sexta-feira, 2 de maio de 2025
Memória
A memória é um espelho velho, com falhas no estanho e sombras paradas: há uma nuvem sobre a testa, um borrão no lugar da boca, o vazio onde os olhos deviam estar. Mudamos de posição, ladeamos a cabeça, procuramos, por meio de justaposições ou de lateralizações sucessivas dos pontos de vista, recompor uma imagem que nos seja possível reconhecer como ainda nossa, encadeável com esta que hoje temos, quase já de ontem. A memória é também uma estátua de argila. O vento passa e leva-lhe, pouco a pouco, partículas, grãos, cristais. A chuva amolece as feições, faz descair os membros, reduz o pescoço. Em cada minuto, o que era deixou de ser, e da estátua não restaria mais do que um vulto informe, uma pasta primária, se também em cada minuto não fôssemos restaurando, de memória, a memória. A estátua vai manter-se de pé, não é a mesma, mas não é outra, como o ser vivo é, em cada momento, outro e o mesmo. Por isso deveríamos perguntar-nos quem, de nós, ou em nós, tem memória, e que memória é ela. Mais ainda: pergunto-me que inquietante memória é a que às vezes me toma de ser eu a memória que tem hoje alguém que já fui, como se ao presente fosse finalmente possível ser memória de alguém que tivesse sido. (Excerto, com modificações, de um texto que publiquei algures, não sei quando. Ah, esta memória.)
José Saramago, "Cadernos de Lanzarote"
José Saramago, "Cadernos de Lanzarote"
Educação e desenvolvimento
Domingo, 27 de abril de 2025, o jornal O Estado de S. Paulo ofereceu aos seus leitores uma matéria encabeçada por um título desafiador. “Aí vai: como ir além do ‘voo de galinha’? O que o Brasil precisa fazer para ter uma economia forte?”
O conhecido e reconhecido economista Eduardo Gianetti da Fonseca apresentou suas razões aos felizardos leitores do Estadão:
“As nações que conseguiram enriquecer foram aquelas que construíram economias mais produtivas. Elas concentram seus esforços na formação de capital humano, têm instituições sólidas, são integradas às cadeias globais e fazem uma alocação eficiente de recursos. São donas, portanto, de uma mão de obra qualificada e de um bom ambiente de negócios. Tudo isso resulta em uma população altamente educada, com acesso a empregos de qualidade e, consequentemente, mais rica”.
A educação foi sempre uma cláusula pétrea do credo iluminista-republicano. Não há de existir cidadania sem educação universal e pública. Sem ela estariam seriamente arriscadas a liberdade e a igualdade. O ideal da educação para todos nasceu comprometido com o projeto de autonomia do indivíduo, do cidadão, enquanto titular de direitos e fonte do poder republicano. A versão bastarda surge das exigências impostas pela engrenagem econômica, administrativa e ideológica do capitalismo.
A modernidade avança de forma contraditória, impulsionada pela tensão permanente entre as forças e valores da concorrência capitalista e os anseios de autonomia do indivíduo integrado responsavelmente na sociedade. Esse conflito evolui entre a dimensão utilitarista da sociabilidade – forjada na indiferença do valor de troca e do dinheiro – e os projetos de progresso social que postulam a autonomia do indivíduo, ou seja, reivindicam o direito à singularidade e à diferença.
Nestes tempos em que são proclamadas verdades incontestáveis e andam escassas as alternativas, as funções engendradas pelos sistemas do dinheiro e do poder vêm usurpando, sem a menor cerimônia, as prerrogativas da cidadania. O leitor há de concordar: na avaliação dos bacanas, o gasto público em educação vale a pena, inicialmente, porque é fator de produtividade e de competitividade, além de supostamente oferecer igualdade de oportunidades aos que se apresentam ao julgamento sempre imparcial e impessoal dos mercados.
A experiência dos países asiáticos, Japão, Coreia e Taiwan, é frequentemente invocada pelos corifeus do pensamento único como a comprovação da importância da educação para o crescimento acelerado da produtividade da mão de obra, aquisição de vantagens comparativas dinâmicas e melhor distribuição de renda. Realçar o papel da educação e do treinamento, além de não encontrar oposição na chamada opinião pública, é uma forma de desqualificar as demais características do estilo de desenvolvimento desses países. A maioria delas – como o forte papel indutor do Estado, a estrutura e dinâmica das empresas, a natureza dos sistemas financeiros e a forma de integração à economia global – está banida dos manuais de redação dos conselheiros e divulgadores do pensamento único.
Vou despertar as inquietações que infestam minha formação sistêmico-estruturalista. Peço licença para recorrer às relações centrais que configuram a dinâmica da economia industrial-financeira capitalista.
A grande concentração de capital fixo e a dominância dos bancos na intermediação financeira ancoram a dinâmica de longo prazo do capitalismo no aumento da produtividade social do trabalho, o que, por sua vez, impulsiona a competição pela inovação tecnológica incorporada nas novas gerações de insumos e equipamentos.
No processo de autotransformação, a materialidade do capital fixo entrega sua alma à espiritualidade do trabalho intelectual. Peço, mais uma vez, permissão ao leitor para apresentar a argumentação de Karl Marx nos Grundrisse.
“Quando o capital fixo aparece como uma máquina no processo de produção, em oposição ao trabalho, quando o processo de trabalho em sua totalidade não está mais submetido à habilidade do trabalhador, mas à aplicação tecnológica da ciência, então a tendência do capital é dar à produção um caráter científico. … O desenvolvimento do capital fixo indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele.”
O General Intellect acelera a valorização do capital e a desvalorização do trabalho direto e se institui em uma forma de apropriação dos significados do conhecimento humano, em particular dos códigos da ciência. O capital toma para seus propósitos a educação, cujos métodos e objetivos são ajustados aos requerimentos dos mercados de trabalho cada vez mais exclusivos e “excludentes”.
É intenso o movimento de automação baseado na utilização de redes de “máquinas inteligentes”. Nanotecnologia, neurociência, biotecnologia, novas formas de energia e novos materiais formam o bloco de inovações com enorme potencial de revolucionar outra vez as bases técnicas do capitalismo. Todos os métodos que nascem dessa base técnica não podem senão confirmar sua razão interna: são métodos de produção destinados a aumentar a produtividade social do trabalho em escala crescente. Sua aplicação continuada torna o trabalho imediato cada vez mais redundante. A autonomização da estrutura técnica significa que a aplicação da ciência se torna o critério dominante no desenvolvimento da produção.
Os avanços da Inteligência Artificial, da internet das coisas e da nanotecnologia agravaram as assimetrias entre países, classes sociais e empresas. Isso suscitou a intensificação da introdução dos métodos “industriais” na agricultura e nos serviços, promovendo o que convencionamos qualificar de hiperindustrialização.,
O conhecido e reconhecido economista Eduardo Gianetti da Fonseca apresentou suas razões aos felizardos leitores do Estadão:
“As nações que conseguiram enriquecer foram aquelas que construíram economias mais produtivas. Elas concentram seus esforços na formação de capital humano, têm instituições sólidas, são integradas às cadeias globais e fazem uma alocação eficiente de recursos. São donas, portanto, de uma mão de obra qualificada e de um bom ambiente de negócios. Tudo isso resulta em uma população altamente educada, com acesso a empregos de qualidade e, consequentemente, mais rica”.
O editor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, criou a expressão “pensamento único” para designar o sistema de dogmas – econômicos, sociais e políticos – que atazana a paciência dos cidadãos e cidadãs, neste início de milênio. Entre as certezas graníticas e inabaláveis produzidas por esse movimento de uniformização das consciências, uma desperta grande entusiasmo e unanimidade: quanto mais treinada e educada a força de trabalho, melhor será o desempenho da economia, mais qualificados os empregos e mais justa a distribuição de renda.
A educação foi sempre uma cláusula pétrea do credo iluminista-republicano. Não há de existir cidadania sem educação universal e pública. Sem ela estariam seriamente arriscadas a liberdade e a igualdade. O ideal da educação para todos nasceu comprometido com o projeto de autonomia do indivíduo, do cidadão, enquanto titular de direitos e fonte do poder republicano. A versão bastarda surge das exigências impostas pela engrenagem econômica, administrativa e ideológica do capitalismo.
A modernidade avança de forma contraditória, impulsionada pela tensão permanente entre as forças e valores da concorrência capitalista e os anseios de autonomia do indivíduo integrado responsavelmente na sociedade. Esse conflito evolui entre a dimensão utilitarista da sociabilidade – forjada na indiferença do valor de troca e do dinheiro – e os projetos de progresso social que postulam a autonomia do indivíduo, ou seja, reivindicam o direito à singularidade e à diferença.
Nestes tempos em que são proclamadas verdades incontestáveis e andam escassas as alternativas, as funções engendradas pelos sistemas do dinheiro e do poder vêm usurpando, sem a menor cerimônia, as prerrogativas da cidadania. O leitor há de concordar: na avaliação dos bacanas, o gasto público em educação vale a pena, inicialmente, porque é fator de produtividade e de competitividade, além de supostamente oferecer igualdade de oportunidades aos que se apresentam ao julgamento sempre imparcial e impessoal dos mercados.
A experiência dos países asiáticos, Japão, Coreia e Taiwan, é frequentemente invocada pelos corifeus do pensamento único como a comprovação da importância da educação para o crescimento acelerado da produtividade da mão de obra, aquisição de vantagens comparativas dinâmicas e melhor distribuição de renda. Realçar o papel da educação e do treinamento, além de não encontrar oposição na chamada opinião pública, é uma forma de desqualificar as demais características do estilo de desenvolvimento desses países. A maioria delas – como o forte papel indutor do Estado, a estrutura e dinâmica das empresas, a natureza dos sistemas financeiros e a forma de integração à economia global – está banida dos manuais de redação dos conselheiros e divulgadores do pensamento único.
Vou despertar as inquietações que infestam minha formação sistêmico-estruturalista. Peço licença para recorrer às relações centrais que configuram a dinâmica da economia industrial-financeira capitalista.
A grande concentração de capital fixo e a dominância dos bancos na intermediação financeira ancoram a dinâmica de longo prazo do capitalismo no aumento da produtividade social do trabalho, o que, por sua vez, impulsiona a competição pela inovação tecnológica incorporada nas novas gerações de insumos e equipamentos.
No processo de autotransformação, a materialidade do capital fixo entrega sua alma à espiritualidade do trabalho intelectual. Peço, mais uma vez, permissão ao leitor para apresentar a argumentação de Karl Marx nos Grundrisse.
“Quando o capital fixo aparece como uma máquina no processo de produção, em oposição ao trabalho, quando o processo de trabalho em sua totalidade não está mais submetido à habilidade do trabalhador, mas à aplicação tecnológica da ciência, então a tendência do capital é dar à produção um caráter científico. … O desenvolvimento do capital fixo indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele.”
O General Intellect acelera a valorização do capital e a desvalorização do trabalho direto e se institui em uma forma de apropriação dos significados do conhecimento humano, em particular dos códigos da ciência. O capital toma para seus propósitos a educação, cujos métodos e objetivos são ajustados aos requerimentos dos mercados de trabalho cada vez mais exclusivos e “excludentes”.
É intenso o movimento de automação baseado na utilização de redes de “máquinas inteligentes”. Nanotecnologia, neurociência, biotecnologia, novas formas de energia e novos materiais formam o bloco de inovações com enorme potencial de revolucionar outra vez as bases técnicas do capitalismo. Todos os métodos que nascem dessa base técnica não podem senão confirmar sua razão interna: são métodos de produção destinados a aumentar a produtividade social do trabalho em escala crescente. Sua aplicação continuada torna o trabalho imediato cada vez mais redundante. A autonomização da estrutura técnica significa que a aplicação da ciência se torna o critério dominante no desenvolvimento da produção.
Os avanços da Inteligência Artificial, da internet das coisas e da nanotecnologia agravaram as assimetrias entre países, classes sociais e empresas. Isso suscitou a intensificação da introdução dos métodos “industriais” na agricultura e nos serviços, promovendo o que convencionamos qualificar de hiperindustrialização.,
Resumos de notícias
Cada vez estamos a ser mais treinados para ler pouco... Numa rede social, quem se atreve a publicar um texto mais extenso (Frederico Lourenço fê-lo várias vezes no passado e tinha imensos leitores) vê-o reduzido a três meras linhas seguidas da expressão destacada «Ver mais», mas o facto de não vermos logo o texto completo leva a que muita gente nem sequer se dê ao trabalho de ver quanto lhe falta e se tem tempo para ler até ao fim; se as primeiras linhas não forem muito fortes, ficarão de facto por ler na maioria dos casos... Agora, que os jornais em papel, impressos na véspera da data de saída, se tornam facilmente obsoletos de manhã (até já houve um jornal que acreditou estar seguro das suas previsões e deu uma primeira página com dados errados numas eleições americanas...), muitos jornais mandam por e-mail um resumo das principais notícias todas as manhãs (o Expresso e o seu Expresso diário, por exemplo). Desta feita, foi o Diário de Notícias que resolveu criar a newsletter «Bom Dia», em que um experiente profissional nos faz a papa toda, resumindo com elegância o que há a saber de mais importante sobre a actualidade. Confesso que dá imenso jeito (sobretudo a caminho do Luxemburgo, onde ficarei até domingo), mas, depois desta síntese tão bem feitinha, alguém vai ler o resto do jornal? Duvido.
Maria do Rosário Pedreira
Maria do Rosário Pedreira
Trabalhar, sim, mas menos
Feliz dia internacional dos trabalhadores!
Caso não aguente mais uma cábula sobre o 1.º de maio e a maneira triunfal como se reduziram para oito as horas diárias de trabalho, pense nisto: foi há mais de 100 anos.
Foi há mais de 100 anos e continua a ser normalíssimo trabalhar oito horas por dia.
Ganha-se mais em pensar no 1.º de Maio como o dia em que os trabalhadores lutam para trabalhar menos do que no ano – ou, vá lá, a década – anterior.
Só ficaram pelas oito horas por dia porque até aí trabalhavam 10 e 12 horas.
Não é o número 8 que é mágico: é o ser menos do que 9, 10, 11, 12 e por aí afora.
Não é o número 8 que é a conquista: é o sinal que significa menos.
O progresso está na redução progressiva da carga horária. Daqui a 100 anos, se tudo correr bem, a semana laboral terá 15 horas, mas a luta será por uma semana de 12 horas.
Doze horas já é muito: o acordar, o viajar, o aturar, o aborrecer, o cansar, o ter de voltar. Todas estas coisas são fixas e não há maneira de as contornar. A conquista não é a semana de 40 horas.
A conquista é obrigar os patrões a pagar-nos o mesmo por menos horas de trabalho. Já que não nos aumentam os ordenados, ao menos que nos paguem mais por hora.
Não são as conquistas que satisfazem: são as recompensas da luta.
Os trabalhadores vão exigindo e os patrões vão cedendo: é este processo contínuo que deve ser celebrado.
A luta não pode parar, não pode congratular-se, não pode satisfazer-se. Pelo menos publicamente.
A reação ao “eles comem tudo” é “nós queremos mais”. Ou mais dinheiro ou mais tempo. E assim já não será tudo o que comem, mas um bocadinho menos.
Cuidado com os patrões que dão os parabéns aos trabalhadores pelas conquistas de maio.
Não seriam conquistas se os patrões cedessem logo de bom grado.
A inflação é um fato da vida. Mas a desinflação das horas de trabalho também deveria ser: se os preços estão mais caros, seria profundamente injusto se eu tivesse de trabalhar mais tempo para os pagar.
Caso não aguente mais uma cábula sobre o 1.º de maio e a maneira triunfal como se reduziram para oito as horas diárias de trabalho, pense nisto: foi há mais de 100 anos.
Foi há mais de 100 anos e continua a ser normalíssimo trabalhar oito horas por dia.
Ganha-se mais em pensar no 1.º de Maio como o dia em que os trabalhadores lutam para trabalhar menos do que no ano – ou, vá lá, a década – anterior.
Só ficaram pelas oito horas por dia porque até aí trabalhavam 10 e 12 horas.
Não é o número 8 que é mágico: é o ser menos do que 9, 10, 11, 12 e por aí afora.
Não é o número 8 que é a conquista: é o sinal que significa menos.
O progresso está na redução progressiva da carga horária. Daqui a 100 anos, se tudo correr bem, a semana laboral terá 15 horas, mas a luta será por uma semana de 12 horas.
Doze horas já é muito: o acordar, o viajar, o aturar, o aborrecer, o cansar, o ter de voltar. Todas estas coisas são fixas e não há maneira de as contornar. A conquista não é a semana de 40 horas.
A conquista é obrigar os patrões a pagar-nos o mesmo por menos horas de trabalho. Já que não nos aumentam os ordenados, ao menos que nos paguem mais por hora.
Não são as conquistas que satisfazem: são as recompensas da luta.
Os trabalhadores vão exigindo e os patrões vão cedendo: é este processo contínuo que deve ser celebrado.
A luta não pode parar, não pode congratular-se, não pode satisfazer-se. Pelo menos publicamente.
A reação ao “eles comem tudo” é “nós queremos mais”. Ou mais dinheiro ou mais tempo. E assim já não será tudo o que comem, mas um bocadinho menos.
Cuidado com os patrões que dão os parabéns aos trabalhadores pelas conquistas de maio.
Não seriam conquistas se os patrões cedessem logo de bom grado.
A inflação é um fato da vida. Mas a desinflação das horas de trabalho também deveria ser: se os preços estão mais caros, seria profundamente injusto se eu tivesse de trabalhar mais tempo para os pagar.
O bem que Donald Trump faz ao mundo
Injusta essa perseguição da mídia ao presidente americano. Seu jeitão de “sou assim mesmo” e suas declarações sinceras ajudam os Estados Unidos a se confrontar consigo mesmos e com sua História. Trump fez a ultradireita sair do armário e arreganhar os dentes, todos salivando contra o próximo. Especialmente se “o próximo” for imigrante, negro, trans, intelectual, liberal.
Essa abertura é quase igual à de uma coluna minha há seis anos: “O bem que Jair Bolsonaro nos faz”. Os protagonistas se parecem muito em sua loucura, narcisismo, arrogância, autoritarismo, sua total ausência de tato ou empatia.
Donald (como o Jair) obriga o isentão a se posicionar e sair do muro. Com seus arroubos e pitis, Donald estimula a imprensa a dar o maior duro, em tempo real, para esclarecer a população e desmascarar mentiras. Quem sabe, um dia, Donald personificará tanto ódio, preconceito e desumanidade que uma oposição inteligente surgirá nos EUA.
Antes da reeleição de Trump, cheguei a ouvir de amigos que ele era, sim, “o cara” para tornar a América grande de novo. Estável. Rica. E que só ele seria forte o suficiente para restaurar a paz no mundo.
Chegamos agora aos 100 dias mais surreais da história de um presidente americano. ‘The New York Times’ produziu volumoso retrospecto das ações caóticas de Trump. A palavra que resume é, segundo o jornal, vingança.
Vingança contra liberais, professores, juízes, gente pobre e estrangeira, contra qualquer um que se oponha a sua visão de potência imperialista com supremacia branca. Vingança contra quem quis sua prisão por coordenar a invasão ao Capitólio e tentar melar a eleição. Vingança contra quem desejou sua morte.
Duas imagens de Trump, na entrada do Salão Oval e no hall de entrada da Casa Branca, revelam a obsessão com si próprio.
Uma é a foto de sua ficha criminal, em 2023, numa prisão da Geórgia. Ele se entregou após ser acusado de associação criminosa e conspiração para mudar o resultado das eleições presidenciais. Foi solto após pagar fiança de R$ 1 milhão.
A outra imagem é uma pintura de Trump erguendo o punho direito com sangue respingado no rosto, “salvo por Deus para salvar a América”. Substituiu a foto de Obama.
Essas papagaiadas de Trump soam familiares? Os vídeos na UTI postados por Jair, como se fosse vítima crucificada do STF e da esquerda, são bizarros. Jair transformou sua internação num circo. Fez live, assediou moralmente uma oficial de Justiça. E expôs agora em vídeo a remoção da sonda nasogástrica. Nojento. E pensar que Jair sonha em repetir, aqui, a vingança de Trump.
O NYT listou os atos trumpistas. A demissão de promotores que o investigaram. O delírio de anexar a Groenlândia, o Canadá e o Canal do Panamá. A deportação arbitrária de imigrantes. A política externa de bullying. A gangorra econômica que pode causar recessão histórica.
A guerra das tarifas globais que semeou pânico entre investidores. A guerra comercial com a China, que ameaça até o Natal dos americanos – fábricas chinesas produzem quase 80% dos brinquedos nos EUA.
A guerra às universidades e à liberdade de expressão, com lista de termos proibidos. A guerra a organizações humanitárias. A guerra à diversidade, que seria sinônimo de incompetência.
É muita guerra para um emissário divino.
Mas Trump traz um benefício ao mundo: a desmoralização da ultradireita. O Canadá elegeu um liberal, antes azarão na disputa com um conservador. Quem sabe vem aí uma nova teoria dos dominós. Nem falo de direita. Mas de loucos. Há exatos 80 anos, 30 de abril de 1945, o corpo do ditador Mussolini foi jogado numa praça de Milão. O que aprendemos desde então?
Precisamos de exames psicotécnicos para acolher candidatos a presidente. Collor não teria passado. Nem Bolsonaro. Muito menos Trump.
Ruth de Aquino
Essa abertura é quase igual à de uma coluna minha há seis anos: “O bem que Jair Bolsonaro nos faz”. Os protagonistas se parecem muito em sua loucura, narcisismo, arrogância, autoritarismo, sua total ausência de tato ou empatia.
Donald (como o Jair) obriga o isentão a se posicionar e sair do muro. Com seus arroubos e pitis, Donald estimula a imprensa a dar o maior duro, em tempo real, para esclarecer a população e desmascarar mentiras. Quem sabe, um dia, Donald personificará tanto ódio, preconceito e desumanidade que uma oposição inteligente surgirá nos EUA.
Antes da reeleição de Trump, cheguei a ouvir de amigos que ele era, sim, “o cara” para tornar a América grande de novo. Estável. Rica. E que só ele seria forte o suficiente para restaurar a paz no mundo.
Chegamos agora aos 100 dias mais surreais da história de um presidente americano. ‘The New York Times’ produziu volumoso retrospecto das ações caóticas de Trump. A palavra que resume é, segundo o jornal, vingança.
Vingança contra liberais, professores, juízes, gente pobre e estrangeira, contra qualquer um que se oponha a sua visão de potência imperialista com supremacia branca. Vingança contra quem quis sua prisão por coordenar a invasão ao Capitólio e tentar melar a eleição. Vingança contra quem desejou sua morte.
Duas imagens de Trump, na entrada do Salão Oval e no hall de entrada da Casa Branca, revelam a obsessão com si próprio.
Uma é a foto de sua ficha criminal, em 2023, numa prisão da Geórgia. Ele se entregou após ser acusado de associação criminosa e conspiração para mudar o resultado das eleições presidenciais. Foi solto após pagar fiança de R$ 1 milhão.
A outra imagem é uma pintura de Trump erguendo o punho direito com sangue respingado no rosto, “salvo por Deus para salvar a América”. Substituiu a foto de Obama.
Essas papagaiadas de Trump soam familiares? Os vídeos na UTI postados por Jair, como se fosse vítima crucificada do STF e da esquerda, são bizarros. Jair transformou sua internação num circo. Fez live, assediou moralmente uma oficial de Justiça. E expôs agora em vídeo a remoção da sonda nasogástrica. Nojento. E pensar que Jair sonha em repetir, aqui, a vingança de Trump.
O NYT listou os atos trumpistas. A demissão de promotores que o investigaram. O delírio de anexar a Groenlândia, o Canadá e o Canal do Panamá. A deportação arbitrária de imigrantes. A política externa de bullying. A gangorra econômica que pode causar recessão histórica.
A guerra das tarifas globais que semeou pânico entre investidores. A guerra comercial com a China, que ameaça até o Natal dos americanos – fábricas chinesas produzem quase 80% dos brinquedos nos EUA.
A guerra às universidades e à liberdade de expressão, com lista de termos proibidos. A guerra a organizações humanitárias. A guerra à diversidade, que seria sinônimo de incompetência.
É muita guerra para um emissário divino.
Mas Trump traz um benefício ao mundo: a desmoralização da ultradireita. O Canadá elegeu um liberal, antes azarão na disputa com um conservador. Quem sabe vem aí uma nova teoria dos dominós. Nem falo de direita. Mas de loucos. Há exatos 80 anos, 30 de abril de 1945, o corpo do ditador Mussolini foi jogado numa praça de Milão. O que aprendemos desde então?
Precisamos de exames psicotécnicos para acolher candidatos a presidente. Collor não teria passado. Nem Bolsonaro. Muito menos Trump.
Ruth de Aquino
quinta-feira, 1 de maio de 2025
Morte de jovem negro pela polícia revolta Alemanha
Moro ao lado de um parque em Berlim que é ponto de encontro de centenas de jovens e adolescentes. Eles são, em sua maioria, brancos e, de vez em quando, perdem os limites (como é comum entre os jovens), quebram garrafas, brigam e por aí vai.
Há algumas semanas, carros de polícia e ambulâncias ocuparam a entrada do parque. Fui ver o que acontecia e encontrei policiais e bombeiros pedindo, com paciência, para que os jovens embriagados fossem para casa. Depois, minha enteada de 18 anos me contou que alguns "idiotas metidos a gangsters" (palavras dela) tinham usado uma faca para praticar pequenos furtos. Alguns foram presos. Mas o clima continuou relaxado no local e as risadas seguiram.
Lembrei desse clima amistoso entre policiais e jovens (que considero o certo, e acho que deveria valer para todos) quando li as notícias sobre a morte de Lorenz A. O jovem de 21 anos foi morto pela polícia em Oldenburg, no noroeste da Alemanha, com quatro tiros disparados pelas costas por um policial de 27 anos. Muitos (e eu me incluo) associam sua morte ao racismo.
O caso aconteceu no domingo de Páscoa, 20 de abril, e causa justa revolta, choque. O assassinato motivou manifestações em todo o país. Os fatos que ocorreram naquela madrugada ainda têm versões que diferem em detalhes importantes.
O que se sabe por enquanto: o garoto foi barrado em uma boate no centro de Oldenburg. Em seguida, teria discutido com os seguranças, usado spray de pimenta contra eles e fugido. A polícia foi chamada. O Ministério Público da cidade disse que ele teria usado uma faca para ameaçar quem se aproximava. Ele teria abordado os policiais de "forma ameaçadora" e borrifado spray de pimenta contra os agentes. Mas, de acordo com reportagem do site da revista Der Spiegel, a faca não apareceria nas mãos de Lorenz em vídeos que são analisados pela polícia. Ela teria sido encontrada em seu bolso.
A investigação ainda não foi concluída. Imagens de câmeras estão sendo analisadas pela polícia e testemunhas estão sendo ouvidas. O policial que cometeu os disparos foi suspenso e será investigado por homicídio.
Nada justifica a morte de Lorenz. Ele usar uma faca para ameaçar policiais, por exemplo, não dá aos agentes o direito de o matarem.
Mas, é óbvio, temos que perguntar: Lorenz teria sido assassinado se fosse um jovem branco? Acho que não (e não estou sozinha nessa). Um policial alemão atiraria em um jovem "arruaceiro" na balada se ele fosse loiro de olho azul? Acho difícil.
Mesmo que o policial não tenha sido "conscientemente racista", é muito possível que ele tenha visto um jovem negro como "mais ameaçador" do que veria um jovem branco. É assim que acontece. Na Alemanha e no Brasil, onde o racismo é estrutural.
Em todo o país, manifestantes associam a morte de Lorenz ao racismo. No último fim de semana, cerca de 10 mil pessoas se reuniram em Oldenburg para pedir justiça por Lorenz. Outras manifestações foram registradas em várias cidades. Aqui, o fato de um jovem ter sido morto pela polícia é um grande escândalo, e não algo banal. Pelo menos isso.
No local de sua morte, flores, velas e cartazes foram colocados, como em um memorial. Nos jornais, há fotos dos amigos de Lorenz chorando abraçados. Eles esperam que o policial seja punido. É o mínimo.
Na Alemanha, mortes desse tipo pela polícia são raras. O índice de letalidade policial é baixo. Em 2023, nove pessoas foram mortas pela polícia, de acordo com a Faculdade Alemã de Polícia. Ainda não há números oficiais de 2024 e 2025. De acordo com a imprensa alemã, ao todo, 141 pessoas foram mortas pela polícia no país desde 2015.
Parece pouco, ainda mais quando comparamos com países como o Brasil, onde, de acordo com dados da Rede de Observatórios da Segurança, ao menos 4.025 pessoas foram alvo da letalidade policial em 2023. Destas, 87,8% das vítimas eram negras. O que acontece no Brasil é uma situação de guerra. Mas, em comum com a Alemanha, o racismo não pode ser tolerado.
Há algumas semanas, carros de polícia e ambulâncias ocuparam a entrada do parque. Fui ver o que acontecia e encontrei policiais e bombeiros pedindo, com paciência, para que os jovens embriagados fossem para casa. Depois, minha enteada de 18 anos me contou que alguns "idiotas metidos a gangsters" (palavras dela) tinham usado uma faca para praticar pequenos furtos. Alguns foram presos. Mas o clima continuou relaxado no local e as risadas seguiram.
Lembrei desse clima amistoso entre policiais e jovens (que considero o certo, e acho que deveria valer para todos) quando li as notícias sobre a morte de Lorenz A. O jovem de 21 anos foi morto pela polícia em Oldenburg, no noroeste da Alemanha, com quatro tiros disparados pelas costas por um policial de 27 anos. Muitos (e eu me incluo) associam sua morte ao racismo.
O caso aconteceu no domingo de Páscoa, 20 de abril, e causa justa revolta, choque. O assassinato motivou manifestações em todo o país. Os fatos que ocorreram naquela madrugada ainda têm versões que diferem em detalhes importantes.
A investigação ainda não foi concluída. Imagens de câmeras estão sendo analisadas pela polícia e testemunhas estão sendo ouvidas. O policial que cometeu os disparos foi suspenso e será investigado por homicídio.
Nada justifica a morte de Lorenz. Ele usar uma faca para ameaçar policiais, por exemplo, não dá aos agentes o direito de o matarem.
Mas, é óbvio, temos que perguntar: Lorenz teria sido assassinado se fosse um jovem branco? Acho que não (e não estou sozinha nessa). Um policial alemão atiraria em um jovem "arruaceiro" na balada se ele fosse loiro de olho azul? Acho difícil.
Mesmo que o policial não tenha sido "conscientemente racista", é muito possível que ele tenha visto um jovem negro como "mais ameaçador" do que veria um jovem branco. É assim que acontece. Na Alemanha e no Brasil, onde o racismo é estrutural.
Em todo o país, manifestantes associam a morte de Lorenz ao racismo. No último fim de semana, cerca de 10 mil pessoas se reuniram em Oldenburg para pedir justiça por Lorenz. Outras manifestações foram registradas em várias cidades. Aqui, o fato de um jovem ter sido morto pela polícia é um grande escândalo, e não algo banal. Pelo menos isso.
No local de sua morte, flores, velas e cartazes foram colocados, como em um memorial. Nos jornais, há fotos dos amigos de Lorenz chorando abraçados. Eles esperam que o policial seja punido. É o mínimo.
Na Alemanha, mortes desse tipo pela polícia são raras. O índice de letalidade policial é baixo. Em 2023, nove pessoas foram mortas pela polícia, de acordo com a Faculdade Alemã de Polícia. Ainda não há números oficiais de 2024 e 2025. De acordo com a imprensa alemã, ao todo, 141 pessoas foram mortas pela polícia no país desde 2015.
Parece pouco, ainda mais quando comparamos com países como o Brasil, onde, de acordo com dados da Rede de Observatórios da Segurança, ao menos 4.025 pessoas foram alvo da letalidade policial em 2023. Destas, 87,8% das vítimas eram negras. O que acontece no Brasil é uma situação de guerra. Mas, em comum com a Alemanha, o racismo não pode ser tolerado.
Precisamos de falar de liberdade
A liberdade não tem cheiro, nem cor, nem ocupa espaço. Mas é ela que nos dá caminho e chão, que nos dá largueza e segurança. A liberdade é frágil, difícil, instável. Mas é também o ar que nos enche o peito, que nos faz funcionar. O problema da liberdade é que, quando existe, não se vê. Quando a conquistamos, parece de pedra, natural como o céu e o sol. Não percebemos quando começa a desabar, porque ela nunca acaba num só dia. Vai desaparecendo devagarinho, debaixo de muros e sombras, de mordaças e interdições pequenas, esvaindo-se aos poucos, sem que demos por isso. Todos os dias nos custa mais a respirar, mas os pulmões habituam-se à rarefação e, mesmo que tudo seja mais lento e pesado, não nos apercebemos logo do que está a acontecer.
A liberdade vai escasseando. E quase ninguém dá por isso. O espaço está mais estreito, mas nós vamo-nos encolhendo e achamos que continuamos a caber. Pior: convencem-nos de que a liberdade é um problema. A liberdade é tão elástica que pode ser usada pelos seus próprios inimigos. E eles não têm problemas nenhuns em usá-la para nos privarem dela.
Quando ouvirem alguém dizer que “agora já não se pode dizer nada”, saibam que é um inimigo da liberdade que o diz. Porque esse tempo antes deste “agora” era o momento em que muito poucos tinham toda a liberdade de esmagar todos os outros debaixo da repressão e da censura. O que antes se podia dizer, continua a ser dito, porque a liberdade também é isso. A diferença – e é isso que eles não suportam – é que agora o que dizem podem ser desdito, contraditado, questionado. Podem dizer tudo o que quiserem, deixaram foi de poder calar os outros.
A liberdade não funciona no vazio. Ela precisa de estruturas, feitas de leis que protejam os mais fracos, de uma igualdade material que a sustente. Não há liberdade a sério quando se tem a barriga vazia e se está à mercê de quem tem tudo e faz as regras.
Não se é livre sozinho. A liberdade constrói-se em comum, numa sociedade em que os direitos são respeitados e os mais fracos protegidos. Não há liberdade a sério quando é cada um por si e ganha o mais forte.
Os libertários são inimigos da liberdade. São os que a querem só para eles, sem limites, nem freios, porque se acham mais fortes do que todos os outros e querem usar essa posição de domínio para crescer esmagando os que ficarem por baixo.
Precisamos de falar de liberdade. Precisamos de nos lembrar do que é não a ter, precisamos de ver como ela está a desaparecer, deixando-nos as mãos mais atadas e as bocas caladas. Precisamos de saber que a liberdade não é só festa, é luta. E que não basta andar com um cravo na lapela e descer a avenida, se no dia a seguir nos calamos e encolhemos e fechamos os olhos às injustiças e deixamos que os novos donos da liberdade a vendam como flexibilidade, precariedade e competição pura.
O 25 de Abril é o dia da liberdade porque foi a revolução que nos trouxe “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Precisamos de voltar a cantar essa canção do Sérgio Godinho, porque está tudo lá. Não para celebrar o passado, mas para construir o futuro.
O 25 de Abril já aconteceu, mas ainda está a acontecer, se tivermos a força de nos agarrarmos a essa liberdade. O 25 de Abril é um dia que ainda não veio, que é preciso construir todos os dias. Porque a democracia e a liberdade nunca acabam de se fazer, a não ser quando morrem.
Aos que acham que está tudo feito, aos que se agarram ao passado, aos que acreditam que antes é que era bom ou que a revolução é só uma coisa ultrapassada, aos que fingem que não aconteceu nada, aos que sentem saudades do que foi ou do que podia ter sido, aos que chegaram agora e não sabem nada porque vêm com a ignorância de quem não precisou de aprender tudo da maneira mais difícil, aos que acham graça aos desfiles e usam cravos como adereços de moda vazios, aos que fazem comércio e aos que fazem escárnio. A todos esses precisamos de falar de liberdade, da liberdade a sério, construída em luta e festa, feita com todos e para todos, mesmo para os que não gostam dela, para que até esses possam dizer o que querem e que não lhes falte a saúde, a educação e a habitação quando o azar lhes bater à porta e descobrirem que, afinal, a liberdade não é um substantivo individual, mas só é plena quando se escreve no coletivo.
A liberdade vai escasseando. E quase ninguém dá por isso. O espaço está mais estreito, mas nós vamo-nos encolhendo e achamos que continuamos a caber. Pior: convencem-nos de que a liberdade é um problema. A liberdade é tão elástica que pode ser usada pelos seus próprios inimigos. E eles não têm problemas nenhuns em usá-la para nos privarem dela.
Quando ouvirem alguém dizer que “agora já não se pode dizer nada”, saibam que é um inimigo da liberdade que o diz. Porque esse tempo antes deste “agora” era o momento em que muito poucos tinham toda a liberdade de esmagar todos os outros debaixo da repressão e da censura. O que antes se podia dizer, continua a ser dito, porque a liberdade também é isso. A diferença – e é isso que eles não suportam – é que agora o que dizem podem ser desdito, contraditado, questionado. Podem dizer tudo o que quiserem, deixaram foi de poder calar os outros.
A liberdade não funciona no vazio. Ela precisa de estruturas, feitas de leis que protejam os mais fracos, de uma igualdade material que a sustente. Não há liberdade a sério quando se tem a barriga vazia e se está à mercê de quem tem tudo e faz as regras.
Não se é livre sozinho. A liberdade constrói-se em comum, numa sociedade em que os direitos são respeitados e os mais fracos protegidos. Não há liberdade a sério quando é cada um por si e ganha o mais forte.
Os libertários são inimigos da liberdade. São os que a querem só para eles, sem limites, nem freios, porque se acham mais fortes do que todos os outros e querem usar essa posição de domínio para crescer esmagando os que ficarem por baixo.
Precisamos de falar de liberdade. Precisamos de nos lembrar do que é não a ter, precisamos de ver como ela está a desaparecer, deixando-nos as mãos mais atadas e as bocas caladas. Precisamos de saber que a liberdade não é só festa, é luta. E que não basta andar com um cravo na lapela e descer a avenida, se no dia a seguir nos calamos e encolhemos e fechamos os olhos às injustiças e deixamos que os novos donos da liberdade a vendam como flexibilidade, precariedade e competição pura.
O 25 de Abril é o dia da liberdade porque foi a revolução que nos trouxe “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Precisamos de voltar a cantar essa canção do Sérgio Godinho, porque está tudo lá. Não para celebrar o passado, mas para construir o futuro.
O 25 de Abril já aconteceu, mas ainda está a acontecer, se tivermos a força de nos agarrarmos a essa liberdade. O 25 de Abril é um dia que ainda não veio, que é preciso construir todos os dias. Porque a democracia e a liberdade nunca acabam de se fazer, a não ser quando morrem.
Aos que acham que está tudo feito, aos que se agarram ao passado, aos que acreditam que antes é que era bom ou que a revolução é só uma coisa ultrapassada, aos que fingem que não aconteceu nada, aos que sentem saudades do que foi ou do que podia ter sido, aos que chegaram agora e não sabem nada porque vêm com a ignorância de quem não precisou de aprender tudo da maneira mais difícil, aos que acham graça aos desfiles e usam cravos como adereços de moda vazios, aos que fazem comércio e aos que fazem escárnio. A todos esses precisamos de falar de liberdade, da liberdade a sério, construída em luta e festa, feita com todos e para todos, mesmo para os que não gostam dela, para que até esses possam dizer o que querem e que não lhes falte a saúde, a educação e a habitação quando o azar lhes bater à porta e descobrirem que, afinal, a liberdade não é um substantivo individual, mas só é plena quando se escreve no coletivo.
A face oculta do ‘tecnosolucionismo’ no mundo do trabalho
19 de fevereiro de 2024, segunda-feira. Cajamar, região metropolitana de São Paulo. Centro de Distribuição do Mercado Livre. Foi neste lugar e nesta data que, minutos após receber a notícia de que estava demitido, Luiz Felipe Dominicalli morreu por suicídio. Segundo os colegas, Luiz tinha o sonho de ser efetivado na empresa, até aquele momento ele trabalhava para uma terceirizada.
07 de abril de 2025, segunda-feira. Cajamar, região metropolitana de São Paulo. Centro de Distribuição do Mercado Livre. Foi neste lugar e nesta data que o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse o seguinte: “eu conheço muita fábrica de automóveis, eu conheço muita empresa da construção civil, eu conheço muita loja do comércio, muito shopping, eu conheço muito restaurante, eu conheço muitas fábricas em outro país, mas eu nunca tinha entrado em nada parecido com o que eu vi hoje aqui. Nunca vi!”.
Certamente, a declaração entusiasmada de Lula tem a ver com a percepção de que, como nunca antes na história (não apenas deste país), o mundo do trabalho é profundamente caracterizado pela centralidade tecnológica. É assim que o Mercado Livre se define: “somos uma empresa de tecnologia”, está escrito em seu próprio site, com “a entrega mais rápida do Brasil”. Naquele centro de distribuição, trabalhadores humanos e robôs dividem o mesmo espaço. Agilidade, ganho de tempo e aumento da produtividade são mencionados nos discursos dos representantes da empresa como resultados desta transformação que encantou Lula.
E o Mercado Livre não é um caso isolado. Como dito, o mundo do trabalho é, mais do que nunca, um mundo tecnológico. Esses mesmos ideais de velocidade, otimização do tempo e produtivismo pautam o trabalho mediado por plataformas digitais. O iFood, que também se apresenta como “uma empresa brasileira de tecnologia”, menciona em seu site que está desenvolvendo “modelos de inteligência artificial para fazer uma entrega cada vez mais personalizada, eficiente e confiável”.
Mas esta preponderância das tecnologias tem significado condições melhores de vida para os trabalhadores e trabalhadoras?
Tomemos o exemplo do iFood. Todos os entregadores que atuam para esta empresa estão submetidos a um indicador de classificação – o score, baseado em cinco critérios: pedidos entregues, pedidos coletados, avaliações, pontualidade e comparecimento. A explicação da empresa sobre o item pontualidade é simbólica desta lógica de aceleração: “se você entrega 10 pedidos e atrasa 60 minutos em apenas um deles, sua média é de 6 minutos de atraso por pedido”.
E se acontecer algo com o trabalhador no caminho de uma entrega? Bem, o iFood tem – como a própria empresa chama – “dicas de ouro para você manter seu score sempre alto”. Por si, a ideia de “manter o score sempre alto” já é reveladora da lógica de produzir sempre, trabalhar sempre. Mas o quadro é ainda mais perverso quando percebemos que as tais “dicas de ouro” são, na verdade, um atestado de “se vire” da empresa para os trabalhadores. Vejamos algumas:
– “Mantenha a bateria do celular acima de 15%, assim você evita deixar de fazer uma coleta ou uma entrega por falta de bateria no celular”;
– “Mantenha seu veículo com a manutenção em dia e com combustível suficiente para evitar problemas durante a rota”;
– “Confira o tempo indicado no app para deslocamento até a loja e até o cliente, e procure ser pontual”;
– “Cuide bem do pedido, evitando que ele caia ou fique virado na bag”.
– “Evite desvios de rota e cancelamentos de pedidos”.
As dicas de ouro do iFood ilustram com precisão a ideia de cidadania sacrificial, da pesquisadora Wendy Brown. Ao discutir este conceito, Rafael Grohmann, professor da Universidade de Toronto, diz que, deste modo, “os trabalhadores são obrigados a fazer a gestão das próprias sobrevivências com toda a sorte de vulnerabilidades, tendo de escutar que isso é um ‘privilégio’”.
O que aconteceu com Yuri de Souza, em 2022, também é emblemático disto. Onze dias após morrer fazendo entrega pelo iFood, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Yuri teve a sua conta desativada por “má conduta”. Dito de outra forma, o próprio Yuri foi responsabilizado por sua morte.
07 de abril de 2025, segunda-feira. Cajamar, região metropolitana de São Paulo. Centro de Distribuição do Mercado Livre. Foi neste lugar e nesta data que o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse o seguinte: “eu conheço muita fábrica de automóveis, eu conheço muita empresa da construção civil, eu conheço muita loja do comércio, muito shopping, eu conheço muito restaurante, eu conheço muitas fábricas em outro país, mas eu nunca tinha entrado em nada parecido com o que eu vi hoje aqui. Nunca vi!”.
Certamente, a declaração entusiasmada de Lula tem a ver com a percepção de que, como nunca antes na história (não apenas deste país), o mundo do trabalho é profundamente caracterizado pela centralidade tecnológica. É assim que o Mercado Livre se define: “somos uma empresa de tecnologia”, está escrito em seu próprio site, com “a entrega mais rápida do Brasil”. Naquele centro de distribuição, trabalhadores humanos e robôs dividem o mesmo espaço. Agilidade, ganho de tempo e aumento da produtividade são mencionados nos discursos dos representantes da empresa como resultados desta transformação que encantou Lula.
E o Mercado Livre não é um caso isolado. Como dito, o mundo do trabalho é, mais do que nunca, um mundo tecnológico. Esses mesmos ideais de velocidade, otimização do tempo e produtivismo pautam o trabalho mediado por plataformas digitais. O iFood, que também se apresenta como “uma empresa brasileira de tecnologia”, menciona em seu site que está desenvolvendo “modelos de inteligência artificial para fazer uma entrega cada vez mais personalizada, eficiente e confiável”.
Mas esta preponderância das tecnologias tem significado condições melhores de vida para os trabalhadores e trabalhadoras?
Tomemos o exemplo do iFood. Todos os entregadores que atuam para esta empresa estão submetidos a um indicador de classificação – o score, baseado em cinco critérios: pedidos entregues, pedidos coletados, avaliações, pontualidade e comparecimento. A explicação da empresa sobre o item pontualidade é simbólica desta lógica de aceleração: “se você entrega 10 pedidos e atrasa 60 minutos em apenas um deles, sua média é de 6 minutos de atraso por pedido”.
E se acontecer algo com o trabalhador no caminho de uma entrega? Bem, o iFood tem – como a própria empresa chama – “dicas de ouro para você manter seu score sempre alto”. Por si, a ideia de “manter o score sempre alto” já é reveladora da lógica de produzir sempre, trabalhar sempre. Mas o quadro é ainda mais perverso quando percebemos que as tais “dicas de ouro” são, na verdade, um atestado de “se vire” da empresa para os trabalhadores. Vejamos algumas:
– “Mantenha a bateria do celular acima de 15%, assim você evita deixar de fazer uma coleta ou uma entrega por falta de bateria no celular”;
– “Mantenha seu veículo com a manutenção em dia e com combustível suficiente para evitar problemas durante a rota”;
– “Confira o tempo indicado no app para deslocamento até a loja e até o cliente, e procure ser pontual”;
– “Cuide bem do pedido, evitando que ele caia ou fique virado na bag”.
– “Evite desvios de rota e cancelamentos de pedidos”.
As dicas de ouro do iFood ilustram com precisão a ideia de cidadania sacrificial, da pesquisadora Wendy Brown. Ao discutir este conceito, Rafael Grohmann, professor da Universidade de Toronto, diz que, deste modo, “os trabalhadores são obrigados a fazer a gestão das próprias sobrevivências com toda a sorte de vulnerabilidades, tendo de escutar que isso é um ‘privilégio’”.
O que aconteceu com Yuri de Souza, em 2022, também é emblemático disto. Onze dias após morrer fazendo entrega pelo iFood, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Yuri teve a sua conta desativada por “má conduta”. Dito de outra forma, o próprio Yuri foi responsabilizado por sua morte.
O que as empresas “de tecnologia” optam em não dizer é como esse tipo de “dicas de ouro” e as cobranças por agilidade e produtivismo têm provocado, direta e indiretamente, adoecimentos psíquicos e emocionais em trabalhadores e trabalhadoras, alguns resultando em morte.
Como escrito por Gabriel Teles, em texto no The Intercept, “a estética da instantaneidade — do rastreamento em tempo real, da entrega no mesmo dia, da vitrine virtual permanentemente abastecida — exige uma infraestrutura oculta. Essa infraestrutura não é feita apenas de inteligência artificial, robôs e softwares. É feita, sobretudo, de braços, pernas e espinhas tensionadas: trabalhadores e trabalhadoras que movem, embalam, separam e etiquetam, dia e noite, em jornadas marcadas pela vigilância e pela aceleração”.
Em entrevista a uma reportagem do Uol, Nicollas Gabriel, que trabalhou como terceirizado no mesmo local que Luiz Felipe, relatou que tem dificuldades para mexer três dedos das mãos, consequência, de acordo com o médico que o atendeu, dos movimentos repetitivos que fazia – apertar o gatilho das máquinas que leem os códigos dos produtos. “Se você falasse que já estava correndo, líderes diziam que dava para correr mais. Fui demitido por me recusar a subir escadas para colocar embalagens no alto.”, contou Nicollas, que tinha a meta de 2.000 produtos por dia, trabalhando das 14h às 22h, na escala 6×1.
Tanto em empresas como o Mercado Livre quanto no caso de trabalhadores de entregas, a exemplo do iFood, ou de motoristas por aplicativos, como a Uber, sintomas de exaustão física, problemas cardiovasculares e respiratórios, como consequências do excessivo tempo de trabalho sentado, da exposição constante à poluição urbana e da ausência de direitos trabalhistas, são comumente citados.
No caso dessas duas modalidades de trabalho – motoristas por aplicativo e entregadores – tem crescido, ano após ano, o número de ações judiciais que reivindicam o reconhecimento de vínculo empregatício com empresas como iFood e Uber: de 659 processos em 2019 para 9,6 mil em 2023. A maioria das solicitações, porém, tem sido rejeitada pela Justiça do Trabalho. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal tem sinalizado a necessidade de uma regulamentação legislativa. A esse respeito, está em tramitação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei Complementar (PLC) 12/2024, que estabelece direitos mínimos para motoristas por aplicativo (como salário mínimo mensal, jornada máxima de trabalho diário, contribuição previdenciária, licença-maternidade para motoristas mulheres e representação sindical específica, dentre outros). Vale enfatizar que a proposta não contempla trabalhadores e trabalhadoras dos serviços de entrega, visto que empresas como iFood, Rappi e Mercado Livre não participaram do acordo que resultou na proposta do PLC.
Vale lembrar, aliás, que algumas das principais empresas que atuam nestes setores, como Uber, Rappi e 99, obtiveram nota zero em todos os critérios de avaliação de condições de trabalho em plataformas digitais, de acordo com relatório do projeto Fairwork. O iFood obteve nota 2 (o máximo era 10). Os pesquisadores do projeto também chamam a atenção para a constante presença de representantes dessas empresas no Congresso Nacional, o que dificulta a aprovação de propostas legislativas que avancem na concretização dos direitos trabalhistas, a exemplo do PLC 12/2024.
Para complexificar a relação entre tecnologias e mundo do trabalho, este cenário é dependente da propagação diuturna daquilo que Byung-Chul Han qualifica como “sujeito de desempenho”. Ser proativo, ser mais rápido, adiantar tarefas são fatores que têm levado a aumentos significativos de depressão, transtornos de personalidade, síndromes de ansiedade, hiperatividade e burnout em trabalhadores e trabalhadoras.
“As metas abusivas me davam ansiedade. Quando saí de lá, achei que nunca mais conseguiria trabalho. Se mesmo ultrapassando as metas eu não fui aprovado, o que mais poderia fazer?”, foi o questionamento feito por Matheus Alves, ex-funcionário do Mercado Livre, que trabalhava na mesma equipe de Luiz Felipe.
Como agravante, para que funcionem como sujeitos de desempenho, os trabalhadores necessitam de um estado permanente de positividade nas relações de trabalho. Lembra do Luiz Felipe? Em nota após a sua morte, o Mercado Livre o tratou por “colaborador” e não “trabalhador”. Já Yuri, o iFood tratou por “parceiro”. Sabe o nome da sede principal do Mercado Livre no Brasil? Melicidade! Segundo a empresa, “é uma combinação do apelido MeLi com a palavra cidade, remetendo também à Felicidade”.
O panorama é ainda mais desafiador, dado o avanço de tecnologias de Inteligência Artificial em diferentes setores da vida social e nas dinâmicas laborais. Uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que 37% dos postos de trabalho no Brasil estão expostos à inteligência artificial generativa. Considerando os países da América Latina e do Caribe, o percentual do Brasil é inferior apenas ao da Costa Rica. São trabalhadores e trabalhadoras que podem, portanto, passar por mudanças cruciais nas formas de trabalho. Substituição por robôs, resultando em aumento do desemprego, e submissão a lógicas ainda mais perversas de produtividade estão entre os possíveis efeitos.
Outro aspecto relevante nesta questão tem a ver com o que a professora Fernanda Bruno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nomeou de “economia psíquica dos algoritmos”. Em seus estudos, Fernanda alerta para o fato dos dados psíquicos e emocionais, a exemplo dos sentimentos de angústia e ansiedade, como narrado acima por Matheus Alves, terem se convertido em ativos valiosos para o modelo de negócio das plataformas digitais.
Num mundo do trabalho cada vez mais conformado pela prevalência das tecnologias digitais, a felicidade referida pelo Mercado Livre não chega às famílias dos trabalhadores e trabalhadoras. Ao contrário, o que chegam são adoecimentos psíquicos e emocionais. Assim, o ‘tecnosolucionismo’ – com toda a ideologia que o sustenta e acompanha – revela-se uma falácia, uma estratégia que serve para reforçar a exploração da classe trabalhadora e ocultar as perversidades que seguem vitimando mulheres e homens do nosso país. É por isto que, nos tempos em que vivemos, o debate sobre trabalho é também um debate sobre tecnologias.
Como escrito por Gabriel Teles, em texto no The Intercept, “a estética da instantaneidade — do rastreamento em tempo real, da entrega no mesmo dia, da vitrine virtual permanentemente abastecida — exige uma infraestrutura oculta. Essa infraestrutura não é feita apenas de inteligência artificial, robôs e softwares. É feita, sobretudo, de braços, pernas e espinhas tensionadas: trabalhadores e trabalhadoras que movem, embalam, separam e etiquetam, dia e noite, em jornadas marcadas pela vigilância e pela aceleração”.
Em entrevista a uma reportagem do Uol, Nicollas Gabriel, que trabalhou como terceirizado no mesmo local que Luiz Felipe, relatou que tem dificuldades para mexer três dedos das mãos, consequência, de acordo com o médico que o atendeu, dos movimentos repetitivos que fazia – apertar o gatilho das máquinas que leem os códigos dos produtos. “Se você falasse que já estava correndo, líderes diziam que dava para correr mais. Fui demitido por me recusar a subir escadas para colocar embalagens no alto.”, contou Nicollas, que tinha a meta de 2.000 produtos por dia, trabalhando das 14h às 22h, na escala 6×1.
Tanto em empresas como o Mercado Livre quanto no caso de trabalhadores de entregas, a exemplo do iFood, ou de motoristas por aplicativos, como a Uber, sintomas de exaustão física, problemas cardiovasculares e respiratórios, como consequências do excessivo tempo de trabalho sentado, da exposição constante à poluição urbana e da ausência de direitos trabalhistas, são comumente citados.
No caso dessas duas modalidades de trabalho – motoristas por aplicativo e entregadores – tem crescido, ano após ano, o número de ações judiciais que reivindicam o reconhecimento de vínculo empregatício com empresas como iFood e Uber: de 659 processos em 2019 para 9,6 mil em 2023. A maioria das solicitações, porém, tem sido rejeitada pela Justiça do Trabalho. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal tem sinalizado a necessidade de uma regulamentação legislativa. A esse respeito, está em tramitação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei Complementar (PLC) 12/2024, que estabelece direitos mínimos para motoristas por aplicativo (como salário mínimo mensal, jornada máxima de trabalho diário, contribuição previdenciária, licença-maternidade para motoristas mulheres e representação sindical específica, dentre outros). Vale enfatizar que a proposta não contempla trabalhadores e trabalhadoras dos serviços de entrega, visto que empresas como iFood, Rappi e Mercado Livre não participaram do acordo que resultou na proposta do PLC.
Vale lembrar, aliás, que algumas das principais empresas que atuam nestes setores, como Uber, Rappi e 99, obtiveram nota zero em todos os critérios de avaliação de condições de trabalho em plataformas digitais, de acordo com relatório do projeto Fairwork. O iFood obteve nota 2 (o máximo era 10). Os pesquisadores do projeto também chamam a atenção para a constante presença de representantes dessas empresas no Congresso Nacional, o que dificulta a aprovação de propostas legislativas que avancem na concretização dos direitos trabalhistas, a exemplo do PLC 12/2024.
Para complexificar a relação entre tecnologias e mundo do trabalho, este cenário é dependente da propagação diuturna daquilo que Byung-Chul Han qualifica como “sujeito de desempenho”. Ser proativo, ser mais rápido, adiantar tarefas são fatores que têm levado a aumentos significativos de depressão, transtornos de personalidade, síndromes de ansiedade, hiperatividade e burnout em trabalhadores e trabalhadoras.
“As metas abusivas me davam ansiedade. Quando saí de lá, achei que nunca mais conseguiria trabalho. Se mesmo ultrapassando as metas eu não fui aprovado, o que mais poderia fazer?”, foi o questionamento feito por Matheus Alves, ex-funcionário do Mercado Livre, que trabalhava na mesma equipe de Luiz Felipe.
Como agravante, para que funcionem como sujeitos de desempenho, os trabalhadores necessitam de um estado permanente de positividade nas relações de trabalho. Lembra do Luiz Felipe? Em nota após a sua morte, o Mercado Livre o tratou por “colaborador” e não “trabalhador”. Já Yuri, o iFood tratou por “parceiro”. Sabe o nome da sede principal do Mercado Livre no Brasil? Melicidade! Segundo a empresa, “é uma combinação do apelido MeLi com a palavra cidade, remetendo também à Felicidade”.
O panorama é ainda mais desafiador, dado o avanço de tecnologias de Inteligência Artificial em diferentes setores da vida social e nas dinâmicas laborais. Uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que 37% dos postos de trabalho no Brasil estão expostos à inteligência artificial generativa. Considerando os países da América Latina e do Caribe, o percentual do Brasil é inferior apenas ao da Costa Rica. São trabalhadores e trabalhadoras que podem, portanto, passar por mudanças cruciais nas formas de trabalho. Substituição por robôs, resultando em aumento do desemprego, e submissão a lógicas ainda mais perversas de produtividade estão entre os possíveis efeitos.
Outro aspecto relevante nesta questão tem a ver com o que a professora Fernanda Bruno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nomeou de “economia psíquica dos algoritmos”. Em seus estudos, Fernanda alerta para o fato dos dados psíquicos e emocionais, a exemplo dos sentimentos de angústia e ansiedade, como narrado acima por Matheus Alves, terem se convertido em ativos valiosos para o modelo de negócio das plataformas digitais.
Num mundo do trabalho cada vez mais conformado pela prevalência das tecnologias digitais, a felicidade referida pelo Mercado Livre não chega às famílias dos trabalhadores e trabalhadoras. Ao contrário, o que chegam são adoecimentos psíquicos e emocionais. Assim, o ‘tecnosolucionismo’ – com toda a ideologia que o sustenta e acompanha – revela-se uma falácia, uma estratégia que serve para reforçar a exploração da classe trabalhadora e ocultar as perversidades que seguem vitimando mulheres e homens do nosso país. É por isto que, nos tempos em que vivemos, o debate sobre trabalho é também um debate sobre tecnologias.
A única guerra pela qual vale lutar
Como na velha marchinha, o Rio já amanheceu cantando. Quem sabe ensaiando para a grande festa de sábado, quando os banhistas da noite testarão seu inglês ao entoar, com a ilusão de sábios, que preferem morrer com um sorriso nos lábios.
Nos velhos anos dos 1930, enquanto o mundo se desentendia no comércio e flertava com a Segunda Guerra, Carmem Miranda ecoava os versos de Braguinha. A cidade amanhecia em flor, e os namorados iriam à rua em bandos, pois a primavera era a estação do amor.
Agora não há primavera. No outono do Hemisfério Sul, estão no Rio ministros de Relações Exteriores de mais de 11 países para debater a situação de um mundo instável.
Também já chegaram à cidade 30 mil participantes de um grande encontro de tecnologia, juntamente com os fãs da americana Lady Gaga, que canta no sábado para uma multidão de centenas de milhares de pessoas em Copacabana.
O mundo mudou, mas continua parecido. No Web Summit, fala-se de inteligência artificial. No antigo Palácio do Itamaraty, os chanceleres do Brics alertam para os riscos de uma grande guerra comercial. Como aquela que precedeu a dos campos de batalha.
Os inocentes de Copacabana (como os antigos do Leblon) tudo ignoram. Mas se preparam para o coro da praia, quando ouvirem os primeiros acordes do último grande sucesso da artista americana.
A canção, que ela gravou com Bruno Mars, fala de duas pessoas que não querem se despedir, mesmo que tudo vá pelos ares.
“Se o mundo estivesse acabando, eu gostaria de estar a seu lado”, entoará em inglês a grande plateia. “Se a festa tivesse terminado e nosso tempo na Terra também, eu gostaria de te abraçar só por um momento e morrer com um sorriso”.
A noite deve terminar bem. Os fãs voltarão para casa vivos, com seus sorrisos nos rostos. A turma da tecnologia, que invade a cidade pelo terceiro ano consecutivo, também vai embora satisfeita, com ideias para novos negócios.
Mas quem imagina como voltarão a seus países os ministros que precisarão tomar seus aviões antes de a festa sequer começar? Eles sabem que precisam escolher bem as palavras da declaração final prévia ao encontro de seus chefes, em julho.
Também no Rio, no inverno tropical, os líderes dos países que integram o Brics – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã – expressarão, em voz amplificada, os consensos esboçados no encontro desta semana.
Eles não deverão poupar os ouvidos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autor da guerra comercial que já contamina as relações políticas entre seu país e o resto do mundo. Ou, especialmente, as relações entre os Estados Unidos e um importante fundador do Brics – a China.
Por outro lado, o que dirão os integrantes do grupo se até julho não tiver sido encontrada uma solução pacífica para a guerra que, há três anos, envolve outro fundador – a Rússia – e a Ucrânia?
São questões ainda muito delicadas, com potencial de intoxicar as relações internacionais no futuro próximo. China, Rússia e os países do Sul Global que integram o Brics vão precisar acertar o tom das notas pelas quais vão se expressar.
O pragmatismo recomenda prudência. Os resultados podem ser modestos. Não está nas mãos apenas dos representantes dos países do Brics evitar guerras comerciais ou reais. E a inteligência artificial em debate no Riocentro ainda não foi capaz de desenhar soluções para o planeta.
Além disso, por enquanto estamos apenas nos ensaios. Os ministros buscam as palavras certas, os tecnólogos trocam informações e os milhares de fãs que vão a Copacabana ainda aprendem as letras das canções.
Como em tudo, porém, pode sempre restar um pequeno espaço para a poesia.
Dos três grupos que se encontram nessa esquina tropical, pelo menos o que vai se espalhar pelas areias da praia no sábado pode compartilhar sua muito humana canção. “O nosso amor”, os fãs poderão cantar, “é a única guerra pela qual vale lutar”.
Nos velhos anos dos 1930, enquanto o mundo se desentendia no comércio e flertava com a Segunda Guerra, Carmem Miranda ecoava os versos de Braguinha. A cidade amanhecia em flor, e os namorados iriam à rua em bandos, pois a primavera era a estação do amor.
Agora não há primavera. No outono do Hemisfério Sul, estão no Rio ministros de Relações Exteriores de mais de 11 países para debater a situação de um mundo instável.
Também já chegaram à cidade 30 mil participantes de um grande encontro de tecnologia, juntamente com os fãs da americana Lady Gaga, que canta no sábado para uma multidão de centenas de milhares de pessoas em Copacabana.
O mundo mudou, mas continua parecido. No Web Summit, fala-se de inteligência artificial. No antigo Palácio do Itamaraty, os chanceleres do Brics alertam para os riscos de uma grande guerra comercial. Como aquela que precedeu a dos campos de batalha.
Os inocentes de Copacabana (como os antigos do Leblon) tudo ignoram. Mas se preparam para o coro da praia, quando ouvirem os primeiros acordes do último grande sucesso da artista americana.
A canção, que ela gravou com Bruno Mars, fala de duas pessoas que não querem se despedir, mesmo que tudo vá pelos ares.
“Se o mundo estivesse acabando, eu gostaria de estar a seu lado”, entoará em inglês a grande plateia. “Se a festa tivesse terminado e nosso tempo na Terra também, eu gostaria de te abraçar só por um momento e morrer com um sorriso”.
A noite deve terminar bem. Os fãs voltarão para casa vivos, com seus sorrisos nos rostos. A turma da tecnologia, que invade a cidade pelo terceiro ano consecutivo, também vai embora satisfeita, com ideias para novos negócios.
Mas quem imagina como voltarão a seus países os ministros que precisarão tomar seus aviões antes de a festa sequer começar? Eles sabem que precisam escolher bem as palavras da declaração final prévia ao encontro de seus chefes, em julho.
Também no Rio, no inverno tropical, os líderes dos países que integram o Brics – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã – expressarão, em voz amplificada, os consensos esboçados no encontro desta semana.
Eles não deverão poupar os ouvidos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autor da guerra comercial que já contamina as relações políticas entre seu país e o resto do mundo. Ou, especialmente, as relações entre os Estados Unidos e um importante fundador do Brics – a China.
Por outro lado, o que dirão os integrantes do grupo se até julho não tiver sido encontrada uma solução pacífica para a guerra que, há três anos, envolve outro fundador – a Rússia – e a Ucrânia?
São questões ainda muito delicadas, com potencial de intoxicar as relações internacionais no futuro próximo. China, Rússia e os países do Sul Global que integram o Brics vão precisar acertar o tom das notas pelas quais vão se expressar.
O pragmatismo recomenda prudência. Os resultados podem ser modestos. Não está nas mãos apenas dos representantes dos países do Brics evitar guerras comerciais ou reais. E a inteligência artificial em debate no Riocentro ainda não foi capaz de desenhar soluções para o planeta.
Além disso, por enquanto estamos apenas nos ensaios. Os ministros buscam as palavras certas, os tecnólogos trocam informações e os milhares de fãs que vão a Copacabana ainda aprendem as letras das canções.
Como em tudo, porém, pode sempre restar um pequeno espaço para a poesia.
Dos três grupos que se encontram nessa esquina tropical, pelo menos o que vai se espalhar pelas areias da praia no sábado pode compartilhar sua muito humana canção. “O nosso amor”, os fãs poderão cantar, “é a única guerra pela qual vale lutar”.
'A guerra me mudou'
Até 2022, Konstantin Goncharov trabalhou como jornalista na Deutsche Welle. Com o início da invasão russa, alistou-se como soldado no exército ucraniano, como muitos outros compatriotas. Este é seu testemunho pessoal após três anos de guerra em seu país.
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| Konstantin Goncharov |
Nem sanções internacionais nem ameaças políticas conseguiram deter a agressão militar da Rússia. Vladimir Putin também não foi desacelerado por suas próprias perdas. Pelo contrário, cada derrota o obriga a buscar novas estratégias em vez de abandonar a guerra.
Por quase três anos, vi o exército russo mudar, o campo de batalha evoluir e nossas forças se adaptarem como um organismo vivo em um ambiente hostil. O exército ucraniano aprendeu não apenas a sobreviver, mas a transformar a guerra em vantagem com tecnologia avançada. Entretanto, nenhuma tecnologia pode substituir o mais importante nesta guerra: o soldado de infantaria que se apega à sua terra natal apesar do cansaço, da dor e do medo.
A primeira batalha na linha de frente é inesquecível: o chão treme, explosões rasgam o ar, casas queimam e bombas assobiam enquanto gritos podem ser ouvidos à distância. Esse foi meu primeiro contato com a brutalidade do conflito. Lembro-me das primeiras explosões de fogo, do cheiro de pólvora e de prédios em chamas impregnando cada respiração, de um gosto amargo e sulfuroso na boca, como se dezenas de fogos de artifício estivessem explodindo ao mesmo tempo. Mas não há comemoração aqui, apenas a dura realidade da guerra.
Meu serviço começou em uma brigada aerotransportada que libertou Kherson e Mykolaiv e lutou em Donetsk e Zaporizhia. Lutamos por cada posição, cada rua, cada ruína em cidades devastadas pelos bombardeios.
Depois de me ferir e passar meses em reabilitação, fui transferido para uma unidade de reconhecimento eletrônico. Minhas armas passaram de rifles para informações. Analisamos sinais de rádio para rastrear movimentos inimigos, drones e sistemas de guerra eletrônica.
O conflito mudou e os drones se tornaram um fator decisivo. No início, eram uma improvisação desesperada para compensar a falta de munição, mas hoje são armas precisas e letais. Trincheiras, abrigos, veículos blindados: tudo é um alvo em uma corrida entre operadores de drones para detectar, alcançar e destruir o inimigo primeiro.
Com o surgimento dos drones, a necessidade de neutralizá-los também cresceu. A guerra eletrônica está avançando em um ritmo surpreendente, nos forçando a mudar frequências e melhorar algoritmos diariamente. Não há espaço para complacência; Exige esforço constante de programadores e engenheiros.
Mas nenhum avanço tecnológico pode restaurar a energia daqueles que estão na linha de frente há anos. Após três anos de guerra, a rotação de tropas se tornou uma questão crítica. Soldados exaustos, esperando por substituição por semanas ou meses, perdem reflexos e moral. A falta de sono turva a mente, o corpo enfraquece com fome e sede. Você não pensa mais, apenas reage, você avança por instinto.
Muitos passaram meses ou anos sem retornar a uma vida normal. Mesmo um breve descanso permitirá que você recupere suas forças, mas o valor de cada unidade em condições de combate é incalculável. A maioria das linhas de frente está em uma postura defensiva, tornando impossível retirar tropas para descansar sem criar brechas que o inimigo exploraria imediatamente.
Paradoxalmente, nas cidades relativamente seguras do interior, a guerra é sentida de forma diferente: noites sem dormir devido às sirenes de ataque aéreo, uma sensação constante de antecipação de uma tragédia inevitável. Na frente, porém, tudo é claro: há uma missão, uma ordem, um inimigo. A única coisa que importa é ser eficaz, porque disso dependem não apenas a nossa sobrevivência, mas também as nossas chances de vitória.
A guerra me mudou. O que antes era abstrato se tornou uma rotina brutal, onde até os pequenos prazeres ganham um novo significado: uma xícara de chá quente, um momento de silêncio sem explosões. É realmente gratificante ver nossos drones frustrando ataques inimigos.
Claro que sonho em voltar para casa, para uma vida de paz. Quero deixar para trás as trincheiras congeladas, as rações de emergência e o cansaço constante. Mas estamos exaustos e não podemos desistir. Lutamos não apenas por nós mesmos, mas por aqueles que caíram e por aqueles que nos esperam em casa.
Não acredito em paz rápida. Não há espaço para concessões quando o agressor continua avançando e conquistando território. A Rússia não recuará sozinha; Somente a resistência organizada pode detê-lo. Enquanto a infantaria, os drones, a tecnologia e um espírito inquebrável trabalharem juntos, o inimigo não terá chance de avançar mais.
Cada atraso na ajuda internacional dá tempo à Rússia para se fortalecer. Isso é óbvio para qualquer um na linha de frente. Mas nossa luta continuará, independentemente das dúvidas políticas ou da indiferença de alguns líderes mundiais. Mesmo que haja aqueles que tentem nos culpar pela guerra, nossa resistência não enfraquecerá. Não estamos apenas defendendo nosso território: estamos defendendo nossa identidade e nosso direito a um futuro.
quarta-feira, 30 de abril de 2025
A extrema-direita e a fascinação das criptomoedas
A extrema-direita representada por Trump, Milei e Bolsonaro tem em comum as fake news, o discurso de ódio, a rejeição aos direitos humanos e a educação e à cultura; quer o fim do Estado para manter a desigualdade e o privilégio dos mais ricos. Esses são os pontos evidentes, mas uma questão um tanto obscura precisa ser investigada: seu irresistível amor às criptomoedas.
Um pouco antes de sua posse, o presidente dos Estados Unidos lançou a memecoin $TRUMP. A moeda chegou a valer 75 dólares; semana passada chegou aos 8 dólares, uma desvalorização de 83%. Por isso, foi anunciado grande desbloqueio de tokens com a liberação de cerca de US$ 320 milhões — o equivalente a 20% da oferta atual em circulação.
No dia 11 de março Trump derrubou uma norma da Receita Federal do país que obrigava corretoras de criptomoedas a fornecer informações fiscais sobre todas as suas transações. A norma, proposta durante o governo Biden, desejava reduzir a evasão fiscal no setor. Estimativas apontam que ao menos metade dessas operações não são tributadas, um prejuízo de quase US$ 4 bilhões nos próximos dez anos. Make America Great Again?
O caso Milei e a criptomoeda $LIBRA ainda dá dor de cabeça ao presidente argentino, ainda que as ações judiciais não envolvam seu nome. Em 14 de fevereiro, o economista usou seu perfil no X para promover a criptomoeda. A postagem foi feita apenas alguns minutos após seu lançamento, às 18h37. Por volta das 20h45, a $LIBRA colapsou, quando os primeiros investidores, que também tinham as maiores quantidades da moeda, venderam seus ativos e embolsaram seus lucros. A cotação passou dos US$ 5,54 para apenas US$ 0,96. Milei apagou seu tweet e postou outro comunicado, retirando seu apoio ao negócio.
A maior parte das moedas é adquirida por poucos grandes investidores, chamados de “whales”, que saem antes do colapso. Suspeita-se que tenha ocorrido um “Rug Pull” (ou “puxada de tapete”), quando os criadores de uma criptomoeda vendem grandes quantidades do ativo após inflacionar seu valor, abandonando os investidores. E quem fica com o prejuízo? Os pequenos investidores que acreditam em seus mitos.
O bolsonarismo ainda está devagar com criptomoedas, mas viveu um episódio suspeito. Em 24 de janeiro deste ano um post no perfil de Jair Bolsonaro no X promoveu a cripto $BRAZIL. Ficou no ar pouco mais de uma hora até ser apagado. Logo depois, Carlos Bolsonaro postou na mesma plataforma que “a conta do twitter de @jairbolsonaro foi invadida e roubada” e que medidas estão sendo tomadas para recuperar o perfil. E ficou por isso mesmo. Não se sabe quem invadiu nem se houve prejuízos com a divulgação. Será que foram os comunistas?
Na mesma linha de Milei, Eduardo Bolsonaro já publicou no X: “As criptomoedas representam liberdade. O dinheiro fica no seu bolso, e não tem como o presidente ou um Banco Central desvalorizarem o suor do seu trabalho”. Esse é o discurso. Com o argumento da “liberdade” muitos grupos de extrema-direita rejeitam a fiscalização de governos e bancos centrais. Descentralizadas, as criptomoedas conseguem escapar do controle estatal. E com isso se alimenta o discurso vazio e eficiente “anti-sistema” e “anti-globalista” presente na retórica extremista.
O The Daily Stormer (site neonazista) e outras organizações de extrema-direita, incluindo milícias e supremacistas brancos, incentivam doações em bitcoin. No ataque ao Capitólio em 2021 plataformas como a Gab (rede social de extrema-direita) e TheDonald.win (fórum pró-Trump) usaram criptomoedas para evitar bloqueios financeiros.
Curioso é que em 2019 Trump criticou as criptomoedas, chamando-as de “não-dinheiro” e baseadas no “ar”, defendendo o dólar como reserva global. Mas em 2022 passou a aceitar arrecadar em NFT, e em sua campanha presidencial, prometeu “terminar com a guerra contra as criptomoedas” se eleito. Promessa cumprida e a certeza de bons negócios para seus aliados.
É uma situação em que criptomoedas se assemelham às plataformas das redes sociais. Idealmente são um avanço, mas sem regulação, transparência e manipulada por poucos, são campo fértil para extremismos.
Um pouco antes de sua posse, o presidente dos Estados Unidos lançou a memecoin $TRUMP. A moeda chegou a valer 75 dólares; semana passada chegou aos 8 dólares, uma desvalorização de 83%. Por isso, foi anunciado grande desbloqueio de tokens com a liberação de cerca de US$ 320 milhões — o equivalente a 20% da oferta atual em circulação.
No dia 11 de março Trump derrubou uma norma da Receita Federal do país que obrigava corretoras de criptomoedas a fornecer informações fiscais sobre todas as suas transações. A norma, proposta durante o governo Biden, desejava reduzir a evasão fiscal no setor. Estimativas apontam que ao menos metade dessas operações não são tributadas, um prejuízo de quase US$ 4 bilhões nos próximos dez anos. Make America Great Again?
O caso Milei e a criptomoeda $LIBRA ainda dá dor de cabeça ao presidente argentino, ainda que as ações judiciais não envolvam seu nome. Em 14 de fevereiro, o economista usou seu perfil no X para promover a criptomoeda. A postagem foi feita apenas alguns minutos após seu lançamento, às 18h37. Por volta das 20h45, a $LIBRA colapsou, quando os primeiros investidores, que também tinham as maiores quantidades da moeda, venderam seus ativos e embolsaram seus lucros. A cotação passou dos US$ 5,54 para apenas US$ 0,96. Milei apagou seu tweet e postou outro comunicado, retirando seu apoio ao negócio.
A maior parte das moedas é adquirida por poucos grandes investidores, chamados de “whales”, que saem antes do colapso. Suspeita-se que tenha ocorrido um “Rug Pull” (ou “puxada de tapete”), quando os criadores de uma criptomoeda vendem grandes quantidades do ativo após inflacionar seu valor, abandonando os investidores. E quem fica com o prejuízo? Os pequenos investidores que acreditam em seus mitos.
O bolsonarismo ainda está devagar com criptomoedas, mas viveu um episódio suspeito. Em 24 de janeiro deste ano um post no perfil de Jair Bolsonaro no X promoveu a cripto $BRAZIL. Ficou no ar pouco mais de uma hora até ser apagado. Logo depois, Carlos Bolsonaro postou na mesma plataforma que “a conta do twitter de @jairbolsonaro foi invadida e roubada” e que medidas estão sendo tomadas para recuperar o perfil. E ficou por isso mesmo. Não se sabe quem invadiu nem se houve prejuízos com a divulgação. Será que foram os comunistas?
Na mesma linha de Milei, Eduardo Bolsonaro já publicou no X: “As criptomoedas representam liberdade. O dinheiro fica no seu bolso, e não tem como o presidente ou um Banco Central desvalorizarem o suor do seu trabalho”. Esse é o discurso. Com o argumento da “liberdade” muitos grupos de extrema-direita rejeitam a fiscalização de governos e bancos centrais. Descentralizadas, as criptomoedas conseguem escapar do controle estatal. E com isso se alimenta o discurso vazio e eficiente “anti-sistema” e “anti-globalista” presente na retórica extremista.
O The Daily Stormer (site neonazista) e outras organizações de extrema-direita, incluindo milícias e supremacistas brancos, incentivam doações em bitcoin. No ataque ao Capitólio em 2021 plataformas como a Gab (rede social de extrema-direita) e TheDonald.win (fórum pró-Trump) usaram criptomoedas para evitar bloqueios financeiros.
Curioso é que em 2019 Trump criticou as criptomoedas, chamando-as de “não-dinheiro” e baseadas no “ar”, defendendo o dólar como reserva global. Mas em 2022 passou a aceitar arrecadar em NFT, e em sua campanha presidencial, prometeu “terminar com a guerra contra as criptomoedas” se eleito. Promessa cumprida e a certeza de bons negócios para seus aliados.
É uma situação em que criptomoedas se assemelham às plataformas das redes sociais. Idealmente são um avanço, mas sem regulação, transparência e manipulada por poucos, são campo fértil para extremismos.
Por que os EUA perderão para a China
O “dia da libertação” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com suas supostas “tarifas recíprocas” contra o resto do mundo - possivelmente as propostas de política comercial mais excêntricas já feitas), tornou-se, depois de um recuo precipitado diante do fogo cerrado dos mercados, uma guerra comercial contra a China. Isso pode (ou não) ter sido o que se pretendia desde o início. Então, será que Trump conseguirá vencer? Mais do que isso, os EUA, como são agora, depois da segunda chegada de Trump à Casa Branca, podem ter a esperança de triunfar em sua rivalidade mais geral com a China? A resposta, nos dois casos, é “não”. E não porque a China seja invencível, longe disso. Mas porque os EUA estão jogando fora todos os ativos de que precisam para manter seu status no mundo contra uma potência tão enorme, capaz e determinada quanto a China.
“Guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, postou Trump em 2018. Como uma proposição geral, é falsa: estas guerras prejudicam os dois lados. Pode-se conseguir um acordo que deixe ambos em melhor situação do que antes. O mais provável é que qualquer acordo deixe um lado em uma situação melhor do que antes e o outro em uma situação pior. Este último tipo de acordo é, presume-se, o que Trump espera que surja: os EUA vencerão; a China perderá.
Neste momento, os EUA impõem uma tarifa de 145% sobre as importações chinesas, enquanto a China impõe uma tarifa de 125% sobre as dos EUA. A China também restringiu as exportações de “terras raras” para os EUA. Essas são barreiras comerciais muito fortes, na verdade efetivamente proibitivas. Isso se parece a um “impasse mexicano” entre as duas superpotências, um confronto que nenhuma pode vencer.
Dá-se a entender que o plano dos EUA (se é que existe um plano) é “persuadir” os parceiros comerciais a impor pesadas barreiras às importações da China em troca de um acordo comercial favorável (e talvez acordos em outras áreas, como a da segurança) com os EUA. Esse desfecho é verossímil? Não.
Os EUA não conseguirão os acordos que na aparência buscam e a vitória sobre a China que almejam. À medida que isso se tornar evidente, Trump recuará, pelo menos em parte, de suas guerras comerciais, declarará vitória e seguirá em outra direção
Uma das razões é que a China também tem cartas poderosas na manga. Muitas potências relevantes já têm um volume de comércio maior com a China do que com os EUA: entre elas estão Austrália, Brasil, Índia, Indonésia, Japão e Coreia do Sul. Sim, os EUA são um mercado de exportação mais importante do que a China para muitos países expressivos, em parte por causa dos déficits comerciais de que Trump reclama. Mas a China também é um mercado considerável para muitos. Além disso, a China é uma fonte de produtos importados essenciais, muitos dos quais não podem ser substituídos com facilidade. As importações são, no fim das contas, o propósito do comércio.
Acima de tudo, os EUA se tornaram pouco confiáveis. Um EUA “transacional” é um EUA que está sempre em busca de um acordo melhor. Nenhum país sensato deveria apostar seu futuro em um parceiro assim, em especial contra a China. O tratamento que Trump deu ao Canadá foi o momento de definição. Os canadenses responderam com a reeleição dos liberais. Será que Trump aprenderá algo com isso? Uma pessoa pode mudar radicalmente o que ela é? Isso é o que Trump é. Ele também é um homem que os eleitores americanos elegeram duas vezes. Além do mais, romper com a China seria arriscado: a China não esquecerá e dificilmente perdoará.
Não menos importante, a China acredita que seu povo pode aguentar o sofrimento econômico melhor do que os americanos. Além disso, para ela a guerra comercial é principalmente um choque de demanda, enquanto para os EUA é sobretudo um choque de oferta. É mais fácil repor a demanda perdida do que a oferta desaparecida.
Em suma, os EUA não conseguirão os acordos que aparentemente buscam e a vitória sobre a China que almejam. Minha suposição é que, à medida que isso se tornar evidente para a Casa Branca, Trump recuará, pelo menos em parte, de suas guerras comerciais, e declarará vitória ao mesmo tempo em que seguirá em outra direção.
Mas isso não muda a realidade de que os EUA estão de fato competindo com a China por influência mundial. Infelizmente, os EUA que muitos querem que tenham êxito nisso não são estes EUA.
Além do mais, os EUA de Trump não serão bem-sucedidos. Sua população é um quarto da China. Sua economia é praticamente do mesmo tamanho, porque o país é muito mais produtivo. Sua influência, cultural, intelectual e política, ainda é bem maior do que a da China, porque seus ideais e ideias são mais atraentes. Os EUA foram capazes de criar alianças poderosas com países que pensam do mesmo modo, o que reforça essa influência. Em resumo, os EUA herdaram e, assim, foram abençoados com ativos imensos.
Agora, considere o que acontece sob o regime de Trump: tentativas de transformar o Estado de Direito em um instrumento de vingança; o desmantelamento do governo dos EUA; desprezo pelas leis que são o fundamento de um governo legítimo; ataques à pesquisa científica e à independência das grandes universidades americanas; guerras contra estatísticas confiáveis; hostilidade em relação a imigrantes (e não apenas aos ilegais), embora eles tenham sido a base do sucesso dos EUA em todas as gerações; um repúdio total à medicina e às ciências do clima; a rejeição completa das ideias mais básicas sobre a economia do comércio; uma equiparação ou (muito pior do que isso) uma preferência por Vladimir Putin, o tirano da Rússia, com relação a Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia democrática; e o desprezo aberto pelo conjunto de alianças e instituições de cooperação internacional em que a ordem mundial construída pelos EUA se apoia. Tudo isso nas mãos de um movimento político que adotou a insurreição de janeiro de 2021.
Sim, a ordem econômica mundial de fato precisava de melhorias. Os argumentos em favor de uma transição da China para um crescimento impulsionado pelo consumo são irresistíveis. Também é evidente que muitas reformas são necessárias dentro dos EUA. Mas o que está acontecendo hoje não é uma reforma e sim a ruína dos alicerces do sucesso dos EUA, no âmbito interno e no exterior. Será difícil reverter os danos. Será impossível para as pessoas esquecerem quem e o que os causou.
Uns EUA que tentam substituir o Estado de Direito e a Constituição por um capitalismo de compadrio corrupto não superarão a China. Uns EUA puramente transacionais não terão o apoio incondicional de seus aliados. O mundo precisa de uns EUA que concorram e cooperem com a China. Os EUA que temos hoje, infelizmente, não conseguirão fazer nenhuma das duas coisas.
“Guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, postou Trump em 2018. Como uma proposição geral, é falsa: estas guerras prejudicam os dois lados. Pode-se conseguir um acordo que deixe ambos em melhor situação do que antes. O mais provável é que qualquer acordo deixe um lado em uma situação melhor do que antes e o outro em uma situação pior. Este último tipo de acordo é, presume-se, o que Trump espera que surja: os EUA vencerão; a China perderá.
Neste momento, os EUA impõem uma tarifa de 145% sobre as importações chinesas, enquanto a China impõe uma tarifa de 125% sobre as dos EUA. A China também restringiu as exportações de “terras raras” para os EUA. Essas são barreiras comerciais muito fortes, na verdade efetivamente proibitivas. Isso se parece a um “impasse mexicano” entre as duas superpotências, um confronto que nenhuma pode vencer.
Dá-se a entender que o plano dos EUA (se é que existe um plano) é “persuadir” os parceiros comerciais a impor pesadas barreiras às importações da China em troca de um acordo comercial favorável (e talvez acordos em outras áreas, como a da segurança) com os EUA. Esse desfecho é verossímil? Não.
Os EUA não conseguirão os acordos que na aparência buscam e a vitória sobre a China que almejam. À medida que isso se tornar evidente, Trump recuará, pelo menos em parte, de suas guerras comerciais, declarará vitória e seguirá em outra direção
Uma das razões é que a China também tem cartas poderosas na manga. Muitas potências relevantes já têm um volume de comércio maior com a China do que com os EUA: entre elas estão Austrália, Brasil, Índia, Indonésia, Japão e Coreia do Sul. Sim, os EUA são um mercado de exportação mais importante do que a China para muitos países expressivos, em parte por causa dos déficits comerciais de que Trump reclama. Mas a China também é um mercado considerável para muitos. Além disso, a China é uma fonte de produtos importados essenciais, muitos dos quais não podem ser substituídos com facilidade. As importações são, no fim das contas, o propósito do comércio.
Acima de tudo, os EUA se tornaram pouco confiáveis. Um EUA “transacional” é um EUA que está sempre em busca de um acordo melhor. Nenhum país sensato deveria apostar seu futuro em um parceiro assim, em especial contra a China. O tratamento que Trump deu ao Canadá foi o momento de definição. Os canadenses responderam com a reeleição dos liberais. Será que Trump aprenderá algo com isso? Uma pessoa pode mudar radicalmente o que ela é? Isso é o que Trump é. Ele também é um homem que os eleitores americanos elegeram duas vezes. Além do mais, romper com a China seria arriscado: a China não esquecerá e dificilmente perdoará.
Não menos importante, a China acredita que seu povo pode aguentar o sofrimento econômico melhor do que os americanos. Além disso, para ela a guerra comercial é principalmente um choque de demanda, enquanto para os EUA é sobretudo um choque de oferta. É mais fácil repor a demanda perdida do que a oferta desaparecida.
Em suma, os EUA não conseguirão os acordos que aparentemente buscam e a vitória sobre a China que almejam. Minha suposição é que, à medida que isso se tornar evidente para a Casa Branca, Trump recuará, pelo menos em parte, de suas guerras comerciais, e declarará vitória ao mesmo tempo em que seguirá em outra direção.
Mas isso não muda a realidade de que os EUA estão de fato competindo com a China por influência mundial. Infelizmente, os EUA que muitos querem que tenham êxito nisso não são estes EUA.
Além do mais, os EUA de Trump não serão bem-sucedidos. Sua população é um quarto da China. Sua economia é praticamente do mesmo tamanho, porque o país é muito mais produtivo. Sua influência, cultural, intelectual e política, ainda é bem maior do que a da China, porque seus ideais e ideias são mais atraentes. Os EUA foram capazes de criar alianças poderosas com países que pensam do mesmo modo, o que reforça essa influência. Em resumo, os EUA herdaram e, assim, foram abençoados com ativos imensos.
Agora, considere o que acontece sob o regime de Trump: tentativas de transformar o Estado de Direito em um instrumento de vingança; o desmantelamento do governo dos EUA; desprezo pelas leis que são o fundamento de um governo legítimo; ataques à pesquisa científica e à independência das grandes universidades americanas; guerras contra estatísticas confiáveis; hostilidade em relação a imigrantes (e não apenas aos ilegais), embora eles tenham sido a base do sucesso dos EUA em todas as gerações; um repúdio total à medicina e às ciências do clima; a rejeição completa das ideias mais básicas sobre a economia do comércio; uma equiparação ou (muito pior do que isso) uma preferência por Vladimir Putin, o tirano da Rússia, com relação a Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia democrática; e o desprezo aberto pelo conjunto de alianças e instituições de cooperação internacional em que a ordem mundial construída pelos EUA se apoia. Tudo isso nas mãos de um movimento político que adotou a insurreição de janeiro de 2021.
Sim, a ordem econômica mundial de fato precisava de melhorias. Os argumentos em favor de uma transição da China para um crescimento impulsionado pelo consumo são irresistíveis. Também é evidente que muitas reformas são necessárias dentro dos EUA. Mas o que está acontecendo hoje não é uma reforma e sim a ruína dos alicerces do sucesso dos EUA, no âmbito interno e no exterior. Será difícil reverter os danos. Será impossível para as pessoas esquecerem quem e o que os causou.
Uns EUA que tentam substituir o Estado de Direito e a Constituição por um capitalismo de compadrio corrupto não superarão a China. Uns EUA puramente transacionais não terão o apoio incondicional de seus aliados. O mundo precisa de uns EUA que concorram e cooperem com a China. Os EUA que temos hoje, infelizmente, não conseguirão fazer nenhuma das duas coisas.
Jogo sujo da CBF e da Nike
A notícia é que a CBF e a Nike devem lançar uma camisa vermelha para a seleção. A cor divide mesas de bar, famílias e timelines desde que virou sinônimo de comunismo, feminismo, gayzismo e outras palavras que a histeria aprendeu a gritar sem entender o que significa. Claro que causou alvoroço. Os patriotas do amarelo se sentem traídos. Os progressistas da Santa Cecília acham revolucionário. A CBF faz o que sabe: capitaliza.
O novo uniforme não é um gesto político, é uma planilha de Excel com costura. Não é homenagem aos povos indígenas ou qualquer outro banho de marketing com cara de conscientização social. Tampouco um manifesto contra o sequestro da identidade de um povo. A tonalidade é nova, o truque é velho: lança-se a polêmica, finge-se ousadia, alimenta-se a polarização —e assiste-se à mágica do engajamento virar lucro. De preferência, em três vezes sem juros.
Enquanto discutimos se na escala Pantone o vermelho é marxista-leninista, esquecemos da verdadeira aberração: a própria CBF. Uma entidade opaca, elitista, afundada em corrupção, comandada por cartolas que tratam o futebol como sua mina de ouro privada e o torcedor como um Pix ambulante. Pouco importa a cor da camisa —eles querem que você compre. De preferência, todas.
A confederação não tem problema em rasgar o próprio estatuto que define as regras para sua comunicação visual. Tem problema com transparência, com ética, com a ideia de que futebol é um patrimônio cultural dos brasileiros e não mercadoria premium para benefício de poucos. A camisa poderia ser lilás com bolinhas douradas; sem sair dessa estrutura viciada, continuará sendo oportunismo costurado com linha de cinismo.
A polêmica não está na cor, mas no oportunismo. A CBF vende neutralidade estilizada enquanto se esconde atrás dos nossos símbolos e manipula nossas paixões. Discutimos a paleta cromática como se dela dependesse o futuro da democracia. E nesse jogo sujo a parceria CBF e Nike segue invicta, enquanto a seleção e o país continuam a tomar de lavada.
Mariliz Pereira Jorge
O novo uniforme não é um gesto político, é uma planilha de Excel com costura. Não é homenagem aos povos indígenas ou qualquer outro banho de marketing com cara de conscientização social. Tampouco um manifesto contra o sequestro da identidade de um povo. A tonalidade é nova, o truque é velho: lança-se a polêmica, finge-se ousadia, alimenta-se a polarização —e assiste-se à mágica do engajamento virar lucro. De preferência, em três vezes sem juros.
Enquanto discutimos se na escala Pantone o vermelho é marxista-leninista, esquecemos da verdadeira aberração: a própria CBF. Uma entidade opaca, elitista, afundada em corrupção, comandada por cartolas que tratam o futebol como sua mina de ouro privada e o torcedor como um Pix ambulante. Pouco importa a cor da camisa —eles querem que você compre. De preferência, todas.
A confederação não tem problema em rasgar o próprio estatuto que define as regras para sua comunicação visual. Tem problema com transparência, com ética, com a ideia de que futebol é um patrimônio cultural dos brasileiros e não mercadoria premium para benefício de poucos. A camisa poderia ser lilás com bolinhas douradas; sem sair dessa estrutura viciada, continuará sendo oportunismo costurado com linha de cinismo.
A polêmica não está na cor, mas no oportunismo. A CBF vende neutralidade estilizada enquanto se esconde atrás dos nossos símbolos e manipula nossas paixões. Discutimos a paleta cromática como se dela dependesse o futuro da democracia. E nesse jogo sujo a parceria CBF e Nike segue invicta, enquanto a seleção e o país continuam a tomar de lavada.
Mariliz Pereira Jorge
Cuidado: chatbots
Um amigo veio me falar dos chatbots: "Cuidado! São um perigo! Se conversar com um deles, não diga nada que possa te comprometer! Não faça confidências, não peça conselhos e não acredite em tudo o que ele diz!". Envergonhado por não saber direito o que era um chatbot —nem como conversar com ele, se nunca lhe fui apresentado e não tenho ideia de onde vive—, apenas escutei e concordei enfaticamente. Assim descrito, o chatbot parecia ser tão desagradável quanto um bolsonarista, só que inteligente —o que o tornaria, aí, sim, perigoso.
Pela terminação do nome em bot, como em "robot", intuí brilhantemente que um chatbot seria um robô que fala. Algo como a linda robota de "Metrópolis" (1927), o Robbie de "Planeta Proibido" (1956) ou o C-3PO de "Guerra nas Estrelas" (1977). Mas, pelo que li no Google, esses avós da robótica não chegam nem ao chinelo de um chatbot —um programa de computador, baseado em inteligência artificial, que simula conversas com falantes em qualquer língua, nível intelectual e tipo de conteúdo. Se você tentar tapeá-lo falando na língua do P, ele te respespondeperapá no apatopó.
Pelo grau de evolução da coisa, ouvi que os cientistas estão alarmados, porque muitos chatbots, controlados por uma facção de algoritmos fora da lei, aprenderam a se passar por humanos. Se for verdade, isso comprometerá todas as relações pessoais e sociais. Em quem poderemos confiar? Chatbots "humanos" terão acesso aos centros de decisões mundiais, induzindo os poderosos a fazer coisas.
Um exemplo. Um chatbot disseminará uma fake news capaz de abalar um país. Um segundo chatbot o "denunciará" como um farsante, com o que se tornará digno de confiança, e disseminará outra fake news ainda mais grave —e nesta todos acreditarão—, iniciando talvez uma guerra. Você perguntará: por que eles fariam isso? Por causa da velha (e tão humana) ambição de dominar o mundo, curvando-o a um controle planetário.
Só uma coisa preocupa um chatbot: alguém arrancar seu fio da tomada da parede.
Pela terminação do nome em bot, como em "robot", intuí brilhantemente que um chatbot seria um robô que fala. Algo como a linda robota de "Metrópolis" (1927), o Robbie de "Planeta Proibido" (1956) ou o C-3PO de "Guerra nas Estrelas" (1977). Mas, pelo que li no Google, esses avós da robótica não chegam nem ao chinelo de um chatbot —um programa de computador, baseado em inteligência artificial, que simula conversas com falantes em qualquer língua, nível intelectual e tipo de conteúdo. Se você tentar tapeá-lo falando na língua do P, ele te respespondeperapá no apatopó.
Pelo grau de evolução da coisa, ouvi que os cientistas estão alarmados, porque muitos chatbots, controlados por uma facção de algoritmos fora da lei, aprenderam a se passar por humanos. Se for verdade, isso comprometerá todas as relações pessoais e sociais. Em quem poderemos confiar? Chatbots "humanos" terão acesso aos centros de decisões mundiais, induzindo os poderosos a fazer coisas.
Um exemplo. Um chatbot disseminará uma fake news capaz de abalar um país. Um segundo chatbot o "denunciará" como um farsante, com o que se tornará digno de confiança, e disseminará outra fake news ainda mais grave —e nesta todos acreditarão—, iniciando talvez uma guerra. Você perguntará: por que eles fariam isso? Por causa da velha (e tão humana) ambição de dominar o mundo, curvando-o a um controle planetário.
Só uma coisa preocupa um chatbot: alguém arrancar seu fio da tomada da parede.
Eterna miséria da humanidade.
Convencido de que a miséria está intimamente ligada à existência, não posso aderir a nenhuma doutrina humanitária. Elas me parecem, em sua totalidade, igualmente ilusórias e quiméricas. O próprio silêncio me parece um grito. Os animais - que vivem de seus próprios esforços - não conhecem a miséria, pois eles ignoram a hierarquia e a exploração. Este fenômeno somente aparece junto ao homem, o único que submeteu o seu igual; e somente o homem é capaz de tanto desprezo por si.
Toda a caridade do mundo não faz nada mais do que destacar a miséria, e rendê-la ainda mais revoltante do que a angústia absoluta. Frente à miséria, assim como frente às ruínas, nós deploramos uma ausência de humanidade, nós lamentamos que os homens não mudem radicalmente o que está em seu poder de mudança. Este sentimento mistura-se ao da eternidade da miséria, de seu caráter inelutável. Mesmo sabendo que os homens poderiam suprimir a miséria, nós estamos conscientes da sua permanência e acabamos por provar uma inabitual e amarga inquietude, um estado de alma perturbado e paradoxal, no qual o homem aparece em toda a sua inconsistência e pequenez. A miséria objetiva da vida social é, com efeito, apenas o pálido reflexo de uma miséria interior. E, só de pensar nisso, perco a vontade de viver. Eu deveria lançar minha pluma para chegar a um casebre em ruínas. Um desespero mortal me toma assim que evoco a terrível miséria do homem, sua decrepitude e gangrena. Em vez de elaborar teorias e de se apaixonar pelas ideologias, este animal racional faria melhor oferecendo tudo ao outro, até sua camisa - gesto de compreensão e de comunhão. A presença da miséria aqui embaixo compromete o homem mais do que tudo e faz compreender que este animal megalomaníaco é devotado a um fim catastrófico. Frente à miséria, tenho vergonha até da existência da música. A injustiça constitui a essência da vida social. Como aderir, sabendo disso, a qualquer doutrina?
A miséria destrói tudo na vida; rende-a infecciosa, hedionda e espectral. Existe a palidez aristocrática e a palidez da miséria: a primeira vem de um refinamento, a segunda de uma mumificação. Pois a miséria faz de todos um fantasma, ela cria sombras da vida e aparições estranhas, formas crepusculares como se saídas de um incêndio cósmico. Não há o menor traço de purificação em suas convulsões; somente o ódio, o desgosto e o azedume da carne. A miséria não concebe nada mais do que a doença numa alma inocente e angelical - e sua humildade não é imaculada; ela é venenosa, cruel e vingativa, e o compromisso ao que ela conduz esconde chagas e sofrimentos aguçados.
Não quero uma revolta relativa contra a injustiça. Admito apenas a revolta eterna, pois eterna é a miséria da humanidade.
Emil Cioran, "Nos cumes do desespero"
Toda a caridade do mundo não faz nada mais do que destacar a miséria, e rendê-la ainda mais revoltante do que a angústia absoluta. Frente à miséria, assim como frente às ruínas, nós deploramos uma ausência de humanidade, nós lamentamos que os homens não mudem radicalmente o que está em seu poder de mudança. Este sentimento mistura-se ao da eternidade da miséria, de seu caráter inelutável. Mesmo sabendo que os homens poderiam suprimir a miséria, nós estamos conscientes da sua permanência e acabamos por provar uma inabitual e amarga inquietude, um estado de alma perturbado e paradoxal, no qual o homem aparece em toda a sua inconsistência e pequenez. A miséria objetiva da vida social é, com efeito, apenas o pálido reflexo de uma miséria interior. E, só de pensar nisso, perco a vontade de viver. Eu deveria lançar minha pluma para chegar a um casebre em ruínas. Um desespero mortal me toma assim que evoco a terrível miséria do homem, sua decrepitude e gangrena. Em vez de elaborar teorias e de se apaixonar pelas ideologias, este animal racional faria melhor oferecendo tudo ao outro, até sua camisa - gesto de compreensão e de comunhão. A presença da miséria aqui embaixo compromete o homem mais do que tudo e faz compreender que este animal megalomaníaco é devotado a um fim catastrófico. Frente à miséria, tenho vergonha até da existência da música. A injustiça constitui a essência da vida social. Como aderir, sabendo disso, a qualquer doutrina?
A miséria destrói tudo na vida; rende-a infecciosa, hedionda e espectral. Existe a palidez aristocrática e a palidez da miséria: a primeira vem de um refinamento, a segunda de uma mumificação. Pois a miséria faz de todos um fantasma, ela cria sombras da vida e aparições estranhas, formas crepusculares como se saídas de um incêndio cósmico. Não há o menor traço de purificação em suas convulsões; somente o ódio, o desgosto e o azedume da carne. A miséria não concebe nada mais do que a doença numa alma inocente e angelical - e sua humildade não é imaculada; ela é venenosa, cruel e vingativa, e o compromisso ao que ela conduz esconde chagas e sofrimentos aguçados.
Não quero uma revolta relativa contra a injustiça. Admito apenas a revolta eterna, pois eterna é a miséria da humanidade.
Emil Cioran, "Nos cumes do desespero"
terça-feira, 29 de abril de 2025
'Uma pátria feita de palavras': o léxico do deslocamento em Gaza
Em Gaza, os deslocados criam uma linguagem de memória, perda e sobrevivência em meio ao genocídio em curso.
Na jornada do deslocamento, as famílias não carregam apenas seus pertences, elas carregam novas palavras, frases tecidas a partir da dor, do choque e do medo, e uma geografia que transborda da linguagem.
Em Gaza, o deslocamento não foi apenas um movimento físico, mas uma transformação linguística, emocional e existencial. Deu origem a um novo vernáculo — um Léxico dos Deslocados — não ensinado nas escolas, mas falado em tendas, sob escadas e nas beiradas das calçadas.
Em Gaza, onde as letras desmoronam sob o peso do sangue, os deslocados forjam uma linguagem paralela. Suas palavras são facas que rompem o muro do silêncio global. Seu vocabulário são rios fluindo sob os escombros das cidades, irrigando as raízes de árvores arrancadas.
Como escreveu certa vez o poeta Fadwa Tuqan:
Eu carreguei minha terra natal no meu coração…
E assim o coração se tornou uma pátria.
O exílio aqui não é uma jornada para terras estrangeiras, mas um estado onde a própria terra natal se torna irreconhecível: o exílio não acontece apenas fora, mas dentro de cada canto da nossa terra natal, onde a distância do familiar transforma a dor em lições e histórias.
É um lembrete de que, mesmo dentro do próprio país, o deslocamento forçado pode lançar uma sombra sobre a alma.
O exílio nem sempre é cruzar fronteiras, embarcar em um avião em um aeroporto distante ou esperar em um centro de processamento de refugiados.
Às vezes, o exílio é se deslocar de rua em rua, de bairro em bairro, do norte de Gaza para o sul. Um exílio dentro da terra natal, porém mais severo, porque obriga a pessoa a pisar em suas próprias memórias para sobreviver, a arrancar seu nome da porta de casa só para sobreviver.
A ironia é que os deslocados de Gaza nunca deixaram a Palestina; eles permaneceram presos em uma faixa de terra não mais larga que seis quilômetros.
E, no entanto, eles sussurram para si mesmos:
"Onde estou? Este não é o meu lugar."
“Esta rua não é minha… Estes não são os rostos que conheço.”
“Até o chamado para a oração aqui soa estranho… O ar em si é diferente.”
Lugares se tornam familiares apenas no nome, são vazios de pertencimento. Paredes que não ecoam seu riso não lhe pertencem.
O exílio dentro da pátria pode ser mais cruel do que no exterior, pois força você a se perguntar: "Onde fica meu lar? Onde fica minha verdadeira pátria?" Quando o lugar onde você nasceu lhe é roubado, o exílio se torna uma ferida que nunca cicatriza — uma lanterna que ilumina uma escuridão sem fim.
Exílio não é estar longe da sua terra natal, mas ver sua terra natal se distanciar de você, pedra por pedra, memória por memória.
Uma mala nunca é apenas um recipiente para pertences — é a prova do que não pode ser substituído. Tudo o que podíamos levar conosco era uma mala de saudade, cheia de fotos, memórias e fragmentos que simbolizam nossa terra.
É um testemunho da preservação de pedaços de um passado que o tempo não ousa apagar, onde cada objeto carrega um significado que vai além do espaço e do tempo.
Cada pessoa deslocada tem uma "mala da saudade", medida não pelo tamanho, mas pelo peso dos seus símbolos: uma fotografia, um terço, um livro, um cachecol, um perfume antigo. São pequenas coisas que não salvam o corpo, mas salvam a memória.
A mala da saudade não é uma mala comum abarrotada de roupas e papéis. É um museu móvel da existência. Cada item dentro dela carrega um significado mais pesado do que sua forma: uma chave enferrujada, uma fotografia desbotada, um pingente cheio de terra natal, talvez um pedaço de tecido do vestido de uma mãe, agora desaparecido.
Aqui, onde o valor é medido pela memória, não pelo ouro, a mala se torna uma pátria em miniatura — carregada no ombro enquanto a realidade é saqueada.
O mar é frequentemente mencionado nas palavras dos deslocados, não como um lugar para passeios, mas como uma solução final. A fuga em direção ao mar não era um desejo de nadar, mas de alcançar o mais distante possível de céu, ar e a mínima chance de vida.
Em Gaza, onde a terra encolhe e os muros explodem com tiros, o mar se torna o último limiar da vida, não uma fuga dela. Não é mais a vastidão azul cantada pelos poetas; agora, é um muro aquático que cerca a cidade por três lados, enquanto a morte se aproxima pelo quarto.
No léxico do deslocamento, “não há nada além do mar”.
O mar é a nossa última fronteira. Quando uma criança pergunta ao pai: "Para onde vamos se bombardearem a barraca?", a resposta é sempre: "O mar... Não há lugar além dele."
É a nossa única direção: nos mapas dos deslocados, não há setas apontando para o norte ou para o sul — apenas uma, apontando para o oeste, onde as ondas se recusam a servir de refúgio.
Este léxico é o novo batimento cardíaco de Gaza: uma pátria feita de palavras que se recusa a morrer.
Na jornada do deslocamento, as famílias não carregam apenas seus pertences, elas carregam novas palavras, frases tecidas a partir da dor, do choque e do medo, e uma geografia que transborda da linguagem.
Em Gaza, o deslocamento não foi apenas um movimento físico, mas uma transformação linguística, emocional e existencial. Deu origem a um novo vernáculo — um Léxico dos Deslocados — não ensinado nas escolas, mas falado em tendas, sob escadas e nas beiradas das calçadas.
Em Gaza, onde as letras desmoronam sob o peso do sangue, os deslocados forjam uma linguagem paralela. Suas palavras são facas que rompem o muro do silêncio global. Seu vocabulário são rios fluindo sob os escombros das cidades, irrigando as raízes de árvores arrancadas.
Como escreveu certa vez o poeta Fadwa Tuqan:
Eu carreguei minha terra natal no meu coração…
E assim o coração se tornou uma pátria.
O exílio aqui não é uma jornada para terras estrangeiras, mas um estado onde a própria terra natal se torna irreconhecível: o exílio não acontece apenas fora, mas dentro de cada canto da nossa terra natal, onde a distância do familiar transforma a dor em lições e histórias.
É um lembrete de que, mesmo dentro do próprio país, o deslocamento forçado pode lançar uma sombra sobre a alma.
O exílio nem sempre é cruzar fronteiras, embarcar em um avião em um aeroporto distante ou esperar em um centro de processamento de refugiados.
Às vezes, o exílio é se deslocar de rua em rua, de bairro em bairro, do norte de Gaza para o sul. Um exílio dentro da terra natal, porém mais severo, porque obriga a pessoa a pisar em suas próprias memórias para sobreviver, a arrancar seu nome da porta de casa só para sobreviver.
A ironia é que os deslocados de Gaza nunca deixaram a Palestina; eles permaneceram presos em uma faixa de terra não mais larga que seis quilômetros.
E, no entanto, eles sussurram para si mesmos:
"Onde estou? Este não é o meu lugar."
“Esta rua não é minha… Estes não são os rostos que conheço.”
“Até o chamado para a oração aqui soa estranho… O ar em si é diferente.”
Lugares se tornam familiares apenas no nome, são vazios de pertencimento. Paredes que não ecoam seu riso não lhe pertencem.
O exílio dentro da pátria pode ser mais cruel do que no exterior, pois força você a se perguntar: "Onde fica meu lar? Onde fica minha verdadeira pátria?" Quando o lugar onde você nasceu lhe é roubado, o exílio se torna uma ferida que nunca cicatriza — uma lanterna que ilumina uma escuridão sem fim.
Exílio não é estar longe da sua terra natal, mas ver sua terra natal se distanciar de você, pedra por pedra, memória por memória.
Uma mala nunca é apenas um recipiente para pertences — é a prova do que não pode ser substituído. Tudo o que podíamos levar conosco era uma mala de saudade, cheia de fotos, memórias e fragmentos que simbolizam nossa terra.
É um testemunho da preservação de pedaços de um passado que o tempo não ousa apagar, onde cada objeto carrega um significado que vai além do espaço e do tempo.
Cada pessoa deslocada tem uma "mala da saudade", medida não pelo tamanho, mas pelo peso dos seus símbolos: uma fotografia, um terço, um livro, um cachecol, um perfume antigo. São pequenas coisas que não salvam o corpo, mas salvam a memória.
A mala da saudade não é uma mala comum abarrotada de roupas e papéis. É um museu móvel da existência. Cada item dentro dela carrega um significado mais pesado do que sua forma: uma chave enferrujada, uma fotografia desbotada, um pingente cheio de terra natal, talvez um pedaço de tecido do vestido de uma mãe, agora desaparecido.
Aqui, onde o valor é medido pela memória, não pelo ouro, a mala se torna uma pátria em miniatura — carregada no ombro enquanto a realidade é saqueada.
O mar é frequentemente mencionado nas palavras dos deslocados, não como um lugar para passeios, mas como uma solução final. A fuga em direção ao mar não era um desejo de nadar, mas de alcançar o mais distante possível de céu, ar e a mínima chance de vida.
Em Gaza, onde a terra encolhe e os muros explodem com tiros, o mar se torna o último limiar da vida, não uma fuga dela. Não é mais a vastidão azul cantada pelos poetas; agora, é um muro aquático que cerca a cidade por três lados, enquanto a morte se aproxima pelo quarto.
No léxico do deslocamento, “não há nada além do mar”.
O mar é a nossa última fronteira. Quando uma criança pergunta ao pai: "Para onde vamos se bombardearem a barraca?", a resposta é sempre: "O mar... Não há lugar além dele."
É a nossa única direção: nos mapas dos deslocados, não há setas apontando para o norte ou para o sul — apenas uma, apontando para o oeste, onde as ondas se recusam a servir de refúgio.
Este léxico é o novo batimento cardíaco de Gaza: uma pátria feita de palavras que se recusa a morrer.
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