sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Flávio Bolsonaro encarnou o Brazil que não conhece o Brasil
O Brazil não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.
O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.
O Brazil não merece o Brasil. Derrotado nas urnas, Flávio se negou a reconhecer o resultado, despistou a polícia e fugiu num jatinho para a Flórida. Em carta golpista, autoproclamou-se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, comparou-se a Rui Barbosa e humilhou os aliados que ficaram no país, dizendo que passará a comandá-los à distância.
O Brazil tá matando o Brasil. O Ministério da Justiça informou que dez pessoas foram mortas em episódios de violência política no segundo turno. Foram vítimas de espancamentos, atropelamentos intencionais, disparos de arma de fogo. A brutalidade se intensificou na noite de domingo, quando bolsonaristas atacaram eleitores de Lula que festejavam a vitória nas urnas.
Em “Querelas do Brasil”, Aldir Blanc descreve uma elite colonizada que ignora a diversidade do país, despreza a herança indígena e busca validação no olhar estrangeiro — o tal Brazil com Z.
Composta no fim da ditadura, em parceria com Maurício Tapajós, a canção parodia o ufanismo da “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. No lugar das “fontes murmurantes”, entram em cena o Arariboia e o Pererê. No lugar da “terra boa e gostosa”, a vida dura nos subúrbios de Madureira, Olaria e Bangu.
Flávio enfeitou a primeira versão de sua carta golpista com um brasão da República e a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O país não é chamado assim desde 1931, quando passou a ser grafado com S. Em 1967, adotou o nome de República Federativa do Brasil.
Em outro ato falho, o candidato derrotado iniciou a missiva com um agradecimento ao “maravilhoso povo americano”. No décimo parágrafo, lembrou-se de mencionar os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele.
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