É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho
É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.
Torquato Neto, "O fato e a coisa"
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Olhar sobre o deboche, arma da ultra direita
Eram 14h em um subúrbio do Rio de Janeiro, em outubro de 2022. Um vira-lata, magro, sem dono, pedia comida na manifestação em apoio a Bolsonaro. Um manifestante gritou: “Cuidado com esse cachorro: se Lula ganhar, teremos que chamá-lo de picanha!”. Ao redor, dezenas de pessoas começaram a rir alto, e enriqueceram a piada: “Se Lula ganhar, ele será o primeiro a comê-lo!” gritou um homem vestido de amarelo. “Teremos que tomar cuidado ao comprar um cachorro-quente!”, disse um jovem com uma camiseta de seu líder. Nesse momento, Bolsonaro apareceu no palco. Milhares de bandeiras do Brasil, verdes e amarelas, se levantaram ao grito de “Mito, mito, mito!”, esquecendo o cachorro de rua.
Em outra parte da América Latina, na periferia de Buenos Aires, um seguidor de Milei dizia durante sua campanha em setembro de 2023: “Milei é bom, é um homem que gosta de cães”. “Seus cães fazem parte do seu pensamento”, dizia outro rapaz que havia participado da marcha com sua bicicleta do Uber Eats. “Mas os kirchneristas comem gatos, em breve estaremos comendo cachorros se essa máfia continuar governando!”, exclamou, mais assustado, um homem de meia-idade. “Corremos o risco de ser como a Venezuela, um país risível, um país comunista!”, apontou entre risos e indignação uma mulher idosa.
Essas piadas assustadoras viajaram pelo mundo. Viveram transmutacões e adaptações, até chegar em 2024 ao momento em que Donald Trump afirmou, em um debate presidencial contra Kamala Harris, que os haitianos residentes nos EUA “estão comendo os cães”. A risada de Harris foi sua primeira reação, pois encontrou no discurso do oponente o absurdo retórico que só poderia ser compreendido como chacota. Logo depois, ela mudou de expressão, tentando levar Trump para um terreno mais “sério”.
Neste artigo, analiso o papel que o humor – em especial, sua descaída patife, o deboche — desempenha nos processos de polarização e radicalização política das extremas direitas, especificamente as latino-americanas. Bukele, Milei, Bolsonaro, Kast… não se conectam apenas por seu militarismo, por seu componente autoritário, por seus discursos violentos, pela defesa de várias vertentes de um capitalismo ou pela apropriação do aparato estatal. Eles também o fazem pelo uso do deboche, como influenciadores políticos diretos, e como pontos em torno dos quais seus seguidores constroem relatos humorísticos, principalmente nas redes sociais.
A codificação do discuro a partir das chaves de “seriedade” ou “humor” estrutura-se a partir da suposta dicotomia entre modelos de comunicação opostos. Se o “sério” nos leva a compreender a comunicação de forma direta, de sentido literal, sem interpretação, o humor seria um código comunicativo caracterizado pela interpretação ambígua dos significados, e pela flexibilidade de conceder ou não credibilidade ao conteúdo das informações transmitidas. Elementos humorísticos também podem produzir, com base em sua interpretação múltipla, desinformação e conteúdo falso.
Talvez esse último elemento seja o que melhor representa o perigo que o deboche pode exercer no terreno político. Indicar que as pessoas estão ou estarão em breve comendo cachorros pode ser interpretado de diversas maneiras: ao serem perguntados sobre essa questão, alguns manifestantes no Brasil garantiam, com medo (apesar das risadas anteriores), que não queriam comer cachorros nem qualquer outro animal doméstico; outras pessoas dissecavam o humor, separando o elemento fictício, e indicavam que se tratava apenas de uma zombaria para rir do adversário político. De qualquer uma das interpretações, concluía-se que o humor agia como um potente antidepressivo, construindo amplamente identidades coletivas e normalizando uma violência muito concreta: que a esquerda não teria aquilo que Cardoso de Oliveira chamava de uma “substância moral digna”, e seria um espaço político que não mereceria ser considerado “humano”, pois quebraria o tabu social de se alimentar de animais de estimação e seres com os quais se estabeleceu um vínculo afetivo.
A normalização da violência por meio do deboche tem sido uma técnica eficaz utilizada, às vezes de forma planejada, outras vezes espontânea, pelas chamadas extremas direitas. Tanto os espaços orgânicos desses partidos políticos, quanto as bases militantes (por meio de memes e outras expressões humorísticas em espaços digitais) encontraram no humor uma forma de introduzir na agenda pública e política uma série de temas que, através de códigos “sérios”, não teriam encontrado o espaço ou a oportunidade necessária. Zombar de pessoas que passam fome e estariam dispostas a fazer qualquer coisa para comer, propor a pena de morte por meio de imagens e piadas de guilhotinas com figuras públicas, ridicularizar as violações contra mulheres ou a violência física e psicológica contra a população sem-teto, LGTBIQ+ ou racializada, sempre é mais fácil através do humor.
Esses códigos comunicativos, geralmente considerados pela literatura acadêmica como “códigos suaves”, são, na verdade, a ponta de uma lança contra os direitos humanos: por meio dessas piadas, pode-se fazer a primeira exposição e penetração das ideias mais violentas que podemos ouvir ou ver. Trata-se de um mecanismo de controle social, que investiga novas formas mais arriscadas e violentas de consenso sobre o que é “aceitável”. Isso ocorre porque o humor sempre permite um passo atrás. Se essa violência velada for acusada por alguém, por exemplo, de racismo ou machismo, o transmissor da mensagem humorística poderá sempre se refugiar na ideia de que “é só uma piada”. Ao dizer isso, ele estaria, de um lado, tentando evitar qualquer tipo de responsabilidade moral sobre a mensagem transmitida, enquanto diria à outra pessoa que “não entendeu a piada, que não tem senso de humor”. Não ter senso de humor seria um pequeno estigma, caracterizado pela incapacidade de interpretar as mensagens de forma descontraída, e, com isso, um apontamento à pessoa como carente de habilidades sociais recreativas para compartilhar esses códigos.
A verdade é que, por meio dessas mensagens debochadas, está sendo fortalecida uma série de discursos, metáforas e quadros cognitivos que, posteriormente, uma vez comprovada sua aceitação ou rejeição social, podem ser usados explicitamente na construção da agenda política. Ou seja, a violência velada do deboche ocorre primeiro, para depois ser construída uma violência explícita e direta. O humor, assim, torna-se um potente elemento na transição entre discursos ainda não aceitos socialmente e aqueles que já são, um espaço de liminaridade em que influenciadores, políticos e/ou simpatizantes, haters e trolls testam suas habilidades como criadores e difusores de mensagens de ódio.
Partir da premissa de que o deboche colabora na normalização de várias violências implícitas nos leva a entender esse código como algo legível apenas a partir de sua perspectiva cultural. No caso latino-americano, a condição pós-colonial se torna central para entender as particularidades do uso do humor no contexto da polarização política. Normalizar, por meio de piadas, a ideia de que “um bom bandido é um bandido morto” (Brasil de Bolsonaro), de que um presidente pode ser também “um ditador legal” (El Salvador de Bukele) ou de que “a venda de órgãos é apenas um tipo de mercado” (Argentina de Milei) só pode ser entendido através da compreensão de uma violência histórica caracterizada pela desigualdade, pelo racismo e pelo autoritarismo.
A militarização da esfera pública, relacionada a essa lógica colonial, também tem um efeito humorístico capitalizado pelas extremas direitas: fortalecer a categorização amigo-inimigo, distorcendo as características do “inimigo”, animalizando-o, desumanizando-o e transformando-o em um ser que pode ser fisicamente e/ou socialmente exterminado. Frequentemente, piadas e memes atravessam essa dicotomia de opostos, utilizando figuras que representam autoridade e hiper-masculinidade: policiais, militares ou heróis de Marvel e DC esmagando os oponentes, transformados em animais, como ratos ou baratas, algo que, para muitas pessoas, é “divertido”. Esse foi um dos elementos centrais da propaganda fascista e nazista do século XX, exportado e latinoamericanizado em ditaduras como a de Pinochet ou Videla.
O deboche é, portanto, um código que deve ser analisado e estudado com cautela, especialmente em um contexto de fragilidade democrática, onde os símbolos podem esconder ataques a setores da população e suas instituições. O contexto latino-americano atual, caracterizado por amplos movimentos reacionários, é o terreno perfeito para que o humor se torne um elemento-chave na radicalização política, na construção de uma agenda cultural e identitária própria e nas demandas desestabilizadoras das instituições públicas e democráticas. A internacionalização da cultura debicgada está em andamento na extrema direita latino-americana, tornando urgente estudar formas de regulação e educação sobre o uso desses códigos “suaves”, que desempenham um papel central nos processos de radicalização política.
Em outra parte da América Latina, na periferia de Buenos Aires, um seguidor de Milei dizia durante sua campanha em setembro de 2023: “Milei é bom, é um homem que gosta de cães”. “Seus cães fazem parte do seu pensamento”, dizia outro rapaz que havia participado da marcha com sua bicicleta do Uber Eats. “Mas os kirchneristas comem gatos, em breve estaremos comendo cachorros se essa máfia continuar governando!”, exclamou, mais assustado, um homem de meia-idade. “Corremos o risco de ser como a Venezuela, um país risível, um país comunista!”, apontou entre risos e indignação uma mulher idosa.
Essas piadas assustadoras viajaram pelo mundo. Viveram transmutacões e adaptações, até chegar em 2024 ao momento em que Donald Trump afirmou, em um debate presidencial contra Kamala Harris, que os haitianos residentes nos EUA “estão comendo os cães”. A risada de Harris foi sua primeira reação, pois encontrou no discurso do oponente o absurdo retórico que só poderia ser compreendido como chacota. Logo depois, ela mudou de expressão, tentando levar Trump para um terreno mais “sério”.
Neste artigo, analiso o papel que o humor – em especial, sua descaída patife, o deboche — desempenha nos processos de polarização e radicalização política das extremas direitas, especificamente as latino-americanas. Bukele, Milei, Bolsonaro, Kast… não se conectam apenas por seu militarismo, por seu componente autoritário, por seus discursos violentos, pela defesa de várias vertentes de um capitalismo ou pela apropriação do aparato estatal. Eles também o fazem pelo uso do deboche, como influenciadores políticos diretos, e como pontos em torno dos quais seus seguidores constroem relatos humorísticos, principalmente nas redes sociais.
A codificação do discuro a partir das chaves de “seriedade” ou “humor” estrutura-se a partir da suposta dicotomia entre modelos de comunicação opostos. Se o “sério” nos leva a compreender a comunicação de forma direta, de sentido literal, sem interpretação, o humor seria um código comunicativo caracterizado pela interpretação ambígua dos significados, e pela flexibilidade de conceder ou não credibilidade ao conteúdo das informações transmitidas. Elementos humorísticos também podem produzir, com base em sua interpretação múltipla, desinformação e conteúdo falso.
Talvez esse último elemento seja o que melhor representa o perigo que o deboche pode exercer no terreno político. Indicar que as pessoas estão ou estarão em breve comendo cachorros pode ser interpretado de diversas maneiras: ao serem perguntados sobre essa questão, alguns manifestantes no Brasil garantiam, com medo (apesar das risadas anteriores), que não queriam comer cachorros nem qualquer outro animal doméstico; outras pessoas dissecavam o humor, separando o elemento fictício, e indicavam que se tratava apenas de uma zombaria para rir do adversário político. De qualquer uma das interpretações, concluía-se que o humor agia como um potente antidepressivo, construindo amplamente identidades coletivas e normalizando uma violência muito concreta: que a esquerda não teria aquilo que Cardoso de Oliveira chamava de uma “substância moral digna”, e seria um espaço político que não mereceria ser considerado “humano”, pois quebraria o tabu social de se alimentar de animais de estimação e seres com os quais se estabeleceu um vínculo afetivo.
A normalização da violência por meio do deboche tem sido uma técnica eficaz utilizada, às vezes de forma planejada, outras vezes espontânea, pelas chamadas extremas direitas. Tanto os espaços orgânicos desses partidos políticos, quanto as bases militantes (por meio de memes e outras expressões humorísticas em espaços digitais) encontraram no humor uma forma de introduzir na agenda pública e política uma série de temas que, através de códigos “sérios”, não teriam encontrado o espaço ou a oportunidade necessária. Zombar de pessoas que passam fome e estariam dispostas a fazer qualquer coisa para comer, propor a pena de morte por meio de imagens e piadas de guilhotinas com figuras públicas, ridicularizar as violações contra mulheres ou a violência física e psicológica contra a população sem-teto, LGTBIQ+ ou racializada, sempre é mais fácil através do humor.
Esses códigos comunicativos, geralmente considerados pela literatura acadêmica como “códigos suaves”, são, na verdade, a ponta de uma lança contra os direitos humanos: por meio dessas piadas, pode-se fazer a primeira exposição e penetração das ideias mais violentas que podemos ouvir ou ver. Trata-se de um mecanismo de controle social, que investiga novas formas mais arriscadas e violentas de consenso sobre o que é “aceitável”. Isso ocorre porque o humor sempre permite um passo atrás. Se essa violência velada for acusada por alguém, por exemplo, de racismo ou machismo, o transmissor da mensagem humorística poderá sempre se refugiar na ideia de que “é só uma piada”. Ao dizer isso, ele estaria, de um lado, tentando evitar qualquer tipo de responsabilidade moral sobre a mensagem transmitida, enquanto diria à outra pessoa que “não entendeu a piada, que não tem senso de humor”. Não ter senso de humor seria um pequeno estigma, caracterizado pela incapacidade de interpretar as mensagens de forma descontraída, e, com isso, um apontamento à pessoa como carente de habilidades sociais recreativas para compartilhar esses códigos.
A verdade é que, por meio dessas mensagens debochadas, está sendo fortalecida uma série de discursos, metáforas e quadros cognitivos que, posteriormente, uma vez comprovada sua aceitação ou rejeição social, podem ser usados explicitamente na construção da agenda política. Ou seja, a violência velada do deboche ocorre primeiro, para depois ser construída uma violência explícita e direta. O humor, assim, torna-se um potente elemento na transição entre discursos ainda não aceitos socialmente e aqueles que já são, um espaço de liminaridade em que influenciadores, políticos e/ou simpatizantes, haters e trolls testam suas habilidades como criadores e difusores de mensagens de ódio.
Partir da premissa de que o deboche colabora na normalização de várias violências implícitas nos leva a entender esse código como algo legível apenas a partir de sua perspectiva cultural. No caso latino-americano, a condição pós-colonial se torna central para entender as particularidades do uso do humor no contexto da polarização política. Normalizar, por meio de piadas, a ideia de que “um bom bandido é um bandido morto” (Brasil de Bolsonaro), de que um presidente pode ser também “um ditador legal” (El Salvador de Bukele) ou de que “a venda de órgãos é apenas um tipo de mercado” (Argentina de Milei) só pode ser entendido através da compreensão de uma violência histórica caracterizada pela desigualdade, pelo racismo e pelo autoritarismo.
A militarização da esfera pública, relacionada a essa lógica colonial, também tem um efeito humorístico capitalizado pelas extremas direitas: fortalecer a categorização amigo-inimigo, distorcendo as características do “inimigo”, animalizando-o, desumanizando-o e transformando-o em um ser que pode ser fisicamente e/ou socialmente exterminado. Frequentemente, piadas e memes atravessam essa dicotomia de opostos, utilizando figuras que representam autoridade e hiper-masculinidade: policiais, militares ou heróis de Marvel e DC esmagando os oponentes, transformados em animais, como ratos ou baratas, algo que, para muitas pessoas, é “divertido”. Esse foi um dos elementos centrais da propaganda fascista e nazista do século XX, exportado e latinoamericanizado em ditaduras como a de Pinochet ou Videla.
O deboche é, portanto, um código que deve ser analisado e estudado com cautela, especialmente em um contexto de fragilidade democrática, onde os símbolos podem esconder ataques a setores da população e suas instituições. O contexto latino-americano atual, caracterizado por amplos movimentos reacionários, é o terreno perfeito para que o humor se torne um elemento-chave na radicalização política, na construção de uma agenda cultural e identitária própria e nas demandas desestabilizadoras das instituições públicas e democráticas. A internacionalização da cultura debicgada está em andamento na extrema direita latino-americana, tornando urgente estudar formas de regulação e educação sobre o uso desses códigos “suaves”, que desempenham um papel central nos processos de radicalização política.
Vitória para a democracia
Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um retorno sem precedentes nas eleições presidenciais brasileiras, e sua vitória tem repercussões que vão muito além das fronteiras da maior economia da América Latina. O presidente, figura proeminente do progressismo global há décadas , derrotou o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe. O resultado representa um impulso de otimismo para a esquerda e demonstra que a ascensão da extrema direita, alinhada ao trumpismo, não é inevitável.
Em nome da democracia e no melhor interesse do país, Flávio Bolsonaro deve reconhecer a derrota e respeitar as regras e a lei. Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer a confusão em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal de estender o horário de encerramento das urnas em duas horas . O Brasil não pode se dar ao luxo de ter sequer a menor dúvida sobre o processo eleitoral, nem, como há quatro anos, outro ataque às instituições como o perpetrado por Bolsonaro pai.
A vitória inesperada de Lula, conquistada por meio de uma campanha que combinou a defesa de programas sociais com uma mobilização
extraordinária em defesa da democracia que ultrapassou os limites do Partido dos Trabalhadores, oferece lições para os progressistas. Ela também envia uma mensagem poderosa em um contexto internacional dominado por Donald Trump. O presidente dos EUA entrou em conflito com o presidente brasileiro , apoiou candidatos extremistas em todo o continente e reviveu antigas noções do século XIX de que os Estados Unidos são um quintal onde a superpotência faz o que bem entende. A derrota de Bolsonaro é também a derrota de Trump.
Os desafios são enormes. A queda da Bolsa de Valores brasileira na manhã de segunda-feira é um sinal precoce das dificuldades que aguardam Lula. O déficit fiscal se aproxima de 10% do PIB e a dívida ultrapassa 80%, um nível
elevado para uma economia como a brasileira. Soma-se a isso a margem de manobra legislativa muito limitada. Quase metade dos eleitores apoia Flávio Bolsonaro: o movimento fundado por seu pai mantém forte presença social e territorial, e seu partido detém mais cadeiras do que qualquer outro desde a Assembleia Constituinte de 1988. Lula terá que governar um país muito maior do que a coalizão que o reconduziu à presidência.
A defesa da democracia deve se traduzir em respeito às instituições, à independência judicial, à liberdade de imprensa e em garantias para a oposição. A decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal de manter as urnas abertas duas horas a mais do que o estipulado exige total transparência. E Flávio Bolsonaro, que perdeu por mais de quatro milhões de votos, não pode usar isso como desculpa para rejeitar a vitória de seu rival e arrastar o país de volta para o caminho da luta pelo poder. Nesse sentido, é um sinal positivo que líderes da direita latino-americana, como Keiko Fujimori, do Peru, e José Antonio Kast, do Chile , tenham parabenizado o vencedor.
Lula, que completou 81 anos nesta terça-feira, encara o início de seu quarto e último mandato com uma responsabilidade à altura de sua vitória. Ele tem uma
oportunidade inesperada de consolidar instituições e preparar uma transição política que não dependa de sua liderança pessoal. A democracia brasileira demonstrou nesta campanha e nestas eleições que pode resolver uma disputa de enorme intensidade e significado nas urnas. Seu legado dependerá de se essa democracia emergirá dos próximos quatro anos menos vulnerável às tentações autoritárias.
Editorial do El País
Em nome da democracia e no melhor interesse do país, Flávio Bolsonaro deve reconhecer a derrota e respeitar as regras e a lei. Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer a confusão em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal de estender o horário de encerramento das urnas em duas horas . O Brasil não pode se dar ao luxo de ter sequer a menor dúvida sobre o processo eleitoral, nem, como há quatro anos, outro ataque às instituições como o perpetrado por Bolsonaro pai.
A vitória inesperada de Lula, conquistada por meio de uma campanha que combinou a defesa de programas sociais com uma mobilização
extraordinária em defesa da democracia que ultrapassou os limites do Partido dos Trabalhadores, oferece lições para os progressistas. Ela também envia uma mensagem poderosa em um contexto internacional dominado por Donald Trump. O presidente dos EUA entrou em conflito com o presidente brasileiro , apoiou candidatos extremistas em todo o continente e reviveu antigas noções do século XIX de que os Estados Unidos são um quintal onde a superpotência faz o que bem entende. A derrota de Bolsonaro é também a derrota de Trump.
Os desafios são enormes. A queda da Bolsa de Valores brasileira na manhã de segunda-feira é um sinal precoce das dificuldades que aguardam Lula. O déficit fiscal se aproxima de 10% do PIB e a dívida ultrapassa 80%, um nível
elevado para uma economia como a brasileira. Soma-se a isso a margem de manobra legislativa muito limitada. Quase metade dos eleitores apoia Flávio Bolsonaro: o movimento fundado por seu pai mantém forte presença social e territorial, e seu partido detém mais cadeiras do que qualquer outro desde a Assembleia Constituinte de 1988. Lula terá que governar um país muito maior do que a coalizão que o reconduziu à presidência.
A defesa da democracia deve se traduzir em respeito às instituições, à independência judicial, à liberdade de imprensa e em garantias para a oposição. A decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal de manter as urnas abertas duas horas a mais do que o estipulado exige total transparência. E Flávio Bolsonaro, que perdeu por mais de quatro milhões de votos, não pode usar isso como desculpa para rejeitar a vitória de seu rival e arrastar o país de volta para o caminho da luta pelo poder. Nesse sentido, é um sinal positivo que líderes da direita latino-americana, como Keiko Fujimori, do Peru, e José Antonio Kast, do Chile , tenham parabenizado o vencedor.
Lula, que completou 81 anos nesta terça-feira, encara o início de seu quarto e último mandato com uma responsabilidade à altura de sua vitória. Ele tem uma
oportunidade inesperada de consolidar instituições e preparar uma transição política que não dependa de sua liderança pessoal. A democracia brasileira demonstrou nesta campanha e nestas eleições que pode resolver uma disputa de enorme intensidade e significado nas urnas. Seu legado dependerá de se essa democracia emergirá dos próximos quatro anos menos vulnerável às tentações autoritárias.
Editorial do El País
O voto que se perdeu e a fuga de um covarde
Não me espanta que mais um criminoso tenha fugido do país com medo de ser preso. Espanta-me, sim, que o meliante em questão, 48 horas antes, tenha obtido quase 60 milhões de votos para se eleger presidente do Brasil.
As pessoas não sabiam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam ou deveriam saber. Era público e notório. Mas pouco importou.
Essa conivência das urnas expõe um profundo cinismo institucional e o enfraquecimento do nosso pacto democrático. Ao chancelar o nome de alguém que despreza o próprio sistema legal que pretendia chefiar, o eleitorado normalizou a ideia de que as leis só se aplicam aos adversários. O resultado é a erosão do princípio republicano fundamental de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que corrói a confiança nas regras do jogo democrático.
Na verdade, a polarização política cegou o discernimento ético, transformando o candidato em um símbolo de guerra cultural intocável. Para os seus eleitores, os crimes de colarinho branco e o desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados sob o pretexto de uma suposta perseguição, provando que a paixão cega por um líder há muito substituiu o compromisso com a moralidade pública.
Não sabiam que ele, se derrotado, tentaria evadir-se? Claro que sim. Um irmão dele que vive nos Estados Unidos, em entrevista a um podcast na semana passada, antecipara que ele fugiria, caso não se elegesse. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também voou em busca de proteção em terra alheia.
Família que bate continência para a bandeira americana compartilha dos mesmos
valores e, por mais que brigue entre si, permanece unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo – aqui ou em qualquer outro lugar. Faltou incluir dinheiro, de preferência muito e sujo.
O que assistimos ontem não foi apenas a fuga covarde de um indivíduo que tem contas a pagar com a justiça, mas o retrato de um país anestesiado, onde metade do eleitorado escolheu fechar os olhos para o abismo e continua insanamente a ampliá-lo.
Validar nas urnas quem já desprezava as leis e só defendia a ordem bruta e o tacão é a prova cabal de que a nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica.
As pessoas não sabiam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam ou deveriam saber. Era público e notório. Mas pouco importou.
Essa conivência das urnas expõe um profundo cinismo institucional e o enfraquecimento do nosso pacto democrático. Ao chancelar o nome de alguém que despreza o próprio sistema legal que pretendia chefiar, o eleitorado normalizou a ideia de que as leis só se aplicam aos adversários. O resultado é a erosão do princípio republicano fundamental de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que corrói a confiança nas regras do jogo democrático.
Na verdade, a polarização política cegou o discernimento ético, transformando o candidato em um símbolo de guerra cultural intocável. Para os seus eleitores, os crimes de colarinho branco e o desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados sob o pretexto de uma suposta perseguição, provando que a paixão cega por um líder há muito substituiu o compromisso com a moralidade pública.
Não sabiam que ele, se derrotado, tentaria evadir-se? Claro que sim. Um irmão dele que vive nos Estados Unidos, em entrevista a um podcast na semana passada, antecipara que ele fugiria, caso não se elegesse. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também voou em busca de proteção em terra alheia.
Família que bate continência para a bandeira americana compartilha dos mesmos
valores e, por mais que brigue entre si, permanece unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo – aqui ou em qualquer outro lugar. Faltou incluir dinheiro, de preferência muito e sujo.
O que assistimos ontem não foi apenas a fuga covarde de um indivíduo que tem contas a pagar com a justiça, mas o retrato de um país anestesiado, onde metade do eleitorado escolheu fechar os olhos para o abismo e continua insanamente a ampliá-lo.
Validar nas urnas quem já desprezava as leis e só defendia a ordem bruta e o tacão é a prova cabal de que a nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica.
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