quarta-feira, 20 de março de 2024

'Polinização cruzada' na política faz extremistas usarem argumentos da direita e da esquerda

Uma imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — um líder de esquerda — com elementos do nazismo passou a circular em redes sociais como o X (antigo Twitter) depois da comparação feita por Lula entre a guerra em Gaza e o holocausto.

As montagens de Lula com o bigode de Hitler e rodeado de suásticas, no entanto, não se tratavam de críticas ou ironia ao discurso do presidente brasileiro, e nem de usuários falsos que tentam prejudicar a imagem de Lula — mas sim de manifestações de apoio.

Elas foram publicadas por extremistas que abraçam ideias políticas de diferentes vertentes conforme elas sejam convenientes às suas visões pessoais.

"Usuários da rede, criaram, inclusive, o termo 'lulismo esotérico' [fazendo uma relação direta com o 'hitlerismo esotérico', interpretações místicas dadas ao nazismo no contexto do pós-guerra] e estão produzindo propaganda", afirma a pesquisadora Michele Prado, pesquisadora do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo) e fellow na organização Social Change Initiative em Belfast, Irlanda do Norte.

Embora as ideias sejam aparentemente antagônicas, de acordo com a pesquisadora, o episódio se trata de um exemplo claro do conceito de "polinização cruzada".

Na natureza, esse termo se refere a um processo em que o pólen é transferido entre flores de plantas diferentes para promover a fertilização e diversidade genética.

Já no contexto discurso político, é usado para ilustrar a troca ou mistura de ideias extremistas entre grupos de espectros políticos aparentemente antagônicos.

E o presidente de esquerda brasileiro associado ao nazismo não é o único exemplo, como mostraremos ao longo desta reportagem.


Em 2020, Christopher Way, diretor do FBI, usou o termo "salad bar ideology" (algo como "ideologia self-service"), para descrever essa mistura de ideias que culminam em um extremismo violento.

Segundo Way, para quem trabalha com antiterrorismo, tentar encaixar os discursos em categorias bem definidas é um desafio.

"Uma das coisas que vemos cada vez mais são pessoas fazendo misturas confusas, uma variedade de ideologias diferentes."

De acordo com David Magalhães, coordenador do Observatório da Extrema Direita, um dos objetivos desses grupos extremistas é fazer oposição às ideologias dominantes.

"Temos um conjunto de ideias apoiadas por uma maioria e sustentadas em pilares liberais, como política parlamentar, tripartição de poder, respeito pelos direitos das minorias e a definição do papel do estado na economia. Grupos extremistas, sejam de direita ou de esquerda, buscarão desafiar essas bases no espectro ideológico."

Esses grupos, de acordo com os pesquisadores ouvidos na reportagem, escolhem partes de diferentes ideologias de forma a criar um conjunto que responda à crenças e queixas pessoais - que podem ser legítimas ou não.

"Comunidades de extrema direita, por exemplo, geralmente odeiam a ideia do Islã, mas ao mesmo tempo, algumas abraçam partes do islamismo radical. Temos comunidades de extrema direita antissemitas que estão apoiando o Hamas nos ataques de 7 de outubro como um meio de incentivar uma 'limpeza étnica'", exemplifica.

O pesquisador menciona, ainda, a existência de um grupo neonazista cultista [satanista] que usa elementos islâmicos para se descrever e apoia ataques terroristas que ocorreram no Ocidente.

Apesar da mistura de ideias aparentemente opostas, há também pontos de convergência entre os extremistas de diferentes "linhas". Entre eles, os pesquisadores citam: a crença em teorias da conspiração, posicionamentos anti-LGBTQIA+ e o antissemitismo.

Moustafa Ayad, diretor-executivo do ISD (Institute for Strategic Dialogue), explica as imagens de Lula associadas ao nazismo como uma oportunidade usada por extremistas para alcançar pessoas de grupos diferentes.

"Em certos casos, ao manifestar uma oposição a Israel, eles acentuam essa postura como uma declaração contra a fé judaica em sua totalidade."

"Hitler é considerado um reflexo desse pensamento. Se uma figura pública como Lula adota uma posição que pode provocar essa resposta, os extremistas veem isso como uma oportunidade estratégica para interseccionar e disseminar essas ideias de maneira mais ampla. É uma oportunidade de aproximá-los de uma audiência específica que eles não podiam alcançar antes."

Michele Prado menciona o grupo 'Nova Resistência' como mais um exemplo de polinização cruzada no cenário brasileiro.

"Trata-se de um grupo neo-fascista que incorpora uma variedade de conceitos provenientes de diversas ideologias extremistas, formando uma abordagem única. Essa estratégia, inclusive, visa ampliar sua base de apoio e recrutar mais adeptos."

Na avaliação de Prado, a Nova Resistência mistura conceitos de extrema esquerda, como o nacional-revolucionarismo (transformação radical da sociedade), terceiro-mundismo (cooperação entre países em desenvolvimento), nacional-bolchevismo (síntese entre ideias bolcheviques e nacionalismo), até extrema direita violenta, incorporando conceitos neo-fascistas (ressurgimento de ideias associadas ao fascismo).

"A Nova Resistência faz esse extremismo híbrido, e isso se reflete inclusive nos números, como eles conseguiram aumentar consideravelmente o número de seguidores no canal deles, no YouTube. E os discursos deles estão muito disseminados, inclusive, em veículos de mídia alternativa da esquerda. O grupo é um bom exemplo, um exemplo assim do extremismo híbrido, onde ocorre essa polinização cruzada de forma estrutural, inclusive."

Prado aponta que o o grupo também expressa discursos antissemitas, antiliberalismo político e se coloca contra pautas LGBTQIA+.

Uma das figuras públicas que já demonstrou afinidade com o grupo foi o deputado Robinson Farinazzo (PDT-SP), que em 2022 posou para uma foto na Avenida Paulista ao lado de militantes que seguravam uma bandeira com uma estrela verde e as letras "NR" ao centro.

O grupo, inclusive, apoiou campanhas de candidatos do PDT, como a o próprio Farinazzo, de Cabo Daciolo e Aldo Rebelo (que tentaram vagas no Senado por Rio de Janeiro e São Paulo).

A BBC News Brasil procurou o grupo e os políticos citados, mas não obteve resposta.

Michele Prado aponta que há indícios da chamada "polinização cruzada" desde os anos 90, quando a internet começou a ser democratizada.

"Na época, os ideais extremistas eram compartilhados em fóruns online de forma mais unilateral. Você tinha um produtor de conteúdo e um receptor passivo. E uns dos primeiros grupos a utilizar essa ferramenta da internet foram os neonazistas, que entenderam o quanto aquilo seria um instrumento para amplificar suas ideias além de fronteiras físicas."

O fenômeno tomou uma nova forma, de acordo com a pesquisadora, entre os anos 2000 e 2010, quando as pessoas começam a ser produtoras, mas ainda em um ritmo menor.

"A partir disso o Estado Islâmico, por exemplo, conseguiu radicalizar pessoas online, inclusive de países em paz."

Para Prado, o cenário atual é mais complexo, já que com as redes sociais, os indivíduos não são apenas consumidores passivos de conteúdo extremista, mas também produtores ativos.

"Hoje, enfrentamos um cenário chamado de extremismo pós-organizacional, onde não existem mais estruturas hierárquicas como antes, nos anos 2000. Para ser um extremista afiliado a um grupo não é mais necessário passar por processos de iniciação ou ter contato com um radicalizador."

É aí, aponta a pesquisadora, que surgem interações antes pouco prováveis entre extremistas que possuem ideologias que podem parecer opostas, mas que têm pontos convergentes.

A falta de um líder claro, analisa Moustafa Ayad, faz com que cada influenciador possa agir online isoladamente, sem a necessidade de um grupo por trás dele.

"Alguns deles estão vinculados a grupos formais, mas escolhem e selecionam entre os grupos aos quais estão afiliados, ou afirmam não ter filiação e estão apenas promovendo uma ideologia."

As redes sociais tornaram mais fácil o acesso a discursos extremistas.

Se antes uma pessoa precisava de muita pesquisa para chegar a comunidades extremistas — e poderia passar sua vida sem saber da existência delas — agora pode ser impactada facilmente por diferentes ideais violentos sem dificuldade.

Espaços não vigiados, como o Telegram, são câmaras de eco e muito propícios para a proliferação de ideias extremistas, aponta David Magalhães.

O pesquisador conta um exemplo de polinização cruzada que detectou ao acompanhar grupos dentro dessa rede social durante a pandemia.

"A direita criticava as ‘big pharmas' [grandes farmacêuticas], mas com uma visão populista, que acredita que o poder está sendo controlado por uma elite (corrupta) e há a necessidade de devolver o poder ao povo (puro). Em certa medida, essas ideias encontraram correspondência com discurso de parte da esquerda que tem um discurso anticapitalista, contra os grandes conglomerados econômicos."

Moustafa Ayad complementa dizendo que há uma dificuldade em barrar grupos com discursos criminosos.

"Lembro-me de uma repressão a grupos brasileiros no Telegram devido à promoção de ideologias neonazistas. Mas essas comunidades persistem, uma vez que é viável derrubar canais, mas eles se reconstituem rapidamente. Ao alterarem seus nomes ou se desvincularem de uma estrutura formalizada, conseguem recriar-se de maneira constante."

A falta de clareza também dificulta o monitoramento de pesquisadores e agentes de segurança pública que atuam no combate ao terrorismo e ataques violentos.

"Como as autoridades policiais, por exemplo, definiriam uma possível ameaça que mistura neo-nazismo, mostrando forte apoio ao Terceiro Reich, mas se identificam como pessoas de esquerda, propagando também ideias do nacional-socialismo? É complexo, e muitas vezes a confusão impede que sejam classificados como perigosos", diz Ayad.

Ainda que sejam grupos minoritários, Ayad aponta que esses extremistas podem influenciar outros a cometerem ataques.

"Esse extremismo composto, inclusive, foi notado nas evidências de investigações dos criminosos que cometeram alguns ataques a escolas no Brasil", afirma Michele Prado.

"É o caso de Cambé, no Paraná, onde o jovem que cometeu os crimes havia se radicalizado em mais de um tipo de ideologia."

Os ataques, conforme explicam os pesquisadores, não são necessariamente em massa, direcionados a grandes grupos como são os que focam em escolas.

Podem ser também direcionados a indivíduos, com motivação ideológica, de raça ou de gênero, conclui Prado.

Murar o medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já eram para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos.


Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivos se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Mia Couto, Conferências do Estoril (2011)

Liberdade, desigualdade, agressividade

O clássico “liberdade, igualdade, fraternidade”, que deu suporte à construção das modernas democracias, parece foi substituído pelas palavras e atitudes que intitulam o presente texto. Liberdade só para os fortes; desigualdade sendo até celebrada como instrumento de “desenvolvimento”, e agressividade como meio de “progresso” na vida, de indivíduos e nações. Triste e perigosa transformação!

A defesa da liberdade individual irrestrita, sem limites mesmo com consequências danosas para terceiros, tem levado à desigualdade e à agressividade crescentes, afastando-nos do sonho original.

Como acolher pleitos de que a liberdade individual não pode ser restringida? Qualquer um pode ter o “direito” de dirigir do lado esquerdo da pista, mesmo estando no Brasil, ou do direito, quando na Inglaterra? E o “direito” de difundir falsidades ou ocultar verdades, apenas por que trazem benefício a quem as espalha ou oculta? E o “direito” de mascarar que o fumo e a queima de combustíveis fósseis fazem mal? A extensão da “liberdade” pessoal ao capital, por sua vez, é que possibilita a destruição da biosfera, em proveito de poucos: ainda hoje, nada menos que 77% dos humanos vivem com menos de R$3.000,00/mês (fonte: Our World in Data)!


Oligopólio e manipulação de mercados são consequências da liberdade sem peias ao capital. Por mais que algumas dessas estruturas sejam denunciadas, é forçoso reconhecer que esta é, hoje, a forma dominante de organização da economia, local e mundialmente. Alguns dos efeitos desse tipo de organização, além da destruição citada, são a obesidade crescente da população (e custos cada vez maiores em mortes e em despesas com saúde!), decorrente da “liberdade” de anunciar o consumo de refrigerantes como sendo a porta da felicidade, ou de opioides como solução dos males sociais de solidão e desagregação social, ou defender mais armas para se chegar à paz! Levando, ainda, à ampliação da desigualdade.

Processo que desemboca em maior agressividade, tanto para “subir na vida” (para tal, “danem-se os princípios morais”!), como para se defender daqueles que não “subiram na vida” e passaram a ser vistos como “inferiores” e “invasores”, a exemplo de quem busca sair do Sul Global migrando ao Norte Global. Tidos, por alguns possíveis dirigentes de grandes nações, como “animais”.

A agressividade se manifesta também no discurso político: Ocidente X Oriente; líder A x líder B; alguns ameaçando guerra nuclear; outros praticando genocídios.

E onde estão sendo aplicadas políticas, coerentes e eficazes para além do discurso, para ampliar as liberdades, desde que preservada a qualidade de vida de terceiros, para reduzir as desigualdades e para promover a fraternidade? Não é loucura esperar que esses valores e atitudes sejam reabilitados e floresçam, apesar da manutenção de políticas que os estão solapando e minando?

A mudança de rumo tem de ser radical! Talvez seja hora de inverter dogmas assentados em muitas constituições e proibir que maiores de 35 anos assumam cargos diretivos em municípios, estados e nações!

Gaza: o que virá depois de um cessar-fogo provisório?

Passados cinco meses de bombardeios maciços e operações militares terrestres de Israel, resultando em mais de 30 mil mortes de palestinos, entre as quais 10 mil crianças, a Faixa de Gaza tornou-se um campo de ruínas. Além da destruição de 6 hospitais e 12 universidades, tudo o que dizia respeito à vida social foi arrasado: mesquitas, tribunais, escolas, arquivo histórico, museus, centros culturais. A infraestrutura civil de água, esgoto e eletricidade também foi aniquilada.

As ordens militares de evacuação da população resultaram em deslocamento forçado do norte para o centro, logo alvo de bombardeios, para o sul e, dali, para Rafah —agora também sob ataque.

Todo esse quadro é agravado por impedimentos, por parte dos israelenses, para a distribuição de ajuda humanitária —apesar de uma das medidas provisórias impostas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) ter obrigado Israel a facilitar o acesso do apoio internacional à região.

O volume de ajuda humanitária entrou em colapso em razão dos ataques de Israel a policiais —suspeitos de serem militantes do Hamas— que vigiam os comboios. Nas últimas semanas, 62 caminhões entraram em Gaza —bem abaixo dos 200 por dia que Israel se comprometera a liberar, ainda que se estime que para atender às necessidade básicas da população seriam necessários 500 veículos.


Há piquetes de civis israelenses, compostos inclusive por mulheres e adolescentes, muitos deles com machadinhas e cortadores de caixas, que atacam os comboios a pretexto "de impedir que a ajuda vá para o Hamas". O ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir, indicou que a polícia não iria reprimir protestos bloqueando o acesso dos caminhões.

Apesar das tentativas de dissuasão por parte dos aliados ocidentais, o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, promete que Israel atacará Rafah depois de evacuar 1 milhão e meio de refugiados. Mas qualquer ordem de evacuação nas presentes condições na região —sem abrigo, comida, água e atendimento médico— provocaria sofrimentos cruéis e seria uma flagrante violação do direito internacional humanitário e dos direitos humanos.

Os aliados ocidentais de Israel, diante desse quadro humanitário horrífico, reafirmam mais uma vez o direito de defesa do país de atacar o Hamas, ainda que essa defesa tenha se constituído na retaliação contra a população civil em Gaza. Imersos numa enorme contradição, esses países começaram a cobrar de Israel a proteção aos civis palestinos, a entrada da ajuda humanitária e, ainda, a proposta de um cessar-fogo de seis semanas. Dessa forma, iniciaram o lançamento de ajuda fundamental básica por aviões, como também anunciaram uma rota marítima com a construção de um píer flutuante, permitindo assegurar o fornecimento regular. Calcula-se, porém, que esse porto deverá levar dois meses para ser construído.

Depois de serem vetadas no Conselho de Segurança da ONU todas as resoluções impondo um cessar-fogo (inclusive as do Brasil), os aliados de Israel negociam com os países árabes, que têm acesso ao Hamas, um cessar-fogo de seis semanas —sem muito sucesso até este começo do Ramadã.

A pergunta obrigatória é: o que vai acontecer caso se realize esse cessar-fogo provisório de seis semanas? Israel vai bombardear Raffah? Continuará a desrespeitar as medidas provisórias ditadas pela CIJ, não protegendo os palestinos de Gaza de atos de genocídio, como o deslocamento forçado da população, a privação do acesso à comida e água e a obstrução de ajuda humanitária, incluindo combustíveis, abrigo, roupas e higiene? E quanto à destruição da vida dos palestinos em Gaza?

Não há nada mais macabro e cruel que uma pausa de atos de genocídio com prazo marcado de antemão para sua continuidade. Todos os Estados-membros da ONU que respeitam o direito internacional, incluindo o Brasil, devem tomar medidas para que esse cessar-fogo seja permanente. Nenhum crime pode ser interrompido com data marcada para sua continuidade.

domingo, 17 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


A glória de ser medíocre

Cada vez mais gostamos de ser medíocres no Brasil. Sofremos uma absurda atração pela cultura da mediocridade e a elevamos a objetivo nacional. Estamos conseguindo, e com que brilho! Caminhamos para a liderança mundial em muitos quesitos. Consulte os índices de qualidade de vida, de desenvolvimento humano, de educação, de violência, de saúde pública, de saneamento, de habitação. Percorra nossas estradas, nossos portos e aeroportos, nossas escolas. Visite os estádios superfaturados e abandonados neste país que ainda usa o futebol como ópio do povo.

A atração fatal pela mediocridade se espalha em todos os níveis da sociedade. Alguns exemplos: quem acha que nosso Congresso é composto por mentes brilhantes? Quem acha que pessoas capazes ocupam nossos ministérios? Como Eike Batista chegou tão longe e acabou em Bangu? Seria apenas pela aliança com um governador que levou 16 milhões de dólares dele para o exterior? Por que tantos turistas compulsórios visitam Curitiba tendo a PF como cicerone? Onde foi que um presidente afirmou que nunca tinha lido um livro – e não lhe fez falta? Por que tantos?

Se você acha que a cultura da mediocridade para aí, está enganado. Escute com atenção as músicas que fizeram maior sucesso em 2016, curta a riqueza das letras e das melodias, encante-se com a mesmice e o ridículo. Veja um programa na televisão, desses que arrancam dinheiro do espectador a cada minuto, eleve-se ao nível da danação intelectual ou caia no fundo do poço da exploração humana. Sintonize a grade das tvs abertas e delicie-se com o vazio que elas nos impingem travestido de entretenimento. Leia também os best-sellers, mergulhe na profundidade de suas páginas, repare quanta sabedoria eles lhe trazem, quanta novidade divulgam, quanta sede de escrever diários de bananas eles propagam. Não se esqueça de ver os filmes nacionais de maior bilheteria: como são inteligentes, criativos, nem um pouco machistas e, cá entre nós, que humor. Que humor requintado! Gaste oito ou dez horas por dia, como nossos jovens, enfrentando os games e seus inspiradores combates, ache-se mais esperto, mais genial, com neurônios mais rápidos, longe da alienação e do vício.

Observe bem as propagandas nas mídias, admire os estereótipos tão maravilhosamente engendrados pelas mentes sedutoras das agências, tão sedutoras que a crise passa longe dos produtos que anunciam. Mergulhe de cabeça nos posts inovadores do Facebook ou nas mensagens do “zapzap” e sinta-se pronto para conquistar o Vale do Silício, depois do implante de um cilício mental.

A lista não tem fim. Estamos conseguindo, a passo acelerado, a mediocridade. Viva! Como é bom ser medíocre, a grande mania nacional! Deixemos que outros pensem por nós. O melhor é que a opção pela mediocridade é nossa, o gosto é nosso, as consequências cairão em nossas cabeças.
Luís Giffoni

A natureza das alegrias

Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efetivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor.

Antoine de Saint-Exupéry, "Cidadela"

Borracha no futuro

Um estudo revela que 13 milhões de brasileiros deixaram de passar fome em 2023, o custo alto dos alimentos desacelerou, a economia obtém ganhos, a vida democrática supera os sobressaltos, mas decresce a avaliação positiva de Lula (PT). Algo semelhante ocorre nos EUA, onde esses fatores estão normalizados, porém, cresce nas preferências eleitorais a figura de Trump, um delinquente polimorfo. Na Argentina, 60% da população esfomeia, mas é elevado o índice de aprovação de Milei. Na alucinação, osso é filé.

São anomalias. Começa a ficar claro que elas reabrem de algum modo a noção de política. Por menos práticos que sejam pronunciamentos políticos de filósofos, vale evocar as posições públicas de Jurgen Habermas nos anos 1980 contra o neoconservadorismo irracionalista na Alemanha, assim como a sua especulação de que "se tivesse de apostar qual o próximo país que se tornaria fascista, minha aposta poderia ser: os EUA". Sem bola de cristal, anteviu Trump.


Entre nós, é recorrente a análise de que vivemos numa sociedade de classes com uma esquerda atrasada. Dessa redundância acaciana nada se conclui sobre a subjetividade política dos brasileiros nem sobre a dissonância entre seus comportamentos sociais e a infraestrutura socioeconômica. As massas acordaram para a experiência política, mas sob formas perversas, captadas pela extrema direita, a saber, setor financeiro, agronegócio e coorte de reacionários religiosos.

Acontece que a política parece ter-se deslocado da base normativa das formas democráticas para preocupações populares como anticorrupção e comunitarismo religioso. Da linguagem desses fatores está ausente não só a esquerda, mas também a formação política (sindicalista, social-democrata) de Lula. O que sai da boca do povo não aparece no radar de Brasília.

O fenômeno pertence ao neopopulismo global, com núcleos organizadores regionais, que delegam tarefas. No ato de 25 de fevereiro, na Paulista, mesmo com maioria branca, terceira idade e renda média, os 200 mil aderentes constituíam o estrato inferior de uma divisão de classes nas incumbências visíveis, com as quais o núcleo já não se compromete diretamente. Algo como a camada externa de uma cebola, que oculta outras. Com o mesmo odor.

O decréscimo da popularidade de Lula é da mesma natureza do sinal enviado pela presença de uma multidão daquele tamanho ao redor de uma personagem trêfega e desconexa. Mas no fenômeno das anomalias em pauta, desconexão é coerência: o abilolado que mete a mão no esgoto extremista é o mesmo que depositará o voto na urna da ultradireita, outubro à vista. Um índice resiliente da ideia antipolítica de nação sem democracia nem justiça social: olho no retrovisor e borracha passada no futuro.

Não foi por mal

A estupidez sempre foi uma característica protegida e é fácil explicar porquê. Os estúpidos não têm culpa de ser estúpidos. A maioria (a mais esperta) até odeia ser estúpida.

Ser estúpido é um azar. Prejudica. Dá mais trabalho. Atrapalha. Causa atrasos e malentendidos. A única vantagem de ser estúpido é ser-se capaz de enfurecer os espertalhões com muito pouco esforço.

Como é proibido chamar estúpidas às pessoas – mesmo àquelas que não são –, a estupidez é um flagelo invisível. Apesar de ser a causa principal – alguns diriam a única – de tudo o que corre mal, a estupidez atira sempre com as culpas para outra causa qualquer.


Teoricamente, é possível retraduzir o discurso público para obter as equivalências da estupidez que são culturalmente autorizadas.

São palavras como incompetência, falta de profissionalismo, estreiteza de vistas, inocência, simplicidade, e uma imperturbável alegria de viver.

Mas é muito bom sinal aceitar a estupidez e fazer o respectivo desconto. Quando alguém nos diz, desculpando as acções de um estúpido, que “não foi por mal”, a única maneira justa e saudável de reagir é aceitar esse apelo à intenção.

O inferno não está cheio de boas intenções. Pelo contrário, não há uma única boa intenção no inferno. O inferno está é cheio de bons resultados.

Se isto fosse uma tese, chamar-se-ia “Intenção, Resultado e Merecimento na Cultura Portuguesa”. Felizmente, isto deixa-se complicar até mais não, mas não aqui.

Ao longo da vida – mais depressa para quem dá aulas –, vemos que os grandes esforços andam divorciados dos grandes resultados, que a qualidade humana é completamente independente do talento e da inteligência, e que as intenções estão entre as poucas coisas que se podem julgar com generosidade.

Cada vez é mais fácil preferir um mau resultado, obtido com boas intenções, a um bom resultado, obtido com más.

A estupidez também precisa de ser reenquadrada: não acredito que os estúpidos sejam todos bonzinhos.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


Democracia morre no tédio trumpista

Chame isso de banalidade do caos. Eis aqui uma lista das atividades recentes de Donald Trump. Ele prometeu, no primeiro dia de sua presidência, caso vença a eleição, tirar da cadeia os condenados pela invasão do Congresso dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, fechar a fronteira dos EUA com o México e “mandar ver, meu bem” na exploração de gás e petróleo. Ele fez festa para Viktor Orbán em Mar-a-Lago, chamando-o de o melhor líder mundial, e assegurou ao líder húngaro que não dará “um centavo” para a Ucrânia. Ele usou um seguro-garantia de US$ 91,6 milhões para indenizar por difamação sua vítima de assédio sexual, Elizabeth Jean Carroll.

Ele fez um expurgo no Comitê Nacional Republicano, demitindo 60 funcionários — o movimento inicial de sua nora Lara Trump, que ele escolheu a dedo como presidente-adjunta do comitê. Ele voltou atrás em relação ao TikTok, dizendo agora que sua controladora chinesa deveria manter a posse. Ele imitou a gagueira de Joe Biden, insistiu que a verdadeira taxa de inflação nos EUA foi de 50% e atacou Jimmy Kimmel, classificando-o de o pior apresentador do Oscar de todos os tempos. Parece quase trivial acrescentar que surgiram novos detalhes sobre a aparente queda de Trump por Adolf Hitler.


Tudo isso aconteceu desde sexta-feira. Agora, multiplique isso por 47, que é o número de intervalos de cinco dias entre agora e as eleições gerais. Até mesmo o mais diligente observador de Trump ficaria catatônico após alguns desses acréscimos. Portanto, não é nenhuma surpresa que a maioria desses episódios recentes não tenha chegado às manchetes dos jornais. Em outros tempos, com um candidato normal, qualquer um deles dominaria o noticiário. A candidatura de Trump é tão fora do comum que é quase paranormal. Esta é a essência do apelo político dele. Significa que ele é julgado por um padrão diferente do de Biden, ou qualquer outro político, seja democrata ou republicano.

Katie Britt, senadora republicana, monopolizou as ondas de rádio por dois dias na semana passada, após dar a resposta republicana ao discurso de Biden sobre o Estado da União. Além do estilo de entrega sobrenatural de Britt, o erro dela foi enganar os ouvintes com um caso de uma mulher que foi vítima de tráfico sexual no México. Toda vez que Trump faz um discurso, ele dispara um mínimo de mentiras descaradas. Suas inverdades merecem um encolher de ombros: as dos outros são classificadas como escândalos.

Esse padrão duplo é, em grande parte, subconsciente. Em 2018, o então principal estrategista de Trump, Steve Bannon, descreveu suas táticas midiáticas como “inundar a zona com merda”. Quanto mais bizarrices Trump gera, menos as pessoas notam. Economistas chamariam isso de hiperinflação, exceto que o item que está sendo desvalorizado é a nossa capacidade de ficar horrorizado.

Um bom exemplo é a diferença como a sintaxe de Biden é medida em relação à de Trump. Biden confunde datas e nomes e nunca foi articulado. Ainda assim, o ponto que ele tenta enfatizar é geralmente claro. Suas confusões merecem tratamento de primeira página.

Trump recorre regularmente a jargões que poderiam desencadear uma grande reação se viessem de Biden. Este foi o raciocínio de Trump, feito esta semana, sobre a inflação real: “E vamos olhar fora do mercado de ações. Estamos passando por um inferno”, disse ele no programa “Squawk Box” da CNBC. “As pessoas estão passando por um inferno. Elas têm — acredito que o número seja 50%. Eles dizem 32% e 33%. Acredito que temos uma inflação acumulada de mais de 50%. Isso significa que as pessoas estão, você sabe, elas precisam ganhar mais de 50% a mais em um período de tempo relativamente curto para se manter... E elas têm sido muito, muito maltratadas pela política.” Boa sorte ao tentar entender a política de inflação de Trump.

Depois da eleição de Trump em 2016, o “Washington Post” adotou o lema “A democracia morre na escuridão”. Mas ele estava incompleto. Independentemente da abordagem que os meios de comunicação dos EUA adotem em relação a Trump, a controvérsia está assegurada. Ignorar o que ele diz é negligência. Transmitir seus discursos ao vivo é um subsídio em espécie. O mesmo se aplica às reportagens tradicionais do tipo “ele disse, ela disse”. Verificar fatos é para perdedores. A beleza do dilema da comunicação do ponto de vista de Trump é que tudo o que ele faz provoca controvérsia. Bannon descreveu a grande mídia como “partido de oposição”. O adversário ideal é sempre aquele que está em guerra consigo mesmo. Em agradecimento, Trump rotineiramente chama os jornalistas de “criminosos”.

A combinação estranha das eleições de 2024 será igualmente monótona e assustadora. Se Trump for fiel à sua palavra, daqui a dez meses ele estará prendendo milhões de imigrantes para deportação. A guerra da Ucrânia contra a Rússia de Vladimir Putin terá terminado. O mesmo destino recairá sobre os julgamentos criminais federais de Trump. Seu Departamento de Justiça estará investigando seus adversários. E ele terá invocado a Lei de Insurreição para acabar com protestos civis usando tropas dos EUA.

Cumplicidade


Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa
Victor Hugo

Ser quem somos

Entre os feitos do britânico C.S. Lewis estão ter sobrevivido às trincheiras da Primeira Guerra Mundial e ser o autor das “Crônicas de Nárnia”, cujos sete volumes venderam mais de 100 milhões de exemplares e foram adaptados para TV, cinema, teatro, videogame. Em 1939, portanto às vésperas do conflito mundial seguinte, ele deu uma palestra na Universidade de Oxford. O tema era uma indagação: “O belo importa quando bombas começam a cair?”.

Como não? — respondeu ele.

A condição humana sempre foi feita de contendas, caos e dor. Vivemos inexoravelmente à beira do precipício, mas a cultura também emerge, sempre. Se adiássemos a busca do conhecimento e a procura do belo até haver alguma paz, nem sequer as pinturas rupestres existiriam.

— O ser humano propõe teoremas matemáticos em cidades sitiadas, conduz argumentos metafísicos em calabouços, faz piadas em cadafalsos e penteia o cabelo em trincheiras. Isso não é panache; é nossa natureza — argumentou.


A matemática lhe dá razão. Historiadores já calcularam que, ao longo de toda a trajetória humana, tivemos até hoje míseros 29 anos sem que alguma guerra estivesse em curso em algum ou em vários pontos do planeta. Atualmente, o portal Rule of Law in Armed Conflicts Online (Rulac), da Universidade de Genebra, monitora mais de 110 conflitos armados a espalhar desgraças. Ucrânia e Gaza são apenas os mais visíveis.

É neste mundaréu atritado que se comemorou, na semana passada, mais um Dia Internacional da Mulher. Haja fôlego para ainda precisarmos tanto desse reconhecimento com efeméride, apesar das distâncias já caminhadas. Boa oportunidade para querer ir além, alcançar o mais difícil para qualquer bípede: encontrar a si mesmo. O poeta e.e. cummings (em minúsculas, como ele gostava) sabia das coisas quando escreveu que “para sermos aquilo que somos — num mundo que se dedica, dia e noite, a fazer com que sejamos como os outros —, é preciso embrenhar-se na luta mais árdua de nossas vidas”. Tinha razão o poeta, visto que, para alcançar algum grau de autoconfiança, cabe a cada um construir sua ponte individual sobre o rio da vida. Como já se escreveu aqui, quase todo ser humano é capaz de aprender a pensar, a fazer, a saber; mas nenhum ser humano consegue ser ensinado a sentir. O motivo? Porque, em qualquer atividade outra que não a sensorial, somos sempre a soma de outras pessoas, enquanto no sentir somos únicos — somos só nós mesmos, verdadeiros. E é apenas a partir desse “eu” raiz, secreto e íntimo, que adquirimos coragens, selecionamos lutas, armazenamos confiança, arriscamos mudanças.

De volta à necessidade do belo enquanto bombas explodem à nossa volta, o mesmo e.e. cummings soube como poucos, por meio da arte, ser ninguém outro que ele mesmo. Deu um conselho sobre a busca pela palavra certa para jovens candidatos a poetas: se, ao final de dez ou 15 anos de tentativas, eles percebessem ter conseguido compor uma única linha de um só poema, poderiam considerar-se sortudos.

— Daí meu conselho para quem deseja dedicar-se à poesia: a menos que você esteja disposto a lutar até morrer em nome de cada palavra, é melhor fazer algo mais simples como aprender a explodir o mundo. Isso soa sombrio? Não é. Essa é a vida mais esplendorosa do mundo — concluiu.

Estava com 53 anos e morreu em nome de cada palavra arrancada de si.

Coisa para poucos.

A nós, como sociedade, que na definição do francês Frédéric Gros “não sabemos mais viver, apenas ocupamos o mundo e consumimos”, sempre resta a oportunidade de dar um restart. Coisa difícil e tortuosa, pois nenhuma travessia expõe tanto nossa vulnerabilidade e nossa força como começar algo novo. Mergulhar no extraordinário e assustador desconhecido do possível embute riscos e exige confiança. Receitas não faltam, tanto por parte de pensadores universais como em livros de autoajuda: expandir ao máximo os campos de interesse; cultivar a dúvida que permite erros e correções; desconfiar de certezas absolutas; repelir o discurso mecânico, qualquer que seja a nobre causa; saber que o desprezo pelo que não é compreendido nunca é um sentimento democrático.

Mulher combina com democracia. Não dá rima, mas dá alegria. É uma delícia poder gostar de ser mulher.

Lula explica por que sua popularidade está definhando

Houve uma certa curiosidade em saber a reação do presidente brasileiro, Lula da Silva, à notícia de que todas as pesquisas registravam uma queda em sua popularidade mesmo entre aqueles que votaram nele e entre as categorias da sociedade que sempre foram mais leais a ele, como as mulheres, os jovens e os mais pobres. Lula não esperou 24 horas e respondeu em entrevista ao SBT.

Contra alguns que esperavam que o presidente pudesse culpar a mídia pelos resultados negativos de seu mais de um ano de mandato, como alguns membros de seu partido, o PT, tendem a fazer, Lula reagiu com inteligência emocional. Ele não culpou ninguém. Ele ainda disse que via essa queda de popularidade como normal: “Tenho certeza de que o povo do Brasil não tem motivos para me dar cem por cento de popularidade, pois ainda estamos muito longe do que prometemos. Eu sei o que prometi e os compromissos que assumi.”

Com uma imagem gráfica explicou: “Até agora só preparamos a terra, aramos, colocamos adubo e enterramos as sementes”. E continuando com o otimismo, acrescentou: “Este é o ano em que começaremos a colher o que semeamos”. Na mesma entrevista, Lula abordou a outra questão espinhosa da polarização política, que segundo ele o seu Governo não facilita. Ele também se mostrou otimista: “Não me preocupo com a polarização do país. Também foi assim no passado. Agora o Brasil está polarizado entre duas pessoas, porque na verdade se trata de duas pessoas e não de dois partidos.” Referia-se a ele e a Bolsonaro, embora enfatizasse que na verdade a extrema-direita não tem e nunca teve partido próprio. Ele tentou criá-lo no primeiro ano de seu governo e falhou.

Em sua entrevista, Lula foi contundente: “A mensagem que quero deixar ao povo brasileiro, independente de quem vote, em que partido ou em que religião aposte, vamos fazer deste país um país onde as pessoas vivam felizes. Vamos criar mais trabalho, melhores salários, mais educação, mais cultura e mais prazer.”

Lula deu uma muleta e lembrou ainda que a polarização que o Brasil vive e que de alguma forma dificulta o seu Governo não foge à regra: “Acho que o mundo inteiro está hoje polarizado em todos os continentes”. Uma forma elegante de indicar que a sua dificuldade em começar com as promessas feitas depende também da crescente polarização da política mundial entre esquerda e direita, como as eleições em Portugal acabam de demonstrar.

Em seu otimismo nunca disfarçado, Lula chegou a dizer que a polarização atual no Brasil pode até ser positiva. E ele acredita que os brasileiros logo perceberão que seu governo será capaz de cumprir suas promessas, especialmente em termos de melhorias econômicas para os mais necessitados.

Na verdade, Lula baseia seu otimismo no fato de que em breve a sociedade compreenderá que seu governo está disposto a demonstrar o que a ex-presidente Dilma Rousseff cunhou como: “Gastar é vida”. Lula quer que a riqueza do país, que é muita, chegue o mais rápido possível não só aos mais mortificados pela inflação, mas também à classe média baixa que pressiona para não ser esquecida.

Os analistas mais críticos, como Merval Pereira, colunista do jornal O Globo , atual presidente da Academia de Letras, ressaltam, porém, que o slogan de Lula de gastar a qualquer custo pode ter um efeito bumerangue. O acadêmico escreve: “É saudável a preocupação de Lula com os pobres que fogem por entre seus dedos na direção da direita religiosa (os evangélicos), mas ele não consegue entender que o mercado, em vez de ser uma fera faminta, é um marcador de democracia como transmissor de informação e expressão da opinião pública.”

Lula, porém, em seus esforços para minimizar as pesquisas que indicam queda na valorização de seu Governo, chegou a dizer: “As pessoas não devem esquecer uma única palavra dita na minha campanha eleitoral”. Mas como ninguém é de ferro, numa das suas promessas, a de não tentar um novo mandato presidencial em 2026, Lula deixou agora claro que, se a sua saúde e a idade o permitirem, tentará novamente a sorte.

O que ninguém pode acusar o velho sindicalista, sem instrução, é de falta de perspicácia política, já que nos seus mandatos anteriores acabou sempre por “comer a oposição”, como escreveu na altura este jornal. Será que desta vez ele conseguirá digeri-la também para poder governar em paz?

quinta-feira, 14 de março de 2024

Pensamento do Dia


 

O ‘você sabe com quem está falando’ à bala

Estudei sociologicamente o rito autoritário que intitula esta crônica. Conheço-o desde menino e, como costume ou hábito, ele é parte “natural” da minha sociedade. Presenciei situações em que a ausência de reconhecimento de uma autoridade causava embaraço e produzia vergonha.

Volto ao assunto quando, horrorizado, tomo conhecimento do absurdo cruel ocorrido em Vila Valqueire, no Rio de Janeiro, onde um motoboy entregador de refeição levou um tiro por não ter se comportado convenientemente com a esposa de um cliente militar. Foi, sem dúvida, um “você sabe com quem está falando” à bala.

Insisto em que precisamos ter consciência desses hábitos autoritários embutidos em fórmulas habituais que, no discurso político populista, alimentam a proposta de prometer para não cumprir. É preciso realizar uma engenharia política capaz de neutralizar esses costumes aristocráticos, responsáveis por graduações e hierarquias em todos os lugares.

Não há quem não queira ser celebridade ou autoridade no Brasil. Ser “conhecido” é não se preocupar mais em anunciar, em viva voz ou à bala, quem somos. O preço alto e, às vezes violento, de não saber com quem se fala é um sintoma de resistência à mobilidade e ao anonimato. Anonimato que cimenta a igualdade, pois trata todos do mesmo modo.


Se há a suposição de que tenho de saber com quem estou falando, então a sociedade onde vivo diz que todos devem se conhecer. Ora, o conhecer mútuo implica saber o lugar de cada um no sistema. O resultado dessa ética de gradação é obvia. Se não “trato bem” e não presto atenção aos outros, posso sofrer uma reprimenda que chega na forma de uma advertência sobre minha inferioridade. Sobretudo se desempenho papéis como vendedor, motoboy, carteiro, motorista, porteiro, garçom — a lista é enorme e móvel —, que demandam o anonimato e a impessoalidade, essas dimensões que exigem a igualdade na relação com todos os clientes.

O “você sabe com quem está falando?” é fruto de uma sociedade em que as relações são mais importantes que as leis. Ela é avessa à mobilidade e à igualdade. Nela, inferiores e superiores se conhecem (esse traço é o eixo das “elites”) e têm códigos habituais de tratamento, porque a exceção é uma intrusiva igualdade, e não a boa e velha hierarquia. Vivemos entre a impessoalidade da lei e as demandas irrecusáveis e particularistas dos amigos e conhecidos.

Nossa questão permanente e exaustiva é como, no universo público, enfrentar os “mal-educados”, os malandros e os que querem levar vantagem em tudo. Os possuídos por um salve-se quem puder, quando se encontram na nudez de um maldito anonimato. Eu corria para entrar na barca e imbecilmente ficar ao lado de quem fazia o mesmo. No bonde ou no ônibus, fazia a mesma coisa. Até que pude “andar de carro” e fui obrigado a “furar” o sinal para escapar dos “barbeiros”. Passei da indignada fila do ônibus para o frustrante engarrafamento do trânsito. Uma frustração que tem sua raiz no conflito de uma sociedade dividida entre o ideal hierárquico do “eu sou especial” e um sistema baseado na impessoalidade de uma igualdade lida como erro, confusão ou insulto. É complicado, e fica cada vez mais impraticável, lidar com o mundo público da “rua” como “casa” — um espaço onde todos sabem com quem estão falando.

A passagem da família e da amizade para a cidadania requer a consciência da universalidade das leis que valem para todos. Mas, para isso, será preciso ceder ao particularismo relativista, mãe do apadrinhamento que distingue os interesses pessoais das demandas impessoais e universais da sociedade. Não cabe continuar com o refrão maquiavélico do “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, o anonimato, a impessoalidade e, é claro, pois ninguém é de ferro, o “você sabe com quem está falando?”.

Alguém lembra?

Àqueles que reclamam do Presidente da República uma palavra tranquilizadora para a nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social
Presidente João Goulart, no comício da Central do Brasil, no Rio, deposto em 2 de abril de 1964

Contradições de uma humanidade sem rabo

É isso mesmo. Uma matéria recente da BBC revela que o ser humano só virou gente depois que perdeu a cauda! O homo sapiens é um macaco sem rabo. E quem comprova tal hipótese é a New York University. Nossa evolução acelerou quando nossa cauda sumiu.

Não quer dizer que, para diversos animais, o rabo não seja um instrumento importante de defesa no caso do jacaré, ou de equilíbrio para os gatos, ou mesmo de locomoção para alguns de nossos primos macacos.

Dá pra imaginar que a teoria da NYU faz todo sentido, quando comparamos nosso elevado desenvolvimento, por exemplo, com o das cobras (que são praticamente só cabeça e rabo), considerando que elas continuam rastejando após 170 milhões de anos.

Segundo a BBC, a grande dúvida agora é quem veio primeiro, a queda do rabo ou a evolução. Alguns discordantes acham que é possível só termos perdido o rabo depois que evoluímos.

A coisa fica mais confusa ainda quando se acrescenta ao debate a Teoria da Evolução de Darwin, segundo a qual os humanos seriam parentes próximos dos macacos. Ou seja, será que outros macacos como os chimpanzés, que hoje não têm mais rabo, já atingiram o auge de sua evolução acima dos demais primatas? Ou devemos temer alguma concorrência futura no estilo Planeta dos Macacos?

A tese da evolução decorrente da perda do rabo (há uns 25 milhões de anos) está relacionada, entre outras coisas, com a possibilidade de caminharmos com duas pernas, liberando as mãos para outros afazeres mais criativos e produtivos.

Sendo assim, não seria exagero imaginar que, se ainda ostentássemos frondosas caudas, não teríamos sido capazes de inventar maravilhas como o telescópio espacial James Webb e o acarajé. Visto de outro ângulo, não é absurdo supor que não haveria bomba atômica se Oppenheimer ou Einstein tivessem rabo.

Qualquer que seja a conclusão dessas pesquisas, já servem pelo menos para fazermos uma reflexão crucial. Ao perder o rabo, o ser humano teria perdido também seu senso de autopreservação? Estaria na cauda a nossa consciência de pertencimento à natureza?

Vale a pena observar que, sem o rabo, fomos capazes de inventar e produzir milhões de automóveis movidos a petróleo e agora substituí-los por outros tantos milhões movidos a baterias de lítio, sem sequer questionarmos para que (e a quem) servem tantos automóveis.

A falta do rabo também nos garantiu inteligência para criar o Estado e a democracia, sem que os utilizemos para eliminar a desigualdade social e a violência. Da mesma forma, sob a justificativa contraditória de protegermos a humanidade (de si própria) trocamos nossa cauda por um volume trilionário de armamentos e munições.

Outra recente curiosidade sobre a humanidade sem rabo é que nas eleições de Portugal, ocorridas esta semana, grande parte dos eleitores brasileiros com cidadania portuguesa votou na mesma extrema direita xenófoba que os agride esbravejando “porcos, saiam daqui e voltem para o Brasil”.

Tantas contradições levam a crer que ainda pode ter sobrado algum pedacinho de rabo em algumas pessoas.
Felipe Sampaio

O exercício da liberdade

Qual foi a intenção do escritor Jeferson Tenório ao escrever o “O avesso da pele”? Foi o que eu perguntei a ele. A obra está no meio de um turbilhão após ter sido atacada pelo obscurantismo e pela censura por supostamente não ser apropriada para jovens do ensino médio. “Eu tinha a intenção de fazer uma grande declaração de amor ao conhecimento, aos livros, às bibliotecas, às referências literárias.” Na história, Henrique, o professor de literatura, consegue atrair seus alunos para “Crime e castigo”, de Dostoiévski. Ele se entusiasma com a vitória e planeja levá-los para Kafka, Cervantes, Virgínia Woolf, Toni Morrison. Ele pensava nisso tão intensamente, andando na rua, que não ouve as sirenes. Ele sonhava com literatura, quando a polícia chegou. Ele era negro.

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2021, traduzido em 16 países e proibido a estudantes do Paraná, Mato Grosso e Goiás, o livro pode ser entendido como uma obra sobre o afeto entre filho e pai, a complexidade das relações raciais no Brasil, a violência cotidiana de gestos, palavras, supostas piadas, abordagens policiais a que os negros brasileiros são submetidos. Fala da dificuldade de ensinar literatura a jovens, e da corrida do professor entre colégios para ter uma renda. É um livro sobre o Brasil com suas feridas. É tudo, menos um livro de pornografia.

Quem quer censurar usa uma cena ou um palavrão para atirar contra o livro. Pretexto. Parte de quem não vê o que é realmente escandaloso no país. É a educação ter caído no IDH em 2022. É sermos ainda um país que fere diariamente os negros com uma divisão inaceitável. Muita gente tem reagido em defesa do livro, mas ficam as dúvidas. Quando termina um movimento que começa com a retirada de livros das escolas? Que mal íntimo a censura faz ao autor? Perguntei a Jeferson Tenório se esses fatos podem acabar provocando a autocensura.

— Acho que isso é uma das estratégias do ultraconservadorismo, em que se inverte a lógica. Então você coloca a culpa na vítima. Como se fosse um crime colocar um palavrão ou uma cena de sexo num livro. E aí o autor, o artista, passa a se questionar: será que eu estou de fato exagerando? É um exercício que a gente deve fazer enquanto criadores. O exercício de liberdade. Um exercício interno de entender que o que eu estou produzindo depende justamente desse consentimento de liberdade que o fazer estético nos dá. Ou seja, eu só posso criar uma obra literária a partir dessa premissa da liberdade. Mas não é fácil mesmo porque a gente tem que estar sempre lutando consigo mesmo: será que eu coloco isso aqui? Será que não? — respondeu Jeferson, na entrevista que fiz com ele na GloboNews.


A censura é insidiosa. Ela arma essa cilada. Tenta ganhar até quando perde, entrando dentro do autor. Jeferson está escrevendo um novo livro que se passa no ambiente acadêmico em mudança, após a chegada de pessoas negras.

— Houve uma revolução silenciosa, o rosto da universidade se modificou e com isso mudou também o conhecimento que é validado ali dentro.

Hoje há muito mais negros publicando obras que fazem sucesso e têm destaque, mas há aí uma sutileza importante a ser entendida, no que ele define como uma “primavera negra”.

— Isso deve ser comemorado. A gente pode falar de Conceição Evaristo, Itamar Vieira Junior, Eliana Alves Cruz, Ana Maria Gonçalves. Por outro lado, me preocupa um pouco esse discurso de tentar “guetizar” os escritores negros, e dizer que eles não fazem uma literatura canônica. Como se a gente estivesse fazendo outra coisa que não literatura. Porém, é importante que a gente marque um território político ao dizer e reforçar, em determinados momentos, que são autores negros e, em outros, se colocar como autor.

“O avesso da pele” é sobre literatura, relações familiares, racismo estrutural. O autor explica:

—O professor Henrique é um professor negro de literatura, essas relações familiares acabam sendo atravessadas pela questão do racismo estrutural e pela violência policial. É um livro que congrega todos esses temas em torno da história entre pai e filho.

“O avesso da pele” é lindo, forte e narrado de forma a criar a imediata intimidade do leitor com a história. “Até o fim você acreditou que os livros podiam fazer algo pelas pessoas”, diz Pedro ao seu pai, Henrique. É esse o livro que tentam censurar no Brasil. Começam assim as fogueiras.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


Qual Brasil queremos ser?

Há uma resposta pronta, repetida vezes sem fim, para a pergunta do título: “queremos um Brasil desenvolvido!” Trata-se, porém, de uma resposta equivocada. A razão do engano é a brutal imprecisão da resposta. Ela carece de clareza: como seria um Brasil “desenvolvido”? O que é um país “desenvolvido”? A Suíça, o Japão, a Espanha, os EUA?

Claro, jamais poderemos ser qualquer desses, todos eles resultados das respectivas histórias. Assim como nós. Queremos ser, todos concordam, um Brasil “melhor”. Mas a incerteza persiste, tantas são as respostas possíveis para qualificar esse país “melhor”. Queremos o paraíso na Terra? Sim, queremos, mas modéstia e realismo são necessários para “melhorar”, progressivamente. Assim, devemos definir “melhor” com os pés na terra, cientes que as grandes caminhadas começam com o primeiro passo. Devemos escolher melhorias passíveis de serem alcançadas em poucos anos e usar a criatividade e a diversidade da população brasileira para experimentar caminhos e encontrar aqueles mais curtos para alcançar as melhorias desejadas.

Acabar a dengue em quatro anos? Desejável, mas talvez impossível. Reduzir a incidência da doença em 50%? Especialistas, embora divergindo, dirão com mais precisão da viabilidade de tal meta, e as ações necessárias para torná-la realidade. Se nos pusermos de acordo que tal fim é desejável, seja ele uma queda de 40% ou 60%, poderemos construir caminhos diversificados para chegarmos lá, uns aprendendo com os outros. E, ainda que nada mais mude, teremos um Brasil melhor (ainda que apenas um pouquinho) em quatro anos!


Claro, não basta um único objetivo, ainda que meritório como o citado acima. E na educação, na limpeza urbana, na pontualidade do transporte coletivo, na habitação, no saneamento, quais os objetivos factíveis no curto prazo de um mandato?

Se elegermos uma bancada legislativa e um, ou uma, presidente, comprometidos com o alcance de um pequeno número de metas claras e objetivas, que de fato melhorem a qualidade de vida dos mais carentes, como exemplificado acima com a dengue, saberemos encontrar os meios para alcançá-las, assim como os norte-americanos encontraram maneiras para levar e trazer uma pessoa à Lua em menos de uma década! E nós mesmos conseguimos construir uma belíssima capital e transformar o Brasil no mandato de JK. Clareza quanto aonde chegar, mas com realismo e sem a pressa inflacionária de então!

Pena que desde então nossas lideranças ficaram míopes correndo atrás da miragem chamada “desenvolvimento”, sem que saibamos qual Brasil queremos ser. Nesse nevoeiro, a confusão prevalece, assim como a dita “bateção de cabeça” entre poderes e no interior de cada um deles. E não saímos do atoleiro em que nos colocaram!

Afinal, não há bom vento para quem não sabe aonde vai!

O dia em que a Terra parou

Raul Seixas tinha razão. Quando a Terra parar, nenhum de nós vai escapar das consequências. O que o Raul não sabia quando compôs o rock “O dia em que a Terra parou” é que isso vai acontecer quando a corrente meridional do Oceano Atlântico colapsar. Essa corrente de águas marinhas quentes e frias, que circula o mundo de norte a sul, é uma espécie de fábrica de vida no planeta.

Em tradução ligeira, a água quente do Atlântico Sul segue para o Polo Norte por correntes oceânicas superiores, mas sofre um resfriamento ao chegar nas redondezas da Groelândia. Com isso, mergulha e retorna para o sul por correntes profundas, realimentando um ciclo permanente de distribuição de calor, nutrientes e salinidade entre todos os oceanos, estabilizando a temperatura do planeta e as condições de vida marinha e terrestre.

Se esse motor da natureza desacelerar bruscamente, as consequências podem ser, entre outras, o resfriamento extremo do hemisfério norte, calor e secas intensos no hemisfério sul, elevação do nível do mar e até mesmo extinção em massa.

Em 1951, a Terra já havia parado no filme “O dia em que a Terra parou”. A humanidade vivia o auge da ressaca da II Guerra Mundial e começava a sentir a tensão da Guerra Fria, quando Hollywood lança a história da chegada de um robô extraterrestre que ameaçava julgar e castigar a humanidade caso insistíssemos em travar guerras de aniquilação em larga escala.

Uma freada brusca do sistema de correntes do Atlântico também já aconteceu anteriormente, há milhares de anos, mesmo sem a intervenção humana. A diferença agora é que, a partir da revolução industrial, a humanidade afundou o pé no acelerador das emissões de gases efeito estufa e da devastação ambiental, intensificando o aquecimento global e pondo em risco o modo de vida como conhecemos, ao invés de se preparar para amenizar ou se adaptar a esses extremos climáticos.

É o que demonstram estudos científicos publicados nos últimos anos por revistas renomadas como Nature e Science. Os dados sobre o sistema de correntes oceânicas foram submetidos a modelos de simulação em computador que comprovam uma tendência de desaceleração mais rápida do que seria de se esperar naturalmente.

Isso ocorre porque, devido às mudanças climáticas, o derretimento acentuado de geleiras e outros volumes de gelo natural nas últimas décadas aumentou a proporção de água doce desembocada nos mares, catalisando alterações desastrosas na temperatura, velocidade, profundidade e densidade das correntes marítimas planetárias.

Caso voltasse hoje à Terra, quem sabe, o juiz robô alienígena nos impusesse um novo ultimato, dessa vez não apenas contra as guerras, mas principalmente contra nossa obsessão por raspar o tacho dos recursos do planeta. Raul Seixas, rogai por nós.

As igrejas neopentecostais e a consolação a varejo

Fato capaz de pôr orelhas em pé é a presença maior de católicos no comício de 25/2 na Paulista, enquanto predomina entre os evangélicos a opinião de que religião não deveria se misturar com política. O paradoxo é que se tratava de organização neopentecostal, portanto, de evento do nicho eleitoral da extrema direita.

É retrato diferente, induzido pela atuação neopentecostal, que trocou nas mentes o todo pela parte. Enriquecida, essa parte tem prosperado no pacto com a entidade anticrística Mamon, citada nos evangelhos de Lucas e Mateus como fetiche do dinheiro. O comício na Paulista foi mais Malafaia do que Bozo.


Religião, definiu Alfred Whitehead, expoente do pensamento inglês, é "aquilo que você faz com a sua solidão". Enunciado amplo, que contempla tanto os indivíduos na privacidade do relacionamento com a transcendência quanto as administrações da fé voltadas para a consolação das múltiplas formas de desamparo. Isso que Marx viu como ópio do povo, mas não é tão simples assim.

Nenhuma teoria da sociedade ou da história esgotou até hoje a atração pela forma platônica do bem ou pela ideia fascinante de um deus onipotente. A existência, movida a crenças, sempre foi diferente do saber racional. E as religiões lidam com isso de maneira diversa, aproximando-se ou afastando-se das intensidades da fé.

Neopentecostalismo é movimento que se expande como desvio da doutrina cristã, relegando a segundo plano o Novo Testamento e trocando o ensino da Cruz de Cristo pela autoajuda. Estimula o privatismo da devoção nos moldes da teologia da prosperidade. Mas contém formas de acolhimento comunitárias, que foram esquecidas pelas igrejas católicas. Isso pode ser popularmente percebido como mais importante do que estabilidade econômica e democracia.

Foi esse o caldeirão colocado sobre o fogo da extrema direita brasileira nos últimos anos. O que se cozinhou até agora em termos públicos foi o enriquecimento escandaloso de igrejas favorecido pelo governo da vez, vulnerável à chantagem do voto e à pressão de bancadas. Trata-se de um projeto escuso de poder, sob uma teologia de domínio, cujo alvo é o Estado, com mandamentos de ódio e guerra: "E lançarei os egípcios contra os egípcios, e cada um lutará contra o seu irmão, e cada um contra o seu próximo; cidade contra cidade e reino contra reino" (Isaías, 19:2).

No comício, aos pulinhos, a ex-primeira-dama rogava ao Senhor pelo advento da teocracia, regime do ódio, repelido pela maioria evangélica. Mas o fenômeno é morboso e contagiante, católicos já aderem. É que, no vácuo privatista de solidariedade, empatia e amor, "ódio é o veneno que se toma e espera que um outro morra" (Santo Agostinho).

Teologia do domínio é o perigo

Trump é Davi, Bolsonaro é Davi, Milei é Davi. Porque Davi aqui é privilegiado, não é o menino que derrota Golias, que vence a força bruta com a inteligência e a astúcia. Aqui é o rei Davi, um modelo do pecador ungido, porque ele é o senhor das armas, ele é o rei de batalhas, ele é o senhor de um império, mas depois ele se arrepende, torna-se outro. Davi é abraçado pela teologia do domínio. Em outras palavras, Trump, Milei e Jair Bolsonaro, pouco importa os pecados que cometam, eles são ungidos.

João Cezar de Castro Rocha

Estado laico, amém

A mistura tóxica de religião e política, uma aberração num Estado leigo, é hoje parte do dia a dia dos brasileiros, como indica pesquisa da consultoria Quaest. Segundo o relatório, 42% dos cidadãos identificados como católicos avaliaram positivamente o atual governo e 28%, de forma negativa. Entre os evangélicos, a avaliação positiva ficou em 22% e a negativa, em 48%. O vínculo entre filiação religiosa e opinião política parece claro. Além disso, remete à fala da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no comício de 25 de fevereiro na Avenida Paulista. “Por um bom tempo, fomos negligentes a ponto de dizer que não poderíamos misturar política com religião. E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”, disse a oradora, antes de chamar Deus para estabelecer seu reino no Brasil.


Não está claro se o Todo-Poderoso deu alguma resposta ao apelo da ex-primeira-dama nem se está disposto a aliviar a situação legal de seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Já inelegível por abuso do aparelho estatal, ele é apontado como envolvido em outras lambanças, como tentativa de venda de joias presenteadas à República, fraude no cartão de vacina, incitação ao vandalismo e ao golpismo de 8 de janeiro e propagação de mentiras sobre a vacina contra a covid-19.

No comício da Avenida Paulista, ele pregou pacificação, falou em passar borracha no passado e pediu anistia aos envolvidos na depredação golpista em Brasília. O discurso foi interpretado imediatamente, e com bons fundamentos, como busca de anistia para si mesmo. Também nesse evento a ex-primeira-dama, além de citar a Bíblia e de pedir o apoio divino, falou de si e de seu marido como vítimas de perseguição.

Os dados da pesquisa Quaest sobre religião e política poderiam ser um interessante detalhe estatístico, sugestivo, talvez, de algum estudo mais profundo ou de uma boa reportagem. Mas o ato na Avenida Paulista, com presença de milhares de evangélicos e católicos e participação dos pastores Silas Malafaia, Marco Feliciano e Magno Malta, evidenciou mais uma vez os vínculos – vigorosamente afirmados pela ex-primeira-dama – entre a fé religiosa e o jogo do poder.

Observados em muitas democracias, esses vínculos podem estar presentes no dia a dia da vida política e na configuração dos valores coletivos, sem afetar, no entanto, a natureza do Estado e a liberdade civil. Essa tem sido a experiência brasileira desde o início da República.

A Constituição imperial, de 1823, ainda consagrou uma religião do Estado, mas garantiu a liberdade religiosa, embora com certas condições. No caso de religiões diferentes do catolicismo romano, o culto deveria ser doméstico ou realizado em casas sem aparência de templo. De modo mais amplo, a liberdade religiosa foi reafirmada, em 1891, na primeira Constituição republicana.

Esse texto, alterado nas décadas seguintes por algumas emendas, estabeleceu a laicidade do Estado, o reconhecimento exclusivo do casamento civil, o caráter secular dos cemitérios e a laicidade do ensino público.

Os fundadores do regime republicano levaram a sério essas ideias, típicas da modernidade e amadurecidas no mundo ocidental principalmente a partir do século 18. No Brasil, o direito a formas diversas de religiosidade tem sido valorizado há mais de um século, embora ainda se observem, de vez em quando, surtos de intolerância, dirigidos principalmente contra religiões de origem africana. Parece inegável o caráter racista dessas manifestações.

A liberdade religiosa foi geralmente respeitada e valorizada, no País, mesmo nos períodos de autoritarismo. Líderes cristãos e não cristãos foram importantes na resistência à ditadura militar, entre 1964 e 1985, ajudando perseguidos políticos, socorrendo pessoas torturadas e combatendo a violência do regime. Esses líderes e seus grupos foram rotulados como comunistas e vigiados como inimigos do poder, mas, de modo geral, as igrejas mantiveram sem limitações as suas atividades habituais de culto, de pregação e de ação sacramental.

Apesar do envolvimento político de bispos, padres, pastores, rabinos, pais de santo e outras figuras ligadas a religiões, nenhum grupo parlamentar assumiu explicitamente uma identificação religiosa. Não houve uma bancada católica, nem evangélica, nem de qualquer outra denominação ligada a culto ou igreja. Sempre se manteve a distinção, pelo menos implícita, entre ação política e filiação a alguma organização eclesiástica. Grupos ideológicos ligados a alguma denominação religiosa se mantiveram como organizações privadas, sem agitar suas bandeiras nas instituições oficiais.

Essa distinção, observada na rotina democrática e também nas fases mais difíceis da vida brasileira, permitiu a manutenção, por mais de um século, do princípio republicano do Estado laico. Crucifixos pendurados em alguns salões de edifícios públicos nunca impediram a afirmação dessa laicidade, garantida também pela Constituição de 1988, embora promulgada, como indica seu preâmbulo, “sob a proteção de Deus”. Que assim seja.

terça-feira, 12 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


O discurso do ódio

Diz-se que “já não há fascismo nem nazismo”. Pois não. Mas a natureza humana não mudou, e os instintos humanos que levaram ao fascismo e ao nazismo continuam a ser os mesmos de sempre.

O partido nazi também começou por ser um partido pequeno e jovem, destemido e sério, populista mas impopular. É ao princípio do partido nazi que temos de ir buscar as comparações com o dia de hoje: quando ainda podia ter sido derrotado.

Os fascistas e nazis eram antidemocratas que aproveitaram a democracia para dar cabo dela: para eles, era delicioso usar as armas do inimigo para o deitar abaixo. Eram contra tudo, excepto eles próprios: é esta a característica mais óbvia.


Na política, o impulso é quase sempre construtivo, optimista e, por defeito, generoso: traça-se um futuro que é melhor para todos, e depois trata-se de lá chegar.

Quando essa esperança falha, como falhou logo à entrada dos anos 1930, há duas reacções: uma é traçar um novo futuro e começar a tentar caminhar para lá, e outra é ir à procura dos culpados por tudo aquilo que correu mal.

Tanto faz serem os judeus, ou os emigrantes, ou os capitalistas, ou os democratas, ou os marxistas. Elegem-se os culpados e depois trata-se de os castigar. É esse o discurso do ódio: a energia é gasta na caça aos bodes expiatórios.

É como diagnosticar um cancro para explicar a pobreza e o desespero de um indivíduo. Ele está pobre porque está a ser comido por um cancro. Temos de encontrar esse cancro e arrancá-lo do corpo dele. Só livre desse cancro é que ele poderá animar e enriquecer.

É fácil distinguir as pessoas e os partidos ou organizações políticas que vivem da identificação destes inimigos. Vêem-se como exterminadores de parasitas, como oncologistas, como combatentes. É a violência que os fascina. Basta arranjar uma desculpa, um alvo para essa violência.

O discurso do ódio é negativo, invejoso, vingativo, obsessivo, megalómano, missionário, monocórdico e fantasista. Não é só perigoso – é mesquinho.
Miguel Esteves Cardoso

Negro morrendo, tô nem aí

Não há como pensar sobre segurança pública no Brasil sem considerar o racismo institucional.

A conclusão deveria ser óbvia para quem acompanha o noticiário nacional. País afora, são reiteradas as situações de abuso e violência cometidos por agentes de forças policiais contra pessoas negras.

Tem jovem tomando tiro pelas costas, no DF; disparo de fuzil a queima roupa contra homem desarmado, no RJ; prisão da vítima no lugar do agressor, no RS; morte por asfixia em viatura oficial, no SE; E por aí vai...


Contudo, na mais importante unidade da federação o governador decidiu dar de ombros, ironizar e assumir que não está "nem aí" para denúncias de abusos contra negros e pobres durante a Operação Verão, da PM, na Baixada Santista, após a morte de um soldado.

Registros oficiais apontam que, em São Paulo, as mortes em decorrência de intervenção policial subiram 94% nos dois primeiros meses de 2024, segundo a Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns, que apresentaram queixa à Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada.

"Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí", disse Tarcísio de Freitas a respeito dessa que é a segunda ação mais letal da história do Estado. Perde só para o massacre do Carandiru.

Impressionante o desrespeito à cidadania e a afronta aos direitos humanos. Mas a história ajuda a lembrar que a origem da nossa polícia militar remonta ao século 19, com a chegada de Dom João 6º, em 1808. À época, foi criada a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia do Rio de Janeiro para proteger os nobres. Um doce para quem adivinhar: proteger de quem?

Segurança pública inclui diversas nuances e é, com certeza, um tema tão importante quanto complexo. Mas é preciso admitir que está atravessado pelo vale tudo colonialista alimentado pelo preconceito e pelo racismo.