domingo, 26 de abril de 2020

Moro sai: tudo pode piorar

“Nada é tão ruim que não possa piorar”. Estamos, irremediavelmente, diante da força e do impacto da verdade desta frase de sábio autor desconhecido: O País já tremera na base com o embate irracionalmente feroz que redundou na queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, abrindo espaço para Nelson Teich, novo chefe da pasta, e o general Eduardo Pazzuello, seu braço direito, como secretário executivo – com novas estratégias “para vencer a pandemia sem matar a economia”. Episódio grave e constrangedor, e de conseqüências imprevisíveis, é verdade. No entanto, nem de perto comparável à implosão demolidora dos alicerces de imagem e sustentação política e institucional do governo do presidente Jair Bolsonaro, causada pela fala recheada de revelações e denúncias do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, ao deixar a pasta.


Ainda resta muita poeira e fumaça no ar em razão da explosão de nitroglicerina pura nos pilares do governo bolsonarista. Mas dá para avaliar e reconhecer desde já, ao menos do ponto de vista jornalístico: O ex-ministro da Justiça e Segurança ao sair da gestão – onde sempre foi o mais bem avaliado integrante do primeiro escalão nas pesquisas de opinião pública – fez um dos pronunciamentos mais duros e reveladores dos intestinos da política e do poder na história moderna da Nação. Moro sai maior – bem maior do que entrou.E deixa menor, bem menor – quase em cacarecos – o governo onde passou menos de um ano e meio. Mais: O juiz condutor da L ava Jato deixa o governo acusando, pública e explicitamente, o mandatário do Palácio do Planalto de interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal. O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, ontem mesmo, anunciou que todas as denúncias de Moro em sua saída serão apuradas. A conferir.

Na espera dos próximos fatos, cabe pausa para contextualizar o tumulto de domingo, 19 de abril, comemorativo do Dia Nacional do Exército. Afinal, muito da implosão desta sexta-feira,24, para não esquecer, parece decorrer da ruidosa manifestação popular pedindo o relaxamento das normas de isolamento, no combate à pandemia, onde aconteceu de tudo, ou quase: do agressivo discurso do presidente, a gritos de “prisão” e “cadeia” para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Houve até pedidos de novo AI-5 e intervenção militar..

A reação foi imediata. Ruidosa também, cheia de contradições e jeitinhos: de Maia a Alcolumbre (Congresso), de Dias Toffoli a Gilmar Mendes (STF); dos intelectuais, celebridades “e suspeitos de praxe”, como no filme “Casablanca”.

Com panos quentes, no meio do fogo cruzado, apareceu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que alerta no Twitter: “Não é bom acirrar crises institucionais. Um pouco de contenção de lado a lado ajuda. Não creio em conspirações para tirar poder do Presidente. Ele e alguns militares podem crer. Melhor não dar pretexto para o pior; Lembremos de 68”. No fim da semana o desfecho mais inesperado e devastados: a saída do ministro Sergio Moto. Desce o pano no teatro de horrores e suspense nacional.. Até o próximo ato.

Voltar ao normal? Só com estas inovações, diz Bill Gates

Todos se lembraram dele logo que a Organização Mundial de Saúde decretou esta pandemia de coronavírus. Bill Gates, cofundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, tinha já falado de uma ameaça semelhança numa Ted Talk, em 2015. Nela fazia uma descrição detalhada do que poderia ser uma propagação rápida de uma infeção viral por todo o mundo. Num primeiro momento, Gates ainda lamentou não ter sido levado a sério e que ninguém se tenha efetivamente preparado para um caso destes. Daí que tenha voltado a avisar: “No futuro pode surgir uma epidemia pior do que esta.” Mas aí, confia, o mundo já estará mais prevenido – como quem diz, a humanidade vencerá da próxima vez, mas só quando a maioria da população for vacinada. E pôs logo a mão na massa, ao doar, através da fundação criada com a mulher Melinda, investindo milhões para ajudar ao seu desenvolvimento.

Agora, perante a esperança crescente de que, dentro de pouco tempo, a coisas voltarão a ser como antes, Gates replica: Infelizmente isso não vai acontecer.” Nas notas que divulga regularmente no seu blog, citado pelo The Washington Post, Gates começa por considerar perfeitamente compreensível que a conversa nacional (mundial…) esteja a condensar-se numa única pergunta: “Quando podemos voltar ao normal?”. Mas, sublinha, a paralisação causou uma dor incomensurável em empregos perdidos, pessoas isoladas e agravando a desigualdade. “As pessoas estão prontas para seguir em frente.”

Só que, segue o filantropo num registo muito próprio, por mais que tenhamos a vontade, não temos o caminho – ainda não. “Antes que os Estados Unidos e outros países possam voltar aos negócios e à vida como de costume, precisaremos de novas ferramentas inovadoras que nos ajudem a detectar, tratar e prevenir a Covid-19″, lê-se naquela publicação.

E Gates passa a explicar. “Começa com o teste. Não podemos derrotar um inimigo se não soubermos onde ele está. Para reabrir a economia, precisamos testar pessoas suficientes para detetar rapidamente pontos de acesso emergentes e intervir cedo. Não queremos esperar até que os hospitais comecem a encher e mais pessoas morram.”
O que nos pode dar a inovação

Mas há mais: “A inovação pode ajudar-nos também a melhorar os números. Os atuais testes de coronavírus exigem que os profissionais de saúde realizem zaragatoas nasais, o que significa que precisam trocar de equipamento de proteção antes de cada teste. Mas a nossa fundação apoiou também pesquisas a fundamentar que cada um possa fazer a sua autoanálise com cotonetes estéreis próprios para a coleta de exames microbiológicos. Trata-se de uma abordagem bem mais rápida e segura – pois é feita em casa e não exige que as pessoas corram riscos em contactos adicionais.”
Cada mês a mais que precisarmos para produzir uma vacina é mais um mês em que a economia não pode voltar completamente ao normal

Explica Gates que este teste de diagnóstico agora em desenvolvimento funcionaria como um teste de gravidez em casa. É só esfregar o nariz, mas, em vez de enviar o tal cotonete para um centro de análise, só tem de o colocar num líquido. Depois, despeja-se esse líquido numa tira de papel. Se esta mudar de cor é porque o vírus está presente. E, o melhor de tudo, um teste destes pode estar disponível em apenas alguns meses.

Não é, ainda assim, o único avanço necessário em termos de testes. Faltam ainda, segue Gates na sua análise, padrões consistentes sobre quem pode – e deve! – ser testado. “Se não testarmos as pessoas certas (trabalhadores de áreas essenciais, pessoas sintomáticas e outras que entraram em contato com alguém que deu positivo) estaremos a desperdiçar um recurso precioso”.

Há também uma outra área em que a inovação pode fazer a diferença. Diz o magnata que faz falta ainda um rastreio correto ao quem esteve em contacto com alguém infetado. Por enquanto, sublinha, bem podemos continuar a questionar todos os que testarem positivos e usar um banco de dados para acompanhamento. Mas, insiste, é uma abordagem longe de ser perfeita. “Ficamos dependentes de a pessoa infetada relatar os seus contactos com precisão e exige muitos funcionários para acompanhar aquela rede.” Neste caso, reforça Gates, seria muito melhor conseguir uma ampla e voluntária de ferramentas digitais – recorrendo a apps que nos ajudariam a recordar todos os locais onde estivemos e partilhar essa informação com quem estiver a acompanhar todos os nossos contactos.
Esta é, naturalmente, a questão maior. Quem tem um resultado positivo o que quer saber, na hora, são as opções de tratamento. E isso, sublinha Bill Gates, ainda não há. Para já, reconhece, e apesar das suspeitas, está a ser dada alguma atenção à hidroxicloroquina, que funciona alterando a maneira como o corpo humano reage a um vírus. “A nossa fundação está a financiar um ensaio clínico que indicará se funciona para a Covid-19, embora pareça já claro que os seus benefícios serão modestos, na melhor das hipóteses.”

Mas há vários candidatos mais promissores no horizonte, segue um Gates bem mais otimista. “Um envolve a coleta de sangue de pacientes que se recuperaram da Covid-19, dando o seu plasma (e os anticorpos que ele contém) a pessoas doentes. Várias grandes empresas estão trabalhando juntas para verificar se isso é bem-sucedido.”

O outro tipo de candidato a medicamento, lê-se na prosa do filantropo, envolve a identificação dos anticorpos que são mais eficazes contra o novo coronavírus e o seu fabrico em laboratório. “Mas ainda não está claro quantas doses podem ser produzidas; depende de quanto material de anticorpo é necessário por dose. Em 2021, os fabricantes tanto poderão ter de fazer 100 mil tratamentos como muitos milhões.”

Perspetivando o futuro, Gates salienta: “se daqui a um ano pudermos ir a grandes eventos públicos – como jogos ou espetáculos em estádios – é porque a ciência descobriu um tratamento eficaz que faça com que todos se sintam seguros para sair à rua novamente. “Infelizmente, para já é possível que se garanta um bom tratamento, mas não um que garanta que um doente recuperará sem reviravoltas”.

Daí que, continua na sua análise, o grande investimento deve ser feito no desenvolvimento de uma vacina. “Cada mês a mais que precisarmos para produzir uma vacina é mais um mês em que a economia não pode voltar completamente ao normal”, assinala. Daí que, revela, a abordagem que mais o está a entusiasmar é a conhecida como vacina de RNA – tal como a primeira que está a iniciar testes em humanos.

Ao contrário de uma normal vacina contra a gripe ( que contém fragmentos do vírus influenza para que o sistema imunitário possa aprender a atacá-lo), uma vacina de RNA fornece ao corpo o código genético necessário para produzir fragmentos virais por conta própria. Assim, explica, quando o sistema imunitário se depara com esses fragmentos aprende como atacá-los. Essencialmente, resume, uma vacina de RNA transforma o corpo numa unidade própria de fabrico de vacinas.

A rematar, Gates recorda ainda que há um outro acordo muito importante. “Mesmo antes de haver uma vacina segura e eficaz, os governos precisam saber como a distribuir”. Ou seja, os países que financiam, aqueles que acolhem os ensaios clínicos e os mais atingidos vão naturalmente argumentar que devem ter prioridade. “Idealmente, deveria haver um acordo global sobre quem deveria receber a vacina primeiro. Mas, considerando quantos interesses concorrentes, é improvável que isso aconteça. Quem resolver esse problema de forma equitativa terá feito um grande avanço.”

É por tudo isto que Bill Gates considera que esta pandemia – a primeira da modernidade – definirá a nossa era. É que, justifica, há uma grande diferença entre uma guerra mundial e uma pandemia: “toda a humanidade pode trabalhar em conjunto para aprender sobre a doença e desenvolver a capacidade de combatê-la. Com as ferramentas certas em mãos e a implementação inteligente, poderemos declarar o fim desta pandemia – e voltar nossa atenção para como prevenir e conter a próxima.”

OCDE: 'Brasil terá de explicar graves acusações que levaram à renúncia de Moro'

"O Brasil vai ter que explicar o que fez o ministro da Justiça renunciar acusando o presidente de interferência no trabalho da polícia", afirmou Drago Kos, chefe do grupo de trabalho anticorrupção da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, ele qualificou como "extremamente preocupante" a demissão de Sergio Moro, ex-juiz da Operação Lava Jato. Moro pediu demissão durante um pronunciamento na manhã desta sexta, dia 24, em que acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal.

De acordo com Moro, Bolsonaro queria pessoas com quem tivesse relação pessoal em cargos de comando na corporação e esperava receber informação de investigações em andamento. Em um pronunciamento no fim da tarde dessa sexta, Bolsonaro negou que tenha tentado influenciar o trabalho da Polícia Federal.

"Sergio Moro é um símbolo no combate à corrupção, ele é um lutador, conhecido por fazer um trabalho em situações adversas. Isso quer dizer que deve ter havido uma razão muito forte, muito ruim, para que ele tenha chegado à conclusão de que não tinha mais condições de continuar no governo", afirmou Kos, que comanda a área de combate à corrupção no órgão desde 2014, mesmo ano em que a Operação Lava Jato teve início no Brasil. Ele é também membro do Conselho Consultivo Internacional Anticorrupção (IACAB).

Kos opina que, apesar de eventuais excessos que possam ter sido cometidos durante o processo de investigação e julgamento da Lava Jato, nenhum deles anula a qualidade do trabalho desenvolvido por procuradores e juízes que desbarataram um grande escândalo de corrupção envolvendo partidos políticos, empreiteiras e a Petrobras.

"O trabalho de Moro iniciou uma bola de neve que se tornou tão grande, e ele provou que é possível investigar e punir corrupção mesmo em situações muito difíceis, como as que temos na América Latina", diz o dirigente da OCDE.
'Condutas criminosas do presidente'

Desde o início do governo Jair Bolsonaro, o Brasil passou a ter como um de seus principais objetivos na política internacional a obtenção de um assento na OCDE. Para tanto, negociou até mesmo o endosso dessa candidatura junto aos Estados Unidos, fazendo uma série de concessões ao governo Trump para obtê-la. O apoio americano ao Brasil veio em janeiro.

Mas, para ser aceito no grupo dos países desenvolvidos, o país precisa comunicar seus avanços em temas como saúde, educação e combate à corrupção. Por isso, o Brasil tem mandado relatórios periódicos sobre avanços e retrocessos nessa área. Kos e sua equipe também estiveram no Brasil em novembro, para checar in loco a situação.

"Ministros vão e vem, isso não é um problema para nós. Mas quando o ministro da Justiça faz acusações de interferência grave em seu trabalho de combate à corrupção, isso é sério e isso nos interessa. O Brasil vai ter que explicar o que está acontecendo", afirma Kos, cuja próxima reunião com representantes brasileiros acontecerá em junho, remotamente, por causa da epidemia de Covid-19.

Segundo ele, as afirmações de Moro não podem cair no vazio e devem ser investigadas. Pela Constituição Brasileira, o presidente só pode ser investigado com autorização do Supremo Tribunal Federal. Caso a investigação, conduzida pela Procuradoria Geral da República, se torne uma denúncia, o Congresso terá que aceitá-la para se inicie um processo de impeachment. O procurador geral da República, Augusto Aras, já pediu autorização ao STF para investigar Bolsonaro.

"Eu espero que, quando o Ministro da Justiça renuncia acusando o presidente de condutas tão graves, haja alguém no Brasil que vai investigar as acusações do juiz Moro. E se forem todas verdadeiras, o presidente deve responder por condutas criminosas".

Para Kos, a saída de Moro pode piorar a situação de instabilidade política no Brasil não apenas na questão do combate à corrupção. Ele qualificou de "hesitante" as medidas do governo federal na luta contra a epidemia de coronavírus. O país já possui mais de 50 mil casos da doença, com mais de 3 mil mortes e, na semana passada, Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

"Acredito que isso trará consequências muito ruins para o Brasil em geral, e espero que não fragilize ainda mais o país em meio a essa pandemia. Espero que a situação não fique pior do que já está. Estou muito preocupado".

Coveiro se enterra

É hora de falar. Pr está cavando sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: a saúde e o emprego. Menos instabilidade, mais ação pelo Brasil
Fernando Henrique Cardoso

Bolsonaro fica nu ao se despir das três bandeiras que o levaram ao poder

O presidente de extrema direita Jair Bolsonaro manteve ontem um duelo histórico com seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, que lhe fez graves acusações de querer interferir na Polícia Federal para ficar a par de investigações de corrupção sobre sua família.

Ainda é cedo para saber quais serão as consequências jurídicas e legais sobre tais acusações, mas o que ficou claro é que Bolsonaro vai ficando nu ao rasgar durante seu mandato as três grandes bandeiras com as quais se cobriu durante a campanha e o levaram à vitória.



Era a luta dura contra a corrupção política que naquela época envergonhava o país e que o candidato à Presidência jurou combater. Foi assim que aceitou que o paladino naquele momento de luta contra a corrupção, o à época juiz da Lava Jato, Sergio Moro, entrasse em seu Governo como um superministro da Justiça. Foi seu primeiro gol.

Ele foi perdendo essa bandeira à medida em que foram aparecendo possíveis escândalos de corrupção dentro de sua própria família. Hoje, Bolsonaro, com sua Presidência acossada, está se refugiando até mesmo nos velhos deputados que também estão envolvidos em escândalos de corrupção para que possam salvá-lo de um possível impeachment no Congresso. E acaba de perder sua melhor espada, o ministro da Justiça, Moro, que decidiu deixar o Governo e lançar contra ele acusações tão graves que serão agora analisadas pelo Supremo e podem acabar forçando-o a renunciar.

A segunda bandeira era a de acabar no Brasil com a chamada velha política que governava fazendo acordos pouco republicanos com os deputados oferecendo-lhes cargos e benefícios para conseguir aprovar os projetos do Governo.

Bolsonaro havia jurado acabar em seu mandato com aquele velho estilo de governo para governar “escutando mais o povo” do que os deputados e senadores.

Tal bandeira, que lhe rendeu muitos votos nas eleições até mesmo de brasileiros que não gostavam de seu aspecto militar totalitário, mas que estavam aborrecidos com as tais maneiras de governar de costas às pessoas, foi ao chão. E está tentando formar uma maioria que nunca teve no Congresso e sem a qual viu que era impossível governar. E o está fazendo com os métodos da mais rançosa velha política.

Resta a ele, prestes a cair, a última bandeira, a de realizar uma política neoliberal, de menos Brasília e mais Brasil, menos Estado e mais capital privado. Para essa bandeira escolheu o economista da Escola de Chicago, o superliberal Paulo Guedes. Uma bandeira que pretendia reverter a desastrosa política econômica dos governos de Dilma Rousseff, que deixou 14 milhões de trabalhadores na rua.

Essa bandeira neoliberal também já está praticamente murcha e a imprensa fala abertamente que após a saída do popular ministro Moro, já estaria sendo preparada a saída da estrela econômica Guedes, que teria perdido a confiança do Presidente que pretende reverter a política econômica para dar lugar a um populismo que possa ajudá-lo na reeleição.

Ontem foi significativo que durante seu discurso para responder às acusações de Moro, durante o qual esteve cercado por todos os outros ministros, o único sem terno e gravata, de camisa e com a máscara contra o coronavírus, tenha sido justamente o ministro da Economia. Guedes com a máscara mostrava seu contraponto ao Presidente, que insiste em minimizar a epidemia e continua abraçando as pessoas nas ruas e pedindo que tudo volte à vida normal enquanto o número de mortos já se multiplica em maior proporção do que a Espanha.

Despojado das três bandeiras que lhe deram a vitória, o Presidente, cujo Governo faz água por todos os lados, aparece a cada momento mais nu e sozinho. Restam a ele os ministros generais do Exército cuja reação diante das graves acusações lançadas por Moro, ninguém ainda sabe se decidirão abrigar o Presidente nu, ou se farão algum malabarismo para cobrir sua nudez com seu voto de confiança.

Os próximos dias serão decisivos para saber se, mais uma vez, a Presidência da República deste país cairá nas mãos do vice-presidente eleito com ele nas urnas que no Brasil, hoje, é o general Mourão. A última palavra agora será do Congresso e do Supremo, as duas instituições que podem colocar em andamento o impeachment de um Presidente da República.

Um momento que para o Brasil não poderia ser mais crítico, já que o coronavírus, além de a cada dia levar mais vidas, está produzindo uma grave crise econômica com milhões de brasileiros que sem poder trabalhar voltam aos anos terríveis da fome e da miséria.

sábado, 25 de abril de 2020

Batalhão Brasil


Sob o signo de Tânatos

O governo de Jair Bolsonaro é conduzido sob o signo de Tânatos, o deus da morte na mitologia grega. Dedica-se desde sempre à destruição – primeiro, dos inimigos, reais e imaginários; depois, dos próprios aliados, inclusive ministros que lhe devotavam lealdade; e, afinal, a si mesmo, inviabilizando-se como presidente. É preciso interromper essa escalada antes que Bolsonaro destrua, por fim, o próprio País.

A trajetória da Presidência de Bolsonaro até aqui é impressionante. No início, constituiu um Ministério até razoável, capaz de fazer um bom trabalho em quase todas as áreas, e informou que estabeleceria uma nova forma de relação com o Congresso, sem o velho toma lá dá cá. Um ano e pouco depois, Bolsonaro fez de seu gabinete uma grande barafunda, em que ninguém se entende, e, no Congresso, depois de seguidas derrotas por se negar ao diálogo, resolveu entabular negociação com partidos e políticos envolvidos em escândalos de corrupção, oferecendo-lhes cargos em troca de votos.

Pior: em meio a uma pandemia devastadora, com milhares de doentes e mortos e com o sistema hospitalar público à beira do colapso, Bolsonaro preferiu desdenhar das vítimas e se mostrar mais preocupado com sua popularidade do que com a vida de seus governados.


Com esse espírito destruidor, trata como intocáveis ministros néscios que se dedicam dia e noite a encontrar comunistas embaixo da cama, enquanto inviabiliza o trabalho dos ministros e assessores que, ao contrário, prezam o cargo que ocupam e têm útil e valiosa colaboração a dar. Bolsonaro substituiu o ministro da Saúde porque este não aceitava desrespeitar as orientações da Organização Mundial da Saúde para enfrentar a pandemia de covid-19; desmoralizou sua equipe econômica ao resistir a fazer reformas e ao flertar com a irresponsabilidade fiscal; permitiu a fritura da ministra da Agricultura porque esta se queixou dos ataques bolsonaristas à China, principal cliente do agronegócio brasileiro; e agora tudo fez para provocar a saída do ministro da Justiça porque este se recusou a permitir que ele interferisse politicamente no comando da Polícia Federal (PF).

Para perplexidade dos brasileiros, Sérgio Moro, ao anunciar sua demissão do Ministério da Justiça, informou que Bolsonaro lhe disse que “queria ter (na chefia da PF) uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência”. Para ilustrar a gravidade do caso, Sérgio Moro, com uma pitada de ironia, deu o seguinte exemplo: “Imagine se, durante a Lava Jato, o presidente (Lula), a presidente Dilma ficassem ligando para a superintendência (da PF) em Curitiba para colher informações sobre as operações em andamento”.

Como resposta, o presidente, em pronunciamento espantosamente desconexo, fez várias acusações contra Sérgio Moro – inclusive a de que exigiu uma vaga no Supremo Tribunal Federal e a de que trabalha para vê-lo fora da Presidência – e também colocou em dúvida o trabalho da PF. Em sua glossolalia, contudo, foi incapaz de explicar a essência da denúncia de Moro, a de que tinha interesse em fazer da PF sua polícia particular.

Trata-se de comportamento intolerável, que pode dar as condições para a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro – a Procuradoria-Geral da República já pediu ao Supremo a abertura de investigação sobre a acusação de Sérgio Moro.

Não se pode aceitar como natural que o presidente queira manipular a Polícia Federal, especialmente considerando-se que há investigações em andamento que interessam ao clã Bolsonaro. Se comprovadas as denúncias, o presidente pode ser acusado de crimes de responsabilidade, prevaricação e advocacia administrativa, entre outros.

As vozes responsáveis do País, inclusive de dentro do governo, têm a obrigação de manifestar seu total repúdio ao presidente Bolsonaro, deixando claro que os limites da lei e da decência há muito foram ultrapassados. “É hora de falar”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, resumindo a urgência. “O presidente está cavando sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: saúde e emprego. Menos instabilidade, mais ação pelo Brasil.”

Em frente, marche!

Senhor meu Deus, eu não tenho ideia para onde estou indo, não vejo o caminho adiante
Thomas Merton

O vingador do fim da ditadura militar

Ao chegar para a posse do novo ministro da Saúde, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, brincou com os jornalistas: “Está tudo sob controle. Não sabemos de quem...”.

É possível, mas não é provável, que o general não saiba quem, de fato, controla as decisões sobre a epidemia e, portanto, quem preside a República. Sua observação expressa o fato inquietante de que os muitos gestos impróprios do presidente, em desacordo com a liturgia de sua alta função, são desafios que constituem atos de renúncia tácita à Presidência.

Empossado o novo ministro da Saúde, designou o presidente um almirante para representá-lo no ministério, no trato da questão da epidemia. Num Estado “normal”, quem cumpre essa função é o ministro. Portanto, ele nomeou um ministro de cuja lealdade dúvida.


Dois dias depois, no domingo, o presidente foi à porta do quartel-general do Exército, em Brasília, juntar-se a um grupo subversivo de manifestantes de direita que pedia um golpe militar contra a ordem democrática. Tossia, tinha dificuldade para falar. Ele estimula o comportamento divergente, que põe em risco a saúde e a vida de um número enorme de pessoas.

No dia seguinte, na porta do Planalto, em novo encontro com bajuladores, tentou desfazer o malfeito e fez pior. Declarou: “A Constituição, realmente, sou eu”. Plagiou a frase famosa de Luís XIV (1638-1715), enunciado emblemático do absolutismo monárquico: “O Estado sou eu”. Um presidente não é a Constituição: é o seu servidor.

Jair Messias tem dado indicações de que pretende ser o vingador do fim da ditadura militar. Fim que foi negociado pelas Forças Armadas, que queriam voltar aos quartéis. Cujo trâmite já estava anunciado em famoso discurso do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987) na Escola Superior de Guerra.

Ele quer reverter o processo histórico. Seu comportamento sugere que a história está errada, na sociedade errada e com o povo errado. Nas várias expressões dessa mentalidade, são fortes as evidências de socialização no confinamento do quartel, do que Erving Goffman (1922-1982) define como instituição total. O general Costa e Silva já havia dado indicação semelhante quanto a isso, de que, nos tempos de quartel, suas ordens eram obedecidas, na Presidência não.

Durante a campanha eleitoral, em 2018, o general Mourão declarou que um dos objetivos da candidatura bolsonarista era o desmonte do Estado, deformado por funções nele introduzidas pelo populismo e pelo comunismo. Interpretação minúscula que tumultua a nossa paz política desde os anos de 1930. Já nas revoltas tenentistas, o propósito era claro: reproclamar a República e, por meio de uma ditadura, preparar a democracia. Nos documentos que li, da Revolução de 1924, em São Paulo, os jovens oficiais deixavam isso claro.

As oligarquias políticas, que representavam o que acabará sendo definido como o Brasil atrasado, faziam do Exército sua força auxiliar de poder. Interferiam nas promoções militares, designavam quem seria promovido a general. Os jovens oficiais queriam um Exército profissional. Eles chegarão ao poder com Getúlio Vargas (1882-1954), na Revolução de Outubro de 1930. Finalmente, com o golpe de 1937, em nome de um Estado nacional, enfraqueceram as bases políticas das oligarquias, que eram os Estados e municípios.

Um dos ativos promotores do golpe, o general Gois Monteiro (1889-1956), que fora ministro da Guerra, estava temporariamente enlouquecido pela dor da perda do filho, aspirante a oficial, morto em acidente aéreo. Durante a fase do golpe, escrevia cartas ao filho morto. Nessas cartas, que li no Arquivo do Exército, narrava as circunstâncias do golpe.

De certo modo, os antigos tenentes e seus propósitos estarão na autoria do golpe de 1964. Mas a ditadura teve que se compor com a política retrógrada e localista que imaginava combater. Cometeu o erro de associar corrupção e subversão. A corrupção oligárquica nada tinha ver com a ascensão política das esquerdas, que pouco ou nada tinha a ver com comunismo. O golpe favoreceu os corruptos e perseguiu os progressistas. Esvaziou-se e perdeu-se.

Jair Messias é uma extemporânea sobrevivência desse equívoco, na polarização entre a Presidência e o Congresso Nacional, entre a massa alucinada das ruas, que ele considera o povo, e as instituições democráticas, que supostamente conspiram contra ele.

Diferentemente do que ele pensa, não é ele quem joga o jogo. É o jogo da história que joga com ele. É o “não sabemos quem” do general Mourão.

A epidemia do coronavírus apenas precipitou o confronto político entre centralismo autoritário e democracia, entre o Executivo e o Congresso. Ela colocou o país diante de uma redefinição do federalismo, o que pode nos levar ao parlamentarismo.
José de Souza Martins

A chuva e o trovão

Se Jair Bolsonaro algum dia leu um livro de poemas, certamente não há de ter sido algum dos mais belos livros de poesia do poeta persa Maulana Jalaladim Maomé, também conhecido como Rumi. Poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII, Rumi nos deixou palavras que nos fazem pensar e crescer interiormente. Exemplo: “Eleve suas palavras, não a sua voz. É a chuva que faz brotar as flores, não o trovão”.

Do alto de uma caçamba de caminhão ou apoiado no cercadinho que criou como palanque no portão do palácio da Alvorada, Bolsonaro eleva a voz para fazer chegar aos seus discípulos seus mais esdrúxulos pensamentos.

Diz tolices sem fim, como esta: ele não vai abrir mão de sua liberdade de ir e vir. Isso a respeito da quarentena que o mundo vem usando como única arma para conter o vírus da Covid-19, já que ainda não temos nem vacinas, nem medicamentos para combater essa praga que vem ceifando milhares de vidas.

Ele confere às suas tristes palavras o peso da lei, ao dizer que ele é a Constituição, que ele não tem que respeitar a Organização Mundial de Saúde, já que ele é o Estado. Pobre Brasil que tem como chefe da Nação alguém que confunde o direito de ir e vir com o direito de desrespeitar uma quarentena que só tem como foco diminuir o numero de infectados, aliviar a pressão sobre os hospitais e postos de saúde e salvar vidas.


Arrogante e jactancioso, alega que se estiver errado, o peso do erro vai cair sobre seus ombros. Esquece, ou finge ignorar, que os ombros do Mito são envernizados e nada ali ficará grudado, ao passo que as mortes ferirão as famílias para sempre.

No domingo 19 de abril, depois de reunir um bando de bolsonaristas na entrada do QG do Exército em Brasília, conhecido como Forte Apache, e de lá gritar que ele já é o presidente e que portanto não sonha com golpes, no dia seguinte ele engoliu em seco e disse que não convidou ninguém para aquela manifestação e reafirmou “Já estou no poder, por que daria um golpe?”.

Seria de bom alvitre que Bolsonaro percebesse que os brasileiros não são burros e que golpes servem para muitas coisas, não apenas para segurar a cadeira no Planalto. Como disse o vice Mourão, numa frase com muito espírito: “Tá tudo sob controle. Só não sabemos de quem”.

Desculpe, general, nós sabemos quem quer o controle. Sabemos sim. Mas não vai ser fácil tirá-lo de nossas mão. "Uma vez a Cascais, nunca mais", não é assim que diz o velho ditado português?

Bolsonaro já disse algumas vezes que não nasceu para o cargo que ocupa e que ali não está feliz. Volto a Rumi, o poeta da Persia: “Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta?”.
Maria Helena RR de Sousa

Caiu a máscara de Bolsonaro

Em menos de 48 horas, o presidente Jair Bolsonaro deixou cair a máscara que até então mantinha diante do rosto, de reformador liberal do Estado e da economia, e adversário da corrupção. A esses falsos papéis, o populista de direita deve grande parte dos votos da classe média e do empresariado que o elegeram há um ano e meio.

Quem quer que ainda esperasse que – a despeito de todos os sinais em contrário – o gabinete de Bolsonaro fosse tranquilamente continuar se dedicando às reformas e ao combate à corrupção, pode agora desistir de vez. Pois, em apenas dois dias, o presidente cortou as asas, primeiro de seu superministro da Economia, o liberal Paulo Guedes, e depois do agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro.


Ele sempre louvara Paulo Guedes como onisciente e onipotente encarregado de economia e finanças em seu gabinete; seu "Posto Ipiranga", que não se curvava diante de ninguém; que tinha sob seu controle as pastas das finanças, economia e planejamento, assim como as instituições financeiras estatais, do Banco do Brasil e BNDES ao Banco Central.

Porém, agora Bolsonaro fez seu ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, anunciar o Pró-Brasil, seu "plano Marshall brasileiro". Através dele, 30 bilhões de reais deverão fluir para projetos estatais de infraestrutura, sob controle e fiscalização dos militares. Desse modo, fica neutralizada a abordagem liberal de Guedes, que pretendia entregar o financiamento dos projetos de infraestrutura ao maior número possível de investidores privados.

Com isso, o Brasil se encontra exatamente onde estava 50 anos atrás, sob a ditadura militar, quando planejadores estatais militares estipulavam e executavam obras de infraestrutura – da Transamazônica e a usina nuclear de Angra dos Reis até a represa de Itaipu. Como naquela época, o Estado brasileiro não dispõe do capital necessário e terá que se endividar, até as verbas se esgotarem e a falência estatal bater à porta.

A supervisão militar não evitará que, também desta vez, ocorra corrupção em grande estilo. Naquela época, ganharam porte conglomerados de construções como Odebrecht e Andrade Gutierrez, que dominaram por décadas o Estado, a economia e a política do Brasil, como verdadeiras máquinas de corrupção.

Bolsonaro já se encarregou de debilitar os mecanismos de controle de corrupção. Ao exonerar o diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, ele degradou a tal ponto seu ministro da Justiça, o ex-juiz Moro, que este acabou por renunciar.

Por um lado, em suas investigações, a Polícia Federal vinha chegando cada vez mais perto da família Bolsonaro. Por outro, Moro devia estar irritado por o presidente pretender compactuar com políticos sabidamente corruptos, a fim de ganhar pelo menos um pouco de respaldo no Congresso.

Se permanecesse no cargo, Moro se tornaria totalmente desqualificado como garantidor de governança íntegra. Mas com a sua renúncia, não haverá mais controle sobre a panela formada por Bolsonaro, os militares e os serviços de segurança nacional.

Ou seja: caiu definitivamente a máscara do governo. Menos de um ano e meio após tomar posse, o suposto reformador neoliberal e combatente da corrupção se revela o que sempre foi: um político ultradireitista de baixa categoria, sem o menor interesse em reformas estatais nem em práticas limpas no Estado e na economia.

Bolsonaro não está sequer interessado num governo que funcione, como provam a demissão do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e a pressão crescente sobre a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Bolsonaro vai governar nos próximos dois anos e meio para si e seu clã familiar, assim como para seus apoiadores mais próximos. Estes são sobretudo os evangélicos, que o abençoam com preces todas as manhãs, diante do Palácio da Alvorada, enquanto ele distribui tiradas de ódio. Além disso, há os saudosistas da ditadura – e claro, os empresários oportunistas, ávidos de se locupletar com as verbas públicas.

As Forças Armadas apoiarão Bolsonaro na execução de seus planos. Desde já, o governo pouco se distingue de um regime militar clássico – embora a divisão de poderes ainda funcione na democracia brasileira. Entretanto, todas as posições-chave já estão ocupadas por militares – assim como o segundo e o terceiro escalões da burocracia.

Já se pode prever o que o clã Bolsonaro tentará neutralizar o Congresso, a Justiça e a mídia, pois o atrapalham o governo. As Forças Armadas vão cooperar – como agora, ao não criticar o apoio do presidente a manifestantes pró-ditadura.

Os militares detestam desordem, transparência e separação de poderes. Eles adoram hierarquias e obediência a comandos, assim como seu poder recém-conquistado em Brasília, o livre acesso a orçamentos e privilégios. Além disso, se consideram mais bem organizados do que o resto da sociedade.

O caos decorrente da crise do coronavírus vem a calhar para Bolsonaro. Seria a ocasião perfeita para ele eliminar de vez a divisão de poderes no país.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pensamento do Dia


Cortaram as asas do Guedes

Onde estava Paulo Guedes nesta quarta-feira, quando o novo homem forte do Brasil, o general Walter Braga Netto, apresentou o plano Pró-Brasil, de R$ 30 bilhões, para impulsionar a economia após a crise do coronavírus?

Uma espécie de New Deal brasileiro, baseado nas medidas com as quais o presidente democrata dos EUA Franklin Delano Roosevelt lutou contra a crise econômica da década de 1930. Mas ele também cheira aos PACs (Programa de Aceleração do Crescimento) lançados pelos governos do PT, só que sem Dilma Rousseff como "mãe do PAC".

Epidemias e pandemias sempre foram tempos estranhos, quando o mundo de repente vira de cabeça para baixo. No Brasil não é diferente. O vírus enterrou a reforma neoliberal do Brasil planejada pelo "superministro" Paulo Guedes. Em vez disso, todos – incluindo empresários – estão pedindo novamente o Estado forte.

Claro que tais pedidos estão sendo ouvidos por todo o mundo. Até nos Estados Unidos, onde os republicanos, especialmente o presidente Donald Trump, sempre demonizavam como "comunismo" a intromissão do Estado na economia, esse mesmo Estado agora envia gordos cheques a seus cidadãos. E assinados pelo próprio Donald Trump, que simplesmente transforma em limonada os limões da crise do coronavírus.


E o que acontecerá quando os 20 milhões de novos desempregados nos Estados Unidos perceberem, de um dia para o outro, que não têm mais seguro de saúde? Será que a política de saúde de Barack Obama está prestes a celebrar seu retorno? O senador democrata Bernie Sanders pode estar fora da disputa para a presidência, mas, de repente, suas teses não parecem mais serem radicais, mas extremamente razoáveis. E urgentemente necessárias.

Justo no Brasil está sendo introduzido, da noite para o dia, com o auxílio emergencial para trabalhadores informais, uma espécie de renda básica, o que é o sonho de visionários e utópicos de esquerda. Oficialmente só deve vigorar por três meses, mas tais programas, uma vez implementados, são difíceis de cortar sem cometer suicídio político.

Outro exemplo é o Bolsa Família, criado por Lula, ao qual o presidente Jair Messias Bolsonaro acrescentou um 13º em vez de aboli-lo. É, não é fácil botar o gênio para dentro da garrafa de novo. Bolsonaro manterá isso em mente, em vista da eleição de 2022.

E isso não é tudo. No meio dos trâmites em torno dos auxílios emergenciais para trabalhadores informais, o governo afirmou ter descoberto de 40 a 50 milhões de "invisíveis". Em outras palavras, pessoas cuja existência no Brasil ninguém conhecia, exceto as ONGs "comunistas" com as quais o governo, todos sabem, não fala. Agora o governo terá que incluir essas pessoas, seja lá como for.

O dilema já está aí. E o vento ideológico mudou de sentido. Programas como o Bolsa Família eram criticados pelos empresários como assistencialismo. Mas esses mesmos empresários deixavam financiar seus empréstimos preferenciais do BNDES com dinheiro de impostos. Ou recebiam bilhões em isenções fiscais dos governadores. Isso sempre foi hipocrisia.

Na crise pós-corona, a responsabilidade do Estado vai aumentar em vez de diminuir. Pois todos esperam ser sustentados por ele.

Paulo Guedes sabe disso, é claro, e isso lhe traz pesadelos. Seus planos de reestruturação para um Brasil moderno – sistema privado de aposentadorias, privatização de bens estatais, enxugamento do "ineficiente" aparato estatal e introdução de maior responsabilidade individual a todos os envolvidos – não foram só suspensos, mas colocados no fundo do freezer.

Sua fraqueza crescente também se deve à força crescente dos militares. Passo a passo, eles estão assumindo posições e tarefas estrategicamente cada vez mais importantes dentro do governo. Em vez de conter o presidente, como se suspeitava no início do mandato de Bolsonaro, eles cortaram as asas do Guedes.

Depois de abortarem a reforma da Previdência do Guedes, agora sabotaram seus planos de privatização. Oficialmente, as privatizações estão adiadas para 2021 ou 2022. Mas a resistência dos militares em entregar propriedades estatais a investidores – supostamente estrangeiros – é bem conhecida. É o único ponto que une quase todos os brasileiros, independentemente de estarem à esquerda ou à direita ou se chamarem Bolsonaro, Lula, Ciro ou Dilma.

Todos defendem um nacionalismo pé no chão. E ainda mais agora, quando cadeias de produção globais são questionadas e a dependência de potências estrangeiras é posta sob suspeita. Guedes, com suas ideias neoliberais, é um corpo estranho nesse meio.

Coronavírus não é 'gripezinha'

Não se enganem: nós temos um longo caminho a percorrer. O vírus estará conosco por um longo tempo.A maioria das epidemias na Europa Ocidental parece estável ou em declínio.
 
Embora os números sejam baixos, vemos preocupantes tendências ascendentes na África, na América Central e do Sul e na Europa Oriental. A maioria dos países ainda está nos estágios iniciais de suas epidemias
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS

Política macabra

"Sem leitos suficientes nos hospitais, os doentes eram amontoados no chão das enfermarias e nos corredores. Muitos morriam antes de ser atendidos. Os hospitais foram fechados às visitas e, nos enterros, só se permitia a presença dos mais próximos. Os velhos rituais —velório, cortejo e sepultamento— ficaram impraticáveis. Viam-se carros transportando caixões com tábuas mal pregadas, indicando que tinham sido feitos às pressas. Começou a faltar madeira para os caixões e gente para fabricá-los.

"As pessoas morriam e seus corpos ficavam nas portas das casas, esperando pelos caminhões que deviam transportá-los. Os motoristas os recolhiam na calçada e os atiravam nas caçambas, como se fossem sacos de areia. Às vezes descobria-se que alguém dado como morto ainda respirava. Era liquidado ali mesmo, a golpes de pá, mas houve casos de enterrados vivos.


"Nos necrotérios, os corpos jaziam empilhados por dias, sobre as mesas de mármore ou no chão. Os recolhidos nas ruas, sem identificação, eram despejados em valas comuns ou incendiados. Os coveiros também começaram a morrer. O Exército e a Cruz Vermelha os substituíram como voluntários e, por toda a cidade, armaram-se hospitais emergenciais e postos de atendimento. Etc.".

Os parágrafos acima não são um relato da vida —e da morte— neste momento em Manaus e em outras cidades do Brasil, onde o número de mortes pela Covid-19 já começou a dobrar a cada semana. Mas poderiam ser. Eles estão no prólogo de meu livro "Metrópole à Beira-Mar — O Rio Moderno dos Anos 20", recém-lançado, e que começa com a gripe espanhola matando 15 mil pessoas no Rio em menos de 30 dias, em 1918.

Nesta semana, irritado, Jair Bolsonaro disse que não é coveiro. Não é mesmo. Os coveiros brasileiros são heróis. Enquanto ele faz política, os cemitérios se preparam para os terríveis próximos dias. Só ontem foram 407 mortes.
Ruy Castro

O calibre do perigo

A reação das instituições aos constantes ataques à democracia brasileira mudou de patamar. Dois fatos são indicadores desta situação.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, aceitou o pedido do Procurador Geral da República, Augusto Aras, um aliado do presidente, de instalação de inquérito para investigar os atos pró-ditadura realizados em frente a quartéis. Um deles com a presença de Jair Bolsonaro, ao lado dos portões de entrada do Quartel General do Exército em Brasília onde se situa o Gabinete do Comandante do Exército.

As Forças Armadas, por sua vez, se distanciaram do discurso contra a democracia. Após consulta aos comandantes das três armas, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, divulgou nota oficial, reafirmando sua obediência à Constituição, como tem se pautado desde a redemocratização do país.

Não se pode subestimar esses dois fatos. Eles rompem com o ciclo de se contrapor à escalada autoritária apenas por meio de declarações.

O Procurador Geral da República teve de se movimentar. Mesmo que sejam procedentes as suspeitas, de que teria blindado previamente Bolsonaro ao excluí-lo do escopo do inquérito e apenas investigar a autoria dos atos, seu pedido visou atender à pressão da sociedade civil para que a democracia acione seus mecanismos de defesa.

À primeira vista, o presidente não teria com o que se preocupar por não ser objeto da investigação. Mas não é bem assim. O que Ulysses Guimarães dizia das CPIs vale para outros tipos de investigações: é possível saber como começam, mas não como terminam. Ao investigar a autoria e quem financiou os atos, o inquérito pode chegar a parlamentares ligados ao governo e ao chamado gabinete do ódio.

E se as investigações chegarem ao seu núcleo familiar?

Há um precedente de um presidente que não era alvo de investigação mas foi letalmente atingido por uma delas. Getúlio Vargas não era objeto do IPM instalado para investigar o atentado a Carlos Lacerda, mas quando as investigações chegaram ao seu irmão Benjamin Vargas, seu governo chegou ao fim de forma dramática.

O atual inquérito tem potencial para agravar a instabilidade de um governo que não conta com base parlamentar sólida e vive em guerra declarada com Congresso Nacional e o Supremo.


Nos tempos da ditadura, costumava-se interpretar os pronunciamentos dos militares por suas entrelinhas. Desde a redemocratização as Forças Armadas se mantiveram em silêncio sobre questões não afetas às suas atividades profissionais. Se voltaram a marcar posição é porque vivemos tempos anormais, agravados pela grave pandemia que se abate sobre a saúde pública.

Como no passado, é preciso entender o contexto da nota oficial desautorizando as manifestações.

Na noite de domingo o núcleo militar do governo, do qual participa o próprio ministro da Defesa, ainda não havia visto nada de anormal na participação do presidente em um ato no qual se pregava o AI-5, o fechamento do Congresso e do STF. Apenas acharam que Bolsonaro se empolgou. O chamado núcleo militar não tinha captado a enorme insatisfação da cadeia de comando das três armas com os atos, bem como de militares de alta patente que não fazem parte do governo.

A pregação em frente aos quartéis foi mais um passo na politização da tropa, porta pela qual a quebra da disciplina e da hierarquia sempre adentrou.

Os militares sentiram o calibre do perigo de serem arrastados para uma aventura por causa do canto fúnebre que o marechal Castelo Branco chamou de vivandeiras e que desde 1930 rondam os quartéis. Nas entrelinhas mandaram seu recado: “As Forças Armadas são instituições de Estado, não de governo”.

Esse é o lado positivo. As Forças Armadas parecem não estar dispostas a abrir mão do ativo conquistado a duras penas: o respeito e a admiração dos brasileiros por se aterem às suas funções definidas pela Constituição. Se o presidente extrapolar e apelar para estado de sítio, receberá o mesmo não que os militares deram a Dilma quando a então presidente pretendeu abortar seu impeachment com a decretação de estado de defesa.

O lado ruim é que temos um presidente que assume o papel de vivandeira e vai para frente de quartel para fazer questionável discurso político, um ato que pode ser qualificado como crime de responsabilidade.

Chavismo de direita

Tempo de horror em que os dois únicos assuntos nacionais são coronavírus e Bolsonaro. Parece que nada mais interessa. Está chato. Todo mundo escreve sobre as mesmas coisas. Desculpem, mas...

Lembrei-me de um filme de Kurosawa chamado “Homem mau dorme bem”, um grande ataque do mestre ao capitalismo. É sabido que Bolsonaro dorme pouco e mal, com um revólver na cabeceira, é natural que acorde cansado e mal-humorado. É quando fala suas maiores besteiras.

Depende do que tenha sonhado. Qual é o seu pior pesadelo? Ser impichado, o Queiroz contar tudo e Flávio ser preso, ou a depressão econômica? Ele é do tipo que não hesitaria em provocar uma guerra civil para se manter no poder, ou salvar um filho da cadeia. Mas o Exército o conhece bem, desde que o expulsou por planejar botar bombas em quartéis. Não pela democracia, por aumento de salário.

Pior é se fazer de louco, achando que todo mundo é burro, dizendo que não precisa dar um golpe porque já está no poder, fingindo que não existe o autogolpe, o parlamentar, e o golpe gradual de Hugo Chávez, o pior exemplo possível, que deu no que deu. Parece um método chavista cercar-se de generais, que não só o ajudariam como subordinados, mas também botariam as tropas na rua num eventual impeachment.

O próximo passo seria transformar suas milícias virtuais em armadas, como as chavistas, para “defender a democracia”? A coragem em um teclado não é a mesma diante de um fuzil. Robôs não usam fuzis, são virtuais, uma forma de auto-engano em que quem paga sabe que as milhões de mensagens de apoio não são verdadeiras e estão pregando para convertidos. Só servem para espalhar fake news, terrorismo digital.

Todo dia ele diz que representa 57 milhões de pessoas que votaram nele, “nós somos a maioria”. Eram. Hoje mais de 10 milhões de seus eleitores se dizem arrependidos. E seu governo tem só 33% de apoio. Um terço não é a maioria. Não basta para ganhar nada, mas pode convulsionar o país. Quantos votariam nele hoje? E, mais importante, contra quem?

quinta-feira, 23 de abril de 2020

'Pra frente, Brasil...'


O que vem por aí

Em sua primeira entrevista coletiva, o ministro da Saúde, Nelson Teich, ontem, anunciou que o governo federal prepara uma diretriz para orientar cidades e estados na flexibilização do distanciamento social contra o novo coronavírus, que deverá ser anunciada na próxima semana. Argumentou que o total de pessoas infectadas com Covid-19 é baixo se comparado com o total da população e fez a previsão de que menos de 70% da população contrairão a doença, ao contrário das estimativas iniciais. Segundo o ministro, o Brasil tem 43,5 mil casos do coronavírus. “Se a gente imaginar que pode ter uma margem de erro grande — digamos que a gente tenha aí 100 vezes, isso é só um exemplo hipotético — a gente está falando em 4 milhões de pessoas. Nós hoje somos 212 milhões”, explicou.

Teich arrematou: “Fora da Covid tem 208 milhões de pessoas que continuam com as suas doenças, com os seus problemas, e que têm que ter isso tratado. E o que é que representam, hoje, 4 milhões de pessoas num país como esse? 2% da população”, disse. O ministro anunciou o novo secretário-executivo do Ministério da Saúde: o general de divisão Eduardo Pazuello, que hoje é comandante da 12ª Região Militar, principal unidade de logística do Exército na Amazônia, responsável por quatro hospitais, embarcações, manutenção, suprimentos e uma companhia de comando, para o apoio às unidades de combate do Comando da Amazônia. Integrante do grupo de generais paraquedista do Rio de Janeiro que hoje forma o Estado Maior de Bolsonaro, é um especialista em logística. Sua missão no Ministério da Saúde será operar a estratégia de saída da política de isolamento social em todo país, sem deixar que haja o colapso do sistema de saúde pública. Se houver precipitação, será uma missão impossível.


Como Teich ainda aparenta muita insegurança no comando do Ministério da Saúde, a entrevista foi protagonizada pelos ministros da Casa Civil, Braga Netto, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. O primeiro apresentou dois planos de retomada da economia, denominados Pró-Brasil Ordem e Pró-Brasil Progresso, para serem executados num período de dez anos. O viés é desenvolvimentista, na linha do famoso tripé Estado, iniciativa privada e investimentos estrangeiros. Em meio à recessão mundial provocada pelo coronavírus, é inevitável a comparação com o ambicioso II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) do presidente Ernesto Geisel, que foi abatido pela crise do petróleo. Braga Netto disse que o ministro da Economia, Paulo Guedes, que não estava presente na coletiva, endossou o plano.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, roubou a cena. Resolveu puxar as orelhas da imprensa: “Nós, do governo do presidente Jair Bolsonaro, respeitamos muito a liberdade de imprensa e ela é fundamental para o processo democrático de todo o país. Porém, desde o começo dessa crise do coronavírus, nós temos observado uma cobertura maciça dos fatos negativos. Os noticiários entram nos lares brasileiros todos os dias. Com todo respeito, no jornal da manhã é caixão, é corpo. Na hora do almoço, é caixão novamente, é corpo. No jornal da noite, é caixão, é corpo e o número de mortos.”

Falta ao governo um Aureliano Chaves, o vice-presidente civil do general João Baptista Figueiredo, para falar que não adianta tapar o sol com a peneira. O número de mortos aumenta e a situaçao é critica nos hospitais do São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco, Amazonas e Roraima, estados nos quais afrouxar a política de isolamento social agora significa multiplicar o número de mortos por falta de assistência médica adequada. Faltam leitos de UTI, respiradores e equipamentos de proteção individual, além de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, porque muitos estão se contaminando. Talvez o general Pazuello seja mais importante para enfrentar o problema de logística no gerenciamento da falta de equipoamentos e pessoal do que na estratégia de saída do isolamento, que necessariamente estará subordinada a governadores e prefeitos.

A propósito, foi simbólica a presença do governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), na entrevista. Sinaliza duas coisas: primeiro, que a situação do Distrito Federal é critica, do ponto de vista dos recursos disponíveis; segundo, que está havendo uma forte aproximação do MDB com o governo, de olho na sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na presidência da Câmara. Ontem, o presidente da legenda, Baleia Rossi (SP), esteve com Bolsonaro, como parte de uma rodada de conversas para rearticular a base do governo e esvaziar a liderança de Maia. Também haverá uma conversa de Bolsonaro com o presidente do DEM, ACM Neto, prefeito de Salvador (BA), agendada para hoje.

A operação de reaproximação com o Congresso tem apoio dos caciques do Centrão: Roberto Jefferson, PTB; Valdemar Costa Neto, PR; Gilberto Kassab, PSD; Ciro Nogueira, Progressistas; e Paulinho da Força, Solidariedade. A negociaçao envolve a entrega da Funasa, do Banco do Nordeste, do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e dezenas de cargos de segundo e terceiro escalões para esses partidos.

Na liga dos insanos

Na capa da edição de 12 de novembro de 2009, a revista inglesa The Economist trazia a imagem do Cristo Redentor disparando do Corcovado como um foguete, para ilustrar as projeções da crescente importância do Brasil na cena internacional. Pouco depois, o Council of Foreign Relations, renomado centro de estudos americano, afirmava que o Brasil “faz parte da reduzida lista de países destinados a definir o século 21”.

Não sendo uma potência econômica nem militar, o Brasil construiu sua reputação internacional assentado no que os estudiosos chamam “poder suave” —a capacidade de influenciar o comportamento de outras nações pela persuasão e não pelas armas ou pelo dinheiro.

Nas últimas décadas, de fato, o país atuou com firmeza nas organizações multilaterais, formando coalizões para engrossar a voz dos países em desenvolvimento. Criou o fórum IBSA, participou da articulação do grupo dos Brics. Entrou para o G20, o grupo de ministros das finanças e dirigentes de bancos centrais das maiores economias do mundo. Fez-se ainda protagonista de primeira grandeza no debate das medidas destinadas a limitar os efeitos das mudanças climáticas.


Embora pouco lembrada, a diplomacia da saúde foi outra iniciativa relevante no exercício do poder suave. Ancorado na experiência de implantação de um dos maiores sistema de saúde pública do mundo, o SUS, e na política bem-sucedida de tratamento do HIV/Aids, premiada pela Unesco, o país levou adiante uma ação internacional digna de nota no terreno da saúde global.

Em 2001, com José Serra no Ministério da Saúde e em aliança com a Índia e a África do Sul, obteve histórica vitória na disputa com os Estados Unidos sobre quebra da patente de medicamentos de combate à Aids. Em 2003, o país teve papel importante na aprovação do Convenção Quadro sobre Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nossa cooperação técnica internacional se expandiu muito. Acordos com países da América Latina e da África permitiram compartilhar conhecimentos em saúde pública e controle epidemiológico de doenças tropicais.

Tudo isso ficou no passado. O Brasil tem hoje a desonrosa distinção de ser incluído no grupo de quatro países governados por dementes que negam a gravidade da pandemia do coronavírus. Três deles —Nicarágua, Turcomenistão e Belarus— são ditaduras.

Na madrugada de ontem, por sinal, nosso minúsculo chanceler usou o Twitter para falar do “comunavírus” e atacar a OMS, suposta ponta de lança do globalismo, segundo ele, a nova cara do comunismo. Pelo menos sabemos como fomos parar na liga dos insanos.
Maria Hermínia Tavares

Burrice à mão

Quando se ativa um tablet, desativam-se os outros sentidos
Johannes Ziegler

O coronavírus dos ricos e o coronavírus dos pobres

Já se escreveu muito sobre como a tragédia do coronavírus nos iguala a todos porque quando golpeia não conhece classes nem ideologias. Mata ricos e pobres. Isso é, no entanto, uma meia-verdade, porque, como sempre na história, aqueles que têm tudo de sobra atravessam a tempestade com menos sacrifícios do que os pobres, para os quais a epidemia é apenas um elemento a mais da dor em que já vivem.

Pode parecer, mas não é uma blasfêmia dizer que os pobres sofrem menos do que os ricos nestas tragédias porque estão acostumados a conviver com a dor, a frustração e a morte.

Talvez por isso, os que mais se opõem ao confinamento que pode salvar muitas vidas são aqueles para quem não faltará nada durante a quarentena, nem mesmo um bom hospital caso o bicho chegue a pegá-los, como afirmou o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Não vimos, de fato, multidões de pobres saírem às ruas para protestar contra o isolamento, apesar de serem eles os mais martirizados por essa medida, pois ela os impede até de sair para ganhar o pão para sua família. Os pobres não têm cadernetas de poupança, e sim dívidas, e a epidemia os deixa mais desprotegidos do que ninguém.



Estão sendo, paradoxalmente, os mais ricos que estão forçando as manifestações contra o isolamento —que, segundo a ciência, é em todo o mundo o único antídoto até hoje para salvar vidas. Sim, o vírus não é classista, mas as tremendas desigualdades da nossa sociedade cruel continuam vivas e até se agigantam durante a epidemia.

Para os mais ricos, os da Casa Grande, o que interessa é que a máquina da produção seja posta em marcha o quanto antes para que a Bolsa volte a subir.

Talvez seja por isso que personagens políticos como o presidente Jair Bolsonaro se revelem desprovidos de sentimentos humanos elementares de compaixão pelos que mais sofrem as consequências da epidemia, e cheguem a negá-la.

Isso explica por que esses pequenos aprendizes de tiranos não se preocupam com aqueles que mais vão morrer com o vírus. Sabemos que são os idosos e os que já sofrem de alguma doença crônica. E essas vítimas são as que menos interessam a todos que veem o mundo sob o prisma do mero lucro ou do mero interesse político. Para eles, idosos e doentes são improdutivos em nossa sociedade do consumo e da vertigem da produtividade a qualquer preço.

Os psicólogos e psiquiatras estão apontando as consequências negativas que terá, para nosso cérebro, a crise mundial que afeta a humanidade inteira. E é aterrador. É um rio de angústias profundas que nossa psique está acumulando, e ainda não sabemos quais serão suas consequências finais.

Mas, dentro de tanta dor, angústia e morte, há um aspecto esquecido que poderia nos ajudar a resgatar um sentimento perdido em nossa sociedade, infectada pelo ódio político e social. Refiro-me a um certo despertar do mundo das emoções, as mais positivas, as que nos curam das psicoses e pareciam adormecidas em uma sociedade contagiada por ódios e discriminações.

É como se o mundo do dinheiro frio e até o do tédio daqueles que têm a mesa farta tivesse se apoderado de um mundo que já é incapaz de emoções humanas profundas.

No entanto, a emoção nos redime de nossos pessimismos estéreis, nos aproxima, nos faz descobrir algo que acreditávamos ter perdido para sempre imersos, como estamos, na sociedade do egoísmo e da inveja. As emoções são o oxigênio da nossa vida interior.

A epidemia, com suas dores, está nos devolvendo, por exemplo, o gosto pela emoção gerada pela solidariedade e pela empatia com os demais, que nos parecem mais próximos e iguais do que nunca.

É verdade que as sequelas psiquiátricas provocadas pelo desespero da separação física podem aumentar durante a crise, como se vê pelo aumento da violência doméstica em algumas famílias. Mas também é possível que o confinamento forçado sirva para que muitos casais e famílias valorizem e reconquistem a intimidade perdida e a alegria de estar juntos.

São essas emoções que o isolamento desperta repentinamente em nós, fazendo com que nos sintamos mais amigos e receptivos à dor e à alegria alheias.

Cenas como a de idosos até de cem anos que saem dos hospitais curados do vírus, sob aplausos de médicos e enfermeiros, eram inéditas até ontem.

Não podemos esquecer, nem mesmo nestes momentos trágicos, que a perda das emoções cria mundos paralelos de ódio e incompreensão da dor e da pobreza alheias.

As emoções, em vez disso, afastam os demônios da vingança. A emoção positiva está mais disposta ao perdão do que ao castigo e nos prepara melhor para compreender a dor e a solidão dos outros.

Quem é incapaz de abrigar emoções diferentes das criadas pela violência e pela morte nunca entenderá o que a ternura e o abraço significam.

O que os nazistas, que arrastavam mães com seus filhos para os crematórios nos campos de concentração, sabiam sobre emoções como a compaixão pelos outros?

Os incapazes de emoções são os mais próximos dos psicopatas que matam com a maior frieza do mundo. Onde estava a emoção nos interrogatórios policiais sob tortura ou nos pelotões de fuzilamento das ditaduras?

Se o coronavírus nos servir para despertar os melhores sentimentos de emoção diante da felicidade alheia, sentimentos que a luta política envenenada aniquilou, a pandemia não terá sido inútil.

Nada seria mais positivo para nosso mundo amargurado e cada vez mais injusto e com maior capacidade de segregação que nascesse um rio de emoções reprimidas capaz de nos redimir de tantos ódios acumulados.

Só aqueles que têm a alma seca de emoções não conseguem entender certas correntes de emoções positivas que só apreciamos quando as perdemos.

É por isso que todos os ditadores ou aspirantes são sempre os mais alérgicos às emoções que salvam e unem a humanidade na busca de uma felicidade que não precisaria matar nem humilhar para se sentir em paz com os outros.

O general quer elogios

Nos idos de 1967, o marechal Costa e Silva fez uma reclamação à condessa Pereira Carneiro, então proprietária do “Jornal do Brasil”. “O seu jornal tem tratado muito mal a mim e ao meu governo”, queixou-se. Em tom diplomático, a senhora respondeu que o diário buscava publicar “críticas construtivas”. O ditador reagiu com franqueza: “Eu gosto mesmo é de elogio”.

O general Luiz Eduardo Ramos foi cadete no período autoritário, mas chegou aos postos de comando na democracia. Foi promovido a coronel em 2003, quando a Presidência era ocupada por um ex-operário que liderou greves contra a ditadura. Ontem ele teve uma recaída, e resolveu usar uma entrevista ministerial para fazer reparos ao trabalho da imprensa.

“Desde que começou essa crise do coronavírus, nós temos observado uma cobertura maciça dos fatos negativos”, disse o chefe da Secretaria de Governo. “No jornal da manhã é caixão e é corpo, na hora do almoço é caixão e é corpo, no jornal da noite é caixão, é corpo e é número de mortes”, protestou.

À moda de Costa e Silva, o ministro afirmou que o jornalismo “não está ajudando”. Ele sugeriu que os repórteres se colocassem no lugar de uma senhora de idade que gostaria de se sentir melhor na pandemia. “Tem tanta coisa positiva acontecendo... É muita notícia ruim, mas vamos também divulgar notícias boas”, apelou.

Apesar do tom edificante, Ramos não está preocupado com o bem-estar das velhinhas. Se isso fosse verdade, ele convenceria o chefe a parar de sabotar a quarentena. O objetivo das medidas de isolamento é proteger os grupos mais vulneráveis do vírus. O presidente prefere empurrá-los para o sacrifício em troca da reabertura imediata do comércio.

Os bolsonaristas sonham viver no Turcomenistão, onde o ditador Gurbanguly Berdimuhammedow proibiu a imprensa de usar a palavra “coronavírus”. Ontem o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, declarou que o Brasil “é um dos países que melhor performa (sic) em relação à Covid”. No mundo real, faltam leitos de UTI e há cemitérios abrindo valas comuns para enterrar vítimas da doença.

Pensamento do Dia


Bolsonaro agora tem de dar comida aos porcos, ao som dos asnos ideológicos

No início do seu mandato, há menos de um ano e meio, não dois séculos, Jair Bolsonaro havia encorpado a sigla pela qual se elegera, o PSL, e contava com a força dos 57 milhões de brasileiros que viram na sua plataforma anticorrupção um antídoto ao petismo et caterva. Escudado nessa fortaleza, poderia ter angariado apoios mais consistentes no Legislativo e estar agora bem amparado na Presidência da República neste momento de crise.

Bolsonaro, no entanto, resolveu dar ouvidos aos asnos ideológicos que o rodeiam. Confundiu fazer política com render-se ao toma-lá-dá- cá e entrou em confronto permanente com o parlamento, achando que o apoio das ruas lhe seria suficiente para pressionar deputados e senadores a votar de acordo com a vontade do Planalto. Em pouco tempo, foi enxotado do PSL, tornando-se o caso único de um presidente sem partido, não conseguiu formar a sua própria agremiação, perdeu a sustentação de grande parte dos seus eleitores, irritados com os zurros dos asnos ideológicos, enrolou-se com idiotices, alimentou ainda mais as desconfianças sobre a sua crença na democracia — e foi engolido pelo DEM de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Um ano e meio depois da sua posse, não dois séculos, um fragilizado Jair Bolsonaro abraça a velha política, para cooptar o Centrão e tentar conter o DEM, a um preço bem mais caro do que o inicial, não tivesse ele confundido política com conchavo ilícito. O presidente agora tem de dar comida aos porcos, enquanto finge que não faz o que os seus antecessores fizeram, mas com a diferença da trilha sonora dos asnos que zurram por um golpe.

Enquanto o país padece com a Covid-19, o governo vai sendo infectado pelo vírus do pior tipo de gripe suína: o fisiologismo. E esse vírus não fortalece, só enfraquece.

Há tanta coisa positiva!

Nós, do governo do presidente Jair Bolsonaro, respeitamos muito a liberdade de imprensa e ela é fundamental para o processo democrático de todo o país (sic). Porém, desde o começo dessa crise do coronavírus, nós temos observado uma cobertura maciça dos fatos negativos. Com todo respeito, no jornal da manhã é caixão, é corpo. Na hora do almoço, é caixão novamente, é corpo. No jornal da noite, é caixão, é corpo e o número de mortos.
(....) Ninguém está falando que tem que esconder, mas eu peço encarecidamente: tem tanta coisa positiva acontecendo… 

Luiz Eduardo Ramo, ministro da Secretaria do Governo

O poder que Bolsonaro quer

Em meio ao repúdio unânime das instituições à sua participação num comício de caráter golpista em Brasília no domingo passado, o presidente Jair Bolsonaro defendeu-se dizendo que “falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial”. Segundo Bolsonaro, “o pessoal geralmente conspira para chegar ao poder”, mas “eu já estou no poder, eu já sou presidente”. E concluiu: “Então eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu?”.

De fato, Bolsonaro já está no poder, conferido a ele pelos eleitores no pleito de 2018. A questão é que esse poder Bolsonaro não quer, não só porque, no fundo, sabe que não tem a menor ideia de como exercê-lo, tamanho é seu despreparo, mas principalmente porque é um poder regulado pela Constituição e limitado pelos freios e contrapesos institucionais. Um presidente “pode muito, mas não pode tudo”, como disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, ao criticar a convocação, feita por Bolsonaro, de protestos contra o Congresso, em fevereiro. Ou seja, já naquela ocasião, o presidente deixava explícito que não pretendia se submeter aos controles constitucionais, pois, em sua visão, sua Presidência é “o povo no poder”, como bradou aos seus seguidores no domingo passado. Depreende-se que Bolsonaro almeja presidir um regime plebiscitário, em que a voz do que ele chama de “povo” se impõe como a lei, tendo o presidente como zeloso intérprete, submetendo todos os demais Poderes a seu tacão.


Nesse regime dos sonhos bolsonaristas, nem o tal “povo” nem o presidente da República são responsáveis pelos problemas do País; estes são sempre fruto das tramoias dos demais Poderes, que se recusam a satisfazer a vontade do “povo” e são vistos como inimigos que tramam para usurpar o poder conferido ao presidente nas urnas. Não à toa, Bolsonaro vive a invocar a possibilidade de sofrer impeachment, quase como se estivesse a desejá-lo, para servir como “prova” da tal conspiração.

O poder que Bolsonaro almeja, portanto, é aquele exercido sem que tenha de prestar conta às demais instituições democráticas que permanecem em funcionamento, mas sem condições objetivas de cumprirem suas funções. Nem é preciso ir muito longe no tempo para encontrar exemplos desse tipo de regime:  a Venezuela do ditador Hugo Chávez é o caso mais bem acabado de uma autocracia construída sem a necessidade de um golpe formal. Não deve ser mero acaso que em 1999 o então deputado Bolsonaro tenha rasgado elogios ao caudilho venezuelano, dizendo que Chávez, “uma esperança para a América Latina”, faria “o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”.

Como ensinou Chávez, a construção do poder discricionário demanda uma democracia de fachada, com eleições regulares e Parlamento em funcionamento, enquanto as estruturas democráticas vão sendo carcomidas. A imprensa livre é sufocada e a oposição é constrangida pela máquina de destruição de reputações. Já o Judiciário é tomado por governistas, transformando-se em pesadelo dos dissidentes do regime. Assim, estão dadas as condições para que a Constituição se torne letra morta.

É evidente que tal empreendimento deve ser contido já em seus primórdios. O Congresso faz sua parte quando impede Bolsonaro de aprovar medidas inconstitucionais e quando investiga a militância virtual bolsonarista que atua febrilmente para constranger os opositores do presidente.

Do mesmo modo, é alentador observar que o Supremo Tribunal Federal também está vigilante. Agora mesmo, por meio do ministro Alexandre de Moraes, atendeu ao pedido da Procuradoria-Geral da República e mandou abrir inquérito para saber quem organizou o ato antidemocrático do qual o presidente Bolsonaro participou animadamente no fim de semana. O ministro teve que lembrar que a Constituição “não permite o financiamento e a propagação de ideias contrárias à ordem constitucional e ao Estado democrático, nem tampouco a realização de manifestações visando o rompimento do Estado de Direito”. Essa investigação deve ir até o fim, dando nome e sobrenome aos liberticidas - seja qual for o cargo que ocupem ou o poder que tenham - e estes devem ser punidos de acordo com a lei.
Editorial - Estadão