quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Flávio, o 'Bolsonaro vacinado', deu positivo para raiva e golpe

Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta, lá dos EUA, uma carta que não reconhece o resultado da eleição presidencial. Lula foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% dele próprio. O texto tem a mesma essência golpista da pauta do pai: derrota é fraude, e o juiz é perseguidor. Se ainda faltassem motivos, cai a máscara do “Bolsonaro vacinado”, aquele que seria a versão civilizada da família. Flávio chegou a dizer que aceitaria o veredito das urnas. E deixou o país menos de 24 horas depois de afirmar que ficaria para liderar a oposição. A hidrofobia política é a mesma, sem o, vá lá, “carisma” do original…

Tudo na carta está errado, a começar pelo timbre. A primeira versão trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com “Z”, em vez de “República Federativa do Brasil”. O país deixou de ter aquele nome em 1967, e o “Z” já havia sido aposentado da ortografia oficial décadas antes.


Segundo a coluna de Paulo Capelli, um aliado pediu ao ChatGPT que acrescentasse o brasão, e a máquina entregou o modelo antigo. O valentão que prometia salvar a pátria terceirizou o símbolo nacional a um robô e não conferiu o serviço. O texto circulou em três edições em menos de uma hora. Na primeira, ele se apresentava como “presidente eleito”. Só na seguinte virou “líder do Brasil”. Eleito por quem, cara-pálida? O PL, o seu partido, já havia reconhecido a vitória de Lula na segunda-feira.

No extremo da sandice, comparou-se a De Gaulle no exílio. O homem que organizou a França Livre contra a ocupação nazista é invocado por quem tem como parceiro internacional Steve Bannon. Em 19 de janeiro de 2025, em Washington, Bannon pediu que representantes da AfD (Alternativa para a Alemanha) se levantassem para ser saudados e, na sequência, chamou Eduardo Bolsonaro ao palco. Isso foi acompanhado, como relataram vários veículos, de um gesto de braço estendido, alusivo à saudação nazista.

A neonazista AfD, diga-se, é o partido de Beatrix von Storch, neta de Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças durante o nazismo e um dos poucos que serviram a Hitler do início ao fim do regime. Ela foi recebida por Jair Bolsonaro no Planalto em 19 de julho de 2021. O encontro não constou da agenda oficial, e a foto só veio a público no dia 26 daquele mês. A família também cultiva a ultradireita francesa: Eduardo montou, em 2025, uma rede de pressão contra o STF que incluía a eurodeputada Virgine Joron, ligada ao partido de Marine Le Pen.

Esse partido é herdeiro da Frente Nacional, e a história da França ensina de que lado ficou, na Segunda Guerra, a extrema direita que condenou De Gaulle à morte, em agosto de 1940. Comparar-se ao general é oferecer à posteridade uma peça de humor involuntário.

Há ainda o plano de liderar a oposição de dentro dos Estados Unidos, com o beneplácito de Donald Trump, a quem a carta agradece. Convém lembrar o que dizem as leis. A Constituição, no artigo 17, inciso II, proíbe que partidos recebam recursos de entidade ou governo estrangeiros ou sejam subordinados a eles, e a Lei dos Partidos, no artigo 28, prevê o cancelamento do registro pelos mesmos motivos. Oposição se faz com voto, com mandato e com presença, não a distância, com a ajuda de uma potência que aplica sanções contra o país.

A propósito: não se conhece a fonte de renda que sustentará Flávio no exterior. Será a mesma que arca com o custo da vida milionária de Eduardo. O “exilado” ainda não explicou o orçamento da “Resistência”.

Fica a pergunta final, a que a elite brasileira deve uma resposta. O que ela viu, afinal, num bravateiro que pregava o encarceramento de adolescentes — defendeu reduzir a maioridade penal de 18 para 14 anos —, mas sai correndo diante da primeira adversidade? É um Falstaff de Henrique IV, o fanfarrão que se fingiu de morto no campo de batalha para escapar à espada e ainda se gabou da “discrição”. Falstaff é cômico porque é covarde. Os Bolsonaros são perigosos porque, além de covardes, têm eleitores.

Enquanto eles comandarem a extrema direita, o pensamento progressista talvez deva regozijar-se, mas nunca descansar. Porque, na versão corrente de Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. A eleição para o Senado está aí para provar. A verdadeira resistência tem de se fortalecer.

Eis aí. Eles são quem são e não podem negar a sua natureza. A esta altura, só caem na conversa os coniventes. Até os tolos já desertaram.

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