domingo, 27 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Agosto 1964

Entre lojas de flores
e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo num ônibus
Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho,
a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja.
Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases,
concretismo,
neoconcretismo,
ficções da juventude,
adeus, que a vida
eu compro à vista
aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos,
o verso sufoca,
a poesia agora
responde a inquérito
policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo.
Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação,
da tortura, do horror,
retiramos algo e com ele
construímos um artefato
um poema
uma bandeira.

Ferreira Gullar, "Toda poesia"

Outros 'nós contra eles'

O discurso do “nós contra eles” é um truque político comum, um caminho previsível, que facilita reconhecer aliados e adversários. Serve para mobilizar bases e, sobretudo, esconder os donos das crises, da concentração de riquezas e da exploração ilimitada da natureza – os super-ricos.

Há no caso brasileiro uma pequena mudança no sentido do discurso. Se durante as eleições de 2022 adotou-se a rivalidade entre democratas e totalitários, voltamos ao inescapável conflito de classe entre ricos e pobres, ainda que consciência de classe seja artigo raro. É o retorno da assinatura dos primeiros governos petistas que, com os avanços e investimentos sociais, consolidou a imagem da legenda, ainda que pesem as acusações de corrupção.


Para parte da esquerda mais crítica e menos eleitoreira, é só discurso, e Lula nada mais faz que um governo de centro-direita, tese defendida até pelo ex-ministro José Dirceu. Para esses grupos, Lula barra o fascismo e ao mesmo tempo impede que reivindicações mais profundas e estruturais cheguem ao debate político. O exemplo de 2022 volta: a defesa da democracia, urgente na época, barrou a discussão de que democracia nós queremos. Mesmo assim, enfim o presidente abraçou a defesa da taxação dos ricos e o fim da escala 6×1, pautas urgentes, que incitam respostas violentas no país dos privilégios.

O aconteceu em Torre Pacheco, cidade da região de Murcia, na Espanha, corrobora com o argumento do primeiro parágrafo. Em 9 de julho a mídia espanhola divulgou o caso de um idoso foi brutalmente agredido por “jovens que falavam língua estrangeira”. Alimentados pelo discurso de ódio da extrema-direita, no caso do partido Vox, grupos organizados pelas redes sociais iniciaram na cidade uma “caça a imigrantes”, definição oferecida pelo ministro do Interior espanhol. Armados com paus ou barras de ferro eles vêm assombrando as noites da cidade em busca de pessoas de origem norte-africana.

Vai explicar que imigrantes não roubam empregos, porque simplesmente eles ocupam as vagas com menores salários em trabalhos agrícolas e serviços pesados e que, segundo a OCDE, imigrantes contribuem mais em impostos do que recebem em benefícios sociais. E que a invasão de árabes e africanos se traduz em uma taxa de 6% de população da UE (dados de 2023), que se mantém nos últimos anos. Esse discurso aponta um culpado para a precarização do trabalho, dos sistemas de saúde e educação, pelo desemprego entre jovens, pela concentração de renda, pela falta de representação em democracias dominadas pelo mercado. E que as feridas abertas do colonialismo e a violência do neocolonialismo sejam esquecidas.

Ainda que tenha o racismo comum, é um fenômeno diferente do “nós contra eles” sionista, que constrói e cultiva o ódio aos árabes. Um movimento europeu que também se aparta dos judeus que já viviam naquelas terras. São todos outros. Há mais de sete décadas, uma política sistemática de tomada de casas e assassinatos. É evidente que ninguém quer a morte de civis de ambos os lados. Mas o que resta para os oprimidos quando não há diálogo? Ao fim, os ataques terroristas alimentam o discurso nacionalista da extrema-direita.

‘Em Gaza, acontece um dos processos de desumanização mais rápidos da História”, dizem os autores de ‘Um léxico da brutalidade’, o sociólogo Assaf Bondy e o historiador Adam Raz. Eles reuniram cerca 150 palavras e expressões cotidianas, como “despovoamento” ou “animais humanos”, que ajudam a justificar o genocídio. E validar a manutenção do poder da extrema-direita e sua agenda expansionista. E fortalecer a presença dos EUA na região.

Ao recordar os primeiros governos Lula, seu “nós contra eles” é um discurso eleitoral de um mandato sem rosto que, pressionado pelo centrão e pela extrema-direita, deu uma piscada à esquerda. Na Espanha, como em boa parte da Europa, arregimentar os descontentes e desesperançados para que a estagnação prevaleça enquanto a extrema-direita se fortalece. Em Israel, unir o país contra os palestinos para esconder que o verdadeiro inimigo é interno.

O ‘fascio’ do Tio Sam

Agora, quem usa a palavra “fascismo” para se referir ao governo de Donald Trump é Robert B. Reich, um intelectual sem nenhum histórico de surtos esquerdistas. Longe disso, Reich tem uma trajetória de ponderada coerência. Advogado, foi secretário do Trabalho (cargo equivalente ao de ministro no Brasil) durante o governo de Bill Clinton, de 1993 a 1997. Era cordial e atencioso no trato com jornalistas – brasileiros, inclusive. Reich foi também professor de Políticas Públicas em Berkeley. Hoje, aposentado, segue em destaque como autor de livros, alguns deles best-sellers e como articulista frequente em jornais e revistas como The New York Times, The New Yorker, The Washington Post, The Wall Street Journal, e The Atlantic. Sua voz não costuma ceder a radicalismos e destemperos.


Pois esse sujeito, lúcido e sensato, publicou no início do mês, em sua newsletter com mais de um milhão de assinantes, uma crítica ácida à lei orçamentária que o presidente dos Estados Unidos conseguiu aprovar no Congresso. Reich diz que o pacote vai tornar “os Estados Unidos mais cruéis” do que já são. Não é para menos. A peça orçamentária retira mais de US$ 1 trilhão do Medicaid (assistência médica pública). Até 2034, vai condenar ao abandono um contingente de 12 milhões de americanos. Além disso, providencia uma substanciosa redução de impostos para os mais ricos e turbina o caixa das ações militares de combate à imigração.

O sadismo é tanto que Robert Reich compara Donald Trump com os chamados “homens fortes da década de 1930 – Hitler, Stalin, Mussolini e Franco”, e conclui: “O fato de uma legislação tão regressiva, perigosa, gigantesca e impopular ter sido aprovada no Congresso demonstra o quanto Trump arrastou os Estados Unidos para o fascismo moderno.” O parlamento abaixa a cabeça à prepotência do Executivo. A Suprema Corte, pelo que se vê, tomará caminho parecido. Fascismo é a palavra.

Não foi por falta de aviso. Há cinco anos, num longo artigo publicado no New York Review of Books, Sarah Churchwell, professora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Londres, definiu, logo no título, o resumo do primeiro governo Trump: “Fascismo americano: aconteceu aqui”.

Depois de registrar que o presidente andara posando com uma Bíblia na mão, Bíblia que nunca leu, a autora lembrou um velho ditado: “Quando o fascismo chegar à América, estará envolto na bandeira e carregando uma cruz”. Ela alertou que a frase, comumente atribuída a Sinclair Lewis, tem sua origem mais provável nos discursos de James Waterman Wise, filho do rabino Stephen Wise. Há quase um século, James Wise avistou o perigo e antecipou: o fascismo chegaria às terras do Tio Sam “embrulhado na bandeira americana ou em um jornal de Hearst”.

William Randolph Hearst, ganancioso e narcisista, foi o magnata da imprensa retratado com genial mordacidade no filme Cidadão Kane, de Orson Welles, lançado em 1941. Aos olhos de Wise, a América de Hearst desejava o fascismo, mas de um tipo diferente. Bingo: no paraíso das celebridades, do consumismo pantagruélico, do entretenimento fútil e do glamour aloirado, a tintura capilar de Marilyn Monroe ganhou uma estranha ressurreição sobre o cocuruto de Donald Trump e as piores vocações autocráticas encontraram seu ponto de equilíbrio – um equilíbrio meio desequilibrado, por definição.

Há algo de imperialista na fórmula, como comprovam as ordens do inquilino da Casa Branca para que fossem revogados os vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Os Estados Unidos, hoje, assumem a forma de um regime arrogante que confere ou retira autorizações de viagem não mais segundo normas impessoais, como recomenda o melhor Direito Internacional, mas segundo as manias irracionais do chefe. Absolutismo é pouco. O que estamos vendo lá é um fascismo tipo exportação.

Muitas outras características trumpeteiras ecoam os “homens fortes da década de 1930 – Hitler, Stalin, Mussolini e Franco”. O imperador blonde faz uso do aparato policial público para perseguir desafetos privados, copiando práticas adotadas do nazismo e do fascismo históricos. Em seu livro clássico Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt apontou esse traço distintivo quando descreveu as ditaduras do Duce, na Itália, e do Führer, na Alemanha. Trump, hoje em feitio desarvorado, replica o mesmo traço: mobiliza tropas estatais para reprimir e prender estudantes desarmados, ameaça escritórios de advocacia que abracem causas incômodas aos seus interesses e veta a presença dos jornais de que não gosta na cobertura dos atos de governo.

Não, isso não é democracia. Isso não é nem mesmo um autoritarismo que procura se disfarçar de democracia. Isso é convulsão institucional prestes a se assumir como ditadura escancarada. Isso é um poder que, de forma consciente, deliberada e ostensiva, dispara ataques sucessivos contra as democracias organizadas do mundo. O Tio Sam empunha o fascio e o Brasil é só mais uma de suas vítimas. O estrago político será maior do que o descalabro econômico.

Milícia bolsonarista lutará pelos EUA

Esta é a última coluna antes do dia 1º de agosto, quando Donald Trump, se não tiver sofrido impeachment por acusação de pedofilia, taxará os produtos brasileiros em 50%. A culpa pelos danos causados ao Brasil será inteira dos bolsonaristas. Mas eles não estão no controle: são apenas os cúmplices e o álibi de uma guerra que Trump trava contra o Brasil para cometer seus próprios crimes e dar seus próprios golpes.

Trump impôs tarifas mais altas sobre o Brasil do que sobre os outros países porque só aqui ele conta com um exército de quintas-colunas —os bolsonaristas— que lutarão ao lado dos Estados Unidos para saquear o Brasil.

Se Putin pudesse contar com algo parecido na Ucrânia, já teria vencido a guerra.


Trump quer quebrar nossos setores mais modernos, o agronegócio, a Embraer, o Pix, que competem com empresas americanas. Também quer roubar nossas terras raras, minérios importantes para a produção de itens de alta tecnologia.

Percebeu que podia fazer isso tudo com apoio, ou ao menos a inação covarde, de cerca de 30% da população brasileira, da bancada bolsonarista no Congresso e de governadores importantes que puxam o saco do Jair.

Pareceu um gol aberto, ele chutou.

A turma do Jair nos Estados Unidos age como se estivesse no controle dos acontecimentos. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo comemoram o saque das riquezas brasileiras, sofrem de delírios de grandeza e sonham com um novo golpe.

Em um vídeo de maio deste ano, vemos Figueiredo sonhando que será ministro da Defesa em 2027 para perseguir os generais que não apoiaram o golpe de Jair Bolsonaro (os "filhas das putas", segundo ele). Afirma que empregaria o general Tomás Paiva, atual comandante do Exército brasileiro, como seu ajudante de ordens. Após "cagar em uma mala", forçaria o general a carregá-la por 15 dias, antes de lhe dar baixa desonrosa. Em sua fantasia, as pessoas gritariam "Paulo Figueiredo, eu autorizo" como gritavam para Jair.

Mas nem ele nem Eduardo estão no comando. Figueiredo é só a versão Pinochet de George Santos, aquele picareta que falsificava cheques em Niterói, virou deputado nos Estados Unidos e foi preso dias desses. Eduardo é o que o rapper Oruam, filho do traficante Marcinho VP, seria, se o Comando Vermelho estivesse queimando empresas brasileiras com os empregados dentro até que Marcinho fosse solto.

Pelo critério que a direita brasileira sempre usou contra a esquerda, os dois partidos bolsonaristas, PL e Novo, já deveriam ter perdido seus registros. Pelo artigo 28, inciso 2 da Lei dos Partidos Políticos, o partido pode perder o registro se estiver "subordinado a entidade ou governos estrangeiros", como PL e Novo evidentemente estão subordinados ao governo Trump.

Foi essa a desculpa para cassar o registro do Partido Comunista Brasileiro em 1947: o partido seria subordinado a Moscou. Sessenta anos depois, o deputado de direita José Carlos Aleluia (DEM-BA) pediu a cassação do PT alegando que o partido seria submisso ao Foro de São Paulo.

Não quero cassar registro de ninguém, porque sou mais democrata que a direita brasileira. Mas nem Moscou nem o irrelevante Foro de São Paulo jamais fizeram contra o Brasil o que os Estados Unidos de Trump estão fazendo com a cumplicidade dos bolsonaristas.

A PL da devastação e nossas elites dirigentes

O Projeto de Lei 2159/2021, aprovado na madrugada do dia 17/07/25 pelo Congresso, evidencia os limites da economia de mercado e a falta de visão de longo prazo das elites dirigentes do país. Também revela a fragilidade do governo em defender com mais firmeza a pauta ambiental e a proteção da Amazônia.

Ao observar o PL da Devastação vemos que ele flexibilizou ao extremo as regras para licenciamento ambiental sacrificando critérios científicos e racionais em prol dos setores mais predatórios e irresponsáveis da economia brasileira (conforme reportagem da Revista Cenarium).


Uma das grandes contradições da economia de mercado reside na sua incapacidade de olhar a longo prazo para os recursos naturais. Isso se deve ao fato de que o modo de produção capitalista precisa se expandir para se manter vivo. Os outros modos de produção surgidos de fricções históricas anteriores (modo de produção asiático, modo de produção feudal, modo de produção antigo) eram finitos em seus pressupostos: encontravam sempre uma barreira que os levavam à crise. O capitalismo, por sua vez, não possui quaisquer barreiras. Ele dobra-se sobre si mesmo ou avança sobre dimensões da vida que deveriam ser preservadas da dinâmica de mercado: direito à saúde, educação, o direito de viver numa sociedade de meio ambiente limpo e preservado.

Há uma outra questão a ser levada em conta. Nossas elites dirigentes e econômicas foram moldadas, desde o século XVI, por um modelo de sociedade e governabilidade voltado para fora. Baseado na exportação de produtos primários, o Brasil se formou a partir do grande latifúndio exportador e altamente predatório. Tal peculiaridade fez com que o país sempre tivesse dificuldades para equilibrar a balança comercial no mercado internacional, vendendo produtos primários e comprando industrializados, precisando devastar cada vez mais para aumentar a produção. Forma-se todo um ecossistema de interesses políticos, ideológicos e econômicos em torno dos interesses mais reacionários e antimodernos da sociedade brasileira. 


A emancipação política de 1822, não alterou totalmente tal esquema de coisas. O Brasil nunca teve colônias, mas praticou colonialismo interno sobre suas regiões distantes dos litorais e dos centros urbanos: 1) lugares supostamente ermos, que deveriam ser explorados a todo custo, sem que as consequências ambientais e sociais fossem levadas em conta. 2) regiões cuja população pobre foi remanejada sem critérios para a região amazônica.

Dentro deste cenário de eventos temos a formulação de uma elite das mais irresponsáveis, predatórias e privatistas já criadas. Os direitos à cidadania são vistos como privativos por e para elas. Aqueles que vivem na base da pirâmide seriam merecedores do seu lugar de miséria por escolha própria ou como vontade de deus e do destino. Nossas elites dirigentes sofrem daquilo que Florestan Fernandes chamou de resistência sociopática à mudança: as tensões sociais devem ser tratadas a partir de cima para baixo, com o uso da força. Nunca com o uso do diálogo e da conciliação, este reservado apenas aos conflitos entre as frações de classe dos próprios grupos dirigentes.

Quando olhamos para a história do Brasil e da formação das suas elites, não chega a surpreender que tal projeto de lei passe. Antidemocrática, colonialista, voltada para interesses externos e incapaz de pensar para além do seu interesse de curto prazo, são tão distantes do restante do povo brasileiro que acreditam que a cidadania e os interesses do país iniciam e terminam com elas.

As mudanças climáticas já são uma realidade. O Nordeste vive um processo de desertificação, as secas na Amazônia se tornam mais frequentes e severas e os índices pluviométricos do pantanal já são menores. E nossos políticos, influenciados por grupos de pressão e atendendo a pautas de quem eles realmente representam, parecem viver numa realidade paralela, fruto de ideias paralelas…
Ricardo Kaate Lima

O rato que ruge

O rato que ruge é uma comédia britânica, de 1959, simples e direta. Um país que depende da exportação de vinho para os Estados Unidos subitamente encontra poderoso concorrente. Na Califórnia, surge um produto com nome semelhante e preço mais baixo. Para evitar a falência, este pequeno país declara guerra aos Estados Unidos com objetivo de ser derrotado e conseguir expressivos ganhos com sua derrota, como ocorreu com o plano Marshall na Europa ocidental. Ou, com outro exemplo mais recente, o Vietnã.

A crítica é muito inteligente e atual no filme dirigido por Jack Arnold, baseada no livro homônimo de 1955 do escritor irlandês Leonard Wibberley. A história cria um país fictício na Europa, na fronteira entre França e Suíça, chamado Grão Ducado de Fenwich. O ator principal é o formidável Peter Sellers, que faz três papeis no filme. A atriz é Jean Seberg. A invasão dos Estados Unidos, por intermédio de um exército de vinte e dois soldados, armados com arcos e flechas, é hilariante. O comandante é míope. Naturalmente, tudo resulta em equívoco monumental.


Mas, o pior acontece. O pequeno reino, por uma série de circunstâncias, vence a guerra e o governo dos Estados Unidos oferece a paz e o pagamento de um milhão de dólares. A história é uma grande ironia com a política externa dos Estados Unidos, o que o torna muito atual. Antes de declarar guerra, o pequeno ducado tentou negociar com Washington, mas não obteve qualquer resposta. Só restou a guerra como alternativa. O fato é que o filme se parece muito com a situação brasileira em sua atual relação com o governo de Washington.

O presidente Donald Trump fez 31 reuniões na Casa Branca para tratar da questão das tarifas externas. Ele recebeu mais de vinte chefes de estado. Lula nunca foi lembrado para participar das reuniões. Não enviou nenhuma sinalização para o Brasil. Sequer respondeu a carta enviada em maio passado. Trump não é imprevisível como afirmam os comentaristas. Ele estica a corda como jogador de pôquer, faz o primeiro lance alucinado e obriga o competidor a entrar no jogo. Não há como ignorá-lo. Como o Brasil é grande demais para tentar fazer a guerra e perder, a única alternativa restante é aguardar, com a calma necessária de bom jogador, o momento de apresentar suas cartas e argumentos. Segundo os melhores analistas norte-americanos, Trump vai negociar, no seu tempo.

A política norte-americana em relação às Américas nunca foi muito sutil. A América para os americanos, dizia a doutrina Monroe. O então presidente norte-americano queria impedir que as potências europeias recolonizassem suas posses no Novo Mundo. Na América Central, a política de Washington invadiu à vontade. Baixou o cacete. O melhor exemplo vem da Guatemala, em 1954. Um golpe militar de Carlos Castillo Armas, apoiado pela CIA, derrubou o governo progressista de Jacobo Árbenz. O argumento para o golpe foi que o presidente deposto planejava facilitar a entrada do comunismo soviético no continente. Na verdade, o presidente deposto pretendia cobrar impostos da empresa bananeira, que operava no país.

No Brasil, no Chile, no Uruguai, na Argentina, na Colômbia (criação do Panamá) os norte-americanos se divertiram derrubando governos democraticamente eleitos. Sempre houve a preocupação de manter o quintal de Washington sob controle. Agora ocorre a novidade da presença muito forte dos chineses na região e da relativa diversificação dos mercados. Hoje o momento é diferente daquela época em que predominava o maniqueísmo. Moscou comunista não há mais. E Cuba vive em racionamento de energia e alimentos. Mas existência de Trump, com suas ideias mercantilistas do século 19, é um retrocesso de bom tamanho.

Do ponto de vista da política interna, Lula recebeu um inesperado presente de Trump. Ele pode esticar a corda da negociação, uma vez que o prejuízo já está precificado pelos empresários. Todos sabem que o país vai perder, haverá desemprego e o agronegócio, principal atividade econômica do país, será fortemente atacado. Este grupo, curiosamente reúne o maior bloco de apoio a Bolsonaro no país. Trump deu prestígio a Lula que voltou a ser o líder nacionalista de outros tempos, e prejudicou a oposição que passou a ser percebido como o grupo de traidores da Pátria e criadores de uma enorme onda desemprego.

Trump anuncia acordos com Japão, Filipinas e Indonésia. Já havia avançado negociações com a comunidade britânica. Mas Canadá. México, e Brasil, estão na lista de espera. Pode causar alguma angústia, mas os brasileiros vão procurar novos parceiros e amadurecer na política externa. Discursar no Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, como Lula fez semana passada, ofereceu a chance de revisitar o local da morte de Salvador Allende, em setembro de 1973. Mas o momento atual é de falar menos e agir mais.

Dica: O rato que ruge está disponível no youtube. Vale a pena.

As palavras que nos faltam

Todos os dias nos deparamos com neologismos tecnológicos: algoritmo, metaverso, blockchain etc. A revolução tecnológica em curso sabe como apelidar as suas criações, ainda que raramente estas palavras sejam traduzidas, ou melhor, reinventadas, para a nossa língua. Instalam-se no nosso idioma, e no nosso pensamento, sempre em inglês, com a arrogância e a determinação dos colonos israelenses nos territórios ocupados.

Não obstante, creio que a turbulência que enfrentamos tem muito a ver com uma insidiosa crise lexical. Temos dificuldade em compreender os tempos atuais porque, antes de tudo, nos falta vocabulário. Como podemos produzir pensamento — filosofias, ensaios, teorias, explicações — se ainda nem sequer fomos capazes de inventar palavras capazes de exprimir as perplexidades, angústias, inquietações, e outros sentimentos esquivos e complexos, que, de repente, estamos experimentando, com a violência de quem toma um soco no nariz?

Como nomear os novos assombros éticos?

Não inventamos ainda uma palavra capaz de traduzir a dor, a repulsa, a indignação, o desespero — tudo isso junto — diante dos crimes abomináveis que Israel está cometendo em Gaza.

Que nome dar ao amplo movimento de retorno à barbárie que, com epicentro na Casa Branca, em Washington, vem alastrando por todo o mundo?

Que nome dar ao espanto agoniado, que é mais do que apenas espanto, ou apenas desgosto, com que assistimos à institucionalização da mentira, da vilania, da brutalidade em todas as suas múltiplas formas?

Que nome dar à específica “nostalgia da tortura”, manifestada em público por pessoas como Jair Bolsonaro?

Que nome dar ao sentimento de frustração, de tristeza, de incredulidade, que muitos de nós experimentam testemunhando o recuo dos ideais democráticos?

Há alguns anos chamávamos “desumanidade” a várias formas de barbárie, e essa única palavra cumpria a sua função — a de estarrecer as almas plácidas — com razoável sucesso. Entretanto, foi enfraquecendo. Adoeceu por excesso de trabalho, sendo convocada, a todo o momento, para enfeitar relatórios e noticiários. Não inquieta mais. Precisamos substituí-la por um outro termo, urgente como uma ambulância, afiado como uma adaga, e capaz de uivar sem perder o rigor.

Talvez tenhamos de resgatar profundos arcaísmos, cheirando a mofo e a sangue, que deixamos de usar, à medida que abandonávamos as gargalheiras, os polés, os troncos e os patíbulos. Palavras como estólido (do latim stolidus — obtuso, grosseiro. Muito usada no século XVIII), protervo, nefando, aleivado ou sátrapa. Todas elas se aplicam com justiça e propriedade a sujeitos como Donald Trump.

Quando a realidade se torna inconfiável, só a palavra — justa, exata, certeira — tem poder para a restaurar. Não havendo palavras adequadas, teremos de as inventar. A crueldade prospera no silêncio. A civilização — ou, pelo menos, a gentileza, a nobreza, a empatia — recomeçará através de uma língua reinventada, feroz e refulgente.
José Eduardo Agualusa

sábado, 26 de julho de 2025

Pensamento do Dia (todo)

 


Batalha campal

Somos o campo de testes de uma disputa global que tem o potencial de definir um novo mapa do poder nas relações internacionais. Nas últimas duas semanas, a ofensiva do governo de Donald Trump contra o Brasil não ocorreu por uma questão tarifária. Não estão em jogo nem o café nem o suco de laranja. Esses são danos colaterais.

Abalar a estabilidade de um governo democraticamente eleito é o principal objetivo de um movimento que precisa retirar de seu caminho forças progressistas e emergentes para costurar uma nova ordem mundial que perpetue e renove sua posição de força. A autonomia do Brasil, portanto, é intolerável. Inclusive perigosa, caso outros emergentes a usem como modelo. Desmontar a oposição que o País representa aos interesses de Trump cumpre duas funções estratégicas.


A primeira delas é a de permitir que uma operação de grande envergadura para restabelecer a hegemonia norte-americana no mundo e frear a China possa vingar. Robert Lighthizer, o assessor extraoficial do departamento de Comércio de Trump e mentor das tarifas da Casa Branca, resumiu como poucos o que a China representa: “Uma ameaça existencial aos EUA”.

Para a Casa Branca, isso passa necessariamente por voltar a poder chamar a América Latina de quintal. Desde que voltou à Presidência, Trump sinalizou que recuperar a zona de influência entre os vizinhos ao Sul do Rio Grande era uma prioridade, recuperando o espaço que hoje é, em parte, da China. Assim, Washington passou a chantagear o Panamá, forçou entendimentos com países da América Central e Caribe, costurou apoios com Equador, Guiana, Paraguai e Argentina. E, de forma estratégica, busca agora influenciar diretamente as próximas eleições no Chile e na Colômbia. Mas nada disso terá um resultado concreto sem o Brasil.

Há, no entanto, uma segunda disputa travada e ela é ideológica. Nos últimos dias, ao abrir mão do interesse nacional, da renda dos brasileiros e da própria democracia em troca de um apoio externo para proteger seu clã, o bolsonarismo foi desmascarado. Também ficou evidente que não se trata de um grupo isolado. Tea­tralizadas, as demonstrações de líderes ultraconservadores confirmaram, uma vez mais, a existência de uma aliança internacional de uma força política que, ao longo dos últimos anos, costurou uma estratégia globalizada para chegar e se manter no poder.

Um dos líderes que saíram no apoio do ex-presidente brasileiro foi o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. “Continue lutando, Jair Bolsonaro! Ordens de silêncio, proibições de redes sociais e julgamentos com motivação política são ferramentas de medo, não de justiça”, disse o líder húngaro nas redes sociais. No começo de 2024, Bolsonaro passou dois dias na Embaixada da Hungria em Brasília. O movimento ocorreu dias depois de ele ter seu passaporte retido pela Justiça, que o investigava pela trama golpista. O apoio também veio da extrema-direita polonesa, que agora pede sanções na Europa contra Alexandre de Moraes. Na Itália, Matteo Salvini disse que Bolsonaro é um “perseguido pela Justiça de esquerda”. Na Espanha, foram os herdeiros intelectuais e políticos do ditador Francisco ­Franco que saíram ao resgate do brasileiro.

Em todos os casos, as palavras de apoio se repetiam de forma calculada. Como se tivessem sido ensaiadas. O movimento ultraconservador no mundo sabe o que está em jogo no Brasil. E não é a sobrevivência política de um ex-presidente indiciado por golpe de Estado. O que está em jogo é seu projeto de poder.

Se a extrema-direita mundial sempre teve um plano, dinheiro e objetivo, agora também tem um líder com uma bomba atômica, com o maior mercado do mundo e determinado a reverter uma sensação de decadência de um império. Não poderia ser mais perigoso.

Num mundo onde a velha ordem internacional se desfez e na qual uma disputa­ pelo poder é travada a cada dia para determinar quais serão as regras que vão reger as próximas décadas, o que está sendo desenhada é a fundação de uma geografia do poder.

Seja pela busca norte-americana por hegemonia, seja pela disputa ideológica de um grupo que quer refundar a sociedade a partir de um novo parâmetro ultraconservador, a realidade é que o embate, neste momento, está ocorrendo em nossa democracia.

Os golpes enviados desde Washington e ecoados por traidores testam os alicerces de uma sociedade e os parâmetros da civilização.

No país, a disputa é por onde passam a linhas não tão imaginárias das fronteiras de zonas de influência e da definição de soberania.

No Brasil, portanto, disputa-se neste momento o século XXI.

Antidemocrático e antipatriótico

As recentes sanções aplicadas pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras e a algumas de suas principais autoridades do sistema de Justiça, para além dos efeitos econômicos imediatos, tornaram mais claros certos aspectos do bolsonarismo. Embora, para os mais atentos, menos crédulos ou avessos ao cinismo, tais traços fossem óbvios, eram ainda minimizados por muita gente.

Um desses elementos é o caráter embusteiro do patriotismo bolsonaresco. Jair Bolsonaro inúmeras vezes alardeou sua disposição de dar a vida pelo País, contudo, quando surgiu a oportunidade (não de dar a vida, mas de demonstrar alguma preocupação com o Brasil) o que ele e seu filho 03 fizeram foi exatamente o contrário: atuaram para sacrificar a nação em prol de seus próprios interesses. Tão logo Trump publicou a carta aberta a Lula em rede social, anunciando sanções e as justificando pelo inconformismo com o processo no qual Bolsonaro é réu, o filho Eduardo foi rapidamente a público jactar-se pelo sucesso de seu lobby antinacional nos Estados Unidos.


Nisso, pai e filho não se viram sozinhos. Políticos bolsonaristas de berço, como Tarcísio de Freitas, ou que se alinharam ao movimento extremista já como veteranos na vida pública, como Ronaldo Caiado, aliviaram para o clã Bolsonaro, imputando ao governo Lula a responsabilidade pelo achaque trumpista. Para eles, Lula e o PT serão sempre culpados de tudo, enquanto Bolsonaro é um poço de virtudes republicanas. Tão longe foi o governador de São Paulo na tentativa de imputar ao governo federal a responsabilidade exclusiva pelas sanções, que Eduardo Bolsonaro incomodou-se e acabou reclamando. Onde já se viu atribuir a Lula e não a ele e seu diligente trabalho em Washington os louros da extorsão que nos é imposta por Trump?

Assim tornou-se evidente um segundo aspecto do movimento de ultradireita: “bolsonarismo moderado” é uma quimera, pois mesmo os aparentemente mais comedidos integrantes do grupo acabam se juntando às manobras extremistas. Ter compromisso com Bolsonaro implica comprometer-se com o extremismo que o caracteriza, pois não há como integrar um movimento político desse tipo sem chancelar suas práticas. Portanto, a lealdade ao bolsonarismo tem como corolário inescapável a deslealdade para com a democracia – e, como fica claro agora, para com o próprio País.

Da árvore bolsonarista não brotam frutos patrióticos. Os eventos recentes mostraram o acerto da alcunha de “patriotários” aplicada à malta bolsonaresca por seus detratores. Seja como massa de manobra e bucha de canhão nos acampamentos golpistas e na intentona do 8 de Janeiro, seja como manada de eleitores iludidos pelo verde-amarelo dos uniformes em manifestações de rua, o segmento bolsonarista da sociedade esteve todo o tempo a serviço – antes de qualquer outra coisa – de um empreendimento político familista. Bastaria observar a trajetória pregressa dos Bolsonaro para perceber isso, mas muita gente deixou-se encantar pelo “mito”. E, como sabemos, mitos podem ser fascinantes, mas são ficções.

Essa árvore também não dá frutos democráticos. Ao contrário, sempre operou contra a democracia. Foi assim na longa trajetória parlamentar de Bolsonaro e seus filhos: nos elogios à ditadura, no louvor à tortura e à eliminação física de opositores, nas declarações e atitudes ultrajantes, na defesa da violência policial e das milícias, na descompostura como modo de ser e de viver. O empreendimento político bolsonaresco nutriu-se do ressentimento para com o regime democrático e no cultivo de sua negação. Isso não mudou com a chegada à Presidência, ao contrário, piorou, pois, a partir dessa posição de poder, o bolsonarismo pôde usar recursos inauditos no ataque à democracia.

Durante seus quatro anos, atuou diuturnamente para minar o funcionamento das instituições do Estado Democrático de Direito e para envenenar o ambiente político como um todo, radicalizando a polarização numa dicotomia amigo-inimigo voltada à sujeição e exclusão dos não alinhados – no limite, à sua aniquilação. A direita supostamente moderada, ao aliar-se com o bolsonarismo, mostrou sua condição de semilealdade com a democracia, para usarmos aqui a noção do falecido politólogo espanhol Juan Linz. A semilealdade revela uma classe política para a qual a democracia é apenas uma das possibilidades postas e será preservada apenas se convier. Caso não convenha, será sacrificada em prol da permanência no poder com o consequente gozo de suas benesses. Do Centrão não virá proteção.

A permanência da pobreza

“Não há impulso político para a superação de algo que é visto como crise, e não como tragédia”

Um dos maiores erros do século XX, além da criação da bomba atômica, foi vincular o tema da pobreza à economia, como se a tragédia fosse apenas problema de renda, e não questão de fundo moral e de gestão pública. A escravidão só foi derrotada quando passou a provocar horror e indignação entre os não escravizados. Por ser apenas falta de renda, a permanência da pobreza não causa indignação moral, apenas incômodo passageiro, o que faz aceitável a existência de pessoas famintas, crianças sem escolas de qualidade, famílias morando na rua ou em casas sem saneamento. Perde-se naturalmente impulso político para a superação do que é visto como crise, e não como tragédia.


A abolição da escravidão só avançou quando houve comoção moral, como ocorreu na Inglaterra, graças sobretudo à luta de William Wilberforce. Em Flores, Votos e Balas, Angela Alonso mostra que no Brasil isso aconteceu após 1880, quando foi travada uma luta moral que converteu a consciência escravocrata nacional em abolicionista. Mas não tivemos líderes que indignassem a sociedade diante da constância da pobreza. É como se, na época da escravidão, os defensores da liberdade restringissem sua bandeira ao aumento da renda dos escravizados, para emancipar alguns, sem abolir de vez a escravatura; ou se Nelson Mandela se contentasse com programas de cotas e bolsas universitárias para fazer os negros sul-africanos serem aceitos como brancos, sem extirpar o apartheid.

Hoje, é preciso transformar a convivência com a pobreza em uma nova consciência: a da segunda abolição — justamente a da pobreza. Para tanto, devemos superar a visão economista, que é a da pobreza entendida como mera escassez de renda, e não como a privação do acesso à cesta de bens e serviços essenciais à vida. Após décadas de crescimento econômico, a sociedade não sentiu indignação moral diante da continuidade do quadro de pobreza. Tampouco compreendeu que sua superação não virá automaticamente com o crescimento do PIB e a expansão da renda social, como se isso garantisse a cada brasileiro pobre o acesso pleno àquilo que necessita — saúde, educação, segurança.

Se houvesse verdadeira indignação, e ela se traduzisse em mobilização política, a pobreza não resistiria a poucos anos de uma estratégia social focada em erradicá-la. Para isso, é preciso transformar a tolerância em indignação e formar uma consciência pela segunda abolição — a da pobreza. A simples distribuição da carga fiscal na arrecadação é necessária do ponto de vista moral, mas ela não erradicará a pobreza se os recursos arrecadados não forem usados para garantir a oferta pública dos bens e serviços cuja ausência define a pobreza. Ela continuará existindo se os recursos da justiça tributária forem dragados por corrupção, mordomias, salários milionários ou investimentos que beneficiam apenas o “andar de cima”.

A justiça fiscal só será abolicionista se for utilizada para financiar o acesso de todos aos bens e serviços públicos essenciais, especialmente para implantar um sistema nacional público de educação com qualidade e equidade, capaz de elevar a produtividade da economia, aumentar a renda nacional, promover sua distribuição e induzir participação política na direção de romper o círculo vicioso que faz a permanência da pobreza.

Trump, segundo um cientista

"A meta do governo Trump é destruir e, no fim, substituir a elite nos EUA." O diagnóstico emanou de um bioquímico, não de um sociólogo ou historiador: Thomas Sudhof, de Stanford, Nobel de Medicina em 2013. A frase, precisa, surgiu como resposta a uma pergunta sobre os ataques da Casa Branca às universidades, em entrevista a Der Spiegel.

Sudhof avalia que, no horizonte mais extenso, o resultado do conflito dependerá da sobrevivência do Estado de Direito nos EUA. "Se o império da lei for permanentemente afetado, a ciência será profundamente enfraquecida a longo prazo."


Tais conclusões representam quase um consenso na elite acadêmica. Originais, porém, são as duas pistas que ele oferece sobre as raízes político-culturais do retorno de Trump ao poder. Suspeito que suas hipóteses estendam-se para além dos EUA, iluminando também a potência da extrema direita na Europa e na América Latina.

A primeira: os equívocos dos governos na reação à pandemia de Covid propiciaram a escalada da desconfiança na ciência. Os cientistas têm culpa nesse cartório –e Sudhof inclui-se no time. "Alguns cientistas caíram numa espécie de pânico. O medo da morte de milhões conduziu a medidas nem sempre bem fundamentadas, do ponto de vista científico. Eis porque as camadas sociais vulneráveis, que sofreram mais, tornaram-se crescentemente céticas."

A radical restrição das liberdades públicas nutriu os ressentimentos contra as autoridades e as elites em geral. Trancadas em casa, as pessoas sucumbiram às redes sociais, ou seja, aos discursos conspiratórios, anticiência, do extremismo político. Os partidos democráticos emergiram mais fracos dos dois anos de trauma mundial.

A segunda: a difusão das políticas identitárias produziu uma implacável reação social. "Os democratas promoveram a DEI ['diversidade, equidade e inclusão'] nas universidades. Aparentemente, não era evidente para eles a dimensão da rejeição a esses programas na população em geral."

Os sinais aparecem à luz do dia. Trump perde popularidade quando viola direitos civis, persegue ferozmente imigrantes ou engaja-se em guerras tarifárias, mas ganha pontos ao cortar e ao penalizar as universidades que simbolizam os programas de DEI. O ritual de responsabilizar "brancos" ou "ricos" não funciona: a reação espraia-se igualmente entre latinos e negros.

A Universidade Columbia acaba de humilhar-se perante a Casa Branca, firmando uma rendição judicial. A capitulação abrange a renúncia a admissões e contratações em bases raciais, ao lado de medidas abjetas como o fornecimento de informações sobre estudantes estrangeiros à agência de imigração. Eliminando os critérios de raça, a instituição faz o certo, mas apenas sob a pressão de Trump, o que equivale a uma confissão de delinquência ideológica.

Sudhof concorda em "distribuir de modo mais justo" as oportunidades, mas pondera que a ênfase precisa recair no "componente econômico" das desigualdades. "Acho muito problemático dividir as pessoas de acordo com raças alegadas." Na sua análise, a sensação de discriminação associada às políticas identitárias provocou "repulsa" popular: "Penso que essa foi a mais importante razão pela qual as pessoas votaram em Trump".

O bioquímico Sudhof é uma figura rara. Trump tem a sorte de que, nas ciências humanas, quase ninguém aceita ouvi-lo.

A ganância que acaba com o mundo

Os “7 Pecados Capitais”, elaborados por São Tomás de Aquino no século XIII, são a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja e a preguiça. A ganância é uma mistura disto tudo.

Somos a espécie Homo Sapiens, surgida na Terra a cerca de 300 mil anos atrás. A cerca de 50 mil anos, miscigenamos com os Neandertais, e os eliminamos a cerca de 48 mil anos. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças mais leves e perfurantes. Tomamos todo o planeta para nós.

Segundo Noah Harari, em seu livro “Sapiens: a Brief History of Humankind”, o homem é um “acidente biológico”, que deve desaparecer possivelmente em “um século ou mais”. Um acaso da evolução e de irracionalidade extrema. De acordo com Chris Hedges, em seu livro “What every person should know about war”, nos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da guerra infinda.

O homem prefere, disparadamente, viver bem e cada vez com mais luxo, estragando o que for, do que deixar um legado ecologicamente seguro para seus filhos e descendentes, sempre achando que o amanhã ainda não está por vir. Como dizia Maquiavel, “o homem chora mais a perda de seu patrimônio do que a morte de seu pai”.

O PIB do mundo, em US$ 1,37 trilhão em 1960, está hoje em US$ 111,33 trilhões, cada vez mais concentrado e mal distribuído. De acordo com o “Billionaire Ambitions Report” do Banco UBS, em 2023 pouco mais de 2.500 pessoas detinham o patrimônio de aproximadamente 12% do PIB mundial, na espiral do poder e da insanidade nas decisões.

A compressão da classe média, indicada pelo “World Inequality Report”, desesperada que está na busca da estabilidade, dá a base política para a fascismo, por líderes oportunistas que regem as sociedades acima daquilo que, até hoje, ou outrora, era chamada de “Lei”, nos idos ditos de Montesquieu e Rousseau. Bolsonaro, com o lema “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”, coloca toda a nação em risco econômico para atender a seus interesses únicos. Trump, com o “Make America Great Again”, impõe sanções a países como a África do Sul e o Brasil, acompanhadas de expressivos lucros nas bolsas através de hipotéticas informações privilegiadas, em averiguação (precária) nos países.

Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes. E o homem, tido como “Sapiens”, segue a sua sina para um futuro tenebroso.

E “Assim caminha a humanidade”, como no filme de George Stevens, com Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean, na briga pelo petróleo. Que pena que o petróleo acaba.

Somente à beira do precipício o homem tomará suas decisões.

Como é fácil desmontar um país

Em sua cruzada de ultradireita, Trump só tem um medo: ser denunciado como predador sexual na 'lista de Epstein'

Em sua cruzada de ultradireita, Trump só tem um medo: ser denunciado como predador sexual na 'lista de Epstein' — Foto: Andrew Harnik/Getty Images

O tarifaço de Trump é apenas a ponta internacional do iceberg. As taxas são chantagens comerciais e políticas, ao Brasil e outros. Mas a tragédia, hoje, dentro dos EUA, é o fracasso da democracia americana, nas mãos de um tirano eleito legitimamente.


Muitos fatores levam alguém a escolher um presidente. Quem votou em Trump levou em conta que tipo de pessoa ele é? O que acontece ao longo de um mandato presidencial é, muitas vezes, imprevisível. Tem bastante a ver com a personalidade do político. Essa é a visão de um ex-juiz da Suprema Corte britânica, Jonathan Sumption.

“Mesmo que eu fosse americano e concordasse inteiramente com as políticas de Trump, não votaria nele. Porque é desonesto, narcisista, ignorante e inexperiente. Suas tendências autocráticas eram óbvias na campanha. Essa escolha dos eleitores pode levar ao fracasso da democracia americana”.

É didático e assustador acompanhar a destruição cotidiana dos valores democráticos nos EUA. São tantas guerras abertas hoje por Trump internamente que já se fala em estado de exceção. A primeira guerra, mais visível, é contra imigrantes e estrangeiros, com ou sem papéis, com ou sem visto.

Os funcionários do Ice (Immigration and Customs Enforcement), muitos de máscara, detêm imigrantes na rua, em casa, no mercado, no estacionamento de igrejas. Separam famílias. Enviam a prisões em condições desumanas. O Ice não é uma polícia convencional. Não se identifica. Não explica o motivo da detenção. Não comunica à família. Não usa câmeras corporais.

A Embaixada dos EUA no Brasil afirmou que visto é privilégio, não é direito. Pode ser revogado a qualquer momento. O Departamento de Justiça poderá deportar naturalizados americanos e anular sua cidadania. Irregularidades podem ser fabricadas para “desnaturalizar” cidadãos americanos que não se enquadrem.

A guerra às universidades como centros independentes de pensamento é outra violência. A perseguição a quem discorda do trumpismo já produz autocensura e medo em instituições de ensino. Trump quer controlar também os museus. A bancada do presidente no Congresso ameaça cortar os fundos federais do Kennedy Center caso a Opera House não seja rebatizada como “Primeira-Dama Melania Trump”.

Alguns estados conservadores, como Montana, ameaçam com até cinco anos de prisão mulheres que forem para estados mais liberais, em busca de um aborto legal. Elas seriam “traficantes de fetos”. É a tradução contemporânea do Conto da Aia, que se passa na República de Gilead, a distopia de Margaret Atwood.

Nada mais distópico do que um presidente publicar em sua rede um post fake, criado por IA, e que “revela” a prisão de Barack Obama no Salão Oval por tramar um golpe. Trump ri, enquanto agentes do FBI algemam Obama e o jogam ao chão. Obama chamou de “bizarras e ridículas” as acusações de Trump.

Mais uma vez, os EUA foram retirados da Unesco. Porque a instituição apoia diversidade, igualdade e sustentabilidade. E tem uma agenda a favor do desenvolvimento internacional. Isso vai contra a “America first”.

A saída da Unesco será concretizada em dezembro de 2026. Mas, quem sabe, até lá, os arquivos de Epstein denunciem Trump como um dos clientes da rede de tráfico sexual de menores do bilionário. É o que vem prometendo o Wall Street Journal. Trump foi avisado em maio de que seu nome está lá, na lista do criminoso, morto na prisão.

Não se pode dizer que os eleitores de Trump desconhecessem sua personalidade. Talvez poucos conheçam o conteúdo do Projeto 2025. Uma “lista de desejos” ultraconservadores de 900 páginas, financiada pela Heritage Foundation. Reveladora para quem quiser entender para onde Trump quer conduzir os EUA.

Os delírios estão todos ali. São um alerta de como é fácil desmontar um país.
Ruth de Aquino

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Os bajuladores que parasitam as altas estruturas do poder

Era de Mário Covas, que fora senador e foi governador de São Paulo, a frase: “Quem fica oito anos no Senado sem nunca ter posto a mão na maçaneta de uma porta para abri-la, nunca mais quer sair daqui”. Referia-se ele aos muitos bajuladores que parasitam as altas estruturas do poder no Brasil.

Covas era sintético e objetivo, conseguia expressar em poucas palavras, em frases simples e diretas, uma realidade política complexa, retrógrada e, de certo modo, antirrepublicana. Nelas conseguia dizer o que o Brasil era justamente por não conseguir ser o que deveria e poderia. Esse Brasil sempre no meio do caminho de uma estrada que nos desencaminhava apesar das valorosas caminhadas do povo brasileiro em direção ao destino de país do futuro, como o definiu Stefan Zweig.


Um dia, alguém deveria fazer um estudo e escrever um livro sobre as muitas frases feitas do nosso otimismo. Indícios de tentativas de uma definição de nossa identidade nacional que nos puxe para cima e promova nosso encontro como povo e nação.

Seria um ponto de partida para desenvolvermos uma consciência crítica de nossas dificuldades para chegar onde poderíamos e não conseguimos. É que no Brasil satanizamos nossa diversidade e nossas diferenças, a grande qualidade potencial de uma sociedade democrática, desafiada à inovação na construção social e política de sua realidade social.

Queremos ser grandes como nação nas fantasias infantis de que nosso céu é mais azul; nossas matas, mais verdes; nosso ouro, mais amarelo e reluzente. O céu azul dessa bravata vem se tornando mais cinza.

Testemunhei pessoalmente o terror de um caboclo do rio das Mortes, que se hospedou em minha casa quando foi enviado pela igreja a São Paulo para tratamento de um câncer no Hospital Antônio Prudente. Foi acolhido e tratado pelo dr. Drauzio Varella. Ficou internado. Depois dos primeiros exames, fui visitá-lo para saber como estava.

Maranhense, morador no sertão do Mato Grosso, estava assustado. São Paulo não tinha céu, disse-me. Olhava pela janela, do quarto, e era tudo cinzento. O céu não era azul. Mau sinal, pois o azul do céu, no imaginário do Brasil profundo, é a cor da casa de Deus e dos anjos. A frequente preferência de caipiras e sertanejos pela roupa azul é uma declaração de fé.

Cor como a vermelha só é aceita na bandeira do Divino Espírito Santo, a pombinha branca no meio decodificando a outra cor. É a bandeira da nova era depois do fim, o da fartura, da justiça e da liberdade. O avesso da realidade do Brasil da gente das maçanetas do poder.

Florestan Fernandes, em seus estudos sociológicos sobre a desigualdade racial no Brasil e o preconceito dela decorrente, definiu-nos como sociedade de castas. O povo distribuído por categorias sociais rígidas, de nascimento, prisão definitiva da condição social.

Não só o negro carrega a cor da escravidão como é prisioneiro dessa cor. Mas o branco é também prisioneiro da casta de sua brancura, prisioneiro de si mesmo porque privado da consciência da dimensão revolucionária de nossa diversidade desafiadora e criativa.

Nossos pardos, isto é, nossos índios, foram confinados no passado da Conquista, que não termina e da qual o país não se liberta. É cercado por agentes da pilhagem, de um modelo econômico e político, baseada no pressuposto de que o índio não é gente e que tudo que é dele é de quem vier depois e tomar dele o que dele é.

Impossível erguer um país sobre esses pilares do desencontro inconciliável, os do saque e da usurpação, que bloqueiam o reconhecimento do outro como igual nos direitos e nas possibilidades, como gente. Coisa de uma nação desbotada, em que as cores de uma identidade possível foram substituídas pela maçaneta incolor da bajulação.

Todos já vivemos algum dia, mesmo não as reconhecendo como o que são, experiências do poder da maçaneta. Tive várias experiências de objeto desse estranho poder invisível de criação de dependências artificiais, mas eficazes.

Designado, pro bono, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para representá-lo na coordenação da comissão que no Ministério da Justiça prepararia a versão atualizada do Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e Escravo, comecei a receber em casa telefonemas de funcionários federais, que eu não conhecia e se ofereciam para mandar alguém buscar-me no aeroporto e para qualquer outra coisa de que precisasse em Brasília.

Quando o plano ficou pronto no fim do governo e Lula tomou posse, fui chamado uma última vez para entregar-lhe o documento. Não houve cafezinho nem táxi para me levar de volta ao aeroporto. Fui informado de que teria que caminhar um bom trecho até achar um táxi. Eu fora excluído do poder da maçaneta.

Aliados de Netanyahu querem lucrar com limpeza étnica em Gaza

Muhammad Zakariya Ayyoub al-Matouq tem um ano e meio e pesa apenas seis quilos. É uma das centenas de milhares de crianças que sofrem de desnutrição em Gaza. Em pele e osso, o menino foi fotografado no colo da mãe num campo de refugiados. O retrato correu o mundo como novo símbolo da fome no enclave controlado por Israel.

Na quarta-feira, 115 organizações de ajuda humanitária divulgaram um apelo por socorro. O texto descreve um cenário de “caos, fome e morte” e pede o fim dos bloqueios militares que restringem a entrada de águia, comida e medicamentos. “Enquanto o cerco do governo israelense mata de fome a população de Gaza, os trabalhadores humanitários agora se juntam às mesmas filas de alimentos”, afirma.

Questionado sobre o documento, o gabinete de Benjamin Netanyahu voltou a se eximir de responsabilidade. “Hoje não existe fome causada por Israel em Gaza”, declarou o porta-voz David Mencer.


A ofensiva militar começou como represália aos ataques terroristas do Hamas que mataram 1.200 israelenses em 2023. Em um ano e nove meses, as tropas de Netanyahu mataram quase 60.000 palestinos — 50 para cada vítima dos atentados de 7 de outubro — e não cumpriram a promessa de libertar todos os reféns. Agora aliados do premiê fazem planos para varrer a população de Gaza e lucrar com a terra arrasada.

Na terça, representantes do governo israelense foram ao Parlamento discutir um projeto para anexar a região, expulsar os palestinos e erguer novas cidades dedicadas ao turismo e ao consumo de luxo. O encontro “A Riviera em Gaza: da ideia à realidade” reuniu autoridades como o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich. O jornal britânico The Guardian revelou trechos do plano, que trata a ocupação como “direito histórico” e promete turbinar a economia de Israel.

A limpeza étnica nunca pareceu um negócio tão lucrativo. Empolgada, a ministra da Ciência e Tecnologia, Gila Gamliel, divulgou um vídeo feito com inteligência artificial em que os escombros de Gaza dão lugar a arranha-céus espelhados, ao estilo Balneário Camboriú. Na simulação, uma torre à beira-mar exibe o nome de Trump em letras douradas. Faltou explicar se o presidente dos EUA seria só homenageado ou também levaria a sua parte.

Dignidade não se negocia

“Vamos recuperar nosso quintal.”
Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, em discurso no US Army War College

A agressão dos EUA ao Brasil, interrompendo uma negociação que apenas se iniciava — por iniciativa nossa, aliás —, vem sendo recebida pelo que ela é: intempestiva e isenta de qualquer sorte de causalidade. Em síntese, essencialmente ilegítima, como toda intervenção estrangeira na ordem política de um país independente. Seu caráter é ostensivamente político (a aparência econômica do tarifaço é apenas um disfarce) e se apresenta como insólita punição a um país soberano.

O Brasil é acusado de, nos rigorosos termos de sua Constituição, estar, por intermédio do poder competente, julgando os crimes de uma quadrilha de delinquentes (civis e militares) que, valendo-se inclusive do aparelho público, intentou um golpe de Estado contra o sistema representativo. Vitorioso, o assalto da extrema-direita frustraria a manifestação eleitoral da soberania popular, feriria de morte a democracia há tanto custo humano posta de pé e embarcaria o país no desvão de uma ditadura neofascista. A partir daí... o inferno seria o limite.
O que o Judiciário brasileiro fez foi simplesmente o que a Justiça americana, fugindo ao seu dever, se esquivou de fazer quando Donald Trump, em 2021, tentou impedir a posse de seu sucessor.


Toda essa vilania, quase uma declaração de guerra, caracterizada pelo virtual bloqueio de nossas exportações, decorre do fato de o cabeça da intentona frustrada, Jair Messias Bolsonaro, ser, por artes e manobras ainda a serem desvendadas, um apadrinhado do atual locatário da Casa Branca. Sobre a agressão, Trump — o candidato a coiteiro — acrescenta chantagem aviltante: se o Brasil deixar em paz seu protegido, o império poderá rever a insídia da majoração unilateral das tarifas, imposta ao arrepio de todos os procedimentos do multilateralismo assassinado, das regras do livre comércio, das normas da OMC e, enfim, do que se conhece como direito internacional.

Em suma, no contrapelo de tudo o que deveriam ser as normas e práticas diplomáticas de duas nações que mantêm relações há mais de duzentos anos.

É evidente que os anunciados prejuízos à economia brasileira, com a imposição unilateral dessas tarifas, abalarão nosso balanço de pagamentos, com a queda inevitável da receita de exportações; atingirão o lucro e a acumulação de capital de ponderáveis setores da economia (atingindo tanto a indústria quanto o agronegócio), apenando de forma evidentemente distinta grandes, médios e pequenos empresários — mas atingindo, acima de todos, os trabalhadores, que pagarão a conta com o desemprego, que já alcança 8,5 milhões de brasileiros, ao lado de 38 milhões de desgarrados do sistema, que tentam sobreviver na informalidade.

Os custos econômicos — como o impacto sobre o real, a pressão inflacionária, a falência de pequenas e médias empresas — são efeitos previsíveis e, em alguns casos e nalguma medida, minimizáveis (a eles o ministro da Fazenda já disse estar atento). E conhecidos são os largos recursos do capital. Insanável é o custo social.

Mas isto ainda não é tudo, nada obstante sua gravidade, pois a grande agressão, a ofensa inominável, é a que mira nossa dignidade, impondo uma “negociação” de índole mafiosa, cujo preço cobra a renúncia da dignidade nacional. E esta não tem meio-termo.

Este aspecto, fulcral, foi reconhecido pelo povo brasileiro — e mesmo pela imprensa mainstream —, retirando o governo das cordas e ensejando à esquerda, hoje sem palavra de ordem, a retomada da bandeira do nacionalismo — tão viva, um pouco lá atrás, na campanha pelo monopólio estatal do petróleo. A defesa da soberania nacional, que o envilecido Estadão reduz a “populismo” lulista, fala às grandes massas, hoje arredias das ruas.

O bom senso, porém, não é unanimidade, pois muitos intelectuais e observadores do cenário internacional se revelam assustados, surpresos, tanto com o grau de violência do ataque quanto com o fato de essa violência atingir relações de mais de dois séculos entre “duas sociedades irmãs”.

A dificuldade de ultrapassar a aparência para conhecer a essência das coisas, porém, não para aí, pois quase toda a gente distingue o Estado norte-americano de seu atual presidente, sagrando aquele para dedicar toda a justa desaprovação a Trump — como no passado recente, quando, ao reduzir os crimes do nazismo a Hitler, se procurava ignorar o papel do povo alemão nos crimes de guerra que não podia desconhecer; como agora, quando a manipulação dos meios de comunicação reduz o horror do genocídio dos palestinos à obsessão sionista de Benjamin Netanyahu.

Ora, Trump é tão americano quanto a torta de maçã, o Mickey, o Pato Donald, o macarthismo a segregação racial e os linchamentos. E é preciso lembrar que o magnata, como seu pastiche brasileiro, não enganou ninguém — muito menos a sociedade estadunidense. Tudo o que faz e desfaz foi anunciado na campanha eleitoral que o consagrou, de forma inquestionável. Com este respaldo, pode governar em nome dos menos de 1% que controlam o país; está a serviço de seus próprios interesses empresariais e de seus sócios, dos interesses do capital financeiro e das big techs. E conta com a cumplicidade do Congresso, a parcialidade da Suprema Corte, a boa vontade de quase toda a imprensa e, até, a passividade do mundo acadêmico. Não é pouco.

Sua aparente loucura está permeada de lógica. Trump choca, mas não inova. Como afetar surpresa olhando para a história de seu país?
Não é científico desprezar o papel do indivíduo na história: ele está sempre presente, condicionado, porém, pelas suas circunstâncias. A presença do rico coletivo de forças econômicas e políticas atuantes no processo social supera em muito o poder do voluntarismo.

Ao longo dos séculos XX e XXI, os EUA, governados por democratas ou republicanos, se envolveram em um número incontável de intervenções externas, diretas e indiretas, em mais de 80 países. Do criminoso e persistente bloqueio a Cuba ao apoio a todas as ditaduras, a política externa dos EUA para a América Latina se construiu sob a lógica da doutrina do big stick (“Fale com suavidade e carregue um porrete — e irá longe”), cunhada por Theodore Roosevelt (1901–1909).

Esta é a natureza do imperialismo, assim exposta por ele mesmo numa saga didática de que seremos devedores. Ou já nos esquecemos da rapina de que foram vítimas os Estados Unidos Mexicanos? Ou que, no século passado, numa guerra já perdida pelo Japão, os EUA, presididos pelo democrata Harry Truman, lançaram duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, matando cerca de 300 mil pessoas? O rol, só a partir daí, é extenso e não cabe neste espaço sua resenha: basta lembrar que, na Guerra da Coreia, contam-se entre mortos e desaparecidos três milhões de civis (10% da população da península); e, na invasão do Vietnã, algo entre 1,5 e 2 milhões. E são incontáveis as intervenções dos marines e de agentes da CIA desmontando projetos de democracia na América Latina e no mundo, ou sustentando ditaduras, ou assassinando adversários mundo afora, como o congolês Patrice Lumumba.

Nada diferente tem sido o relacionamento com nosso país, facetado pela subserviência das chamadas elites do mundo econômico e do mundo político, de que é exemplo icônico a frase cunhada pelo general Juraci Magalhães, na condição de embaixador do Brasil em Washington: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil.” Vira-latismo que apenas consagrava a política de alinhamento automático, acentuada com a ditadura militar de 1º de abril, mas que vinha marcando a República desde seu início, com variações apenas de nuances.

Desde, principalmente, a Segunda Guerra Mundial, os EUA orientam doutrinariamente as Forças Armadas residentes no Brasil e decidem sobre seu armamento. Não invadiram o território nacional por desnecessário, mas participaram de todos os golpes de Estado desde 1945 (inclusive da conspiração que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954) e, por último, na implantação da ditadura militar (1964–1985), inclusive emprestando especialistas em tortura, como o capitão Charles Rodney Chandler, adido militar no consulado norte-americano em São Paulo. Em 1968, foi morto pela guerrilha de esquerda.

Nada obstante a preeminência dos interesses dos EUA, as relações dos dois países já conheceram rusgas diplomáticas, principalmente naquelas poucas oportunidades em que ousamos a defesa de nossa soberania — desde a exploração nativa do petróleo (contra as pressões da Standard Oil) aos projetos mais recentes de autonomia da produção de energia nuclear e ao programa espacial. A lista é extensa.

O Departamento de Estado e o Pentágono jamais aceitaram de bom grado a liderança que o Brasil exerce na América do Sul. Para o imperialismo, são intoleráveis nossos ensaios de política externa independente, esboçados sobretudo a partir do governo Jânio Quadros, para se acentuarem no mandato de João Goulart. Frustrados no impedimento do vice-presidente, determinaram sua deposição — e o que a ela se seguiu. Findos os tempos de festa ensejados pelo neoliberalismo (Collor–FHC), foram outra vez surpreendidos com a política “ativa e altiva” dos governos de Lula e Dilma, que ressurge agora, após os tristes anos de Temer–Bolsonaro.

No episódio atual, a carta-provocação ataca o Brasil e suas instituições para defender os interesses das big techs (incomodadas com os limites que o STF pretende impor a seus desmandos no Brasil) e das grandes operadoras de crédito, que veem seus lucros diminuírem com a rápida disseminação do pix. Isto tudo num contexto de reordenamento do poder mundial — marcado pela ascensão da China, com quem o Brasil mais e mais estreita relações —, em que o império declinante não se dispõe a fazer concessões. Ora, para Biden ou para Obama é intolerável nosso papel no BRICS, como para Kennedy e Lyndon Johson era intolerável nosso discurso em defesa da autodeterminação dos povos.

Os EUA são um império declinante, é certo, mas ainda muito poderoso, e com forças para infligir estragos incalculáveis. Um tigre ferido é perigoso.

Os desdobramentos do quadro ainda não podem ser desenhados, mas já é possível ver que as nuvens de hoje não prometem bonança no curto ou médio prazos. Estamos diante da alimentação de uma crise que a tudo pode levar, e dela não seremos apenas atores menores, pois dificilmente deixaremos de compartilhar suas consequências — fragilizados que estamos pelo abandono, por décadas, da ideia de soberania.

No caso imediato — o contencioso político com viés tarifário — o primeiro caminho é a negociação que, nada obstante nossas limitações, haverá de ser altiva, porque não se concilia com a dignidade. O governo está correto ao requerer sua retomada, sem, todavia, alienar a alternativa da reciprocidade seletiva. Mas aí, à pusilanimidade do Congresso e de sua maioria sem coluna vertebral, soma-se a sabujice do grande empresariado ao pleitear, de alto e bom som, desde logo, antes mesmo que as partes se sentem à mesa, que o Brasil descarte a única arma de que dispõe: a alternativa da reciprocidade na guerrilha tarifária.

Soberania não é uma abstração cívico-poética. Reclama o direito concreto de escolher nossas alianças, proteger nossa economia, empregar nosso povo, cultivar nossas terras e exportar nossos produtos. É o direito de decidir, sem medo de retaliação. Nem é muito, nem é pouco.

O sistema governante — aquele que controla o poder, independentemente de quem esteja hospedado no Palácio da Alvorada ou ocupando as cadeiras do Congresso — dá sinais de que já rastreou o terreno e pretende jogar ao mar a carga hoje inconveniente, construindo uma nova maioria política, afastando-se do neofascismo (o bolsonarismo indigesto e suas adjacências), fator de turbulência e, portanto, de incerteza para os negócios. Essa manobra pode implicar composição com o centro, na perspectiva de estabilidade política, à qual não será indiferente o governo. Lula pode mesmo ser seu fiador, pode mesmo cumprir o papel de elo aglutinador — aquele que mais fala à sua alma.

A sinuca de bico será o desafio que as circunstâncias imporão às esquerdas. Se não podem se opor a um arranjo que desloca a extrema-direita, hoje em ascensão no mundo e no Brasil, terão de, mais uma vez, adiar a expectativa de avanço político.
Roberto Amaral

Instituições sanguessugas e o Brasil

Por mais que os autodenominados sapiens queiram se diferenciar dos demais animais, as semelhanças entre eles são muitas. Por exemplo, as sanguessugas, cujo nome inicialmente gera certo pavor, têm, em comum com muitas das nossas instituições, alguma capacidade de fazer o bem.

Os animais sanguessugas têm sido utilizadas na medicina há 3.500 anos! Na monetizada medicina ocidental caiu em desuso no século XX, embora não plenamente: como eles injetam nas vítimas das quais se alimentam uma substância anticoagulante e, ao chupar seu sangue, forçam a circulação em pontos exangues, ajudam a manter vivas as células e a restaurar o fluxo sanguíneo após, por exemplo, cirurgias reconstrutivas.


A palavra sanguessuga descreve também o fato de tal animal sugar o sangue, a seiva da vida, dos animais dos quais se alimentam. Também este sentido se aplica a instituições brasileiras: aos clássicos três poderes e às demais forças que partilham o comando da Nação! Economista ganhador do Nobel identificou esse tipo de instituição – que chamou instituições extratoras – como causa da pobreza da maior parte da população mundial. Nos casos do Legislativo, Judiciário e Executivo brasileiros, além dos demais poderes, essa natureza perversa está presente há séculos e impede que se diga que o Legislativo represente os eleitores, o Judiciário garanta justiça, ou o executivo e as demais se pautem pelo bem comum.

No Legislativo, as evidências da dissociação entre eleitos e eleitores são muitas. Citemos apenas três: primeiro, a renda de cada um dos seus membros, inclusive vereadores, é dezenas de vezes superior à da grande maioria dos ditos “representados”; segundo o patrimônio dos parlamentares é vezes maior que o dos eleitores; terceiro, os membros dos vários níveis do parlamento são réus em processos criminais em proporção bem maior que o restante da população.

O “sanguissuguismo” das nossas instituições ficou claro com a crescente apropriação, pelos seus membros, do orçamento nacional, e pelo comportamento desavergonhado de seus membros ao se concederem vantagens exorbitantes: penduricalhos salariais e emendas cash-back, entre outras!

Fará bem o presidente Lula se vetar o aumento do número de deputados federais e estaduais, como clama a população; fará ainda melhor se colocar o guizo no pescoço do gato e mostrar que temos não um problema de parlamentares em excesso, mas sim dois problemas: parlamentares com remuneração pornográfica, e parlamentares que, pelas razões citadas, não representam o conjunto dos brasileiros.

Faria ainda melhor se, apesar dos riscos políticos decorrentes, defendesse que devemos restringir a remuneração dos parlamentares à média da população, e ampliar muitíssimo seu número, de forma a torná-los parecidos com e acessíveis aos eleitores.

Seria um divisor de águas na história deste país, com potencial de renovar as instituições e retirar delas o caráter extrativo que impede rápidas melhorias na qualidade de vida da população!