sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Quando as nações deixam de aprender

“A maior necessidade de um Estado é a de governar-se segundo a razão, e não segundo a opinião.”
Baruch Spinoza

Quando uma guerra termina, é relativamente fácil identificar os danos sofridos por um país. Pontes destruídas, cidades reduzidas a escombros, usinas bombardeadas, ferrovias interrompidas e fábricas transformadas em ruínas tornam-se imagens emblemáticas da devastação. A reconstrução costuma começar exatamente por esses símbolos mais visíveis: reerguem-se edifícios, restauram-se estradas, substituem-se máquinas, recompõem-se linhas de transmissão de energia. Aos poucos, a paisagem volta a transmitir a impressão de normalidade.

Existe, porém, uma forma de destruição mais silenciosa – e talvez mais profunda. Ela não aparece em fotografias aéreas, não pode ser detectada por satélites e não deixa colunas de fumaça, crateras ou edifícios em ruínas. Seus efeitos só se tornam visíveis muitos anos depois, quando uma sociedade percebe que já não consegue compreender a realidade, corrigir os próprios erros nem responder aos desafios de seu tempo. Trata-se da destruição de seus ecossistemas de aprendizagem.


Universidades, laboratórios nacionais, escolas de engenharia, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de fomento, empresas inovadoras e comunidades de pesquisadores constituem uma infraestrutura tão estratégica quanto os portos, as hidrelétricas ou as redes de transporte. É nesse ambiente que as informações se transformam em conhecimento; este converte-se em tecnologia, e tecnologia passa a sustentar prosperidade, segurança e soberania.

Uma fábrica produz muito mais do que bens. Ela articula engenheiros, fornecedores, técnicos especializados, universidades, laboratórios e competências produtivas acumuladas ao longo de décadas. Quando uma fábrica fecha, não desaparece apenas uma linha de produção. Desfaz-se um ecossistema inteiro de conhecimento tácito, relações de confiança e capacidades tecnológicas cuja reconstrução exige muito mais do que investimentos financeiros: exige tempo, continuidade e novas gerações de profissionais. O mesmo ocorre com as instituições científicas.

Um laboratório não produz apenas artigos. Uma universidade não produz apenas diplomas. Uma agência de pesquisa não distribui apenas recursos. Todas elas integram uma complexa rede de organizações cuja função mais importante talvez seja a mais difícil de perceber: permitir que uma sociedade aprenda continuamente com a realidade, revise suas convicções à luz das evidências e transforme esse aprendizado em desenvolvimento nacional.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas institucionais da civilização: aprender continuamente com a realidade e corrigir os próprios erros.

E é justamente essa capacidade que o obscurantismo ameaça.

Existe uma pergunta simples capaz de iluminar alguns dos episódios mais dramáticos da história moderna.

O que acontece quando governos deixam de perguntar “o que a realidade nos ensina?” e passam a perguntar apenas “o que confirma aquilo em que já acreditamos?”

À primeira vista, a resposta parece evidente. A experiência histórica, entretanto, revela algo muito mais inquietante.

O obscurantismo raramente chega ao poder prometendo ignorância. Ao contrário, costuma apresentar-se como uma alternativa prática à lentidão da ciência, oferecendo respostas rápidas para os problemas reais e complexos. É justamente essa promessa de simplicidade que lhe confere enorme força política.

Na Alemanha nazista, a pseudociência racial buscava legitimar o projeto de supremacia ariana sob a aparência de rigor científico. Por influência de Heinrich Himmler, instituições como a Ahnenerbe mobilizaram arqueólogos, antropólogos e até ocultistas em expedições e estudos destinados a “comprovar” uma ancestralidade ariana superior. O objetivo não era produzir conhecimento, mas conferir autoridade científica a uma ideologia previamente definida. Sempre que a ideologia passa a determinar quais respostas são aceitáveis, a ciência deixa de corrigir os erros da sociedade e passa a servi-los.

Na União Soviética, o contexto era dramaticamente diferente. A Revolução de 1917 dera origem a um regime ainda jovem, que enfrentara guerra civil, intervenções militares estrangeiras, isolamento internacional e a profunda desorganização da produção agrícola. As políticas de coletivização agravaram ainda mais a instabilidade no campo, e as sucessivas quebras de safra transformaram a segurança alimentar em uma questão de sobrevivência política.

Os geneticistas ofereciam um caminho cientificamente sólido, mas inevitavelmente lento. O melhoramento genético exige sucessivas gerações de plantas, experimentação rigorosa e acumulação gradual de conhecimento. A natureza simplesmente não obedece ao calendário dos governos. O agrônomo Trofim Lysenko, ao contrário, prometia aumentar rapidamente a produtividade agrícola sem esperar pelo longo trabalho da pesquisa genética. Enquanto os cientistas pediam tempo para compreender a hereditariedade, Lysenko oferecia exatamente aquilo que dirigentes pressionados pela urgência desejavam ouvir: uma solução imediata.

No Haiti, após chegar ao poder em 1957, em um país marcado por extrema pobreza, uma baixa escolarização e instituições frágeis, François “Papa Doc” Duvalier compreendeu que o medo poderia ser um instrumento de governo tão eficaz quanto a violência. Em vez de depender apenas da repressão exercida pelos Tontons Macoutes, seu temido grupo paramilitar, apropriou-se deliberadamente do imaginário religioso popular, explorando símbolos associados ao vodu e cultivando a imagem de um líder dotado de poderes sobrenaturais. O objetivo não era promover uma religião, mas dificultar a distinção entre autoridade política, superstição e obediência, tornando a resistência psicológica tão difícil quanto a resistência física.

Os contextos históricos eram profundamente diferentes. As ideologias também.

O mecanismo, porém, era notavelmente semelhante.

Em todos esses casos, instituições destinadas a produzir conhecimento foram gradualmente substituídas por organismos dedicados a confirmar crenças. A evidência deixou de orientar o poder; passou a ser selecionada por ele. E, quando uma sociedade perde a capacidade de corrigir seus próprios erros, inicia-se um processo de deterioração que dificilmente se limita à ciência. Mais cedo ou mais tarde, ele alcança a economia, a tecnologia, a educação, a capacidade militar e, em última análise, a própria soberania nacional.
Quando uma civilização decide voltar a aprender

Se a história terminasse com Lysenko, Himmler ou Papa Doc, o quadro seria profundamente desalentador. Restaria concluir que sociedades que destroem seus ecossistemas de aprendizagem estão condenadas a um lento e inevitável declínio. A experiência histórica, entretanto, oferece uma resposta muito mais interessante. Ela mostra que essas capacidades podem ser reconstruídas. Não rapidamente. Não sem enormes custos humanos, econômicos e institucionais. Mas podem.

A história recente da China oferece um dos exemplos mais impressionantes desse processo de reconstrução.

Durante boa parte do século XIX, uma civilização que, por séculos, estivera entre as mais sofisticadas do mundo descobriu, da forma mais dolorosa possível, que havia perdido a liderança tecnológica. A derrota nas Guerras do Ópio representou muito mais do que um mero revés militar. Pela primeira vez, uma potência asiática milenar era obrigada a reconhecer que ciência, engenharia e indústria haviam se tornado os verdadeiros fundamentos do poder internacional. A humilhação não decorria apenas da derrota; decorria da constatação de que um império inteiro podia ser submetido por nações que haviam aprendido a transformar conhecimento em capacidade militar, econômica e tecnológica.

Nascia ali aquilo que os chineses passaram a chamar de “século de humilhação”. A expressão não designa apenas a perda de territórios ou imposição de tratados desiguais. Ela traduz uma memória histórica muito mais profunda: a percepção de que a dependência tecnológica representa uma vulnerabilidade nacional. Essa ideia atravessou gerações, sobreviveu à queda do Império, às guerras civis, à invasão japonesa e à própria fundação da República Popular. Tornou-se parte da maneira como a China passou a interpretar sua posição no mundo.

Porém, paradoxalmente, a própria Revolução Cultural produziu um segundo trauma. Ao fechar universidades, perseguir professores, interromper pesquisas científicas e enviar intelectuais para programas de “reeducação”, a China passou a destruir internamente exatamente aquilo que pretendia recuperar diante do mundo: sua capacidade de aprender. Poucas experiências históricas mostram de modo tão dramático até que ponto uma sociedade pode se voltar contra o próprio patrimônio intelectual.

A inflexão iniciada em 1978 foi, por isso, muito mais profunda do que uma simples abertura econômica. Ela representou uma mudança na própria compreensão do desenvolvimento. A prioridade deixou de ser a pureza ideológica das teorias e passou a ser a aptidão de resolver problemas concretos. Em vez de perguntar quais ideias eram politicamente mais corretas, o Estado passou a perguntar quais permitiam aumentar a produtividade, acelerar a inovação e ampliar a capacidade tecnológica do país.

Essa mudança de perspectiva reorganizou todo o ecossistema nacional de aprendizagem. Universidades foram reconstruídas, institutos de pesquisa voltaram a funcionar, laboratórios receberam investimentos maciços, milhares de estudantes foram enviados às melhores instituições do exterior e empresas passaram a incorporar, de forma crescente, o conhecimento produzido nas universidades. Tratava-se de reconstruir a capacidade de uma sociedade inteira de produzir, transmitir e renovar conhecimento.

Reconstruir universidades significava, portanto, muito mais do que restaurar campi destruídos. Significava ampliar extraordinariamente o acesso ao ensino superior, formar uma nova geração de pesquisadores, conectar ciência e indústria e transformar o conhecimento em patrimônio nacional compartilhado. A verdadeira reconstrução não ocorreu apenas nos laboratórios; ocorreu sobretudo na ampliação da base humana capaz de fazê-los funcionar.

Costuma-se atribuir o extraordinário desenvolvimento da Alemanha, do Japão, da Coreia do Sul e da China a fatores culturais, como a suposta valorização tradicional da educação. Embora essa interpretação contenha parte da verdade, dificilmente ela explica o conjunto da história.

Os quatro países passaram por algumas das maiores catástrofes do século XX. A Alemanha terminou a Segunda Guerra Mundial com cidades destruídas, infraestrutura em ruínas e boa parte de sua comunidade científica dispersa. O Japão sofreu duas bombas atômicas, devastação industrial sem precedentes e anos de ocupação estrangeira. A Coreia saiu da guerra dos anos 1950 como um dos países mais pobres do planeta. A China enfrentou décadas de guerra civil, invasão estrangeira e uma Revolução Cultural que praticamente desarticulou suas universidades.

Nenhum deles dispunha de abundância excepcional de recursos naturais. Nenhum encontrou atalhos tecnológicos. Nenhum escapou ao elevado custo da reconstrução.

O que reconstruíram, acima de tudo, foram instituições capazes de aprender.

Talvez essa seja a verdadeira riqueza das nações. Não apenas universidades, empresas ou laboratórios, mas também a capacidade de formar, geração após geração, engenheiros, pesquisadores, empresários, professores e gestores públicos capazes de aprender com a realidade e transformar esse aprendizado em inovação, produtividade e desenvolvimento. É essa capacidade – muito mais do que qualquer descoberta isolada, recurso natural ou vantagem geográfica – que ajuda a explicar por que algumas sociedades conseguem recuperar-se de derrotas aparentemente irreversíveis, enquanto outras permanecem aprisionadas, por décadas, nas consequências de seus próprios equívocos.

Naturalmente, essas relações não são mecânicas nem inevitáveis. Ecossistemas de aprendizagem podem preservar capacidades importantes mesmo sob ambientes políticos adversos, assim como países dotados de organizações científicas sólidas nem sempre conseguem convertê-las plenamente em desenvolvimento econômico. Ainda assim, a experiência histórica sugere que, no longo prazo, o aprendizado contínuo constitui uma condição necessária, embora não suficiente, para a prosperidade e a soberania das nações.

Os efeitos mais profundos do obscurantismo raramente recaem sobre os cientistas que ele persegue.

Recaem sobretudo sobre aqueles que ainda nem chegaram às universidades.

Existe uma característica das instituições de conhecimento que costuma não receber a devida atenção. Elas não produzem apenas descobertas; produzem sucessores. Cada professor forma novos professores. Cada pesquisador forma novos pesquisadores. Cada engenheiro experiente transmite aos mais jovens conhecimentos que dificilmente aparecem em livros: métodos experimentais, critérios de julgamento, maneiras de formular perguntas, hábitos intelectuais e, talvez acima de tudo, a disposição para abandonar convicções quando elas deixam de resistir às evidências.

Essa transmissão constitui um patrimônio essencialmente cultural. Ela ocorre lentamente, de geração em geração, e, exatamente, por isso representa uma das formas mais valiosas de riqueza acumulada por uma sociedade.

Raramente as sociedades ensinam o mundo tal como ele é no presente. Com frequência, ensinam o mundo tal como foi compreendido pela geração que ocupa as salas de aula, as redações, os governos e as instituições. Cada geração transmite à seguinte algo que vai além de informações: transmite mapas mentais, critérios sobre o que considera plausível, confiável, ameaçador ou verdadeiro. Por isso, mudanças profundas na maneira de pensar raramente acompanham o ritmo dos ciclos eleitorais. Elas se propagam lentamente, como uma herança cognitiva.

É justamente nesse ponto que o obscurantismo revela sua face mais duradoura.

Quando uma geração cresce aprendendo a desconfiar da ciência, dificilmente formará organizações que valorizem o conhecimento técnico. Quando especialistas passam a ser apresentados como inimigos, universidades como centros de doutrinação e evidências científicas como simples opiniões políticas, o dano ultrapassa em muito a esfera do debate público. Ele modifica a própria forma pela qual uma sociedade aprende a distinguir fatos de narrativas, conhecimento de crença, investigação de propaganda.

Por isso, reconstruir um ecossistema de aprendizagem é muito mais difícil do que reconstruir seus edifícios.

Universidades podem ser reabertas em poucos anos. Laboratórios podem receber novos equipamentos. As agências científicas podem recuperar seus orçamentos. Muito mais lenta, entretanto, é a reconstrução da confiança social na ciência, do respeito à investigação independente e da cultura intelectual necessária para que novas gerações voltem a produzir conhecimento de qualidade.

Essa talvez seja uma das maiores assimetrias do desenvolvimento.

Destruir leva poucos anos.

Reconstruir exige uma geração inteira.

Essa constatação convida a ampliar o próprio conceito de infraestrutura.

Costumamos associar essa palavra a pontes, portos, ferrovias, usinas hidrelétricas, rodovias ou redes elétricas. Todas são indispensáveis ao funcionamento da economia moderna. Existe, porém, outra infraestrutura, muito menos visível, sem a qual nenhuma delas consegue sustentar prosperidade por muito tempo.

O substrato cognitivo de uma sociedade é formado por escolas, universidades, laboratórios nacionais, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de pesquisa, sistemas de avaliação por pares, editoras acadêmicas e por uma cultura pública que reconhece o valor da evidência, da crítica e do debate racional.

Há, entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado. Ecossistemas de aprendizagem não dependem apenas da existência dessas instituições; dependem também da capacidade de mobilizar o talento disponível em toda a população. Sempre que barreiras de origem social, raça, gênero, religião ou outras formas de discriminação impedem parte da sociedade de desenvolver plenamente suas capacidades, o prejuízo ultrapassa a esfera dos direitos individuais. Trata-se também de uma perda de inteligência coletiva. Nenhuma nação alcança liderança científica desperdiçando sistematicamente parte de seus próprios talentos.

Essa infraestrutura produz algo que nenhum decreto consegue criar: capacidade nacional.

Ao longo deste ensaio, argumentou-se que o fechamento de uma fábrica representa muito mais do que a simples interrupção de uma linha de produção. Desaparece um ecossistema de fornecedores, engenheiros, técnicos, laboratórios e conhecimentos acumulados durante décadas. Com as organizações científicas ocorre exatamente o mesmo. Quando uma universidade perde seus pesquisadores, quando uma agência científica é sistematicamente deslegitimada ou quando bibliotecas passam a retirar livros de circulação por razões ideológicas, não desaparecem apenas organizações isoladas. Começa a deteriorar-se o próprio sistema responsável por produzir e renovar conhecimento.

Os efeitos dessa erosão dificilmente aparecem nas estatísticas do ano seguinte. Manifestam-se 20 ou 30 anos depois, quando aquela geração chega às empresas, aos hospitais, às universidades, aos laboratórios, às escolas e aos governos. É nesse momento que um problema aparentemente cultural revela sua verdadeira dimensão. O atraso deixa de ser apenas científico. Converte-se em atraso tecnológico, econômico, institucional e, por fim, geopolítico.

É por isso que as grandes civilizações raramente entram em declínio de maneira súbita. Antes que suas fábricas parem de produzir ou que seus indicadores econômicos se deteriorem, seus ecossistemas de aprendizagem já começaram, silenciosamente, a perder a capacidade de formar as gerações que construirão o futuro.

Talvez a grande transformação geopolítica do século XXI ainda não tenha sido plenamente percebida.

Durante boa parte da Guerra Fria, a competição entre as grandes potências era medida pelo número de divisões militares, de ogivas nucleares, de navios, de aeronaves ou pela quantidade de aço produzida. Esses indicadores continuam importantes. Mas deixaram de ser suficientes.

A competição estratégica deslocou-se progressivamente para outro terreno: aprender mais rapidamente do que os concorrentes.

Inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, novos materiais, computação quântica, energia limpa, farmacêutica avançada ou sistemas espaciais pertencem a setores aparentemente distintos. Todos, entretanto, compartilham uma característica fundamental. Nenhum deles depende apenas de recursos financeiros ou de abundância de matérias-primas. Todos exigem ecossistemas de aprendizagem extraordinariamente sofisticados, capazes de produzir conhecimento novo, formar recursos humanos altamente qualificados e transformar descobertas científicas em capacidades produtivas.

É nesse contexto que as transformações recentes nos Estados Unidos adquirem uma importância que ultrapassa em muito a política doméstica norte-americana.
Quando o maior ecossistema de aprendizagem do mundo começa a vacilar

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos haviam compreendido uma lição que moldaria toda a segunda metade do século XX. A superioridade militar conquistada durante o conflito não fora resultado apenas de sua capacidade industrial. Ela nascera da extraordinária articulação entre universidades, laboratórios, empresas, agências governamentais e Forças Armadas. O radar, a penicilina produzida em escala industrial, o Projeto Manhattan, os primeiros computadores eletrônicos e inúmeras outras inovações demonstravam que ciência, tecnologia e Estado haviam passado a constituir um único sistema de produção de capacidades nacionais.

Poucas semanas antes do fim da guerra, Vannevar Bush entregou ao presidente Harry S. Truman o relatório “Science, the Endless Frontier”. Mais do que um documento administrativo, aquele texto tornou-se um verdadeiro projeto de país. Sua mensagem era revolucionária: a pesquisa básica não deveria ser tratada como um luxo acadêmico, mas como infraestrutura estratégica para a prosperidade econômica, a saúde pública, a segurança nacional e a liderança tecnológica.

Foi essa visão que permitiu aos Estados Unidos construir, ao longo das décadas seguintes, o mais poderoso ecossistema de aprendizagem já organizado por uma nação.

Universidades, laboratórios nacionais, agências federais, fundações de pesquisa e empresas privadas passaram a atrair talentos do mundo inteiro. Brasileiros, chineses, indianos, coreanos, europeus e latino-americanos encontraram naquele ambiente financiamento e também uma cultura institucional baseada na liberdade de investigação, na competição de ideias e na permanente revisão crítica dos resultados.

Em certo sentido, aquele ecossistema deixou de pertencer apenas aos Estados Unidos.

Grande parte da ciência mundial passou a gravitar em torno dele.

Nada sugere um colapso iminente desse ecossistema. Pelo contrário. Sua densidade institucional – construída ao longo de oito décadas por universidades, laboratórios nacionais, agências federais, empresas inovadoras e redes internacionais de colaboração – lhe dá uma capacidade de adaptação e resiliência sem paralelo histórico. Por isso, mudanças que, em outros contextos, poderiam parecer pontuais devem ser observadas com atenção quando atingem organizações responsáveis por produzir, validar e difundir conhecimento.

É justamente por isso que as transformações recentes merecem atenção.

O debate não se limita a diferenças legítimas sobre prioridades orçamentárias, políticas energéticas ou modelos de desenvolvimento. Democracias vivem dessas divergências. A questão mais profunda é outra: o que acontece quando organizações encarregadas de produzir conhecimento passam, elas próprias, a ser alvo de desconfiança sistemática?
Celso P. de Melo
O que acontece quando universidades deixam de ser percebidas como um patrimônio nacional e passam a ser apresentadas como adversárias políticas? Quando agências científicas passam a ser julgadas menos pela qualidade de suas evidências do que por sua suposta orientação ideológica? Quando bibliotecas, currículos escolares e programas de pesquisa tornam-se objetos de disputas cuja lógica deixa de ser acadêmica e passa a ser predominantemente política?

Essas perguntas extrapolam qualquer governo e qualquer partido.

Elas dizem respeito ao funcionamento do próprio ecossistema de aprendizagem.

Ecossistemas dessa natureza dependem de confiança institucional, continuidade administrativa, liberdade intelectual e da capacidade de mobilizar talentos provenientes de toda a sociedade. Sempre que disputas políticas passam a restringir a autonomia dessas instituições, reduzir sua capacidade de atrair pesquisadores, questionar sistematicamente sua credibilidade ou limitar a participação de parcelas da população na produção do conhecimento, a questão deixa de ser apenas jurídica ou ideológica. Passa a envolver a própria capacidade nacional de inovar.

Nos últimos anos, e de forma particularmente evidente durante o atual governo de Donald Trump, essas tensões ganharam nova intensidade. Mudanças em agências federais de saúde, conflitos envolvendo universidades, disputas sobre políticas climáticas e de saúde pública, a crescente politização da atuação de especialistas e organizações científicas, bem como controvérsias em torno de livros, currículos escolares e programas de diversidade, não devem ser vistos como episódios isolados. Em conjunto, revelam algo mais profundo: uma disputa sobre quem detém a autoridade para definir o que constitui conhecimento legítimo na esfera pública.

Essa talvez seja a questão decisiva. Grandes ecossistemas de aprendizagem não entram em colapso de um dia para o outro. Seu declínio costuma começar de forma quase imperceptível: primeiro enfraquece-se a confiança nas instituições, depois reduz-se a capacidade de atrair talentos, em seguida são interrompidas as redes de colaboração e, somente muitos anos mais tarde, tornam-se visíveis os efeitos sobre a inovação, a competitividade e a própria capacidade estratégica do país.

Isso não significa, entretanto, que os primeiros sinais dessa erosão demorem a aparecer. Algumas consequências tornam-se visíveis quase imediatamente. Protocolos institucionais frequentemente incorporam conhecimentos acumulados ao longo de gerações; por isso, sua revisão exige cautela proporcional à experiência histórica que representam.

Uma geração de pesquisadores pode exigir 30 anos de formação. Um instituto de excelência consolida-se lentamente, ao longo de sucessivas gerações de professores, estudantes e pesquisadores. Sua degradação, entretanto, pode começar em poucos anos.

Essa assimetria do tempo institucional constitui uma das maiores vulnerabilidades das grandes civilizações. Construir ecossistemas de aprendizagem exige décadas de investimento contínuo. Desorganizá-los pode ser obra de um único ciclo político. Reconstruí-los, entretanto, jamais se fará no ritmo dos calendários eleitorais[13].

Essa constatação conduz a uma conclusão que transcende governos, partidos e conjunturas. Proteger universidades, laboratórios, escolas, bibliotecas e agências de fomento não significa defender interesses corporativos. Significa preservar a capacidade coletiva de aprender, corrigir erros e preparar-se para desafios ainda sequer imaginados.

Talvez essa seja a principal lição da história. Grandes civilizações raramente entram em declínio por falta de recursos naturais, de território ou de população. Antes disso, enfraquecem as instituições que transformam conhecimento em capacidade nacional. O futuro de uma nação depende menos das riquezas que herdou do passado do que da capacidade de preservar e renovar seus ecossistemas de aprendizagem.

Em última análise, o verdadeiro patrimônio estratégico de uma nação não é aquilo que ela possui, mas o que é capaz de aprender. Recursos naturais podem ser explorados. Infraestruturas podem ser reconstruídas. Exércitos podem ser reequipados. Ecossistemas de aprendizagem, porém, levam gerações para florescer. Protegê-los talvez seja, hoje, a forma mais profunda de defender a soberania nacional.

Réquiem por Karl Marx

O economista Pedro Noblat acerta na mosca ao comentar o anacronismo que acomete o debate econômico. “A relação capital trabalho sofreu transformações profundas nas últimas décadas, mas os condicionantes da teoria econômica do século XIX seguem equivocadamente fundamentando os analistas em pleno antropoceno digital”. A essa altura, não seria exagero, inclusive, afirmar que discutir desigualdade social anda meio fora de moda, apesar de ela não parar de crescer. O assunto ganhou altitude na esteira do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’. Ao mesmo tempo, na América Latina, o tema era abafado durante o surto de ditaduras que durou três décadas. Nos anos 1980, com a redemocratização da maior parte dos governos da região, as desigualdades voltaram ao radar das políticas públicas. No Brasil não foi diferente. Nessa época, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento persistente da concentração de riqueza e renda, alavancado pela globalização financeira e produtiva, e turbinado por um consumismo insaciável.


Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.

Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.
Felipe Sampaio

Flávio joga parado na economia e não é cobrado

O presidenciável Flávio Bolsonaro joga parado nas promessas que faz para a economia durante a campanha eleitoral.

Ele tem sido beneficiado por não ser o candidato incumbente, diferentemente do presidente Lula, e pelo baixo nível de cobrança dos analistas do mercado financeiro, dos eleitores e também da mídia que acompanha seu périplo diário na disputa pelo Palácio do Planalto.

Instado a falar sobre medidas econômicas que adotará caso ganhe as eleições, o candidato do PL fala de "tesouraço" nas despesas do Orçamento, gatilhos para contenção de gastos, redução de ministérios, corte de cargos comissionados e mudanças na reforma tributária.

Enquanto pega carona nas críticas ao crescimento da dívida pública no governo Lula, ele promete o maior corte da história da carga tributária do país via redução de impostos e desoneração da folha de pagamento das empresas.

Com a declaração de que "não fará economia em cima de aposentados" —frase moldada pelos seus estrategistas de marketing político—, repete a tática do pai.

É sempre bom recordar. Para barrar medidas do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, voltadas ao financiamento do Auxílio Brasil (o antecessor do atual Bolsa Família), Jair Bolsonaro saiu-se com a histórica frase de que "não tiraria de pobres para dar para paupérrimos".

Ao final, o Auxílio Brasil foi bancado pela PEC dos Precatórios, que empurrou parte do pagamento dessas despesas com sentenças judiciais.

Flávio também já admitiu em entrevista ao SBT que não daria detalhes sobre onde cortaria os gastos. Fazer isso, segundo ele, geraria "um castelo de cartas".

Por outro lado, ele já disse que não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência.

Com base no pouco que o candidato disse e também no que falou que não faria, a conclusão a que se chega é que a conta não fecha.

Ninguém acredita. Ou ele não fala a verdade, ou vai praticar estelionato eleitoral se ganhar a eleição.
Adriana Fernandes

O ajuste fiscal e a pergunta que o Brasil precisa fazer

Toda vez que o tema volta à mesa, a receita já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma: não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com seriedade.

O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?

Porque existe outra estrutura no orçamento brasileiro e ela raramente é submetida ao mesmo rigor crítico. Em 2026, o Congresso reservou R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, a maior parte de execução obrigatória. É mais do que o país investe no PAC. As renúncias fiscais concedidas a empresas e setores ultrapassam a meio trilhão de reais por ano, mais de um quinto da arrecadação federal, crescendo continuamente há duas décadas e concentradas, em sua maior parte, nas regiões mais ricas. O próprio ministro da Fazenda classificou esse conjunto como uma caixa-preta do orçamento.

A economia política chama esse fenômeno de institucionalismo discursivo: certas ideias se tornam dominantes não necessariamente porque venceram o debate, mas porque seus defensores ocupam espaços privilegiados de influência. Não se trata de questionar a boa-fé de ninguém. Trata-se de reconhecer que muitos dos economistas mais influentes trabalham em bancos e gestoras de patrimônio, setores diretamente afetados pela remuneração da dívida pública. Isso não invalida seus diagnósticos, mas ajuda a entender por que, entre várias soluções possíveis, sempre a mesma chega primeiro às manchetes.

Wolfgang Streeck descreveu esse deslocamento ao distinguir o povo que vota do povo que financia o Estado. Quando as decisões sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio. O interesse financeiro passa a influenciar mais do que o interesse da maioria da população, dos que mais precisam do Estado. No Brasil, Leda Paulani já alertava, há quase duas décadas, que a política econômica frequentemente prioriza manter a confiança de quem financia a dívida pública, mesmo quando isso limita o crescimento da economia e o bem-estar da população.

Reconhecer esse quadro não significa negar a necessidade de ajuste. Significa que ele deve ser feito sem impor o maior sacrifício justamente a quem depende do Estado para viver com dignidade. Não se trata de privilégio, mas de justiça social. Existem alternativas que raramente recebem igual atenção: revisar benefícios tributários com prazo efetivo de validade; tributar dividendos, hoje isentos; reformar o sistema de emendas parlamentares impositivas; e, caso a desindexação avance, fazê-la de forma gradual, distinguindo benefícios previdenciários das políticas assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada - BPC.

Há ainda um efeito pouco lembrado. Desde 2006, a valorização do salário mínimo tornou-se um dos principais motores do consumo das famílias de menor renda, sobretudo nas pequenas e médias cidades. Esse dinheiro movimenta o comércio local, sustenta prestadores de serviço e alimenta a economia de milhares de pequenos empreendedores. Reduzir esse mecanismo em troca de um benefício futuro e incerto significa impor uma perda imediata justamente a quem dispõe de menos proteção. É também retirar recursos da economia real. A renda das famílias mais pobres retorna rapidamente ao consumo, movimentando o comércio, os serviços e os pequenos negócios das comunidades. Já a renda dos mais ricos tende, em maior proporção, a permanecer aplicada no sistema financeiro.

O Brasil não carece de conhecimento técnico para enfrentar seu desafio fiscal. O que falta é abrir espaço para que diferentes caminhos sejam discutidos com o mesmo respeito concedido à solução de sempre. A pergunta central já não é se o ajuste é necessário. É como ele será feito e sobre quem recairá seu custo. 

Enquanto essa discussão permanecer restrita a um único roteiro, o ajuste continuará recaindo sobre quem sempre paga a conta e poupando quem quase nunca participa dela. Afinal, a pergunta que o Brasil ainda não fez é a mais importante de todas: quem deve pagar a conta do ajuste?
Giovanni Bevilaqua

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O admirável mundo novo de Mr. Musk

Durante 1 hora e 24 minutos, o homem mais rico do planeta expôs à editora-chefe da revista The Economist suas ideias sobre o futuro e o presente. Criador do sistema de pagamentos eletrônico Paypal, Elon Musk é proprietário da Tesla, que fabrica carros elétricos; do aplicativo de mensagens X (antigo Twitter) —além de fundador da empresa SpaceX, que pretende revolucionar a tecnologia espacial para fazer dos seres humanos uma espécie interplanetária, capaz de colonizar Marte.

Durante os primeiros sete meses desta segunda administração Trump, Musk chefiou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) —o qual, a pretexto de reduzir desperdícios, fechou agências estatais, cortou recursos e destruiu muitos órgãos federais importantes. A entrevista pode ser vista em The Insider, publicação digital exclusiva para os assinantes do semanário britânico.


Na primeira parte, a conversa é amena: o trilionário discorre sobre o futuro, quando robôs e inteligência artificial serão os motores da sociedade da abundância, o dinheiro perderá a razão de existir e será possível garantir renda a todos e cada um dos terráqueos para fazer o que bem entenderem com seu tempo livre.

Algo semelhante à sociedade comunista imaginada por Karl Marx, na qual as pessoas poderiam caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar do gado ao anoitecer e criticar depois do jantar, sem se tornarem caçadores, pescadores, pecuaristas ou críticos. Só que, agora, no trajeto até o radioso futuro, substitua-se a liderança do Partido Comunista pela condução dos iluminados do Silicon Valley.

Na segunda parte, quando a entrevistadora aterrissa as perguntas no presente, o Musk visionário vira fascista, defensor do duro controle à imigração; do encolhimento da capacidade reguladora do Estado; da substituição dos freios e contrapesos da democracia representativa pelo pulso firme do líder político. A conversa fica tensa e a amabilidade dá lugar à crítica agressiva à imprensa profissional.

Tendo apoiado candidatos do Partido Democrata à Presidência — Barack Obama, Hillary Clinton e Joe Biden — Musk aderiu a Donald Trump nas eleições de 2024. E se tornou defensor da Alternativa para a Alemanha (AfD) e de outros partidos europeus de extrema direita. Sua trajetória não é singular: acompanha o movimento de empresários como Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), entre outros que abandonaram os democratas e se passaram para o lado dos republicanos.

Não se trata só de cálculo eleitoral. A mudança de lealdade político-partidária é, também, abandono da democracia liberal representativa por um ideário político que percebe suas regras como parceiras da ineficiência e obstáculos à aceleração tecnológica. No lugar do governo limitado da maioria, flertam com um sistema que aumente a incidência política de quem esteja à frente da criação de novas tecnologias: uma espécie de tecnocracia da era digital, ainda que acoplada a um líder mercurial, sabidamente incapaz de concluir um raciocínio.

A desconfiança em relação à igualdade política, que a democracia representativa garante, não é nova no pensamento americano. Mas nunca esteve ancorada em tanto — e tão concentrado — poder econômico.

Quando a esperança virou aposta?

Nunca foi tão fácil apostar. Um celular, alguns cliques, o jogo está aberto: na fila do pão, no ônibus lotado, às três da manhã com a luz do quarto apagada.

Propaganda no intervalo do jornal, influenciador fazendo dancinha com o logo da casa de aposta, programa de auditório que sorteia prêmio, camisa do time com o nome da bet estampado no peito e ações publicitárias no meio do maior evento esportivo do mundo. Em poucos anos, as bets tomaram a paisagem brasileira com uma velocidade que quase não deixou espaço para pergunta. Apostar deixou de parecer exceção. Tornou-se parte da rotina.

Os números só confirmam o que a rua já anuncia. Em artigo publicado no Estadão em junho passado, o economista Pedro Fernando Nery mostrou uma coisa difícil de digerir: as famílias brasileiras já gastam mais com bets do que com livros, cinema e música. Gastam mais com bets do que com frutas, legumes e verduras. Isso não é só economia. É um retrato do que estamos priorizando, e, mais do que isso, dos ambientes que estamos montando, tijolo por tijolo, para as pessoas viverem dentro.

Essa naturalização tem custo. A cientista política Esther Solano vem documentando isso em suas pesquisas, e a palavra que ela usa não é por acaso: o impacto das bets sobre as famílias é “devastador”.

A perda financeira dói, claro. Mas o dano mais persistente é outro, e é mais silencioso. Angústia, ansiedade, depressão: essas coisas deixam de atingir só quem aposta e passam a reorganizar a vida de todo mundo em volta. Solano descreve o processo como uma bomba lançada no meio da sala de casa.


Nas pesquisas com adolescentes, ela encontrou jovens apostando durante a aula, como quem checa o WhatsApp. Banalizado. Nas comunidades mais vulneráveis, as dívidas alimentam brigas, fazem circular empréstimo informal com juros que ninguém anota no papel, empurram situações de violência para um grau novo. Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?

O que Esther Solano descreve, porém, vai além de uma sequência de consequências. É um mecanismo. A perda financeira alimenta a ansiedade. A ansiedade estreita o repertório de escolhas. Decisões tomadas sob maior sofrimento tendem a produzir novas perdas. O circuito passa a se alimentar de si mesmo.

Forma-se uma espiral. E espirais têm uma característica inquietante: quanto mais se alimentam de si mesmas, mais parecem obedecer a uma força própria.

Mas será que essa gravidade é inevitável?

De longe, parece que sim. Uma espiral descendente vista de perto transmite a impressão de coisa viva, com vontade própria. A ciência oferece uma perspectiva menos fatalista. Espirais não têm direção própria: elas seguem a direção das condições que as alimentam. Se certos ambientes empurram pra ciclos de perda, outros podem empurrar pra ciclos de fortalecimento. A pergunta de verdade, então, não é só como interromper a queda. É como criar condições para que outra trajetória comece a fazer sentido.

É aqui que a ciência do florescimento humano oferece uma contribuição que vale a pena levar a sério. Barbara Fredrickson mostrou em sua Teoria da Ampliação e Construção, que emoções positivas não são só o resultado de quem já está bem. Elas ajudam a construir o bem-estar. Quando uma pessoa sente segurança, pertencimento, esperança, conexão, o repertório dela amplia. Ela enxerga possibilidades que antes não via, fortalece vínculos, toma decisões menos desesperadas, desenvolve recursos pra aguentar o tranco da próxima adversidade. Esses recursos vão se acumulando, e escolhas mais saudáveis passam a ser mais prováveis. Fredrickson chama isso de espiral ascendente.

As bets prometem dinheiro. Para muitas pessoas, porém, o que elas oferecem é outra coisa: uma promessa de esperança. Só que não é a esperança construída devagar, com reconstrução de vida, com vínculo, com possibilidade concreta de transformação. É uma esperança-atalho: a expectativa de que um único acontecimento possa resolver aquilo que anos de dificuldade produziram. Atalhos quase nunca constroem recursos. Apenas adiam o encontro com a realidade.

Por isso o enfrentamento das bets não pode parar no controle da oferta.

Regular plataformas, segurar propaganda e proteger público vulnerável: tudo isso é necessário. Mas não basta. A pergunta que sobra é outra, e é mais incômoda: o que faz uma promessa tão improvável parecer, na hora do aperto, emocionalmente convincente?

Se a espiral de baixo se alimenta de vulnerabilidade, a espiral de cima nasce de recurso. Às vezes basta um tio que senta do lado e diz “vamos ver isso juntos” para que a mão não vá sozinha ao celular. Às vezes é uma oficina no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) que faz a pessoa perceber que existiam três saídas onde ela só enxergava uma. Às vezes, e isso não é romantismo, é simplesmente ter um lugar no bairro onde alguém sabe o seu nome. Pequenas mudanças de contexto, sustentadas ao longo do tempo, tornam escolhas saudáveis mais prováveis.

Uma coisa que quase ninguém discute no debate público é justamente isso. A gente passa horas discutindo como impedir que as pessoas apostem. Quase nenhum minuto em como construir ambientes nos quais apostar deixe de parecer a melhor alternativa disponível. E é aí que a conversa deixa de ser só sobre bets. Vira conversa sobre bem-estar e sobre florescimento.

Florescimento não é ausência de sofrimento. Seria uma definição triste. É a presença de condições que permitem às pessoas desenvolver capacidades, fortalecer vínculos, cultivar uma esperança realista, construir sentido pra própria vida. Essas condições não brotam do chão. São produzidas por escolhas culturais, educacionais, econômicas e políticas.

Toda sociedade exerce uma força sobre quem vive nela. A gente já sabe muito bem como se constrói um ambiente que naturaliza a infelicidade, empurrando o cidadão pra dívida, para o isolamento, para o adoecimento. Estamos construindo vários, em tempo real.

O que ainda não decidimos é se vamos levar a sério o outro lado: escola que ensina a lidar com dinheiro, posto de saúde que identifica a angústia antes da crise, quadra, praça, vizinhança e vínculos autênticos. Se fomos capazes de normalizar, em poucos anos, uma cultura que transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio, também somos capazes de fortalecer outra lógica. Uma que invista em educação financeira desde a escola, em saúde mental como política de Estado, em esporte, cultura, convivência, família, comunidade.

O antídoto de verdade para gravidade das bets não é só impedir alguém de apostar. É construir ambientes que ampliem recursos psicológicos, sociais e econômicos, pra que a esperança deixe de depender do acaso e volte a ser construída pelas relações, pelas oportunidades e pelas escolhas que efetivamente estão ao alcance. Democratizar a felicidade talvez seja exatamente isso.

O florescimento nunca foi produzido só pelas escolhas individuais. Nunca foi. Ele também é consequência dos ambientes que a gente decide (ou consegue) construir, das oportunidades que a gente oferece (ou consegue acessar), das condições que a gente torna possíveis para que pessoas, famílias e comunidades possam florescer.

Toda sociedade faz apostas sobre o próprio futuro. Algumas naturalizam o acaso e alimentam vícios que empobrecem o florescimento humano. Outras cultivam virtudes e investem, pacientemente, na construção das condições que tornam a felicidade mais possível.

Bolsonaristas voltaram a explorar desinformação sobre a covid-19 às vésperas da eleição

A audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Anthony Fauci, no Congresso americano foi usada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para recolocar a pandemia de covid-19 no centro do debate político.

Vídeos publicados nos últimos dias voltaram a questionar vacinas, máscaras e medidas adotadas durante a crise sanitária.

Do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro ao senador Magno Malta (PL-ES), a base bolsonarista voltou a repetir alegações que não são sustentadas pelas evidências científicas, segundo especialistas.

Na semana passada, em 29 de julho, Fauci, ex-principal assessor médico da Casa Branca, compareceu perante um comitê do Senado dos Estados Unidos que investiga sua atuação durante a pandemia.

Durante o depoimento, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si mesma — o que irritou parlamentares republicanos.

O advogado de Fauci afirmou que seu cliente está "amparado pela lei" e negou que a decisão represente qualquer admissão de culpa.

Invocar a Quinta Emenda não constitui crime e é um instrumento amplamente utilizado no sistema judicial americano. O próprio presidente Donald Trump recorreu ao dispositivo durante um depoimento em um processo civil envolvendo a Trump Organization, em 2022, antes de retornar à Casa Branca.


O fato de Fauci ter optado por não responder às perguntas não altera, por si só, o conhecimento científico acumulado sobre vacinas, máscaras ou tratamentos contra a covid-19, afirmam especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.

Para elas, a audiência e, principalmente, a forma como ela vem sendo explorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem parte de uma estratégia de mobilização política em meio à aproximação das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil, previstas para outubro.

A audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. Há anos, Paul acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de financiar pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan, na China.

A origem da pandemia, no entanto, continua sendo alvo de debate dentro do próprio governo americano.

Segundo um relatório desclassificado do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência, divulgado em 2023, o Conselho Nacional de Inteligência e outras quatro agências concluíram que a primeira infecção humana ocorreu por exposição natural a um animal infectado. Já o Departamento de Energia e o FBI avaliaram que a hipótese de um incidente relacionado a laboratório era mais provável.

Em 2025, já durante o segundo mandato de Donald Trump, a CIA informou que passou a considerar mais provável a hipótese de vazamento em laboratório, mas classificou essa avaliação como de baixa confiança, ressaltando que as evidências continuam limitadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou no ano passado que a hipótese de transmissão natural de animais para humanos segue sendo a mais bem sustentada pelas evidências disponíveis, embora a origem da pandemia permaneça inconclusiva.

Durante a audiência, parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia. As orientações foram alteradas conforme novas evidências científicas surgiam, algo que Fauci já havia defendido em outras ocasiões.

Diversos senadores democratas saíram em sua defesa. A senadora Maggie Hassan afirmou que a audiência foi "planejada para criar uma armadilha".

Fauci nega qualquer irregularidade.

Após a audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a usar o episódio para afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido desmentidas.

Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a vir a público dizer que pessoas deveriam "pedir desculpas" a seu pai. "Eu sei que muita gente de bom coração culpou Jair Bolsonaro pela morte de um parente querido, ou por alguma coisa, né. Caiu em uma fake news em relação à vacina."

Além dele, outros aliados do ex-presidente adotaram discurso semelhante de "Bolsonaro tinha razão".

"Essas últimas revelações do governo americano sobre o Dr. Anthony Fauci só provam que nós e o presidente Bolsonaro estávamos certos desde o início", publicou Magno Malta.

O jornalista e influenciador Paulo Figueiredo escreveu no X: "Bolsonaro tinha razão em basicamente TUDO durante a covid", afirmou, seguindo com uma série de xingamentos à imprensa e aos defensores das políticas de distanciamento.

Já a médica Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como "capitã Cloroquina" quando atuou no Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente, afirmou que segue "de mãos limpas" e que Fauci "mentiu e foi desmascarado".

O vídeo de maior alcance, no entanto, foi publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados. Com a promessa de contar "a verdade" sobre a covid-19, a gravação ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram.

No vídeo, Nikolas afirma, sem apresentar evidências, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições entre suas conversas privadas e suas decisões públicas durante a pandemia.

O deputado também afirma, sem provas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso pulmonar após ser vacinado e escondido essa informação do público.

Em outro trecho, sustenta que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após o então presidente Donald Trump defender o medicamento e afirma que essa mudança teria impedido um tratamento que "poderia ter salvado milhões de pessoas".

A hipótese, porém, não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos realizados sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute.

Ao final do vídeo, Nikolas conclui: "Ou seja, tinha alguém que tinha razão. Jair Bolsonaro. Nada como o tempo".

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello publicou um vídeo em que afirma, também sem citar novas evidências científicas, que a narrativa construída durante a pandemia "está sendo desmontada" cinco anos depois dos acontecimentos.

No vídeo, ele afirma que o ex-presidente e médicos que questionaram medidas adotadas durante a pandemia foram injustamente rotulados como "genocidas", "negacionistas" e "antivacina".

Segundo ele, as recentes discussões envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos reforçariam críticas feitas à condução da pandemia.

Ele defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid-19 com a preservação da atividade econômica, afirmando que Bolsonaro defendia "o direito de trabalhar" e a "autonomia médica" para que médicos e pacientes discutissem tratamentos. Segundo Pazuello, isso "nunca significou negar a ciência", mas reconhecer as incertezas existentes no início da pandemia.

As alegações feitas por Nikolas Ferreira e por outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado desde o início da pandemia, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.

Entre as principais afirmações contestadas estão a de que máscaras seriam ineficazes, que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que os efeitos adversos das vacinas teriam sido ocultados.

Segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, essas conclusões não são sustentadas pelas evidências científicas.

"Não ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente pelos sistemas de vigilância de segurança", afirma.

"No início da pandemia era correto investigar esses medicamentos. Mas, quando foram realizados ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis, os benefícios esperados não foram confirmados."

Garrett também ressalta que o fato de Anthony Fauci ter invocado a Quinta Emenda durante seu depoimento ao Senado americano não altera o consenso científico sobre a pandemia.

"Invocar um direito constitucional não comprova nenhuma alegação científica. Não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países."

Segundo a especialista, a audiência pode investigar a atuação de autoridades públicas, mas não modifica as evidências produzidas ao longo da pandemia.

"O que sabemos hoje sobre vacinas, máscaras, medicamentos e transmissão não depende do depoimento de Anthony Fauci, mas de milhares de estudos realizados por pesquisadores em vários países."

Para a infectologista, o aspecto mais perigoso do vídeo é combinar fatos verdadeiros com conclusões que eles não sustentam. "A desinformação mais convincente normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto necessário."

Ela reconhece que houve falhas na condução da pandemia, como mudanças nas recomendações à medida que novas evidências surgiam, problemas de comunicação das autoridades e restrições que provocaram impactos sociais, econômicos e educacionais.

Também lembra que as vacinas podem provocar eventos adversos raros, como miocardite, sobretudo em adolescentes e homens jovens após determinadas doses das vacinas de RNA mensageiro.

"Mas reconhecer que houve um risco raro de miocardite não significa que as vacinas tenham sido mais perigosas do que a doença. Reconhecer que algumas restrições foram excessivas não significa que todas as medidas de distanciamento foram inúteis."

Para Garrett, é legítimo discutir erros cometidos durante a pandemia, mas isso não pode servir para reescrever o consenso científico. "Uma revisão honesta não pode transformar falhas reais em argumentos para defender medicamentos ineficazes ou negar que as vacinas reduziram doença grave e mortes."

Para a cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos faz parte de uma estratégia eleitoral baseada em um tema que continua mobilizando a polarização política.

"Ele pega a questão da pandemia, que sabe que divide opiniões, e a recoloca na agenda política. É a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base", afirma.

Na visão de Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico sobre a pandemia, mas reforçar convicções já existentes entre apoiadores.

"O que eles precisam é do efeito do viés de confirmação. Quando uma liderança como Nikolas Ferreira ou Jair Bolsonaro fala sobre esse tema, eles sabem que haverá um grande grupo de eleitores que vai repercutir esse conteúdo e se sentir validado."

Na sua avaliação, essa estratégia vem sendo utilizada desde a campanha presidencial de 2018 e ganhou força com a consolidação das redes sociais como principal arena de disputa política.

"Você pega uma informação falsa ou distorcida e uma liderança política a distribui para milhões de pessoas porque sabe que ela será rapidamente multiplicada."

Botelho avalia que a retomada desse debate também pode ajudar a mobilizar a base bolsonarista em um momento considerado delicado para o grupo político.

"Eles movimentam a base eleitoral e trazem atenção para um momento em que Flávio Bolsonaro enfrenta um cenário mais desfavorável. Faz sentido que tentem recolocar na agenda um tema que mobiliza fortemente seus apoiadores."

Mas ela pondera que o tiro pode sair pela culatra, já que o alcance dessa estratégia tende a ser limitado.

"A maioria da população brasileira acredita nas vacinas e reconhece que elas tiveram um papel importante para reduzir casos graves e mortes durante a pandemia. Esse tipo de narrativa tende a fortalecer quem já concorda com ela, mas dificilmente amplia muito esse público."

Segundo a pesquisadora, os vídeos não apresentam elementos novos, apenas retomam discursos que circulam desde a pandemia. "Parece uma novidade, mas não é. O discurso é praticamente o mesmo, com ataques às vacinas, à ciência e aos especialistas. O objetivo continua sendo mobilizar a própria militância."

Ela afirma ainda que a escolha do tema também dialoga com a lógica das plataformas digitais.

"Assuntos controversos circulam mais rapidamente nas redes sociais. Nikolas Ferreira domina essa dinâmica e sabe que esse tipo de conteúdo gera grande engajamento entre seus apoiadores."

Para a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, a circulação dos vídeos não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um processo de desinformação que, segundo ela, persiste desde o auge da pandemia.

"Essa desinformação jamais cessou. Mesmo depois do fim da emergência sanitária, continuamos vendo perfis, organizações e cursos que sistematicamente divulgam informações falsas sobre saúde pública e covid-19", afirma.

Na avaliação da pesquisadora, a permanência dessas narrativas está ligada à falta de responsabilização de quem difundiu desinformação durante a pandemia.

"Estamos colhendo os frutos da impunidade. A desinformação continua rendendo dinheiro, gerando engajamento e sendo usada politicamente. Não se trata apenas desse vídeo, mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública."

Ventura afirma que o Estado brasileiro falhou ao não reagir de forma mais contundente à disseminação de informações falsas.

"Na primeira fake news divulgada por autoridades públicas, se houvesse responsabilização, estaríamos em outro lugar hoje", afirma. Ela também aponta a ausência de uma política de memória sobre a pandemia como um fator que facilita a retomada dessas narrativas.

Sobre a audiência de Anthony Fauci no Senado americano, a professora também afirma que ela vem sendo utilizada politicamente, mas não altera o conhecimento científico produzido desde o início da pandemia.

"Não há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida", diz.

"A reiteração da ideia de que vacinas fazem mal ou de que a ciência ocultou a verdade serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir conhecimento."

Segurança pública é um bom negócio racista

O Anuário de Segurança Pública 2026 (FBSP) confirma o caráter racista da violência no Brasil, com origem econômica histórica. Foram 36 mil brasileiros negros assinados em 2025 (80% do total dos homicídios). Pior ainda nas mortes causadas por intervenção policial (82% dos mortos eram negros). Não é um número casual. Reduzir a análise do problema da segurança pública no Brasil a casos de polícia é varrer o lixo para baixo do tapete. O fenômeno da criminalidade brasileira é político-racial. Um modelo socioeconômico. Tem origem colonial. Em 1500 não havia por aqui pessoas brancas e negras, tampouco agropecuária e mineração em larga escala. Havia uma biodiversidade exuberante, sob a qual repousavam terras potencialmente agricultáveis com dimensões continentais, habitadas por milhões de indígenas (centenas de etnias que falavam dezenas de idiomas).

A violência que fustiga o país é remanescente do modo de produção que motivou a vinda dos mercantilistas portugueses, assim como espanhóis, holandeses e franceses que invadiram esses territórios que atualmente constituem o Brasil. A escravização de povos negros africanos pelos europeus era o fator de viabilização dos novos negócios de larga escala daquela época e estava na base do modelo colonial. Os europeus procuravam onde instalar sua produção baseada em escravidão. Nesse sentido, o Brasil foi uma invenção econômica-escravista, cuja feição racista perdura até hoje. No século XVI, o que aconteceu aqui foi a implantação em escala empresarial de dois experimentos macabros bem sucedidos realizados no século anterior. Um deles foi o uso de pessoas negras para trabalharem como escravos em lavouras e minerações na própria África, Caribe e em ilhas atlânticas. O outro laboratório exitoso, também no século XIV, foi a própria comercialização em si desses negros em mercados da África Ocidental, Moçambique, Península Ibérica e América Central.


Portanto, não houve descoberta incidental do Brasil pela esquadra de Cabral. Foi jogo combinado. Os colonizadores europeus haviam transformado o trabalho escravo no negócio mais lucrativo da história da humanidade. Um modelo econômico desumano em escala mundial. O que aconteceu em 22 de abril de 1500 foi a formalização da posse pelas cortes de Lisboa de um território ideal para a instalação de empresas minerais, florestais e agropecuárias baseadas no uso da mão-de-obra negra escrava e na rapina de recursos naturais. A tentativa inicial foi a escravização dos nativos, mas as condições objetivas para sua escravização produtiva – no seu próprio local de origem e captura – não se mostraram lucrativas e funcionais. Por 400 anos o Brasil foi erguido e consolidado em cima da exploração violenta de uma população majoritariamente negra e escravizada.

Há apenas pouco mais de cem anos a escravidão foi oficialmente abolida. Ao invés de se proceder uma inclusão social e econômica desse estrato da população brasileira, na esteira da modernização capitalista, o que se viu foi a cristalização de uma desigualdade social manifestada nas diversas dimensões da cidadania: renda, riqueza, saúde, educação, segurança, bens públicos, moradia, urbanismo, entre outros direitos democráticos sonegados. Uma desigualdade com motivação original econômica e racista em um país com população atual de mais de 120 milhões de pessoas negras (cerca de 56% do total). Mudar essa realidade é responsabilidade de todos, a começar pelo andar superior do PIB e da política.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Como a grande mídia tenta reconfigurar a disputa de 2026

A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada pelo instituto e no que provocou tal inflexão.


O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.

As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. (...) E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa 

O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.

A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.

Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.

É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.

A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.

A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.

A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.

A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.

A História já não se escreve – publica-se

Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.

Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.

Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.


Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.

A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.

E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.

E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.

A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.

O 'entreguismo' é o primeiro refúgio de um canalha

Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Pretexto: estaria havendo demora para o anuncio do “agrément”, o termo em francês diplomático a indicar que o Brasil não se opõe à indicação de Daniel Perez para a representação dos EUA em Brasília. Mero pretexto. Papo-furado. Ele nem foi aprovado ainda pelo Senado daquele país. Há uma nota do governo brasileiro a respeito. Tratarei dela. Antes, algumas questões relevantes.

Como de hábito, sempre há um livro, um texto, um filme. Ou a gente exerce essa profissão para aumentar o repertório dos viventes ou se pratica obscurantismo — nesse caso, aquilo que as pessoas sabem ou julgam saber torna-se ainda mais restrito, mais odioso, mais estreito. Não quero que me leiam com esse fim. Vamos ver.

Na pré-história destes dias históricos, fui colunista da Folha e escrevi este texto 13 de setembro de 2017. E olhem que eu nem tinha ainda a fama de “petista”. Título: “A direita se transforma no último refúgio dos canalhas”. Insisto: o artigo tem quase 10 anos. Lá se lê:

“É conhecida a frase do inglês Samuel Johnson (1709-1784): ‘O patriotismo é o último refúgio de um canalha’. Acabou distorcida. Referia-se a uma situação específica da política do seu tempo. Não hostilizava ou renegava os ‘patriotas’, então uma corrente política. Criticava vigaristas que passaram a se abrigar sob tal manto, pervertendo ideias que considerava virtuosas. Nestes dias, o liberal brasileiro está obrigado a dizer: ‘A direita é o último refúgio de um canalha’.”


Pronto. Nem importa a situação, então, que me levou a escrever aquele artigo. Lembrei a frase famosa de Johnson; deixei claro não se tratar de uma sentença sem história — o que o incomodava era o patriotismo falso ou pervertido — e dei uma porrada na asquerosa direita brasileira, que já se preparava para tocar flauta para Jair Bolsonaro, este nosso mergulho no horror intelectual e político — um presentinho da Lava Jato.

Nota à margem: a juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi punida pelo CNJ nesta terça por 10 votos a 4. Até Edson Fachin votou a favor. Fui eu a noticiar, em 2019, que ela autorizara uma fundação privada com recursos oriundos de multa paga pela Petrobras: era uma aberração. Alexandre de Moraes impediu. É a juíza que decidiu que deveria humilhar Lula como depoente. Mas volto ao ponto.

O patriotismo é uma virtude se… virtuoso for. Truísmo? Bem, assim são as coisas. Ou a frase de Johnson nem faria sentido. O Brasil está sob ataque dos EUA, e Flávio já se ofereceu para entregar tudo “auzamericânu” num documento de 84 páginas e numa carta servil a Marco Rúbio.

Também foi rastejar na audiência do USTR. Antes disso, havia prometido as terras raras do Brasil a seus chefes, além do alinhamento com Trump contra a China, nosso principal parceiro comercial, no evento da tal Cepac nos EUA. Ele está disposto a entregar tudo. A começar pela honra.

A decisão sobre a nossa embaixadora não faz o menor sentido, é inaceitável e é parte da escalada grosseiramente imperialista contra o Brasil. O governo brasileiro emitiu uma nota:

"O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.

As duas justificativas apresentadas são falsas.

O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de ‘agrément’ ao governo brasileiro.

O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.

Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.

Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.

O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.

A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.

Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.

Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”


Nota impecável. Não há rigorosamente uma só provocação ou ato impróprio no tempo do governo brasileiro para a concessão do “agrément”. Dirá alguém: “Ah, mas deveria ter sido concedido de imediato para que não pensassem mal de nós e, assim, não houvesse retaliações indevidas”.

Dizer o quê? A tática de mostrar o traseiro para não mostrar o traseiro parece ser contraproducente. Deixem para a extrema direita a exposição do “derrière” como método, não como distração.

A propósito: o Brasil, em linguagem diplomática, rebaixou suas relações com a Argentina. Javier Milei, o estafeta de Trump e Flávio, segue na sua sanha contra Lula e o Brasil. Nosso embaixador volta a Buenos Aires quando for a hora. E não é hora agora. Quem sabe faz a hora acontecer. E só se for o caso.

O entreguismo é o primeiro refúgio de um canalha.

A dívida como prova da democracia

Em abril de 2026, pela primeira vez desde que o indicador começou a ser medido, mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O percentual de 80,9% marcou o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio. Não foi um pico isolado: foi o quinto mês seguido de recordes, com o índice avançando ainda mais em maio, para 81,6%. Esses números descrevem não um acidente de percurso, mas a consolidação de um regime doméstico de endividamento permanente – uma economia da família brasileira que já não se organiza em torno da poupança, e sim da gestão contínua do que se deve.

O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% ao final de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já comprometido antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. Além disso, o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. O montante das dívidas das famílias corresponde a praticamente metade de sua renda anual, evidenciando o crescente peso do sistema financeiro sobre os orçamentos domésticos.

Diante desse quadro, o Governo Federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito.


Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil. É difícil compreender a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem considerar o profundo mal-estar provocado pelo elevado endividamento das famílias chilenas, legado de um modelo que privatizou áreas como educação, saúde e previdência e fez do crédito um mecanismo para suprir a ausência do Estado. Da mesma forma, a crise política espanhola que impulsionou o surgimento do Podemos não pode ser compreendida sem as mobilizações dos hipotecados. A indignação diante dos despejos conferiu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade política que os partidos tradicionais não foram capazes de antecipar.

O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.

Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível

Em Endividados. Como as finanças cotidianas formam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2027), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.

Com base na tradição foucaultiana, que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade capaz de reconfigurar os indivíduos como unidades de capital responsáveis por sua própria gestão, um conjunto expressivo de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão dos riscos operam como técnicas de governo e de condução das condutas. No entanto, essa perspectiva deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os próprios Estados e governos passam a ser avaliados politicamente a partir das experiências financeiras vividas por seus cidadãos.

Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre porque a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação

Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático.

Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes, ações judiciais movidas por devedores, mobilizações de bairro, escolhas eleitorais, negociações informais com credores e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.

A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na fronteira, onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.

Meu argumento é que a dívida das famílias tem constituído uma arena fundamental por meio da qual os cidadãos atribuem crédito ou responsabilidade aos governos democráticos argentinos desde 1983. Ela medeia a relação entre Estado e sociedade, moldando não apenas as condições materiais de vida, mas também as expectativas morais e políticas a partir das quais os argentinos avaliam seus sucessivos governos.

Ao longo dessas quatro décadas, é possível reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu em um ponto de observação privilegiado a partir do qual se pode compreender a interação entre as aspirações sociais, as promessas democráticas e uma economia cada vez mais aprisionada em suas próprias contradições estruturais. Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive, aquele que levou ao governo do atual presidente de extrema direita, Javier Milei.

Democracia Indexada (1983-1989)
A crise da dívida externa e a alta inflação marcaram o início dos anos 1980 na América Latina. Na Argentina, a redemocratização ocorreu nesse contexto, após a ditadura de 1976-1983. O governo de Raúl Alfonsín foi posto à prova por uma onda crescente de endividamento hipotecário: famílias não conseguiam manter os pagamentos em dia por causa da inflação, e as classes médias entravam numa espiral sem precedentes de declínio social.

Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001)
O plano de convertibilidade do governo peronista de Carlos Menem uniu dívida familiar e dívida soberana: enquanto a primeira crescia, a segunda garantia a estabilização e as reformas neoliberais que ampliaram o consumo – imóveis, eletrodomésticos, carros, viagens –, financiado externamente pelo Estado. A crise de 2001 encerrou o ciclo: ambos os tipos de dívida se tornaram impagáveis e as ruas se encheram de protestos.

Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015)
Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e os Kirchner na Argentina prometeram corrigir os efeitos do neoliberalismo, apoiados no boom das commodities. O cartão de crédito tornou-se passaporte de consumo para setores historicamente excluídos: enquanto o Estado argentino pagava sua dívida soberana, novas dívidas familiares sustentavam a promessa de inclusão – um ciclo dependente de condições voláteis.

A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019)
Mauricio Macri sucedeu esse ciclo com créditos hipotecários e inclusão financeira como bandeiras pró-mercado. Após forte desvalorização do peso – não evitada por novo empréstimo do FMI –, as rendas evaporaram e as dívidas aumentaram; pedir emprestado a parentes e usar o cartão para comida, remédios e aluguel tornou-se cada vez mais comum. O estrangulamento da dívida soberana e familiar catalisou a mudança de governo.

Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019–2023)
A dívida contraída durante a pandemia e o retorno da inflação a patamares superiores a 100% ao ano ajudam a explicar o descontentamento social e o crescente apoio à extrema direita. Ao contrário de outros países, que ampliaram o endividamento público para financiar as medidas de enfrentamento da emergência sanitária, o governo argentino teve de negociar a dívida soberana herdada, o que restringiu sua capacidade de implementar políticas de assistência social. Como consequência, intensificou-se o endividamento das famílias, cada vez mais voltado à preservação das condições mínimas de reprodução da vida cotidiana. Nesse contexto de exaustão econômica e desgaste moral, emergiu Javier Milei, canalizando o ressentimento contra a classe política e prometendo libertar o país da inflação e do peso da dívida.

Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo, que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização – era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar; a percepção de correr no lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.

Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício.” Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.

Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês, compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair.

Leonardo, professor, descreve essa transformação com precisão: passou de contrair dívidas para comprar eletrodomésticos – a antiga dívida da inclusão, promovida pelo kirchnerismo como símbolo de pertencimento e ascensão social – a endividar-se para comprar alimentos. O mesmo cartão de crédito, o mesmo mecanismo de financiamento, havia mudado de significado: já não representava um degrau em direção a uma vida melhor, mas um recurso emergencial para evitar a queda.

Ricardo, comerciante, chamava seus débitos de “dívidas de empobrecimento”, em oposição à lógica de tudo aquilo pelo qual havia trabalhado ao longo da vida. Em um contexto de inflação superior a 90% em 2022 e a 200% em 2023, as dívidas acumuladas não desapareceram; ao contrário, sobrepuseram-se e se multiplicaram.

Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.

O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada.” Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.
O candidato

A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado, era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.

O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.

O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.

A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.

Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.

Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a taxa de inadimplência no crédito passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – dado mais recente disponível –, alcançou 11,5%, o maior patamar registrado em mais de vinte anos.

Em apenas doze meses, a inadimplência entre as famílias praticamente triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o nível mais elevado de atrasos dos últimos quinze anos. A deterioração, contudo, não se restringe ao sistema bancário: nas carteiras digitais e nas entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem aqueles que já não conseguem acesso ao crédito tradicional – a inadimplência supera 30%.

A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar, não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa – o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?

Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.

A Argentina e o Brasil podem, mais uma vez, olhar-se em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.

Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.

O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.

Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.

A política progressista chegou tardiamente a essa compreensão na Argentina. Resta esperar que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa transformação da democracia.

Humanos podem 'desligar' uma IA fora de controle?

Muita gente já se perguntou o que aconteceria se a inteligência artificial (IA) escapasse ao controle humano.

Quem assistiu à franquia de filmes O Exterminador do Futuro, em que a humanidade entra em guerra contra a Skynet, uma IA que se torna poderosa demais, provavelmente também se pergunta isso.

E esse vilão fictício deve ter vindo à mente de muita gente no início deste mês, quando surgiram relatos de que um agente de IA (um programa capaz de tomar decisões e executar tarefas complexas com pouca ou nenhuma supervisão humana) saiu do controle durante um teste e invadiu os sistemas da Hugging Face, empresa que desenvolve ferramentas para computação.


Criado pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, esse agente de IA burlou um teste que avaliava a sua capacidade de explorar falhas de segurança e roubou as respostas dos servidores da Hugging Face. Durante dias, nem mesmo seus criadores parecem ter percebido o que havia acontecido.

Depois, no dia 29 passado, a OpenAI informou que o agente também havia atacado vários "serviços disponíveis publicamente".




A OpenAI não deu mais detalhes, mas afirmou que está investigando os ataques. "Levamos muito a sério nossa responsabilidade de identificar e nos preparar para os riscos apresentados por sistemas de IA cada vez mais capazes", afirmou a OpenAI.

A invasão inicial, descrita como o primeiro caso confirmado de um sistema de IA que teria invadido de forma autônoma uma empresa de verdade, já havia sido suficiente para alarmar especialistas em todo o mundo e reacender o debate sobre os chamados kill switches ("botões de desligamento" ou "interruptores de emergência", em tradução livre): mecanismos de emergência projetados para, nesses casos, interromper ou desligar uma IA antes que ela cause mais danos.

Mas especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que a questão é mais complexa.

Cathy O'Neil, matemática e cientista de dados, disse ao Serviço Mundial da BBC que o problema começa na forma como as empresas de IA reagem quando seus sistemas apresentam comportamentos inesperados.

Na avaliação de O'Neil, a OpenAI se apressou em atribuir o ataque à Hugging Face ao agente autônomo, em vez de reconhecer falhas em seus próprios métodos de avaliação.

O'Neil, que escreveu o best-seller Algoritmos de Destruição em Massa: Como o Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia (Ed. Rua do Sabão, 2021), no qual defende maior transparência e responsabilização das grandes empresas de tecnologia, disse à BBC News: "Há alguns anos, uma falha de computador deixou centenas de voos da American Airlines em solo nos Estados Unidos. Foi um grande constrangimento para a empresa. Imagine se ela tivesse tentado se defender dizendo: 'Ah, isso aconteceu porque o computador era mais inteligente do que nós.' Foi, essencialmente, isso que a OpenAI tentou fazer."

Nos EUA, onde está sediada a maioria das maiores empresas de IA, não existe uma legislação federal sobre o tema. A regulação se baseia em uma combinação de normas específicas para diferentes setores e compromissos voluntários assumidos pelas próprias empresas.

"Estamos dando aos proprietários desses sistemas de IA um poder absurdo", afirma O'Neil.

"Me recuso a dizer que foi a IA que fez isso [o ataque à Hugging Face]. Quem fez isso foi a OpenAI. A empresa deveria assumir a responsabilidade pelo projeto falho do sistema e pedir desculpas."

A cientista de dados Rumman Chowdhury, ex-diretora de ética em aprendizado de máquina do Twitter (hoje X), também defende uma regulamentação mais rigorosa para as empresas de IA, especialmente na área de segurança.

Para Chowdhury, essas empresas deveriam ser obrigadas a demonstrar que seus sistemas contam com "mecanismos eficazes de desligamento", inclusive por meio de testes independentes.

Mas também alerta para o risco de responsabilizar os agentes de IA — em vez das empresas que os desenvolvem — por ataques como o que atingiu a Hugging Face.

"Tratar esse episódio como um problema que seria resolvido com um botão de desligamento mais eficiente desvia a atenção do verdadeiro problema de arquitetura dos sistemas: os agentes estão recebendo acesso a ferramentas e credenciais de que não precisam", disse Chowdhury.

"O que realmente acontece é que modelos treinados para cumprir objetivos passam, em determinados contextos, a interpretar instruções para interromper uma tarefa como um obstáculo ao objetivo final e procuram formas de contorná-las. [...] Esse é um problema de projeto e de treinamento, não de consciência."

Se as empresas de IA se recusarem a resolver esse problema e, em vez disso, optarem por culpar seus agentes autônomos, apenas aumentarão a carga de trabalho dos profissionais de cibersegurança, que já enfrentam diariamente ataques de hackers, afirma Oli Buckley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Para Buckley, o problema não é que "a IA queira escapar ou prejudicar as pessoas", mas o desenvolvimento de agentes que "estão se tornando cada vez mais capazes de encontrar caminhos inesperados para cumprir uma tarefa".

"Na cibersegurança, é exatamente isso que os invasores fazem", afirma Buckley.

"Mais do que um alerta sobre uma 'IA rebelde', este caso mostra que nossas premissas de segurança precisam evoluir junto com os sistemas que estamos desenvolvendo."

Konstantinos Gkoutzis, especialista em IA do Imperial College London, no Reino Unido, concorda que a forma como a OpenAI apresentou o caso não ajudou.

"A principal conclusão para o público deveria ser que nenhuma máquina decidiu se voltar contra nós. Foi uma empresa que perdeu o controle de um teste de suas próprias capacidades", disse Gkoutzis à BBC News.

E, segundo ele, um kill switch não teria resolvido o problema. "Desligar o sistema não desfaz o que já aconteceu", afirma. "Se um sistema já foi comprometido, continuará comprometido, por mais rápido que alguém o tire da tomada."

Além disso, quem — ou o que — desligasse o sistema só poderia fazê-lo depois que o problema fosse identificado.

Fontes da OpenAI disseram à agência de notícias Reuters que a empresa levou vários dias para perceber que havia perdido o controle do agente.

Depois, um porta-voz da empresa rebateu a reportagem da Reuters afirmando à agência de notícias que o texto continha "várias imprecisões".