terça-feira, 7 de julho de 2015

O pixuleco

“Tenho tido pesadelos, senhor juiz; sonho que morri assassinado por mim mesmo, que estou preso com traficantes estupradores. Não mereço isso, eu, que sempre assumi minha condição de corrupto ativo e passivo. Por isso, hoje sou delator, senhor. Mas não sou apenas um delator de obviedades sabidas há séculos, tipo fulano levou tanto de grana, sicrano recebeu propina etc. Isso é café pequeno. Eu vi muita coisa com estes olhos que espiam pelas janelas da Papuda, esperando minha redução da pena. Eu faço uma delação profunda que desentranha dos suspeitos e acusados o que lhes vai na alma, nessa maratona de roubalheiras.

Digamos, até faço uma delação psicanalítica. Sou profissional e didático... Considero-me um técnico, um cientista da corrupção nacional...

Eu estou hoje, senhor juiz, feliz no lugar da verdade – tenho o prazer vingativo do dedo-duro. Para mim, que vivi mergulhado na mentira, falar a verdade até me inebria, me sossega.

Já levei muito dinheiro vivo para uns canalhas durante um jantar nordestino, dei-lhes a grana, entre moquecas e sarapatéis, que eles repartiram ali na cara, enquanto se refocilavam em chopes e gargalhadas, notas de dólares voltejando no ar, promessas de joias para as esposas fascinadas com os belos maços de grana, prostitutas à espreita nos bordéis próximos, ‘laranjas’ recebendo gorjetas magras, sorrindo com bocas desdentadas, notas frias preenchidas com avidez, em suma, um espetáculo sem ‘finesse’ que a mim escandaliza. Mas não sou um otário e me resguardei – gravei tudo no meu celular iPhone 6, à disposição de vossa meritíssima pessoa. Lá estão as bocas gotejantes de volúpia, os dedos vorazes, um espetáculo educativo sobre a alma nacional.

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Também, senhor juiz, delatei aquele caolhinho da Petrobras que conseguiu amealhar R$ 97 milhões só de gorjeta, o que até me deixa um pouco deslumbrado, porque é um marco histórico na corrupção do planeta. Sem querer debochar de seu defeito, aqueles olhinhos piscavam, passando uma fragilidade quase proposital que esconde uma alma de desbravador, um ousado inventor de tretas e tramoias; dá até certa pena vê-lo magrinho esmagado por um tesouro perdido, enlouquecendo de arrependimento na celinha da polícia.

Delatei a vossa senhoria um ex-presidente da República que me tomou R$ 20 milhões, mesmo debaixo de opróbrio em que vive há 25 anos. Eu não aguentei e ousei lhe perguntar: ‘Por que você quer essa grana toda? Você já tem tanto...’ Ele não respondeu, óbvio, mas eu ouvi sua resposta muda: ‘não roubo mais por necessidade; é prazer mesmo. Estou muito bem de vida, tenho sete fazendas reais e sete imaginárias, mando em cidades do Nordeste, mas sou viciado na adrenalina que me arde no sangue na hora em que a mala de dólares voa em minha direção’.

Delatei o tesoureiro que me levou milhões em doações para o PT eleger o Lula e Dilma. Ele teve a cara dura ‘revolucionária’ de me exigir: ‘Precisamos de dinheiro para renovar nossa utopia, como disse nosso Lula! Agora, se você não soltar a grana logo, esquece o contrato para superfaturar a nova refinaria’. E riu debochado: ‘Afinal, o Petróleo é Nosso!’

Soltei o tutu, sim, senhor juiz, senão minha empresa quebrava... E valeu a pena, apesar de a Polícia Federal (PF) ter descoberto o superfaturamento 20 vezes maior do que aquela mixaria de US$ 1 milhão que doei para a ‘revolução socialista’... Perdoe-me por rir dessa piada vermelha...

Eu mesmo levei dinheiro vivo à sede do PT, eu, um homem refinado (creia-me, sr. juiz), tive de me submeter a senhas, senão não entrava. O porteiro perguntou a mim: ‘Tulipa’? E eu respondi: ‘Caneco’. Pode essa humilhação depois dos muitos milhões que entreguei àqueles moleques bolivarianos? E o ladrão receptor, um boçal com estrelinha no peito, ainda foi grosso: ‘Cadê o pixuleco?’

Delatei aquele ‘mão grande’ da Petrobras que investiu em arte, em quadros e esculturas contemporâneas para lavar dinheiro, mas suas obras de arte são medíocres. Esse burro poderia ao menos comprar coisas de valor, e não aquelas bobagens penduradas na parede – um Miró falso ao lado de um Romero Britto. Roube, mas com ‘finesse’.

Prisao-Lava-Jato

Eu delato, senhor juiz, porque me tiram do sério suas negações diante do óbvio. Eles negam tudo, ninguém fez nada nunca, e Brasília vira um palco vazio sem atores. Isso desperta em mim os ‘impulsos mais primitivos’, como disse nosso pioneiro Roberto Jefferson... E nada chega ao Lula, esse, sim, o grande culpado desse filme de horror... Será que ele tem parte com o demônio para ficar tão blindado? Como disse um dos presos do petrolão: ‘Que país é este?’

Um país onde os presidentes do Congresso estão sendo investigados na Lava Jato? Aliás, eles nem ligam, sorriem, pois têm foro privilegiado no STF...

Por isso vos digo: tenho orgulho de mim, senhor. Minha delação é histórica. Eu topava uma propinazinha, tudo bem, mas isso, não. Eles estão desmanchando o país. Um dia serei louvado por isso.

Assim, senhor juiz, permita-me citar o padre Antônio Vieira: ‘Eles furtam em todos os tempos de verbo: furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse’.
Sem contar as carantonhas que nem precisam de acusações: Ricardo Pessôa (o paletó apertado em sua grande barriga), o Edison Lobão (fascina-me a vaidade desse feio), o sorriso tático do Marcelo Odebrecht, as caras ‘revolucinárias’ de Edinho Silva, Vaccari, aplaudidos de pé pelo ex-PT…Tudo está na cara…

Por isso, senhor juiz, acho que presto um serviço relevante ao país e lhe peço: não me ponha numa cela de 12 metros quadrados, varrendo o chão e limpando a privada.

Anseio, meritíssimo, pela doce tornozeleira eletrônica que me comunicará com os satélites no céu, o que me deixa emocionado, pela poesia que isso encerra: meus malfeitos no espaço sideral perto do Cruzeiro do Sul!”

Prestigiada

Temer dilma apoio do congresso maos puxando tapete

Ninguém pode ficar para trás

Há 15 anos, quando desabrochava o século XXI, as expectativas positivas mundiais, decorrentes de fatos relevantes ocorridos a partir dos anos 90, simbolizados na queda do muro de Berlim, na Rio 92, e nas decisões da Reunião Mundial da Unesco - A Educação para o Século XXI, em 1998, levaram a comunidade internacional à busca por ações voltadas para o desenvolvimento sustentável e para eliminar as graves desigualdades regionais e sociais, responsáveis pelas incontáveis tragédias vividas pelos povos das nações mais pobres.

Futuro do Brasil (Foto: Arquivo Google)

Em 2000, a Assembléia Geral da ONU fixou os “Objetivos do Milênio”, reconhecendo que o mundo já possuía, pelos conhecimentos adquiridos e pelo grau de avanço da tecnologia, os meios para construir soluções inovadoras, notadamente na educação, na saúde, na redução da mortalidade infantil, na erradicação da miséria e da fome e na garantia de uma sustentabilidade ambiental, fundamentada na ideia de construção de parcerias para o desenvolvimento.

A dimensão do esforço impôs um prazo de 15 anos para que as metas fossem atingidas.

Também em 2000, o "Marco de Ação de Dakar - Educação para Todos”, assinado por 164 paises sob a liderança da UNESCO, recomendou a ampliação dos cuidados na educação para a primeira infância, especialmente no caso das crianças em situação de maior carência, o atendimento as necessidades de aprendizado dos jovens e adultos por meio de acesso a programas apropriados de aprendizagem e de treinamento para a vida, a melhoria, até 2015, em 50% nos níveis de alfabetização de adultos, o acesso à educação básica para todos os adultos e a eliminação as disparidades de gênero na educação primária e secundária.


Em 2015, ano estabelecido para o cumprimento das metas, percebo que pouca coisa mudou e muitas pioraram bastante ao longo desses 15 anos.

A sensação de paz trazida no inicio dos anos 90, está sendo esmagada por uma “nova guerra mundial”, agora concentrada em algumas regiões do mundo, notadamente na África e no Oriente Médio, e pela disseminação do terrorismo, que trouxe elevadas doses de intranqüilidade.

As reuniões que resultaram do acordo de mudanças climáticas firmado durante a Rio 92 se eternizam, e já chegamos a de número 21, que ocorrerá em Paris, em dezembro, sem grandes mudanças.

Secas e inundações passaram a fazer parte do nosso quotidiano e sinalizam um futuro sombrio, sem soluções para o aquecimento global.

E quanto ao “Objetivos do Milênio” e ao “Marco de Ação de Dakar”?

As recentes declarações da Diretora Geral da UNESCO são muito preocupantes: mais de 65 milhões de crianças estão fora da escola, sendo 34 milhões nos países em guerra e nos campos de refugiados.

Na última semana, foi amplamente noticiado pela imprensa que nosso país não conseguiu cumprir 4 das 5 metas fixadas no programa nacional "Educação para Todos". Ainda temos 2,8 milhões de crianças e adolescentes fora da escola e apenas 54% dos jovens concluem o ensino médio na idade certa.

No contexto mundial, milhares de infelizes têm morrido no Mediterrâneo em busca de uma vida melhor. Somente neste ano foram quase 2 mil. É lamentável que se “morra em busca da vida”.

Vão longe os tempos de esperança, em que se acreditava ser possível construir um mundo melhor. As vezes parece que eles não voltam mais, se é que existiram. Entretanto, é preciso resistir, pois ninguém pode ficar para trás. Esta deve ser a luta de todos.

Valentina de botas:É fogo


É fogo, Dilma não coopera consigo mesma nem com o Brasil. Incinerando-se na pira inextinguível da estupidez e surgindo ainda mais estúpida das cinzas, tal uma fênix troncha, Dilma contrasta com o manancial simbólico e imaginário do fogo na civilização, elemento determinante do uso e desenvolvimento da inteligência que, entre um universo coisas, possibilitou até o florescimento da linguagem e demais formas de expressão humana, como a arte e a capacidade de criar. Mas animada por anti-razão flamejante, tudo o que a presidente produz é essa fagulha breve que, lampejando como pensamento acidental, se extingue melancólica nas falas dela.

Talvez a primeira tocha tenha sido carregada há 500 mil anos por um Homo erectus – refreie-se o ânimo presidencial, pois, atenção, não se trata do homem erectus, possível habitante, como a mulher sapiens, do território mental em permanente apagão da pior presidente do país, qualquer país. Foi um alumbramento, um espanto, um frêmito, um transe quando aquele bicho que ainda comia cru e frio flagrou o raio certeiro atravessar uma árvore num encontro de calor e luz de que resultou um toco incendiado: a tocha com a qual ele entrou triunfante na caverna.

Finalmente, faria aquele churrasco na rocha para celebrar o fim das noites frias e da escuridão povoada por perigos indomáveis? Não ainda, seriam necessários mais quase 7 mil anos, já no neolítico, para o homem descobrir como gerar e manter o fogo. Até então, ele se virava com o que achava na natureza. Talvez por isso o apaixonante mito prometeico nos fale que o fogo roubado aos deuses para os homens tenha sido uma semente do tipo extinguível e mortal, diferente do perene que havia no Olimpo.

A cooperação de Prometeu com os homens lhe rendeu o castigo eterno que acabou terminando conforme Hesíodo relata na Teogonia, mas também o constituiu como o pai dos homens, o arquétipo que nos permitiu sair da confinação ao mundo natural, transformá-lo e criar o mundo cultural: escapamos da condição essencialmente instintiva para inaugurar a racionalidade, instaurando de modo instantâneo essas polaridades que nos dilaceram e a consciência a respeito delas (de si).


Criar é a liberdade possível. É apaixonante. O oposto de Dilma, a fênix aparvalhada que se tivesse descoberto o valor da cooperação, renunciaria ao cargo para o qual não possui autoridade moral, política ou técnica e cuja legitimidade atribuída pela eleição foi incinerada no estelionato eleitoral. Ou, ao menos, abriria mão de pronunciamentos que ardem queimando a inteligência, combustível que ainda não descobriu.

Belo Monte, empreiteiras e espelhinhos

Como a mistura explosiva entre o público e o privado, entre o Estado brasileiro e as grandes construtoras, ergueu um monumento à violência, à beira do Xingu, na Amazônia

A marca da corrupção no Brasil atual, assim como da relação explosiva entre o Estado e as empreiteiras, tem como símbolo a Operação Lava Jato e a Petrobras, para onde todos os olhos estão voltados. Sem ignorar a enorme importância dessa investigação, há elementos para suspeitar que o símbolo das ligações perigosas entre o público e o privado pode estar também em outro lugar: na construção da polêmica hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, na Amazônia. É ela, um projeto acalentado ainda na ditadura, mas só executado na democracia, nos governos Lula-Dilma Rousseff, que une os fios desencapados da história recente do país, expõe a coleção de mazelas sociais do Brasil e nos obriga a compreender a corrupção também como um ato de extermínio. Belo Monte revela as vísceras de um modo de operação que se consolidou na ditadura, atravessou vários governos da democracia e permanece até hoje. A Amazônia, tanto como criadora de sentidos para o Brasil quanto como lugar concreto onde as disputas entre os vários atores se dá, não é a periferia do país, mas o centro. O que precisamos, talvez, seja deslocar o olhar para ajustar o foco.

Esse modo de operação, em que o público e o privado se misturam, é a chave para compreender o “Dossiê Belo Monte: Não há condições para a Licença de Operação”, documento publicado pelo Instituto Socioambiental no final de junho. Sabemos que o dinheiro que se esvai na corrupção no Brasil é também o dinheiro que falta para saneamento, educação e saúde, assim como para outros investimentos prioritários. Mas sempre fica um pouco abstrato. Em Belo Monte, é possível enxergar e quantificar o que a relação contaminada entre a concessionária Norte Energia e o governo federal já causou nos últimos anos, entre 2010 e 2015.

O anúncio recente de que o Tribunal de Contas da União (TCU) vai iniciar uma investigação sobre o uso de recursos públicos na construção da hidrelétrica de Belo Monte é uma boa notícia. Mas ainda é muito pouco e chega atrasada. A investigação do TCU atende a um pedido do Ministério Público Federal: as empreiteiras investigadas pela Lava Jato por desvios de recursos na Petrobras são as mesmas que constroem Belo Monte e, portanto, é importante investigar sua atuação juntou a outra estatal, a Eletrobras, esta do setor elétrico. Um dos delatores da Operação Lava Jato, Dalton Avancini, ex-presidente da construtora Camargo Corrêa, já afirmou, em um dos depoimentos, que a empreiteira se comprometeu a pagar ao PMDB uma propina de 20 milhões de reais para atuar na construção da usina.

O custo da hidrelétrica, segundo o TCU, é estimado hoje em 33 bilhões de reais. Na época do leilão estava orçado em 19 bilhões de reais, um aumento, portanto, mais do que considerável. A maior parte destes recursos vem do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Mude-se o nome


Para evitar que se repita a gafe constrangedora de confundir o delator nos porões da ditadura com o da Operação Lava-Jato, bastaria mudar o nome da ação voluntária deste para uma nobre “colaboração premiada”. É simples assim.
Cacá Diegues 

Resposta a Guido Mantega, na frente de sua filha Marina

Seu artigo “Sobre Intolerâncias”, publicado na Folha, mostra como um Ministro da Fazenda mal preparado não consegue nem entender o mal que cometeu à sociedade. Quando lhe chamam de ladrão nos restaurantes, na frente de sua filha Marina Mantega, estes poucos corajosos nem sabem que a ladroagem foi de R$ 8.000.000.000.000,00. Nem você sabe disto.



Quando mostrei a Lula, na sua frente, a necessidade de resolver o déficit da previdência logo no início de governo, você interrompeu e arruinou a conversa dizendo que não havia sequer déficit da previdência. Santa ignorância, Prof. Guido Mantega.

Se você pelo menos tivesse estudado administração e contabilidade, saberia que o déficit era na época de R$ 260 bilhões por ano, financiado por uma dívida. Uma dívida para com as novas gerações, os R$ 260 bilhões que os jovens, incluindo a sua filha, estavam contribuindo.

Mas no seu despreparo, você achava que as despesas de R$ 260 bilhões estavam sendo “financiadas” por uma receita, uma receita previdenciária de R$ 260 bilhões, portanto déficit zero.

Santa ignorância, e você atrapalhou e destruiu minha tentativa de explicação ao Lula, naquela reunião com Antoninho Trevisan. Diante da nossa discussão ele decidiu mudar de assunto, dizendo: “Bom, vamos mudar de assunto, mas pelo que o Kanitz está afirmando, ainda bem que já sou aposentado, porque já garanti o meu”

Lula “garantiu o dele” às custas das receitas de sua própria filha, Marina Mantega , e você nem sabe disto.

Acontece que a nossa constituição federal é bem clara, Guido. “Art. 201. A previdência social será organizada observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial.”

O dinheiro da Marina Mantega deveria ter sido depositado por você num Fundo Financeiro, e as aposentadorias determinadas por cálculos atuarias.

Nenhum Fundo foi criado por você, por Arminio Fraga, por Pedro Malan, e pior, você sumiu com a contribuição da sua Marina para imediatamente pagar a velha geração, imprevidente, sem nenhum equilíbrio atuarial.

Os jovens brasileiros são literalmente roubados por economistas como você, em vez dos jovens terem seu dinheiro rendendo juros por 30 anos, e podendo se aposentar com um salário digno.


Só na sua gestão como Ministro, sumiram R$ 3 trilhões, que você roubou da nova geração, mas só você sabe exatamente o valor. E isto é muito mais do que a corrupção da Petrobras, da qual você foi presidente do Conselho, cargo que você jamais deveria ter acumulado.

Você está fora de si quando diz que a população se tornou intolerante com você. O Brasil está tolerante demais com economistas despreparados, que não sabem o que é déficit atuarial, que não sabem o que é gestão financeira, que nunca leram o artigo 201 da nossa Constituição.

Você vai devolver este dinheiro? Sim ou não ?

Sua filha deveria ter sido a primeira a lhe alertar, como eu lhe alertei na frente do Lula. Em vez de me ajudar convencer o sapo barbudo, você atrapalhou e cortou a discussão dizendo que não havia déficit.

Se eu lhe encontrar num restaurante, eu vou acusá-lo de ter desviado R$ 3 trilhões de jovens como a Marina Mantega. E de ter desviado R$ 3 trilhões de recursos de investimentos de longo prazo, 30 anos em média.

E de ter assim elevado os juros a estes níveis estratosféricos. E de ter condenado 20 milhões de jovens a uma aposentadoria mínima, tudo pela sua incompetência contábil e financeira.

Espero que sua filha Marina Mantega seja a primeira a cuspir no seu prato.

Você tem sorte que o brasileiro é tolerante e ignorante demais em termos de Financas e Atuaria. Tenho certeza que o Joaquim Levy está desviando da mesma forma, e ele é economista de Chicago. Por isto você vai escapar.

Mas eu sei, e a Marina Mantega também.

Entendendo a corrupção

As revelações dos processos do mensalão e, agora, do petrolão, trouxeram à luz a faceta do que sempre se fez no país. Controlar o Estado é controlar a riqueza e enriquecer. Quanto maior o Estado, mais essa realidade se impõe. Ter contatos com a cúpula governamental é a dupla garantia de que se terá o negócio (não existe edital sem dono!) e a margem necessária para ganhar dinheiro e remunerar os que viabilizaram o negócio. Poderosos grupos econômicos, como a Odebrecht, sempre usaram desse expediente nos mercados em que o governo controla ou regula ou faz concessão. Na raiz das grandes fortunas sempre se verá o conluio entre agentes políticos, burocratas e empresários.
A inovação do PT foi elevar os percentuais e transformar a corrupção, antes privativa dos maiorais, em livre acesso a todos os “companheiros” empossados em cargos. Implantou uma economia integralmente suportada pelos mecanismos mafiosos, a despeito e contra o mercado. O caso de Pasadena foi o mais emblemático de todos, pois ali provavelmente a taxa de corrupção deve tranquilamente ter ultrapassado 50% do valor do investimento. Bilhões de dólares foram roubados na cara dura.

A corrupção, todavia, não é privativa do PT, é inerente à alma humana. Sempre houve e sempre haverá corrupção, mas o que não é possível é que ela se transforme num fim em si mesma, como em Pasadena. A corrupção deve ser como uma humilde lombriga que não ameaça seu hospedeiro, não pode ser uma tênia solitária. A coisa fica disfuncional para o sistema produtivo, que começa a ficar anêmico e a perder a dinâmica. A crise atual é produto da exacerbação dessa “economia do crime” implantada pelo PT.

Nunca é demais repetir que os petistas se locupletaram pessoalmente, mas o objetivo estratégico deles sempre foi concluir a revolução socialista que está em curso, tendo, para isso, pago a “aliados” (políticos corruptos de outros partidos) fortunas extraídas de seus negócios escusos.

O fato da Justiça ter quebrado estruturalmente a máquina da corrupção levou a uma queda abruptas dos investimentos estatais, sempre casados com a promessa de pagar propinas. E também a uma quebra em cadeia de empresas comprometidas com o esquema mafioso. A “economia do crime” entrou em colapso e o Brasil ora vive a maior crise econômica dos últimos cinquenta anos, sem data para recuperação.

Tenho um conhecido cuja família está envolvida no processo do petrolão e eu só agora soube do fato, pelos jornais. Tivemos muitas discussões sobre o PT, eu sempre dizendo que o PT estava fazendo a corrupção e que o partido iria destruir o Brasil. Meu amigo ria, dizendo que eu me enganava, pois o PT, para ele, era capitalista. Ele entendia por capitalismo o mecanismo pelo qual o PT se locupletava mediante contratos públicos com empresas do mercado.

Isso não é capitalismo, nem mesmo mercantilismo, obviamente. É o processo revolucionário normal registrado pela história em toda parte, do qual o meu amigo nunca se deu conta. Sua família bancou de idiota útil, como aliás todos os que “contribuíram” (melhor dizendo, foram extorquidos) com a “despesa não contabilizada” do PT. A família do meu amigo se deu bem até que o juiz Sergio Moro decretasse a ordem de prisão. A casa caiu. É claro que não discuto mais assunto desse tipo com ele, até porque se isolou, mas tenho que dizer que eu sempre estive certo, tanto sobre a corrupção instrumental quanto sobre a revolução levada avante pelo PT.

Gente como Marcelo Odebrecht e Ricardo Pessoa foram os idiotas úteis da história, assim como Marcos Valério e sua gangue, a banqueira já prisioneira e toda gente que financiou alegremente os revolucionários do PT. Revolucionário não faz voto de pobreza, essa gente confundiu a ganância dos revolucionários com ser capitalista. Que bobagem! Custou caro, tanto no plano judicial como no plano econômico. E pela destruição das famílias dos envolvidos, como a do Marcos Valério. Muitos desapareceram do mercado e outros encolherão ao ponto da irrelevância econômica. Castigo merecido. A fora as penas de prisão, que serão cumpridas.

O ciclo do PT chegou ao fim e ficará por herança a gravíssima crise econômica, sem solução a vista. Enquanto a presidente Dilma Rousseff ficar no cargo haverá descenso inevitável na economia. Sua extrema impopularidade impede qualquer ação de salvação.

Quem viver verá.

Cadê as mudanças?

O rápido empobrecimento dessa nova classe média ainda emergente torna-se uma ameaçadora realidade. A deterioração econômica fustiga, de um lado, pela re-aceleração inflacionária e, de outro, pelo agravamento da recessão. Os trabalhadores acabam encurralados pela inflação, pelo desemprego e pela desaceleração nos empréstimos que embalavam seus sonhos de consumo e de aquisição da casa própria.

A economia cobra com juros suas duras lições. As transferências de renda e o endividamento acelerado não conseguem sustentar a ampliação contínua do consumo de baixa renda. A prosperidade dos trabalhadores depende do aumento de sua produtividade, o que exige permanente acumulação de capital e incessantes investimentos em educação. 


A crise política agrava a crise econômica e por ela é realimentada. Com instituições democráticas ainda em aperfeiçoamento, dependemos do excepcional desempenho de uns poucos indivíduos. São notáveis os exemplos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro no Poder Judiciário.

“Os grandes eventos da História são determinados por muitos fatores, mas o mais importante é sempre a qualidade das lideranças. Afortunadamente para a América, a geração de políticos que emergiram para liderar as colônias rumo à independência foi um dos mais formidáveis grupos de homens da História: sensíveis, mentes abertas, corajosos, bem educados, talentosos, maduros e dotados de visão de longo prazo”, celebrava o historiador inglês Paul Johnson, em “Uma história do povo americano” (1997). Nem foi preciso mencionar a precondição da honestidade ao referir-se a Washington, Franklin, Jefferson, Hamilton, Madison e Adams.

No Brasil, o irresistível apelo da solidariedade arrastou-nos compreensivelmente a uma hegemonia política social-democrata. Mas o resultado de suas enormes limitações cognitivas e de sua obsoleta plataforma foi o aprisionamento do país nesta armadilha de baixo crescimento, inflação persistente e uma desconcertante degeneração da política numa teia de corrupção resultante do excesso de gastos públicos.

Não falo das necessárias transferências de renda aos pobres, mas sim dos gastos e impostos disfuncionais e abusivos que transformaram o país no paraíso de corruptos e rentistas e no inferno de empresários e trabalhadores.

Paulo Guedes 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Comunistas sem fronteiras

Foi Olavo de Carvalho quem primeiro denunciou a existência e os objetivos do Foro de São Paulo. Ele chamava a atenção para o que estava em curso e a imensa maioria dos comentaristas o acusava de ser porta-voz de uma teoria da conspiração. O FSP era visto como tema para ser balbuciado a portas fechadas e enfrentado em divã de psiquiatra. Jamais como objeto de interesse do jornalismo bem-informado. Enquanto isso, o Foro, criado em 1990, existia e se expandia. Deliberava e suas metas iam sendo atingidas.


Mesmo quando se reunia no Brasil, ele permanecia como tema sigiloso, até que o próprio Lula, então presidente, em discurso proferido no encontro de 2005, recolheu a cortina: "Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente".

Hoje, os partidos do FSP governam 12 países da região e são a principal oposição em outros quatro. A partir dele se entende que o Brasil ande de cambulhada numa geopolítica exclusivamente petista, como as decorrentes da concepção de "Pátria Grande" (defendida por Lula quando se reúne com os seus). Também a partir do Foro, se explicam: a) o oneroso apoio brasileiro aos países do grupo; b) o nosso envolvimento com encrencas e dificuldades do Paraguai, Honduras, Venezuela, Cuba, Bolívia, El Salvador; c) os conciliábulos da Unasul e a criação da Escola Sul-Americana de Defesa; d) as incursões das FARC em território brasileiro; e) o desdém de Dilma aos presos políticos de Cuba e Venezuela; e f) a contrastante conduta do nosso governo durante as duas visitas de senadores brasileiros em recentes viagens a Caracas.

Quem conhece a história do FSP, nascido no rescaldo do fim da URSS, sabe que a entidade é uma espécie de "Comunistas sem fronteiras", ao qual a nação está sendo entregue, empacotada como presente à tal Pátria Grande. É intolerável que as afinidades e estratégias políticas de um único partido, conectado com os interesses de organizações comunistas internacionais, determinem nossa política externa e não passem pelo crivo das instituições da República.

É preciso não calar

A tara do adesismo na política brasileira

Sendo a política predominantemente concebida no Brasil como “o que ocorre em torno do Estado”, não há vacina poderosa o suficiente para imunizar os políticos da forte atração centrípeta do Estado e que se manifesta sob a forma de um adesismo que tende à unanimidade.

Só não tem base política no Legislativo aquele governante que não a quiser. Qualquer novo governo no Brasil se não fechar as portas do poder será invadido.

Não há barreira programático/ideológica, partidária ou ética que seja capaz de conter o vício tentador da adesão ao poder, aos cargos, mordomias e, não raras vezes, o acesso às facilidades para a corrupção.

A expressão mais acabada dessa característica da cultura política brasileira se manifesta nas ondas de unanimidade nacional que varrem os cenários políticos, uma vez definido o vencedor.

Foi assim com os governos da ARENA durante o regime militar que, graças a esse fenômeno, acabou sendo caracterizada pelo deputado Francelino Pereira, como o maior partido do ocidente.

O fenômeno repetiu-se novamente com a campanha das Diretas já, transferindo-se logo após para o processo de formação da Aliança Democrática formada para dar sustentação ao governo Tancredo/Sarney.

O Plano Cruzado foi outro episódio emblemático do adesismo. O PMDB, amparado em Sarney e no seu plano, elegeu todos os governadores estaduais, com apenas uma exceção!

O mesmo processo repetiu-se com o impeachment de Collor, e os “caras pintadas” que, em grandes números, saiam dos shoppings para as ruas.

Também na formação do governo Itamar mais uma vez se formou uma onda de unanimidade.

Fernando Henrique com o plano real obteve vitória em 1º. Turno e, navegando mais uma onda de quase unanimidade, não teve problemas para conquistar maioria no Congresso, sempre que se empenhou.

Por fim o governo Lula levou sua quase unanimidade decorrente do adesismo a um verdadeiro paroxismo que até agora se mantém com a Presidente Dilma.

Foi no ciclo Lula que o paradigma do estado hegemônico, o adesismo e o populismo se amalgamaram para dar uma nova feição ao sistema político brasileiro.

Esta “tara adesista” de boa parte da classe política e empresarial, tão característica de nossa cultura e prática política, compromete severamente a independência dos poderes, a eficiência do governo e, em consequência a qualidade de nossa democracia.

História antiga

Na época das vagas magras
redemocratizado o país
governava a Paraíba
alugava de meu bolso
em Itaipu uma casa
do Estado só um soldado
que lá ficava sentinela
um dia meio gripado
que passara todo em casa
fui dar uma volta na praia
e vi um pescador
com sua rede e jangada
mar adentro e saindo
perguntei se podia ir junto
não me reconheceu partimos
se arrependimento matasse
nunca sofri tanto
jogado naquela velhíssima
jangada
no meio de um mar
brabíssimo
voltamos agradeci
meses depois num despacho
anunciaram um pescador
já adivinhando de quem
e do que se tratava
dei (do meu bolso) três contos
é para uma nova jangada
que nunca vi outra
tão velha
voltou o portador
com a seguinte notícia
o homem não quer jangada
quer um emprego público


 Francisco Soares Alvim Neto 

O papa e a crise civilizatória e humanitária


Quando soube da nova encíclica do papa Francisco, lembrei-me de um judeu, meu professor Ignacy Sachs. Há 45 anos, ele abriu meus olhos para o limite “ao” crescimento, devido às restrições físicas, e para o limite “do” crescimento, pela impossibilidade de o consumo supérfluo fazer uma humanidade mais feliz.

Mas, por décadas, aqueles que indicavam os limites “ao” e “do” crescimento propondo um novo modelo de desenvolvimento para as nações foram rejeitados pela “teologia do crescimento”. A ideia do progresso como sinônimo de produção e consumo crescentes domina o pensamento social como uma doutrina religiosa. A escassez de recursos e as mudanças climáticas passaram a mostrar os limites físicos da natureza; a desigualdade social crescendo ao ponto de quase romper o sentimento de semelhança entre os seres humanos; o vazio existencial e as crises econômicas mostraram os limites éticos do crescimento.

Quando a palavra “decrescimento” passou a ser utilizada como uma alternativa, escrevi sobre o assunto; um leitor publicou crônica em outro jornal dizendo que eu havia sido submetido a uma lobotomia. Na verdade, a insanidade na voracidade do processo da produção e consumo há quase 50 anos apresenta indicadores de esgotamento. Apesar da crise ecológica, a “teologia do crescimento” continuou dominando o pensamento social e a prática política; e as críticas ao crescimento como vetor do progresso humano continuam sendo denunciadas como gestos de insanos.

O mundo atual não tem estadistas porque os políticos estão divididos entre aqueles prisioneiros da lógica do impossível crescimento econômico ilimitado e para todos e aqueles considerados “lobotomizados”, porque apresentam alternativas de outro futuro, negando as bases filosóficas e econômicas da civilização industrial. A nova encíclica do papa Francisco traz um raio de luz para o debate sobre o futuro desejado e possível para a humanidade. Sua fala vai provocar uma luz na escuridão do debate político no mundo de hoje. Ainda mais: ele oferece uma “teologia da harmonia” para substituir a “teologia do crescimento”.

Com sua encíclica, o papa Francisco se sintoniza com a crise civilizatória e humanitária – desequilíbrio ecológico, divisão social, migração em massa, desemprego, violência, intolerância – e propõe a necessidade de construirmos uma nova civilização, na qual o crescimento seja um instrumento, mas não o propósito em si; e o decrescimento na produção, em alguns lugares e para certas camadas da sociedade, passe a fazer parte das estratégias de evolução humana.

Com sua autoridade moral, ele contribui para que o debate não mais seja entre o socialismo, que não deu respostas, e o capitalismo, que deu respostas erradas, mas entre a civilização regida pela “teologia do crescimento” e a civilização orientada pela “teologia da harmonia” entre os seres humanos e destes com a natureza que os sustém.

Pensamentos confusos e palavras sem nexo

Pensando bem, não deveria ser surpresa. Elevar ou permitir à elevação da ignorância a categoria de pensamento era obviamente um erro. Erro que, dada à ilusão de bonança, preferimos tolerar. Por muitos anos.


Como todas as coisas aparentemente inexplicáveis, foi terremoto em câmera lenta. Embora a olhos vistos, as mudanças para pior, por lentas e incrementais, foram sendo aceitas, aclamadas e até incentivada.

Foi assim que começamos engolindo a ideia de que ignorância não era condição temporária a ser superada, mas sim, qualidade a ser cultivada. Permitimos que a preocupação com melhoria do padrão intelectual fosse confundida (propositalmente ou não) com elitismo, bacharelismo, coisa a ser evitada.

Ficou impune, e frequentemente aplaudida, a ojeriza à leitura. Ler virou coisa a ser evitada a qualquer custo. Quem lê virou adversário ideológico, ou objeto de chacota. Estudar e aprender, uma desnecessidade. Caminhamos na direção errada. Sem resistir. Sem debater. Sem desconfiar. Passivos, como quem não se importa.

Primeiro abdicamos da qualidade das ideias, do seu debate, da sua importância. Letras não mais iluminavam. Eram apenas figuras decorativas, passatempos indesejáveis. Coisa de gente desocupada.


Tendo eliminado a conexão entre conhecimento e reconhecimento, piorar era somente questão de tempo. Pouco tempo. Foi assim que substituímos gente com ideias ruins por gente sem ideia alguma.

O idioma torturado foi substituído por língua que lembra o português. Momentos de lucidez se tornaram raros, quase ameaçados de extinção. Governantes foram dispensados de fazer sentido.

Liderança exercitada por cérebros baldios somente poderia dar em desatino desnecessário. E deu no que deu. Ideias sem nexo resultaram em ações sem sentido. Fonte de material para comediantes. E de constrangimento para os cidadãos.

Se voltar no tempo fosse permitido, talvez tudo pudesse ser evitado. Mas o tempo é vingativo. Não volta. A todos pune com a violação de ouvidos, corações e mentes em cascatas intermináveis de pensamentos confusos, empacotado em palavras sem nexo, formando sentenças indecifráveis, cometidas por gente desprovida de ideias.

Cruelmente, o tempo condena os cidadãos a saudar a mandioca. Por muito tempo, aparentemente.

Pior é melhor?

Vivemos no Brasil um momento de completa falência das instituições, de desprestígio da lei, em que uma fábrica de denúncias decide da vida e da história de cada um pela simples suposição, pela suspeita, pela delação premiada oferecida por criminosos declarados. Paramos o país, as pessoas estão sendo desempregadas, a inflação recrudesce, o povo tem fome, está doente, sem segurança. Não há oportunidades, não há perspectivas e não há esperança e sobram holofotes. As responsabilidades se avolumam e não esperam. Teimosamente mantemos nossas energias aplicadas no denuncismo, no quanto pior, melhor.
Luiz Tito, "Quanto pior, melhor. Mas para quem?"

Flip, termômetro da crise

Há uma coisa muito triste, que é a transformação da cúpula do Partido dos Trabalhadores; e não estou dizendo que não há pessoas honestas, claro que há; mas há uma transformação numa cúpula de gente corrupta que trabalha num esquema mafioso e de gangue
Boris Fausto

Em um ano de crise política e econômica, a Festa Literária de Paraty não ficou alheia aos entraves e contradições brasileiras. Declarações fortes sobre escravidão, corrupção, colonialismo e outros aspectos do passado e do presente brasileiros apareceram nas encontros de autores dos dois dias mais nobres da festa, sexta-feira e sábado. Tudo sempre mediado pela literatura, com seus alcances e limitações diante da vida cotidiana.

O respeitado historiador brasileiro Boris Fausto (84), que nunca havia participado de uma Flip, abriu a programação de sábado para falar do livro de memórias – O brilho do bronze (Cosac Naify) – que escreveu sobre sua esposa, a educadora Cynira Stocco Fausto, morta por um câncer em 2010. Comoveu os presentes com memórias relatadas de maneira sensível, mas foi capaz de provocá-los ainda mais quando fez comentários políticos bastante críticos, entrevistado pelo jornalista Paulo Roberto Pires.

"A partir da entrada do PT no governo houve momentos de razoável equilíbrio financeiro combinados com a possibilidade de realizar um equilíbrio social. Mas a partir do segundo governo Lula houve uma política econômica inadequada, ideológica, que levou a esse quadro. Levou à cúpula do partido uma cúpula de corruptos, um sistema mafioso gigante", afirmou, sob aplausos calorosos. Sobre o PSDB, também não economizou declarações fortes: "A oposição não tem conseguido ser oposição. Não tem coragem de dizer que é contra a corrupção que se instalou, que é um partido de classe média. Falta coerência. Uma alternativa seria muito importante nesta situação, mas infelizmente não temos”.

Em seguida, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo e a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho subiram ao palco da tenda principal com a missão de partir de "Turistas aprendizes" – livro do homenageado do evento, Mário de Andrade – para falar de suas experiências de viagem, relatadas respectivamente nos títulos "Viagens: da Amazônia às Malvinas" e "Vai, Brasil", ambos recém-publicados no Brasil. O discurso de ambas despertou interesse ainda maior quando passou à corrupção, no caso de Sarlo, e ao colonialismo, no de Coelho.

"Há um caminho de esperança no Brasil, porque a Justiça está atuando contra a corrupção. Em meu país, o vice-presidente está enfrentando um processo e mesmo assim não deixou o cargo. A corrupção é condenável em todas as suas formas, mas no Brasil vejo mais esperança para resolver esse problema”, opinou a argentina. Já a portuguesa, que atuou como correspondente do Público, jornal de Portugal, no Oriente Médio e no Rio de Janeiro, confessou: “Precisei dar a volta no mundo e lidar com o colonialismo dos outros para chegar ao Brasil e conhecer 500 anos de história viva que têm relação com o país de onde eu vim”.

Deus interfere na Terra?


Um de meus conhecidos vive sob o constante medo de doenças, terremotos e furacões, além de outras desgraças. Seu guru espiritual, mediante parcelas mensais em dinheiro vivo, garante que, por causa dos pecados cometidos pelos brasileiros, os céus logo se vingarão, lançando-nos terríveis catástrofes. Como prova, o guru cita os tremores e maremotos que sempre acontecem no Japão, enviados pela ira divina porque os nipônicos ainda não se converteram ao Evangelho. Parece incrível que, em pleno século 21, existam pessoas perversas a ponto de usar este tipo de argumento para intimidar outras. Mais incrível ainda, em pleno século 21, há gente que acata essa tosca e falsa argumentação.

Dois mil e quinhentos anos atrás, um grupo de pensadores de várias regiões da Grécia, chamados pré-socráticos, constatou que os deuses não interferiam na natureza, isto é, a natureza possuía regras, padrões e leis próprias que funcionavam à revelia de qualquer deus. Deuses de um lado, natureza de outro. A filosofia ocidental brotou desse movimento. A ciência também.

Desde então, o conhecimento se desvinculou do céu e se ligou à terra, ou seja, aos seres humanos, ao raciocínio, à observação, à indução, à intuição. Resultado: passamos a viver mais e melhor. Os raios pararam de ser despejados por Zeus do alto do Olimpo e se tornaram uma questão climática. Em vez de punição celestial, a peste negra virou uma doença causada por micro-organismos, passível de ser evitada. A Terra deixou de ser o centro do Universo.

Os pré-socráticos, apesar da ingenuidade de muitas de suas teses, buscaram explicações racionais para os fenômenos. A partir dessa ingenuidade, a sabedoria evoluiu durante dois milênios e meio até descobrirmos que terremotos e tsunamis são provocados pelo movimento de placas tectônicas, desde muito antes do primeiro ser humano andar sobre a Terra. Não existe, tampouco existiu ou existirá, intervenção divina.

Os pré-socráticos valem como curiosidade. A vasta maioria de suas obras se perdeu, mas são suficientes, no entanto, para demonstrar que, vinte e cinco séculos atrás, eles tinham a mente mais aberta, honesta e inteligente que certos gurus de hoje e queriam dar a todos os seres humanos não um dia de medo e temor, mas um dia de bom senso e boa informação.

domingo, 5 de julho de 2015

O fogo de Curitiba

O líder político mais poderoso do Brasil do século XXI, capaz de ganhar quatro eleições presidenciais em seguida e de se dar muitíssimo bem em praticamente tudo o que quis nos últimos anos, entrou de uma vez por todas num mato fechado. Vai sair, como sempre conseguiu até hoje? Há muito tempo o ex-presidente Lula acostumou-se a saborear o que já foi definido como uma das melhores sensações que um ser humano pode ter: a de atirarem nele e errarem o alvo. Com base no retrospecto, ele espera que sua vida continue assim — mas vivemos um momento em que estão acontecendo coisas que nunca aconteceram antes, e em que se confirma a velha máxima segundo a qual algo só é impossível até tornar-se possível.

O último exemplo a respeito é o terremoto causado pela prisão do empresário Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira de obras públicas do Brasil e empresa-símbolo das relações íntimas de Lula com os colossos do capitalismo nacional que recebem bilhões de reais em encomendas do governo. Era rigorosamente inacreditável que um homem desses pudesse ser encarcerado; nunca tinha acontecido antes, e talvez nunca mais volte a acontecer. Quem seria capaz de imaginar uma coisa dessas em nosso Brasil brasileiro? É como se tivessem prendido o papa Francisco. Mas aí está: aconteceu. Lula, de repente, percebe que não pode contar mais com o impossível.

O ex-presidente está lidando com a carga de TNT espalhada à sua volta com o mesmo sistema que utilizou em todas as suas desventuras anteriores: como ficou claro no jato de declarações que decidiu fazer nos últimos dias, ele se defende negando, simplesmente, a realidade que está na cara de todo mundo. O que vai contra os seus interesses não existe, por maiores que sejam as provas em contrário; continua convencido de que o brasileiro gosta muito mais das coisas que ele diz do que das coisas como elas realmente são. Lula, que imagina ser o líder popular ótimo e máximo, como o deus Júpiter, não pode pôr o pé na rua, com medo de ser vaiado pelo povo de seu país. Não pode dar uma entrevista livre à imprensa, com medo das perguntas que vão lhe fazer. Está mais do que provado que em seu governo, e no governo da sua sucessora, a população foi roubada pela maior onda de corrupção dos 500 anos de história do Brasil.

O tesoureiro do seu partido está num xadrez em Curitiba. Tem a companhia, ali, de empreiteiros de obras que há anos presenteiam o ex-presidente com viagens em jatinhos particulares, utilizaram seus serviços como promotor de vendas, pagaram-lhe milhões de reais em troca de palestras e mantêm com ele uma intimidade tão completa a ponto de lhe darem o amável apelido de “Brahma”. Lula é responsável direto pela invenção de Dilma Rousseff, que está a caminho de tornar-se a pior presidente que este país já teve. Advoga, em público, a favor de diversos dos mais sinistros ditadores do planeta — e por aí segue a procissão. Mas ele parte para sua defesa, mais uma vez, agindo como se tudo isso estivesse acontecendo em alguma galáxia perdida no fundo do universo. Ou, se está acontecendo aqui, o único que não tem nada a ver com a história é ele mesmo.

De quem seria a culpa, nesse caso? Eis uma questão em que o ex-presidente não se aperta; ele é um grande especialista em fuzilar feridos para salvar a si mesmo. Na sua atual ofensiva, e logo de cara, não teve o menor problema em sair acusando o governo Dilma, na esperança de misturar-se aos 65% de brasileiros que acham ruim ou péssimo o desempenho de sua criatura. A presidente, descobriu Lula, está no “volume morto” — como se ele não tivesse responsabilidade nenhuma por nada do que está dando errado. O PT, que vai tão mal quanto Dilma, foi denunciado por “pensar só em cargos” e os petistas por não fazerem “nada de graça” — como se ele não cobrasse pelos serviços que presta aos empreiteiros. Culpou o ódio cada vez maior que existe contra o partido — como se ele não fosse o produtor número 1 do rancor na política brasileira. Acusou o governo Dilma de não fazer nada, com seu “legalismo”, para combater a ação da Justiça nas investigações de corrupção — e o que queria que fosse feito? Não existe a menor ligação disso tudo com a verdade dos fatos, é óbvio. Fica apenas uma soberba sem limites, hoje transformada num vício do qual Lula parece incapaz de se livrar.

Lula precisa fazer mais do que repetir a mesma missa. O fogo de Curitiba, com o correr do tempo e a coleta de provas, deveria estar cada vez mais longe dele. Está cada vez mais próximo.

Corda bamba

Governo vegetal

Acho que é de Caetano Veloso uma música que diz que “alguma coisa está fora da ordem mundial”. O Brasil está, no mínimo, desacorçoado, sem rumo e sem meios para encontrar caminhos.

Dona Dilma, a terrorista de outrora, depois de um tratamento para emagrecer, parece que se deu mal com algum remédio, quem sabe um “anomirineronético”, que com esse nome pode ter provocado um efeito rebote ou empenado de vez “as suas ideias”…

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Falando para um pequeno público que a aplaudia, lascou esta pérola: “Hoje nós estamos comungando a mandioca com o milho e certamente nós teremos uma série de outros elementos que foram essenciais para o desenvolvimento das civilizações ao longo dos séculos. Acho que a mandioca é, sem dúvida, uma das maiores conquistas do Brasil”. E, com ar professoral, mostrou uma bola feita de folhas de bananeira e solenemente proclamou: “Quando nós criamos uma bola desta, nós nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens”.

Bem, eu nunca pensei nisso. Sempre considerei a mandioca comida de jegue… Parece o samba do crioulo doido, do inesquecível Sérgio Porto, mais conhecido como “Lalau Ponte Preta”, que descreve como Chica da Silva obrigou a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, e este, depois de eleito como Pedro II, procurou o padre Anchieta, e, juntos, Anchieta e Dom Pedro proclamaram a escravidão.

Numa entrevista neste último fim de semana ao jornal norte-americano “The Washington Post”, a presidente, em resposta ao jornalista que havia perguntado qualquer coisa sobre dificuldades do seu governo pelo fato de ser mulher, respondeu: “Há, sim, um pouco de preconceito sexual na forma como é descrita a minha forma de governar…” Parece até que só pensa naquilo, como diria o saudoso Chico Anysio em um dos seus personagens.

Às vezes, penso que Dona Dilma sofre de um tipo de “daltonismo político” e enxerga verde o que é vermelho… Será que – numa boa – não é hora de uma interdição? Há muito tempo, e lá se vão mais de 50 anos, quando estudava direito romano, me lembro de qualquer coisa, no capítulo da curatela, que enquadrava isso como “cura furiosi”.

Sei não, mas a América do Sul precisa prestar atenção em alguns casos de insanidade mental que estão passando para a opinião pública como sendo característica dos novos tempos, quando, na verdade, trata-se de assunto muito mais sério, para o qual a providência própria seria a curatela.

Enquanto dona Dilma fala aqui, com ar superior, na importância da mandioca para o mundo e a saúda como se estivesse enaltecendo uma criatura humana, na Venezuela, um presidente que se chama Maduro diz conversar com um passarinho que lhe transmite notícias e ordens do finado Chávez. Já no Uruguai, o simpático Pepe Mujica libera maconha, anda num Fusca do século passado e vive às avessas, como diria o Juca Saco dos bons tempos da nossa Salinas. Como pano de fundo, a operação Lava Jato segue, afligindo os ex-confortados…

Caindo na real

Chego ao Brasil. Pego táxi de cooperativa no Aeroporto Internacional Tom Jobim, nosso sempre velhusco Galeão, no Rio de Janeiro. Puxo conversa com o taxista. Seu nome não é revelado, por motivos óbvios. Ele não sabe que sou jornalista. O desabafo dura a corrida inteira.

“A economia tá parada, só um ou outro avião vem cheio. Nossa economia vive da corrupção. Sem propina, paralisa. Meu faturamento caiu 40%. Tínhamos na cooperativa um contrato com a Odebrecht. Foi cancelado agora. Tudo aqui neste país você precisa dar 10% a mais. Eu tinha de pagar também para a Odebrecht. Nossas corridas eram todas superfaturadas para o diretor que pegava o táxi levar o dele.”



“E a violência? Tá aqui em cima, olha (indicando o painel do carro, junto à janela), bem à vista, meu celular falso, para eu dar pra vagabundo. Todo dia tem algum arrastão na Linha Vermelha. Na minha casa, no Méier, não posso esperar o portão da garagem abrir para eu entrar. Já tive três carros roubados assim, à mão armada. Três.”

“Recuperei os carros roubados, mas tudo depenado. E não são os bandidos que depenam não. É a polícia. Eles tiram, antes de devolver, o tal kit PM. Rodas, rádio, tudo o que der para tirar. E a gente, para recuperar, precisa pagar à polícia a taxa de resgate. E a mídia não fala nada disso. Só sabe mesmo quem tá na rua, trabalhando.”

“Depois as autoridades vêm me falar das UPPs. Isso aí ninguém quer. Nem os bandidos nem os policiais. Tenho um sobrinho que saiu do Exército e não quer ficar em UPP. O que ele diz é: ‘Tio, nós somos humilhados ali. Jogam água, jogam mijo na gente. Não podemos dar um tiro que a gente vai preso. Ficamos ali só gastando combustível e enxugando gelo’.” 


“Isto aqui, se não ficar igual à China, não vai dar certo. Tem de ter uma ditadura rígida, pena perpétua, morte. Se os caras não ficarem com medo, vão continuar. Tem corrupção em tudo que é lugar. No Detran, nas delegacias, nos batalhões, nos hospitais. E o governo leva também o seu, por trás de toda essa engrenagem. Isso não vai acabar nunca. A não ser que a gente adote a seguinte regra para todo mundo: escreveu, não leu, o pau comeu.”

O taxista está revoltado. Com a Odebrecht, com a PM, com os governos, com os bandidos. É duro ouvir. Nem falo nada. Não adianta.

Lá de fora, acompanhamos a novela atual de maior audiência, o petrolão. Mais ex-diretores da Petrobras no xilindró. Prejuízo da corrupção sobe aos píncaros, R$ 19 bilhões. Surgem golpes simplórios contra quem mais necessita: promessas falsas de emprego, tirando R$ 20 de um, R$ 50 de outro. Os sanguessugas pagam fiança e respondem em liberdade. Assaltos a banco, tiroteios nas favelas, falência de empresas, novos aumentos de combustível e luz.

Lula atordoado, atacando Dilma. Dilma atordoada, atacando delatores. Congresso atordoado, vaivém na redução da maioridade penal. E toma mais provocação do Senado – aprovado o reajuste de 59% a 78% para os servidores do Judiciário, com impacto de R$ 25,7 bilhões nos cofres públicos. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os populistas cavaleiros do apocalipse, se unem por um único credo: hay gobierno, soy contra. Veta, Dilma, veta.


Enquanto isso, a mãe dos pobres resolve economizar R$ 8 bilhões em cima do abono salarial, devido neste semestre a quem ganha até dois salários mínimos. Devo, não nego, pago quando puder. Tudo pelo ajuste, para fechar as contas em 2015. Injusto.

Continua a esquizofrenia do país duplo. De um lado, ferro na iniciativa privada, desestímulo a quem quer abrir um negócio, burocracia enlouquecedora, impostos altíssimos cobrados de quem produz e sem beneficiar o povo. Do outro lado, benesses para servidores públicos, que já dispõem de aposentadoria integral e vitalícia.


O que mais choca, no entanto, é a miséria de nossa Educação. O relatório do Movimento Todos pela Educação é desolador. Mais de 2 milhões de crianças ainda estão fora das escolas. Em regiões carentes, as escolas são precárias, e o ensino de baixa qualidade. Entre 15 e 17 anos, 1,6 milhão abandonam os estudos. Só 9,3% dos que concluem o ensino médio sabem matemática. Só 27,2% dominam o português. Na outra ponta do ensino, a maior universidade federal do país, a UFRJ, com greve e obras paradas por corte de verbas, ameaça fechar em setembro, sem condições de pagar por limpeza, segurança, portaria.

Só confiarei num presidente que mude essa tragédia, de verdade. Uma maciça parcela da população (e não é a elite) quer hoje pena de morte, armas, ditadura e se lixa para direitos humanos. Também é resultado de falta de Educação. Cair na real não precisa ser cair no abismo. Acorda, Brasil. 

O pregador de verdades


Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 


O alarme de Luiz Inácio


A lógica na esfera política brasileira se alimenta de uma equação: a conquista do poder pelo poder. O verniz ideológico nos vãos de nossa democracia representativa se desmanchou na poeira do tempo.

Se alguém ainda conservava dúvida sobre a existência de DNA doutrinário no sangue de algum dos nossos entes partidários, por exemplo, o PT, que sempre ergueu a bandeira do socialismo, acaba de desfazê-la ao ler as últimas confissões do comandante maior de suas tropas, o ex-presidente Luiz Inácio: os petistas só querem saber de cargos, o PT perdeu sua utopia, está no volume morto, bem como o governo Dilma e ele mesmo.

O que isso quer significar?

É bastante conhecida a verve de Lula como palanqueiro. Nele, os antagonismos se irmanam, a ponto de confundirmos o verbo a favor com o verbo contrário, ponto e contraponto, defesa e ataque.

Não é de admirar, portanto, que as últimas expressões de Lula sobre o PT seus companheiros mais pareceram peroração contundente de líder oposicionista, engajado na guerra para despejar mais lama sobre a imagem combalida do partido.

Luiz Inácio, porém, sabe medir as coisas. A palavra amarga que tem usado é, antes de tudo, um puxão de orelhas nas lideranças e comandos que disputam fatias de poder no governo, desde que o petismo ganhou o primeiro mandato em 2002.

Nos últimos anos, o partido viu acirradas as disputas entre alas e grupos, cujos horizontes programáticos foram trocados por benesses e mandos na máquina da administração. Com exceção de uma ou outra ala, de índole mais radical, todas as outras foram atraídas pelo gozo do poder.

O desabafo de Lula se direciona também às bases. O ânimo da militância petista perde ímpeto sob o tiroteio que atinge o partido desde o mensalão, quando se denunciou a “cooptação desonesta” de parlamentares em troca de apoio ao governo.

Parte das milícias petistas tem resistido aos ataques dos exércitos dispersos da oposição, mas tem sido visível o amortecimento de uma base partidária que recebeu, ao longo das três décadas de vida do PT, um caldo ideológico, algo como mistura de valores éticos e princípios morais, crença no socialismo, mudanças na política, defesa dos direitos humanos, reforma política etc.


A atração fatal pelo refúgio nas asas do Estado acabou rasgando o manto diáfano que o PT desfraldava como exclusividade sua.

O longo duto que conecta o mensalão ao petrolão – Operação Lava Jato – acaba engolfando todo o petismo, a ponto de merecer de seu inspirador e fundador principal, Luiz Inácio, o mais veemente apelo por uma “volta às origens”.

A guinada à esquerda que o ex-metalúrgico pretende liderar seria o contraponto à guinada conservadora que se instala no país. Ele sabe, porém, que, antes disso, precisa arrumar as parcerias. Correu à Brasília para tentar segurar as bases junto ao Governo, a partir do insatisfeito PMDB, que dita a agenda nacional.

Lula receia que uma frente de esquerda formada pela corrente Mensagem ao Partido, liderada por Tarso Genro, siglas mais à esquerda, como PSOL e uma ala dissidente do PSB, possa esmaecer seu perfil de líder maior.

Essa movimentação está em curso e, a depender da evolução da economia e da política, nos próximos meses, poderá se fortalecer ou mesmo perder impulso. Ora, enxerga-se clara manobra do ex-governador gaúcho para arrefecer o poder do lulismo sobre as hostes petistas. Essa é outra abordagem que explica as metáforas do ex-metalúrgico.

Por último, a trombeta que Luiz Inácio começou a usar com intensidade, nas últimas semanas, funciona como um sistema de alarme ante um artefato poderoso que ameaça cair nos arredores de seu Instituto, digamos sua eventual retenção para efeito de depoimento, sob o holofote que o juiz Sérgio Moro tem usado e cujo simbolismo - “erga omnes” - quer demonstrar que a lei é para todos.

O palavrório funcionaria, nesse caso, como convocação da militância, estratégia para juntar as partes quebradas dos desvãos petistas e injetar sangue nas veias das galeras que ainda têm disposição de ocupar as ruas. O fato é que, a cada semana, os dutos da Petrobras chegam perto dos comandos do PT. Lula parece perdido, sem saber ainda o rumo a tomar.

A presidente passa a ser alvo do verbo ácido da mídia, com sua homenagem à mandioca e a estupenda criação das “mulheres sapiens”.

O lulopetismo passa por sua maior prova depois de três décadas. Poderá até não morrer, mas está na UTI. Sua maior expressão vai para o canto do ringue, tentando se desvencilhar de um adversário portentoso, treinado nas artes, ou melhor, nas letras jurídicas, o juiz do Paraná.

Qual o remédio que poderá salvá-lo?

A fórmula medicinal da bula da economia, chamada BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Bolso satisfeito, Barriga cheia, Coração emocionado, Cabeça agradecida. Nesse caso, a médica será sua pupila, dra. Dilma Rousseff. Mas a recuperação não será este ano. Teremos um segundo semestre pior que o primeiro. E, por enquanto, não se enxerga luz no fim do túnel.

P S Nessa sexta, Lula virou a página do alarme e passou a defender Dilma, ao dizer que a crise política não é da responsabilidade dela. Garantiu que ela vai arrumar o Brasil. Quem ainda acredita nisso?

Do túnel do tempo

Era doce e se acabou


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já não é mais o mesmo. Pouco parece ter sobrado do hábil hipnotizador de plateias. Na sexta-feira, durante a 5ª Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros, nem o macacão laranja - figurino que já usara em 2006 para anunciar, de mãos sujas de óleo, a autossuficiência de petróleo que nunca veio - conseguiu salvá-lo.

Reuniu pouco mais de uma centena para ouvi-lo mandar a sua pupila Dilma Rousseff ir para as ruas, enquanto ele só tem falado sob a proteção de quatro paredes. E entre amigos. Desta vez, no auditório da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, em Guararema (SP).

Como de costume, o objetivo era colocar-se como vítima e defensor exclusivo da Petrobras, da qual o seu governo e o de sua afilhada fizeram gato e sapato. “Se quiserem um brasileiro que tem orgulho da Petrobras, eu estou aqui.”

Se caráter tivesse, se diria envergonhado. Pediria desculpas.

Empresa que já ocupou o oitavo lugar entre as maiores do mundo, a Petrobras viu seu valor e sua credibilidade despencarem nos quatro últimos anos. No ranking da revista Forbes divulgado em maio, caiu da 30ª para a 416ª posição. Postergado por meses, o balanço auditado da companhia apresentou prejuízo de quase R$ 22 bilhões em 2014, o maior de uma empresa brasileira de capital aberto desde 1986. E, confessamente, escrito lá no balanço, mais de R$ 6 bilhões foram perdidos para a ladroagem, cifra que a Polícia Federal considera timidíssima. A PF calcula, por baixo, que a corrupção comeu R$ 19 bilhões da estatal. Um rapa sem igual.

Não foram poucas as histórias da carochinha contadas pelo ex-líder das ruas.

Falou do mau humor que domina o noticiário, protestou quanto ao tratamento que recebe e, sem indicar os protagonistas, reclamou do que diz ser vazamento seletivo da Lava-Jato, rebatendo na tecla de que querem acabar com o PT.

Perdoou a Dilma que ele disse ter mentido ao Brasil durante a campanha eleitoral, rogando a Deus para que ela não perca a tranquilidade.


Insistiu na ladainha de que o cenário internacional é responsável pela crise brasileira e escancarou um pecado desconhecido por seus torcedores: a fórmula utilitária com que sempre tratou a massa que até há pouco tempo ele inebriava. “Nas horas mais difíceis, não tem outra alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com ele”, ensinou. Uma lógica que não deixa dúvidas quanto aos momentos em que para ele o povo importa.

Lula é guloso. Saboreia o poder com prazer infinito. Lambuzou-se o quanto pode. Mas é também um sobrevivente. Sempre soube se reinventar.

Como presidente da República, pediu perdão aos brasileiros pelo mensalão. Ao deixar o cargo, negou a existência do que até a Lava-Jato era tido como o maior escândalo do país, afirmando que até o resto de seus dias brigaria para provar que tudo não passara de armação. Impingiu a neófita Dilma e foi vitorioso. Fala mal dela, puxa-lhe o tapete para afagá-la no dia seguinte.

Joga todos - o PT, Dilma e ele próprio - nas profundezas do volume morto, para tentar sair de mãos limpas.

Tenta imaginar-se como uma fênix, capaz de renascer das cinzas. Mas até Lula parece saber: seu encanto se quebrou.

O que é, o que é?


Tem patas de um elefante, tronco de um elefante, cabeça de um elefante, presas de um elefante e não é um elefante? Vai pensando aí enquanto a gente explica o outra metade da aula de massinha para dissimulados e afins. Toda a esquerdalhada do país se engajou num imenso esforço patético de dourar a pílula. Segundo os párias e colegas do crime sem castigo, “os ideais da esquerda estão sendo conspurcados por uma quadrilha de bandidos comuns”. É mesmo, cara pálida? Conta agora a do papagaio.

Uma presidente que se desmanchou em si mesma como purê de mandioca brava, cacarejando seus mantras e visões do apocalipse enquanto enfiava os docinhos da festa infantil no bolso não me parece uma ruptura de um sistema apodrecido de véspera e uma forma de dar corpo e alma ─ ambos podres – a uma mentalidade que se esforça em subir pelo atalho. Os caras detonaram as leis, a decência, a ética e a liberdade ensaiadas neste país imberbe tão somente para fazer de otária uma sociedade inteira, pagante e não reclamante de uma verdadeira orgia feita com o nosso dinheiro público bem diante de nossos olhos, narizes e bocas caladonas para o malfeito, mal parido e mal pago sistema político brasileiro.

Ensaiam hoje um tímido parlamentarismo parlapatão, muito mais pela vertente presidencialista dos detentores do poder no Congresso que pela conclusão pura e simples de que presidencialismo, reeleição, urna eletrônica sem fiscalização, oposição de quatro para o realismo fantástico que nos assola são tão somente as notas trôpegas de uma mesma música indecente, que já dói nos ouvidos. Já me esgoelei por aqui de olhar o tabuleiro a uma distância segura e ver que todas as suas peças executam um balé esquisito, que cabe mais como uma luva nos ideais idiotas da estrabaria de esquerda que temos por aqui que na defesa honesta de nossos preceitos democráticos e de nossa liberdade de ir e vir e mandar um pé no traseiro bem dado em toda essa escumalha que nos desgoverna.

Em que pese o fato de que a sociedade lentamente se dá conta que lhe passam a mão nos fundilhos sem pudor nem complacência, é de se esperar que em algum momento essa mesma sociedade se encha até a tampa de Marilenas Chauís patrocinadas pela anta, Suplícios cantando blowin’ my balls in the wind de cueca vermelhinha e ministros Edinhos cacarejando inocência, com o bolso cheio de docinhos da mesma festa onde a camarada Wanda surrupiou os brigadeiros. Fala serio. É uma quadrilha que está no poder, meus amigos.

Tem patas de quadrilha, tronco de quadrilha, cabeça de quadrilha e só não vê quem não quer a verdadeira natureza desse ajuntamento de bandidos. Os meliantes se organizaram para nos rapinar, em nome de uma tal infraestrutura que os caras foram superfaturar na África, em Cuba, na Venezuela e em outros potentados da mesma camorra aboletada no tal Foro de São Paulo e cercanias. É um golpe sem vergonha. Um golpe que conta com o compadrio, a omissão, a covardia e a enganosa elegância destes nobres cúmplices esquerdos de tabuleiro, blindando a dona de seus próprios desatinos enquanto procuram um substituto da mesma esquerda calhorda para apaziguar as coisas e continuar a dança picareta.

Para quem ainda não entendeu, o que tem patas de elefante, cabeça, tronco e presas de um elefante sem sê-lo por completo é o ESQUELETO DE UM ELEFANTE. Justamente o que vai sobrar em nosso lombo se essa gente não for apeada de onde se aboletam, roubando porcamente o nosso futuro. Eu quero é ver o oco, dona dilma. Sua mandioca definitivamente está assando.

Vlady Oliver