A agenda bilateral do Brasil com os EUA/Trump 2.0 inclui agora outro tema sensível: o Primeiro Comando da Capital (PCC), o mais perigoso grupo criminoso do país e que se expande globalmente.
Donald Trump assinou ordem executiva recentemente incluindo na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) do Departamento de Estado seis cartéis de droga do México e as gangues latino-americanas MS-13, originária de El Salvador, a Tren de Aragua, originária da Venezuela, e grupos criminosos do Haiti.
Para a Casa Branca, os cartéis internacionais são “uma ameaça à segurança nacional além daquela representada pelo crime organizado tradicional”, com atividades que abrangem “convergência com atores extra-hemisféricos, desde organizações designadas de terrorismo estrangeiro até governos estrangeiros antagônicos”, por exemplo.

É a primeira vez que grupos puramente criminosos são qualificados por Washington de terroristas. Essa designação era até agora utilizada para grupos como Al-Qaeda e Estado Islâmico, que utilizam a violência para fins políticos.
Essa designação tem amplas implicações para os países. Ela dá a Trump amplo poder para impor penalidades econômicas aos grupos criminosos, como também toda pessoa ou organização suspeita de fornecer apoio material, logístico ou financeiro aos cartéis será passível de punições pesadas impostas por Washington. A interpretação do que é apoio pode depender da vontade política do governo americano.
Além disso, autoridades do vizinho México, que se dizem ciosas de sua soberania, suspeitam que a designação de cartéis como terroristas abre brecha para eventualmente legitimar intervenções militares clandestinas dos EUA em vários países em que essas organizações são ativas. Elon Musk, aliado de Trump, disse que a ordem executiva do presidente significa que os cartéis agora são elegíveis a ataques de drones.
O PCC, a partir de sua base no Brasil, se tornou uma ameaça criminosa transnacional particularmente séria, explorando fraquezas de sistemas políticos, jurídicos e econômicos em diferentes partes do mundo.
O PCC hoje já é classificado pelos EUA como organização criminosa internacional - mas não como terrorista. E, pelo que apurou a coluna, o governo brasileiro não quer e não acha que deveria ser classificado como grupo terrorista, como foi feito com os grupos mexicanos, haitiano e salvadorenho. Isso porque deflagraria a legislação diferente e mais complexa nos EUA com efeitos colaterais mais graves para o país.
Por exemplo, em termos de sanções e outras ações autorizadas ao governo dos EUA, operação financeira do PCC poderia gerar sanções para o banco que processou, mesmo se o banco não soubesse que tratava com o grupo criminoso. A sanção viria se os EUA achassem que a instituição não tomou as medidas necessárias para evitar a operação.
Não há ainda articulações específicas entre Brasília e Washington. Os relatos são de que, por enquanto, o governo brasileiro está recebendo missões americanas, mostrando o que está sendo feito para combater o crime organizado e aumentando cooperação para que os EUA não considerem necessário classificar o PCC como grupo terrorista, com os estragos que viriam em seguida.
Quanto ao risco de o Brasil ser considerado país que abriga terrorismo, ao estilo do que Cuba é hoje, na visão trumpista, e que implicaria sanções mais graves ao país e complicaria o investimento externo, é uma hipótese que não se coloca e tem uma longa distância da realidade, segundo avaliação em Brasília.
O fato é que o PCC está no radar internacional. Quando impôs sanções no ano passado a um operador acusado de lavagem de R$ 1,2 bilhão para o grupo, o Departamento do Tesouro americano observou a forte atuação da facção na América do Sul e presença nos EUA, Europa, África e Ásia.
O governo do Reino Unido acaba de publicar relatório de uma missão enviada ao Brasil para estudar grupos criminosos organizados no país, que estima serem mais de 80, com domínio do PCC e do Comando Vermelho. Uma das constatações: “Existe corrupção em todos os níveis do sistema de justiça criminal e aqueles que ocupam posições estratégicas são vulneráveis à exploração por grupos criminosos. Entretanto, autoridades policiais expressam o desejo e a disposição de combater esses grupos e a corrupção”.
França, Portugal, Espanha, Itália e outros países também têm deflagrado o sinal de alerta contra a presença local do PCC. O Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (Aspi) publicou análise apontando “uma nova ameaça à segurança da Austrália: tráfico de cocaína por grupos brasileiros”.
Um dos autores da nota é Rodrigo Duton, policial do Rio de Janeiro e especialista no momento no instituto australiano. Menciona a base das operações ilícitas como tráfico de drogas, contrabando de armas, corrupção, assassinatos por encomenda. E destaca que autoridades brasileiras descobriram esquemas de lavagem de dinheiro do PCC envolvendo imóveis, empresas de construção civil, postos de gasolina, coleta de lixo, igrejas, transporte público, concessionárias de veículos, mineração ilegal de ouro, fintechs, assistência médica pública, organizações não governamentais e operações de bitcoin.
Um relatório publicado em Genebra prevê que nos próximos 15 anos o crime organizado se tornará globalmente mais difundido e poderoso do que é hoje. É que o chama de uma nova “era de ouro” para os criminosos, explorando escassez com crises climáticas, conflitos geopolíticos e avanços tecnológicos.
Talvez nada resuma de forma tão sintética os tempos que vivemos, como o momento em que Donald Trump, em 2016, após a vitória nas primárias do Nevada, afirmou: “Adoro os pouco instruídos” (“I love the poorly educated”). A multidão aplaudiu, incapaz de se sentir insultada.
E, no entanto, estamos todos progressivamente a perder a capacidade de ler textos complexos, de selecionar de forma crítica o verdadeiro do falso, de demonstrar empatia pelo outro.

O fenómeno não é novo, mas agudiza-se à medida que, diariamente, consumimos, mais de 34 gigabytes de informação (o equivalente a 100 mil palavras), consultamos os nossos telemóveis dezenas de vezes ao dia, e saltamos, entre ecrãs e dispositivos. Lemos, mas não retemos. Passamos os olhos no ecrã, em busca das palavras-chave – o princípio, o meio e o fim do texto – uma leitura em “F”, onde os argumentos, que nos permitem questionar e compreender, se perdem. Stanley Kubrick preocupava-se não com o facto de os computadores ficarem mais parecidos com o ser humano, mas o oposto… Hoje, quantas vezes nos sentimos um motor de busca a selecionar extratos de informação, para incluir num memorandum ou relatório?
Ficámos mais eficientes, mas mais frágeis na nossa capacidade de analisar de forma crítica a informação que nos chega. A informação, ao invés de nos dar conhecimento e poder, distrai-nos, entretém. Os nazis, pioneiros na propaganda, queimaram livros e distribuíram rádios a pilhas.
O meio digital contaminou a nossa forma de ler. Tornou-se mais difícil “ler profundamente” (deep reading como lhe chamam os neurologistas). Imergir no texto e, no processo, ser transportado para a realidade do autor, percorrer as ruas com as suas personagens, viver com elas as alegrias, angústias, vitórias e derrotas. Quando a história nos captura, é hoje mais provável ler como se de um filme se tratasse, acelerando para o final, do que vivenciar com a personagem os seus pensamentos e ações.
Podemos dizer que é apenas o sinal dos tempos, que verdadeiramente não altera as nossas capacidades, mas a neurociência já provou que não. O cérebro humano não está biologicamente programado para ler, como está, por exemplo, para aprender a falar ou ver. Aprender a ler é um processo complexo, que altera a estrutura do cérebro, obrigando a novas ligações entre sinapses e a reutilizar de forma diferente partes do cérebro biologicamente pré-programadas para outras tarefas. E saber ler não é o mesmo que ter um elevado nível de literacia. Tal envolve um esforço, que só o tempo e a atenção permitem e que só a persistência mantém. Hoje, parcelamos a nossa atenção, e, como tal, o tempo de concentração de que somos capazes tem vindo a diminuir.
Os estudos confirmam que os fatores ambientais estão a causar uma sociedade com défice de atenção. A somar ao stresse que sentimos, a nossa perda coletiva da capacidade de empatia, de compreender o outro e as razões que o movem. A neurociência demonstrou aquilo que sabíamos intuitivamente, quando lemos e relemos um livro que nos apela particularmente, o nosso cérebro e o nosso corpo vivem com a personagem as suas aventuras e desventuras, e isso transforma-nos como pessoas. Ler torna-nos mais humanos, porque vemos o mundo de muitas perspectivas, saímos da nossa realidade e somos capazes de compreender melhor aqueles que estão ao nosso lado, mas também os que habitam mundos, que sendo distantes do nosso, vimos todos os dias, na rua, no ecrã do telemóvel ou da televisão, mas que apelidamos de “outro”, “estrangeiro”, “imigrante”, “refugiado”. Retomar a leitura profunda exige esforço e tempo. Reeducar o cérebro. Mas quando, finalmente, aceitamos que já não somos o leitor que fomos na nossa adolescência – num tempo pré-smartphones –, estamos preparados para fazer o esforço, e lentamente recuperar o poder de viajar, sem sair de casa. Estamos também cognitivamente mais resilientes, individual e coletivamente, para resistir às investidas daqueles para quem os “pouco instruídos” são adoráveis…Sofia Santos Machado
Marwa e muitas outras como ela estão esperando — por justiça, por liberdade, pelo fim da guerra genocida e pela volta da vida a ser como deveria ser.
Minha irmã, Marwa Eid, tem 28 anos. Assim como eu, ela foi deslocada à força duas vezes desde 13 de outubro de 2023, quando tivemos que deixar nossa casa no norte de Gaza pela primeira vez para escapar da devastadora guerra israelense.
Durante o nosso deslocamento, Marwa começou a sofrer de um problema de saúde doloroso que transformou a sua vida num pesadelo. As suas mãos, antes uma ferramenta para a criatividade e o trabalho árduo, tornaram-se agora uma fonte constante de dor e sofrimento.
Marwa sofre de eczema grave nas mãos, causado por uma combinação de condições adversas e desumanas. Ela é forçada a usar detergentes produzidos localmente porque Israel não permite a entrada de materiais de limpeza adequados na Faixa de Gaza.
Marwa sofre de desnutrição devido à escassez de alimentos e à dependência de alimentos enlatados cheios de conservantes. Ela não tem acesso aos medicamentos de que necessita devido ao cerco e à guerra em curso.

Em 12 de maio de 2024, a história de Marwa tomou um rumo difícil. Naquele dia, ela notou uma ligeira mudança em suas mãos. Pequenas manchas vermelhas apareceram em sua pele, acompanhadas de coceira constante. A princípio, ela pensou que fosse uma alergia leve que passaria. Ela não tinha ideia de que o que havia aparecido em sua pele logo se tornaria uma longa e dolorosa batalha.
Sem acesso a produtos seguros, Marwa teve que recorrer a detergentes caseiros, cuja fabricação não é regulamentada. Esses produtos são frequentemente produzidos em condições inseguras e contêm produtos químicos nocivos. Ela não tinha outra opção, mas o efeito em sua pele foi imediato e grave. Suas mãos começaram a rachar e sangrar profusamente.
Conforme a dor piorava, levei-a para um posto médico dentro de um dos campos de deslocados, criados pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) para pessoas deslocadas.
Quando Marwa mostrou a mão ao médico, ele ficou visivelmente chocado com a gravidade do seu estado. Olhou para ela com tristeza e disse: "É um eczema grave. Peço desculpas — não tenho nenhum medicamento no depósito neste momento devido ao fechamento das travessias. Só posso lhe dar um comprimido de analgésico. Pode aliviar um pouco a dor, mas não é o tratamento de que você precisa."
Marwa saiu da clínica com o coração pesado, afogada em tristeza e dor. Ainda na esperança de alívio, tentou visitar algumas farmácias particulares, algumas das quais ainda tinham estoque limitado de antes da guerra. Em uma delas, perguntou sobre o medicamento que o médico havia recomendado. O farmacêutico disse que estava disponível, mas era muito caro, muito além de suas possibilidades financeiras.
Com o passar do tempo, o impacto da doença se estendeu além do físico. Marwa agora sofre psicologicamente, pois não consegue mais ajudar nas tarefas diárias. Ela sempre foi trabalhadora e amorosa, sempre disposta a ajudar os outros. Ela costumava ajudar nossa mãe a acender o forno de barro que usamos para preparar pão e comida, especialmente importante devido à crise de gás causada pela guerra.
Em 10 de abril de 2025, o Ministério da Saúde de Gaza confirmou em um comunicado público que a escassez de medicamentos e suprimentos médicos havia atingido níveis perigosos e sem precedentes. Afirmou que 37% da lista de medicamentos essenciais estava com estoque zero.
O Ministério também informou que 59% dos suprimentos médicos estavam indisponíveis. O Ministério alertou que salas de cirurgia, unidades de terapia intensiva e departamentos de emergência em todos os hospitais de Gaza estavam funcionando com estoques severamente reduzidos de medicamentos e suprimentos vitais.
Marwa não está sozinha. Ela é apenas uma entre muitas pessoas na Faixa de Gaza que sofrem com a falta de medicamentos e acesso a tratamento. Mas seu caso é um exemplo vivo do que as pessoas aqui enfrentam todos os dias. Ele reflete como um ataque israelense prolongado pode transformar uma condição simples e tratável em uma condição crônica e debilitante.
Todas as noites, vejo minha irmã lutando para dormir, lutando contra a dor. E continuo me perguntando: Que crime cometemos para viver essa realidade dolorosa? Por que Marwa deveria sofrer assim, simplesmente porque nasceu em Gaza?
Esta história não é o fim. É o início de um pedido de socorro vindo de Gaza sitiada. Marwa e tantas outras como ela aguardam — por justiça, por liberdade, pelo fim da guerra genocida e pela volta da vida ao que deveria ser.
O bravo general da reserva, que, após anos da redentora atuação como interventor, decidiu arquitetar algo ainda mais ousado: um golpe de Estado. Só que, como bom aposentado, ele o fez sem tirar o pijama. Afinal, quem tem tempo de botar farda quando se tem uma sublevação para planejar entre a novela das 6 e o Globo Esporte?
O plano, elaborado com o esmero de quem decora as palavras cruzadas do jornal, tinha tudo para ser eficaz. O militar convocou um seleto grupo de seguidores — todos igualmente de pijama — para reuniões estratégicas que aconteciam no WhatsApp e nos churrascos de domingo. Foi aí que a nata da resistência nacional nasceu: tios do zap, o primo conspiracionista, o vizinho que acha que mão pesada é o que falta na CBF e um papagaio patriota que gritava “Fora! Fora!”.
Mas sejamos justos. O general tinha uma visão: ele acreditava, piamente, que seu motim seria algo que entraria para os livros de História. Contudo, só havia um pequeno problema: quando seus cúmplices, munidos de coragem e pochetes, perguntaram qual seria o planejamento para derrubar o governo, ele deu a ordem de ataque mais icônica da história militar brasileira: “Vamos marcar um protesto forte naquela padaria da Asa Sul. E tragam cartazes!”.
E assim, no dia D, com seu pijama de flanela azul e estampas de aviõezinhos, ele liderou a tropa de sua cadeira de balanço na sala. “Atenção! Vamos invadir o grupo do STF no WhatsApp e botar pressão!”, gritou com voz heroica, enquanto mergulhava uma bolacha de maisena no café com leite. Óbvio, a insurreição fracassou.
Um dos principais generais abandonou o movimento porque tinha consulta no cardiologista, outro confundiu o dia da mobilização com o encontro anual do clube de bocha, e o resto simplesmente esqueceu porque tinha jogo do Taguatinga contra o Confiança.
O fim do general golpista de pijama foi digno de um filme pastelão. As autoridades, após monitorarem os encontros suspeitos de churrasco, bateram à porta de seu apartamento. Ao ser levado pela polícia, ele exclamou: “Vocês estão cometendo um grande erro! Eu sou um patriota!”. A cena foi constrangedora. O herói da resistência, arrastado em pantufas de coelhinho, até o camburão da Polícia Federal.
Na prisão, o general segue liderando a revolução. Agora, organiza motins na fila do refeitório e escreve manifestos no papel higiênico. Seu grande plano é conquistar os corações dos carcereiros para que, um dia, o golpe triunfe. Enquanto isso, seus cúmplices, livres da cela, mas presos à vergonha, evitam falar sobre o incidente. O papagaio patriota, ao que dizem, mudou de lado e agora só grita “Sem anistia!”.
Como quem está de fora da guerra comercial entre Estados Unidos e China quer que ela acabe? Eles gostariam que ambos saíssem derrotados.
Sem dúvida, a abordagem de Donald Trump é muito pior do que apenas sua incoerência intelectual: ela é letal para qualquer ordem global cooperativa. Algumas pessoas gostam de achar que um desmoronamento desse “globalismo” seria até desejável. Do meu ponto de vista, é tolice imaginar que um mundo comandado por “grandes potências” predatórias seria superior ao que temos agora. Ainda assim, embora o protecionismo de Trump tenha que sair derrotado, o mercantilismo chinês não pode sair vencedor, pois ele também criaria grandes dificuldades mundiais.

Para entender os problemas com os quais a economia mundial se depara, é útil começar pelo tópico dos “desequilíbrios globais”, que foi tão discutido antes da crise financeira mundial e da crise da região do euro entre 2007 e 2015. Nos anos desde então, esses desequilíbrios ficaram menores, mas o quadro geral pouco mudou. Como observa a edição mais recente do Panorama Econômico Mundial do Fundo Monetário Internacional (FMI): a China e os países credores europeus (mais notavelmente a Alemanha) têm superávits persistentes, enquanto os EUA têm os déficits equiparáveis. Como resultado, a posição internacional dos EUA nos investimentos, em termos líquidos, foi negativa em 24% da produção mundial em 2024. Como os EUA têm déficits comerciais e em conta corrente e uma vantagem comparativa no setor de serviços, o país também acumula grandes déficits na indústria.
“E daí?”, poderia perguntar algum entusiasta defensor do livre mercado. De fato, até um defensor não tão entusiasta do livre mercado poderia notar, com razão, que os EUA têm desfrutado da felicidade de viver acima de suas possibilidades há décadas. Isso não precisaria ser um problema: afinal, ninguém terá condições de forçar os EUA a pagar suas obrigações. Além disso, eles também dispõem de meios, elegantes ou nem tão elegantes assim, para dar calotes. Inflação, desvalorização, repressão financeira e falências em massa de empresas vêm à mente.
Mesmo assim, é possível identificar pelo menos três grandes buracos nessa forma complacente de ver os grandes e persistentes desequilíbrios globais. O primeiro é que eles se tornaram politicamente tóxicos - tão tóxicos que ajudaram a eleger Trump presidente duas vezes. O segundo é que, no campo dos superavitários, há intervenções, do tipo soma negativa, idealizadas para alterar o equilíbrio global de poder econômico. Embora as relações internacionais não se tratem apenas de poder econômico, este é, certamente, uma parte crucial.
O terceiro é que déficits externos costumam ter como contrapartida um endividamento local insustentável. Combinado à fragilidade financeira, isso pode resultar em grandes crises, como ocorreu entre 2007 e 2015. Os saldos setoriais da poupança e do investimento revelam sinais desse problema. Os estrangeiros têm mantido um grande superávit de poupança com os EUA há décadas. As empresas americanas também estão em equilíbrio ou em superávit desde o início dos anos 2000, enquanto as famílias americanas estão em superávit desde 2008. Como esses saldos precisam se anular, para assim chegar a zero, a contrapartida local dos déficits externos dos EUA tem sido déficits fiscais crônicos.
Se as taxas de juros reais fossem altas, os déficits fiscais poderiam estar impulsionando os déficits externos crônicos. No entanto, o que tem ocorrido é o oposto: os juros reais têm estado baixos ou muito baixos. A hipótese keynesiana parece correta: o influxo, em termos líquidos, de poupança estrangeira, evidenciado nos superávits na conta de capital (e déficits na conta corrente), tornou os grandes déficits fiscais necessários, porque, caso contrário, a demanda doméstica dos EUA teria sido cronicamente insuficiente.
A China não é a única protagonista do outro lado da balança mundial, mas é a mais importante. Michael Pettis está certo, na minha opinião, ao dizer que a economia mundial não consegue acomodar facilmente uma economia gigantesca na qual o consumo das famílias é de só 39% do PIB e as poupanças (e, portanto, os investimentos) são correspondentemente imensos. Também está claro que isso ajudou a impulsionar o que a firma de análises econômicas Rhodium Group considera uma política “Made in China 2025” bem-sucedida. De forma inevitável, as potências industriais tradicionais estão assustadas com esse rolo compressor chinês.
Isso nos traz de volta à pergunta da semana passada: quem vencerá a guerra comercial entre EUA e China? Argumentei que a China venceria, em parte, porque os EUA fizeram do país um parceiro bem pouco confiável e, em parte, porque a China tem a opção de expandir a demanda interna e, dessa forma, compensar a perda de demanda americana. Matthew Klein, em seu excelente “The Overshoot”, na plataforma Substack, responde que a China já tinha essa opção há tempos, mas deixou de usá-la. Minha resposta é que agora a China precisa usá-la e, portanto, de fato decidirá expandir a demanda, em vez de aceitar uma grande recessão interna. Veremos.
O desfecho da guerra comercial entre EUA e China e a possível evolução das tarifas de Trump são as questões imediatas. No entanto, os problemas mais amplos em jogo não devem ser ignorados. A política comercial não deve ser analisada isoladamente. Como sabiam os fundadores do sistema comercial pós-guerra, mais notavelmente o próprio Keynes, o sucesso desse sistema também depende de ajustes macroeconômicos globais e, portanto, do funcionamento do sistema monetário internacional.
No primeiro ato do pós-guerra, os EUA tiveram grandes superávits em conta corrente, mas os reciclaram via empréstimos. No segundo ato, até 1971, os superávits dos EUA foram sendo corroídos. Isso levou ao fim da conversibilidade do dólar em ouro e ao sistema de câmbio flutuante com metas de inflação, ao menos entre países ricos. Esse sistema funcionou bem o suficiente até a rápida ascensão da China. Após essa ascensão, a era em que os EUA podiam agir como captador e consumidor de última instância, testada nos anos 1980 por Japão e Alemanha, se tornou impraticável política e economicamente.
A imprevisibilidade de Trump e seu foco em acordos bilaterais são, de fato, tolices. No entanto, a antiga ordem econômica liderada pelos EUA também se tornou insustentável. Os EUA não mais atuarão mais como equilibradores de última instância. O mundo - em especial, a China e a Europa - precisa pensar em algo novo.
Nove mil crianças palestinas estão internadas em Gaza com desnutrição aguda. Os números são do insuspeito UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A notícia é desta semana.
Vimos esquecendo e esquecendo e esquecendo a tragédia da Palestina. Como vamos esquecendo outras muitas barbáries praticadas por humanos contra humanos. A mais célebre delas, o Holocausto. Quando a Alemanha de Hitler exterminou 6 milhões de judeus, principalmente.
Estudiosos do holocausto estimam que mais de 1,5 milhão dos judeus assassinados tinham menos de 14 anos. A maior parte desses morreu de fome.
Quase um século depois, seguimos fazendo guerras e matanças – de crianças, inclusive. Não só de bala, bomba, ou gás, mas também de fome e sede. Como fizeram os nazistas. Como fez Stalin, na Rússia e em territórios ocupados.

Estudos apontam para 3,3 milhões de soviéticos mortos de fome na Ucrânia; 700 mil vítimas do Grande Terror de Stalin; 4,2 milhões de soviéticos mortos de fome sob a ocupação nazista. Além dos 700 mil civis assassinados pelos alemães, fora dos campos da morte, em represálias por atos de resistência e oposição ao domínio de Hitler.
Desgraças de ontem, parece, não ensinam e não impedem as de hoje.
A estimativa é que, em 2024, cerca de 6% da população palestina residente na Faixa de Gaza foi exterminada por ações promovidas ali pelas forças militares de Israel.
Em Gaza, vivem – ou viviam – 2,65 milhões de palestinos. Das estimadas 45 mil mortes ocorridas desde o início da guerra na região (outubro de 2023) cerca de 25 mil aconteceram em 2024. Os números são do Departamento Central de Estatísticas, entidade ligada à Autoridade Nacional Palestina (ANP).
Ainda que sem considerar mortos da guerra Ucrânia/ Rússia, os milhares de mortos das incontáveis guerras nos países africanos, os números da tragédia na Palestina são absurdos e desiguais.
Nos primeiros seis meses dos ataques à Palestina, dados oficiais contavam 34.345 mortos, sendo 33.175 palestinos e 1.170 israelenses. A proporção não será diferente nos dias de hoje.
Sem esquecer. Guerras sempre produzem mais do que mortes por bomba, bala ou fogo.
“A desnutrição aumenta na Faixa de Gaza”, relata a diretora executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Catherine Russel, denunciando que, em Gaza, nas últimas semanas, sem redução dos ataques, pelo menos 10 cozinhas de organizações de socorro não governamentais (ONGs) fecharam por falta de alimentos e 25 padarias da ONU estão sem funcionar há um mês.
O governo de Israel, que responde pelos bloqueios de ações humanitárias na região, diz que a comida e a água liberadas ali “são suficientes”.
Cinismos à parte, onde estamos nós? Onde anda escondida nossa compaixão? Nosso sentido de humanidade?
Nunca fomos tão bem informados, em tempo real, do que acontece dentro de nossos países e mundo afora. Não dá para repetir a então alegada ignorância sobre os campos de extermínio dos nazistas. “Eu não sabia” não existe hoje.
Com poucas manifestações de indignação e de perplexidade – muito menos do que o necessário, do que o esperado -, assistimos Trump, falando pelos USA, e Netanyahu, pelos israelenses, sem pudores, defendendo a transformação do território de Gaza num exclusivíssimo resort 6 estrelas. Depois do extermínio.
Propósito reforçado na recente visita de Trump ao Oriente Médio, quando foi anunciada uma super ofensiva militar de Israel para tomar de vez a Faixa de Gaza.
Eles não estão blefando.
Sem grandes protestos, somos bem comportados expectadores da tragédia Palestina. Também do desmonte dos organismos internacionais, criados no pós guerra com a função obrigatória de defender o respeito humano com todas as suas faces, protegendo os mais fracos da prepotência e da potência dos fortes – em armas ou dinheiro, ou os dois. Para impedir repetições de genocídios, de holocaustos.
Nossa tolerância com o intolerável terá consequências, preço alto, generalizadas dores, como retrata a História e tenta nos ensinar. Insistimos em não aprender.
Os quatro pilares ideológicos, jurídicos e morais do alto capitalismo - constituições, contratos, cidadania e sociedade civil - são, hoje, vadios maltrapilhos, mas sempre lavados, barbeados e vestidos com roupas novas para esconder sua verdadeira situação de penúria. Fredric Jameson, “A Cultura do Dinheiro”
Em excelente artigo publicado no Correio Braziliense, o ex-ministro Raul Jungmann apresenta sua visão sobre a importância moral e a necessidade social de combater preconceitos e promover a diversidade — respeito e aceitação do outro, pela cor da pele, orientação sexual, religião ou gênero. Apesar da qualidade e relevância, o artigo manteve a tradição de ignorar o "rendismo": a discriminação ao acesso a bens e serviços essenciais conforme a renda da pessoa (comida, educação, saúde). Tampouco menciona que, aplicado à educação, esse preconceito é a principal causa dos outros preconceitos.

O respeito à diversidade nasce do que for ensinado nas escolas: na formação da mente e na definição de comportamentos. Ser ou não ser racista, homofóbico, machista, depende do que é ensinado nas famílias e nas salas de aula. Cada vez menos nas famílias e mais nas escolas. Apesar da percepção, no Brasil, o acesso à escola de qualidade com permanência até o final da educação básica com qualidade depende de um preconceito disfarçado: a renda da criança. Jungmann lembra que a abolição foi um gesto de respeito à diversidade, ao determinar que legalmente ninguém era mais escravo no Brasil.
Mas o sistema escolar mantém até hoje "escolas senzala", para pobres, "descendentes sociais" dos escravos, e "escolas casa grande", frequentadas pelos "descendentes sociais" dos escravocratas, que podem pagar as altas mensalidades em instituições privadas ou que conseguem vaga em alguma das raras boas escolas públicas, quase todas federais. Pela abolição, brancos e negros tornaram-se iguais perante a lei, mas ricos e pobres continuam a ter direitos diferenciados, graças ao acesso desigual à educação plena e de qualidade.
Para ser plenamente alfabetizado hoje, é preciso saber ler, escrever e criticar em português, ser fluente em pelo menos um idioma estrangeiro; aprender a deslumbrar-se com as artes, ter competência e gosto para o debate sobre os temas de filosofia, política, antropologia e sociologia; indignar-se com a permanência da pobreza, desigualdade social, autoritarismo, corrupção e preconceitos contra as minorias.
Saber usar as ferramentas digitais para usufruir e trabalhar com elas; formar-se em pelo menos um ofício que permita emprego e renda; adquirir noções e gosto pela prática de solidariedade com vizinhos, compatriotas e toda a humanidade: respeitar os patrimônios cultural e natural e sua diversidade; querer participar da construção de sociedades pacíficas, com desenvolvimento sustentável, democrático e justo; ser capaz de obter educação continuada ao longo da vida nestes tempos de limites, incertezas, revoluções tecnológicas e conceituais e transformações geopolíticas; garantir a todos que desejarem, a base para concorrer à vaga nas universidades e nos cursos mais disputados. Essa educação necessária não é oferecida à maior parte dos brasileiros, discriminados pelo rendismo.
Essa discriminação é executada pela falta de um Sistema Único Público de Educação Básica com máxima qualidade, permanência e equidade. Como consequência, o destino de cada brasileiro é definido desde o nascimento conforme a renda. Apesar de um negro rico poder frequentar a mesma escola que um rico branco, a pobreza tem cor preta porque a maior parte da população pobre é excluída da educação de qualidade devido ao rendismo.
O preconceito racial persiste porque a negação de escola de qualidade discrimina a população afrodescendente que, por falta de renda, tem suas crianças fora da escola de qualidade. As análises sobre preconceito e diversidade se mantêm no paradigma tradicional: não denunciam o rendismo na promoção educacional, na compra de anos de vida e de saúde e até mesmo no direito à liberdade — em função do poder de compra dos serviços jurídicos.
Por milênios, houve discriminação racial, mas a palavra racismo só nasceu durante o nazismo alemão para definir a discriminação contra os judeus. Depois, se expandiu para os outros tipos de preconceito racial. Mas, até hoje, a palavra rendismo não é aceita para definir o preconceito de renda que determina a negação do acesso aos bens e serviços essenciais — comida, saúde, escolaridade. O mesmo padrão moral aplicado à desigualdade na qualidade da educação é aplicado à desigualdade no acesso a bens e serviços supérfluos e suntuários. Além de imoral, essa visão é também estúpida, porque não é percebida como a causa de todos os demais preconceitos: a diversidade indecente determinada pela renda, impede o respeito às diversidades decentes.
No Egito antigo, no tempo de Ramsés II, a preocupação com a vida após a morte direcionou ações das mais variadas, como construções, práticas de embalsamento e abordagem religiosa politeísta em que a proteção era o lugar comum no relacionamento com as divindades e o paraíso era uma ambição. Uma coisa interessante é que a morte era tratada de maneira parcelada em termos da eliminação do corpo. Após o falecimento, vários órgãos eram descartados, exceto o coração, e o embalsamento tinha o seu rito.
Na crença da época, o falecido enfrentava uma avaliação, conhecida como sala de Maat, em que o coração era “pesado” a partir de 42 negações que se referiam a questões éticas e religiosas, como não ter matado, não ter roubado etc. Com isso, era possível comparar o peso do coração com uma pena. Se no conjunto da avaliação o coração fosse mais pesado do que a pena, uma fera comia o coração, e o sonho do paraíso era extinto para sempre. Se fosse mais leve, seria aprovado e liberado para o paraíso. Era a crença de uma prova com chance única levando em conta toda a trajetória da vida terrena. Ou ia para o paraíso para continuidade de sua vida ou… Parece aquela final do campeonato com jogo único, bem ao estilo Elvis (Is now or never).

Uma das coisas importantes traduzidas para a nossa realidade era que o rio Nilo era incluído no teste do peso do coração, como elemento da natureza a ser protegido e não deteriorado. Uma das condições do julgamento da sala de Maat era a confissão número 35, que consistia em dizer “Não interrompi (ou não obstruí) a corrente d’água”. Interromper a corrente de água significava, literalmente bloquear canais de irrigação, prejudicando plantações alheias, reter água para benefício próprio, em detrimento da comunidade, ou modificar o curso natural do Nilo, algo visto como um ato contra a ordem divina (Maat). Num país onde o Nilo era a fonte da vida, manipular o fluxo da água injustamente era visto como um crime grave, tão sério quanto roubar ou matar, pois podia significar sofrimento e morte para outras pessoas. Era a confluência entre individual e coletivo.
Segundo Zakaria Adeeb Abdelsayed, egiptólogo formado pela Universidade de Assuã, no Egito a lógica era de defesa do Nilo. Não tendo o avanço da sociedade sobre a natureza, o problema não era encontrar latinha de cerveja, sacos plásticos, esgotos clandestinos, pneus ou mesmo sofás boiando, mas algo sobre defender o Nilo pela forma como a natureza teria oferecido. O Nilo era e ainda é a forma mais clara e decisiva na sustentabilidade da região já que, de uma forma muita simplificada, geograficamente, o Egito é um deserto que contém um presente da natureza que permite a vida. A vida foi se desenvolvendo ao longo do rio.
A relação causal entre a existência do Nilo e a vida nesse caso é muito evidente, clara, prática, individual e coletiva. Passa a ser coletiva quando essa clareza se torna homogeneamente prioritária. De forma geral, isso falta à sociedade atualmente. Quando ocorrem as catástrofes a sensibilidade surge, mas se esvai com muita facilidade, em parte por causa do overload de informações e passamos para a página seguinte, deixando de filtrar informações pelas prioridades, mas sim pela atualidade. Vale mais gastar neurônios naquilo que hoje as mídias divulgaram do que algo que mexe com a vida, mas não é tão recente, indicando que a importância do novo supera a lógica do impacto do que se trata. A novidade atrai e ocupa mais o espaço de interesse do que o crítico e estratégico.
Essa consciência da importância da natureza, mais de três mil anos depois, ainda está imperfeita. Na verdade, muito distante do real impacto. Afinal, as mudanças climáticas estão no nosso dia a dia, cada vez mais próximas da nossa vida. Enquanto os fenômenos afetam quem está longe fisicamente, não gastamos tempo e energia. A realidade do aquecimento, enchentes, destruição da natureza traz a dimensão da sustentabilidade para outro patamar, mostrando que o tema é cada vez mais presente e urgente: não é para hoje ou amanhã, mas para ontem.
Embora a questão econômica sempre apareça como forma de desvio das soluções, ela mudaria de perspectiva se fosse percebida sob a lógica de não apenas curto prazo. Quando a gente não consegue ver alguma coisa ocorrer no curto prazo, o estímulo para se preocupar se reduz. Nesse sentido a sustentabilidade, fatiada nos seus vários temas, é um tema de longo prazo como proposta de solução, mas é algo de curtíssimo prazo quando se pensa nos desafios, crises e desastres, alimentado diuturnamente.
Existem vários motivos para a não percepção de urgência, isso, com dependência de múltiplos stakeholders com interlocuções. O tema valorização de ações que tratem a sustentabilidade passa pela lógica de mudança de hábitos e a sensibilização da sociedade deveria se mostrar presente. Temos camadas diferentes de percepções, em que um dado grupo não precisa ler este artigo por se posicionar com evidências e consciência do problema e de algumas soluções; do outro lado extremo, uma camada que não percebe a questão como um problema.
Especialmente no que se refere ao segundo grupo descrito, algumas reflexões podem ser oferecidas sobre o tema sustentabilidade com a inspiração do Nilo.
Nossas ações a favor (tornando o coração leve) e contra a natureza (aumentando o peso do coração) estão sendo “medidas”, não como julgamento da sala de Maat, mas como consequências reais sobre a humanidade, de diversas formas, como aquecimento, enchentes, desequilíbrios que afetam a geração de alimentos e consequências negativas nas vidas das pessoas. Alguns desses fenômenos sempre ocorreram, mas estão se tornando mais críticos e abrangentes, e, infelizmente, nos acostumamos com os problemas. Take for grant, ou seja, “é a vida”. Um grande problema é que quem age contra a natureza, não necessariamente é quem sofre as consequências.
O “Nilo” enquanto metáfora contemporânea se mostra de diversas formas, como o bioma amazônico, o Aquífero Guarani, a Mata Atlântica urbana, por exemplo. A dimensão temporal entre não proteção ao sustentável e os danos não é casada, o que torna difícil a evidenciação causal e mesmo a responsabilização de algumas ações, ou mesmo não-ações. Quando pensamos numa dimensão mais localizada, qual é o “Nilo” que garante a vida na sua cidade ou o seu bairro? E o que você faz por ele?
Podemos trabalhar a ideia de que o julgamento egípcio era individual, mas a salvação sustentável era coletiva. Não podemos perder esse direcionamento, e a educação pode, e deve, transformar catástrofes em gatilhos permanentes de consciência, não apenas em manchetes de ocasião. Educação nesse sentido começa na intimidade dos valores das famílias, da forma como são, com a percepção da importância da sustentabilidade que o núcleo tem.
A escola, nos seus vários níveis e áreas, também têm papel importante, o que proporciona força para a consciência coletiva, independentemente dos direcionamentos governamentais e seus humores nem sempre consistentes, principalmente pelo cruzamento do individual com o coletivo político.
O “efeito novidade” nas mídias tem muita força quando comparado com os temas de priorização estratégica. Os impactos de estiagem do Nilo eram concretos e de curto prazo, o que favorecia a priorização e foco, algo que não é percebido como concreto hoje e deixa de sensibilizar as pessoas. Afinal temos muito tempo para corrigir coisas. Na verdade, não temos, e as correções dificilmente reporão a qualidade da natureza do passado. Temos tantas coisas para priorizar que o “efeito novidade” acaba ganhando mais força do que é realmente relevante e que deveria ser ressaltado pelas nossas lideranças. Afinal, você não se pergunta:“Por que nos mobilizamos mais por uma celebridade da internet que foi presa do que por um bioma queimando por vários dias?”. Provavelmente o “Nilo” não foi percebido. O individual pode afetar o coletivo se for sensibilizado.
Como levar a lógica do “Nilo” até para quem nunca viu água limpa sair da torneira? A heterogeneidade de percepção, tanto do risco como do benefício é enorme, independentemente de camada social e região geográfica, implicando em estruturação de diferentes diálogos. Em outras palavras como dialogar com quem já entendeu e posiciona com compromissos, e como alcançar quem ainda não percebe o risco?
Os rituais egípcios, como a construção de pirâmides e locais para os mortos, eram longos e previamente deliberados. A mudança de hábitos também requer ritos de passagem, paciência, repetição. A tese é que a lógica de pensar na sustentabilidade como ingrediente permanente na cultura das pessoas não se impõe, se cultiva. O esforço no sentido de defender a visão de sustentabilidade existe desde longa data mas precisa ser substancialmente ampliado. Se o planeta estivesse fazendo o papel de Maat, quais perguntas ele faria para decidir se ainda nos quer como hóspede?
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A sociedade precisa de algo para ter a percepção que o Nilo produz para o Egito, significando nada mais, nada menos do que a chance de ter vida para hoje, amanhã e depois de amanhã. É isso que deveríamos pensar quando surge o tema sustentabilidade. Nada mais, nada menos.
Prestem atenção ao que mencionei no início deste texto: para pesar o coração eram formulados 42 questionamentos sobre o comportamento das pessoas ao longo das suas vidas. Com isso posso imaginar que Ramsés II, se estivesse por aqui hoje, iria considerar que acesso ao paraíso de antigamente era mais desafiador do que o de hoje. Quem sabe possamos nos encontrar no paraíso?
Um dos meus mestres, o professor Luiz de Castro Faria, chamava a atenção para o “bacharelismo” brasileiro no intuito de definir nosso legalismo — o ideal de ordenar juridicamente a realidade social.
Bacharel é alguém diplomado numa faculdade de Direito, mas é também o “bem-falante” ou o “tagarela” capaz de invocar uma regra para tudo. O termo nasce pelos anos 1400 para designar o aspirante a um diploma universitário. Quando o Brasil era um “país de analfabetos”, seria impensável ocupar certos cargos sem o título de bacharel. Isso explica o fato de o Brasil ser o país com mais faculdades de Direito do planeta. Era esse formalismo que nosso professor apontava.

Todo mundo que “se lava” ou aspira ao bacharelato social busca ser “branco”, ter “boa aparência”, ser “limpo”, simpático e, por fim, mas jamais por último, ser “bem relacionado” — pertencer à turma ou ao partido certo. Ser, como adverte Manuel Bandeira, amigo do Rei, tendo as prerrogativas, os privilégios e as vantagens dos “grandes” e mandões. Dos donos do poder, como dizia Raymundo Faoro.
Eis uma aristocratização que estou rouco de repetir nesta coluna. Nobreza mal mascarada porque são justamente os “bacharéis”, esse povo que escreve em jornais, tem curso superior, que mais falam em democracia e, dependendo da pessoa ou contexto, desdenham a universalidade da meritocracia e, inapelavelmente, usam particularismos para “vencer na vida”. Um vencer que se traduz em “enriquecer” ou “subir”, tendo certeza das anistias e anulações, como estamos fartos de engolir.
São essas singularidades bacharelescas que justificam o “você sabe com quem está falando?” por mim analisado, que surpreende pela ausência de discussão porque é justamente o particularismo que estrutura o campo cultural brasileiro. Campo dinamizado por uma competição entre solidariedades devidas aos companheiros e as regras do Estado Democrático de Direito que formalizam a democracia liberal.
Liberal porque nós, humanos, substituímos instintos por uma consciência que é, fundamentalmente, libertária e nos faculta e nos condena a escolhas que nos individualizam e, ao mesmo tempo, conduzem à solidariedade.
Em nossa vida pública, chama a atenção a recorrência de crimes cometidos por administradores públicos e o fato de os criminosos serem ancorados por laços de amizade, ideologia ou prerrogativas jurídicas. Espanta verificar que os meliantes sejam nomeados por governantes eleitos por partidos políticos furiosamente voltados para o bem público. A marca do que chamamos de “corrupção” é justamente o absurdo da legitimidade burocrática, ao lado do apoio hoje desmontado pelos instrumentos digitais, de companheirismo ideológico. Esse traço, acentuo, vale tanto para a direita cavernária e burra quanto para esquerda iluminada.
Trata-se do permanente confronto de costumes contra leis; de relacionamentos contra as isenções e isolamentos exigidos pelos cargos públicos num sistema democrático. Isenções ou insulamentos sistematicamente suspensos pelas “considerações” jurídicas do companheirismo ideológico. Nesse sistema, não existe conflito de interesse porque ele é no fundo guiado somente por interesses. Aí está a raiz do patrimonialismo de Antônio Paim e Raymundo Faoro.
Na descoberta do conflito, quem arbitra para condenar ou anistiar é o bacharel que, como profeta, aplica os mandamentos, protegendo o lado que mais lhe fala tanto à cabeça quanto ao bom senso do velho coração.
Entre a casa (o Executivo) e a rua (o Legislativo), surge intemerato o Judiciário com seu bacharelismo que não conhece contradição ou, reitero, conflito de interesse. Donde as anistias e as decisões contraditórias. Esse oscilar entre leis e costumes, entre o impessoal e o pessoal, é a marca maior de um sistema avesso à igualdade.
Há uma ilusão curiosa — e muito difundida — segundo a qual a maioria, ainda que silenciosamente, quer as mesmas políticas, valoriza os mesmos princípios, enxerga o país do mesmo jeito que a gente. Essa convicção subjetiva de que nossas ideias são majoritárias, mesmo quando não são, é bem conhecida na psicologia social e atende pelo nome de viés de falso consenso.
É um viés cognitivo, ou seja, uma tendência psicológica automática que faz com que projetemos nossas características e preferências sobre o coletivo. Progressistas tendem a superestimar a adesão da sociedade —ou da melhor parte dela— aos seus valores; conservadores estão convictos de que o Brasil profundo é conservador como eles.
A esquerda tem certeza de que a massa compartilha sua visão de mundo, seu conceito de justiça e sua ideia do papel do Estado; a direita tem certeza de que qualquer pessoa lúcida e bem informada não tem dúvida alguma sobre a superioridade da sua agenda e de suas políticas. Sim, a mente costuma nos pregar esta peça: a de que os outros é que são minoria —as pessoas sensatas pensam como nós.

Até aí, nada grave, certo? Certas ilusões respondem às nossas necessidades de obter validação social, e nada há de mais reconfortante e tranquilizador do que a convicção de que estamos com a maioria —mesmo que seja uma convicção falsa.
O problema é que, cedo ou tarde, indivíduos que sustentam opiniões que se creem majoritárias, mas não são, acabam se deparando com decisões políticas ou resultados eleitorais que não correspondem às suas próprias visões. Por não serem capazes de se entender como parte minoritária da sociedade, o resultado não é apenas frustração: é ressentimento. Como aceitar que uma maioria pense como eu e, ainda assim, as coisas continuem sendo decididas de outra maneira?
Um artigo deste ano dos pesquisadores alemães Steiner, Landwehr e Harms, na Political Psychology, mostra uma clara correlação entre a crença ilusória, por parte de minorias, de serem parte de uma maioria silenciosa, e o populismo de direita que por lá anda prosperando. Afinal, se os nossos interesses não encontram canais de expressão na política institucional, é porque a elite, corrupta e anti-povo, não ouve a maioria, bloqueia sua voz e passa por cima da vontade popular.
A essa altura, a crítica ao sistema político vira ressentimento contra "as elites" e, mais um passo adiante, a política se transforma em uma guerra moral entre "o povo" e "os corruptos". Nesse caso, sobra até para "a democracia que está aí", supostamente distorcida pela elite traidora e corrupta —e, portanto, passível de substituição.
Essa crença ilusória de que somos maioria está ligada não apenas à hostilidade contra as instituições, mas também à intolerância contra a simples discordância. Se a maioria pensa como eu, então é justo que minha opinião prevaleça e que a suposta minoria ponha-se em seu lugar. E se alguém ousa discordar, o problema não está na diferença entre visões, mas em uma falha no caráter de quem diverge.
Divergir da política pública predileta de cada grupo, portanto, não é expressão de uma diferença legítima, mas uma declaração de guerra moral. As cotas dos identitários, a defesa da família "como está na Bíblia" dos conservadores, a centralidade do enfrentamento da desigualdade da esquerda, a crença na superioridade da gestão privada da direita —tudo isso está fora de discussão.
É intocável, mesmo em nível argumentativo. E qualquer política pública em contrário será considerada uma abominação. Na raiz de tudo, está a certeza de que a maioria compartilha nossas convicções, de que a sociedade não está dividida ao meio e de que os minoritários são sempre os outros.
No fundo, essa convicção nos poupa do esforço de abrir espaço para buscar dados, escutar, revisar nossas certezas. Essa ilusão de consenso nos permite permanecer no conforto das nossas bolhas, certos de que representamos o bem, o povo e a verdade.
O outro lado vira ameaça; o pluralismo, um ruído incômodo; "essa democracia que está aí", um estorvo que atrapalha o cumprimento do destino moral do nosso grupo.
Talvez o maior desafio para a democracia hoje não seja apenas o ódio ou a desinformação, mas essa fé cega de que já vencemos o debate antes mesmo de ele começar. Acreditar que somos os porta-vozes da maioria silenciosa é uma tentação poderosa, mas perigosa, porque é uma porta aberta ao populismo, à intolerância e à incapacidade de lidar com a complexidade do mundo —ainda mais em sociedades polarizadas e radicalizadas.
Foi milagre. Semana passada, assistindo a um debate político na TV, um dos participantes mudou de ideias ao vivo. "Você tem razão", disse ele, depois de uma pausa de alguns segundos. "Pensando melhor, seus argumentos me convenceram."
O outro, surpreso, respondeu: "Sério? É a primeira vez que isso acontece na minha vida". No estúdio, todos riram.
Eu também ri, imaginando a cena, que nunca aconteceu. O responsável por minhas divagações mentirosas é o escritor Julian Barnes, que escreveu um breve ensaio a respeito: "Changing my Mind" (mudando de ideias).
Escreve Barnes, citando o artista Francis Picabia, que nossas cabeças são redondas para que nossos pensamentos possam mudar de direção. Mas quantas vezes isso acontece?

Em público, raramente. Nunca. Impossível. A cena televisiva que eu descrevi é pura ficção. Ninguém escuta argumentos, ninguém avalia o argumento do outro por seus próprios méritos.
Tudo o que temos são monólogos paralelos para converter os convertidos. Nossos debates são exercícios de dogmática muito semelhantes às brigas de galos. Vence quem dá mais bicadas no adversário.
Mas é possível mudar de ideias?
Julian Barnes confessa que mudou, até porque a mudança é involuntária. Nossas memórias, que julgamos fiéis, são sempre transformadas quando as convocamos para o presente. O que julgamos ter acontecido é, muitas vezes, uma construção posterior para tapar algum buraco ou alguma dissonância.
Concordo. Há episódios da minha infância ou da minha juventude que mudam de versão consoante as testemunhas. Lugares onde estive, mas não estive. Conversas que escutei, mas não escutei. Traumas que carrego, mas não carrego.
Nossa memória é um filme que vamos constantemente editando, ao sabor das conveniências presentes e dos temores futuros. A verdade, dolorosa verdade, é que nem o passado nos pertence por inteiro.
O que é válido para nós é válido sobre os outros. Meus juízos ou julgamentos sobre terceiros foram ficando mais modestos. Que sei eu da vida deles? Que sei eu da minha?
Mas não é preciso ser tão filosófico. Julian Barnes se ocupa das coisas singelas —palavras, política, livros, envelhecimento, morte— para fazer o catálogo das suas mudanças de opinião.
Gostei de saber que, entre os autores, o escritor inglês abandonou Bernard Shaw ou D.H. Lawrence —escritores que gostam de pregar os seus sermões— para revalorizar E.M. Forster ou Georges Simenon.
No meu caso, conservo ainda Bernard Shaw (pelo estilo), mas prefiro o contemporâneo Oscar Wilde (pelo estilo e pelo resto). Aliás, sempre preferi —e minhas mudanças foram bem menos radicais. Os autores que amei na juventude —Mark Twain, Wilde, Wodehouse, Evelyn Waugh— sempre estiveram na melhor estante.
E houve mudanças no pódio: entre os lusos, Eça de Queirós é agora medalha de prata (o ouro vai para Camilo Castelo Branco, bicentenário neste ano).
E em política?
Julian Barnes confessa que já votou nos trabalhistas, nos liberais, nos conservadores. E questiona se foi ele quem mudou ou se foram os partidos que mudaram.
Eu, confesso, nunca fui tão elástico. Meu ceticismo começou lá atrás e, até o momento, ainda não me abandou. Só abrandou, ou seja, estou mais liberal do que conservador. A escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís (medalha de bronze) dizia que nascera adulta e que iria morrer criança. Quem sabe? Talvez aconteça.
As melhores páginas do ensaio, porém, lidam com o tempo, a idade e a finitude. Julian Barnes relembra: na infância, o tempo não existia ou existia em excesso, sob a forma de um tédio aterrador.
É um mal de que nunca padeci: na infância, o tempo tinha a duração ideal —os dias eram longos e proveitosos, as férias ainda mais.
Na idade adulta, a única alteração foi para pior: o tempo passa rápido ou, então, rapidíssimo. E fica tudo por fazer.
Sobre a velhice e a morte, Julian Barnes, beirando os 80, não tem ilusões: a velhice não é um eufemismo ("os 80 são os novos 60" etc. etc.) e a morte será um ponto final sem prorrogação eterna.
Com menos 30 anos, não consigo ser tão definitivo. Mas envelhecer, ao contrário do que pensava e temia, tem sido uma bênção para mim, mesmo que o corpo diga o contrário.
Há coisas que mudam. Há coisas que não mudam. A primazia do amor, a primazia da arte, a primazia da literatura — essa trilogia manteve-se inalterada em Julian Barnes. Exatamente por essa ordem?
Não sabemos. Mas é uma lista respeitável, que eu endossaria facilmente — não fosse por uma ausência imperdoável: a primazia do humor.
A sabedoria popular está errada. Quem ri por último não ri melhor.
A capacidade para nos adaptarmos é um sexto sentido. Muitos animais não têm: morrem. De outros não chegamos a saber: não se adaptaram, ficaram por ali, sem deixar descendência de espécie alguma.
As nossas circunstâncias estão sempre a mudar e, como não podemos mudar as circunstâncias, mudamos a nossa maneira de encará-las.
Veja-se a pintura de Veronese que é conhecida por “Convito in casa de Levi.” Como é que se conta a história desta pintura? Depende da maneira como a queremos contar. Vou contar apenas a história que mais me convém.
Veronese pintou a última ceia, mas a Igreja não gostou. E lá se convocou a Inquisição para julgar o pintor. A pergunta principal era: “Por que a última ceia está cheia de bêbados, anões e alemães”?
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Veronese respondeu que havia muito espaço para encher e que tinha tido o cuidado de colocar os bêbados, anões e alemães muito longe de Jesus. Enfim, disse o que qualquer um de nós diria.
Mas não colheu. A Inquisição reagiu como qualquer Inquisição reagiria. Mandou alterar imediatamente a pintura, ordenando que extinguese aquelas figuras carnavalescas.
Veronese não queria alterar uma composição tão magnífica. Decidiu mudar de estratégia: os bêbados, anões e alemães estavam lá porque que, como artista, tinha direito a exprimir-se com a mesma liberdade que se concedia aos loucos e aos poetas. A Inquisição deve ter sorrido, não era insensível à lata.
Veronese e a Inquisição acabaram por se entender. Adaptaram-se.
A pintura ficou na mesma. Só o título mudou. Deixou de ser “A Última Ceia” e passou a ser “O banquete em casa de Levi”. Ou “A farra em casa de Levi”.
O nome mudou-se num segundo e não estragou nada. Foi uma adaptação magnífica.
Não é frequente evocar-se a flexibilidade dos grandes artistas – e muito menos da Inquisição. E assim se acrescentou uma história àquela que é a história da defesa da liberdade artística perante a tirania do gosto dominante.
A pintura ficou. E ficou a rir-se.
Miguel Esteves Cardoso
Após quase 19 meses de guerra, o povo de Gaza está ficando sem opções para lidar com a situação e teme o que o futuro reserva.
O bloqueio israelense de todos os suprimentos humanitários e comerciais já dura dois meses, e o bombardeio israelense em Gaza continua.
"A realidade em Gaza é indescritível", disse Ahmad Qattawi à DW por telefone da Cidade de Gaza. "Estamos vivendo uma tragédia, tentando sobreviver, sem saber se vamos conseguir ou não. Podemos sobreviver, mas nossas almas morreram há muito tempo."

O medo de bombardeios é um problema, ele enfatiza, e encontrar o suficiente para comer também é outro problema. "Somos consumidos pela busca diária por comida, estocando tudo o que podemos para os dias seguintes", acrescenta. "Comemos frugalmente e tanto quanto podemos."
Organizações de ajuda humanitária têm alertado constantemente sobre o alto risco de desnutrição e fome, já que padarias estão fechadas, o preço dos alimentos básicos está alto e as fronteiras permanecem fechadas.
Os mercados ainda vendem pequenas quantidades de vegetais, mas eles são inacessíveis para a maioria das pessoas. Os preços dispararam e muitos moradores de Gaza ficaram sem renda. Um quilo de tomate, alimento básico nas cozinhas palestinas, agora custa cerca de 30 shekels , ou 7 euros. Isso se compara aos 1 a 3 shekels por quilo que custava antes da guerra. E um quilo de açúcar agora é vendido por mais de 60 shekels .
"Nossas vidas agora dependem inteiramente de alimentos enlatados, com a rara exceção de alguns vegetais", diz Qatawi, 44 anos, acrescentando que cozinhar é um desafio devido à escassez de gás. "Não há lenha para acender o fogo, então queimamos tudo o que encontramos: roupas, sapatos, qualquer coisa. Esse é o nosso dia a dia."
"Nunca na história de Gaza nos encontramos em uma situação como esta", disse Amjad Shawa, diretor da Rede de Organizações Não Governamentais Palestinas (NGNO), por telefone, da Cidade de Gaza. "É uma catástrofe", acrescenta.
"Temos ataques aéreos, ataques de artilharia, ataques a tendas e abrigos", disse Shawa. "Não há lugar seguro. E, além disso, todo mundo está morrendo de fome. Mesmo falando pessoalmente, não sabemos o que comer. Não há quase nada."
Shawa comenta que as pessoas se sentem cada vez mais encurraladas, sem fim à vista. "E a pior coisa para nós, como humanitários, é nos sentirmos de pés e mãos amarrados, sem nada para dar", lamenta Shawa. "Fazemos o possível para dar alguma esperança aqui e ali, mas, por outro lado, somos parte da comunidade e não podemos nos isolar da situação."
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) disse que "o sistema de saúde está à beira do colapso, sobrecarregado pelo grande número de vítimas e severamente afetado pelo bloqueio total, que cortou o fornecimento de medicamentos essenciais, vacinas e equipamentos médicos".
Por sua vez, o Programa Alimentar Mundial (PAM) anunciou recentemente que esgotou suas reservas de alimentos para Gaza e distribuiu os últimos suprimentos para cozinhas comunitárias, que servem refeições básicas aos mais vulneráveis, bem como a farinha restante para padarias.
"Em 31 de março, as 25 padarias apoiadas pelo PMA fecharam depois que a farinha de trigo e o combustível para cozinhar acabaram", anunciou a agência da ONU em um comunicado. Na mesma semana, as cestas básicas do PMA distribuídas às famílias, contendo rações para duas semanas, acabaram. O PMA também está profundamente preocupado com a grave escassez de água potável e combustível para cozinhar, que obriga as pessoas a procurar comida para cozinhar.
À medida que os suprimentos diminuem, as preocupações sobre como apoiar os entes queridos ofuscam tudo, disse Mahmoud Hassouna, morador da cidade de Khan Yunis, no sul de Gaza, à DW por telefone. O jovem de 24 anos foi deslocado no início da guerra em 2023, quando a casa de sua família foi destruída por bombardeios israelenses.
O jovem conta que passa o dia na casa improvisada da família, ajudando a mãe a preparar comida. "Voltamos a viver de comida enlatada", diz ele. "Não temos dinheiro suficiente para comprar vegetais, que são vendidos a preços exorbitantes no mercado."
Hassouna explica que seu trabalho é encontrar lenha, algo que tem sido difícil de obter ultimamente, já que a maioria das árvores foi cortada ou destruída por bombardeios. Muitas pessoas se arriscam a entrar em casas bombardeadas para resgatar portas ou objetos de madeira.
Você também precisa encontrar água potável e tentar carregar seus celulares nas proximidades. O medo de bombardeios e deslocamentos tornou-se constante: "Passei quase dois anos da minha vida sob bombas, assassinatos e mortes. Nem me reconheço mais."
Um cessar-fogo que começou em janeiro e durou até o início de março trouxe algum alívio à população de Gaza e deu tempo às organizações humanitárias para encher seus armazéns. Entretanto, a situação se deteriorou novamente quando Israel encerrou o cessar-fogo e retomou sua ofensiva em 18 de março, após a conclusão da primeira fase do acordo de cessar-fogo, a libertação de reféns e o fracasso das negociações sobre uma segunda fase.
Antes do fim do cessar-fogo, o governo israelense já havia ordenado o fechamento de todas as passagens de fronteira e interrompido todos os carregamentos humanitários e comerciais para Gaza.
O bloqueio faz parte do que autoridades israelenses descrevem como uma estratégia de "pressão máxima" para forçar o Hamas a libertar os reféns restantes sob um novo acordo de cessar-fogo temporário e, finalmente, derrubar o grupo militante palestino. Autoridades israelenses acusaram o Hamas de roubar ajuda e usá-la para suas próprias forças.
A mídia israelense informou na segunda-feira que o gabinete de segurança aprovou planos operacionais para expandir a atual ofensiva militar , incluindo o recrutamento de dezenas de milhares de reservistas . Não está claro quando tal expansão ocorreria.
O Hamas rejeitou todos os pedidos de desarmamento e insiste em um acordo que garanta o fim da guerra.
Israel iniciou a guerra após um ataque terrorista liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no qual homens armados mataram quase 1.200 pessoas, a maioria civis, e sequestraram cerca de 250 reféns. Autoridades israelenses dizem que 59 reféns permanecem em Gaza, dos quais acredita-se que menos da metade esteja viva.
Israel respondeu imediatamente ao ataque liderado pelo Hamas com uma grande operação militar e ofensiva terrestre em Gaza. O número de mortos na Faixa de Gaza já chegou a mais de 52.000, informou o Ministério da Saúde administrado pelo Hamas na semana passada. Acredita-se que milhares estejam soterrados sob os escombros.
Grupos de ajuda humanitária e as Nações Unidas acusam Israel de usar ajuda humanitária e alimentar como ferramenta política. Isso constitui um potencial crime de guerra que afeta todos os 2,2 milhões de pessoas em Gaza.
Esta semana, o Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Socorro de Emergência, Tom Fletcher, lembrou a Israel em uma declaração que "o direito internacional é inequívoco: como potência ocupante, Israel deve permitir a entrada de ajuda humanitária. A ajuda, e as vidas civis que ela salva, jamais devem ser usadas como moeda de troca".
Durante a guerra, a população de Gaza tornou-se quase inteiramente dependente de suprimentos externos. O deslocamento contínuo de pessoas e a criação de uma vasta zona de proteção controlada pelo exército israelense no norte, ao longo da fronteira leste e no sul negaram aos palestinos o acesso às terras agrícolas mais férteis de Gaza.
"Simplificando, Israel não está apenas impedindo que alimentos entrem em Gaza, mas também criou uma situação em que os palestinos não podem cultivar ou pescar seus próprios alimentos", diz Gavin Kelleher, um trabalhador humanitário do Conselho Norueguês para Refugiados, que recentemente retornou de um trabalho em Gaza.
Os moradores de Gaza também relatam saques de armazéns e uma atmosfera geral de caos e segurança interna precária durante o bombardeio israelense.
O OCHA informou na quinta-feira (1º de maio) que "ataques recentes teriam atingido prédios residenciais e tendas que abrigavam pessoas deslocadas, particularmente em Rafah e no leste da Cidade de Gaza. Até terça-feira, nossos parceiros humanitários estimavam que mais de 423.000 pessoas em Gaza foram deslocadas novamente, sem ter para onde ir."
Isto é um pesadelo para Mahmoud Hassouna. "Meu único desejo é nunca mais ser deslocado." E ele acrescenta: "Depois disso, quero que essa guerra louca acabe."
Escrito como reportagem histórica, décadas depois dos fatos, Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe (3ª edição, Artes e Ofícios, 2014, tradução Eduardo San Martin), foi publicado em 1772 em uma estratégia publicitária. O material é apresentado com autoria oculta, produzido por um cidadão londrino que viveu à época dos fatos e que nunca antes fora publicado. A peste de que trata o livro é a bubônica, de 1665, que transformou Londres em um pequeno inferno, com seres deformados e mortos em todos os cantos. Trazida nos porões dos navios pelos ratos, a doença reconfigura a organização da cidade, que sofre um esvaziamento, aguçando as divisões sociais.

Não há no livro propriamente um enredo, embora as narrativas se organizem em dois núcleos. A viagem cotidiana pela cidade contaminada, feita pelo narrador, e a história de um grupo de trabalhadores que tenta deixar Londres. Entre dados estatísticos de mortos, descrição da doença, métodos de ação sanitária e policial, elogios ao prefeito, cenas dramáticas de sofrimento e relatos do descuido da população, o livro documenta, a partir de relatos, não raro exagerados, este momento histórico que ainda causava medo na população. O tom que hoje chamaríamos de sensacionalista domina o livro, e, para que haja um maior impacto, no seu lançamento, ele simula uma veracidade documental. Seria um diário em primeira pessoa deixado por um sobrevivente da epidemia. O não-ficcional fazia parte de uma estratégia de chegar a um público maior, mais crédulo quando diante de obras pretensamente reais. O ficcionista, assim, no primeiro momento, se vale da invenção para forjar um caráter documental, anulando-se como autor. Ou seja, o ficcional é constituído nos paratextos, no envelopamento narrativo da obra que se apresenta como testemunhal. Esta novidade de estrutura dá a esta quase-ficção uma natureza moderna, de busca do leitor desconfiado em relação à literatura e ávido por emoções tidas como autênticas, porque vividas em proximidade com um cidadão que tomou nota do que viu. O subtítulo extenso é quase um abstrat da obra: Observações e recordações dos acontecimentos mais extraordinários, públicos ou privados, ocorridos em Londres durante a última grande epidemia. Ou seja, o livro cumpre uma das funções literárias que é a de transmitir emoção estética a partir da simulação de episódios, que aqui atinge a própria identificação autoral.
O autor ficcional do diário tem uma classe bem definida. É um comerciante abastado que, por tédio e por esporte, não fez como a maioria dos companheiros de seu grupo, que, ao primeiro sinal dos riscos da doença, deixou a cidade e foi em busca dos ares puros do campo, em suas propriedades de campo: “Enquanto a população fugia da city, descobri que a corte mudara mais cedo”. Como um trânsfuga, ele olha a cidade deixada para trás pelos seus, podendo passar o período da doença como um flâneur no inferno. Há um diletantismo noir nesta sua atitude que também é um componente estético.
Este eu burguês percorre assim a cidade e a revela dominada pelos pobres, pelos criados abandonados pelos ricos, pelas famílias que ocupavam regiões mais populosas da periferia, todos nas mãos do charlatanismo, tanto científico quanto místico. “O povo andava feito louco atrás de curandeiros, charlatões e de toda velha benzedeira em busca de remédio e tratamentos […], atrás de remédios geralmente anunciados em floreios como este: ‘pílulas preventivas, infalíveis contra a peste’, ‘elixir soberano contra a corrupção do ar’” — o que poderíamos tomar hoje como versões desesperadas da crença em remédios como a cloroquina. Foi um momento de desafio para a medicina, com seu receituário contraditório, em que médicos que prescreviam e usavam certos métodos ou produtos eram também acometidos pela peste.
Há todo um código de habitação da cidade, na maioria das vezes desrespeitado, para evitar a sua propagação. O principal deles é que as famílias contaminadas são mantidas isoladas nas casas, para que não espalhem a doença. Para isso, um aparato policial é posto em ação e mesmo homens de bem da sociedade são convocados para fiscalizar esta medida. O próprio narrador é um deles que, depois de saciar o seu desejo de colher episódios, contrata um pobre para ocupar a função perigosa imposta pela prefeitura.
Para não ter a casa vigiada, as pessoas fingem-se saudáveis, até ficar impossível esconder as transformações do corpo adoecido, e aí são trancafiadas para morrerem quanto antes em isolamento doméstico.
Este cenário dantesco é descrito como fruto da corrupção moral, daí o tom bíblico da vingança divina de algumas passagens da narrativa. O pecado é que levou àquele estado de coisas, sendo a peste uma mão de Deus para punir a nova Sodoma. Embora o narrador apresente estas teses, ele culpa também a população que não se preveniu e continuou contaminando outros cidadãos, em uma espiral infinita. Famílias mais abastadas que não saíram a tempo teriam sido contaminadas pelos seus criados, pois “é preciso reconhecer que, embora a peste atingisse os mais pobres, também foram os pobres que mais destemidamente se expuseram a ela, dirigindo-se aos seus empregos com um tipo de coragem brutal”. Houve fechamento de comércio e de fábricas, o que resultou na “dispensa e demissão de um número incontável de diaristas e operários de todos os tipos”. Esta população, a mais sacrificada, acabou presa à sua pobreza e morrendo em quantidades absurdas (ao todo, foram 75 mil mortos), ao ponto de serem jogadas em valas comuns e obrigando as autoridades a abrir novos cemitérios.
A população que não tinha posses para deixar Londres, ou que foi negligente quando podia fazer isso, restou na cidade. O narrador conta a tentativa de fuga de três irmãos trabalhadores, um velho soldado, um padeiro e um marinheiro aleijado, que com um pouco de dinheiro e provisão tentaram ir para outras vilas, mas eram proibidos de entrar nelas.
Revelando-se politicamente, Defoe, oculto neste narrador anônimo, conclui que o acerto do prefeito, que com sua equipe ficou na cidade, foi trancafiar a população (principalmente a mais pobre) nas suas casas e na cidade, para evitar a propagação da peste. Houve também controle para que não ocorressem saques nas casas e lojas fechadas, o que distinguiu a “boa administração do lorde prefeito e dos juízes […] para impedir que a fúria e o desespero do povo explodissem em arruaças e tumultos, em suma: que os pobres roubassem os ricos”. Neste elogio está a visão de classe do narrador, que mostra para que serviram as autoridades constituídas e qual foi a solução sanitária encontrada: transformar a cidade de Londres em um imenso campo de concentração, em que a população mais necessitada morresse ali, sem causar maiores danos à economia, ao comércio e aos cofres públicos. Uma política que, com alguns disfarces, talvez seja a mesma que estejamos vivendo em certos setores do Brasil de hoje.
O vocabulário da política brasileira tem consagrado o conceito de polarização para traduzir o sentimento do eleitorado em relação ao momento que o País atravessa. O termo se tornou uma recorrência na expressão popular, a partir de 2018, quando o ex-capitão Jair Bolsonaro ganhou o pleito, no segundo turno, por 55,13% contra 44,87% do petista Fernando Haddad. A polarização foi o conceito usado por uma parcela do eleitorado para explicar a vitória do candidato da direita contra o candidato de esquerda. E, também, para explicar a vitória de Lula em 2022.
A polarização política, é oportuno lembrar, ganhou espaço no cenário eleitoral ao longo do ciclo da redemocratização dos anos de 1990, quando o PT ainda se apresentava como o legítimo intérprete do ideário socialista, enfrentando o PSDB, que tentava fincar as estacas da social-democracia. As diferenças entre os dois se apresentavam no modo de implementar seus programas, pois os escopos se aproximavam.
Enquanto os partidos socialistas defendem a igualdade social, a justiça, a redução da desigualdade e a intervenção do Estado na economia para garantir o bem-estar social, por meio de mudanças radicais, os partidos social-democratas defendem o Estado do Bem-Estar Social, focando em reformas gradualistas, sob a égide do Estado Democrático de Direito.
Era esse o ideário que abria espaço para a polarização. Hoje, a disputa entre tucanos e petistas não tem mais sentido. O tucanato se apequenou, ninho, diminuiu de tamanho e, para sobreviver, funde-se, agora, com um partido amorfo, o Pode (Podemos), da família Abreu (Renata Abreu), para formar uma Federação, essa nova figura criada com o objetivo de permitir às legendas atuarem de forma unificada em todo o País. A nova Federação promete atuar na área de centro-direita.

Como se vê, os tucanos mudam para outro lado do arco ideológico, estreitando o espaço de centro-esquerda e engordando o centro.
Já o PT, que se apresentava como o único partido a desfraldar a bandeira socialista, também corre para o centro, premido pelas circunstâncias e forçado por um aglomerado composto de uma batelada de siglas sem doutrina (o Centrão). Urge reconhecer, porém, que o petismo ainda atrai uma legião de simpatizantes, principalmente os bolsões que recebem benefícios, contingentes da baixa classe média, grupos da academia e do mundo das artes e pequenos proprietários, entre outros.
O fato é que o partido amaciou sua imagem, adoçou sua narrativa extremista, limpou arestas, e contém vozes mais radicais, como os integrantes da Articulação de Esquerda, que ainda defendem um “projeto de direção socialista para realizar um processo de transformação radical do Brasil”.
A imagem de partido ideológico dá lugar à de um partido que joga o “jogo das conveniências”. Um partido que busca apoio de entes amorfos, sem ideologia, sem programas e sem marca.
O PSB do prefeito de Recife, João Campos, e do vice-presidente Geraldo Alckmin, por sua vez, já não habita a seara socialista, embora o S da sigla (S de socialista) tenha perdido sentido.
Voltemos, então, a analisar a polarização. Como ela pode existir sob uma moldura que mostra um PT centrista, um PSDB quase morrendo, o PDT do ministro da Previdência, Carlos Lupi, sendo destroçado pela crise do INSS, o PSB de João Campos sem programas, o PSD de Gilberto Kassab crescendo no espaço de centro-direita, e o PL de Valdemar da Costa Neto e de Bolsonaro, tendo como único objetivo derrotar Lula em 2026. Defende o PL um ideário, uma linha programática que lhe desse uma identidade? Ora, se ganhou em 2018 a disputa contra o PT, não foi por conta de uma marca ideológica e, sim, porque o eleitorado viu em Bolsonaro um perfil novo, alguém que se contrapunha à mesmice.
A ciência política ensina: a polarização costuma ocorrer em sistemas bipartidários, como os dos Estados Unidos, onde dois partidos, o republicano e o democrata, se revezam no assento presidencial da Casa Branca.
Portanto, a polarização no Brasil, nos termos definidos pela política, não existe ou é insignificante. Temos 29 siglas registradas no TSE e não há, entre elas, disputas ideológicas, com exceção de um outro partido, de índole extremada, como o PSOL ou o PSTU.
Se a disputa ideológica é de pouca intensidade, já na esfera social ela ganha força, ancorada em divergências entre duas bandas da sociedade, uma que se proclama liberal (defesa de princípios que enfatizam a liberdade individual, a igualdade perante a lei, a democracia, o livre mercado e a propriedade privada); e outra que defende valores conservadores (defesa da manutenção das instituições sociais tradicionais, como a família, a comunidade local e a religião, além dos usos, costumes e tradições).
Qual o tamanho dessas bandas? As pesquisas de opinião calculam que ambas não passam de 30% do eleitorado. Sobram 70%.
Pergunta que fica no ar: é possível se afirmar que temos forte polarização no País, como costumam dizer bolsonaristas e petistas?