segunda-feira, 21 de setembro de 2015
O que não está previsto
Por que a política, como é entendida no Brasil, não passa de um concurso de insensatez, onde quem ganha se destaca pela arrogância e quem perde pelo rancor?
Sou de uma geração de brasileiros que viveram muitas crises importantes no país, não sei se tão ou mais graves do que a que vivemos hoje. No meu tempo de vida, não me lembro de jornal sem referência quase diária a uma “crise” no Brasil.
Numa manhã de 1954, meu pai me anunciou que Getúlio Vargas havia se suicidado, descobri então que a política podia também ser uma experiência trágica. Dez anos depois, veio o golpe militar a que se seguiram, durante duas décadas, cassações, prisões, exílios, torturas, assassinatos. Depois da ditadura, a moratória do Sarney com o dinheiro sem valer nada e os supermercados a aumentar os preços a cada minuto. E o impeachment de Fernando Collor, quando tive que explicar à minha filha mais moça, então com 6 anos de idade, o que eram aqueles caras-pintadas cantando o Hino Nacional pelas ruas.
Depois desses 38 anos de turbulência, durante os quais nos perguntávamos se seria sempre assim, sem paz e sem futuro, vivemos, desde 1992, o que considero a era de ouro de nossa história republicana. Nesse período de Itamar, Fernando Henrique e Lula, consolidamos nossa jovem democracia, vencemos a inflação, estabilizamos a moeda, acabamos com o desemprego, distribuímos renda criando novas e ascendentes classes sociais. Dezoito anos de céu de brigadeiro.
Como essa crise ocorre agora, de algum modo o governo vigente é responsável por ela. Mas também não aproveitamos os bons momentos do passado recente para investirmos em nossa infraestrutura, nas bases de uma economia que não dependesse das commodities que catávamos para vender nas feiras públicas internacionais. Nos sentimos seguros demais com os grãos e as pedras que negociávamos no mundo todo. Quando não precisaram mais de nosso produto, descobrimos que não tínhamos mais do que viver.
Falando de infraestrutura, estou me referindo também à educação, à saúde, à moradia de nossa população, além dos sistemas de energia, água, transporte etc., que fazem, além de sua função específica, a dignidade dos países e de seus povos. De repente, reencontramos as escolas sem teto, as latas d’água na cabeça, gente sem emprego, a volta da inflação, tudo que pensávamos termos deixado para trás.
Em 2010, estando em Paris, eu e Sebastião Salgado demos uma dupla entrevista à televisão francesa, onde éramos tratados como porta-vozes artísticos de uma nova civilização emergente, capaz de ensinar à velha Europa como viver numa sociedade democrática, afluente e justa. Naquela semana, na capa das principais revistas do país, estava a foto de Dilma Rousseff, recentemente eleita presidente desse Eldorado, com fama de grande gestora. Me senti um cidadão importante, leve como um anjo sem culpas, representante do moderno paraíso construído por nós mesmos.
Hoje, o governo afirma que o “petrolão” é um golpe; assim como denuncia a oposição por querer provocar instabilidade político-financeira. Mas se o “petrolão” é uma farsa, se nunca houve propinas, de onde vêm os bilhões de dólares que o Poder Judiciário vem recuperando dos acusados? E quem provoca instabilidade, se é o próprio governo que apresenta um orçamento deficitário, propõe um ajuste fiscal tenebroso para o trabalhador, anuncia o crescimento da inflação e do desemprego, além de outras desgraças?
Do outro lado, a oposição só acena com uma arma para vencer a crise — a do impeachment de quem foi eleito pelo voto popular, há menos de um ano. Por que não propõe que o governo governe e, para isso, não sugere o que julgar conveniente? Por que a política, como é entendida no Brasil, não passa de um concurso de insensatez, onde quem ganha se destaca pela arrogância e quem perde pelo rancor? Impeachment é um recurso constitucional para quando não há outro, e a absoluta maioria da nação o deseja. Pouco importa a cotação da presidente nas pesquisas de opinião, o Datafolha não é o Supremo Tribunal Eleitoral.
Clay Shirky, em seu livro “Here comes everybody”, diz que quando se organiza um grupo ou uma sociedade, a escolha é sempre entre administração e caos. “É muito difícil”, diz, “criar um coletivo não administrado e, ao mesmo tempo, não caótico”. O caos faz parte da natureza, como o acaso ou o que não sabemos, não podemos usá-lo como pretexto de guerra. Para evitá-lo, a administração (a política) é uma intervenção da racionalidade humana.
Isso não significa pregar a unidade, que só serve para manter as oligarquias de sempre no poder. A unidade é um projeto conservador que visa à imobilidade no vazio confortável das ideias. Conversar é indispensável aos homens; mas sem abrir mão do conflito democrático, o único estado político que serve a qualquer sociedade humana, aquele que não pretende eliminar os que não pensam como nós. Pelo contrário, sabe que cada discurso deve conter sempre a possibilidade de o outro ter razão. E diante de dois males, temos sempre que escolher e lutar pelo bem que não está previsto.
Cacá Diegues
Sou de uma geração de brasileiros que viveram muitas crises importantes no país, não sei se tão ou mais graves do que a que vivemos hoje. No meu tempo de vida, não me lembro de jornal sem referência quase diária a uma “crise” no Brasil.
Numa manhã de 1954, meu pai me anunciou que Getúlio Vargas havia se suicidado, descobri então que a política podia também ser uma experiência trágica. Dez anos depois, veio o golpe militar a que se seguiram, durante duas décadas, cassações, prisões, exílios, torturas, assassinatos. Depois da ditadura, a moratória do Sarney com o dinheiro sem valer nada e os supermercados a aumentar os preços a cada minuto. E o impeachment de Fernando Collor, quando tive que explicar à minha filha mais moça, então com 6 anos de idade, o que eram aqueles caras-pintadas cantando o Hino Nacional pelas ruas.
Depois desses 38 anos de turbulência, durante os quais nos perguntávamos se seria sempre assim, sem paz e sem futuro, vivemos, desde 1992, o que considero a era de ouro de nossa história republicana. Nesse período de Itamar, Fernando Henrique e Lula, consolidamos nossa jovem democracia, vencemos a inflação, estabilizamos a moeda, acabamos com o desemprego, distribuímos renda criando novas e ascendentes classes sociais. Dezoito anos de céu de brigadeiro.
Como essa crise ocorre agora, de algum modo o governo vigente é responsável por ela. Mas também não aproveitamos os bons momentos do passado recente para investirmos em nossa infraestrutura, nas bases de uma economia que não dependesse das commodities que catávamos para vender nas feiras públicas internacionais. Nos sentimos seguros demais com os grãos e as pedras que negociávamos no mundo todo. Quando não precisaram mais de nosso produto, descobrimos que não tínhamos mais do que viver.
Falando de infraestrutura, estou me referindo também à educação, à saúde, à moradia de nossa população, além dos sistemas de energia, água, transporte etc., que fazem, além de sua função específica, a dignidade dos países e de seus povos. De repente, reencontramos as escolas sem teto, as latas d’água na cabeça, gente sem emprego, a volta da inflação, tudo que pensávamos termos deixado para trás.
Em 2010, estando em Paris, eu e Sebastião Salgado demos uma dupla entrevista à televisão francesa, onde éramos tratados como porta-vozes artísticos de uma nova civilização emergente, capaz de ensinar à velha Europa como viver numa sociedade democrática, afluente e justa. Naquela semana, na capa das principais revistas do país, estava a foto de Dilma Rousseff, recentemente eleita presidente desse Eldorado, com fama de grande gestora. Me senti um cidadão importante, leve como um anjo sem culpas, representante do moderno paraíso construído por nós mesmos.

Do outro lado, a oposição só acena com uma arma para vencer a crise — a do impeachment de quem foi eleito pelo voto popular, há menos de um ano. Por que não propõe que o governo governe e, para isso, não sugere o que julgar conveniente? Por que a política, como é entendida no Brasil, não passa de um concurso de insensatez, onde quem ganha se destaca pela arrogância e quem perde pelo rancor? Impeachment é um recurso constitucional para quando não há outro, e a absoluta maioria da nação o deseja. Pouco importa a cotação da presidente nas pesquisas de opinião, o Datafolha não é o Supremo Tribunal Eleitoral.
Clay Shirky, em seu livro “Here comes everybody”, diz que quando se organiza um grupo ou uma sociedade, a escolha é sempre entre administração e caos. “É muito difícil”, diz, “criar um coletivo não administrado e, ao mesmo tempo, não caótico”. O caos faz parte da natureza, como o acaso ou o que não sabemos, não podemos usá-lo como pretexto de guerra. Para evitá-lo, a administração (a política) é uma intervenção da racionalidade humana.
Isso não significa pregar a unidade, que só serve para manter as oligarquias de sempre no poder. A unidade é um projeto conservador que visa à imobilidade no vazio confortável das ideias. Conversar é indispensável aos homens; mas sem abrir mão do conflito democrático, o único estado político que serve a qualquer sociedade humana, aquele que não pretende eliminar os que não pensam como nós. Pelo contrário, sabe que cada discurso deve conter sempre a possibilidade de o outro ter razão. E diante de dois males, temos sempre que escolher e lutar pelo bem que não está previsto.
Cacá Diegues
Pérolas

O governo esmera-se, cada vez mais, em maquiar tudo o que faz, como se todo o desastre produzido por ele mesmo não tivesse existido. Afinal, tudo se deve, evidentemente, a causas externas, à seca e a alguma outra desculpa inepta que encontre pelo caminho. Reconhecer seus erros, jogar no lixo a tal da “nova matriz econômica”, que pôs o Brasil neste buraco, não consta de suas prioridades. Ao contrário, pretende repetir mais do mesmo, em nome de supostos “direitos sociais”, que, na verdade, são simplesmente o seu próprio desejo de se manter no poder.
A encenação tem um único propósito: aumentar impostos. Seu pacote não fez nenhum esforço real de corte dos próprios gastos, estabelecendo prioridades, formulando reformas estruturais, como a previdenciária e a trabalhista. Nada disso, só estabeleceu supostas preliminares para reintroduzir a CPMF.
É sobejamente conhecido tratar-se de um mau tributo, que impregna toda a cadeia produtiva, além de incidir sobre impostos já pagos. É um imposto em cima de impostos, um despropósito, ademais, já rejeitado por parlamentares e pelo vice-presidente semanas atrás. É a crônica de uma derrota anunciada. O argumento de que se trata de uma contribuição “pequenininha”, apresentado pelo ministro da Fazenda, é uma afronta à inteligência dos brasileiros. Melhor teria sido o silêncio e a preservação de sua própria reputação.
A proposta da CPMF apresenta ainda uma artimanha política de monta. Embora o nome inclua o caráter de provisória, os ministros não estabeleceram o tempo de sua duração. Instados por uma jornalista a esclarecer esse ponto, a resposta foi uma pérola: quatro anos. Ou seja, querem com essa contribuição garantir o governo Dilma em sua própria política econômica até o fim, dando-lhe condições financeiras de perseverar em seus erros.
Trata-se de um cheque em branco dado à sua incompetência. Na verdade, seria uma espécie de garantia para a presidente terminar o seu mandato, sem nada alterar de seus fundamentos. Para cobrir tal (des)propósito, tivemos direito a outra pérola, a de que o próximo governo teria um ano da contribuição, podendo, então, renová-la ou não. Fomos tratados como tolos.
Aliás, os dois ministros em suas apresentações aparentaram cansaço e atenderam àquela obrigação com fastio. No caso de Joaquim Levy, que ficou com o maior ônus, era evidente a sua falta de convencimento, como se pressionado pelas circunstâncias. Se não seguisse o ritual, provavelmente teria de deixar o cargo. Já Nelson Barbosa concordava com o que estava fazendo, pois é um dos responsáveis pela tal “nova matriz econômica”, que praticamente quebrou o Brasil.
Ora, o fastio é dos brasileiros, obrigados a seguir essas “orientações” como se fossem naturais, quando, de fato, são fruto de escolhas do atual governo. Os contribuintes estão cansados de tanto engodo.
Outra pérola da apresentação foi a justificativa do ministro Barbosa de que há estudos para uma reforma da Previdência, com grupos de trabalho já constituídos - bem conhecido subterfúgio dos governantes para nada fazerem e nada decidirem, simplesmente transferindo responsabilidades. O rombo da Previdência é conhecido de longa data e está se tornando explosivo. Os 13 anos de governo petista não teriam sido suficientes para tomar uma decisão! No governo Dilma, a bomba foi acionada. O que fez? Nada, ou melhor, criou “comissões para discussão”.
Nesse meio tempo, óbvio, a nova CPMF seria usada para cobrir o rombo da Previdência, que tem como único responsável o governo, que nada fez. Terá o ministro Barbosa descoberto o problema agora? Nada fizeram e agora chamam os contribuintes a arcar com mais esse ônus, causado por sua irresponsabilidade? Os brasileiros estão sendo tratados como idiotas.
O corte dos recursos do Sistema S é mais uma amostra de irresponsabilidade. Trata-se de uma contribuição empresarial que financia seus sindicatos, voltados para o aprimoramento funcional, profissional e técnico de agricultores, trabalhadores e empresários. Seus instrumentos são o Senar, o Sesc e o Senai, além do Sebrae. Essas instituições cumprem muito bem o seu papel e se lhes sobram recursos é porque são bem administradas, ao contrário das governamentais, sempre deficitárias.
E o que faz o governo? Quer transferir esses recursos para si, com o arbítrio que o caracteriza. Em nome de uma suposta “reforma”, o governo procura se apropriar do que não lhe pertence. Tira de quem emprega responsavelmente para tapar seus próprios buracos. Uma irresponsabilidade.
Nesse festival de pérolas, o governo propõe postergar o reajuste do funcionalismo público de janeiro para agosto, além de não realizar concursos no próximo ano. Isso significa que o governo está “cortando” recursos futuros, ou seja, inexistentes. Não se trata de um corte feito na sua atual utilização de recursos, para ele intocável, tal como seguem intocáveis todos os seus “programas”. Um governo que não tem mais recursos não tem como oferecer reajustes nem aumentar seus quadros, por mais justas que possam ser as demandas de recuperação de perdas causadas pela inflação, pela qual, aliás, ele é o único responsável.
Como se não fosse suficiente, a proposta ainda mexe com as emendas parlamentares, produzindo mais conflitos. É como se tivesse uma compulsão incontrolável a criar problemas. Note-se que essas emendas seriam canalizadas para o PAC, isto é, para seus próprios projetos, que ficariam ao abrigo de cortes. Deveriam, portanto, os parlamentares apoiar obrigatoriamente o governo, que procuraria safar-se de suas enrascadas.
Sinceramente, os brasileiros não merecem essas pérolas e esse descaso.Denis Lerrer Rosenfield
Abismo ou virada?
Pontos de virada surgem em momentos incomuns da vida de uma nação. Estamos passando por um deles. Neles alguns enxergam só crise e abismo, enquanto outros, por isso mesmo, a chance de se operarem mudanças de fato, como costuma ocorrer nos pontos de virada de nossas vidas individuais.
Por enquanto, o governo Dilma tem posto a perder essa chance de transformar crise em oportunidade. O reiterado anúncio do orçamento fiscal para 2016, agora com uma projeção de ínfimo superávit primário, da ordem de R$ 30 bilhões, para tentar fazer frente a uma exorbitante conta de juros, de R$ 450 bilhões (afinal, isso equivale a 18 Copas do Mundo sendo financiadas num único ano!), demonstra que o governo Dilma não tem a menor noção da grandeza do problema financeiro que está diante de si. E, por se tratar de um caso limite de déficit fiscal, sem precedente no resto do mundo, decorrente de uma conta anual de juros da ordem de 8% do PIB, a equipe econômica de Dilma reage com fraqueza, ao remediar uma situação tão grave com providências baseadas em sofismas e band-aid.
O governo apela para a escalada tributária com um sofisma, pois está mais do que claro o efeito de gangorra entre os impostos e o PIB em momentos recessivos: imposto para cima e PIB para baixo. A receita extra que se arrecadaria (porque, afinal, não passará no Congresso) da famigerada CPMF, a sociedade esgarçada iria “economizar” deixando de recolher outros tributos devidos, numa reação defensiva para não pagar sozinha a conta absurda dos juros e da máquina pública perdulária. O ataque ao déficit fiscal tem que ser estrutural e plurianual. A Lei de Diretrizes Orçamentárias teria que incluir regramentos claros quanto à limitação de todas as rubricas orçamentárias, como acaba de anunciar o México, com seu orçamento em “base zero”, apesar de ser um país classificado como de risco baixo e classe A em crédito soberano.
Com sua resposta tosca e mal formulada, empurrando sua inépcia para o colo do Congresso, o governo Dilma tenta ainda conseguir estender o prazo de validade do modelo falido de expansão permanente e automática do aparelho estatal. A população, que não vê futuro nesse caminho, se fecha numa oposição de molusco, calada e tensa, sem saber como mais demonstrar sua insatisfação.
O estado de impasse, no entanto, não durará muito, porque a conta de juros anuais jogará os mercados contra o governo e a taxa de câmbio para a estratosfera. O déficit verdadeiro, a ser combatido e eliminado, alçará a mais de 8% do PIB este ano: esta é a pior diarreia fiscal e inflacionária, desde os anos 1980. Daí a situação-limite, o ponto de virada, para o abismo, ou para um regime fiscal definitivo, que o Plano Real, de 1994, nos prometeu, mas não entregou.
O Brasil precisa de uma lei orçamentária plurianual, vigente e estável, até 2022. E precisamos votar tal lei ainda este ano. O efeito do anúncio, se crível, sobre o ânimo dos mercados, será imediato e positivo. As contas fiscais dos próximos anos convergirão para uma trajetória de controle orçamentário e para a inauguração de uma nova realidade fiscal e financeira, colocando a força da economia brasileira num patamar jamais alcançado.
Virar o jogo é o elemento crucial de surpresa contra a descrença dos mercados. No Mineirão, durante o desastre dos 7 a 1, não conseguimos realizar essa proeza. Mas isso não significa que estamos condenados a andar sempre de cabeça baixa cada vez que um alemão ou um americano cruzar o nosso caminho. Esta é a hora da virada.
Paulo Rabello de Castro
Por enquanto, o governo Dilma tem posto a perder essa chance de transformar crise em oportunidade. O reiterado anúncio do orçamento fiscal para 2016, agora com uma projeção de ínfimo superávit primário, da ordem de R$ 30 bilhões, para tentar fazer frente a uma exorbitante conta de juros, de R$ 450 bilhões (afinal, isso equivale a 18 Copas do Mundo sendo financiadas num único ano!), demonstra que o governo Dilma não tem a menor noção da grandeza do problema financeiro que está diante de si. E, por se tratar de um caso limite de déficit fiscal, sem precedente no resto do mundo, decorrente de uma conta anual de juros da ordem de 8% do PIB, a equipe econômica de Dilma reage com fraqueza, ao remediar uma situação tão grave com providências baseadas em sofismas e band-aid.

O governo apela para a escalada tributária com um sofisma, pois está mais do que claro o efeito de gangorra entre os impostos e o PIB em momentos recessivos: imposto para cima e PIB para baixo. A receita extra que se arrecadaria (porque, afinal, não passará no Congresso) da famigerada CPMF, a sociedade esgarçada iria “economizar” deixando de recolher outros tributos devidos, numa reação defensiva para não pagar sozinha a conta absurda dos juros e da máquina pública perdulária. O ataque ao déficit fiscal tem que ser estrutural e plurianual. A Lei de Diretrizes Orçamentárias teria que incluir regramentos claros quanto à limitação de todas as rubricas orçamentárias, como acaba de anunciar o México, com seu orçamento em “base zero”, apesar de ser um país classificado como de risco baixo e classe A em crédito soberano.
Com sua resposta tosca e mal formulada, empurrando sua inépcia para o colo do Congresso, o governo Dilma tenta ainda conseguir estender o prazo de validade do modelo falido de expansão permanente e automática do aparelho estatal. A população, que não vê futuro nesse caminho, se fecha numa oposição de molusco, calada e tensa, sem saber como mais demonstrar sua insatisfação.
O estado de impasse, no entanto, não durará muito, porque a conta de juros anuais jogará os mercados contra o governo e a taxa de câmbio para a estratosfera. O déficit verdadeiro, a ser combatido e eliminado, alçará a mais de 8% do PIB este ano: esta é a pior diarreia fiscal e inflacionária, desde os anos 1980. Daí a situação-limite, o ponto de virada, para o abismo, ou para um regime fiscal definitivo, que o Plano Real, de 1994, nos prometeu, mas não entregou.
O Brasil precisa de uma lei orçamentária plurianual, vigente e estável, até 2022. E precisamos votar tal lei ainda este ano. O efeito do anúncio, se crível, sobre o ânimo dos mercados, será imediato e positivo. As contas fiscais dos próximos anos convergirão para uma trajetória de controle orçamentário e para a inauguração de uma nova realidade fiscal e financeira, colocando a força da economia brasileira num patamar jamais alcançado.
Virar o jogo é o elemento crucial de surpresa contra a descrença dos mercados. No Mineirão, durante o desastre dos 7 a 1, não conseguimos realizar essa proeza. Mas isso não significa que estamos condenados a andar sempre de cabeça baixa cada vez que um alemão ou um americano cruzar o nosso caminho. Esta é a hora da virada.
Paulo Rabello de Castro
Que venha a Primavera Brasileira
Há de chegar a nossa primavera, para que os dias possam voltar também a ser mais normais, que possamos realizar as coisas, com mais perspectivas, e não tenhamos mais de perder tanto tempo só cortando prazeres das nossas vidas, nem mais discutindo e pensando nas pragas que devassaram esse nosso imenso jardim. Eles não são flores que se cheirem.
Pensa só há quantos anos, de novo, a gente não tem calmaria real, não relaxa, fica só vendo o país ir para a cucuia. Nos últimos meses aconteceu que a coisa se acelerou, não dá mais para eles esconderem nas propagandas. Tanto tentamos alertar que não era bem assim, mas caiam bolsas em nossas cabeças. Bolsa Família. Bolsa Casa. Bolsa Bolsa. Embolsa bolsa. Agora vemos e sentimos bem perto de nossos narizes e olhos a tal da miséria que tanto insistiram que haviam exterminado. A gente aplaudia a parte boa, apoiava, mas sempre mostrando que não havia planejamento entre as muitas notas de populismo, que a jurupoca ia chiar. Não quiseram ouvir. Aliás, ainda tentam se fazer de moucos, nos chamando de golpistas.
Transbordou.
Se muitos movimentos políticos foram chamados de primaveras, porque não a Primavera Brasileira, bonita, colorida, diferente, divertida? Quem sabe não poderemos aproveitar a estação e fazer florescer uma nova cultura, mais ampla, solidária, construtiva? Nas ruas, com alegria, em paz, vamos tentar buscar a solução, a que seja melhor, que possa agregar e reunir o maior número de pessoas e representações. Houve a Primavera dos Povos, a Primavera de Praga, a Primavera Árabe, e até em Portugal, se não foi primavera, tinha flor no meio, a Revolução dos Cravos.
Mas tem de ser nessa estação que começa agora, 23, desta semana de setembro. Pensa que temos três meses, que não nos resta muita alternativa. Temos de parar de andar em círculos, onde todos os dias parece que lemos a mesma edição do jornal, cheias de achismos, chutes, previsões plantadas, diz-que-disse. Essa xingação mútua não tem sentido algum nem ajuda a desempacar. Vamos atarracar uma mangueira nesse Lava Jato para adubar novas ideias e perspectivas.
Pega a primavera, a fina flor, as pessoas na flor da idade, as flores raras, as flores que já desabrocharam e perderam espinhos, vamos cultivar as flores da retórica do convencimento por um projeto decente, de retomada de rumo. Revolução de comportamento, com a marca da personalidade brasileira. Pensamentos dogmáticos tradicionais não têm cabimento agora.
Já dá para ouvir o canto dos pássaros assobiando, rebolando bonito as suas asas, atrás de penas para se coçar e procriar. O acasalamento é a cara da primavera, das cores e das flores, das pessoas. Vê se me entende e ajuda: puxa mais gente e sementes.
"A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento", escreveu a grande poetisa portuguesa Florbela Espanca.
Marli Gonçalves

Pensa só há quantos anos, de novo, a gente não tem calmaria real, não relaxa, fica só vendo o país ir para a cucuia. Nos últimos meses aconteceu que a coisa se acelerou, não dá mais para eles esconderem nas propagandas. Tanto tentamos alertar que não era bem assim, mas caiam bolsas em nossas cabeças. Bolsa Família. Bolsa Casa. Bolsa Bolsa. Embolsa bolsa. Agora vemos e sentimos bem perto de nossos narizes e olhos a tal da miséria que tanto insistiram que haviam exterminado. A gente aplaudia a parte boa, apoiava, mas sempre mostrando que não havia planejamento entre as muitas notas de populismo, que a jurupoca ia chiar. Não quiseram ouvir. Aliás, ainda tentam se fazer de moucos, nos chamando de golpistas.
Transbordou.
Se muitos movimentos políticos foram chamados de primaveras, porque não a Primavera Brasileira, bonita, colorida, diferente, divertida? Quem sabe não poderemos aproveitar a estação e fazer florescer uma nova cultura, mais ampla, solidária, construtiva? Nas ruas, com alegria, em paz, vamos tentar buscar a solução, a que seja melhor, que possa agregar e reunir o maior número de pessoas e representações. Houve a Primavera dos Povos, a Primavera de Praga, a Primavera Árabe, e até em Portugal, se não foi primavera, tinha flor no meio, a Revolução dos Cravos.
Mas tem de ser nessa estação que começa agora, 23, desta semana de setembro. Pensa que temos três meses, que não nos resta muita alternativa. Temos de parar de andar em círculos, onde todos os dias parece que lemos a mesma edição do jornal, cheias de achismos, chutes, previsões plantadas, diz-que-disse. Essa xingação mútua não tem sentido algum nem ajuda a desempacar. Vamos atarracar uma mangueira nesse Lava Jato para adubar novas ideias e perspectivas.
Pega a primavera, a fina flor, as pessoas na flor da idade, as flores raras, as flores que já desabrocharam e perderam espinhos, vamos cultivar as flores da retórica do convencimento por um projeto decente, de retomada de rumo. Revolução de comportamento, com a marca da personalidade brasileira. Pensamentos dogmáticos tradicionais não têm cabimento agora.
Já dá para ouvir o canto dos pássaros assobiando, rebolando bonito as suas asas, atrás de penas para se coçar e procriar. O acasalamento é a cara da primavera, das cores e das flores, das pessoas. Vê se me entende e ajuda: puxa mais gente e sementes.
Senão, olha que eu vou chamar a Comadre Florzinha para aterrorizar e puxar o pé de vocês de noite. Conhece a história dela, lenda do folclore pernambucano? Foi uma menina que se perdeu na mata, morreu, mas seu espírito ficou perdido na floresta e com o tempo ela passou a aterrorizar vilas e fazendas, com suas aparições. Dizem, e ela vive aparecendo, que é parecida com aquela outra assustadora garota de O Chamado, que mora em um poço. Florzinha tem longos cabelos negros. Mas à noite eles, os cabelos, pegam fogo e viram chicotes ardidos para cima do lombo de quem não lhe dá as coisas de que mais gosta, fumos, mel e mingau. Arteira, adora dar nós nos rabos dos cavalos. Ela também ataca quem não trata bem as árvores e protege a natureza como fada - pode ser menina-moça boazinha também. Comadre Florzinha.
"A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento", escreveu a grande poetisa portuguesa Florbela Espanca.
Marli Gonçalves
Dos cidadãos e dos contribuintes

A se acreditar no que dizem alguns por ai, todos são ou estão cegos. Do pior tipo. Daquele que não quer ver, como consta na opinião de muitos. Coerência não seria importante. Logica seria secundária. E o compromisso com a realidade poderia (como parece que de fato tem sido) ser arremessado pela janela sem qualquer constrangimento, dificuldade ou custo.
Somente esta visão de mundo talvez explique o raquitismo das teses e opiniões que apresentadas e adotadas diariamente formando conjunto de solilóquios inconsequentes, estranhos, sem sentido.
Neste universo de teses bizarras, tudo é intercambiável. Sem preocupação com coerência. O dito ontem pode ser ignorado hoje. A fronteira tríplice entre o pragmatismo, a coerência e o cinismo fica completamente obscura formando território onde impera vale tudo retorico. Onde memória é luxo desnecessário. E o bom senso pode ser atropelado sem consequências.
Somente esta maneira distorcida (proposital ou não) explica a insistência em propor soluções cujo impacto é simplesmente o aumento de impostos. Sem prometer sequer melhoria nos serviços.
Sacrifício, somente o dos outros. Custe (para eles) o que custar. A lâmina, segundo estas propostas, passa sempre longe da gordura, sem contato com o corpo doente de um estado ineficiente, gordo, desorganizado, sequestrado por interesses corporativos e saqueado em nome de desculpas sem sentido, esfarrapadas. Críticas, somente a favor.
Dada a rematada ausência de contato com a realidade, o efeito de propostas sem o mínimo de autocrítica talvez levem exatamente ao escrutínio público do absurdo. O distinto público talvez passe a se interessar por temas antes considerados sonolentos. O orçamento talvez seja arrastado (ainda que contra a vontade de seus autores e beneficiários) para a realidade.
Cidadania, afinal, não é feita somente de direitos. Cidadãos têm também obrigações. Uma das mais nobres é a cobrar de seus representantes a adequada discussão, elaboração, controle e execução de orçamento que reflita necessidades e prioridades que beneficiem a população da forma mais eficaz, ampla e duradoura.
Para que o contribuinte seja respeitado, o cidadão precisa agir. Sem cidadania, afinal não existe salvação.
Patinando no gelo
O tempo passa, as soluções não acontecem, os problemas se agravam e, a cada dia, o país está mais fraco e vulnerável. O Congresso votará amanhã a derrubada (ou não) dos vetos da presidente Dilma de medidas aprovadas na Câmara e que ampliam, descontroladamente, os gastos públicos. Tais concessões significarão uma majoração da despesa pública em um dispêndio extra de R$ 22 bilhões por ano, num orçamento já desequilibrado, como consequência da falta de qualidade e da irresponsabilidade na execução orçamentária em anos anteriores.

Essa miséria não foi construída em dias; ela está entre nós há décadas. Já tivemos inflação de quase três dígitos, dólar beirando R$ 4,00, desemprego em níveis assustadores, corrupção, que deixou milhares de espertos milionários. Também não é de hoje que temos cargos comissionados distribuídos aos baldes, expedientes e mutretas que produzem aposentados aos 50 anos, geralmente funcionários públicos que se retiram com vencimentos e benefícios integrais. Senado e Câmara dos Deputados, assembleias estaduais, tribunais de contas e câmaras municipais, sem exceção, são fortes cabides de empregos com benefícios, muitas vezes, considerados, no mínimo, imorais.
A ineficiência da máquina pública está também presente no Poder Judiciário, onde as decisões não acontecem em processos que se arrastam, milhares, há décadas, consolidando sua espera irreparáveis prejuízos aos que demandam justiça. Quem reclama da ineficiência do agente público, ou não tem qualquer solução de seu problema ou corre o risco de ser retaliado, ter seu processo ou requerimento ou pedido recolocado no final da fila. Ou negado, por capricho. É assim. Ponto.
Nada de novo e sei que tudo isso é o que se denuncia todos os dias. Falar sem nada fazer é quixotesco e, infelizmente, essa é a moldura da nossa realidade. Uma oposição política descaracterizada, débil, sem projeto, sem propostas e sem alternativas a não ser vociferar pelo impeachment da Dilma. E o que virá, se Dilma for deposta? Assumirá Michel Temer ou teremos novas eleições? Está apenas na deposição de Dilma e sua troca pelo PMDB ou pelo PSDB a solução do Brasil? O Brasil é só o Poder Executivo e seu/sua chefe?
Madrugada
Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes
Ferreira Gullar
A rua e o voto

Corte de gastos, mesmo, só na empresa privada, com demissões em massa. No governo, apenas migalhas, como a redução do número de ministérios, anunciada para quarta-feira. No Legislativo, paliativos. No Judiciário, nem isso. A exceção poderia ser, mas não é, a iniciativa da Petrobras em sua febre privatizante de alienar patrimônio público para pagar dívidas, coisa que resulta em nada, sequer cobrir a roubalheira lá verificada.
Enquanto isso aumentam-se impostos, taxas e tarifas de serviços públicos, com a redução de direitos trabalhistas e de programas sociais. Numa palavra, o país continua em queda livre no rumo do fundo do poço. Fica mais do que clara a rejeição da sociedade ao governo, assim como a importância de sua substituição.
Inexiste um plano diretor, sequer um roteiro de ação, muito menos um desenho para o futuro, aquilo que no passado chamava-se de plataforma. Os detentores do poder não cuidam de evitar o pior, muito menos dispõem de alternativas para propor o melhor, que seria a retomada do desenvolvimento.
Essa talvez a grande falha da administração Dilma: a ausência de um programa de afirmação e agora de reconstrução nacional. O ministério do Planejamento não planeja outra coisa senão empurrar para a população o ônus de uma recuperação impossível de acontecer sem metas fundamentais.
Todo esse preâmbulo se faz por conta do óbvio, ou seja, a imperiosa necessidade da imediata substituição do governo para, em seguida, um outro elaborar as definições sobre o que pretende o Brasil para continuar existindo como nação.
Sendo assim... Sendo assim, quanto antes se promova a substituição, mais rápida se dará a recuperação. A Constituição não apresenta remédios para o fracasso de um governo, a menos que seu chefe incorra em crimes de responsabilidade. Trata-se de uma solução incompleta, pois se Madame não tiver praticado nenhum crime, estará garantida para permanecer até o final de seu mandato, mesmo sem definições, projetos ou plataformas. Só que não vai dar. Faltam três anos, três meses e dez dias. Conclui-se pela inexistência de tempo e de condições. Afastada a hipótese da renúncia, tanto faz se por soberba, orgulho ou preconceito, sobram o vazio e o problema.
A rua é mais importante do que o voto, dizia o dr. Ulysses. Torna-se urgente que ela se manifeste, mesmo com os riscos inerentes às manifestações extemporâneas. Mas existe fórmula pacífica e avançada, numa equação capaz de permitir à rua promover a rejeição, através de um plebiscito para saber se o governo fica ou sai. Em seguida ao óbvio resultado, o voto, em eleições livres e diretas, determinaria a substituição. Legislativo e Judiciário bem que poderiam debruçar-se para ordenar esse inusitado mecanismo institucional. Mas tem que ser depressa.
Imposto em cascata

Em 2013, milhões de pessoas foram às ruas no Brasil exatamente pedindo melhores serviços públicos. De lá para cá nada mudou, exceto a descoberta do maior escândalo do século na Petrobras. Com ele surgiram também outros escândalos menores. E a conclusão expressa até por ministros do Supremo: o sistema de poder que dominou o Brasil é na verdade uma organização criminosa. Hoje, as pessoas têm muitas razões para achar que seus impostos são tragados pela incompetência e pela corrupção.
O governo quer que elas se esforcem mais. Se as consultasse sobre a proposta, receberia um maciço “não”. Ainda assim, as pessoas perguntam na rua: vai passar? Em termos puramente teóricos seria rejeitada pelo Congresso. Afinal, os representantes devem expressar a vontade de seus eleitores. Mas todos sabemos que o buraco é mais embaixo.
O governo, no momento, não domina a maioria dos votos. Mesmo entre seus aliados, o instinto de sobrevivência política costuma falar mais alto. O que um governo decadente pode oferecer em troca da execração dos próprios eleitores?
Creio que muitas decisões vão depender desse cálculo. No Brasil de hoje é possível difundir com muita rapidez a lista com o voto de cada deputado.
Perto da CPMF, os outros improváveis cortes do pacote do governo são secundários. É este imposto que vai ser o centro da batalha nas próximas semanas. De um lado, Dilma Rousseff já nas cordas, de outro a grande rejeição ao novo imposto. Ouso dizer que a sociedade é a favorita nessa luta.
No debate, vai aparecer muita gente dizendo como o imposto é importante para fazer o bem. No passado, o bem da saúde, agora o bem dos velhinhos. Por convicção, não tenho resistência a impostos. Pagaria tudo sorrindo se soubesse que o dinheiro está sendo bem aplicado. Não é o caso.
Então o que fazer? O CPMF é um imposto em cascata cobrado automaticamente nas transações financeiras. Podemos protestar, mas lembro que já se protestou contra a incompetência, em 2013, e mais especificamente contra a corrupção em 2015.
Não creio apenas em grandes manifestações. Alguns jornalistas as medem com avidez e podemos ter menos de 300 pessoas: vão concluir que a CPMF triunfou. O governo trata as grandes manifestações como populações de risco tratam as tempestades. Se a casa não caiu, o dia seguinte é de alívio.
Agora será preciso também uma pressão cotidiana sobre os deputados. Pelo menos em tese, dificilmente uma sociedade que tenha passado por um governo incapaz e um pesado esquema de corrupção será obrigada a pagar a conta sozinha.
Dilma decreta o aumento zero para o funcionalismo. Semanas atrás foi aos Estados Unidos e gastou cerca de US$ 100 mil só com aluguel de carros, e, naturalmente, uma limusine.
É toda uma cultura do próprio governo que precisa mudar. Além da incompetência e da corrupção, os governantes se comportam como nababos.
Mesmo na Suécia, onde se prestam serviços eficazes, as pessoas cairiam de susto se vissem uma conta de US$ 100 mil em aluguel de carro por um passeio oficial na Califórnia. Pode-se argumentar: o dinheiro não foi gasto, o governo deu o cano. Então vamos adiante: se os suecos soubessem que o governo contratou os serviços por US$ 100 mil e ainda por cima deu o cano, o próprio gabinete cairia.
Já vivo no Brasil há muitos anos, para não confundir realidades diferentes. Mas existem aspirações universais numa democracia. Uma delas é receber serviços decentes em troca dos impostos. A outra é exigir competência dos que se dispõem a dirigir o país. A ideia de que os governantes devam imitar o padrão de vida dos milionários é uma ilusão, embora a cena política tanto aqui como nos EUA seja povoada de celebridades e fortunas.
Quando me perguntam se a CPMF vai passar, respondo que pela lógica não. Mas não devemos apenas confiar na lógica. A CPMF é apenas um imposto. É toda uma visão de mundo que está em jogo.
Instale-se um governo confiável, eficaz e austero, aí então podemos conversar. O estrago foi muito grande. Se temos de pagar alguma coisa, é razoável que não seja pago exatamente aos responsáveis pelo prejuízo.
A CPMF é um processo kafkiano que se abre contra uma sociedade que não cometeu nenhum crime. Apenas escolheu mal numa eleição que, no fundo, era um tecido de mentiras.
Fernando Gabeira
A Perestroika
Gilmar Mendes está falando sozinho. O juiz Sérgio Moro está falando sozinho. Joaquim Barbosa falava sozinho. Ainda fala. O procurador Dalton Dallagnol está falando sozinho. Todos estes ilustres senhores estão escancarando a verdade na cara dos pagantes e nem isto é razão para uma tal de “imprensa” sair de sua confortável saleta com ar condicionado, onde dão um verniz nos press-releases picaretas de um governo idem, e conferir o que está sendo dito por todos estes ilustres senhores sobre a sofisticada organização criminosa.
É estarrecedor. De golpe em golpe, o que podemos ver claramente é uma manada de meliantes tentando desesperadamente esconder, com uma peneirinha rala, o solão que iluminou todos esses vampiros do elefante público que nos rapinam impunemente. O cheiro de cadáver queimado é insuportável, mas mesmo assim temos que ouvir um Chico Buraco entoando um patético “o petróleo é nosso” para ninguém menos que o bolivariano Stédile e seus exércitos de boquinhas amestradas, monstruosamente endeusadas pela parcimoniosa “mídia” de enganar incauto.
De onde surgiram esses cadáveres? Onde estavam nossos políticos, quando a “perestroika do avesso” se deu em nossas terras indefesas? Nenhum comunista gosta de lembrar da derrocada da União Soviética, não é mesmo? É do que se trata aquela bandeirona vermelha safadamente colocada diante da bandeira brasileira, nos comerciais calhordas do partido da estrelinha na cueca. Aquele “sonho de consumo dos outros” não passa de um embuste de proporções continentais.
Bastou acabar a grana e a pressão social subir dentro da Rússia da época para detonar uma ribanceira de proporções avassaladoras na sofisticada organização criminosa de lá. Imediatamente os países retomaram suas identidades nativas, acobertadas pela mão de ferro, a cortina de ferro e a cabeça de lata de seus governantes e lambedores de latrinas oficiais. Deu no que deu. Defrontar-se com a própria natureza calhorda de suas aspirações políticas, isso ninguém quer fazer por aqui.
Há um desfile aterrador de “Controlares”, sacolinhas de lixo, baldes de tinta vermelha na rua, salsichas superfaturadas, grana que os meliantes querem “repatriadas” para turbinar seus exércitos de saliva, stédiles, estiletes e outras armas brancas de matar em silêncio, que essa gente brande por aí em indecorosa ameaça, perfiladas contra a nossa cidadania. Só temos a palavra em nosso favor. Pois ela nos basta. Com ela sabemos que um Ministro do Supremo escancarou a sofisticada organização criminosa em detalhes estarrecedores.
O texto vai ficar para a história, como uma lápide a reclamar seus ocupantes. Eu pergunto: algum petista por aí consegue rebater essas conclusões inquestionáveis, de que não passam de um bando de batedores de carteira, agraciados com crachás, cargos públicos e cartões corporativos, depois que resolveram cacarejar uma ideologia que não passa da esquina? As semelhanças dessa seita e aquelas outras, graciosamente espalhadas por aí para rapinar o cidadão comum pela fé vendida em suaves prestações é gritante.
Sabemos quem está com a razão. E não é a grande mídia, no momento. Como eles farão para consertar o estrago causado pela feudalização de suas redações, pelo aparelhamento calhorda, pelo silêncio pusilânime que perpetraram contra a nação, pela recusa de levar a verdade aos seus leitores e espectadores é que são elas. Pegaram os “veículos de comunicação” e os jogaram ribanceira abaixo.
Tarefa fácil, levando-se em consideração o tipo de motorista necessário para a missão. Tirá-los do brejo agora, para dizer a verdade entalada na garganta da nação, não me parece coisa simples, nem digna de confiança, por parte da plateia desencantada com a natureza do show protagonizado até aqui. No momento, só mereceram um solene ostracismo.
Quando começarem os gritos de “Pega Ladrão” é que veremos quem se esconde debaixo dessas bancadas elegantes, tentando bater nossa carteira. Vai ser imperdível. Petista é vermelho e tem chifres. Só não vê quem não quer.
É estarrecedor. De golpe em golpe, o que podemos ver claramente é uma manada de meliantes tentando desesperadamente esconder, com uma peneirinha rala, o solão que iluminou todos esses vampiros do elefante público que nos rapinam impunemente. O cheiro de cadáver queimado é insuportável, mas mesmo assim temos que ouvir um Chico Buraco entoando um patético “o petróleo é nosso” para ninguém menos que o bolivariano Stédile e seus exércitos de boquinhas amestradas, monstruosamente endeusadas pela parcimoniosa “mídia” de enganar incauto.
De onde surgiram esses cadáveres? Onde estavam nossos políticos, quando a “perestroika do avesso” se deu em nossas terras indefesas? Nenhum comunista gosta de lembrar da derrocada da União Soviética, não é mesmo? É do que se trata aquela bandeirona vermelha safadamente colocada diante da bandeira brasileira, nos comerciais calhordas do partido da estrelinha na cueca. Aquele “sonho de consumo dos outros” não passa de um embuste de proporções continentais.

Há um desfile aterrador de “Controlares”, sacolinhas de lixo, baldes de tinta vermelha na rua, salsichas superfaturadas, grana que os meliantes querem “repatriadas” para turbinar seus exércitos de saliva, stédiles, estiletes e outras armas brancas de matar em silêncio, que essa gente brande por aí em indecorosa ameaça, perfiladas contra a nossa cidadania. Só temos a palavra em nosso favor. Pois ela nos basta. Com ela sabemos que um Ministro do Supremo escancarou a sofisticada organização criminosa em detalhes estarrecedores.
O texto vai ficar para a história, como uma lápide a reclamar seus ocupantes. Eu pergunto: algum petista por aí consegue rebater essas conclusões inquestionáveis, de que não passam de um bando de batedores de carteira, agraciados com crachás, cargos públicos e cartões corporativos, depois que resolveram cacarejar uma ideologia que não passa da esquina? As semelhanças dessa seita e aquelas outras, graciosamente espalhadas por aí para rapinar o cidadão comum pela fé vendida em suaves prestações é gritante.

Tarefa fácil, levando-se em consideração o tipo de motorista necessário para a missão. Tirá-los do brejo agora, para dizer a verdade entalada na garganta da nação, não me parece coisa simples, nem digna de confiança, por parte da plateia desencantada com a natureza do show protagonizado até aqui. No momento, só mereceram um solene ostracismo.
Quando começarem os gritos de “Pega Ladrão” é que veremos quem se esconde debaixo dessas bancadas elegantes, tentando bater nossa carteira. Vai ser imperdível. Petista é vermelho e tem chifres. Só não vê quem não quer.
O Plano D de deseducação
Então tá. O governo não tem mais onde cortar. Quem explicou, com todas as letras, foi Edinho Silva. Ah, 90% dos brasileiros não sabem quem é Edinho Silva? É o ministro da Comunicação. O governo não tem Plano B para o ajuste. Faz sentido. Nunca teve Plano A, nem Plano X Y Z. Sempre teve o Plano D, de Dilma. E foi o que levou à falência nosso sonho de desenvolvimento responsável. Nem me refiro hoje a falência econômica. Passo a palavra a outro ministro, o da Educação, Renato Janine Ribeiro.
“Queremos que todos saibam do drama. É inaceitável em termos sociais”, disse Janine. Drama social? Depois de quase 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, com o pai dos pobres e a mãe do PAC? O drama da deseducação não foi criado ontem. Não foi provocado pelos Estados Unidos, pela Europa ou pela China. Na “pátria educadora” de Dilma, alunos do ensino fundamental público vão mal nas três habilidades, leitura, escrita e matemática. É o que mostra um estudo oficial com 2,5 milhões de estudantes.
Os números são implacáveis. Um em cada cinco alunos (22,2%) do 3º ano não entende o que lê. Outros 34% encontram algum sentido, desde que a informação mais importante esteja na primeira linha do texto. Na escrita, o mesmo cenário. Mais de um quarto dos alunos do 3º ano não aprendeu a escrever direito. Ou não sabe escrever palavras (11,64%) ou troca e omite letras, sem conseguir produzir frases legíveis (mais 15,03%). Em matemática, um quarto (24,29%) não soma, com três algarismos, e não subtrai, com dois algarismos. O ministro Janine afirmou que o cenário da má alfabetização é “assustador”.
O Maranhão do clã Sarney e o Alagoas de Collor são dois líderes no mau desempenho. Mais de 40% das crianças do Maranhão estão no pior nível de leitura. Não conseguem ler nem uma sentença. É o resultado do slogan “tudo pelo social” criado pelo ex-presidente da República José Sarney e perpetuado por sua filha Roseana. Não entendo como um político que deixa uma herança tão maldita em seu Estado, com a ajuda prestimosa da filha, faz questão de batizar avenidas, pontes, hospitais e prédios públicos com seu nome.
É a vaidade cega. Ao ser eleito em 2002, Lula dizia que sua prioridade número 1 seria resgatar a dívida social, principalmente na educação e na saúde. Podia falhar em tudo, menos nisso. Cientistas políticos que vestiram a estrela diziam que seria até irônico o PT fracassar no investimento social e na geração de empregos. Agora, na crise provocada pela má gestão populista e pela irresponsabilidade, os que sofrerão mais serão a educação, a saúde e os empregos. Ninguém sabe fazer conta?
Nosso Estado inchado não fez e não faz as reformas necessárias, não mexe nos interesses sagrados dos partidos e não entrega os serviços merecidos pela população. Falha em todas as habilidades. Viola a Constituição ao não garantir os direitos básicos de cidadania. Ministro Janine, tem jeito de ensinar leitura, escrita e matemática ao Planalto?
Quem defende maior carga tributária no Brasil com o argumento de que os europeus descontam mais Imposto de Renda fecha os olhos para a realidade brasileira. Em primeiro lugar, europeu matricula filho em escola pública, se interna em hospital público e usa transporte público. Tudo com dignidade. O brasileiro sabe que o buraco aqui é mais embaixo: a arrecadação dos impostos não ajuda a si próprio nem aos mais carentes.
Já que estamos no abecedário da crise, vejamos o que o brasileiro paga. IPI, IOF, ISS, Cofins, IPVA, IPTU, DPVAT, Darf, Simples, Supersimples, DAE, Cide, ICMS, INSS, Rais, imposto sindical, taxa de incêndio, taxa do lixo, sobretaxa de água, bandeira vermelha para energia elétrica, taxa de estacionamento urbano, tributação rural. E agora a CPMF.
Peço desculpas por não expandir cada sigla. Mas não teríamos espaço numa página impressa. Fora o que pagamos para a máfia dos cartórios no Brasil, em dinheiro, tempo e estresse. Não podemos dar um passo sem “reconhecer firma”, sem provar que somos quem somos. Para enriquecer quem exatamente?
O Plano D, de Dilma em Desespero, pede o maior esforço ao contribuinte. Ressuscita o fantasma da CPMF, com o objetivo nobre de “ajudar os aposentados”. Se você é contra a CPMF, então é “contra os velhinhos”. As chantagens sucessivas de Dilma a tornam impopular com todos os setores da população.
É curioso. Ninguém hoje fala mais em “golpe” ou em “veredicto das urnas” que a presidente. Uma obsessão típica de quem se sente acuada. As contas de Dilma podem até ser aprovadas com ressalva pelo TCU, mas ela foi reprovada com louvor no ofício de “presidenta”. Eduque as crianças, Dilma, se ainda tiver tempo. É o mínimo.

Os números são implacáveis. Um em cada cinco alunos (22,2%) do 3º ano não entende o que lê. Outros 34% encontram algum sentido, desde que a informação mais importante esteja na primeira linha do texto. Na escrita, o mesmo cenário. Mais de um quarto dos alunos do 3º ano não aprendeu a escrever direito. Ou não sabe escrever palavras (11,64%) ou troca e omite letras, sem conseguir produzir frases legíveis (mais 15,03%). Em matemática, um quarto (24,29%) não soma, com três algarismos, e não subtrai, com dois algarismos. O ministro Janine afirmou que o cenário da má alfabetização é “assustador”.
O Maranhão do clã Sarney e o Alagoas de Collor são dois líderes no mau desempenho. Mais de 40% das crianças do Maranhão estão no pior nível de leitura. Não conseguem ler nem uma sentença. É o resultado do slogan “tudo pelo social” criado pelo ex-presidente da República José Sarney e perpetuado por sua filha Roseana. Não entendo como um político que deixa uma herança tão maldita em seu Estado, com a ajuda prestimosa da filha, faz questão de batizar avenidas, pontes, hospitais e prédios públicos com seu nome.

Nosso Estado inchado não fez e não faz as reformas necessárias, não mexe nos interesses sagrados dos partidos e não entrega os serviços merecidos pela população. Falha em todas as habilidades. Viola a Constituição ao não garantir os direitos básicos de cidadania. Ministro Janine, tem jeito de ensinar leitura, escrita e matemática ao Planalto?
Quem defende maior carga tributária no Brasil com o argumento de que os europeus descontam mais Imposto de Renda fecha os olhos para a realidade brasileira. Em primeiro lugar, europeu matricula filho em escola pública, se interna em hospital público e usa transporte público. Tudo com dignidade. O brasileiro sabe que o buraco aqui é mais embaixo: a arrecadação dos impostos não ajuda a si próprio nem aos mais carentes.
Já que estamos no abecedário da crise, vejamos o que o brasileiro paga. IPI, IOF, ISS, Cofins, IPVA, IPTU, DPVAT, Darf, Simples, Supersimples, DAE, Cide, ICMS, INSS, Rais, imposto sindical, taxa de incêndio, taxa do lixo, sobretaxa de água, bandeira vermelha para energia elétrica, taxa de estacionamento urbano, tributação rural. E agora a CPMF.
Peço desculpas por não expandir cada sigla. Mas não teríamos espaço numa página impressa. Fora o que pagamos para a máfia dos cartórios no Brasil, em dinheiro, tempo e estresse. Não podemos dar um passo sem “reconhecer firma”, sem provar que somos quem somos. Para enriquecer quem exatamente?
O Plano D, de Dilma em Desespero, pede o maior esforço ao contribuinte. Ressuscita o fantasma da CPMF, com o objetivo nobre de “ajudar os aposentados”. Se você é contra a CPMF, então é “contra os velhinhos”. As chantagens sucessivas de Dilma a tornam impopular com todos os setores da população.
É curioso. Ninguém hoje fala mais em “golpe” ou em “veredicto das urnas” que a presidente. Uma obsessão típica de quem se sente acuada. As contas de Dilma podem até ser aprovadas com ressalva pelo TCU, mas ela foi reprovada com louvor no ofício de “presidenta”. Eduque as crianças, Dilma, se ainda tiver tempo. É o mínimo.
domingo, 20 de setembro de 2015
O Brasil está deixando de ser esquerda?

Em meio ao redemoinho da crise que o país atravessa, é possível vislumbrar algo que parece ser novo e poderia marcar as próximas décadas: o Brasil está começando a deixar de caminhar para a esquerda e sente uma certa fascinação por valores mais liberais e conservadores, de centro, menos populistas ou nacionalistas e, paradoxalmente, mais modernos e globalizados.
Até antes da crise, ou das crises que se amontoam, ninguém no mundo político queria ser de direita aqui. Tanto é assim que entre o mar de partidos oficiais nenhum leva em seu nome as palavras direita ou conservador. Até o mais conservador deles, e um dos mais envolvidos no escândalo na Petrobras, o PP, se chama Partido Progressista.
O Partido dos Trabalhadores (PT), que já foi considerado o maior partido de esquerda da América Latina, marcava o passo como príncipe dos partidos, abraçado pelos movimentos sociais, os sindicatos, os operários e boa parte dos artistas e intelectuais. As ruas também eram do PT. E isso apesar de seu mentor e guia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se esforçar em dizer que ele não era “nem de direita nem de esquerda”, mas apenas um “sindicalista”. Em seus oito anos de Governo foi também aplaudido, mimado e defendido pelos bancos, as empresas e as oligarquias que foram amplamente recompensados por seu apoio. Ele mesmo repetia aos banqueiros que nunca tinham ganhado tanto como com ele. E era verdade.
O Brasil é visto fora de suas fronteiras com uma política de centro-esquerda, uma vez que o PT se aliou, para poder governar, com os partidos conservadores.
Essa roupagem de esquerda, com a qual era vista a política dos governos brasileiros, fazia parecer normal a preferência por países do socialismo bolivariano do continente. A direita neoliberal não tinha carta de cidadania no Brasil.
As coisas, dizem não poucos analistas, estão mudando, porque mudaram a rua e a sociedade, que começou a abandonar o PT ao mesmo tempo em que se perdeu o complexo, principalmente na classe média pensante, de defender valores como o liberalismo, que leva junto o desejo pela eficiência e o afã de criar sua própria empresa. E isso não só entre os filhos das classes mais abastadas, mas também com os da nova classe média oriunda da pobreza, que já não sonham como ontem com um trabalho fixo sob as ordens de um patrão para o resto da vida.
É essa mesma classe que, sem distinções ideológicas excessivas, defende hoje valores que são bem mais de políticas de centro, como a livre iniciativa, a eficiência dos serviços públicos, uma maior segurança pública, menos corrupção e um Estado menos gastador e onipresente.
Não basta a eles que o Estado ofereça esses serviços para todos, querem que sejam dignos de primeiro mundo, porque o Brasil tem um potencial de riqueza que possibilitaria isso.
Vejo até mais críticas na classe C com relação a certas bondades do Estado, como bolsas e ajudas sociais, do que em classes mais altas. Criticam que muitas dessas ajudas podem acabar acomodando as pessoas e as tornar preguiçosas para trabalhar e melhorar sua capacitação profissional.
Poucos brasileiros duvidam que o país está às vésperas de uma mudança que pode ser de época. Ninguém sabe ainda profetizar no que consistirá essa mudança e em que direção irá, nem qual partido e líder político serão capazes de expressar e reunir o que está sendo gerado de novo nessa sociedade.
O que parece cada dia mais provável é que a seta não aponta mais preferencialmente para os caminhos da esquerda, que foram necessários e criadores da prosperidade social, mas hoje estão perdendo o interesse e a credibilidade.
É verdade que os termos esquerda e direita hoje já não possuem mais a força que possuíam no passado, mas o que a sociedade brasileira parece estar buscando se assemelha mais com as políticas dos países hoje mais igualitários, com democracias mais consolidadas, com menores taxas de corrupção política, com moedas fortes e com liberdade de empreender economicamente.
Tudo isso, junto com uma política de bem-estar social.
O que tenho escutado de muitos trabalhadores neste país é o desejo e a esperança de que, assim como no trabalho profissional, um brasileiro possa gozar do nível de vida e dos serviços públicos que hoje desfrutam os cidadãos de países considerados conservadores, onde as diferenças sociais não são tão evidentes e tão brutais como nos países embalados pelas sirenes de um populismo que, com muito Estado e pouca cidadania, acaba reproduzindo pobreza, como hojeestão sofrendo em parte nossos vizinhos argentinos.
O Brasil quer mais e melhor. E quer isso com políticas mais próximas do centro, com maior liberdade de ação, sem tutores que desejem guiar seus passos e dizer o que é melhor para as pessoas. Os brasileiros querem que sua palavra, seus projetos e suas ideias tenham também valor e peso nas decisões que forjam o destino do país.
Essa é a verdadeira subversão que hoje começa a viver essa sociedade viva e rica, que está aprendendo a dizer “não”. E, como defendia o escritor e ganhador do Nobel de Literatura José Saramago, às vezes o “não” da rebelião é muito mais construtivo do que o “sim, senhor” da resignação ou da apatia.
A rebelião não tem cor política.
Saramago era de esquerda, comunista.Juan Arias
Desta água não beberei
Desta água não beberei
é um dito mui comum;
mas de vós não diz nenhum
deste pão não comerei,
porque muito certo sei
que quem pão alheio achou
que dele muito gostou,
seja de trigo ou centeio,
porque comer pão alheio
a ninguém enfastiou.
António Serrão de Castro (1610 - 1685)
é um dito mui comum;
mas de vós não diz nenhum
deste pão não comerei,
porque muito certo sei
que quem pão alheio achou
que dele muito gostou,
seja de trigo ou centeio,
porque comer pão alheio
a ninguém enfastiou.
António Serrão de Castro (1610 - 1685)
É bom melhorar
Com todo o respeito, peço desculpas por discordar da senhora presidente. Não consigo mais ouvir calada essa história de que quem sofre com a situação atual, quem se aflige com os rumos do país, perde o sono e se angustia a cada instante com o descalabro que estamos vivendo, enfim, quem ama nossa terra faz parte do “pessoal do quanto pior melhor”, como reiteradamente ela nos acusa.
Para quase todos nós, se continuar piorando só fica mais doloroso mesmo, e tudo o que queremos é que as coisas melhorem. De verdade e para valer, sem ilha de fantasia, sem slogan, sem mentirada de marqueteiro em programa eleitoral.
Considerando que a rejeição à presidente anda nas nuvens, e sua aprovação está no fundo do poço, não é exagero afirmar que para a grande maioria da população brasileira, quem está fazendo tudo a seu alcance para que as coisas piorem cada vez mais é o governo. Se é que tamanho desgoverno pode assim ser chamado.
Quem perdeu a credibilidade e produz instabilidade é o comportamento errático e randômico, imprevisível e ilógico dos que deviam governar o país, e com essa obrigação foram eleitos. Para isso, ganharam nas urnas, embora atestassem sua cegueira para a realidade ao recusar o que mostravam todos os índices, os inúmeros jornalistas agredidos por isso, qualquer economista que não fosse de suas hostes e até mesmo o singelo relatório da pobre analista do Santander — cuja cabeça teve de ser sacrificada às certezas descoladas dos fatos, sempre prontas a xingar a matemática, acusando-a de neoliberal ou rudimentar.
Quem piora a situação quando cala ou quando fala é o descontrole nascido da irresponsabilidade, da falta de transparência e da teimosia em fingir que sabe tudo para esconder a incompetência, juntando tudo isso num jogo de improviso permanente, que a cada instante volta atrás e desdiz o que disse, partindo para outra.
Basta ver quem foi que há pouco enviou ao Congresso uma proposta de orçamento deficitário, num movimento a meio caminho entre a chantagem aos parlamentares e o alerta às agências de classificação de risco para o tamanho da paralisia oficial. Consumada a perda do grau de investimento, consequência lógica, quem lançou o balão de ensaio da volta da CPMF com a desculpa de financiar a saúde?
Quem recuou em seguida? Quem daí a pouco voltou a trazer à mesa essa carta, dizendo então que era para a Previdência, em alíquota de 0,2%? Quem, horas depois, já falava em 0,38%, agora para dividir com os governadores, comprar sua eventual influência junto aos congressistas e estimular a irresponsabilidade fiscal nos estados?
Quem no meio de tudo isso autoriza que o palácio renove sua prataria enquanto desautoriza o ministro da Fazenda, deixando-o ser atacado pelas bases do partido? Quem, do nada, a esta altura, deixa um quadro ligado ao MST interferir para reduzir a autonomia dos militares ou lhes tirar o controle sobre a formação de seus oficiais?
Quem só sabe negociar com o Congresso lhe oferecendo mais do mesmo: prometer o que não vai cumprir e acenar com vantagens e verbas? Quem, em quase 13 anos no poder, não se mexeu para fazer qualquer reforma profunda num orçamento engessado, com gastos vinculados aos reajustes do salário-mínimo e uma previdência que só tinha alguma chance graças ao gatilho do demonizado fator previdenciário?
Quem sempre acusou os outros de arrogantes, metidos a sabichões que podiam explicar tudo, mas jamais se deu ao trabalho de pedagogicamente explicar à população a situação da Previdência nem mostrar que acabar com privilégios, pensões imerecidas e outros abusos não pode ser confundido com perda de direitos trabalhistas?
Quem não convence mais nem consegue explicar nada (e por respeito não menciono a mandioca e outras gracinhas) pelo simples fato de que não consegue entender? Quem não percebe que o problema está na dívida pública crescente, nas despesas obrigatórias irreais, na política de estímulos de gastos, em nossos índices ínfimos de produtividade?
Mesmo discordando quanto aos remédios e tratamento deste pobre Brasil, não dá mais para ignorar os resultados dos exames nem se recusar a ver que pode ser correto o diagnóstico que eles apontam. Se o governo quer se suicidar, não pode exigir nossa cumplicidade nessa maluquice.
Sabemos que a democracia foi conquistada a duras penas. A estabilidade da moeda também. Custa reconhecer? Contestar as trapalhadas dos governantes que nos levaram a este atual estado é uma forma de amar o Brasil: não é se identificar ao golpe de 64, nem servir à ditadura ou não ter história democrática, como ofensivamente quer fazer crer o líder do governo, nessa conversa de que a oposição quer cutucar a onça com vara curta. Isso não dá para admitir. É uma provocação.
Bicho por bicho, já que a vaca foi pro brejo e estamos dando com os burros n’água, é bom se perguntar quem é a barata tonta, quem parece cabra-cega e quem é mesmo que está cutucando a onça desta nação com vara cada vez mais curta.
Ana Maria Machado
Para quase todos nós, se continuar piorando só fica mais doloroso mesmo, e tudo o que queremos é que as coisas melhorem. De verdade e para valer, sem ilha de fantasia, sem slogan, sem mentirada de marqueteiro em programa eleitoral.
Considerando que a rejeição à presidente anda nas nuvens, e sua aprovação está no fundo do poço, não é exagero afirmar que para a grande maioria da população brasileira, quem está fazendo tudo a seu alcance para que as coisas piorem cada vez mais é o governo. Se é que tamanho desgoverno pode assim ser chamado.
Quem perdeu a credibilidade e produz instabilidade é o comportamento errático e randômico, imprevisível e ilógico dos que deviam governar o país, e com essa obrigação foram eleitos. Para isso, ganharam nas urnas, embora atestassem sua cegueira para a realidade ao recusar o que mostravam todos os índices, os inúmeros jornalistas agredidos por isso, qualquer economista que não fosse de suas hostes e até mesmo o singelo relatório da pobre analista do Santander — cuja cabeça teve de ser sacrificada às certezas descoladas dos fatos, sempre prontas a xingar a matemática, acusando-a de neoliberal ou rudimentar.
Quem piora a situação quando cala ou quando fala é o descontrole nascido da irresponsabilidade, da falta de transparência e da teimosia em fingir que sabe tudo para esconder a incompetência, juntando tudo isso num jogo de improviso permanente, que a cada instante volta atrás e desdiz o que disse, partindo para outra.
Basta ver quem foi que há pouco enviou ao Congresso uma proposta de orçamento deficitário, num movimento a meio caminho entre a chantagem aos parlamentares e o alerta às agências de classificação de risco para o tamanho da paralisia oficial. Consumada a perda do grau de investimento, consequência lógica, quem lançou o balão de ensaio da volta da CPMF com a desculpa de financiar a saúde?
Quem recuou em seguida? Quem daí a pouco voltou a trazer à mesa essa carta, dizendo então que era para a Previdência, em alíquota de 0,2%? Quem, horas depois, já falava em 0,38%, agora para dividir com os governadores, comprar sua eventual influência junto aos congressistas e estimular a irresponsabilidade fiscal nos estados?
Quem no meio de tudo isso autoriza que o palácio renove sua prataria enquanto desautoriza o ministro da Fazenda, deixando-o ser atacado pelas bases do partido? Quem, do nada, a esta altura, deixa um quadro ligado ao MST interferir para reduzir a autonomia dos militares ou lhes tirar o controle sobre a formação de seus oficiais?
Quem só sabe negociar com o Congresso lhe oferecendo mais do mesmo: prometer o que não vai cumprir e acenar com vantagens e verbas? Quem, em quase 13 anos no poder, não se mexeu para fazer qualquer reforma profunda num orçamento engessado, com gastos vinculados aos reajustes do salário-mínimo e uma previdência que só tinha alguma chance graças ao gatilho do demonizado fator previdenciário?
Quem sempre acusou os outros de arrogantes, metidos a sabichões que podiam explicar tudo, mas jamais se deu ao trabalho de pedagogicamente explicar à população a situação da Previdência nem mostrar que acabar com privilégios, pensões imerecidas e outros abusos não pode ser confundido com perda de direitos trabalhistas?
Quem não convence mais nem consegue explicar nada (e por respeito não menciono a mandioca e outras gracinhas) pelo simples fato de que não consegue entender? Quem não percebe que o problema está na dívida pública crescente, nas despesas obrigatórias irreais, na política de estímulos de gastos, em nossos índices ínfimos de produtividade?
Mesmo discordando quanto aos remédios e tratamento deste pobre Brasil, não dá mais para ignorar os resultados dos exames nem se recusar a ver que pode ser correto o diagnóstico que eles apontam. Se o governo quer se suicidar, não pode exigir nossa cumplicidade nessa maluquice.
Sabemos que a democracia foi conquistada a duras penas. A estabilidade da moeda também. Custa reconhecer? Contestar as trapalhadas dos governantes que nos levaram a este atual estado é uma forma de amar o Brasil: não é se identificar ao golpe de 64, nem servir à ditadura ou não ter história democrática, como ofensivamente quer fazer crer o líder do governo, nessa conversa de que a oposição quer cutucar a onça com vara curta. Isso não dá para admitir. É uma provocação.
Bicho por bicho, já que a vaca foi pro brejo e estamos dando com os burros n’água, é bom se perguntar quem é a barata tonta, quem parece cabra-cega e quem é mesmo que está cutucando a onça desta nação com vara cada vez mais curta.
Ana Maria Machado
Apertem os cintos, o governo acabou e ainda não percebeu
A situação é terrível, já se passaram nove meses e ainda não existe ajuste fiscal. A presidente Dilma Rousseff apenas finge que está administrando o país, parece não se importar com os prejuízos que vem causando aos brasileiros da classe média para baixo, porque os da classe mais alta são rentistas e conseguem obter lucros financeiros em plena crise.

Há grandes diferenças entre um caso e outro, mas acumular dívidas que não se consegue pagar é uma espécie de haraquiri administrativo. A solução é rediscutir a dívida, através de uma auditoria, declarar moratória ou obter superávits fiscais. O resto é folclore.
No caso brasileiro, a moratória é proibida pela Constituição, por obra e graça do ex-deputado Nelson Jobim, um traidor da pátria, que deveria estar preso, mas vive sendo nomeado ministro, como se fosse insubstituível um homem de bem.
Quanto à auditoria da dívida, que também é norma constitucional, não teve um Jobim para defendê-lo, jamais foi realizada, virou letra morta.
Resta o superávit, que depende de um ajuste fiscal mais rigoroso, porque a proposta apresentada semana passada é uma espécie de remendo, com objetivo de apenas empatar receita e despesa, e isso não é superávit. Não servirá para amortizar um centavo da dívida, que continuará cada vez mais fora de controle.

Dilma Rousseff é uma farsante. Alardeava ter Doutorado em Economia, mas nem Mestrado fez. Se julga uma sumidade, a gerentona do Lula, mas está destruindo a economia nacional, a arrecadação despenca, o desemprego aumenta, o clima é de pessimismo e apreensão. Mesmo assim, ela diz que nada fez de errado, coloca a culpa no Congresso e nos golpistas que identifica a cada esquina.
Enquanto Dilma Rousseff e sua trupe estiverem no poder, o país não sairá do estado terminal. No dia em que ela sair, a Bolsa de Valores subirá 10 pontos, as pessoas vão se abraçar nas ruas, nascerá um novo país, não importa quem seja o presidente que a substituir. Como diz o Tiririca, pior não fica.
Portanto, a salvação do país está nas mãos dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do presidente da Câmara, Eduardo Coutinho. Não faltam motivos para cassação e impeachment. O que falta é que eles lembrem o que disse o Almirante Barroso e cumpram seu dever. É isso que esperamos.
Curitiba, a capital federal

Mesmo com apoio popular, cercado por alianças fortes, gente competente e confiável, governar é um ato solitário, difícil, não raro angustiante. Sem nada disso é desesperador. Para o governante e, em especial, para os governados. No caso da presidente Dilma Rousseff, uma agonia que agudiza os efeitos da crise que já fez o país retroceder quase duas décadas.
Sem plano B, como assegurou o ministro Edinho Silva, A ou qualquer outro, Dilma transformou o improviso em método de governo. A cada dia anuncia algo que no dia seguinte será desanunciado para ser reanunciado em seguida.
Fez um escarcéu com o envio inédito de um orçamento com déficit para defender superávit dias depois. Refez tudo em um único final de semana. Anunciou cortes e novos impostos - e nem mesmo os mandou para o Congresso. Vai, volta, vai de novo, volta de novo.
Mas não é a única.
O ex Lula também tem vibrado como biruta em vendaval. Muda de ideia todas as vezes que desembarca em Brasília.
O mesmo Lula que passou a não esconder a insatisfação com a afilhada, que criticava abertamente o jeito desajeitado de Dilma fazer política, com declarações mais duras do que as da oposição quanto ao pacote fiscal, de repente dá demonstrações de não querer mais desapear sua pupila.
Dedicou a quinta e a sexta-feiras a uma agenda frenética de reuniões com petistas e aliados. Surpreendeu ao defender a permanência de Aloizio Mercadante no Ministério e com um inesperado encontro com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem caberá o primeiro de muitos passos que um processo de impedimento da presidente terá de percorrer.
Desafeto e opositor declarado da presidente, Cunha só seria procurado por Lula em situação extrema.
Os movimentos erráticos do ex, ora pró, ora contra a presidente - para ter tempo de salvar o PT e a si -, exprimem o tamanho da aflição. Permitem imaginar que o patrocinador teme o volume de informações que Dilma detém e o que ela pode fazer com isso caso seja destituída.
Aqui, é a operação Lava-Jato que fala mais alto.
Mais do que as pedaladas em julgamento no TCU. Ou a possibilidade de que o TSE aprove a procedência da ação do PSDB contra o uso pela chapa Dilma-Temer de recursos provenientes de corrupção, tema que pode ser colocado em pauta na terça-feira, 22, e já conta com maioria em favor de sua admissão.
É o andamento das investigações da roubalheira na Petrobrás e seus anexos que alucina Lula, Dilma e cia. É o que vai ditar o ritmo da apresentação, do aceite ou não do requerimento de impeachment. Que vai definir o passo do PMDB de Cunha, Renan Calheiros e do vice Michel Temer, e a velocidade da corrida da oposição.
Não é por Brasília. É por Curitiba que o país passa.Mary Zaidan
Sem plano B, como assegurou o ministro Edinho Silva, A ou qualquer outro, Dilma transformou o improviso em método de governo. A cada dia anuncia algo que no dia seguinte será desanunciado para ser reanunciado em seguida.
Fez um escarcéu com o envio inédito de um orçamento com déficit para defender superávit dias depois. Refez tudo em um único final de semana. Anunciou cortes e novos impostos - e nem mesmo os mandou para o Congresso. Vai, volta, vai de novo, volta de novo.
Mas não é a única.
O ex Lula também tem vibrado como biruta em vendaval. Muda de ideia todas as vezes que desembarca em Brasília.
O mesmo Lula que passou a não esconder a insatisfação com a afilhada, que criticava abertamente o jeito desajeitado de Dilma fazer política, com declarações mais duras do que as da oposição quanto ao pacote fiscal, de repente dá demonstrações de não querer mais desapear sua pupila.
Dedicou a quinta e a sexta-feiras a uma agenda frenética de reuniões com petistas e aliados. Surpreendeu ao defender a permanência de Aloizio Mercadante no Ministério e com um inesperado encontro com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem caberá o primeiro de muitos passos que um processo de impedimento da presidente terá de percorrer.
Desafeto e opositor declarado da presidente, Cunha só seria procurado por Lula em situação extrema.
Os movimentos erráticos do ex, ora pró, ora contra a presidente - para ter tempo de salvar o PT e a si -, exprimem o tamanho da aflição. Permitem imaginar que o patrocinador teme o volume de informações que Dilma detém e o que ela pode fazer com isso caso seja destituída.
Aqui, é a operação Lava-Jato que fala mais alto.
Mais do que as pedaladas em julgamento no TCU. Ou a possibilidade de que o TSE aprove a procedência da ação do PSDB contra o uso pela chapa Dilma-Temer de recursos provenientes de corrupção, tema que pode ser colocado em pauta na terça-feira, 22, e já conta com maioria em favor de sua admissão.
É o andamento das investigações da roubalheira na Petrobrás e seus anexos que alucina Lula, Dilma e cia. É o que vai ditar o ritmo da apresentação, do aceite ou não do requerimento de impeachment. Que vai definir o passo do PMDB de Cunha, Renan Calheiros e do vice Michel Temer, e a velocidade da corrida da oposição.
Não é por Brasília. É por Curitiba que o país passa.Mary Zaidan
Pássaros voando
“São pássaros voando”, costuma dizer a pessoa que mais amo nesta vida, quando desando a enumerar motivos para sustentar um discurso prematuramente vitorioso. Sugere cautela, e via de regra não dá a menor pelota para as razões que justificariam meu otimismo. O conselho nunca é bem recebido, admito, mas no fundo lamento até hoje ainda não ter aprendido a segui-lo.
E foi assim, desgraçadamente abraçado à minha própria natureza, que dia desses me peguei já imaginando um Brasil sem o PT no poder. Pássaros voando? Obviamente, responderia meu anjo da guarda, afinal de contas, ainda faltam mais de três anos para 2018. De todo modo não resisti, e conforme prosseguia no devaneio, perguntas e respostas subdividindo-se em outras tantas, cheguei mesmo a questionar se não tenho alguma predisposição para o sadomasoquismo.
Que a premissa é ótima, a melhor possível, eu nem mesmo discuto. Digo, se alternância no poder é saudável, que dirá quando o partido hegemônico desconhece escrúpulos, rouba bilhões, sucateia estatais e manipula o povo. Entretanto, noves fora este aspecto, passei a me perguntar se teríamos outras desculpas para soltar fogos de artifício.
Tomemos justamente o próximo pleito presidencial como exemplo; não seria bacana se finalmente surgisse a tão propalada terceira via? E não apenas um ótimo candidato, mas também um ótimo partido, capaz de romper com este eterno cancro chamado peemedebismo, sem falar na falsa dicotomia entre PT e PSDB? Seria, mas sequer consigo vislumbrá-la. E enquanto as opções forem Marina, Genro, Bolsonaro, mil vezes andar em círculos no picadeiro centro-esquerdóide em que se transformou a nossa cena política.
Mas então, se as perspectivas políticas não são das melhores, o que de fato mudará a partir de 2018? Deixaremos de ser provincianos? Passaremos a ser mais honestos? Menos hipócritas? A dar mais importância para o comportamento diário, quem sabe, até mesmo a primar pela gentileza?
Também não me parece uma previsão sensata. Muito pelo contrário, acho impossível viver para testemunhar um Brasil livre dessa classe média modorrenta, crente e hábil em ginásticas argumentativas quando o que está em jogo é sua pretensa moral superior.
Idem para os mais pobres. Continuarão sendo tutelados, domesticados, bionicamente alçados a falsos patamares sociais, em outras palavras tratados como putas, pois é assim que funciona no país do toma lá, dá cá.
Se teremos alguma mudança no chamado andar de cima? Não, é claro. Ser da elite continuará significando ter dinheiro, mas não garantirá educação, valores verdadeiros ou compaixão sincera.
O grande problema do Brasil, meus caros, sempre foi, é e continuará sendo o brasileiro. Assim como eu, todos por aqui são afeitos a hábitos autodestrutivos. Quando erramos, achamos o máximo, pois o erro nos dá livre entrada no reino da auto-piedade. E tem coisa que melhor sabemos fazer, com gosto, do que sentir pena de nós mesmos?
Sim, o PT precisa deixar o poder, mas não me iludo. Por mais doloroso e vexatório que seja o processo, capaz de envergonhar, não apenas a seus eleitores, mas a todos nós, como brasileiros, nosso futuro continuará negro.
Enquanto continuarmos a ser essa massa egocêntrica, metida a fazer de conta que a vida é uma grande brincadeira, e que talvez, quem sabe, sejamos todos imortais.
E foi assim, desgraçadamente abraçado à minha própria natureza, que dia desses me peguei já imaginando um Brasil sem o PT no poder. Pássaros voando? Obviamente, responderia meu anjo da guarda, afinal de contas, ainda faltam mais de três anos para 2018. De todo modo não resisti, e conforme prosseguia no devaneio, perguntas e respostas subdividindo-se em outras tantas, cheguei mesmo a questionar se não tenho alguma predisposição para o sadomasoquismo.

Tomemos justamente o próximo pleito presidencial como exemplo; não seria bacana se finalmente surgisse a tão propalada terceira via? E não apenas um ótimo candidato, mas também um ótimo partido, capaz de romper com este eterno cancro chamado peemedebismo, sem falar na falsa dicotomia entre PT e PSDB? Seria, mas sequer consigo vislumbrá-la. E enquanto as opções forem Marina, Genro, Bolsonaro, mil vezes andar em círculos no picadeiro centro-esquerdóide em que se transformou a nossa cena política.
Mas então, se as perspectivas políticas não são das melhores, o que de fato mudará a partir de 2018? Deixaremos de ser provincianos? Passaremos a ser mais honestos? Menos hipócritas? A dar mais importância para o comportamento diário, quem sabe, até mesmo a primar pela gentileza?
Também não me parece uma previsão sensata. Muito pelo contrário, acho impossível viver para testemunhar um Brasil livre dessa classe média modorrenta, crente e hábil em ginásticas argumentativas quando o que está em jogo é sua pretensa moral superior.
Idem para os mais pobres. Continuarão sendo tutelados, domesticados, bionicamente alçados a falsos patamares sociais, em outras palavras tratados como putas, pois é assim que funciona no país do toma lá, dá cá.
Se teremos alguma mudança no chamado andar de cima? Não, é claro. Ser da elite continuará significando ter dinheiro, mas não garantirá educação, valores verdadeiros ou compaixão sincera.
O grande problema do Brasil, meus caros, sempre foi, é e continuará sendo o brasileiro. Assim como eu, todos por aqui são afeitos a hábitos autodestrutivos. Quando erramos, achamos o máximo, pois o erro nos dá livre entrada no reino da auto-piedade. E tem coisa que melhor sabemos fazer, com gosto, do que sentir pena de nós mesmos?
Sim, o PT precisa deixar o poder, mas não me iludo. Por mais doloroso e vexatório que seja o processo, capaz de envergonhar, não apenas a seus eleitores, mas a todos nós, como brasileiros, nosso futuro continuará negro.
Enquanto continuarmos a ser essa massa egocêntrica, metida a fazer de conta que a vida é uma grande brincadeira, e que talvez, quem sabe, sejamos todos imortais.
Estamos numa situação dramática. Estamos vendo o esgotamento de duas agendas: da sociedade e do pensamento petista. O problema é que quando a gente percebeu o problema, o buraco já era bem profundoSamuel Pessôa, Instituto Millenium
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