sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Devemos agradecer pela incompetência do bolsonarismo

Uns amigos da Europa recentemente me perguntaram se realmente existe o risco de um golpe caso Jair Messias Bolsonaro perca as eleições. Respondi que não acredito nessa possibilidade. Parece-me que Bolsonaro só ameaça, mas não faz. Grita "imbrochável", mas falha. Como nos anos 80, quando teria planejado colocar bombas em quartéis, mas não o fez. Depois queria que todo mundo tivesse arma para se defender de bandido, mas quando roubaram a moto dele, deixou os ladrões roubarem sua arma também.

Também ameaçou fuzilar 30 mil pessoas, mas, pelo menos por enquanto, não o fez. Tentou criar um partido político, mas não rolou. Continua pulando entre legendas hospedeiras. Assim, ele me lembra aquele bloco carnavalesco "Concentra mas não sai". Que nome fantástico!


Devemos agradecer, penso, pela incompetência da extrema direita – não só aqui no Brasil, aliás. Parece-me que não tem nada de "Deus capacita os escolhidos". Ou, na verdade, nem foram escolhidos, ou simplesmente não rolou a capacitação. Pelo menos por enquanto.

O importante é constatar que todos esses cenários sombrios não se concretizaram. Aparentemente, a meta é apenas fazer barulho, criar confusão e provocar os outros, de preferência a esquerda. Destruir uma placa em homenagem a Marielle Franco, insultar Dilma Rousseff com uma saudação ao torturador Brilhante Ustra, colocar Sérgio Camargo na Fundação Palmares ou acabar com o Ministério da Cultura: tudo feito pelo bolsonarismo para irritar e deixar furiosos inimigos políticos.

Assim, criam-se cenas absurdas, como na véspera e no dia do funeral da rainha Elizabeth 2ª em Londres. Da sacada da embaixada brasileira, Bolsonaro discursou contra o aborto e a liberação das drogas. Justamente num país onde o aborto e a maconha para uso medicinal são liberados. E olha que povo disciplinado eles têm mesmo com essas liberdades! Ao contrário dos apoiadores de Bolsonaro, que transformaram o dia do funeral da rainha numa grande confusão em plena Londres.

Mas, claro que, além de irritar inimigos, os vídeos produzidos ali serviriam para o público que ficou no Brasil, por não ter o privilégio de viajar para Londres – ou morar lá – e ir até a embaixada para ver Bolsonaro e fazer barulho. O presidente ainda gravou um vídeo para mostrar que a gasolina no Brasil custa a metade do que na capital britânica. Claro que ele esqueceu de mencionar que os britânicos ganham seis vezes mais que os brasileiros. Para que contextualizar se dá para ser simplista? Mas tudo bem, sabemos como funciona a política.

Enquanto isso, chegam as mais novas pesquisas eleitorais, indicando cada vez mais uma possível vitória de Lula já no primeiro turno. Será que foram as campanhas pelo voto útil que conseguiram convencer uns eleitores a trocar a terceira via pelo PT já no primeiro turno?

Parece que a maioria dos brasileiros se cansou das confusões constantes do clã Bolsonaro. Ele e sua família conseguiram chegar muito longe, o que indica a falta de uma real alternativa política na direita.

Sempre vi o surgimento do bolsonarismo como um indicativo de um problema grave na direita tradicional, que não foi capaz de criar uma proposta política decente para os problemas brasileiros. Pois problema é o que não falta, nem erros e omissões graves da esquerda para serem explorados. Não existe uma proposta forte da esquerda para a segurança pública, por exemplo. Nem uma sensibilidade para as questões de família, que importam tanto para o segmento evangélico. São campos enormes abandonados e entregues para uma extrema direita grotesca, tosca e baderneira, que, graças a Deus, se mostrou incompetente. Torço para que ela continue assim.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Brasil motociata pelo 'fim da fome'

 


O 'melhor país do mundo' não é o de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro discursou, ontem, na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, como é de praxe no cerimonial do órgão, desde a sua criação no imediato pós-II Guerra Mundial, embora não exista nada escrito que o Brasil deva ter essa honraria no seu regimento. Descreveu um país que não é exatamente aquele no qual estamos vivendo, com o claro propósito de aproveitar a oportunidade para se apresentar aos eleitores como um estadista reconhecido internacionalmente e, ao mundo, como um governante generoso e bem-sucedido. A abertura, porém, foi esvaziada pela ausência do presidente dos EUA, Joe Biden, que mudou a agenda e só falará hoje.

O discurso de Bolsonaro foi mais um gesto para se apropriar do nosso sentimento de brasilidade, da mesma forma como fez com a bandeira brasileira e as comemorações do Bicentenário da Independência, no 7 de Setembro, que descreveu no discurso como “a maior demonstração cívica da História do país”. Descendente de italianos, Bolsonaro é um “oriundi” traduzido, no conceito antropológico do termo, como acontece com a maioria dos brasileiros descendentes de europeus, que não renegam a cultura de seus povos de origem nem assumem uma condição “chauvinista”, colocando-a acima da nossa cultura popular.


A dificuldade de Bolsonaro está em não compreender plenamente o conceito de “brasilidade”, a qualidade de quem é brasileiro, que está profundamente associado à nossa diversidade étnica e cultural. O “ser brasileiro” não é uma invenção das antigas elites escravocratas nem das escolas militares, mas uma construção multidimensional, por meio da arte, da dança, dos ritos, da música, da culinária, dos símbolos e, principalmente, da nossa literatura, que fez a crítica dos nossos hábitos e costumes, papel hoje exercido pela nossa teledramaturgia. Num país continental, não poderia ser diferente.

Quando um brasileiro acredita que somos “o melhor país do mundo”, não está se referindo a um governo ou à conjuntura, mas aos vínculos culturais mais profundos, tecidos ao longo de gerações. Iniciado após a Independência, em 1822, o processo de constituição da identidade nacional somente consolidou-se a partir da década de 1930, após Getúlio Vargas chegar ao poder. Está ligado à constituição de um Estado nacional moderno e à língua portuguesa, falada em todo o território nacional. Daí a importância da nossa literatura, hoje tão desprezada. As obras de José de Alencar, autor de O Guarani, por exemplo, foram fundamentais para associar nossa identidade às belezas naturais do território e à presença indígena na formação da nação brasileira.

Os Sermões, de Padre Vieira; Inocência, de Visconde de Taunay; O Cortiço, de Aluísio de Azevedo; Dom Casmurro, de Machado de Assis; Macunaíma, de Mário de Andrade; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Jubiabá e Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado; Navalha na Carne, de Plínio Marcos, por exemplo, construíram um mosaico cultural cujo influência na música, na dramaturgia e nas artes plásticas perdura hoje. Artistas como Tarsila do Amaral, Chiquinha Gonzaga e Ivone Lara, Cartola e Paulinho da Viola, Chico Buarque e Tom Jobim, Caetano e Gil, Cazuza e Renato Russo, cada qual à sua época, foram intérpretes desse sentimento profundo de brasilidade.

O “melhor país do mundo” está no imaginário popular, não estava no discurso que Bolsonaro fez ontem na ONU, onde afirmou que 80% da Floresta Amazônica permanecem intocados: “Dois terços de todo o território brasileiro permanecem com vegetação nativa, que se encontra exatamente como estava quando o Brasil foi descoberto, em 1500”. No mesmo dia, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou que o número de queimadas registradas na Amazônia, até ontem, já superou o total registrado em todo o ano de 2021. Em nove meses incompletos (261 dias), foram 76.587 focos de incêndio na região. No ano passado inteiro, foram 75.090.

Bolsonaro é o principal responsável pelo aumento do desmatamento da Amazônia, ao desmantelar órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes, além de estimular garimpeiros, pecuaristas e madeireiros a avançar floresta a dentro. A Amazônia Legal, com 59% do território brasileiro, ocupa nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e uma parte do Maranhão. Na semana passada, por causa das queimadas, a fuligem e o cheiro das queimadas foram sentidos de São Paulo ao Rio Grande do Sul. A política ambiental de Bolsonaro está na contramão da política ambiental preconizada pela ONU e, hoje, é um dos principais fatores do nosso isolamento internacional.

Odorico e a compostura

Compostura: ato ou efeito de compor (-se). Também modo de ser, de estar, de agir; que revela sobriedade, educação, comedimento para apresentar-se em sociedade.

Jair, o PR do Brasil, passa longe dessas definições. Talvez porque a palavra seja um substantivo fe-mi-ni-no – vocábulo definidor de um dos gêneros de seres humanos que provocam os instintos mais baixos do Jair.

Tem compostura quem sabe exercer austeridade, autocontrole, autodomínio. Quem sabe comportar-se adequadamente. Ou, no popular, atuar como manda o figurino. Coisas que passam infinitamente distante do Jair.

Coveiro é o profissional que abre e fecha covas em cemitérios. Jair já disse que não é um deles. Por isso mesmo, deixou claro: embora PR, como não é coveiro, nada tem a ver com os mais de 600 mil mortos da pandemia de Covid no Brasil.

Em sentido figurado, coveiro costuma indicar pessoa que estimula e/ou contribui para o fim de alguma coisa. O que cabe como luva no Jair. Em quase quatro anos como PR do Brasil, Jair detonou compostura, respeito a tal liturgia do cargo e mais um penca de coisas no país.

Daí, chefe de Estado que ainda é, cruzou o Atlântico para, como convidado, participar das homenagens póstumas à Rainha da Inglaterra – figura mais representativa da compostura e do respeito ao cargo.

Como o previsto, deu ruim. Jair lambuzou-se todo nas inconveniências. Principalmente, fez campanha política. No país enlutado, fez comício com claque barulhenta. Seu gado, enfurecido, aos costumes, avançou contra jornalistas. Destemidos, mugiram até contra os profissionais da BBC – tradicional e respeitada empresa britânica, pública, de comunicação. Aos berros, disseram aos donos da casa que “não eram bem vindos ali”.

Ribombando, mandaram outros ingleses “pra Venezuela”.


Compostura pura. Respeito máximo – à rainha e a seus súditos, na terra e no velório público da icônica monarca. Com essas deselegâncias todas, pretendiam imagens para bombar a campanha eleitoral, meio micada, do Jair.

Ou seja, no ambiente austero e fúnebre, Jair, armado com sua tropa, chegou-chegando. Primeiro, como definiu um comentarista da Globo News, no modelo boneco de posto, balançando-se alegremente ao vento. Depois, da sacada da residência do embaixador brasileiro, completou a performance, repetindo personagem clássico da comédia brasileira: Odorico Paraguaçu – prefeito da fictícia Sucupira, que fazia um de tudo para inaugurar sua maior obra de governo, um cemitério superfaturado.

Pra quem não conhece, Odorico Paraguaçu é personagem principal de peça teatral e depois de novela do dramaturgo Dias Gomes. Levada ao ar pela TV Globo, em 1973, a novela teve o sugestivo título de O Bem Amado.

Odorico, prefeito corrupto, demagogo e machista, era adorado por seus eleitores. O personagem vivia cercado de falsas beatas e de puxas-sacos. Marcou época e deixou pra história, além da caricatura do político esperto e safado, muitas expressões de um discurso que adverbiava quase tudo e abusava dos duplos sentidos. Tipo:Homem que é homem mata a cobra e mostra pau.

Vamos botar de lado os hora-veja e os pratrazmente e ir pros finalmente.
Homem só chora quando come pimenta.

Não sou de machismos, nem de reacionarismo. Meu negócio é o democratismo baiano.

Tudo “perfeitamentemente” pronto para dar vigor ao vocabulário jairzístico, né não?

O mote da história de Dias Gomes é a busca de um defunto local pra inaugurar o cemitério. Pra desesperos e destemperos do prefeito, ninguém morre em Sucupira. Ao fim e depois de alopradas infinitas, Odorico, que definia adversários e jornalistas como “vagabundistas” e “cachassistas”, acaba assassinado por um de seus fieis seguidores. E, “finalmentemente”, seu corpo inaugura o cemitério.

Na Inglaterra, a primeira dama, Michele, dizem, vestiu-se inspirada em trajes de Jack Onassis, da atriz Audrey Hepburn e da princesa Kate Middleton – ícones de elegância e do bom gosto.

Jair, que tentava vaga de auxiliar de coveiro, foi de Odorico Paraguaçu. Desempenho perfeito.

PS: Jair e seu gado padecem de doença que a ciência chama de ressentimento social, né não?

Matar em nome de um político é o grau zero na escala da inteligência

Sempre que leio notícias sobre um assassinato com motivações políticas, fico pensando na cabeça do homicida. Não na cabeça dele antes e durante o infame ato. Depois, só depois. Fechado na cela, longe da família, com a vida devidamente destruída, que pensará ele? “O político X mereceu esse meu grande sacrifício pela sua causa?” “Voltaria a fazer o mesmo, dessa vez com redobrado entusiasmo?”

É duvidoso: não estamos em Nuremberg, lidando com altas patentes do Terceiro Reich. Falamos de peixe miúdo, apanhado na rede do ódio que outros lançaram às águas pestilentas da política contemporânea.

Todos podemos matar, é certo. E alguns crimes, por mais condenáveis que sejam, podem ter as suas atenuantes. Como escreveu Albert Camus ao criticar a pena de morte, só a matança a sangue frio é uma degradação irredimível da nossa humanidade.

Mas matar em nome de um político oportunista que está pouco se lixando para o “grande sacrifício” que fazemos por ele é o grau zero na escala da inteligência humana. Podemos perder a vida por delicadeza, para citar o poeta; mas por estupidez?


Quando isso acontece, é impossível não lembrar Georgi Vladimov (1931-2003), esse esquecidíssimo autor ucraniano, nascido em Kharkiv, e que nunca teve o reconhecimento merecido. Nem em vida, nem depois da morte.

 É pena. O seu “Faithful Ruslan”, ou "Fiel Ruslan", que li na tradução inglesa, é o mais devastador retrato que conheço sobre o crente político quando é abandonado pelo seu dono.

Estamos na União Soviética de Nikita Kruschev. Os crimes do camarada Stálin já foram denunciados no famoso discurso que Kruschev proferiu no 20º congresso do Partido Comunista. O país conhece uns ares de abertura e 8 milhões de prisioneiros do gulag são libertados.

É nesse ponto que encontramos Ruslan, um cachorro feroz que ajuda a guardar um dos campos siberianos. É através dos seus olhos crédulos, confusos, animalescos que toda a história é contada.

Certo dia, Ruslan acorda e encontra o campo silencioso e coberto de neve. Estranha aquela paz. Não há gritos, não há choros, não há disparos. O que aconteceu?

Sai do barracão e vê os portões abertos. Pensa o óbvio, os prisioneiros fugiram. É hora de os perseguir e despedaçar, sem misericórdia. As páginas em que Ruslan descreve esse processo — a adrenalina da caçada, o êxtase da violência — são de uma proeza literária que dificilmente se esquece.

Mas o seu dono, que é um dos guardas do campo, está estranhamente calmo, quase resignado, como se tudo aquilo fosse normal. Ruslan não entende a passividade.

Com a sua inteligência de cachorro fiel, ele é incapaz de perceber que o seu dono, em rigor, já não é dono de nada. E que ele, Ruslan, só por um vago sentimento de piedade não foi abatido no bosque, como aconteceu com todos os outros cachorros sem préstimo.

Escorraçado do campo prisional, Ruslan está condenado a uma vida de errância, como um vira-lata. O velho sistema que ele serviu já não existe. Mas ele recusa-se a aceitar a mudança, ou seja, a sua própria irrelevância no novo esquema das coisas. Ele ainda tem uma missão: encontrar os fugitivos, servir o dono, servir a causa. É essa obstinação que ditará o seu funesto destino.

Ler “Faithful Ruslan” vacina qualquer um contra os entusiasmos políticos. Porque o romance, obviamente proibido na União Soviética, não se limita a criticar a falsa abertura de Kruschev.

Para aquilo que me interessa, o livro oferece uma lição gélida aos seguidores caninos de qualquer líder oportunista —um cachorro é útil enquanto é útil. Quando seus latidos e sua ferocidade não são mais necessários, o que resta é uma vida de vira-lata.

Depois das próximas eleições no Brasil, milhões de Ruslans vão acordar sem dono. E alguns, os mais lúcidos, vão entender finalmente que o dono já virou a página, procurando uma outra vida, longe daqueles que tão fielmente o serviram.

Esses serão os casos felizes. Os casos infelizes estarão na prisão, fazendo o luto pelas famílias que destroçaram, e perguntando às sombras da madrugada: “Valeu a pena?”.

O que leva eleitores a votar em Bolsonaro?

Há um fenômeno nesta campanha eleitoral: quando eleitores de Jair Bolsonaro são questionados sobre os motivos de sua escolha, geralmente não lhes ocorre nenhuma resposta plausível.

Ouvem-se com frequência frases como: "ele representa o povo" ou "ele é um patriota". Quando se pergunta o que de concreto Bolsonaro fez pelo povo, obtém-se, na maioria das vezes, o silêncio como resposta. São comuns respostas como: "ele construiu estradas e levou água para o Nordeste". Outros dizem que ele acabou com a corrupção – porém, quando se menciona o escândalo dos pastores no Ministério da Educação ou a compra de 51 imóveis com dinheiro vivo pela família Bolsonaro, às vezes admitem que talvez possa ter havido corrupção.

Alguns também admitem não saber o que Bolsonaro fez pelo Brasil, mas que isso não importa. Eles votariam em Bolsonaro de qualquer jeito, ele seria o "mito", aquele que representa o Brasil e que acredita em Deus.


Deus é uma resposta frequente para a pergunta sobre a motivação para votar no presidente. Durante um evento eleitoral no 7 de Setembro em Copacabana, um casal de Nova Iguaçu afirmou que Bolsonaro representa os valores cristãos que eles também defendem. Quais seriam esses valores? A primeira resposta é "a família": homem, mulher e filhos. A família, porém, não é um valor cristão. Valores cristãos são fé, amor, esperança, misericórdia, justiça, amor ao próximo. Família, ao contrário, é um ideal conservador que se vende como cristão.

De eleitores de Bolsonaro ouve-se também frequentemente que ele é o único que pode derrotar Lula – o ladrão que quase arruinou o Brasil. Não é um argumento para Bolsonaro, mas contra Lula. Como o esperado, há também muitas fake news, por exemplo, de que Lula quer instaurar o comunismo, fechar igrejas ou que a "ideologia de gênero" seja ensinada nas escolas.

Para resumir, não se ouvem respostas convincentes sobre as razões de votar em Bolsonaro. Com os outros candidatos é diferente. Quem vota no Lula muitas vezes cita motivos pessoais, por exemplo, a influência positiva de políticas sociais em sua própria vida ou o fato de que pela primeira vez alguém da família pôde ir para a universidade. Motivos políticos também são citados, como o desejo de mais direitos para trabalhadores informais. Quem vota no Ciro Gomes argumenta sobre a terceira via, que quer acabar com a polarização. Ciro representa uma política fiscal e econômica sensata e equilibrada. Quem defende Simone Tebet usa argumentos parecidos, mas espera uma política econômica mais liberal.

Pode-se, portanto, constatar que os eleitores de Bolsonaro tomam uma decisão mais emocional que racional. Muitos brasileiros se identificam com o que ele representa – como o anticomunismo, o machismo ou a loucura por armas. O agronegócio, que nunca cresceu tanto e recebeu créditos tão baratos como no governo Lula, gosta da hostilidade de Bolsonaro ao MST e aos indígenas.

Bolsonaro conseguiu uma façanha. Ele transmitiu à sua base a impressão de que as instituições, a imprensa e a elite intelectual não falam mais a verdade. E de que ele, ao contrário, se atreve a proferir a verdade – rude, mas autêntico e sem floreios. A imagem do agente simples e franco a serviço do Brasil, excluído do establishment, é com certeza um dos motivos para a popularidade de Bolsonaro. Mas não é um bom motivo.

Pois, com demasiada frequência, eleitores votam contra os próprios interesses. Os republicanos nos Estados Unidos mostraram como conquistar eleitores brancos e pobres dos estados sulistas, que antes votavam nos democratas, com temas que mexem com as emoções, como aborto e casamento gay. Esses eleitores deixaram, de repente, de votar no partido que prometia melhorar sua situação econômica e passaram a votar no partido antiaborto. Bolsonaro também obteve sucesso com uma manobra semelhante, especialmente entre os evangélicos, que muitas vezes pertencem às camadas mais pobres da população. Ele costurou seu sucesso com conceitos emocionais, como Deus, nação, família e liberdade. São as palavras que ele repete em todos os eventos de campanha – enquanto evita conteúdos políticos concretos, possivelmente porque estes não existem.

Assim como o trumpismo, o bolsonarismo é um movimento sustentado pelo sentimento de que algo não está certo, de que a sociedade perdeu as estribeiras. Sua inquietação se volta contra mudanças sexuais, a ascensão dos pobres, a educação "muito liberal" ou a suposta "ameaça socialista". Em 2018, Bolsonaro conseguiu unir esses ressentimentos quando o Brasil se encontrava numa crise profunda. Tempos de crise são bons momentos para extremistas, e Bolsonaro agarrou essa oportunidade.

Mas agora a receita não parece funcionar mais. Um chefe de Estado precisa oferecer mais do que palavras emocionais, mas vazias.

No final, é exatamente como Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação de Bolsonaro, disse há alguns dias: "O bolsonarismo é uma farsa (...) que usa religião para enganar."

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Gigolô de caixão

Você acha que vim aqui fazer política? Pelo amor de Deus, não vou te responder não. Pelo amor de Deus, não tem uma pergunta decente? Compara o Brasil com os Estados Unidos, com o resto do mundo. Faça uma pergunta decente
Jair Bolsonaro em Londres

Envergonhe-se do presidente da República que ainda temos

Surpreso? Acreditou que, consternado, a 14 dias das eleições, Bolsonaro teria o gesto de grandeza de interromper sua campanha e voar a Londres só para representar o Brasil no velório de Elizabeth II? Bolsonaro foi à caça de imagens para evitar uma derrota no primeiro turno. Aproveitou e fez campanha por lá.

Mal chegou à embaixada do Brasil onde ficaria hospedado, sabendo que devotos locais haviam sido mobilizados para saudá-lo, logo apareceu na varanda e pediu votos descaradamente. Disse que o Brasil não aceita discutir legalização do aborto, descriminalização das drogas e a chamada “ideologia de gênero”.

E afirmou a certa altura do discurso, para espanto de diplomatas e da imprensa internacional – da nossa, não, porque está acostumada:

“Esse é o entendimento da maioria do povo brasileiro. Estive no interior de Pernambuco e a aceitação é simplesmente excepcional. Não tem como a gente não ganhar no primeiro turno”.


Dos mais de 500 presidentes e chefes de Estado presentes em Londres, ele foi o único que não se acanhou em tirar vantagem política da ocasião. Ao livrar-se das obrigações do protocolo, como cumprimentar o Rei Charles e visitar o caixão com o corpo da rainha, foi a um posto mostrar quanto custa um litro de gasolina.

Gravou um vídeo postado de imediato nas redes onde disse que a gasolina no Brasil é mais barata que na Inglaterra. E proclamou: “É o governo brasileiro trabalhando por você”. O preço do litro na terra da rainha é o dobro do nosso. Bolsonaro escondeu, porém, que o salário mínimo inglês é seis vezes maior que o brasileiro.

Acompanhado da primeira-dama Michelle e do pastor evangélico Silas Malafaia, que torce para que trave o sistema de votação das urnas eletrônicas, adiando assim a data das eleições, Bolsonaro ainda encontrou tempo para conceder uma entrevista exclusiva ao SBT, também conhecido como Sistema Bolsonarista de Televisão.

Fez questão de negar que tenha ido a Londres em campanha. E voltou a atacar, sem provas, o sistema eleitoral brasileiro:

“Se eu tiver menos de 60% dos votos, algo anormal aconteceu, tendo em vista obviamente o data povo, que você mede pela quantidade de pessoas que não só vão nos meus eventos, bem como nos recepcionam ao longo do percurso até chegar ao local do evento”.

Pesquisa Datafolha, divulgada na última quinta-feira, deu a Lula 45% das intenções de voto e a Bolsonaro, 33%. Pesquisa anterior, do Ipec, ex-Ibope, deu a Lula 46% e a Bolsonaro, 31%. Pesquisa Ipespe, publicada anteontem (17), deu a Lula 45% e a Bolsonaro, 35%. O data povo não é nenhum instituto de pesquisa, é fake news.

Amanhã, em Nova Iorque, para o discurso de abertura de mais uma Assembleia-Geral da ONU, Bolsonaro terá outra oportunidade de envergonhar o Brasil. Nada de excepcional.

Brasil, Primeiro de Abril!

“Terradorada”, exposição de Márcia
Tiburi aberta em Paris em 7 de setembro
 
No dia Primeiro de abril se brinca de mentira, se brinca de trapaça,
se brinca de ser falso.
É um dia de catarse: eu minto, nós mentimos, eles mentem!
E tudo é mentira de verdade!
É o dia de ser artista do cotidiano.
Atrizes e atores da vida banal, garantimos a fresta lúdica diante da cara de susto de nossa vítima.
No microrritual catártico, um carnavalzinho no meio da quaresma, fazemos cócegas na sisudez da verdade diária com que garantimos a democracia e o pão de cada dia!

Mentir é permitido uma vez por ano!
Mas, para rir da mentira, a gente precisa da verdade.
O prazer da farsa que se comemora no dia Primeiro de Abril é o prazer de desmascarar a farsa!
Quem exclama “Primeiro de Abril” mostra que acabar com a mentira é que é a graça do jogo.

Infelizmente, no país da piada pronta, o Primeiro de Abril perdeu a graça em Primeiro de Abril de 1964!

Acabou o carnavalzinho no país do carnavalzão!

Escrotocratas unidos pelo poder roubaram o direito do povo ao riso!
Proibiram a catarse, capitalizaram o papelão.
Até que elegeram o capetão!

Colocaram em risco de morte a inteligência nacional!
A pós-verdade já estava lá, na boca dos tarados falogocêntricos, brancos capitalistas fardados sem vergonha nenhuma.
Eles sequestraram a brincadeira!
Colocaram quem denunciava a sua mentira no pau-de-arara e urraram com o coronel Ustra

Agora a mentira mata!

Que homens feios e sem arte!
Esses homens asinos, equinos, anais, cloacais, varonis, falocráticos, loucos por um pau-Brasil!
Homens feios porque sem arte!

Escrotocratas milicianos matadores, orgulhosos da merda que são!
Mataram e continuam a matar.
Marielle pergunta: Até quando matarão?
Bandidões, unidos, jamais serão vencidos?
E segue o primeiro de abril escondido atrás do 31 de março.
E otários tarados pelo poder,
Que só enxergam um Pau diante do Brasil,
sentados sobre a parte cortada do nosso nome,
como o pescoço dos pobres, dos índigenas, das mulheres, das travestis assassinadas a cada dia
gritam as velhas mentiras.

Ustra vive!
Quem? O povo pergunta com um prato vazio nas mãos.

O pau foi cortado.
O ouro foi entregue.
O sangue dos jovens negros assassinados pelo Estado escorre.
As pessoas são impedidas de respirar pelos ladrões do ar.

Os fascistas sempre souberam que a mentira é poder.
O que eles não sabem é que a arte é a mentira liberada do poder!
E a mentira liberada do poder
Derruba todas as máscaras.

E a verdade é que o Ubu Rei Brasileiro quer comemorar a ditadura!
E que você está numa peça de teatro, num pesadelo, num delírio coletivo.
E tem o direito de dizer
Primeiro de Abril !!!
Apesar de tudo

O Brasil não é uma alucinação!

Marcia Tiburidisse

Presença no adeus a Elizabeth II ajuda Bolsonaro?

Na semana passada, escrevi um longo artigo afirmando que a campanha política no Brasil é imprevisível. Mesmo com marqueteiros, estrategistas e análises minuciosas na mídia, os fatos escapam ao nosso controle. Quem diria que o Auxílio Brasil — que atropelou tudo para investir R$ 60,7 bilhões na salvação de Bolsonaro — não teria efeito algum entre os mais pobres?

Retomo o tema da imprevisibilidade, com uma nova pergunta: o que você diria se perguntassem no início do ano qual o papel da rainha da Inglaterra nas eleições do Brasil?

Certamente responderia com uma gargalhada. Proclamamos a República ainda no século XIX, não temos laços com a monarquia. A morte da rainha Elizabeth seria apenas uma notícia de destaque, nada mais.

No entanto, para enfatizar a força do acaso, a passagem da rainha foi terrível para a campanha de Bolsonaro. Ele esperava que o grande esforço e a grande transgressão do 7 de Setembro turbinassem sua posição nas pesquisas. Mas o tema foi ofuscado em seguida pela notícia da morte de Elizabeth.

Agora, Bolsonaro vai aos funerais em Londres para recuperar o prejuízo. Conseguirá? Tenho dito que a única forma de alterar o quadro seria ressuscitar a rainha.

Embora presidente do país do Novo Mundo, Bolsonaro disse que Elizabeth é nossa rainha. Isso certamente a agradaria, mas, se ele se apresentasse como “o imbrochável”, certamente ouviria do fundo do caixão forrado de chumbo:

— I beg your pardon.


De certa forma, Bolsonaro erra de rainha. Ele deveria ir ao funeral de Vitória, uma grande puritana, o que fortaleceria sua campanha de costumes, Deus, pátria e família.

Bolsonaro prega algo que não vive, mas talvez isso fosse comum no regime vitoriano. Sempre houve exceções, como sir Richard Burton. No século XIX, ele afirmava que as mulheres inglesas gozavam; não se tratava apenas de abrir as pernas, fechar os olhos e pensar nas glórias do Império britânico, como aconselhavam os mais velhos.

Certamente, Burton era uma espécie de marxista cultural de sua época, embora tenha vindo ao Brasil em busca de riquezas minerais, um tema que agrada Bolsonaro. Talvez não agrade tanto os mineiros que se lembram de suas montanhas perdidas. Os meninos seguem para a escola. Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina, como diziam os versos de Carlos Drummond de Andrade sobre Itabira.

Se Elizabeth era a rainha de Bolsonaro, Charles é seu rei. Seria uma amizade improvável. O novo rei é preocupado com a destruição ambiental. Não quer que seus netos o vejam como cúmplice omisso da devastação do planeta. Mais um marxista cultural?

De novo, concluo que a única rainha que atenderia a sede eleitoral de Bolsonaro seria Vitória . Ainda assim, Bolsonaro não poderia se apresentar a ela aos brados de “imbrochável, imbrochável”. No lugar de um civilizado “I beg your pardon”, ouviríamos:

— Guardas, levem esse louco.

Depois de Londres, Bolsonaro terá ainda uma nova cartada: dirá na ONU que seu governo protege a Amazônia, que a fumaça que cobre a região não é de fogo e que as imagens de satélite sobre o desmatamento são apenas grosseiras manipulações.

São duas oportunidades em que tentará se passar por presidente do Brasil, depois de ter vivido quase quatro anos apenas o papel de um aloprado, como ele próprio chegou a se definir.

Nas próximas eleições, deixarei um espaço muito maior para o imprevisto, até para o Sobrenatural de Almeida, como diria Nelson Rodrigues. Se me perguntarem qual o papel das imagens do telescópio espacial James Webb nas eleições, humildemente, vou considerar.

Como entender uma viagem do presidente a Londres para um funeral, depois de ele ter desprezado a morte de quase 700 mil pessoas em seu país? Eleições são mesmo imprevisíveis.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Brasil a(r)mado

 


Os caminhos para o crescimento e a equidade

O grande desafio do Brasil no início do seu terceiro centenário é definir um projeto nacional capaz de fazer frente à necessidade de se re-industrializar e de se colocar em sintonia com um mundo em transição para uma economia verde e de mudança de sua matriz energética. Identificar as vantagens comparativas do nosso país nessa nova realidade planetária passa a ser estratégica para o alcance do crescimento sustentado e a promoção da equidade.

Salta aos olhos o enorme potencial do país para ser um protagonista internacional na economia de baixo carbono. Um dos maiores especialistas da área, Eduardo Viola, do Instituto de Estudos Avançados da USP, identifica três fatores que podem nos dar esse status: 1) O Brasil é decisivo no ciclo mundial do carbono. 2) Também é decisivo na biodiversidade mundial. 3) Sua política ambiental, para o bem ou para o mal, impacta no mundo.


Agregue-se a isso outra vantagem comparativa. Somos um dos celeiros do mundo, o maior exportador de grãos, detentor de um agronegócio competitivo no mercado internacional devido aos seus ganhos de produtividade e de inovação. Seu polo dinâmico e moderno entende perfeitamente a necessidade de compatibilizar o agronegócio e o meio ambiente, até para manter sua posição privilegiada no mercado internacional. Cada vez mais os grandes mercados internacionais levam em conta a questão ambiental nas suas relações comerciais.

A mudança da matriz energética baseada em combustíveis fósseis para fontes renováveis é um caminho sem volta. Há uma corrida internacional para definir quem sai na frente. Um dos objetivos do “New Green Deal” do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, é recuperar o terreno perdido para a China, hoje o maior produtor mundial de painéis solar e de turbinas eólicas. Nove das dez maiores empresas do mundo produtoras de painéis solares são Chinesas. O país de Xi Jinping é também líder na geração de energia energética.

A Alemanha é outro país que iniciou sua “revolução verde” e hoje é o quarto maior país gerador de energia solar, apesar de sua desvantagem comparativa de uma radiação solar mais baixa do que a dos países do trópico como o nosso. Segundo o Portal Solar, o Brasil sequer faz parte da lista dos dez maiores país geradores de energia fotovoltaica. Só em 2020 os investimentos mundiais em energias renováveis, principalmente solar e eólica, foram de 303 bilhões de dólares e a nossa participação nesse bolo foi residual.

Além de contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas, a economia verde também traz vantagens econômicas e sociais quando se leva em conta uma nova modelagem na agricultura, nas florestas, na matriz energética, na mobilidade urbana e na produção de novos materiais substitutivos de produtos não biodegradáveis.

Segundo estudo liderado pela WRI Brasil e a New Climate Economy, em parceria com institutos de pesquisas como o COPPE/UFRJ, a economia verde, na comparação com o atual modelo de desenvolvimento, geraria mais dois milhões de empregos até 2030 e um valor adicional do PIB de RS 2,8 trilhões.

Há um filão imenso a ser explorado e nossas vantagens são muitas. O Brasil tem uma grande capacidade de produzir aço com baixa emissão de gás de efeito estufa por meio da utilização de madeira oriunda de reflorestamento, como já vem acontecendo na produção de ferro gusa. Segundo especialistas, como o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, a diminuição do impacto ambiental colocaria o nosso país em vantagem competitiva no mercado internacional.

O reflorestamento se liga com a indústria e o agronegócio, aumentando a fonte de renda do produtor ao alimentar um potencial mercado de carbono. Pesquisas já estão sendo feitas para a madeira oriunda do reflorestamento seja utilizada na construção. Suzano, maior empresa reflorestadora do mundo, tem como meta substituir, nos próximos dez anos, dez milhões de toneladas de plásticos pela produção de celulose.

A combinação da economia verde com o agronegócio sustentado é peça chave de um novo projeto de Nação que deve ser pensado como um projeto de estado e não de governo, gerando um modelo econômico de longo prazo e um processo de reindustrialização completamente diferente do modelo de substituição de importações, cujo esgotamento se deu na década de oitenta.

A necessidade da reindustrialização decorre também de um novo fenômeno mundial, como consequência da pandemia e da guerra da Ucrânia: a desglobalização. A dependência excessiva das cadeias produtivas globais deixou expostas as vulnerabilidades dos países em áreas estratégicas como saúde, energia e alimentos. Não se trata de voltar aos modelos “autóctones”, mas de diminuir essa dependência em áreas sensíveis. O Brasil não pode ficar de fora dessa tendência.

Desde meados da década de 80 a indústria de transformação vem diminuindo a sua participação no PIB nacional. Em 1985 representava cerca de 25% do nosso Produto Interno Bruto, hoje representa pouco mais 10%. Por outro lado, o agronegócio, mesmo com todo seus ganhos de produtividade e de representar 22% do nosso PIB, gera pouco valor agregado, pois exportamos bens primários, sem processá-los industrialmente. Para agregar novos valores, deveríamos dar o salto para a agroindústria, de forma competitiva.

No novo modelo de desenvolvimento, a indústria brasileira deverá se basear na inovação e em áreas nas quais temos mais vantagens competitivas. Inovação é o grande requisito para o salto de qualidade do nosso parque industrial.

Isto nos remete para o terceiro elemento estratégico de um novo projeto nacional: a educação. Não só no sentido da superação da pouca qualificação da nossa mão de obra, um dos fatores impeditivos de ganhos de produtividade da nossa indústria, mas também para a promoção da equidade e da cidadania. A rigor, é necessário um projeto nacional específico para a educação, tema de próximos artigos.

Rapidamente o Brasil pode superar sua condição de pária na questão ambiental e retomar a sua boa tradição de vanguarda na questão ecológica, desde a ECO 92. Mas há condicionantes, entre elas a de deixar de ser o quarto maior país emissor de carbono, manter suas florestas em pé e criar um consenso nacional em torno de um crescimento sinônimo de prosperidade e equidade.

Democracias sofrem erosão antes de ruir

Antes de ser eleito presidente, em 2018, Jair Bolsonaro exerceu sete mandatos na Câmara dos Deputados. Agora candidato à reeleição, ele se vê diante da possível primeira derrota eleitoral de sua carreira e sugeriu diversas vezes que poderia não reconhecer o resultado das urnas se perdesse. "Só Deus me tira da cadeira presidencial", declarou Bolsonaro, aparentemente ameaçando desafiar o próprio sistema democrático que o alçou ao poder.

Países mundo afora são ameaçados por potenciais autocratas, e o caminho para restaurar a democracia é longo e difícil, aponta uma análise feita pela DW.

O Brasil é um dos 12 países cujo sistema democrático está pendendo para a autocracia, de acordo com dados publicados pelo Instituto Variedades da Democracia (V-Dem), um grupo de pesquisa independente sediado na Universidade de Gotemburgo, na Suécia.

As outras 11 nações nessa condição são: Polônia, Níger, Indonésia, Botswana, Guatemala, Tunísia, Croácia, República Tcheca, Guiana, Maurício e Eslovênia.

Além desses 12 países onde crises democráticas ainda se desenrolam, pesquisadores do V-Dem identificaram outros 17 que perderam essa luta na década passada – incluindo a Turquia, as Filipinas e a Hungria.

Não apenas democracias de longa data estão se voltando para o autoritarismo, mas regimes autocráticos estão segurando com mais firmeza as rédeas do poder. Em países como Rússia e Venezuela, governos autoritários têm se consolidado e as liberdades civis vêm sendo reduzidas.

Apesar de hoje existirem mais países democráticos do que há 100 anos, o processo de democratização se estagnou globalmente no início dos anos 2000 — e o de autocratização interrompeu sua trajetória de declínio.


Geralmente, imaginamos a democracia como algo binário: ou um país é democrático ou não é. Na verdade, o conceito tem mais nuances. Pesquisadores do V-Dem classificam os países em quatro grandes categorias.

Em autocracias fechadas, como a China e o Catar, não há eleições multipartidárias para chefe do Executivo ou para o Poder Legislativo.

Em autocracias eleitorais, como a Turquia e a Venezuela, há eleições, mas não são livres ou justas.

Em democracias eleitorais, como o Brasil e a África do Sul, há eleições livres e justas, apesar de existir desigualdade e de algumas minorias não terem seus direitos resguardados.

Nas democracias liberais, como a Alemanha e a Suécia, há direitos garantidos para minorias e um sistema funcional de freios e contrapesos entre os Poderes.

Os 179 países classificados pelo V-Dem estão divididos quase igualmente entre autocracias eleitorais ou fechadas e democracias liberais ou eleitorais. Alguns dos países reconhecidos pelas Nações Unidas, como o Vaticano ou San Marino, não têm dados disponíveis.

Essa divisão, porém, pode esconder sutilezas importantes, de acordo com Bastian Herre, pesquisador da organização sem fins lucrativos Our World in Data que estudou a relação entre ideologias de governos e democracia durante seu doutorado em ciência política na Universidade de Chicago.

"Com essa divisão, sabemos que a Coreia do Norte e o Irã não são democracias e que o Chile e a Noruega são", diz Herre. "Mas não sabemos o quão mais democrático o Irã é em relação à Coreia do Norte, nem quão menos democrático o Chile é em relação à Noruega."

Herre diz que essas categorias não são necessariamente úteis para detectar recuos na democracia enquanto eles acontecem. "Se queremos ter um sistema de alerta, essas não são as medidas certas. Elas só iriam aparecer quando uma ruptura democrática já aconteceu", diz.

É aí que o Índice de Democracia Liberal (LDI, na sigla em inglês) entra em ação. Trata-se de um índice que varia de 0 até 1, e quanto mais alto ao valor, mais perto dos ideais da democracia liberal está um país.

No LDI, diferenças importantes entre países que estão em uma mesma categoria se tornam mais aparentes. O índice também permite que pesquisadores vejam como o estado da democracia em determinado país muda ano após ano. Isso é especialmente significativo porque, hoje, as democracias não costumam morrer do dia para a noite.

Tanques desfilando, tropas mobilizadas e a democracia indo embora com uma explosão (ou uma série de explosões) – golpes são imagens que geralmente vêm à mente quando pensamos em países que passaram a ter regimes autoritários.

Embora esse tipo de ruptura ainda aconteça, atualmente a marcha rumo à autocracia geralmente é mais gradual, com pequenas mudanças se acumulando até que reste muito pouco do antigo sistema.

Isso é o que aconteceu em alguns dos exemplos mais recentes de democracias estabelecidas que se tornaram autocracias. Essa dinâmica está acontecendo também em países que ainda continuam democráticos, mas que estão na mesma trajetória de declínio.

Os movimentos mais fortes em direção à autocracia costumam coincidir com a eleição de líderes iliberais, como Jair Bolsonaro, no Brasil, Andrzej Duda, na Polônia, Viktor Orbán, na Hungria, Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, e Narendra Modi, na Índia.

Entretanto, o pesquisador brasileiro Fernando Bizarro, que estuda instituições de governo na Universidade de Harvard, afirma que a ascensão de políticos antidemocráticos pode ser geralmente atribuída ao agravamento de problemas mais antigos.

"Para que esses líderes cheguem ao poder, você precisa de outros elementos, como uma crise dos partidos tradicionais", afirma. Um aumento da hostilidade política também pode estar entre as causas de crises democráticas, aponta. "A polarização cria o sentimento de que, como você detesta seu oponente, vale tudo para se livrar dele – inclusive destruir a democracia."

Pesquisadores do V-Dem identificaram 81 períodos em que países viveram quedas prolongadas na qualidade da democracia desde 1900 – e 50 destes aconteceram a partir dos anos 2000. Em aproximadamente 75% dos casos, a crise resultou em uma transição completa para um regime autocrático.

"Os atores que promovem a autocratização são geralmente os chefes do Executivo, e eles podem ter grandes maiorias parlamentares", diz Sebastian Hellmeier, um dos pesquisadores que analisou episódios de crise democrática. "No fim, é como se fosse uma 'morte por um milhão de cortes', com muitas mudanças pequenas que são difíceis de impedir até que seja tarde demais."

Além de simplesmente detectar quando uma crise na democracia aconteceu, a pesquisa feita por Hellmeier e seus colegas tenta entender por que algumas democracias entram em colapso e por que outras resistem.

Para essa análise, os pesquisadores estavam mais preocupados com a competitividade e a justiça das eleições. Assim, eles usaram uma ferramenta de análise um pouco diferente: o Índice de Democracia Eleitoral (EDI, na sigla em inglês). O EDI funciona quase como o LDI, mas sem considerar elementos como liberdades civis e freios e contrapesos entre os Poderes.

De acordo com os resultados, essa resiliência democrática pode acontecer em duas etapas diferentes. De início, países podem evitar que uma crise se instale. Isso é o que os pesquisadores chamam de "resiliência inicial". Países em que não ocorreram episódios de erosão democrática recentemente, como a Finlândia e o Canadá, são exemplos desse tipo de resistência.

A "resistência a rupturas", por sua vez, ocorre em países onde crises de qualidade da democracia se estabelecem, mas são contidas antes que o sistema político descambe para alguma forma de autocracia. Trata-se de um fenômeno mais raro que a resiliência inicial, mas que aconteceu recentemente em países como Equador e Coreia do Sul.

A análise destaca diversos fatores associados com cada tipo de resiliência. Desenvolvimento econômico, por exemplo, anda lado a lado com a resiliência inicial, mas parece não afetar o desfecho de uma crise uma vez que ela já tenha começado. Por outro lado, ter países vizinhos democráticos parece ser um fator importante para que um país consiga conter a crise antes de uma ruptura.

Uma tradição democrática mais longa e um Poder Judiciário independente estão associados com ambos os tipos de resiliência. De acordo com Hellmeier, a presença de instituições longevas faz com que os cidadãos pensem na democracia como o "único jogo possível", forçando os atores políticos a atuarem de acordo com as regras estabelecidas. Um Judiciário forte, por sua vez, pode agir como último bastião de defesa contra um líder que tente violá-las.

Em alguns casos, especialmente em países com instituições menos desenvolvidas, fatores externos também podem cumprir um papel significativo.

Em 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa venceu sua terceira eleição consecutiva. Ele era um político popular, fortalecido pelo crescimento econômico e pelo aumento de políticas de bem-estar social. Seu governo, porém, também foi marcado pela redução de liberdades para a mídia, a oposição e a sociedade civil.

Correa era o tipo de líder que democracias têm dificuldades de controlar. Isso mudou quando o crescimento econômico estagnou, e o presidente viu seu governo mergulhado em um escândalo internacional envolvendo a construtora brasileira Odebrecht.

Correa decidiu não concorrer a mais uma reeleição em 2017, mas declarou apoio ao seu então vice-presidente, Lenin Moreno. Moreno venceu, mas rompeu relações com seu antigo mentor e posteriormente desfez algumas de suas mudanças constitucionais e regulações restritivas.

Melis Laebens, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade DE Oxford, diz que o caso equatoriano é um exemplo de um possível caminho de recuperação para democracias sob ameaça. Mesmo que líderes com pretensões autocráticas tenham um controle firme sobre a política doméstica, eventos internacionais inesperados, como crises econômicas e investigações sobre corrupção, podem deixá-los vulneráveis.

"No caso Odebrecht, o fato de a investigação der internacional fez muita diferença em termos de pressionar os aliados de Correa a mudarem de posição", diz a pesquisadora. "O que importa é que a oposição, quando tem oportunidade, mesmo que não seja capaz de remover o incumbente, consiga ao menos manter algumas fontes legítimas de poder."

O Equador também serve como um alerta sobre o que pode acontecer depois que o retrocesso democrático é aparentemente revertido. Desde então, o país convive com protestos que parecem não ter fim.

O atual presidente, Guillermo Lasso, acabou de sobreviver a uma votação de impeachment. Correa foi condenado por corrupção e deixou o país, mas ainda tem influências sobre política local e muitos apoiadores.

"Às vezes, um Poder Executivo excessivo pode simplesmente estar se alternando com uma fraqueza excessiva do governo", diz Laebens. "Esses eventos transformam a política no longo prazo. É raro que eles simplesmente desapareçam."

No Brasil, Bolsonaro enfrentará nas urnas o ex-presidente e atual favorito nas pesquisas Luiz Inácio Lula da Silva no próximo dias 2 de outubro. Caso o atual mandatário saia derrotado da disputa, analistas temem que o país seja palco de violência política e cenas como as vistas durante a invasão de apoiadores do ex-presidente americano Donald Trump ao Capitólio, em Washington.

Bolsonaro vem espalhando paranoia infundada sobre a confiabilidade do sistema eleitoral e, em recente entrevista ao Jornal Nacional, afirmou que respeitaria os resultados das urnas "desde que as eleições fossem limpas". No 7 de Setembro, o presidente citou episódios históricos de tensão política e ruptura democrática no Brasil, incluindo o golpe militar de 1964, e disse que a "a história pode se repetir".

Tarefa hercúlea

Diferente do novo rei da Inglaterra, Charles III, que iniciou no corre só agora aos 73 anos, Hércules, herói mitológico, filho de Zeus e Alcmena, teve doze trabalhos. Tá, foi mais punição do que propriamente trabalho, mas vá lá, até que trabalhou duro e com afinco para um semideus. E assim, sem férias remuneradas, décimo, vale alimentação, direito ao aviso prévio, seguro desemprego, nada. Era tipo um MEI.

O quinto trabalho de Hércules é um dos menos conhecidos e mais enigmáticos: limpar as estrebarias de Aúgias, que era filho de Poseidon, rei de Elis e um dos argonautas, e que, dizem os faladores da época (sempre existiram) tinha vínculos diretos com o centrão. Seu rebanho de gado (sempre existiram) era o maior de toda a Grécia. Porém, seus estábulos não eram limpos há trinta anos. Peço que não façam ainda comparações com a nossa política. Agradeço.

Essa tarefa difere das outras porque dessa vez não lhe é exigido força nem astúcia, e sim humanidade. Afinal, como poderia realizar um serviço tão mundano sem se contaminar com a sujeira acumulada? Aúgias redobra a dificuldade do trabalho, prometendo a Hércules que se fizesse a tarefa em apenas um dia seria recompensado com um décimo de seu rebanho, mas, se fracassasse, sua vida e seus bens seriam dele. Como um bom patrão.

Hércules vagou pelo reino observando carroças que passavam com cadáveres vítimas da pestilência do local. Notou também que dois rios, o Alfeu e o Peneu, corriam mansamente pela região. Então, reuniu os dois rios alterando-lhes o curso de tal maneira que eles passaram a correr por entre as estrebarias, limpando assim seus detritos em apenas um dia, sem que ele tivesse que sujar as mãos. Como um bom estagiário.

Quando Hércules obteve êxito improvável em seu quinto trabalho, escuta a seguinte resposta de Aúgias: “Os rios fizeram o trabalho, e não tu. Foi uma manobra para tirar meu gado, uma conspiração contra meu trono. Não terás recompensa. Vais daqui ou te mandarei decapitar”. Resumindo, foi golpe, siiim! Ou seja, o apego ao gado e ao trono vem lá da Grécia antiga. Não é, definitivamente, uma invenção nossa.

Agora, no próximo dia dois de outubro, uma tarefa hercúlea (sempre quis usar o termo, agradeço a oportunidade) se apresenta. Se não tivermos força e astúcia suficientes, que tenhamos a humanidade necessária para imaginarmos, como o também semideus Eduardo Galeano, “outra possibilidade de mundo, um que seja feito de alegrias miúdas e não de migalhas miseráveis”.

A mentira como base para a instalação de um regime fascista

Mais um ato falho de Bolsonaro. Na terça-feira, em conversa amigável no programa do Ratinho, do SBT, oferecida ao público como se fosse uma entrevista de verdade, Bolsonaro disse:

“Caiu assustadoramente no Brasil o número de casos de violência contra as mulheres”.

Assustadoramente? Se tivesse caído, não seria coisa para assustar a ninguém, mas para ser comemorado. Verdade que Bolsonaro é um analfabeto funcional que não sabe usar as palavras.


De resto, nesse caso, ele mentiu, outra vez. Bolsonaro mente com tamanha frequência e naturalidade que é incapaz de se dar conta disso. A mentira compulsiva é uma das armas do fascista.

Não caiu o número de casos de violência contra as mulheres no Brasil; pode ter caído, por variadas razões, o registro do número de casos. Bolsonaro não consegue esconder sua aversão às mulheres.

E, entre essas, às jornalistas, de preferência. Por que? Porque elas perguntam ou dizem o que ele não gostaria de responder nem de escutar. Sua misoginia contamina seus seguidores.

Segundo o Repórter sem Fronteira, no primeiro mês de campanha das eleições deste ano no Brasil, apareceram nas redes 2,8 milhões de posts com ofensas a jornalistas, 88% deles mulheres.

Bastidores da Rússia: sanções podem causar danos mais graves do que Putin espera

Bolsonaro ama a violência; sentee prazer com o sofrimento alheio. Não sentisse, não exaltaria a tortura de opositores da ditadura militar de 64. Lamentou que ela não tivesse matado mais gente.

Está no livro “O negócio de Jair”, da jornalista Juliana Dal Piva, o que Bolsonaro disse em entrevista à BAND em 1999 e nunca retificou:

“Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Você só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para a guerra civil aqui dentro matando 30 mil pessoas”.

Nos seus quatro tristes anos de desgoverno, Bolsonaro começou a criar as condições para isso com o programa armamento para todos – ou melhor: para os que possam comprar armas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Incomunicável

O saudoso comunicador da TV Abelardo Chacrinha Barbosa, especialista em cunhar bordões, adorava dizer que “estava ali para confundir, não para explicar”. Sem saber ele profetizou nosso presente de hoje. E olha que naquela época o celular ainda não havia aprisionado corações e mentes como agora. Nos nossos dias até a respiração é digitalizada. No metrô, nas ruas, na bicicleta, todos olham para a telinha. É mais fácil você encontrar alguém pelas redes sociais mesmo que ela esteja passando por você no mesmo momento, na rua.

Contemplação é uma palavra que saiu de circulação, assim como várias outras que o povo deixou de falar e sobretudo, de escrever. É claro que para escrever você precisa ler e a linguagem quer a internet nos trouxe e estabelece como base é a linguagem cifrada, resumida, abreviada. Lemos pouco, todos sabemos e mesmo no celular, as mensagens podem ser faladas e não escritas. A preguiça e a falta de hábito em escrever transformou a mensagem de áudio na maneira mais comum de se comunicar. A língua se simplifica, se empobrece, e comunica através do básico, sem espaço para a interpretação ou para a abstração.

Pois é, abstração. Chegamos ao núcleo do problema. Abstração e abreviação não costumam viver bem juntas. Uma requer a abertura da mente, a colocação no espaço e no tempo, a permissão para a mente viajar e elaborar. A outra é a jato e tudo que é a jato pode ser perigoso. Um texto escrito no celular tem tantas abreviações e simplificações que fica difícil de entender. O texto falado é repetitivo, ilustra sem abstrair o que está sendo dito. Repete frases e diálogos que retratam um fato, sem a conclusão da interpretação pessoal e da abstração que se resume a um conceito criado. É mais rico e facilita a expressão.


Estou falando de coisas que a juventude viciada na telinha nem tem ideia do que seja. A leitura é fundamental. Começa nos livros, nos jornais e revistas, nos computadores, celulares e tvs e mesmo cifrada precisa alimentar a imaginação. Não pode só passar a informação abreviada que interessa. Não pode também só repetir o que já vinha sendo dito nas redes e, principalmente, não pode alimentar as mentiras.

Essa simplificação favorece o não aprofundamento. Fulano disse isso. Ok, mas de onde ele tirou? Não interessa. O que interessa é a rede de mentiras que se estabelece com um intuito muito claro. Parafraseando o Chacrinha, essa gente está ai para confundir e não para informar.

Um país que tem mais celulares que gente poderia até se dar bem se houvesse um projeto de desenvolvimento social usando o poder do aparelho no bom sentido. Mas de uns tempos pra cá o que vemos é um país cada vez mais alienado, mais conduzível, mais influenciável que chega ao cúmulo de se dizer imbrochável. A maioria dos apoiadores do presidente concorda sem saber o que significa. Essa virilidade tóxica se estabelece porque não se pensa sobre ela. Não se abstrai. Não abstraímos sobre a barbárie que vivemos e o estrago que ela pode causar.

Mas ainda dá tempo. Precisamos voltar para a escola, abrir nossos livros, trocar ideias e pensar, refletir, mesmo que o pensamento vá sem direção, sem destino, apenas solto no ar. Já experimentou? É muito bom.

O macho fascista

Itália, 1938. “O homem fascista é pai, marido e soldado.” Esse slogan publicitário circula como propaganda oficial de Mussolini. A frase estampa pôsteres e outros materiais do regime.

Um desses pequenos cartazes pode ser visto numa cena do filme Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare), de Ettore Scola. A produção de Carlo Ponti, lançada em 1977, narra o encontro improvável de um radialista (Marcello Mastroianni) e de uma dona de casa (Sophia Loren) que, no domingo de 8 de maio de 1938, ficam sozinhos num prédio de apartamentos em Roma. Naquele dia, Hitler e alguns de seus ministros visitam a cidade. Todas as outras pessoas que moram no edifício, vestidas com suas melhores roupas, foram aplaudir o Führer e o Duce, que discursam diante do Monumento Nacional a Victor Manuel II. O radialista não se sente parte dos festejos, uma vez que, além de intelectual, é gay (não é pai, nem marido, nem soldado). A dona de casa tem que lavar roupas e, aos poucos, percebe que o fascismo só lhe reserva um papel subalterno. Ela deseja desejar outra vida.


Brasil, 2022. Aqui não existe fascismo propriamente dito, mas traços do fascismo estão em toda parte. A misoginia autoritária é um desses traços. Falocentrismo armado. O ódio aos intelectuais é outra peculiaridade da mesma doutrina, assim como a repressão às artes, o desprezo pelas universidades e os ataques incessantes contra a imprensa.

Qualquer cidadão que adote a profissão de jornalista se vê sujeito a perseguições e intimidações. Se esse cidadão for uma cidadã, seus riscos são redobrados. A mentalidade instalada no poder abomina repórteres com a mesma fúria que oprime a liberdade feminina. Autoridades do governo federal e seus apoiadores dirigem insultos às jornalistas mulheres, em ofensas repletas de insinuações de cunho sexual. Para eles, a condição feminina é um handicap: na mulher, o desejo é doença, fraqueza e déficit de virtude, ao passo que, no homem, o desejo é vigor, coragem e força. Para o macho fascista, a mulher que deseja e é livre padece de alguma demência contagiosa. Deve ser combatida, desqualificada, achincalhada – e queimada, como bruxa. Nada o apavora mais que uma cidadã que pense por si e não se dobre. Esse é o sujeito que bate em mulher, se não com as mãos, com palavras ultrajantes.

O homem fascista, o que é? Um mau pai, um marido insensível e um soldado covarde. Quando se aventura na política, é uma fraude. Machista.

O Brasil não é mais o mesmo

Faltando três semanas para o primeiro turno das eleições, deixando um pouco de lado a dança das pesquisas, podemos perceber que mudanças políticas importantes estão tomando corpo na nossa realidade política. Embora a disputa, como quase sempre ocorre, esteja polarizada entre personalidades, é muito difícil compreender o que estamos vivendo se nos ativermos apenas aos perfis dos personagens. Estas eleições transcendem, e muito, a estreiteza dos dois candidatos principais.


As manifestações do dia 7 de setembro foram impressionantes em termos de espontaneidade e mobilização. Não me lembro de ter visto antes tanta gente na Esplanada em Brasília. Em São Paulo, na avenida Paulista a quantidade de gente reunida foi tão grande quanto a dos maiores eventos políticos ali já realizados. No Rio de Janeiro foi a mesma coisa. Podemos discutir indefinidamente se os eventos foram apropriados para a data, mas o fato político, que não se pode questionar honestamente, é que Bolsonaro é capaz de mobilizar mais gente do que qualquer outro político brasileiro neste momento atual.

As nossas eleições, para dizer a verdade, foram sempre um pouco frias em termos de participação popular. Nunca testemunhei grandes concentrações espontâneas ou comícios que chamassem a atenção. Na verdade, nunca conhecemos eleições duramente polarizadas em que vencer era uma questão existencial, a ponto de cada eleitor se tornar um ativista ou um militante.

Os atos de 7 de setembro revelam a emergência de um sólido movimento conservador, organizado e militante, de abrangência nacional, que se apoia na figura de Bolsonaro, mas não se resume a ele e certamente poderá sobreviver a ele. O que isto tem de importância para o futuro do país é que este movimento não pode ser simplesmente derrotado porque ele reflete realidades humanas e sociais que não se apagam com uma derrota, ou com uma vitória eleitoral. A pluralidade democrática determina que este movimento, suas aspirações e interesses, sejam assimilados e reconhecidos nas políticas de Estado e de governo, sob pena de nos tornarmos uma sociedade dividida e um país paralisado.

Em contraposição à emergência conservadora, é difícil não admitir que as chamadas forças progressistas perderam muito de sua força e do apelo que tiveram no passado. O próprio PT é hoje muito menor do que o Lula. A levar em conta as pesquisas de opinião, o PT está encolhendo em todo o país e está presente nas eleições para Governador em pouquíssimos Estados, na maioria deles relegado a segundo plano. Até onde se pode ver, a candidatura favorita de Lula, apesar da vantagem clara nas pesquisas, não tem grande poder de mobilização popular, parecendo encarnar hoje uma espécie de maioria silenciosa, exatamente o contrário do que sempre foi. Em grande medida ele é o único recurso para derrotar o Bolsonaro, um instrumento de defesa, não um projeto de futuro.

Se este quadro é verdadeiro, o que temos pela frente é um grande desafio. Está ficando claro que o sistema partidário ruiu inteiramente e já não realiza minimamente a mediação política entre a sociedade e o Estado. Um sistema político numa sociedade complexa e cheia de carências não pode se apoiar apenas em personalidades que, por natureza, são efêmeras. Os movimentos, por sua vez, não são substitutos perfeitos dos partidos políticos, porque carecem da organização e da estrutura que são necessárias para a ação política permanente. E as maiorias silenciosas não tem estrutura ou comando para assegurar seu protagonismo.

Continuo convencido de que estamos diante de duas escolhas insatisfatórias. Nenhuma delas reúne as condições para liderar nosso pais para a mudança e o progresso. A política está dividida hoje em lados que não se reconhecem e que, portanto, não podem cooperar entre si.

Nada disto, no entanto é destino. A história é contingente e tudo pode mudar. Este é o Brasil que temos. Antes de mudá-lo precisamos reconhecê-lo e aceitá-lo como ele é. Este sempre será o primeiro passo se quisermos transformá-lo.

Receita para uma guerra civil

Quando a guerra civil começou em Angola, em 1975, eu tinha 15 anos. Vivi aqueles dias com mais euforia do que inquietação. Acreditava, como a maioria dos angolanos, que a guerra era um episódio terrível, mas que depressa passaria, e que depois disso viveríamos dias luminosos num país independente e mais justo.

Lembro-me que dançávamos enquanto os morteiros explodiam, e balas tracejantes riscavam as noites. Os jovens militantes dos diferentes movimentos saíam das festas para fazer a guerra e voltavam ao amanhecer para terminar as cervejas, como se os combates fizessem parte da folia.

Logo a euforia acabou, mas os tiros não. Finalmente, a 22 de fevereiro de 2002, o líder da guerrilha, Jonas Savimbi, foi morto em combate. A bala que o matou foi a última a ser disparada. Contudo, já Angola estava destruída.

Não consigo imaginar pior tragédia para um país do que uma guerra civil. Uma guerra civil começa antes que alguém dispare o primeiro tiro, e as suas consequências prolongam-se décadas para além do último morto.

A receita para uma guerra civil exige, em primeiro lugar, a criação de uma cultura de exclusão. Regra geral, os movimentos em confronto não defendem posições novas. A novidade é a agressividade com que as defendem e a convicção de que não existe conciliação possível entre os diferentes projetos.


Amigos de toda uma vida zangam-se. Famílias separam-se. As mães proíbem os filhos de conversar sobre política à hora das refeições. Emergem líderes messiânicos, com um discurso de ódio, eventualmente exibindo armas de fogo, enquanto exploram velhos rancores partidários e fraturas sociais.

Logo surgem os primeiros assassinatos e atentados com motivação política. O Estado vai-se esboroando e perdendo terreno.

Muitas vezes, a cultura de exclusão, que serve de gatilho à guerra, é importada, obedecendo a interesses ou estratégias de outros países. Foi o que aconteceu em Angola, com os Estados Unidos e a União Soviética a combaterem no terreno através não só dos movimentos angolanos, mas também de tropas sul-africanas, cubanas e zairenses, bem como de mercenários portugueses, ingleses e americanos.

No limite, uma guerra civil pode destruir completamente um país, apagando-o dos mapas, como aconteceu com a Iugoslávia. Viajando pela Sérvia ou pela Croácia anda é possível encontrar pessoas que continuam a reconhecer-se como iugoslavos: “Antes de a guerra começar”, disse-me um desses órfãos, “eu nem sequer sabia que a minha família era sérvia ou que os meus vizinhos eram muçulmanos. Éramos todos iugoslavos, falávamos a mesma língua e tínhamos um destino comum”.

É possível identificar no momento que se vive hoje no Brasil alguns dos ingredientes necessários para o desastre. Em épocas assim, a primeira vítima costuma ser o bom senso.

Quero acreditar, porém, que ainda exista espaço para um diálogo o mais aberto possível, de forma a permitir a convergência de todas as forças políticas e da sociedade civil que defendam a paz e a democracia. Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.

O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.

José Eduardo Agualusa (O Globo, 12.10.2018)