quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Como a grande mídia tenta reconfigurar a disputa de 2026

A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada pelo instituto e no que provocou tal inflexão.


O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.

As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. (...) E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa 

O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.

A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.

Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.

É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.

A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.

A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.

A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.

A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.

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