse custeio. “Chegar ao financiador nos permitirá descobrir quem está por trás da tentativa de perpetuar um governo que faz questão de acabar com instituições democráticas”, diz um senador integrante da CPI da Pandemia, que, assim como o inquérito dos atos antidemocráticos, também investiga toda a sorte de informações falsas responsáveis por prejudicar a luta contra a covid-19 no país.

sábado, 26 de junho de 2021

Amém à corrupção

Ricardo Salles pediu demissão, mas o estrago foi feito e vai prosseguir. Ele deixou o caminho da boiada livre para o sucessor. Criou regras que dificultam a aplicação de multas, solapou os poderes da pasta ambiental limitando a atuação dos fiscais e os substituindo, favoreceu o trabalho de garimpeiros ilegais e grileiros de terras, bancou um esquema de contrabando de madeira. E comprou briga com a Polícia Federal —único erro na sua estratégia de destruição. Foi o maior predador da história da Amazônia debaixo do nariz do Exército.

Tudo isso só foi possível porque ele agiu com o amém de Bolsonaro, que agora o descarta para desviar a atenção do escândalo envolvendo a compra da vacina Covaxin. Salles tinha tanta liberdade que decidiu mandar no Cristo Redentor. Segundo o Ministério Público Federal, a gestão dele atuou para favorecer, sem licitação, o grupo Cataratas na exploração comercial do ponto turístico no alto do Corcovado.


São seis pequenas lojas de alimentação e suvenires que funcionam aos pés do monumento, que antes da pandemia recebia cerca de dois milhões de visitantes por ano. Uma delas estava nas mãos da mesma família há quatro gerações. Bisavós do atual lojista ganharam a concessão da Igreja Católica. Em julho de 2019 ele recebeu uma ordem de despejo da ICMBio, órgão do Ministério do Meio Ambiente responsável pelo Parque Nacional da Tijuca, área de floresta urbana que circunda o Cristo.

Na terça, as lojas foram desocupadas. A Arquidiocese do Rio de Janeiro defende a permanência dos antigos comerciantes e afirma que o terreno pertence à Igreja. Salles caiu e pode até ser preso, mas a disputa judicial pela exploração do Santuário não acabou.

Às vésperas do seu aniversário de 90 anos, do alto e de braços abertos, o Cristo Redentor tem acompanhado a transformação do país em feira de milicianos. Mas não esperava que a sujeira chegasse tão perto.

Será sério?


Se estivermos em um país sério, o governo Bolsonaro acabou
João Amoêdo, fundador do partido Novo

Não dá mais para disfarçar o cheiro de podre

Se ainda havia alguma dúvida, ela desapareceu ontem. O autoritário, intolerante, reacionário, equivocado e hipócrita governo Bolsonaro terá de explicar agora o cheiro de podridão que exala do Palácio do Planalto. O presidente sabia que havia um esquema de desvio de verbas montado no Ministério da Saúde. A denúncia feita à CPI da Covid talvez seja a mais grave, pelo menos dentre os episódios que já se conhece, porque envolve vidas humanas. Segundo o deputado Luis Farias, Bolsonaro sabia que o deputado Ricardo Barros, seu líder no Congresso, estava envolvido na falcatrua da importação da vacina Covaxin.

O presidente está diretamente envolvido, no mínimo por prevaricação. Segundo a acusação do deputado Luis Miranda e de seu irmão Luis Ricardo, funcionário do Ministério da Saúde, os dois foram a Bolsonaro em 20 de março, um sábado, relatar que autoridades do ministério faziam pressão para o servidor aprovar uma importação de vacina com irregularidades evidentes. O presidente disse que tomaria providência, e citou o nome de Barros. Ele não tomou providências e só agora apareceu com a desculpa esfarrapada de que apresentou o caso ao ministro Pazuello (querem deixar a bomba no seu colo, general, abre o olho) e que este voltou depois dizendo que não havia nada.


Como mandar uma investigação ser feita pelo órgão sobre o qual repousa a suspeita? Era caso de polícia, que não foi acionada. Pior, Pazuello estava de saída e seu substituto já despachava no Ministério da Saúde, embora o general tenha ficado participando de um processo de transição até o dia 22 de março. Houve, portanto, apenas um dia útil para o general investigar a denúncia e “constatar” que nada houve. Ao sair, contudo, Pazuello disse aos funcionários que havia gente querendo levar um “pixuleco” do Ministério.

Segundo o recibo apresentado pelos Miranda, deveriam ser transferidos US$ 45 milhões dos cofres públicos (R$ 225 milhões, ou duas Mega-Senas de Natal), para a conta de uma empresa em Cingapura, que não constava do contrato. Fora isso, o preço da vacina poderia estar superfaturado. A alegação do governo é que o contrato não foi finalizado. Claro, não foi concluído porque vazou. Detalhes: 1) A empresa Precisa já havia dado outros golpes na Saúde; 2) Bolsonaro intercedeu junto ao governo indiano em favor da Precisa.

O escândalo, que envolve políticos e militares, foi mal conduzido pelo governo. O ministro Onyx Lorenzoni ameaçou as testemunhas e mandou a Polícia Federal investigar um deputado no exercício do seu mandato sem autorização do Supremo. A mesma PF que não foi mobilizada quando a denúncia surgiu. Onyx disse ainda que o recibo apresentado era forjado. Não era. A arrogância do ministro é a cara do governo Bolsonaro. A estupidez do presidente parece transbordar em cascata para os escalões inferiores.

Dois zerinhos também mostraram a cara ontem. O deputado Eduardo Bolsonaro teria sido avisado por Luis Miranda e, como o pai, nada fez. O senador Flávio Bolsonaro, teria levado Francisco Maximiano, presidente da Precisa, empresa que intermediou o contrato da Covaxin com o Ministério da Saúde, a uma audiência com o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, em outubro do ano passado. Essa intimidade com Maximiano, revelada ontem pela revista “Veja”, deve empestear ainda mais o ambiente no Palácio do Planalto.

Além dos escândalos que se avolumam e desmascaram Bolsonaro, não dá para esquecer as falcatruas domésticas, como as rachadinhas dos gabinetes da família do presidente e o depósito de R$ 89 mil feito pelo miliciano Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama, dona Michelle. Também precisa ser explicado onde o zerinho senador arrumou dinheiro para comprar uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. Ele recebe R$ 32 mil brutos, ou pouco mais de R$ 24 mil líquidos por mês. Se desse todo o salário para financiar o imóvel, teria de trabalhar sem receber nada por 20 anos e oito meses. E ser eleito mais duas vezes, o que a esta altura já não se pode garantir.

Com a maior cara de pau, Jair Bolsonaro disse a uma plateia no Rio Grande do Norte que em dois anos e meio o seu governo não foi objeto de nenhuma acusação de corrupção. A declaração foi feita na última quinta-feira, dia seguinte à demissão de Ricardo Salles do Meio Ambiente, denunciado no STF por enriquecimento ilícito, e à denúncia do deputado Luis Miranda sobre a Covaxin. Talvez ele tenha tentado dizer que ignorou as denúncias e se expressou mal. Ou foi um lapso psicológico. O torniquete vai sendo apertado no pescoço do presidente e de seu governo.
Ascânio Seleme

A culpa é da imprensa

Tenho o hábito de colecionar manchetes mal redigidas. Minhas favoritas são aquelas ambíguas e carregadas de humor involuntário, do tipo “Polícia indicia estudante picado por naja, mãe, padrasto e outras 9 pessoas”.

Quando posto essas pérolas no Facebook, é inevitável que os comentários deixem de lado a graça da coisa e apontem para a decadência da imprensa, as nefastas consequências do fim da exigência de diploma para jornalistas ou a “geração Paulo Freire” (seja isso lá o que for).

Não, a imprensa não está em declínio. A sintaxe e a ortografia andam levando surras diárias, mas a imprensa, como instituição, continua sendo uma salvaguarda da democracia: denuncia condutas antirrepublicanas, combate a desinformação, propaga a diversidade de opiniões. Daí incomodar tanto e ser alvo prioritário de qualquer projeto totalitário de poder.

O desapreço pela imprensa não é monopólio da direita ou da esquerda. Jornalistas foram agredidos tanto por militantes petistas, na era Lula, quanto por bolsonaristas, na gestão atual. Há 17 anos, um correspondente estrangeiro quase foi expulso do país por ousar escrever sobre os hábitos etílicos do então mandatário. Do “cachaceiro” ao “pequi roído” (passando por “ladrão” e “genocida”), a liberdade de expressão tem sido deliberadamente embaralhada com difamação e calúnia.

Para Lula, a “Veja” destilava “ódio e mentira” contra seu governo. “Nós somos a opinião pública”, gabava-se o ex-presidente. “Nós não vamos derrotar apenas os nossos adversários tucanos; nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político.”

Nada muito diferente do que andou dizendo Jair Bolsonaro ao declarar que “o certo é tirar de circulação” a “Folha de S.Paulo”, O Globo, “O Estado de S.Paulo” e o site O Antagonista — todos “fábricas de fake news”.

Bolsonaro vê na imprensa uma inimiga; Lula só a concebe como correligionária. Entre o PIG (Partido da Imprensa Golpista) de antes e a imprensa “patife” e “canalha” de agora, mudou apenas o remetente. O destinatário é a mídia que cumpre seu papel.

O iutuber Felipe Neto foi intimado a depor numa investigação de “crime contra a segurança nacional” por ter se referido ao presidente como “genocida”. Mobilizou, merecidamente, milhares de apoiadores.

Poucos dias antes, Felipe Neto havia tuitado um recado aos “prezados jornalistas tucanos”: não batam na esquerda até as eleições. Em outras palavras: não cobrem autocrítica, abram mão da independência de pensamento. Se não aderirem à servidão voluntária da imprensa chapa-branca, depois não reclamem. Uma espécie de “minha liberdade de expressão é sagrada; a dos outros, nem tanto”. É o autoritarismo dos “libertários”, diferente só na forma daquele dos liberticidas.

Ao contrário do que digam o título lá em cima e o governante de turno, a culpa (pelas maracutaias, pelo descaso com a vida) não é da imprensa. Ainda que estropie o português aqui e faça uma manchete hilária acolá, ela continua sendo a maior aliada do povo contra os abusos do poder.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Pensamento do Dia


 

De luto contra Bolsonaro

No dia 16 de agosto de 1992, um domingo, o Brasil saiu de preto às ruas para mostrar que tinha vergonha na cara. Dias antes, o presidente Fernando Collor, já carimbado por denúncias de corrupção, conclamara o “povo” a desfilar de verde-amarelo para defendê-lo. E por que não? Afinal, fora eleito com 35 milhões de votos, uma enormidade, e ainda se achava capaz de levar o país no grito. Em troca, o povo silenciou-o com suas roupas e bandeiras pretas em todas as cidades. Menos de dois meses depois, Collor deixou de existir.



Jair Bolsonaro é 505 mil vezes pior do que Collor. A palavra genocida, que só em casos excepcionais saía dos dicionários contra alguém, tornou-se seu sinônimo. E de uso tão corriqueiro que se arrisca a ficar insuficiente para definir o homem que, não só deixou que centenas de milhares morressem da Covid, como, sabe-se agora, desejou essas mortes —e debocha de quem as chora.

O irônico é que Bolsonaro, que sempre quis o Brasil exposto ao vírus, beneficia-se do fato de as pessoas mais conscientes, por temerem as aglomerações, não saírem às ruas contra ele. Mas isso está mudando. A repulsa começa a lhes dar coragem, como as duas recentes manifestações mostraram. É verdade que, por enquanto, estas ainda estão longe de refletir a realidade —sei de muitas pessoas que não foram a elas por serem distantes de suas casas.

Uma coisa é ter de atravessar, a pé ou de condução, os muitos bairros que levam a uma manifestação. Mas, e se todos apenas saírem de preto num dia marcado, como em 1992, para caminhar pelos seus próprios quarteirões, de máscara e a uma distância segura, entre os amigos e conhecidos? Famílias inteiras poderão fazer isso. Um Brasil de luto dirá melhor o que é viver sob Bolsonaro.

Mesmo porque o luto —o nosso ou o de alguém que amamos— já está hoje em cada rua, prédio ou apartamento, implorando para gritar.

No Brasil, índio não é gente

Índio não é gente. Sim, é isso mesmo que você leu: índio não é gente.


Não se faça de rogado nem abuse de sua própria ingenuidade. Se você olhar com o mínimo de atenção para o nosso país, concluirá a mesma coisa: no Brasil, índio não é gente.

Infelizmente, o que temos visto nos últimos meses é um governo que insiste em destituir de humanidade e de direitos tudo o que ele considera ser "coisa de índio". Uma postura política tão antiga quanto a história brasileira. Mas que, no cenário atual, ganha requintes de crueldade. Afinal de contas, estamos convivendo com um Estado que se aproveita das crises geradas pela pandemia de covid para fazer passar a boiada, ou então para beneficiar as madeireiras que destroem ilegalmente a Floresta Amazônica. E que não pretende parar por aí. Foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e logo deve ser votado em plenário o Projeto de Lei (PL) 490/2007, que tem um objetivo muito claro: dificultar a demarcação das terras indígenas.

Em linhas gerais, o projeto propõe que as terras futuramente demarcadas ou em processo de demarcação tenham que ter presença indígena comprovada em 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal que continua vigendo no Brasil. A proposta também pretende proibir a ampliação de terras que já foram demarcadas, além de flexibilizar o contato com povos isolados. Medidas amplamente combatidas pelos povos indígenas, que durante décadas (séculos, a bem dizer) lutaram para ter reconhecido seu direito à terra, o que aconteceu, com uma série de restrições, do chamado Estatuto do Índio (Lei 6001/73), do Decreto nº 1775/96 e da Constituição Federal de 1988, que determinam as modalidades das Terras Indígenas (TIs) e suas formas de demarcação. Ou seja: o PL 490 vai contra a Constituição brasileira, reforçando o que pensam muitos brasileiros: índio não é gente.

O Brasil é um país de extensão continental. Temos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o que nos coloca em quinto lugar no ranking dos maiores países do mundo, ficando atrás apenas de Rússia, Canadá, China e Estados Unidos. Em meio a esse oceano de terras, pouco mais de 10% delas estão destinadas aos indígenas. Para aqueles que são afeitos a números e estatísticas, esse percentual pode parecer muito alto, já que as populações autodeclaradas indígenas somam aproximadamente 1 milhão de pessoas, o que corresponde a 0,5% da população brasileira.

Todavia, se observarmos com cuidado a localização das Terras Indígenas, iremos averiguar que elas se concentram nos estados do Norte do país, mais especificamente nos estados do Pará e do Amazonas. Isso significa dizer que boa parte daquilo que consideramos Floresta Amazônica são terras indígenas. Uma constatação que pode parecer profundamente perigosa. Aqueles que acreditam que índio não é gente defenderão que esse "punhado de índios" não precisam de tanta terra e que esse território deveria ser convertido para o "desenvolvimento do país" – uma forma mais rebuscada de dizer que essas terras deveriam se transformar em pasto, ou em plantação de soja, no modelo agroexportador e latifundiário brasileiro.

Mas há algo que essas pessoas que defendem que índio não é gente não entendem: índio não é gente pelo simples fato de que "o índio" não existe. O que temos são centenas de sociedades indígenas (com línguas e costumes próprios), marcadas por uma história de profunda violência e extermínio e que, uma vez mais, estão lutando para que seus direitos sejam minimamente respeitados. E não apenas seus direitos, mas também sua forma de ser e estar no mundo. Maneiras de encarar a humanidade e o planeta que fazem com que a maior parte das terras desses indígenas sejam, justamente, florestas.

Se estivéssemos realmente atentos e preocupados com tudo o que acontece à nossa volta – inclusive às possíveis razões dessa pandemia que ainda nos assola – faríamos da luta contra a PL 409 uma causa brasileira e, quiçá, mundial. Não restam dúvidas de que nosso modelo de desenvolvimento é profundamente destrutivo, colocando em risco a própria existência da humanidade. Mas existem alternativas. Podemos e devemos aprender com esses brasileiros que ainda são erroneamente chamados de índios.
 Ynaê Lopes dos Santos, professora de História das Américas na UFF

Congresso decide extinguir a Amazônia

Não é mais um entre tantos ataques nos últimos anos. É o ataque fatal. Enquanto a imprensa e as redes sociais repercutiam a saída do ministro contra o meio ambiente, Ricardo Salles, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara, a mais importante do Congresso, aprovava por 40 votos a 21 o Projeto de Lei 490/2007. O projeto, como hoje está apresentado, é o maior ataque à floresta amazônica e aos povos originários articulado pelo Governo Jair Bolsonaro e pelos parlamentares ligados ao bolsonarismo ou articulados com ele, caso dos deputados do Centrão. Se o projeto for aprovado pelo Congresso e virar lei, a floresta chegará ao ponto de não retorno que, como o nome já diz, é irreversível.


A saída de Salles é uma vitória para quem quer a floresta em pé, mas Salles era apenas um estafeta de luxo de Bolsonaro e o homem que fazia o serviço sujo para a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, para que ela possa posar de agronegócio “moderno”. Uma versão do clichê “good cop/bad cop” dos filmes de Hollywood. Salles sai, mas a “musa do veneno” segue firme como um poste. Ela e tudo o que representa estão causando danos ao meio ambiente muito antes do Governo Bolsonaro e possivelmente seguirão muito além dele.

O ataque à Amazônia e a seus povos é articulado. A aprovação do projeto de lei aconteceu no mesmo dia em que Salles se despediu formalmente do Governo no Diário Oficial. É mais importante, mas ficou na linha de baixo do noticiário ou nem apareceu. O PL 490 é a maior ofensiva contra a Amazônia e seus povos, uma ofensiva que não se iniciou com Bolsonaro nem com os parlamentares ligados a ele, mas só chega a este desfecho porque é Bolsonaro que ocupa o poder. Como a maior floresta tropical do mundo é a grande reguladora do clima, o que acontece neste momento no Congresso brasileiro ameaça o planeta. Em 2020, a Amazônia sofreu o maior desmatamento dos últimos 12 anos: 1.085.100 hectares desapareceram, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Nos dois primeiros anos do Governo Bolsonaro, o desmatamento da floresta aumentou quase 48% nas áreas protegidas da Amazônia, segundo levantamento do Instituto Socioambiental. Cientistas do clima como Carlos Nobre têm alertado repetidamente que a Amazônia está cada vez mais perto do ponto de não retorno. Recente pesquisa internacional apontou que a floresta, maior sumidouro terrestre de carbono, já começa a emitir mais carbono do que retém. Isso significa que a Amazônia começa a deixar de ser solução para se tornar um problema.

Se a Amazônia deixar de ser o que é ―uma grande reguladora do clima― será muito difícil, talvez impossível, controlar o superaquecimento global, afetando radicalmente o futuro da espécie humana e da maioria das outras. É apenas por esta razão que o investimento internacional no Brasil está despencando: nem o mais convicto capitalista quer ser identificado com o colapso da vida na Terra.

Hoje, só gente muito estúpida e muito sem escrúpulos ataca a Amazônia. Infelizmente para o Brasil ― e também para o mundo ― um dos humanos mais brutais e ignorantes do planeta é presidente do Brasil, em cujo território está 60% da maior floresta tropical, e infelizmente para o Brasil ― e também para o mundo ― algumas das pessoas mais inescrupulosas e burras do planeta estão no Congresso brasileiro. Faltam palavras para nomear humanos capazes de colocar sua própria espécie em risco. Vamos precisar encontrá-las.

É neste ponto que estamos hoje ― agora. O PL 490 é um ataque fatal, desencadeado numa região já extremamente fragilizada por toda a boiada que Ricardo Salles passou a mando de Bolsonaro, na forma de enfraquecimento da fiscalização, estímulo à invasão de terras públicas, inclusive as formalmente protegidas por lei, e incentivo aos depredadores ― grileiros, madeireiros e garimpeiros que formam a base de apoio de Bolsonaro na Amazônia. Para fechar a lista, é fundamental mencionar ainda o ataque aos povos originários, a recusa em demarcar suas terras como determina a Constituição e, finalmente, ter deixado as terras indígenas abertas para a entrada da covid-19, processo já denunciado como genocídio. O PL 490, este nome burocrático, é um projeto de extermínio que atinge a população planetária. Há um consenso solidamente respaldado por fatos, pesquisas e estatísticas de que as áreas mais preservadas da Amazônia são as terras indígenas, o que já começa a mudar em algumas regiões devido ao aumento da ofensiva contra estes povos. A resistência dos indígenas contra sua própria extinção manteve a floresta em pé até hoje. E a demarcação de suas terras ancestrais, determinadas pela Constituição de 1988, foi a principal responsável por garantir a sobrevivência da floresta. No entorno das terras indígenas e das áreas de conservação, a boiada já passou.

Estas são as razões pelas quais o agronegócio predatório, no Congresso representado pela Frente Parlamentar Agropecuária, popularmente conhecida como Bancada Ruralista, investe há muitos anos contra os povos originários e contra a Constituição, ao tentar “reformá-la” naqueles artigos que protegem a floresta e seus povos. No momento em que o direito dos indígenas a suas terras ancestrais for eliminado ou fortemente solapado, como propõe o projeto de lei, acabam as melhores chances de resistência e o genocídio iniciado há 500 anos pode finalmente ser completado. A boiada passa inteira e nós todos, inclusive os autores do crime, ficaremos embaixo dos cascos porque a floresta vai virar outra coisa. E a coisa que vira não vai regular o clima.

É duro, bem duro explicar para gente paga com dinheiro público ― e muito bem paga ― que seria prudente não tentar exterminar a espécie. Mas é nesta situação que estamos: sugerindo a Vossas Excelências que suspendam por algumas horas seu fanatismo e sua ganância e estudem pelo menos um pouco. Solicitando gentilmente a suas excelentíssimas que, por favor, não atuem para deletar os humanos do planeta. O problema é que, como a ganância os estimula a manter o cérebro livre da influência dos neurônios, preferem repetir que o colapso climático é um “complô marxista”, como fazia o homem que arruinou a diplomacia brasileira. Senhoras Bia Kicis (PSL) e Carla Zambelli (PSL) e todos os senhores ao seu redor, percebam que até as amebas têm instinto de sobrevivência.

O PL 490 é de autoria de um deputado ruralista já falecido e tramita no Congresso desde 2007. A proposta junta pelo menos outros 13 projetos ou outras 13 maldades contra os povos originários, alterando o Estatuto do Índio e atualizando o texto da PEC 215, uma das maiores ameaças aos direitos indígenas já produzidas pelo Congresso. Entre os principais pontos estão os seguintes:

1) “marco temporal”: esta tese é o maior ataque aos povos indígenas desde a redemocratização do Brasil. A Constituição de 1988 estipulou que todas as terras ancestrais dos povos originários deveriam ser demarcadas num período de cinco anos, o que, como sabemos, não aconteceu. Não se trata, é importante compreender isso muito bem, de “dar” terras aos indígenas, mas sim de reconhecer o direito ancestral dos indígenas a viver no território ao qual pertencem. É nada mais do que obrigação.

O direito dos indígenas é óbvio e pré-existente, a Constituição apenas estipula que, por ser óbvio e pré-existente, é obrigação do Estado fazer a demarcação das terras. Assim, todas as terras que ainda não foram demarcadas apontam uma falha do Estado perante os indígenas. O “marco temporal”, por sua vez, determina que aqueles povos que não estavam em suas terras ancestrais em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, perderam o direito de ocupar suas terras ancestrais. Acontece que aqueles que não estavam, só não estavam porque tinham sido expulsos para não serem mortos.

É mais ou menos o seguinte, para que seja bem entendido: você mora numa casa que antes de ser sua foi do seu pai, do seu avô, do seu bisavô, do seu tetravô, do seu tataravô etc. Aí um bando fortemente armado invade a sua casa e você precisa fugir dela com a família para não morrer. Mais tarde, enquanto você luta pela vida e por justiça, a Câmara de Deputados decide que, porque você não estava em casa naquela ocasião, perdeu o direito à ela. Assim, como se você tivesse dado uma saída pra tomar um café na casa do vizinho por livre e espontânea vontade. É de uma maldade e de uma cara de pau inacreditáveis. Mas é com o marco temporal que a banda podre do Congresso brasileiro quer exterminar o direito ancestral de centenas de povos que vivem em suas terras há milênios.

2) “flexibilização” do acesso aos isolados: cerca de 100 povos indígenas vivem no Brasil até hoje sem contato com nenhum outro povo ou com contato restrito a outros povos indígenas. Estes são povos que não querem ter contato com brancos e o respeito à sua escolha deve ser absoluto. A grosso modo, eles querem apenas viver em paz no seu canto e, para isso, preferem ficar longe dos brancos e, com frequência, também de outros povos indígenas.

O PL 490 preparou uma armadilha para eles, assim redigida: “no caso de indígenas isolados, cabe ao Estado e à sociedade civil o absoluto respeito a suas liberdades e meios tradicionais de vida, devendo ser ao máximo evitado o contato, salvo para prestar auxílio médico ou para intermediar ação estatal de utilidade pública”.

A casca de banana é a expressão “utilidade pública”. Caberá ao Estado, ao governo e ao governante da ocasião determinar o que é “utilidade pública”. É fácil imaginar que qualquer desculpa furada servirá para invadir o território dos isolados. E por quê? Porque os depredadores da Amazônia, base de apoio de Bolsonaro, quer acesso também a suas terras.

3) O projeto de lei elimina ainda a consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas ―e permite a implantação de hidrelétricas, mineração, estradas e ferrovias, entre outros empreendimentos, desde que exista “relevante interesse público da União”.

É fácil perceber que, se aprovado, o PL 490 sequestra totalmente os direitos dos indígenas e libera legalmente a floresta Amazônia e outros biomas para a exploração predatória. Se hoje, quando os direitos constitucionais dos povos originários são pelo menos formalmente respeitados e não há permissão para garimpo e outras explorações predatórias em suas terras a Amazônia teve mais de um milhão de hectares desmatados só no ano passado, imagina o que acontece em um ano de farra total e legalmente autorizada. Com o garimpo proibido, apenas na terra indígena Yanomami há cerca de 20.000 garimpeiros devastando a floresta, parte deles sob o comando do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções do crime organizado do Brasil. Para qualquer pessoa com mais de dois neurônios e um mínimo instinto de preservação e amor aos próprios filhos (ou sobrinhos), a intenção do projeto de lei é autoexplicativa e a magnitude do impacto é ridiculamente óbvia.

Mas aí está. Se arriscando a ser contaminados e morrer de covid-19, centenas de indígenas de diferentes povos protestaram em Brasília e foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo. A única deputada indígena do parlamento, Joênia Wapichana (Rede), foi interrompida e constantemente impedida de falar pela presidente da comissão, a bolsonarista Bia Kicis (PSL). A sessão de votação, na quarta-feira (23/6), foi um show de horrores, um espetáculo de estupidez e um festival de racismo explícito. Vergonha não dá a dimensão.

As terras indígenas pertencem à União, mas são de usufruto permanente e exclusivo dos povos originários. Quando o Congresso pretende rasgar a Constituição, está atingindo os direitos de todas as brasileiras e de todos os brasileiros. O objetivo é tirar estas terras de domínio público, do bem comum, e lançá-las nas mãos dos especuladores, para lucros privados. Este enredo é bem conhecido. Desta vez, como a Amazônia será fortemente atingida, isto significa que todo o enfrentamento do colapso climático e da sexta extinção em massa de espécies será comprometido, o que torna o projeto de lei um tema de interesse da comunidade global. A catástrofe que ele desenha é planetária ―e não há nenhum exagero nesta afirmação.

Ser obrigado a se livrar de Ricardo Salles, talvez seu maior amor no ministério, faz Bolsonaro sofrer. É uma enorme derrota. Salles o serviu fielmente e deixou um legado precioso para Bolsonaro, que se elegeu prometendo abrir a Amazônia para a exploração predatória e cumpriu à risca a promessa de campanha. Aqui, a folha corrida de serviços prestados por Salles, elencada pelo Observatório do Clima: “dois anos de desmatamento em alta, dois recordes sucessivos de queimadas na Amazônia, 26% do Pantanal carbonizado, omissão diante do maior derramamento de óleo da história do Brasil, emissões de carbono em alta e a imagem internacional do país na lama. Para não dizer que só destruiu tudo, Salles acrescentou uma expressão ao léxico do português brasileiro: ‘boiada’, como sinônimo de destruição ambiental”.

Ricardo Salles é também o último a cair do trio do pavor que Bolsonaro mantinha próximo ao coração, caso tenha um. Primeiro Bolsonaro foi obrigado a se livrar do antiministro da Educação, Abraham Weintraub, depois do antidiplomata Ernesto Araújo e agora do antiministro do meio ambiente. Nenhum outro expoente do ministério ecoava tão perfeitamente as sanhas do chefe como eles. Salles só caiu pela pressão internacional e também interna: ele é investigado por envolvimento com uma operação criminosa internacional de madeira da Amazônia.

Salles só foi formalmente defenestrado porque o próprio Bolsonaro está muito acuado com as evidências de sua responsabilidade no mais de meio milhões de mortos por covid-19. Salles deixou o Governo pela porta dos fundos no mesmo dia em que as investigações de compras suspeitas da vacina Covaxin chegaram ao nome de Bolsonaro na CPI da Pandemia. Se é isso o que já sabemos, podemos imaginar o quanto não sabemos ainda para que Bolsonaro, com seu perfil de cachorro louco, tenha sido convencido a se livrar de Salles. E só se convenceu, é claro, porque a política de predação da Amazônia e de todos os biomas e seus povos vai continuar.

Bolsonaro nunca esteve tão acuado. E está sentindo. Quando Bolsonaro sente, ele faz os outros sangrarem. Já alertei neste espaço ―e o faço mais uma vez― que cada dia a mais de Bolsonaro no poder é um dia a mais de horrores, especialmente onde é mais difícil de a imprensa acompanhar, como na floresta profunda. Assim como o Congresso corre para aprovar maldades, a base de Bolsonaro na Amazônia invade, saqueia, incendeia e mata. O impeachment precisa acontecer ou o Brasil vai desacontecer da maneira mais trágica.

Quem não se importa com a floresta e seus povos, com os direitos humanos ou da natureza, deveria pelo menos se importar com o fato de que, se a Amazônia acabar ―e está quase lá―, o Brasil perderá seu maior valor também como nação. Hoje é a Amazônia, pelo seu papel de reguladora do clima num planeta em transe climático, que dá relevância internacional ao Brasil. Sem ela, o restante do mundo pouco se importará com o que acontece no Brasil e estaremos sozinhos às voltas com nossa própria extinção.

Bolsonaro e o abismo

Se Jair Bolsonaro acha que está sendo cercado e cerceado, e se sente ameaçado, está mesmo. Do ponto de vista “estrutural” perdeu poder para o Legislativo (além de virar refém do Centrão) e foi manietado pelo Judiciário. Do ponto de vista das circunstâncias do cotidiano, está acuado pela evidência de que as ruas não são apenas dele. A CPI da pandemia mantém constante pressão política, gerando desgaste que o foco nos contratos da vacina indiana aumentaram perigosamente.

A questão é saber como Bolsonaro pretende sair de uma situação que ele mesmo ajudou a criar. Até aqui ele tem dobrado a aposta em reiterar crenças absurdas (como a do tratamento precoce), falsidades (como o “documento” do TCU sobre exagero no número de mortos) e seu comportamento habitual de desprezo por instituições (como se aconselhar com charlatães e puxa sacos em detrimento das instâncias técnicas do Ministério da Saúde) e ataques à imprensa.

Note-se, porém, que o horizonte de tempo no qual ele opera – o do calendário das eleições de 22 – oferece a ele dois fatores positivos. A inflação está subindo e corroendo renda e poder de compra, mas ao mesmo tempo trouxe uma (perversa) folga para gastar em auxílio imediato e até criar um programa social para chamar de seu. É verdade que o famoso “feel good factor” em relação à economia está demorando para se fazer presente. Contudo, há unanimidade nas previsões de crescimento mais robusto durante os próximos 18 meses.

Além disso, preso desde tempos coloniais aos ciclos globais de preços de commodities, o Brasil está sendo fortemente beneficiado por mais um deles, que desta vez atinge tudo o que o país exporta. O significado político eleitoral disso é menos nervosismo por parte dos agentes econômicos, inclusive em relação às questões fiscais nesse mesmo prazo do calendário eleitoral. Óbvio que nada de estrutural foi resolvido e muito menos se tratou da agenda da produtividade, a única que tiraria o país da estagnação de décadas, mas o que importa é só a reeleição.

Ocorre que Bolsonaro não tem paciência, raciocínio estratégico e nem acha que o tempo, eventualmente, possa trabalhar a seu favor – embora demonstre um cínico cálculo político de que a vacinação, que ele tanto atrasou, ajude a sociedade a deixar para trás a tragédia da pandemia. Ao contrário, seu comportamento recente transmite a sensação do indivíduo que se sente de costas para o paredão do rochedo e de frente para o abismo, com os pés escorregando.

A “costura” que ele vem fazendo para enfrentar as instituições que o cercam é corroê-las por dentro e, de fato, ele tem nomeações relevantes para fazer em breve nos tribunais superiores, além da PGR. O problema é averiguar se a “ocupação” interna dessas instâncias será eficaz para contrabalançar a reação desses tribunais (STF e TSE) ao que tem sido, por parte de Bolsonaro, a construção de uma contestação do sistema eleitoral em particular, e da democracia em geral, pois o único resultado que ele parece admitir é sua própria vitória. O TSE é desde já o grande adversário de Bolsonaro, e será presidido a partir de agosto por um ministro do Supremo que detém as informações dos inquéritos sobre fake news e atos antidemocráticos.

Confunde bastante esse permanente confronto entre um presidente que se elegeu e governa como agente “antissistêmico” e, ao mesmo tempo, trabalha por dentro e é contido pelas instituições do sistema. Algumas instituições de grande reputação na análise de risco, como a Eurásia (dirigida sobretudo para o público externo) concluem que esse atrito constante acabou gerando um equilíbrio com “resultados decentes” (incluindo reformas mesmo com pandemia), ou seja, as manchetes parecem mais graves do que a situação de fato.

A mesma análise admite, porém, que serão as eleições do ano que vem o grande “teste crítico” sobre a tese de que a democracia brasileira acabará resistindo à depredação trazida por agentes como Bolsonaro. Essa incerteza afeta mesmo os mais experientes. Um bom exemplo recente: do alto dos seus 90 anos, o político FHC afirma que Bolsonaro é um democrata. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso admite na mesma frase, porém, que “a dinâmica dos fatos políticos” pode levar à ruptura democrática.

Resta saber qual é o grau que Bolsonaro tem de atração pelo abismo.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Brasil na barca de Caronte

 


O pior exemplo possível

Jair Bolsonaro tem a alma delicada demais para alguém que passou a vida defendendo torturadores. Basta que lhe façam uma pergunta de que não gosta e pronto, desmancha-se como um suspiro na chuva. Se a pergunta vier de uma mulher, então, o descontrole é total e ele parte para a agressão. A sua braveza é proporcional ao número de apoiadores que o cercam. Ou, mais corretamente: cúmplices.

O prefeito de Guaratinguetá, Marcus Soliva, do PSC, explicou à Folha de S. Paulo, anteontem, que Bolsonaro não gostou de ser chamado de “Genocida!” quando chegou à cidade (ele só aceita gritos de “Mito!”): “Mas isso aí a gente já sabe, o temperamento do presidente, ele fica nervoso, irritado, e acaba até exagerando nas palavras. É a personalidade dele, é difícil acalmar uma pessoa irritada.”

Por ser difícil, o prefeito preferiu fazer cara de paisagem enquanto, a seu lado, a autoridade fragilizada humilhava a repórter Laurene Santos, 27 anos de pura coragem e sangue frio, no mais recente episódio de destempero bolsonaro.


Entre os vários problemas com que nos confrontamos está exatamente este: a cara de paisagem coletiva que o país faz diante das mentiras, das grosserias e dos ataques do presidente — à imprensa, à oposição, à democracia.

Duvido que o senhor Soliva fizesse a egípcia se a repórter tratasse o presidente como o presidente tratou a repórter.

Covardia explícita. Pessoas adultas têm que ser responsabilizadas pelos seus atos e por suas palavras. Ganhar as eleições e ocupar a presidência não tornam ninguém inimputável. “É a personalidade dele” não é desculpa nem para uma criança de 5 anos, quanto mais para um velho mimado.

Dizem que a personalidade do Lázaro, aquele, também é difícil. E daí?

A premissa básica da convivência em sociedade é o respeito mútuo; sem respeito não há coexistência possível, e sem coexistência não há democracia.

Não, não é normal um presidente da República se comportar feito Bolsonaro. Não é normal um presidente da República ofender jornalistas e desafetos, ameaçar a população, perturbar a ordem. Não é normal um país inteiro aceitar a falta de decoro constante da sua autoridade máxima como se fosse assim mesmo.

Não é assim mesmo; não pode ser assim mesmo. E não é “só” questão de boas maneiras. A liturgia do cargo (de todos os cargos) é intrínseca à manutenção de um tecido social saudável.

Um médico, um piloto de avião ou um porteiro que se comportassem no serviço como Jair Messias Bolsonaro se comporta na Presidência da República seriam sumariamente demitidos.

Atos de grosseria e de desrespeito que se veem no alto são exemplos, e validam atos de grosseria e de desrespeito em todos os níveis e circunstâncias.

Neste momento particular da História, são também uma grave questão de saúde pública. O combate à pandemia requer disciplina e obediência às normas de higiene. Não existe “ninguém manda em mim” diante de um vírus.

Nossa sobrevivência como nação que se pretende civilizada depende de um conjunto de valores, a começar por uma ideia bastante simples: todos são iguais perante a lei.

Essa ideia está na Constituição Federal e, antes disso, já estava na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Agora só falta ser respeitada no Brasil.

'Somos as pretas, os pretos, os índios e as índias que vamos derrubar o Governo Bolsonaro neste ano ou nas urnas'

“Olhe para o lado e veja como somos diversos.” A frase dita do alto do carro de som por uma mulher negra durante o ato contra o Governo Jair Bolsonaro em Brasília neste sábado servia para chamar a atenção dos opositores do presidente que quem está na rua pedindo o seu impeachment era a representação de várias caras do Brasil ―enquanto os movimentos em apoio a ele costumam ser monocromáticos e com a intensa participação de homens. Organizado por mulheres do movimento negro, o protesto contou com a participação e discursos de dezenas de lideranças indígenas de diversas etnias. Algumas das falas e vários dos cânticos foram feitos em idiomas nativos.

Representantes da comunidade LGBT, simpatizantes de partidos de esquerda, além de membros de movimentos estudantis, de torcidas organizadas antifascistas, movimentos sociais da periferia, punks e de sindicatos estiveram na manifestação. Usando máscaras, todos se queixaram da má condução da pandemia de coronavírus pelo Governo Federal. Neste sábado, o Brasil superou a marca de 500.000 mortos pela doença.

“Somos nós, as pretas, os pretos, os índios e as índias que vamos derrubar este Governo neste ano ou no ano que vem, nas urnas”, afirmou Margarete Coelho, uma das representantes do movimento negro presente no ato. Em determinado momento, os manifestantes prestaram homenagens ao estudante Thiago da Conceição, de 16 anos, morto nesta semana com um tiro de cabeça dentro de casa na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, enquanto ocorria uma operação policial.


Durante as quase cinco horas de manifestação, os opositores entoavam gritos de “Bolsonaro genocida”, pediam a saída dos militares do poder civil, cobravam a demissão do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) e pediam pela aceleração na vacinação contra o coronavírus por novas medidas para reduzir o número de famélicos no país – cerca de 27% da população têm algum tipo de insegurança alimentar. “Queremos vacina no braço e comida no prato”, diziam os manifestantes.

A vacinação no Brasil ainda anda lentamente, já que o Governo Bolsonaro demorou para adquirir imunizantes e não investe em propagandas massivas de orientação da população. Dados do projeto Our World In Data, da Universidade de Oxford, mostra que apenas 11% da população recebeu as duas doses da vacina. Sexto país mais populoso do mundo, com 220 milhões de habitantes, o Brasil ocupa a 71º posição entre os que mais vacinaram seus cidadãos.

O protesto deste sábado, o segundo contra o presidente em menos de um mês, não teve estimativas oficiais de público em Brasília. Nos discursos, oradores usaram um número claramente superestimado de que havia 40.000 manifestantes. Mas imagens aéreas feitas com o uso de drone deixam claro que o número era menor. Questionadas, a Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública do Distrito Federal informaram que não estão mais fazendo este levantamento. Informaram apenas que não houve qualquer registro de violência ou crimes durante a manifestação.

Para alguns dos que estiveram no ato, o tamanho do público ou a impossibilidade de que Bolsonaro sofra um impeachment diante de um Congresso Nacional que o apoia, não demonstram uma derrota dos manifestantes. “Ainda que não derrube o Bolsonaro agora, é importante aumentar a força para o derrotarmos no ano que vem”, disse o aposentado Aldino Graef, 70. “Veja, nos Estados Unidos, bastou trocar o Donald Trump pelo Joe Biden que a situação já melhorou. Há mais vacinas e a economia começa a andar”, reforçou a professora Walkíria Lobato, 61.

Entre alguns dos opositores, também havia os que queriam se desvincular das cores vermelhas que no Brasil é praticamente uma marca registrada de partidos de esquerda ―como PT, PCdoB e PSOL― e que ainda predominavam no ato deste sábado. “Estamos aqui para retomar o verde e amarelo, que é de todo o povo brasileiro”, afirmou o estudante Álvaro Julião, 23.

A tentativa de diversificar as cores também ficou exposta não só nas pinturas nos corpos das centenas de indígenas que participaram da manifestação, mas também nas maquiagens e nas roupas das drag queens que seguravam uma faixa com os dizeres: “O Brasil tá lascado! Fora Bolsonaro!”. O bordão foi ficou famoso por meio de Gilberto Nogueira, o Gil do Vigor, o economista gay e ex-participante do reality show Big Brother Brasil.

Entre os políticos que discursaram também estiveram o ex-ministro e ex-deputado Ricardo Berzoini, os deputados federais Pedro Uczai, Airton Faleiro e Érika Kokay (todos do PT), além de Talíria Petrone (PSOL). “Estamos nas ruas porque temos um presidente mais letal que o vírus”, disse Petrone. A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Sonia Guajajara, também discursou contra a mineração das terras indígenas, contra o aumento do desmatamento e o projeto de lei 490/2007, apoiado pela bancada ruralista e que inviabilizará a demarcação de terras indígenas. “A luta pela terra é a mãe de todas lutas”, disse Sônia no ato.

Conforme os organizadores, houve protestos em 400 cidades brasileiras. A expectativa deles é que novas manifestações sejam marcadas para as próximas semanas. “Se a vacinação avançar, queremos lotar esse gramado do Congresso Nacional. Aí quero ver dizerem que falta apoio popular pelo impeachment”, disse a enfermeira Mariana Castilho, 46.