segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A reconquista do futuro

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.


Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas leves.

Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que a deles.

É preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer

Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.

Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e manifestações específicas em cada país.

A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da governabilidade.

Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do Brasil, mas representativo do sentimento da época.

O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da confiança.

Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e cumulativas.

A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas, a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.

Nos estratos de classe média e alta já mais bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média” eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade política, recorria à retórica do nós contra eles.

Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes, comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança e patrimônio.

Nada mais distante de uma vida previsível e estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.

No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ ou trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.

Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e desmoralização da autoridade pública.

No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.

Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.

Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.

Esse quadro complica a chamada governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?

Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.

Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.

Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ ou das corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?

Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século xix retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança com a Casa Branca.

De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.

Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.

A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.

Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.

Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso. Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.

Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.

Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.

Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente, De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua grandeza.”

Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política, inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.

Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no sistema internacional.

Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.

Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.

O salto que precisamos dar requer novas estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.

Tão importante quanto definir prioridades e propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública, incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias divergências.

Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.

A derrota política desse clã familiar é condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não teve coragem de lutar.

Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.

Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.

Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o stf. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em reapresentar).

Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.

Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.

domingo, 9 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

Tesouraço de Flávio entre a vassourinha de Jânio e a motosserra de Milei

Na semana passada, Flávio Bolsonaro (PL) pôs na lapela um broche em forma de tesoura. É um símbolo do "tesouraço", que pode vir a ser um mote da campanha dele, promessa de corte de gasto público, de imposto e de burocracias e intervenções do governo.

A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.


Milei fez ajuste bárbaro na Argentina. Cortou despesas também reduzindo o valor real de salários de servidores e de benefícios sociais (a inflação comeu o valor desses e de outros pagamentos). No final do primeiro ano inteiro de governo, o corte foi de 15% em Previdência e assistências sociais; nos salários, de 22%.

Flávio anunciou-se candidato em 5 de dezembro do ano passado. Juros e dólar saltaram, o Ibovespa afundou. Donos do dinheiro grosso diziam assim que passavam a esperar derrota da direita para Luiz Inácio Lula da Silva.

O desgosto diminuiu, até porque "não tem tu, vai tu mesmo", como disse alguém que esteve na primeira reunião do candidato com a finança, menos de uma semana depois de Flávio ter sido ungido pelo pai. O candidato então começou a prometer "tesouraço". Mas nega até tesourinha.

Daniella Marques parece ser a principal porta-voz econômica de Flávio, que pensou nela como vice. Na campanha de 2018 e no governo, foi a mais próxima assessora de Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro.

Marques tem dito que Flávio cortaria a despesa em 1,5% do PIB, entre outras medidas. O que quer dizer esse número? Suponha-se a hipótese seguinte (não é o plano de Marques, é apenas aritmética elementar do gasto federal).

Imagine-se que, por quatro anos, o governo reajuste apenas pela inflação despesas com Previdência, servidores, BPC, Bolsa Família, saúde, educação, abono salarial e seguro-desemprego (equivalem a 85,2% do gasto federal e a 16,7% do PIB). Isso exige também que o reajuste do salário mínimo se limite à variação do IPCA ou que benefícios previdenciários sejam desvinculados do mínimo.

Chute-se ainda que o PIB cresça 2,5% ao ano. Assim, daria para arrumar 1,5% do PIB. Isto é, caso o número de beneficiários de Previdência etc. ficasse na mesma —não vai ficar, nem com nova reforma da Previdência.

Para dar certo, de resto, não poderia haver redução da receita (por meio de corte de impostos ou outro motivo). É possível atenuar o arrocho por meio de aumento de receita: com corte de gasto tributário (o que o governo deixa de arrecadar por causa da redução de impostos para certos setores, empresas e pessoas). Mas é aumento de imposto.

A vida é mais complicada do que essa aritmética. Trata-se apenas de exercício para mostrar o tamanho da encrenca (porém incontornável). O que diz Flávio? Que vai manter o reajuste do mínimo e indexações. Que vai cortar impostos. Que vai arrumar R$ 1 trilhão com imóveis da União (como dizia Jair). Não dá.

Continua a dizer em público o que disse em abril, quando chamou de "fake" reportagem da Folha sobre planos de seus assessores. Sem novidade aí, pois, e "o fiscal" é apenas um dos problemas graves do país. Mas agora temos dois meses para espremer os candidatos a fim de evitar o estelionato ou o risco de crise como a de 2015.
Vinicius Torres Freire

Mentiras de Nikolas são boa oportunidade para lembrar de Bolsonaro na pandemia

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo", esse também termina com "era tudo mentira".

Nada disso está nos diários de Fauci. Se você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.

Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.


Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes totais, sendo um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio governo Bolsonaro.

O "mínimo de 100 mil mortos" é baseado na estimativa do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.

Na verdade, o número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de "mortes em excesso" ("excess deaths") ocorridas no Brasil durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal, dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras doenças (que permaneceu igual).

A estimativa do número de mortos por falta de vacina no primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou. Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas as ofertas de vacina que Jair recusou.

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos são brasileiros.

O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão. Jair não apertou.

Fica pior.

Quando Jair começou a implementar sua política de "imunidade de rebanho" —deixar a população adquirir imunidade pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido descoberta. Se João Doria não tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?

Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe de 2022 quando Mauro Cid foi preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.

Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.

As caras impolíticas do poder

Count Binface ("Conde Cara de Lata de Lixo") é o nome adotado pelo comediante Jon Harvey, candidato ao Parlamento britânico, com ascensão tão meteórica na corrida eleitoral que ameaça a vaga distrital disputada por Nigel Farage, político de destaque da direita. O nome é literal: Harvey catalisa a atenção pública com uma espécie de capacete em forma de lata de lixo, que lhe cobre inteiramente o rosto. Estapafúrdias são também suas propostas: proibir que se coma pipoca nos cinemas, tabelar sorvetes e outras.

Do outro lado do Atlântico Norte, no Colorado, o pastor pentecostal de direita Victor Marx foi declarado vencedor nas primárias republicanas para o governo do estado. Comoveu seus pares ao revelar que matou uma pessoa pela primeira vez aos sete anos de idade por insistência de um padrasto abusivo e que não tem certeza de quantos assassinou desde então. Desfia relatos de como penetrou em zonas de guerra para resgatar cristãos e de como salvou mulheres e adolescentes do tráfico sexual. Ele se autodefine como um "um alto risco humanitário".

Guardadas as diferenças de "estilo" (o britânico segue uma tradição satírica; o americano, a da violência armada), essas duas figuras são tecnicamente outsiders da política profissional. Seria temerário, porém, classificá-los como apolíticos, juízo corriqueiro, já que terminam entrando no jogo convencional e, em geral, na lateral direita.


Vale, por isso, trazer à baila o conceito de impolítica, destacado em pensadores italianos contemporâneos como Roberto Esposito e Massimo Cacciari, para designar aquilo que escapa à política como organização do poder. Em "Impolítica", Esposito contrapõe-se à ideia de que ela seja caminho absoluto para a construção de uma sociedade equilibrada, mostrando que há dimensões da vida refratárias à absorção por instituições ou ideologias.

Em suma, impolítica não designa nenhuma forma nova de ação política, mas uma perspectiva crítica para o limite de qualquer grande ou pequena política. É que as democracias parlamentares não distinguem, no interior da categoria "povo", indivíduos comuns dos poderosos, pertencentes às frações da classe dominante. Nessa neutralização da diversidade, desaparece a tensão dos interesses distintos, assim como a relevância da política. O que dá lugar ao apoliticismo ou ao "nojo da política", não como falta de convicção em alguma coisa, mas como recusa consciente da representação parlamentar. O abstencionismo do voto é uma das consequências.

Abre-se assim o portão a candidaturas antissistema. Só que isso é pura retórica, uma astúcia do próprio sistema para se perpetuar. O grotesco generalizado em Trump, Milei, Espriella, Bukele e seus acólitos naturaliza-se na vida política em estilos que vão das palhaçadas benignas de um Binface até o medonho autorretrato de Victor Marx.

E emerge então um efeito colateral da impolítica: o desrespeito ao equilíbrio institucional nos diversos tipos de inter-relação. A prepotência do Departamento de Estado norte-americano na interlocução internacional é marca nefasta da troca de política civilizada por arrogância. Jogada na lata de lixo, a diplomacia dá lugar à grosseria imperial.

Setores de Israel tentam expandir fronteiras do país

Diante das câmeras, a colona Daniela Weiss segura e mostra um mapa do Oriente Médio com o título "A Terra Prometida". Em seguida, diz: "Esta é a promessa de Deus aos patriarcas da nação judaica".

O mapa mostra um Estado judeu que abrange partes da Jordânia, do Líbano, do Egito, do Iraque, da Síria e da Arábia Saudita – ou seja, estendendo-se muito além da linha de armistício de 1949, a chamada Linha Verde, que define o território de Israel de acordo com o direito internacional.

"São 3.000 quilômetros… Quase tão grande quanto o deserto do Saara", acrescenta Weiss.

Weiss, às vezes chamada de "madrinha do movimento dos colonos israelenses", refere-se à ideia do "Grande Israel", ou "Eretz Israel HaShlema", isto é, "Israel Completo", em hebraico. Trata-se de um conceito expansionista popular entre a extrema direita israelense que tem origem na Bíblia.

"Para os defensores da política de assentamentos, como Bezalel Smotrich, atual ministro das Finanças, ou Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, não se trata de tornar Israel maior do que realmente deveria ser. Trata-se de concluir o trabalho. Isso significa que a reivindicação de toda a Palestina histórica ou 'Eretz Israel', como eles a definem, é uma promessa divina", afirma Gil Shohat, historiador e diretor da Fundação Rosa Luxemburgo em Tel Aviv.

Alguns israelenses interpretam o conceito de "Israel Completo" ou "Grande Israel" com a inclusão do território que Israel conquistou em 1967: os Territórios Palestinos Ocupados (TPO) – Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza –, bem como as Colinas de Golã, na Síria, anexadas por Israel, e a Península do Sinai, no Egito, que Israel devolveu há décadas.

Outros almejam toda a área que teria sido prometuda na Bíblia, que se estende do rio Nilo, no Egito, até o rio Eufrates, que atravessa a Turquia, a Síria e o Iraque.


As palavras de Weiss foram proferidas em uma entrevista ao canal australiano ABC News em 2014, e, desde então, essas ideias ganharam força na política israelense, à medida que Israel continua em guerra em várias frentes no Oriente Médio.

Em março de 2023, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, ele próprio um colono, causou um alvoroço diplomático ao discursar em uma cerimônia em Paris atrás de um pódio que exibia um mapa do "Grande Israel", o qual incluía não apenas os territórios atualmente ocupados por Israel, mas também a Jordânia.

Um ano depois, ele declarou ao canal franco-alemão Arte que "o futuro de Jerusalém é expandir-se até Damasco", a capital síria.

Em setembro de 2024, ao falar sobre seus planos para "o dia seguinte" à guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apresentou um mapa em que anexava totalmente a Cisjordânia.

Em agosto de 2025, ele disse ao canal israelense i24NEWS que se identificava "bastante" com o conceito do "Grande Israel", o que levou o Egito e a Jordânia a exigirem esclarecimentos.

E, em fevereiro de 2026, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse ao apresentador americano Tucker Carlson que seria "aceitável" se Israel assumisse o controle de todo o Oriente Médio.

Na narrativa bíblica (Gênesis 15:18-21), Deus promete a Abraão e seus descendentes um território que se estende do Nilo ao rio Eufrates. Essa visão foi posteriormente retomada por alguns pensadores judeus, tanto religiosos quanto nacionalistas, e tornou-se um elemento fundamental da ideologia sionista.

Pensadores sionistas, como Theodor Herzl e Ze'ev Jabotinsky, fizeram referência a essas fronteiras bíblicas em suas escritas. Herzl chamou a ideia da pátria bíblica de "excelente" em seus diários, e Jabotinsky ecoou essa visão em sua canção "A Margem Oriental do Jordão". Cada verso termina com a frase: "O Jordão tem duas margens – esta é nossa, e a outra também".

A música mais tarde tornou-se o tema do movimento jovem sionista revisionista de Jabotinsky, o "Betar". O pai de Benjamin Netanyahu, Benzion Netanyahu, foi ativo no movimento sionista revisionista de Jabotinsky e trabalhou brevemente como assessor próximo dele antes de sua morte.

O ex-primeiro-ministro de Israel (o primeiro do país), David Ben-Gurion, também flertou com a ideia do "Grande Israel", mas acabou adotando uma abordagem mais pragmática. Antes de pensar na expansão, ele priorizou de forma tática a criação de um Estado judeu soberano. No entanto, deliberadamente, deixou as fronteiras de Israel indefinidas na Declaração de 1948 sobre a Fundação do Estado de Israel, criando uma ambiguidade estratégica para uma futura expansão.

Em um discurso em 1937, ele disse: "A aceitação da partilha não nos obriga a renunciar à Transjordânia: não se exige de ninguém que desista de sua visão. Aceitaremos um Estado dentro das fronteiras fixadas hoje, mas as fronteiras das aspirações sionistas são da competência do povo judeu e nenhum fator externo será capaz de limitá-las".

Israel expandiu suas fronteiras além do que havia sido proposto no Plano de Partilha da ONU de 1947, que destinava cerca de 56% da antiga Palestina sob Mandato Britânico a um futuro Estado judeu, mas, após a Guerra Árabe-Israelense de 1948, Israel passou a controlar cerca de 77%.

Desde que ocupou Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, em 1967, Israel controla efetivamente quase toda a antiga Palestina sob Mandato Britânico, além das Colinas de Golã.

A comunidade internacional não reconhece essas áreas como parte do território soberano de Israel. Mas a maioria dos israelenses, sim, afirma Shohat: "Já se passaram quase 60 anos desde que Israel ocupou essas áreas. Mesmo nos livros didáticos das escolas mais liberais de Tel Aviv, o mapa de Israel inclui Cisjordânia e Gaza".

Hoje, mais de 700 mil colonos judeus israelenses vivem na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, segundo as Nações Unidas. As estimativas para as Colinas de Golã variam entre 23.000 e 31.000 colonos, além de cerca de 20.000 drusos que permaneceram na região quando Israel tomou a área.

A ONU considera todos os assentamentos israelenses além da Linha Verde uma violação do direito internacional e, em um parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou a ocupação ilegal.

Após a expansão territorial que se seguiu à guerra de 1967, a ideia do "Grande Israel" ganhou força. Hoje, ela continua influente entre alguns grupos religiosos e nacionalistas israelenses de extrema direita, mas não é uma posição dominante na sociedade israelense, segundo Shohat.

"A ocupação da Palestina histórica, ou seja, basicamente, Israel, Cisjordânia e Gaza, está normalizada. Ainda não vejo uma tendência de normalização de assentamentos permanentes no sul do Líbano, nem mesmo em partes da Síria. Mas isso não significa que a situação nessas regiões não possa evoluir para um assentamento permanente se não houver oposição significativa, tanto internacional quanto interna", afirma.

Mas, embora não seja uma posição dominante na sociedade israelense, a ideia de expansão territorial há muito tempo permeia setores-chave do governo. Em março de 2026, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defendeu a anexação do sul do Líbano.

Em uma conferência realizada em 2024 pela Nahala, a organização de colonos de Daniela Weiss, o ministro das Finanças, o ministro da Segurança, Ben Gvir, e a líder dos colonos fizeram lobby pela "emigração voluntária" dos palestinos de Gaza.

Em um palco, Ben Gvir afirmou: "Se não queremos outro 7 de outubro, precisamos voltar para casa e controlar [Gaza]. Precisamos encontrar uma forma legal de fazer com que [os palestinos] emigrem voluntariamente e impor penas de morte aos terroristas".

Dois anos depois, Ben Gvir deu mais um passo em direção ao que desejava: em 30 de março, o Knesset, o parlamento de Israel, aprovou uma lei que impõe a pena de morte a palestinos condenados por ataques fatais.

A impunidade do genocídio e a perda da conquista histórica de Nuremberg

“A única pista para aquilo que o ser humano pode fazer é aquilo que o ser humano já fez.” A advertência de R. G. Collingwood, utilizada no encerramento do filme Nuremberg, não deveria ser recebida como uma reflexão melancólica sobre um passado encerrado. Ela contém uma profecia política: os mecanismos que permitiram as grandes barbaridades do século XX não desapareceram com a derrota militar do nazismo. Podem reaparecer sempre que o Estado converte o medo em doutrina, o preconceito em identidade nacional, a obediência em virtude e a destruição de outro povo em requisito de segurança.

A formulação exige, porém, uma precisão indispensável. Não são os transtornos psiquiátricos que explicam o nazismo, os crimes de guerra ou os projetos contemporâneos de extermínio. Associar doença mental à barbárie seria cientificamente frágil e injusto com milhões de pessoas que convivem com sofrimento psíquico sem jamais praticar violência. A descoberta mais perturbadora de Douglas Kelley foi justamente a inversa: pessoas sem uma patologia psiquiátrica incapacitante podem participar de crimes extraordinários quando determinadas circunstâncias políticas, institucionais e morais tornam o crime normal, recompensado ou socialmente aceitável.

Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança

Em O nazista e o psiquiatra, Jack El-Hai reconstrói o encontro entre Kelley, então psiquiatra do Exército norte-americano, e os principais dirigentes nazistas presos antes do primeiro julgamento de Nuremberg. Kelley deveria avaliar se aqueles homens possuíam condições mentais para responder perante o tribunal. Esperava talvez encontrar uma estrutura psicológica especificamente nazista, uma deformação que separasse aqueles acusados da humanidade comum. O livro mostra que sua investigação não produziu uma fronteira confortável entre monstros e pessoas normais. Encontrou homens inteligentes, ambiciosos, socialmente funcionais e capazes de adaptar consciência, linguagem e comportamento às oportunidades oferecidas pelo poder.

A conclusão de Kelley antecipa uma questão que atravessaria o pensamento político do pós-guerra: o mal organizado não depende apenas de uma personalidade excepcionalmente perversa. Depende da criação de um ambiente em que a responsabilidade individual seja diluída entre ordens superiores, procedimentos administrativos, discursos patrióticos e interesses profissionais. A profecia de Nuremberg não é a de uma doença psiquiátrica que se repete. É a de uma possibilidade humana e institucional que permanece disponível.


Hannah Arendt encontrou na figura de Adolf Eichmann não a ausência de responsabilidade, mas a incapacidade de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Sua ideia de banalidade do mal foi muitas vezes reduzida à afirmação simplista de que os criminosos seriam burocratas inocentes. O argumento é mais exigente: atos monstruosos podem ser praticados por pessoas que substituem o julgamento moral pela linguagem administrativa, pela carreira e pela obediência. A banalidade não está no sofrimento causado, mas na normalidade com que o agente aprende a administrá-lo.

Christopher Browning, em Homens comuns, examinou como integrantes de um batalhão policial composto majoritariamente por alemães de meia-idade se transformaram em executores de milhares de judeus. Não eram todos militantes fanáticos nem foram todos obrigados sob ameaça imediata de morte. Pressão do grupo, conformismo, carreira, medo de parecer covarde, antissemitismo e adaptação progressiva tornaram possível aquilo que inicialmente poderia ter parecido impensável.

Robert Jay Lifton, ao estudar os médicos nazistas, demonstrou outra dimensão decisiva. Profissionais treinados para curar puderam participar da seleção, da experimentação e da morte porque construíram uma separação interna entre a identidade médica e a função exercida no sistema de extermínio. O conhecimento científico não impediu o crime; foi colocado a serviço dele. A medicina, quando capturada pelo Estado totalitário, deixou de proteger a vida concreta e passou a administrar uma suposta saúde racial da nação.

Essas contribuições não eliminam a responsabilidade pessoal. Fazem exatamente o contrário. Demonstram que não podemos esperar sinais de loucura para reconhecer o perigo. Um governante pode discursar racionalmente, vencer eleições, dominar estatísticas, reunir especialistas e, ainda assim, conduzir políticas criminosas. Um oficial pode amar sua família e ordenar a destruição da família de outro. Um médico pode preservar a saúde de determinados cidadãos e aceitar a privação médica de uma população considerada inimiga. Um eleitor pode defender valores democráticos para seu próprio grupo e tolerar a suspensão desses valores para quem foi colocado fora da comunidade nacional.

O Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, resume as motivações dos participantes e colaboradores do nazismo em dois grandes campos: elementos culturais e ideológicos, como o antissemitismo, e mecanismos psicossociais, como medo, oportunismo e pressão para conformar-se. Muitos europeus testemunharam perseguições, violência, deportações e apropriação de bens, mesmo sem conhecer a extensão completa da chamada Solução Final. A propaganda ocultou métodos e utilizou eufemismos, mas a exclusão dos judeus da sociedade ocorria diante de vizinhos, funcionários, comerciantes e beneficiários diretos da desapropriação.

O Estado nacional-socialista criou as circunstâncias em que o crime deixou de parecer crime. O judeu foi primeiro transformado em problema jurídico, econômico, biológico e territorial. Vieram as classificações, as proibições profissionais, a expropriação, a segregação, a deportação e, finalmente, o assassinato industrializado. O Holocausto foi um processo em evolução: a perseguição sistemática iniciada em 1933 culminou, entre 1941 e 1945, na política de assassinato em massa denominada pelos nazistas “Solução Final”.

A Alemanha nazista e seus aliados e colaboradores assassinaram seis milhões de judeus europeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime. Aproximadamente 9,5 milhões de judeus viviam na Europa em 1933. Ao final da guerra, dois de cada três haviam sido mortos – uma destruição equivalente a cerca de 63% da população judaica europeia anterior ao nazismo. Nenhuma comparação contemporânea deve apagar a especificidade histórica, continental, racial e industrial desse processo.

Comparar, contudo, não significa declarar equivalência. A história comparada não coloca tragédias em uma competição macabra. Ela identifica mecanismos, ritmos, proporções e estruturas de impunidade. O Holocausto e a destruição de Gaza não são acontecimentos idênticos: diferem em duração, escala absoluta, tecnologia, configuração territorial e contexto histórico. Mas a singularidade do Holocausto não pode ser utilizada para proibir toda comparação, porque os princípios jurídicos construídos em resposta a ele foram deliberadamente formulados como universais.

Nuremberg estabeleceu que o indivíduo responde por crimes internacionais; que a legislação interna não elimina essa responsabilidade; que a condição de governante não oferece imunidade absoluta; e que a alegação de cumprimento de ordens não basta para absolver aquele que possuía possibilidade de escolha. A Convenção do Genocídio, aprovada em 1948, incluiu entre os atos proibidos o assassinato de integrantes do grupo, a produção de danos físicos ou mentais graves e a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial

É precisamente por isso que Gaza não pode ser analisada apenas pela comparação entre números absolutos. O universo populacional é decisivo. Segundo a UNICEF, 71.803 palestinos haviam sido registrados como mortos na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 3 de fevereiro de 2026, entre eles pelo menos 21.289 crianças. Outros 171.230 haviam sido registrados como feridos, incluindo cerca de 44.500 crianças. Em uma população estimada em 2,1 milhões de habitantes, as mortes diretas registradas correspondem aproximadamente a 3,4% da população; as crianças mortas, isoladamente, superam 1% de todos os habitantes; e os feridos representam mais de 8%. Trata-se de uma aproximação proporcional baseada nos números publicados, não de uma estimativa de mortalidade total ou de uma comparação de equivalência com o Holocausto.

Essa contagem também não representa necessariamente toda a dimensão humana da catástrofe. Ela registra mortes oficialmente reportadas, não todas as pessoas desaparecidas sob escombros nem os efeitos futuros de ferimentos, doenças, desnutrição, contaminação da água e interrupção de tratamentos. O rigor exige que não inventemos números além dos documentados. Exige também que não reduzamos a destruição aos corpos já contabilizados.

Aproximadamente 1,9 milhão dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permaneciam deslocados em julho de 2026 – mais de 90% da população. Cerca de 82% das famílias enfrentavam insegurança hídrica, e até 70% não conseguiam acesso a seis litros de água por pessoa ao dia, volume inferior aos padrões mínimos de emergência. Dos 633 caminhões de ajuda da UNICEF provenientes do Egito em maio e junho, apenas 280 conseguiram descarregar seus suprimentos.

Mais de 60 milhões de toneladas de escombros haviam sido geradas desde outubro de 2023. Somente uma fração havia sido removida. Nos centros coletivos avaliados pela OCHA, 69% apresentavam esgoto visível e 80% não possuíam iluminação funcional. No primeiro semestre de 2026, foram registradas quase quatro mil perdas gestacionais; mais de 57% das gestantes apresentavam anemia, e a morbidade materna grave chegou a 82 casos para cada mil partos.

Esses dados dimensionam uma forma de destruição que ultrapassa o ataque militar direto. Uma sociedade é atingida em sua possibilidade de continuidade quando hospitais deixam de funcionar, mulheres não conseguem realizar partos seguros, crianças adoecem por falta de água, escolas desaparecem, áreas agrícolas se tornam inacessíveis e famílias são obrigadas a deslocar-se repetidamente sem lugar seguro para permanecer.

Mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, a OCHA informou outras 1.180 mortes e 3.810 feridos até 22 de julho de 2026. Entre 15 e 22 de julho, 59 palestinos foram registrados como mortos e mais de 190 como feridos. O termo “cessar-fogo” perde parte de seu conteúdo quando a população continua submetida a ataques, mortes e deslocamentos.

Nada disso justifica os crimes cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados em 7 de outubro de 2023. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que foram praticados ataques intencionais contra civis, assassinatos, tratamentos cruéis, tortura e tomada de reféns. Condenar esses crimes é uma obrigação moral e jurídica. Contextualizá-los historicamente não significa legitimá-los.

Mas a história palestina não começou naquele 7 de outubro. Em 1948, mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas casas, muitos deles à força, no processo conhecido como Nakba. A crise dos refugiados palestinos tornou-se a mais longa crise prolongada desse tipo no mundo contemporâneo. Em 2007, Israel intensificou o bloqueio terrestre, marítimo e aéreo de Gaza, aprofundando restrições anteriores e produzindo impactos profundos sobre a economia, a mobilidade e o tecido social do território.

A violência posterior ao atentado não surgiu do nada. Foi a intensificação colossal de uma estrutura anterior de ocupação, bloqueio, deslocamento e desigualdade jurídica. O ataque terrorista ofereceu ao governo Netanyahu a oportunidade política de transformar o trauma israelense em autorização para uma campanha cuja escala destrutiva passou muito além da responsabilização dos autores do ataque.

Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido e continuavam cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeita essa conclusão. A Corte Internacional de Justiça ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da ação apresentada pela África do Sul, embora tenha determinado medidas provisórias de proteção. Essa diferença deve ser preservada: uma comissão da ONU apresentou uma conclusão jurídica de genocídio; o processo de responsabilidade estatal perante a CIJ permanece em andamento.

No campo da responsabilidade individual, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. O mandado contra Netanyahu permanece registrado pelo tribunal. Não é uma condenação antecipada, mas uma ordem para que o acusado seja apresentado à Justiça, conheça as provas, exerça sua defesa e seja submetido ao devido processo.

Prender Netanyahu em território de um Estado obrigado a cooperar com o TPI seria juridicamente legítimo. A presunção de inocência não significa o direito de evitar o julgamento. Significa o direito de ser julgado por tribunal competente, de contestar a acusação e de não ser condenado sem prova. Impedir a prisão não protege o devido processo; impede que ele aconteça.

A reação dos Estados Unidos confirma a perda da conquista histórica de Nuremberg. Washington apoiou o Tribunal Penal Internacional quando a instituição expediu mandado contra Vladimir Putin, mas passou a atacar o tribunal quando a mesma lógica de responsabilização alcançou Netanyahu. Uma norma aplicada aos adversários e suspensa diante dos aliados deixa de ser norma universal. Converte-se em arma geopolítica.

Essa seletividade também aparece no cerco contra Cuba. As situações de Gaza e Cuba não são equivalentes: uma população está submetida a uma campanha militar destrutiva; a outra sofre há décadas com um bloqueio econômico, comercial e financeiro. A lógica comum é o uso das condições materiais de vida de uma sociedade para impor submissão política.

Cuba não deve ser idealizada nem isentada de críticas sobre liberdades, participação política, gestão econômica e direitos civis. Mas suas contradições internas não autorizam uma potência estrangeira a decidir, pela escassez de combustível, crédito, tecnologia e medicamentos, qual regime os cubanos devem adotar.

A experiência socialista cubana produziu conquistas reconhecidas internacionalmente. A UNESCO descreve a Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 como o acontecimento mais marcante da educação e da cultura cubanas no século XX. O método Yo, sí puedo contribuiu para alfabetizar mais de seis milhões de pessoas em 29 países. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a expectativa de vida em Cuba alcançou 78,3 anos em 2024, superando a média das Américas. Reconhecer esses resultados não exige silenciar os problemas do regime; exige apenas analisar a trajetória histórica de Cuba sem as caricaturas construídas por Washington.

Em outubro de 2025, 165 países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas pelo fim do embargo norte-americano contra Cuba; apenas sete votaram contra e doze se abstiveram. A votação mostra a amplitude da rejeição internacional, mas também a impotência da Assembleia para obrigar a maior potência econômica e militar a modificar sua conduta.

Gaza e Cuba revelam, por métodos diferentes, o mesmo limite da ordem internacional. O TPI emite um mandado, mas não possui força policial para executá-lo. A Assembleia Geral condena um bloqueio, mas não possui meios para encerrá-lo. A norma existe, porém, a aplicação depende daqueles que controlam armas, sistemas financeiros, alianças e sanções.

A sociedade israelense não pode ser responsabilizada coletivamente pelas decisões de Netanyahu. O povo judeu, o judaísmo, os cidadãos israelenses e o governo de Israel não são a mesma coisa. Transformar judeus em culpados por sua identidade seria reproduzir a lógica antissemita de culpa étnica. Mas negar a culpa coletiva não elimina a responsabilidade democrática individual.

A lição de Kelley dirige-se também aos cidadãos. O fato de uma pessoa não emitir ordens, lançar bombas ou administrar bloqueios não encerra sua responsabilidade moral. Há momentos em que permanecer neutro diante do que é feito em nome de sua sociedade significa permitir que o sistema continue funcionando. A resistência necessária em Israel deve ser civil, democrática e não violenta: nas ruas, nos sindicatos, nas universidades, na imprensa, nos tribunais, nas eleições e na recusa de participar de condutas incompatíveis com o direito humanitário.

A memória do Holocausto não concede imunidade a um Estado. Seu valor universal está precisamente na recusa de que qualquer população seja expulsa da humanidade. Honrar os seis milhões de judeus assassinados não significa silenciar diante da morte de crianças palestinas. Significa reconhecer nelas o mesmo direito à vida que o mundo jurou proteger depois de Auschwitz.

O desafio ultrapassa Israel e Palestina. O que se decide é se a civilização aceitará uma ordem em que tribunais são obedecidos quando acusam inimigos e sancionados quando investigam aliados; em que a fome pode ser administrada como instrumento militar; em que a energia se converte em arma de mudança de regime; e em que o destino de povos inteiros depende da conveniência de uma potência.

A resposta precisa chegar às instituições políticas. No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais ocorrerá em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições federais parlamentares serão realizadas em 3 de novembro. Esses pleitos não resolverão sozinhos Gaza, o bloqueio contra Cuba ou a crise do direito internacional, mas podem alterar a correlação política que sustenta a hegemonia pela força.

Derrotar eleitoralmente o trumpismo e seus representantes brasileiros não significa hostilidade contra o povo norte-americano nem submissão acriticamente a qualquer governo adversário de Washington. Significa rejeitar uma política que sanciona tribunais, protege aliados procurados, ameaça a soberania econômica de terceiros países e trata a força como fonte última de legitimidade.

Nuremberg será perdido não quando seus documentos forem queimados, mas quando se transformarem em objetos cerimoniais sem eficácia contra os poderosos. Será perdido quando a responsabilidade individual valer para os derrotados e a imunidade política permanecer reservada aos aliados. Será perdido quando a humanidade concluir que determinados povos podem ser destruídos desde que o responsável disponha de proteção militar suficiente.

A profecia de Douglas Kelley permanece diante de nós. Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança.

A história já demonstrou aquilo que pessoas comuns podem fazer sob as circunstâncias de um Estado que organiza a desumanização. Cabe às sociedades de Israel, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo demonstrar aquilo que pessoas comuns também podem impedir quando se recusam a entregar sua consciência ao poder.

O desafio de cumprir a lei contra o clã Bolsonaro

Quantas vezes o ministro Alexandre de Moraes já não ouviu o conselho de fazer vista grossa para os sucessivos atos de desrespeito dos Bolsonaro às medidas restritivas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao chefe do clã? Julgado, condenado e preso em sua residência por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e danos ao patrimônio histórico, ele segue sob a mira da Corte.

Punir tais atos, a essa altura, só beneficiará a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República — é o que Moraes escuta em silêncio e, às vezes, rebate. Em tese, não cabe a ele, nem a nenhum juiz na aplicação de penas, levar em conta a conjuntura política. Se algo, à luz das leis, requer punição, não o fazer beneficiaria diretamente o infrator.


Ao ser autorizado a cumprir em regime domiciliar parte dos seus 27 anos e três meses de prisão, Jair Bolsonaro ficou sujeito a medidas cautelares determinadas pelo tribunal. As principais e mais recentes são:

Uso obrigatório de tornozeleira eletrônica;


Obrigação de permanecer em tempo integral em sua residência oficial em Brasília;
Impedimento absoluto de utilizar qualquer rede social, seja por contas próprias, de terceiros ou por meio de canais de seus filhos;

Proibição de portar ou utilizar aparelhos celulares, diretamente ou por intermédio de assessores, o que resultou na busca e apreensão de aparelhos em seu endereço;

Proibição de receber visitas sem autorização prévia do STF, abrindo exceção apenas para seus advogados constituídos, médicos e moradores da própria residência;

Obrigação de entregar todas as armas registradas em seu nome às autoridades.

Apesar das ordens, Bolsonaro valeu-se de uma solda para livrar-se da tornozeleira eletrônica. Além disso, manifestou-se diversas vezes sobre assuntos políticos nas redes sociais por meio de perfis de terceiros. Ele também guardava em casa uma arma com defeito, que acabou apreendida pela polícia quando foi enviada para reparos. Para completar, um vídeo feito com Inteligência Artificial mostrou o político pedindo votos para Flávio na convenção do Partido Liberal (PL).

Em resposta às transgressões, Moraes suspendeu as visitas a Bolsonaro durante 30 dias e, no caso de Flávio, até o fim das eleições. Ontem, sua decisão foi reafirmada ao ser provocado por um pedido da defesa para que o condenado recebesse a visita dos filhos no Dia dos Pais.

Moraes fez bem ou mal ao agir assim? Flávio se beneficiará politicamente disso? É o que mais importa a 56 dias do primeiro turno das próximas eleições? Ou as leis valem para todos, ou elas simplesmente não deveriam existir.

A palavra aposta

Poucas artimanhas são tão descaradas quanto a palavra “aposta”. Algumas pessoas realmente acreditam que são apostas e nos fazem rir: o mesmo acontece com tantas mulheres, tantos homens. E, além disso, dependem da moda, como quase tudo: a palavra “aposta” de ontem é a palavra cafona de hoje — vamos falar de crisálidas, firmamentos, surrealismo e outras bobagens pretensiosas do gênero. Mas não nos deixemos influenciar pelas palavras e seus truques sujos: hoje não queremos falar da palavra que pensa que é uma aposta; queremos falar da palavra “aposta”.

Suas origens não são particularmente interessantes. Do latim, claro, do verbo apponere, que significa adicionar ou colocar por cima. Em outras palavras: as moedas que um jogador arriscava em uma carta ou um dado . Essa era a aposta, um acordo entre duas ou mais pessoas que se comprometiam a entregar essa quantia a quem vencesse o desafio combinado. Podia ser qualquer um, mas geralmente envolvia dados e cartas ou o resultado de um duelo entre animais: qual cavalo ou cachorro corria mais rápido, qual homem ou mulher corria mais rápido, qual gladiador matava e qual morria.


Assim eram os romanos: um povo rude, portadores do feixe de varas. E assim eram — quase — todos os outros, especialmente depois que os ingleses inventaram os esportes . No início, claro, as pessoas apostavam na vitória deste ou daquele time, mas logo surgiram apostas sobre quem marcaria o primeiro gol, quem marcaria o último, quem chutaria mais canelas nos jogadores adversários, e assim por diante: de repente, apostava-se em tudo, e as possibilidades de trapaça se multiplicaram. Hoje sabemos que muitas dessas partidas insignificantes, esses confrontos quase perdidos, eram arranjados para que algum mafioso pudesse fazer fortuna com apostas combinadas.

Tudo isso é muito bom, um ótimo acervo de filmes incríveis onde o protagonista se vê dividido entre se deixar apanhar para pagar o tratamento da mãe doente — e o Mustang, aliás — ou enfrentar os bandidos como só Hollywood sabe fazer. Sempre muito educativo, uma escola da vida para alunos recorrentes; o problema é que agora você pode apostar em qualquer coisa.

Há apostas para todos os gostos, e há os ídolos dos jovens que os incentivam a apostar o pouco que têm no resultado de uma partida: para se arruinarem, pouco a pouco ou de uma só vez. Mas a novidade está nessas “empresas” americanas que aceitam apostas em tudo e qualquer coisa. “Os Estados Unidos vão atacar o Irã? Taylor Swift vai se casar? Será que fulano de tal vai usar tal palavra em seu discurso amanhã?”, exemplificou o The New York Times há alguns dias . E relatou que a tendência disparou com as apostas na campanha presidencial de 2024, e que somente em dezembro passado, as duas casas de apostas mais ricas , Polymarket e Kalshi , movimentaram cerca de 10 bilhões de euros, quatro vezes mais do que o valor total do prêmio principal da Loteria de Natal espanhola.

Felizmente para eles, Donald Trump Jr. aparece como “consultor” das duas principais empresas. E, para contornar as leis de jogos de azar, essas empresas se autodenominam “mercados de previsão” e adotam estruturas financeiras : você “compra uma ação” que prevê que um avião cairá na China amanhã; se isso acontecer, o preço da ação dispara e alguém a “compra”; caso contrário, ela perde todo o valor. Essas empresas geralmente têm seus servidores em alguma ilha remota e sem regulamentação — o equivalente moderno do paraíso.

Essa tendência é recente, e alguns acreditam que seja a brilhante manobra de um filantropo insano, um americano disposto a gastar seus milhões para oferecer aos espiões e traidores que seu país cria constantemente uma opção inofensiva: que, ao roubarem um importante segredo militar, eles não o vendam por milhões a um inimigo que queira usá-lo para o mal, mas sim ganhem esses milhões em jogos de azar graças ao que aprenderam.

Eles sustentam sua teoria com casos de soldados que, por exemplo, ganharam fortunas apostando na data do ataque democrático ao Irã. Ou com a prisão do sargento Gannon Ken Van Dyke, um veterano de 20 anos, que ganhou US$ 400.000 apostando que Maduro cairia antes de 31 de janeiro. Ou com a prisão do operador de teleprompter de Trump, que apostou no que seu chefe diria em seus discursos.

É um alívio pensar que quem obtiver informações altamente sensíveis não as usará para trair o inimigo do mês, mas sim para embolsar milhões: lealdade sempre ao maior lance. Mas o efeito geral é a “financeirização de tudo”: que cada decisão, cada ação, cada inação, cada aposta se torna a base de um negócio e de uma aposta : eu digo sim, você diz não, quem ganhar leva o dinheiro. E o mundo está se tornando cada vez mais um grande cassino — em italiano, que, afinal, é a nossa língua materna.

sábado, 8 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A fome dos deuses dos mercados engole o país

Enquanto atravesso a fronteira do Brasil para o Paraguai, o guia fala-me dos índios guarani. Orgulhoso da cultura e da língua – que fala fluentemente e que é, a par do espanhol, a língua oficial paraguaia –, explica-me que o respeito dos guaranis pela natureza e a forma como garantiam a abundância ajudou a formar o mito do brasileiro preguiçoso. “Bastava ficar deitado e esticar o braço para apanhar fruta.” Na verdade, os índios percebiam que, sempre que se tirava alguma coisa à Mata Atlântica, era preciso dar outra de volta. São testemunhas disso as árvores de fruto plantadas pelos guaranis, que ainda hoje resistem como pequenos pomares de citrinos no meio do mato. Também era preciso reconhecer os limites da Natureza. Quando num ponto do rio o peixe começava a escassear, era altura de ir assentar o acampamento noutra zona, para que aquela tivesse tempo de se regenerar.

A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no segundo trimestre, exultam os jornais económicos. O seu movimento é um daqueles abalos sísmicos impercetíveis, incapaz de mudar a vida de quem continua a ter um mês maior do que o salário. Mas como a fé é o que nos salva, alegramo-nos.


Precisamos de sábios. E por isso chamamos quem vem de longe e nos acena com a nossa própria ignorância. Que alegria é saber que só não crescemos porque não queremos. Somos pobres por opção, dizem-nos os ricos. E trazem-nos a palavra da salvação: reformas. Ninguém sabe muito bem o que são. Mas sabemos que doem. Se não doerem, não servem para nada. Os deuses impõem-nos o sofrimento. Caminhamos de joelhos em sangue no chão. E isso é que vai salvar-nos. Dizem eles, enquanto distribuem mais uns milhões em dividendos e fazem contas à vida, num iate em Ibiza, engolindo ostras e champanhe. Acreditemos.

Atravesso Portugal pelo interior. O interior é o que chamamos a um sítio rico que fizemos pobre. Porque sentimos que precisávamos de umas traseiras para onde atirar o lixo e onde poderíamos cortar tudo o que havia para cortar. Cortámos hospitais, tribunais e escolas. E chamámos-lhe um deserto. Mas fizemos lindas estradas para que os locais pudessem fugir depressa, enquanto pagam portagens, e pudéssemos dar mais uns milhões em PPP.

O interior resistiu. É triste usar o verbo “resistir”, que soa a meia derrota, mas o ataque é tão grande que só podem ser resistentes os bravos que ficam e percebem a riqueza de um território onde a paisagem se come e bebe e nos enche a alma. Uns nunca de cá tinham saído, outros regressaram e outros ainda vieram, com ideias, força, braços e ânimo para dar à terra e receber dela os seus frutos. Convenceram-se de que os governantes, obcecados com os deuses do PIB e do crescimento e depois de terem cortado tudo o que havia para cortar, os deixariam em paz, gozando da felicidade suprema que se consegue atingir nos sítios onde não reinam o PIB e o crescimento e os mercados. Estavam enganados.

Das estradas, vejo umas crostas brilhantes que ao longe quase parecem lagos refletindo o céu. São painéis solares, senhores. Milhares e milhares de painéis solares, tapando o chão, encandeando-os os olhos, abafando toda a vida, crescendo como um derrame. Comeremos um dia estes painéis? Poderemos usá-los como sombra ou agasalho? Não, mas são uma renda certa para quem abandonou os campos e assim os ocupa com este entulho, que podia muito bem estar no topo de edifícios gerando uma energia limpa, mas ficou antes como latifúndio gerando um negócio sujo.

Ao lado do negrume dos painéis faiscando sob o sol implacável do verão, continuam os eucaliptos sorvendo a água desde que alguém os viu como dinheiro rápido nos anos de 1980 e aí ficaram crescendo e sobrevivendo aos incêndios que nos queimam. Mas também isso não chegava. E por isso aí estão as minas de lítio, prontas a escavar as entranhas do País, avançando montadas em ordens administrativas assinadas em Lisboa, escoltadas pela GNR, contra a vontade dos donos das terras – que a propriedade é sagrada, mas só quando não pertence aos pobres. E é uma nova invasão a que resistem os bravos, os que ficaram, os que voltaram e os que vieram. Os que têm como inimigos os que recebem rendas e dividendos à distância de quilómetros, sem nunca tocar a terra, sem nunca sentir como ela seca, sem nunca ver como ela arde.

Os deuses precisam de data centers. E os seus profetas apresentam esses centros de dados como mais um milagre da criação. Mas são só mais umas bocas esfaimadas de água e energia, que é preciso alimentar. Os novos eucaliptos da era da Inteligência Artificial. Estruturas que não dão quase nada e tiram tudo aos sítios onde se alojam.

As leis estão escritas. Ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) chamam Mapa Verde e, com isso, escondem a ideia negra de que até 7% do território nacional pode ficar coberto de painéis solares. Licenças simplificadas, via verde para avançar sobre a Natureza, destruindo-a. Há quem ache que o progresso é isto. Ou quem finja acreditar nisso por assim ver progredir a sua conta bancária. A fatura vamos pagá-la nós, os de sempre, e os nossos filhos e netos.

Vou mudar o verbo. Não “vamos”. Pode não ser assim. Até os monstros se vencem. Podemos arrancar os olhos a estes ciclopes. Podemos arrancar os falsos deuses dos seus altares. Podemos deixar de nos oferecer em sacrifício. Podemos erguer-nos e destruir os mitos. Podemos.

Preso e condenado, Jair Bolsonaro é solução e problema para a campanha do filho

Centralizador, Jair Bolsonaro anunciou ainda em 2025 que a formação dos principais palanques para a campanha dos candidatos de direita nas eleições deste ano passaria pelo crivo dele. Condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente deu instruções sobre a formação das alianças estaduais, escolheu a dedo candidatos do PL ao Senado e, à revelia de conselheiros e para surpresa geral de ninguém, ungiu o primogênito como nome a defender seu espólio como candidato ao Palácio do Planalto. Até poucas semanas atrás, não havia decisão estratégica na campanha presidencial do filho que não passasse por consultas prévias ao antigo mandatário, mesmo preso em regime domiciliar e proibido de ter contato com quem quer que seja do mundo político, a não ser com sua esposa, Michelle, agora candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro promoveu até algumas correções de rota para aproximar ainda mais sua imagem e seu discurso aos do capitão. A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador.


Parece um paradoxo, mas Jair Bolsonaro também tem sido uma fonte de problemas para a campanha do filho. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar as redes sociais e de transmitir mensagens políticas por meio de terceiros, o ex-presidente escreveu em julho uma “Carta aos Brasileiros” na qual pedia aos aliados que deixassem de lado as diferenças e reforçava que o filho era a melhor opção para disputar a Presidência da República. Depois, na convenção nacional do partido, uma versão do ex-presidente criada por inteligência artificial fez um discurso político saudando a candidatura do filho. Em ambos os casos, o PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado: o candidato do PL começará a corrida ao Planalto investigado por crime eleitoral. A Justiça proíbe na propaganda dos candidatos a utilização de imagens e conteúdos que tenham o objetivo de ludibriar os eleitores ou promover campanha negativa. A versão digital do ex-presidente, em tese, não ludibriou ninguém, já que, desde o início, foi informado tratar-se de uma montagem produzida por inteligência artificial (IA).

O caso acelerou o debate sobre o uso da IA nas campanhas políticas. O PT teme que o ex-­presidente assuma à distância o papel de principal cabo eleitoral do filho. O partido mantém uma equipe jurídica de prontidão para ingressar, se necessário, com representações na Justiça para impedir a campanha adversária de veicular novas mensagens do capitão em sua versão digital. Sabe-se que uma expressiva parcela do eleitorado de direita vota em qualquer candidato indicado pelo ex-presidente, e sua “aparição” pode influir decisivamente nas disputas locais. A campanha do PL, por sua vez, não esperava que a peça publicitária tivesse repercussão tão grande. Os marqueteiros do senador afirmam que queriam apenas deixar claro que Flávio é o herdeiro da direita e o escolhido pelo pai para manter vivo seu projeto político.

A equipe jurídica do PL deu seu aval à ideia por entender que as regras valiam apenas para o período em que a campanha fosse oficialmente iniciada, no próximo dia 16. Para evitar problemas futuros, o Bolsonaro virtual ficará arquivado até que fique claro o que é e o que não é permitido nesse território. Discursos que exploraram menções ao ex-presidente motivaram o ministro do STF, Alexandre de Moraes, a encaminhar ao Ministério Público pedido para que os casos fossem investigados como possível campanha eleitoral antecipada. Responsável por acompanhar o cumprimento de pena do antigo mandatário pela condenação na trama golpista, o magistrado ainda cobrou que o político explicasse se havia ou não autorizado o uso de sua imagem em IA. Em caso de uma resposta positiva, o capitão reformado poderia perder o direito à prisão domiciliar e voltar para a cadeia.

O TSE pretende realizar uma reunião a portas fechadas, na quarta-feira 12, para decidir eventuais punições à campanha de Flávio pelo uso de IA. Uma resolução do tribunal proíbe qualquer tipo de mensagem de deep­fake, mesmo as autorizadas pela pessoa cuja voz ou imagem foi fabricada artificialmente, mas a vedação só é válida para a propaganda eleitoral, que ainda não começou. Os ministros devem debater também se serão permitidos avatares, hologramas e discursos feitos em IA nas campanhas de 2026 e levar o tema à votação no dia 17. O diagnóstico é de todo desafiador. O Observatório IA nas Eleições, mantido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, identificou 357 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026. Prevalecem publicações com ataques (67%), em comparação a endossos a candidatos (32%). Entre os políticos, Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias despontam como os principais adeptos da ferramenta, segundo o levantamento feito a pedido de VEJA. A maior parte das mensagens, no entanto, foi produzida por usuários anônimos. “O potencial desinformativo é muito maior”, alerta o pesquisador Matheus Soares, um dos coordenadores do Observatório IA nas Eleições.

Responsabilizar uma campanha por postagens publicadas por terceiros ou perfis apócrifos será outro desafio da eleição. Para se chegar aos responsáveis, é necessário iniciar uma investigação judicial e demonstrar que houve coordenação, financiamento ou algum outro vínculo entre os autores e a candidatura beneficiada. Quem for acusado de fabricar deepfakes indevidamente, terá de provar o contrário — uma inversão do ônus da prova promovida pela Justiça Eleitoral por considerar que quem publica o material tem melhores condições de apresentar o arquivo original. Na prática, tais inquéritos têm se revelado pouco eficazes. Por isso, diante de dúvida relevante sobre a autenticidade de um conteúdo potencialmente danoso, a tendência, segundo advogados especializados ouvidos por VEJA, deve ser a simples remoção das publicações. Posicionados entre o avatar e o eleitor, os togados terão de definir o limite entre a criatividade e a fraude.

Em meio à polêmica do uso da IA, com o empuxo do pai, mas ainda sim rejeitado por 54% dos eleitores, segundo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, Flávio chega ao início da corrida presidencial com vinte palanques estaduais montados, depois de trombadas na formação de parcerias políticas como a do Ceará, que provocou uma briga pública entre ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Chega também sem alianças formais com partidos do Centrão e sem ter conseguido viabilizar uma mulher como candidata a vice, solução que buscava para conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A solenidade que oficializou, na quarta-feira 5, o nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-­AL) como candidato a vice revela algumas dificuldades da campanha bolsonarista. Apesar do simbolismo que marca cerimônias dessa natureza, nenhum dos irmãos Bolsonaro, nenhum cacique estadual do partido e nenhum dos mais importantes apoiadores do candidato do PL, como o governador Tarcísio de Freitas, foi a Brasília para o anúncio.

A despeito das polêmicas e do isolamento político, Flávio é o candidato da direita mais bem posicionado nas pesquisas. Segundo levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira 5, o senador diminuiu de 8 para 5 pontos percentuais a vantagem do presidente Lula em um confronto direto e voltou a centralizar a preferência do eleitor antipetista. Em um eventual segundo turno, o senador teria 81% das intenções de voto da direita não bolsonarista e 95% dos votos daqueles que se declaram bolsonaristas. Manter esses índices inabaláveis é fundamental para as pretensões do senador. Assim como ocorreu no anúncio do nome de Gaspar para vice, em que mais uma vez Jair Bolsonaro foi descrito como um preso “em cativeiro”, não há fala política em que Flávio não mencione o pai ex-presidente. Na convenção que o oficializou como principal nome da direita na corrida pelo Palácio do Planalto, por exemplo, ele se referia a si mesmo como “o filho mais velho do capitão” e disse saber “o tamanho da responsabilidade que o meu nome carrega”. Faltando dois meses para o primeiro turno das eleições, Flávio trocou a equipe de comunicação, isolou alguns coordenadores, promoveu outros e passou a emular em atos públicos uma versão dele mais parecida com o ex-presidente. Atacou as urnas eletrônicas, incorporou críticas ao Supremo como matéria-prima de seus discursos e passou a fazer lives periódicas — virou um avatar do próprio pai.

Tensão nos casos Master e INSS

A tensão entre o relator dos processos do INSS e do Caso Master, ministro André Mendonça, e a Polícia Federal é maior do que a que houve entre a PF e o ministro Dias Toffoli. O ministro Mendonça está exigindo despachar diretamente com os delegados e agentes, sem passar pela direção da Polícia e, pior, requereu todo o material bruto e indexado. E esse indexado não é um detalhe. É o que permite fazer busca específica. Basta colocar um nome que será possível encontrar todas as citações àquela pessoa. É possível direcionar a investigação.

A Polícia Federal levou o caso à Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.


O temor entre autoridades em Brasília é que tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não é o caso agora.

O juiz tem que ser equidistante, tem que ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados, que distanciamento terá para julgar?

A Polícia Federal fica na estranha situação de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é desta forma que se garante a isenção.

Esse acúmulo de papéis produz distorções como a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio. O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem, mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.

O que se ouve entre investigadores é que até agora ficou provado que a Polícia Federal não escolhe politicamente seus alvos, tanto que as investigações atingem o filho do presidente, o líder do governo no Senado, e agora o vice-líder do Senado. Portanto, a desconfiança sobre a PF não se justifica.

Os próximos dois meses serão intensos, há operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das funções da Polícia Federal.

Os casos Master e INSS são graves demais, se espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas. A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.

O cérebro autoritário

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.


O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.

O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária". Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.

Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.

Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.

Nem dormindo a gente descansa

Foi meu relógio que primeiro me acusou. Numa manhã dessas, o smartwatch me informou, com a frieza de um perito criminal, que eu havia dormido “abaixo do ideal” pela quinta noite seguida. Sono profundo insuficiente. Sono REM fragmentado. Nota 61 de 100, seguida de uma sugestão gentil: que tal se deitar mais cedo hoje? Não basta mais dormir mal. Agora sou todas as manhãs reprovado pela traquitana, com argumentos, gráficos coloridos, métricas e boletins diários. Não estou sozinho nessa. Nem na insônia, muito menos na vigilância.


Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.

As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.

Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.

Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.

Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.

É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.

Solidão eleitoral

Flávio Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.

É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.

Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.


Um grupo de anônimos se reuniu no dia seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther Solano e Beto Vasques.

— Não conheço nenhum projeto nem ideia do Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.

— Atrapalha muito que ele só tenha o passado do pai dele… — atalhou outro.

— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula, né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa com o pai do Flávio.

Os pesquisadores deixaram suas impressões na “ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua desejada, mas (ele) não conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso, fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas, para vencer, (a candidatura) terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.

Ele continua sendo o candidato da oposição mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5. Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.

O principal oposicionista, no entanto, agora está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de golpe de Estado.

Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública, coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.

Experimentou a solidão eleitoral no confuso e frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem (cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.

Deu tudo errado, e acabou abraçado ao deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna gratidão de Lira.

Até agora, ele fracassou naquilo que parecia essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).

O isolamento do “candidato do pai” na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.

A tirania da mediocridade: quando nivelar por baixo adoece

A palavra mediocridade vem do latim mediocritas, medius, “meio”, e ocris, “elevação” ou “monte”: a imagem de quem está no meio da subida. Originalmente, designava uma posição entre dois extremos e podia indicar moderação, condição comum ou ausência de excessos, sem sentido depreciativo. Não há indignidade em estar no meio do caminho: ninguém é excepcional em todos os domínios.

A mediocridade se torna problema quando a metade do caminho se declara cume e transforma a própria insuficiência em medida para os demais. Vira tirania quando grupos, instituições ou culturas premiam a superficialidade, punem a complexidade e obrigam quem sabe mais, pergunta melhor ou trabalha com rigor a se reduzir para pertencer.

Na Grécia antiga, idiṓtēs, de ídios – “próprio, particular” –, designava o indivíduo privado, o leigo ou quem não dominava uma função na vida pública. Com o tempo, passou a indicar inexperiência, ignorância e falta de discernimento. A mesma raiz aparece em idiossincrasia, aquilo que é próprio de cada pessoa, e idiopatia, doença de causa desconhecida.

O problema não é não saber, mas negar os próprios limites e transformar a própria insuficiência em autoridade. Quando essa característica individual é normalizada, premiada e ampliada, surge uma espécie de “idiopatia social”: a mediocridade deixa de se reconhecer e passa a governar. A ignorância é humana; a tirania da mediocridade, uma forma de poder.

O problema não é todos terem voz – isso sustenta a democracia. Surge quando opinião vira evidência, repetição vira verdade, popularidade vira competência e lealdade vira obediência. O erro ganha proteção, deixa de ser corrigido e quem o aponta passa a ser visto como ameaça.

 “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Nas organizações, esse mecanismo começa discretamente: um profissional aponta um risco, uma decisão mal fundamentada ou uma injustiça. É ignorado; se insiste, vira “difícil”, “arrogante” ou “pouco colaborativo” e aprende que alertar custa mais que calar. Pesquisas sobre silêncio organizacional sugerem que voz e silêncio dependem menos de canais formais do que da cultura, do poder e da resposta a quem fala. Quando a organização pede opiniões, mas pune quem contraria a liderança, não escuta – encena participação.


Esse custo não fica só no ambiente de trabalho, mas se inscreve no corpo de quem cala. O sofrimento moral ocorre quando barreiras hierárquicas, institucionais ou sistêmicas impedem a conduta considerada correta. Associa-se a estresse, exaustão, desmoralização e perda de profissionais qualificados. Estudo recente da Universidade da Califórnia mostra que estressores ocupacionais persistentes atuam por várias vias, gerando desgaste biológico, psíquico e com efeitos estruturais nas organizações.

Bruce McEwen chamou de carga alostática o desgaste acumulado pela ativação repetida dos sistemas de adaptação ao estresse. Protetora no curto prazo, essa resposta, quando contínua, pode comprometer a regulação cardiovascular, metabólica, neural e imunológica. Humilhação, imprevisibilidade, impotência e vigilância defensiva mantêm esses sistemas ativados. A tirania da mediocridade adoece ao obrigar pessoas competentes a perceber e fingir que não perceberam.

Quando falar não muda nada, pode surgir o desamparo aprendido: experiências repetidas de falta de controle reduzem a iniciativa e a expectativa de que agir produza efeitos. Nas empresas, isso aparece como desistência silenciosa, conformidade defensiva e perda da curiosidade. A pessoa permanece, mas entrega apenas o mínimo para evitar punição. A organização acredita ter alcançado harmonia quando, na verdade, perdeu inteligência.

A imunologia ajuda a compreender esse processo, sem equivalência literal. Um sistema imune saudável não ataca nem tolera tudo: reconhece infecção, dano e perigo e regula alvo, intensidade e duração da resposta. Na alergia, reage em excesso a estímulos geralmente inofensivos; na anergia ou exaustão, células deixam de responder adequadamente – como no câncer, que pode escapar da vigilância e induzir tolerância imunológica; na inflamação crônica, a resposta persistente lesa o organismo; e, na hiperinflamação, como na tempestade de citocinas da Covid-19 grave, pode destruir tecidos e órgãos sem controlar o perigo.

Organizações podem desenvolver alergia à diferença, anergia diante da incompetência e inflamação crônica por conflitos persistentes e não resolvidos; também podem tolerar práticas que corroem o coletivo ou reagir de forma tão excessiva que destroem pessoas, vínculos e competências que deveriam preservar. Como alerta o paradoxo da tolerância, de Karl Popper, sociedades e organizações se desorganizam quando não distinguem a diversidade que as fortalece das condutas que destroem suas regras: limites saudáveis não reprimem a diferença, mas protegem as condições que a tornam possível.

A saída não é trocar a tirania da maioria pela dos especialistas. Conhecimento sem revisão vira autoridade fechada; excelência sem responsabilidade, arrogância. O antídoto são critérios públicos, contestáveis, auditáveis e verificáveis, diante dos quais hierarquia, fama ou número de seguidores não dispensem ninguém de apresentar razões. Isso exige segurança psicológica para perguntar, discordar, admitir erros e comunicar riscos sem humilhação ou retaliação, além de lideranças capazes de distinguir dissensão de deslealdade e diversidade de desordem. Ambientes saudáveis não eliminam o conflito: metabolizam-no.

Quem são, então, “os melhores”? Não são uma casta, um diploma ou uma elite autoproclamada, mas aqueles que, em cada situação, reúnem mais conhecimento, experiência ou lucidez e continuam dispostos a rever o que sabem. O antigo idiṓtēs não era culpado por ser leigo. A mediocridade começa quando alguém nega seus limites, esconde a insuficiência atrás do poder e obriga os demais a se acomodarem a ela. Assim, uma idiossincrasia individual, normalizada e ampliada, torna-se coletiva e, ao adoecer o conjunto, uma idiopatia social, o que Nelson Rodrigues, em O Óbvio Ululante, já condensara: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”

Em tempos de intolerância e polarização, reconhecer o que não sabemos é condição de lucidez. Usamos nossos limites para aprender ou para julgar? O que nos convence: impressões ou razões?
Rubens Harb Bollos

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A implosão da mentira

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Affonso Romano de Sant’Anna, "A implosão da mentira e outros poemas"