sábado, 8 de agosto de 2026

Tensão nos casos Master e INSS

A tensão entre o relator dos processos do INSS e do Caso Master, ministro André Mendonça, e a Polícia Federal é maior do que a que houve entre a PF e o ministro Dias Toffoli. O ministro Mendonça está exigindo despachar diretamente com os delegados e agentes, sem passar pela direção da Polícia e, pior, requereu todo o material bruto e indexado. E esse indexado não é um detalhe. É o que permite fazer busca específica. Basta colocar um nome que será possível encontrar todas as citações àquela pessoa. É possível direcionar a investigação.

A Polícia Federal levou o caso à Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.


O temor entre autoridades em Brasília é que tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não é o caso agora.

O juiz tem que ser equidistante, tem que ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados, que distanciamento terá para julgar?

A Polícia Federal fica na estranha situação de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é desta forma que se garante a isenção.

Esse acúmulo de papéis produz distorções como a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio. O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem, mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.

O que se ouve entre investigadores é que até agora ficou provado que a Polícia Federal não escolhe politicamente seus alvos, tanto que as investigações atingem o filho do presidente, o líder do governo no Senado, e agora o vice-líder do Senado. Portanto, a desconfiança sobre a PF não se justifica.

Os próximos dois meses serão intensos, há operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das funções da Polícia Federal.

Os casos Master e INSS são graves demais, se espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas. A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.

O cérebro autoritário

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.


O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.

O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária". Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.

Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.

Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.

Nem dormindo a gente descansa

Foi meu relógio que primeiro me acusou. Numa manhã dessas, o smartwatch me informou, com a frieza de um perito criminal, que eu havia dormido “abaixo do ideal” pela quinta noite seguida. Sono profundo insuficiente. Sono REM fragmentado. Nota 61 de 100, seguida de uma sugestão gentil: que tal se deitar mais cedo hoje? Não basta mais dormir mal. Agora sou todas as manhãs reprovado pela traquitana, com argumentos, gráficos coloridos, métricas e boletins diários. Não estou sozinho nessa. Nem na insônia, muito menos na vigilância.


Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.

As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.

Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.

Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.

Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.

É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.

Solidão eleitoral

Flávio Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.

É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.

Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.


Um grupo de anônimos se reuniu no dia seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther Solano e Beto Vasques.

— Não conheço nenhum projeto nem ideia do Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.

— Atrapalha muito que ele só tenha o passado do pai dele… — atalhou outro.

— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula, né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa com o pai do Flávio.

Os pesquisadores deixaram suas impressões na “ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua desejada, mas (ele) não conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso, fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas, para vencer, (a candidatura) terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.

Ele continua sendo o candidato da oposição mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5. Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.

O principal oposicionista, no entanto, agora está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de golpe de Estado.

Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública, coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.

Experimentou a solidão eleitoral no confuso e frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem (cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.

Deu tudo errado, e acabou abraçado ao deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna gratidão de Lira.

Até agora, ele fracassou naquilo que parecia essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).

O isolamento do “candidato do pai” na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.

A tirania da mediocridade: quando nivelar por baixo adoece

A palavra mediocridade vem do latim mediocritas, medius, “meio”, e ocris, “elevação” ou “monte”: a imagem de quem está no meio da subida. Originalmente, designava uma posição entre dois extremos e podia indicar moderação, condição comum ou ausência de excessos, sem sentido depreciativo. Não há indignidade em estar no meio do caminho: ninguém é excepcional em todos os domínios.

A mediocridade se torna problema quando a metade do caminho se declara cume e transforma a própria insuficiência em medida para os demais. Vira tirania quando grupos, instituições ou culturas premiam a superficialidade, punem a complexidade e obrigam quem sabe mais, pergunta melhor ou trabalha com rigor a se reduzir para pertencer.

Na Grécia antiga, idiṓtēs, de ídios – “próprio, particular” –, designava o indivíduo privado, o leigo ou quem não dominava uma função na vida pública. Com o tempo, passou a indicar inexperiência, ignorância e falta de discernimento. A mesma raiz aparece em idiossincrasia, aquilo que é próprio de cada pessoa, e idiopatia, doença de causa desconhecida.

O problema não é não saber, mas negar os próprios limites e transformar a própria insuficiência em autoridade. Quando essa característica individual é normalizada, premiada e ampliada, surge uma espécie de “idiopatia social”: a mediocridade deixa de se reconhecer e passa a governar. A ignorância é humana; a tirania da mediocridade, uma forma de poder.

O problema não é todos terem voz – isso sustenta a democracia. Surge quando opinião vira evidência, repetição vira verdade, popularidade vira competência e lealdade vira obediência. O erro ganha proteção, deixa de ser corrigido e quem o aponta passa a ser visto como ameaça.

 “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Nas organizações, esse mecanismo começa discretamente: um profissional aponta um risco, uma decisão mal fundamentada ou uma injustiça. É ignorado; se insiste, vira “difícil”, “arrogante” ou “pouco colaborativo” e aprende que alertar custa mais que calar. Pesquisas sobre silêncio organizacional sugerem que voz e silêncio dependem menos de canais formais do que da cultura, do poder e da resposta a quem fala. Quando a organização pede opiniões, mas pune quem contraria a liderança, não escuta – encena participação.


Esse custo não fica só no ambiente de trabalho, mas se inscreve no corpo de quem cala. O sofrimento moral ocorre quando barreiras hierárquicas, institucionais ou sistêmicas impedem a conduta considerada correta. Associa-se a estresse, exaustão, desmoralização e perda de profissionais qualificados. Estudo recente da Universidade da Califórnia mostra que estressores ocupacionais persistentes atuam por várias vias, gerando desgaste biológico, psíquico e com efeitos estruturais nas organizações.

Bruce McEwen chamou de carga alostática o desgaste acumulado pela ativação repetida dos sistemas de adaptação ao estresse. Protetora no curto prazo, essa resposta, quando contínua, pode comprometer a regulação cardiovascular, metabólica, neural e imunológica. Humilhação, imprevisibilidade, impotência e vigilância defensiva mantêm esses sistemas ativados. A tirania da mediocridade adoece ao obrigar pessoas competentes a perceber e fingir que não perceberam.

Quando falar não muda nada, pode surgir o desamparo aprendido: experiências repetidas de falta de controle reduzem a iniciativa e a expectativa de que agir produza efeitos. Nas empresas, isso aparece como desistência silenciosa, conformidade defensiva e perda da curiosidade. A pessoa permanece, mas entrega apenas o mínimo para evitar punição. A organização acredita ter alcançado harmonia quando, na verdade, perdeu inteligência.

A imunologia ajuda a compreender esse processo, sem equivalência literal. Um sistema imune saudável não ataca nem tolera tudo: reconhece infecção, dano e perigo e regula alvo, intensidade e duração da resposta. Na alergia, reage em excesso a estímulos geralmente inofensivos; na anergia ou exaustão, células deixam de responder adequadamente – como no câncer, que pode escapar da vigilância e induzir tolerância imunológica; na inflamação crônica, a resposta persistente lesa o organismo; e, na hiperinflamação, como na tempestade de citocinas da Covid-19 grave, pode destruir tecidos e órgãos sem controlar o perigo.

Organizações podem desenvolver alergia à diferença, anergia diante da incompetência e inflamação crônica por conflitos persistentes e não resolvidos; também podem tolerar práticas que corroem o coletivo ou reagir de forma tão excessiva que destroem pessoas, vínculos e competências que deveriam preservar. Como alerta o paradoxo da tolerância, de Karl Popper, sociedades e organizações se desorganizam quando não distinguem a diversidade que as fortalece das condutas que destroem suas regras: limites saudáveis não reprimem a diferença, mas protegem as condições que a tornam possível.

A saída não é trocar a tirania da maioria pela dos especialistas. Conhecimento sem revisão vira autoridade fechada; excelência sem responsabilidade, arrogância. O antídoto são critérios públicos, contestáveis, auditáveis e verificáveis, diante dos quais hierarquia, fama ou número de seguidores não dispensem ninguém de apresentar razões. Isso exige segurança psicológica para perguntar, discordar, admitir erros e comunicar riscos sem humilhação ou retaliação, além de lideranças capazes de distinguir dissensão de deslealdade e diversidade de desordem. Ambientes saudáveis não eliminam o conflito: metabolizam-no.

Quem são, então, “os melhores”? Não são uma casta, um diploma ou uma elite autoproclamada, mas aqueles que, em cada situação, reúnem mais conhecimento, experiência ou lucidez e continuam dispostos a rever o que sabem. O antigo idiṓtēs não era culpado por ser leigo. A mediocridade começa quando alguém nega seus limites, esconde a insuficiência atrás do poder e obriga os demais a se acomodarem a ela. Assim, uma idiossincrasia individual, normalizada e ampliada, torna-se coletiva e, ao adoecer o conjunto, uma idiopatia social, o que Nelson Rodrigues, em O Óbvio Ululante, já condensara: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”

Em tempos de intolerância e polarização, reconhecer o que não sabemos é condição de lucidez. Usamos nossos limites para aprender ou para julgar? O que nos convence: impressões ou razões?
Rubens Harb Bollos

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A implosão da mentira

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Affonso Romano de Sant’Anna, "A implosão da mentira e outros poemas"

Quando as nações deixam de aprender

“A maior necessidade de um Estado é a de governar-se segundo a razão, e não segundo a opinião.”
Baruch Spinoza

Quando uma guerra termina, é relativamente fácil identificar os danos sofridos por um país. Pontes destruídas, cidades reduzidas a escombros, usinas bombardeadas, ferrovias interrompidas e fábricas transformadas em ruínas tornam-se imagens emblemáticas da devastação. A reconstrução costuma começar exatamente por esses símbolos mais visíveis: reerguem-se edifícios, restauram-se estradas, substituem-se máquinas, recompõem-se linhas de transmissão de energia. Aos poucos, a paisagem volta a transmitir a impressão de normalidade.

Existe, porém, uma forma de destruição mais silenciosa – e talvez mais profunda. Ela não aparece em fotografias aéreas, não pode ser detectada por satélites e não deixa colunas de fumaça, crateras ou edifícios em ruínas. Seus efeitos só se tornam visíveis muitos anos depois, quando uma sociedade percebe que já não consegue compreender a realidade, corrigir os próprios erros nem responder aos desafios de seu tempo. Trata-se da destruição de seus ecossistemas de aprendizagem.


Universidades, laboratórios nacionais, escolas de engenharia, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de fomento, empresas inovadoras e comunidades de pesquisadores constituem uma infraestrutura tão estratégica quanto os portos, as hidrelétricas ou as redes de transporte. É nesse ambiente que as informações se transformam em conhecimento; este converte-se em tecnologia, e tecnologia passa a sustentar prosperidade, segurança e soberania.

Uma fábrica produz muito mais do que bens. Ela articula engenheiros, fornecedores, técnicos especializados, universidades, laboratórios e competências produtivas acumuladas ao longo de décadas. Quando uma fábrica fecha, não desaparece apenas uma linha de produção. Desfaz-se um ecossistema inteiro de conhecimento tácito, relações de confiança e capacidades tecnológicas cuja reconstrução exige muito mais do que investimentos financeiros: exige tempo, continuidade e novas gerações de profissionais. O mesmo ocorre com as instituições científicas.

Um laboratório não produz apenas artigos. Uma universidade não produz apenas diplomas. Uma agência de pesquisa não distribui apenas recursos. Todas elas integram uma complexa rede de organizações cuja função mais importante talvez seja a mais difícil de perceber: permitir que uma sociedade aprenda continuamente com a realidade, revise suas convicções à luz das evidências e transforme esse aprendizado em desenvolvimento nacional.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas institucionais da civilização: aprender continuamente com a realidade e corrigir os próprios erros.

E é justamente essa capacidade que o obscurantismo ameaça.

Existe uma pergunta simples capaz de iluminar alguns dos episódios mais dramáticos da história moderna.

O que acontece quando governos deixam de perguntar “o que a realidade nos ensina?” e passam a perguntar apenas “o que confirma aquilo em que já acreditamos?”

À primeira vista, a resposta parece evidente. A experiência histórica, entretanto, revela algo muito mais inquietante.

O obscurantismo raramente chega ao poder prometendo ignorância. Ao contrário, costuma apresentar-se como uma alternativa prática à lentidão da ciência, oferecendo respostas rápidas para os problemas reais e complexos. É justamente essa promessa de simplicidade que lhe confere enorme força política.

Na Alemanha nazista, a pseudociência racial buscava legitimar o projeto de supremacia ariana sob a aparência de rigor científico. Por influência de Heinrich Himmler, instituições como a Ahnenerbe mobilizaram arqueólogos, antropólogos e até ocultistas em expedições e estudos destinados a “comprovar” uma ancestralidade ariana superior. O objetivo não era produzir conhecimento, mas conferir autoridade científica a uma ideologia previamente definida. Sempre que a ideologia passa a determinar quais respostas são aceitáveis, a ciência deixa de corrigir os erros da sociedade e passa a servi-los.

Na União Soviética, o contexto era dramaticamente diferente. A Revolução de 1917 dera origem a um regime ainda jovem, que enfrentara guerra civil, intervenções militares estrangeiras, isolamento internacional e a profunda desorganização da produção agrícola. As políticas de coletivização agravaram ainda mais a instabilidade no campo, e as sucessivas quebras de safra transformaram a segurança alimentar em uma questão de sobrevivência política.

Os geneticistas ofereciam um caminho cientificamente sólido, mas inevitavelmente lento. O melhoramento genético exige sucessivas gerações de plantas, experimentação rigorosa e acumulação gradual de conhecimento. A natureza simplesmente não obedece ao calendário dos governos. O agrônomo Trofim Lysenko, ao contrário, prometia aumentar rapidamente a produtividade agrícola sem esperar pelo longo trabalho da pesquisa genética. Enquanto os cientistas pediam tempo para compreender a hereditariedade, Lysenko oferecia exatamente aquilo que dirigentes pressionados pela urgência desejavam ouvir: uma solução imediata.

No Haiti, após chegar ao poder em 1957, em um país marcado por extrema pobreza, uma baixa escolarização e instituições frágeis, François “Papa Doc” Duvalier compreendeu que o medo poderia ser um instrumento de governo tão eficaz quanto a violência. Em vez de depender apenas da repressão exercida pelos Tontons Macoutes, seu temido grupo paramilitar, apropriou-se deliberadamente do imaginário religioso popular, explorando símbolos associados ao vodu e cultivando a imagem de um líder dotado de poderes sobrenaturais. O objetivo não era promover uma religião, mas dificultar a distinção entre autoridade política, superstição e obediência, tornando a resistência psicológica tão difícil quanto a resistência física.

Os contextos históricos eram profundamente diferentes. As ideologias também.

O mecanismo, porém, era notavelmente semelhante.

Em todos esses casos, instituições destinadas a produzir conhecimento foram gradualmente substituídas por organismos dedicados a confirmar crenças. A evidência deixou de orientar o poder; passou a ser selecionada por ele. E, quando uma sociedade perde a capacidade de corrigir seus próprios erros, inicia-se um processo de deterioração que dificilmente se limita à ciência. Mais cedo ou mais tarde, ele alcança a economia, a tecnologia, a educação, a capacidade militar e, em última análise, a própria soberania nacional.
Quando uma civilização decide voltar a aprender

Se a história terminasse com Lysenko, Himmler ou Papa Doc, o quadro seria profundamente desalentador. Restaria concluir que sociedades que destroem seus ecossistemas de aprendizagem estão condenadas a um lento e inevitável declínio. A experiência histórica, entretanto, oferece uma resposta muito mais interessante. Ela mostra que essas capacidades podem ser reconstruídas. Não rapidamente. Não sem enormes custos humanos, econômicos e institucionais. Mas podem.

A história recente da China oferece um dos exemplos mais impressionantes desse processo de reconstrução.

Durante boa parte do século XIX, uma civilização que, por séculos, estivera entre as mais sofisticadas do mundo descobriu, da forma mais dolorosa possível, que havia perdido a liderança tecnológica. A derrota nas Guerras do Ópio representou muito mais do que um mero revés militar. Pela primeira vez, uma potência asiática milenar era obrigada a reconhecer que ciência, engenharia e indústria haviam se tornado os verdadeiros fundamentos do poder internacional. A humilhação não decorria apenas da derrota; decorria da constatação de que um império inteiro podia ser submetido por nações que haviam aprendido a transformar conhecimento em capacidade militar, econômica e tecnológica.

Nascia ali aquilo que os chineses passaram a chamar de “século de humilhação”. A expressão não designa apenas a perda de territórios ou imposição de tratados desiguais. Ela traduz uma memória histórica muito mais profunda: a percepção de que a dependência tecnológica representa uma vulnerabilidade nacional. Essa ideia atravessou gerações, sobreviveu à queda do Império, às guerras civis, à invasão japonesa e à própria fundação da República Popular. Tornou-se parte da maneira como a China passou a interpretar sua posição no mundo.

Porém, paradoxalmente, a própria Revolução Cultural produziu um segundo trauma. Ao fechar universidades, perseguir professores, interromper pesquisas científicas e enviar intelectuais para programas de “reeducação”, a China passou a destruir internamente exatamente aquilo que pretendia recuperar diante do mundo: sua capacidade de aprender. Poucas experiências históricas mostram de modo tão dramático até que ponto uma sociedade pode se voltar contra o próprio patrimônio intelectual.

A inflexão iniciada em 1978 foi, por isso, muito mais profunda do que uma simples abertura econômica. Ela representou uma mudança na própria compreensão do desenvolvimento. A prioridade deixou de ser a pureza ideológica das teorias e passou a ser a aptidão de resolver problemas concretos. Em vez de perguntar quais ideias eram politicamente mais corretas, o Estado passou a perguntar quais permitiam aumentar a produtividade, acelerar a inovação e ampliar a capacidade tecnológica do país.

Essa mudança de perspectiva reorganizou todo o ecossistema nacional de aprendizagem. Universidades foram reconstruídas, institutos de pesquisa voltaram a funcionar, laboratórios receberam investimentos maciços, milhares de estudantes foram enviados às melhores instituições do exterior e empresas passaram a incorporar, de forma crescente, o conhecimento produzido nas universidades. Tratava-se de reconstruir a capacidade de uma sociedade inteira de produzir, transmitir e renovar conhecimento.

Reconstruir universidades significava, portanto, muito mais do que restaurar campi destruídos. Significava ampliar extraordinariamente o acesso ao ensino superior, formar uma nova geração de pesquisadores, conectar ciência e indústria e transformar o conhecimento em patrimônio nacional compartilhado. A verdadeira reconstrução não ocorreu apenas nos laboratórios; ocorreu sobretudo na ampliação da base humana capaz de fazê-los funcionar.

Costuma-se atribuir o extraordinário desenvolvimento da Alemanha, do Japão, da Coreia do Sul e da China a fatores culturais, como a suposta valorização tradicional da educação. Embora essa interpretação contenha parte da verdade, dificilmente ela explica o conjunto da história.

Os quatro países passaram por algumas das maiores catástrofes do século XX. A Alemanha terminou a Segunda Guerra Mundial com cidades destruídas, infraestrutura em ruínas e boa parte de sua comunidade científica dispersa. O Japão sofreu duas bombas atômicas, devastação industrial sem precedentes e anos de ocupação estrangeira. A Coreia saiu da guerra dos anos 1950 como um dos países mais pobres do planeta. A China enfrentou décadas de guerra civil, invasão estrangeira e uma Revolução Cultural que praticamente desarticulou suas universidades.

Nenhum deles dispunha de abundância excepcional de recursos naturais. Nenhum encontrou atalhos tecnológicos. Nenhum escapou ao elevado custo da reconstrução.

O que reconstruíram, acima de tudo, foram instituições capazes de aprender.

Talvez essa seja a verdadeira riqueza das nações. Não apenas universidades, empresas ou laboratórios, mas também a capacidade de formar, geração após geração, engenheiros, pesquisadores, empresários, professores e gestores públicos capazes de aprender com a realidade e transformar esse aprendizado em inovação, produtividade e desenvolvimento. É essa capacidade – muito mais do que qualquer descoberta isolada, recurso natural ou vantagem geográfica – que ajuda a explicar por que algumas sociedades conseguem recuperar-se de derrotas aparentemente irreversíveis, enquanto outras permanecem aprisionadas, por décadas, nas consequências de seus próprios equívocos.

Naturalmente, essas relações não são mecânicas nem inevitáveis. Ecossistemas de aprendizagem podem preservar capacidades importantes mesmo sob ambientes políticos adversos, assim como países dotados de organizações científicas sólidas nem sempre conseguem convertê-las plenamente em desenvolvimento econômico. Ainda assim, a experiência histórica sugere que, no longo prazo, o aprendizado contínuo constitui uma condição necessária, embora não suficiente, para a prosperidade e a soberania das nações.

Os efeitos mais profundos do obscurantismo raramente recaem sobre os cientistas que ele persegue.

Recaem sobretudo sobre aqueles que ainda nem chegaram às universidades.

Existe uma característica das instituições de conhecimento que costuma não receber a devida atenção. Elas não produzem apenas descobertas; produzem sucessores. Cada professor forma novos professores. Cada pesquisador forma novos pesquisadores. Cada engenheiro experiente transmite aos mais jovens conhecimentos que dificilmente aparecem em livros: métodos experimentais, critérios de julgamento, maneiras de formular perguntas, hábitos intelectuais e, talvez acima de tudo, a disposição para abandonar convicções quando elas deixam de resistir às evidências.

Essa transmissão constitui um patrimônio essencialmente cultural. Ela ocorre lentamente, de geração em geração, e, exatamente, por isso representa uma das formas mais valiosas de riqueza acumulada por uma sociedade.

Raramente as sociedades ensinam o mundo tal como ele é no presente. Com frequência, ensinam o mundo tal como foi compreendido pela geração que ocupa as salas de aula, as redações, os governos e as instituições. Cada geração transmite à seguinte algo que vai além de informações: transmite mapas mentais, critérios sobre o que considera plausível, confiável, ameaçador ou verdadeiro. Por isso, mudanças profundas na maneira de pensar raramente acompanham o ritmo dos ciclos eleitorais. Elas se propagam lentamente, como uma herança cognitiva.

É justamente nesse ponto que o obscurantismo revela sua face mais duradoura.

Quando uma geração cresce aprendendo a desconfiar da ciência, dificilmente formará organizações que valorizem o conhecimento técnico. Quando especialistas passam a ser apresentados como inimigos, universidades como centros de doutrinação e evidências científicas como simples opiniões políticas, o dano ultrapassa em muito a esfera do debate público. Ele modifica a própria forma pela qual uma sociedade aprende a distinguir fatos de narrativas, conhecimento de crença, investigação de propaganda.

Por isso, reconstruir um ecossistema de aprendizagem é muito mais difícil do que reconstruir seus edifícios.

Universidades podem ser reabertas em poucos anos. Laboratórios podem receber novos equipamentos. As agências científicas podem recuperar seus orçamentos. Muito mais lenta, entretanto, é a reconstrução da confiança social na ciência, do respeito à investigação independente e da cultura intelectual necessária para que novas gerações voltem a produzir conhecimento de qualidade.

Essa talvez seja uma das maiores assimetrias do desenvolvimento.

Destruir leva poucos anos.

Reconstruir exige uma geração inteira.

Essa constatação convida a ampliar o próprio conceito de infraestrutura.

Costumamos associar essa palavra a pontes, portos, ferrovias, usinas hidrelétricas, rodovias ou redes elétricas. Todas são indispensáveis ao funcionamento da economia moderna. Existe, porém, outra infraestrutura, muito menos visível, sem a qual nenhuma delas consegue sustentar prosperidade por muito tempo.

O substrato cognitivo de uma sociedade é formado por escolas, universidades, laboratórios nacionais, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de pesquisa, sistemas de avaliação por pares, editoras acadêmicas e por uma cultura pública que reconhece o valor da evidência, da crítica e do debate racional.

Há, entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado. Ecossistemas de aprendizagem não dependem apenas da existência dessas instituições; dependem também da capacidade de mobilizar o talento disponível em toda a população. Sempre que barreiras de origem social, raça, gênero, religião ou outras formas de discriminação impedem parte da sociedade de desenvolver plenamente suas capacidades, o prejuízo ultrapassa a esfera dos direitos individuais. Trata-se também de uma perda de inteligência coletiva. Nenhuma nação alcança liderança científica desperdiçando sistematicamente parte de seus próprios talentos.

Essa infraestrutura produz algo que nenhum decreto consegue criar: capacidade nacional.

Ao longo deste ensaio, argumentou-se que o fechamento de uma fábrica representa muito mais do que a simples interrupção de uma linha de produção. Desaparece um ecossistema de fornecedores, engenheiros, técnicos, laboratórios e conhecimentos acumulados durante décadas. Com as organizações científicas ocorre exatamente o mesmo. Quando uma universidade perde seus pesquisadores, quando uma agência científica é sistematicamente deslegitimada ou quando bibliotecas passam a retirar livros de circulação por razões ideológicas, não desaparecem apenas organizações isoladas. Começa a deteriorar-se o próprio sistema responsável por produzir e renovar conhecimento.

Os efeitos dessa erosão dificilmente aparecem nas estatísticas do ano seguinte. Manifestam-se 20 ou 30 anos depois, quando aquela geração chega às empresas, aos hospitais, às universidades, aos laboratórios, às escolas e aos governos. É nesse momento que um problema aparentemente cultural revela sua verdadeira dimensão. O atraso deixa de ser apenas científico. Converte-se em atraso tecnológico, econômico, institucional e, por fim, geopolítico.

É por isso que as grandes civilizações raramente entram em declínio de maneira súbita. Antes que suas fábricas parem de produzir ou que seus indicadores econômicos se deteriorem, seus ecossistemas de aprendizagem já começaram, silenciosamente, a perder a capacidade de formar as gerações que construirão o futuro.

Talvez a grande transformação geopolítica do século XXI ainda não tenha sido plenamente percebida.

Durante boa parte da Guerra Fria, a competição entre as grandes potências era medida pelo número de divisões militares, de ogivas nucleares, de navios, de aeronaves ou pela quantidade de aço produzida. Esses indicadores continuam importantes. Mas deixaram de ser suficientes.

A competição estratégica deslocou-se progressivamente para outro terreno: aprender mais rapidamente do que os concorrentes.

Inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, novos materiais, computação quântica, energia limpa, farmacêutica avançada ou sistemas espaciais pertencem a setores aparentemente distintos. Todos, entretanto, compartilham uma característica fundamental. Nenhum deles depende apenas de recursos financeiros ou de abundância de matérias-primas. Todos exigem ecossistemas de aprendizagem extraordinariamente sofisticados, capazes de produzir conhecimento novo, formar recursos humanos altamente qualificados e transformar descobertas científicas em capacidades produtivas.

É nesse contexto que as transformações recentes nos Estados Unidos adquirem uma importância que ultrapassa em muito a política doméstica norte-americana.
Quando o maior ecossistema de aprendizagem do mundo começa a vacilar

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos haviam compreendido uma lição que moldaria toda a segunda metade do século XX. A superioridade militar conquistada durante o conflito não fora resultado apenas de sua capacidade industrial. Ela nascera da extraordinária articulação entre universidades, laboratórios, empresas, agências governamentais e Forças Armadas. O radar, a penicilina produzida em escala industrial, o Projeto Manhattan, os primeiros computadores eletrônicos e inúmeras outras inovações demonstravam que ciência, tecnologia e Estado haviam passado a constituir um único sistema de produção de capacidades nacionais.

Poucas semanas antes do fim da guerra, Vannevar Bush entregou ao presidente Harry S. Truman o relatório “Science, the Endless Frontier”. Mais do que um documento administrativo, aquele texto tornou-se um verdadeiro projeto de país. Sua mensagem era revolucionária: a pesquisa básica não deveria ser tratada como um luxo acadêmico, mas como infraestrutura estratégica para a prosperidade econômica, a saúde pública, a segurança nacional e a liderança tecnológica.

Foi essa visão que permitiu aos Estados Unidos construir, ao longo das décadas seguintes, o mais poderoso ecossistema de aprendizagem já organizado por uma nação.

Universidades, laboratórios nacionais, agências federais, fundações de pesquisa e empresas privadas passaram a atrair talentos do mundo inteiro. Brasileiros, chineses, indianos, coreanos, europeus e latino-americanos encontraram naquele ambiente financiamento e também uma cultura institucional baseada na liberdade de investigação, na competição de ideias e na permanente revisão crítica dos resultados.

Em certo sentido, aquele ecossistema deixou de pertencer apenas aos Estados Unidos.

Grande parte da ciência mundial passou a gravitar em torno dele.

Nada sugere um colapso iminente desse ecossistema. Pelo contrário. Sua densidade institucional – construída ao longo de oito décadas por universidades, laboratórios nacionais, agências federais, empresas inovadoras e redes internacionais de colaboração – lhe dá uma capacidade de adaptação e resiliência sem paralelo histórico. Por isso, mudanças que, em outros contextos, poderiam parecer pontuais devem ser observadas com atenção quando atingem organizações responsáveis por produzir, validar e difundir conhecimento.

É justamente por isso que as transformações recentes merecem atenção.

O debate não se limita a diferenças legítimas sobre prioridades orçamentárias, políticas energéticas ou modelos de desenvolvimento. Democracias vivem dessas divergências. A questão mais profunda é outra: o que acontece quando organizações encarregadas de produzir conhecimento passam, elas próprias, a ser alvo de desconfiança sistemática?
Celso P. de Melo
O que acontece quando universidades deixam de ser percebidas como um patrimônio nacional e passam a ser apresentadas como adversárias políticas? Quando agências científicas passam a ser julgadas menos pela qualidade de suas evidências do que por sua suposta orientação ideológica? Quando bibliotecas, currículos escolares e programas de pesquisa tornam-se objetos de disputas cuja lógica deixa de ser acadêmica e passa a ser predominantemente política?

Essas perguntas extrapolam qualquer governo e qualquer partido.

Elas dizem respeito ao funcionamento do próprio ecossistema de aprendizagem.

Ecossistemas dessa natureza dependem de confiança institucional, continuidade administrativa, liberdade intelectual e da capacidade de mobilizar talentos provenientes de toda a sociedade. Sempre que disputas políticas passam a restringir a autonomia dessas instituições, reduzir sua capacidade de atrair pesquisadores, questionar sistematicamente sua credibilidade ou limitar a participação de parcelas da população na produção do conhecimento, a questão deixa de ser apenas jurídica ou ideológica. Passa a envolver a própria capacidade nacional de inovar.

Nos últimos anos, e de forma particularmente evidente durante o atual governo de Donald Trump, essas tensões ganharam nova intensidade. Mudanças em agências federais de saúde, conflitos envolvendo universidades, disputas sobre políticas climáticas e de saúde pública, a crescente politização da atuação de especialistas e organizações científicas, bem como controvérsias em torno de livros, currículos escolares e programas de diversidade, não devem ser vistos como episódios isolados. Em conjunto, revelam algo mais profundo: uma disputa sobre quem detém a autoridade para definir o que constitui conhecimento legítimo na esfera pública.

Essa talvez seja a questão decisiva. Grandes ecossistemas de aprendizagem não entram em colapso de um dia para o outro. Seu declínio costuma começar de forma quase imperceptível: primeiro enfraquece-se a confiança nas instituições, depois reduz-se a capacidade de atrair talentos, em seguida são interrompidas as redes de colaboração e, somente muitos anos mais tarde, tornam-se visíveis os efeitos sobre a inovação, a competitividade e a própria capacidade estratégica do país.

Isso não significa, entretanto, que os primeiros sinais dessa erosão demorem a aparecer. Algumas consequências tornam-se visíveis quase imediatamente. Protocolos institucionais frequentemente incorporam conhecimentos acumulados ao longo de gerações; por isso, sua revisão exige cautela proporcional à experiência histórica que representam.

Uma geração de pesquisadores pode exigir 30 anos de formação. Um instituto de excelência consolida-se lentamente, ao longo de sucessivas gerações de professores, estudantes e pesquisadores. Sua degradação, entretanto, pode começar em poucos anos.

Essa assimetria do tempo institucional constitui uma das maiores vulnerabilidades das grandes civilizações. Construir ecossistemas de aprendizagem exige décadas de investimento contínuo. Desorganizá-los pode ser obra de um único ciclo político. Reconstruí-los, entretanto, jamais se fará no ritmo dos calendários eleitorais[13].

Essa constatação conduz a uma conclusão que transcende governos, partidos e conjunturas. Proteger universidades, laboratórios, escolas, bibliotecas e agências de fomento não significa defender interesses corporativos. Significa preservar a capacidade coletiva de aprender, corrigir erros e preparar-se para desafios ainda sequer imaginados.

Talvez essa seja a principal lição da história. Grandes civilizações raramente entram em declínio por falta de recursos naturais, de território ou de população. Antes disso, enfraquecem as instituições que transformam conhecimento em capacidade nacional. O futuro de uma nação depende menos das riquezas que herdou do passado do que da capacidade de preservar e renovar seus ecossistemas de aprendizagem.

Em última análise, o verdadeiro patrimônio estratégico de uma nação não é aquilo que ela possui, mas o que é capaz de aprender. Recursos naturais podem ser explorados. Infraestruturas podem ser reconstruídas. Exércitos podem ser reequipados. Ecossistemas de aprendizagem, porém, levam gerações para florescer. Protegê-los talvez seja, hoje, a forma mais profunda de defender a soberania nacional.

Réquiem por Karl Marx

O economista Pedro Noblat acerta na mosca ao comentar o anacronismo que acomete o debate econômico. “A relação capital trabalho sofreu transformações profundas nas últimas décadas, mas os condicionantes da teoria econômica do século XIX seguem equivocadamente fundamentando os analistas em pleno antropoceno digital”. A essa altura, não seria exagero, inclusive, afirmar que discutir desigualdade social anda meio fora de moda, apesar de ela não parar de crescer. O assunto ganhou altitude na esteira do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’. Ao mesmo tempo, na América Latina, o tema era abafado durante o surto de ditaduras que durou três décadas. Nos anos 1980, com a redemocratização da maior parte dos governos da região, as desigualdades voltaram ao radar das políticas públicas. No Brasil não foi diferente. Nessa época, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento persistente da concentração de riqueza e renda, alavancado pela globalização financeira e produtiva, e turbinado por um consumismo insaciável.


Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.

Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.
Felipe Sampaio

Flávio joga parado na economia e não é cobrado

O presidenciável Flávio Bolsonaro joga parado nas promessas que faz para a economia durante a campanha eleitoral.

Ele tem sido beneficiado por não ser o candidato incumbente, diferentemente do presidente Lula, e pelo baixo nível de cobrança dos analistas do mercado financeiro, dos eleitores e também da mídia que acompanha seu périplo diário na disputa pelo Palácio do Planalto.

Instado a falar sobre medidas econômicas que adotará caso ganhe as eleições, o candidato do PL fala de "tesouraço" nas despesas do Orçamento, gatilhos para contenção de gastos, redução de ministérios, corte de cargos comissionados e mudanças na reforma tributária.

Enquanto pega carona nas críticas ao crescimento da dívida pública no governo Lula, ele promete o maior corte da história da carga tributária do país via redução de impostos e desoneração da folha de pagamento das empresas.

Com a declaração de que "não fará economia em cima de aposentados" —frase moldada pelos seus estrategistas de marketing político—, repete a tática do pai.

É sempre bom recordar. Para barrar medidas do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, voltadas ao financiamento do Auxílio Brasil (o antecessor do atual Bolsa Família), Jair Bolsonaro saiu-se com a histórica frase de que "não tiraria de pobres para dar para paupérrimos".

Ao final, o Auxílio Brasil foi bancado pela PEC dos Precatórios, que empurrou parte do pagamento dessas despesas com sentenças judiciais.

Flávio também já admitiu em entrevista ao SBT que não daria detalhes sobre onde cortaria os gastos. Fazer isso, segundo ele, geraria "um castelo de cartas".

Por outro lado, ele já disse que não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência.

Com base no pouco que o candidato disse e também no que falou que não faria, a conclusão a que se chega é que a conta não fecha.

Ninguém acredita. Ou ele não fala a verdade, ou vai praticar estelionato eleitoral se ganhar a eleição.
Adriana Fernandes

O ajuste fiscal e a pergunta que o Brasil precisa fazer

Toda vez que o tema volta à mesa, a receita já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma: não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com seriedade.

O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?

Porque existe outra estrutura no orçamento brasileiro e ela raramente é submetida ao mesmo rigor crítico. Em 2026, o Congresso reservou R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, a maior parte de execução obrigatória. É mais do que o país investe no PAC. As renúncias fiscais concedidas a empresas e setores ultrapassam a meio trilhão de reais por ano, mais de um quinto da arrecadação federal, crescendo continuamente há duas décadas e concentradas, em sua maior parte, nas regiões mais ricas. O próprio ministro da Fazenda classificou esse conjunto como uma caixa-preta do orçamento.

A economia política chama esse fenômeno de institucionalismo discursivo: certas ideias se tornam dominantes não necessariamente porque venceram o debate, mas porque seus defensores ocupam espaços privilegiados de influência. Não se trata de questionar a boa-fé de ninguém. Trata-se de reconhecer que muitos dos economistas mais influentes trabalham em bancos e gestoras de patrimônio, setores diretamente afetados pela remuneração da dívida pública. Isso não invalida seus diagnósticos, mas ajuda a entender por que, entre várias soluções possíveis, sempre a mesma chega primeiro às manchetes.

Wolfgang Streeck descreveu esse deslocamento ao distinguir o povo que vota do povo que financia o Estado. Quando as decisões sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio. O interesse financeiro passa a influenciar mais do que o interesse da maioria da população, dos que mais precisam do Estado. No Brasil, Leda Paulani já alertava, há quase duas décadas, que a política econômica frequentemente prioriza manter a confiança de quem financia a dívida pública, mesmo quando isso limita o crescimento da economia e o bem-estar da população.

Reconhecer esse quadro não significa negar a necessidade de ajuste. Significa que ele deve ser feito sem impor o maior sacrifício justamente a quem depende do Estado para viver com dignidade. Não se trata de privilégio, mas de justiça social. Existem alternativas que raramente recebem igual atenção: revisar benefícios tributários com prazo efetivo de validade; tributar dividendos, hoje isentos; reformar o sistema de emendas parlamentares impositivas; e, caso a desindexação avance, fazê-la de forma gradual, distinguindo benefícios previdenciários das políticas assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada - BPC.

Há ainda um efeito pouco lembrado. Desde 2006, a valorização do salário mínimo tornou-se um dos principais motores do consumo das famílias de menor renda, sobretudo nas pequenas e médias cidades. Esse dinheiro movimenta o comércio local, sustenta prestadores de serviço e alimenta a economia de milhares de pequenos empreendedores. Reduzir esse mecanismo em troca de um benefício futuro e incerto significa impor uma perda imediata justamente a quem dispõe de menos proteção. É também retirar recursos da economia real. A renda das famílias mais pobres retorna rapidamente ao consumo, movimentando o comércio, os serviços e os pequenos negócios das comunidades. Já a renda dos mais ricos tende, em maior proporção, a permanecer aplicada no sistema financeiro.

O Brasil não carece de conhecimento técnico para enfrentar seu desafio fiscal. O que falta é abrir espaço para que diferentes caminhos sejam discutidos com o mesmo respeito concedido à solução de sempre. A pergunta central já não é se o ajuste é necessário. É como ele será feito e sobre quem recairá seu custo. 

Enquanto essa discussão permanecer restrita a um único roteiro, o ajuste continuará recaindo sobre quem sempre paga a conta e poupando quem quase nunca participa dela. Afinal, a pergunta que o Brasil ainda não fez é a mais importante de todas: quem deve pagar a conta do ajuste?
Giovanni Bevilaqua

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O admirável mundo novo de Mr. Musk

Durante 1 hora e 24 minutos, o homem mais rico do planeta expôs à editora-chefe da revista The Economist suas ideias sobre o futuro e o presente. Criador do sistema de pagamentos eletrônico Paypal, Elon Musk é proprietário da Tesla, que fabrica carros elétricos; do aplicativo de mensagens X (antigo Twitter) —além de fundador da empresa SpaceX, que pretende revolucionar a tecnologia espacial para fazer dos seres humanos uma espécie interplanetária, capaz de colonizar Marte.

Durante os primeiros sete meses desta segunda administração Trump, Musk chefiou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) —o qual, a pretexto de reduzir desperdícios, fechou agências estatais, cortou recursos e destruiu muitos órgãos federais importantes. A entrevista pode ser vista em The Insider, publicação digital exclusiva para os assinantes do semanário britânico.


Na primeira parte, a conversa é amena: o trilionário discorre sobre o futuro, quando robôs e inteligência artificial serão os motores da sociedade da abundância, o dinheiro perderá a razão de existir e será possível garantir renda a todos e cada um dos terráqueos para fazer o que bem entenderem com seu tempo livre.

Algo semelhante à sociedade comunista imaginada por Karl Marx, na qual as pessoas poderiam caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar do gado ao anoitecer e criticar depois do jantar, sem se tornarem caçadores, pescadores, pecuaristas ou críticos. Só que, agora, no trajeto até o radioso futuro, substitua-se a liderança do Partido Comunista pela condução dos iluminados do Silicon Valley.

Na segunda parte, quando a entrevistadora aterrissa as perguntas no presente, o Musk visionário vira fascista, defensor do duro controle à imigração; do encolhimento da capacidade reguladora do Estado; da substituição dos freios e contrapesos da democracia representativa pelo pulso firme do líder político. A conversa fica tensa e a amabilidade dá lugar à crítica agressiva à imprensa profissional.

Tendo apoiado candidatos do Partido Democrata à Presidência — Barack Obama, Hillary Clinton e Joe Biden — Musk aderiu a Donald Trump nas eleições de 2024. E se tornou defensor da Alternativa para a Alemanha (AfD) e de outros partidos europeus de extrema direita. Sua trajetória não é singular: acompanha o movimento de empresários como Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), entre outros que abandonaram os democratas e se passaram para o lado dos republicanos.

Não se trata só de cálculo eleitoral. A mudança de lealdade político-partidária é, também, abandono da democracia liberal representativa por um ideário político que percebe suas regras como parceiras da ineficiência e obstáculos à aceleração tecnológica. No lugar do governo limitado da maioria, flertam com um sistema que aumente a incidência política de quem esteja à frente da criação de novas tecnologias: uma espécie de tecnocracia da era digital, ainda que acoplada a um líder mercurial, sabidamente incapaz de concluir um raciocínio.

A desconfiança em relação à igualdade política, que a democracia representativa garante, não é nova no pensamento americano. Mas nunca esteve ancorada em tanto — e tão concentrado — poder econômico.

Quando a esperança virou aposta?

Nunca foi tão fácil apostar. Um celular, alguns cliques, o jogo está aberto: na fila do pão, no ônibus lotado, às três da manhã com a luz do quarto apagada.

Propaganda no intervalo do jornal, influenciador fazendo dancinha com o logo da casa de aposta, programa de auditório que sorteia prêmio, camisa do time com o nome da bet estampado no peito e ações publicitárias no meio do maior evento esportivo do mundo. Em poucos anos, as bets tomaram a paisagem brasileira com uma velocidade que quase não deixou espaço para pergunta. Apostar deixou de parecer exceção. Tornou-se parte da rotina.

Os números só confirmam o que a rua já anuncia. Em artigo publicado no Estadão em junho passado, o economista Pedro Fernando Nery mostrou uma coisa difícil de digerir: as famílias brasileiras já gastam mais com bets do que com livros, cinema e música. Gastam mais com bets do que com frutas, legumes e verduras. Isso não é só economia. É um retrato do que estamos priorizando, e, mais do que isso, dos ambientes que estamos montando, tijolo por tijolo, para as pessoas viverem dentro.

Essa naturalização tem custo. A cientista política Esther Solano vem documentando isso em suas pesquisas, e a palavra que ela usa não é por acaso: o impacto das bets sobre as famílias é “devastador”.

A perda financeira dói, claro. Mas o dano mais persistente é outro, e é mais silencioso. Angústia, ansiedade, depressão: essas coisas deixam de atingir só quem aposta e passam a reorganizar a vida de todo mundo em volta. Solano descreve o processo como uma bomba lançada no meio da sala de casa.


Nas pesquisas com adolescentes, ela encontrou jovens apostando durante a aula, como quem checa o WhatsApp. Banalizado. Nas comunidades mais vulneráveis, as dívidas alimentam brigas, fazem circular empréstimo informal com juros que ninguém anota no papel, empurram situações de violência para um grau novo. Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?

O que Esther Solano descreve, porém, vai além de uma sequência de consequências. É um mecanismo. A perda financeira alimenta a ansiedade. A ansiedade estreita o repertório de escolhas. Decisões tomadas sob maior sofrimento tendem a produzir novas perdas. O circuito passa a se alimentar de si mesmo.

Forma-se uma espiral. E espirais têm uma característica inquietante: quanto mais se alimentam de si mesmas, mais parecem obedecer a uma força própria.

Mas será que essa gravidade é inevitável?

De longe, parece que sim. Uma espiral descendente vista de perto transmite a impressão de coisa viva, com vontade própria. A ciência oferece uma perspectiva menos fatalista. Espirais não têm direção própria: elas seguem a direção das condições que as alimentam. Se certos ambientes empurram pra ciclos de perda, outros podem empurrar pra ciclos de fortalecimento. A pergunta de verdade, então, não é só como interromper a queda. É como criar condições para que outra trajetória comece a fazer sentido.

É aqui que a ciência do florescimento humano oferece uma contribuição que vale a pena levar a sério. Barbara Fredrickson mostrou em sua Teoria da Ampliação e Construção, que emoções positivas não são só o resultado de quem já está bem. Elas ajudam a construir o bem-estar. Quando uma pessoa sente segurança, pertencimento, esperança, conexão, o repertório dela amplia. Ela enxerga possibilidades que antes não via, fortalece vínculos, toma decisões menos desesperadas, desenvolve recursos pra aguentar o tranco da próxima adversidade. Esses recursos vão se acumulando, e escolhas mais saudáveis passam a ser mais prováveis. Fredrickson chama isso de espiral ascendente.

As bets prometem dinheiro. Para muitas pessoas, porém, o que elas oferecem é outra coisa: uma promessa de esperança. Só que não é a esperança construída devagar, com reconstrução de vida, com vínculo, com possibilidade concreta de transformação. É uma esperança-atalho: a expectativa de que um único acontecimento possa resolver aquilo que anos de dificuldade produziram. Atalhos quase nunca constroem recursos. Apenas adiam o encontro com a realidade.

Por isso o enfrentamento das bets não pode parar no controle da oferta.

Regular plataformas, segurar propaganda e proteger público vulnerável: tudo isso é necessário. Mas não basta. A pergunta que sobra é outra, e é mais incômoda: o que faz uma promessa tão improvável parecer, na hora do aperto, emocionalmente convincente?

Se a espiral de baixo se alimenta de vulnerabilidade, a espiral de cima nasce de recurso. Às vezes basta um tio que senta do lado e diz “vamos ver isso juntos” para que a mão não vá sozinha ao celular. Às vezes é uma oficina no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) que faz a pessoa perceber que existiam três saídas onde ela só enxergava uma. Às vezes, e isso não é romantismo, é simplesmente ter um lugar no bairro onde alguém sabe o seu nome. Pequenas mudanças de contexto, sustentadas ao longo do tempo, tornam escolhas saudáveis mais prováveis.

Uma coisa que quase ninguém discute no debate público é justamente isso. A gente passa horas discutindo como impedir que as pessoas apostem. Quase nenhum minuto em como construir ambientes nos quais apostar deixe de parecer a melhor alternativa disponível. E é aí que a conversa deixa de ser só sobre bets. Vira conversa sobre bem-estar e sobre florescimento.

Florescimento não é ausência de sofrimento. Seria uma definição triste. É a presença de condições que permitem às pessoas desenvolver capacidades, fortalecer vínculos, cultivar uma esperança realista, construir sentido pra própria vida. Essas condições não brotam do chão. São produzidas por escolhas culturais, educacionais, econômicas e políticas.

Toda sociedade exerce uma força sobre quem vive nela. A gente já sabe muito bem como se constrói um ambiente que naturaliza a infelicidade, empurrando o cidadão pra dívida, para o isolamento, para o adoecimento. Estamos construindo vários, em tempo real.

O que ainda não decidimos é se vamos levar a sério o outro lado: escola que ensina a lidar com dinheiro, posto de saúde que identifica a angústia antes da crise, quadra, praça, vizinhança e vínculos autênticos. Se fomos capazes de normalizar, em poucos anos, uma cultura que transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio, também somos capazes de fortalecer outra lógica. Uma que invista em educação financeira desde a escola, em saúde mental como política de Estado, em esporte, cultura, convivência, família, comunidade.

O antídoto de verdade para gravidade das bets não é só impedir alguém de apostar. É construir ambientes que ampliem recursos psicológicos, sociais e econômicos, pra que a esperança deixe de depender do acaso e volte a ser construída pelas relações, pelas oportunidades e pelas escolhas que efetivamente estão ao alcance. Democratizar a felicidade talvez seja exatamente isso.

O florescimento nunca foi produzido só pelas escolhas individuais. Nunca foi. Ele também é consequência dos ambientes que a gente decide (ou consegue) construir, das oportunidades que a gente oferece (ou consegue acessar), das condições que a gente torna possíveis para que pessoas, famílias e comunidades possam florescer.

Toda sociedade faz apostas sobre o próprio futuro. Algumas naturalizam o acaso e alimentam vícios que empobrecem o florescimento humano. Outras cultivam virtudes e investem, pacientemente, na construção das condições que tornam a felicidade mais possível.

Bolsonaristas voltaram a explorar desinformação sobre a covid-19 às vésperas da eleição

A audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Anthony Fauci, no Congresso americano foi usada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para recolocar a pandemia de covid-19 no centro do debate político.

Vídeos publicados nos últimos dias voltaram a questionar vacinas, máscaras e medidas adotadas durante a crise sanitária.

Do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro ao senador Magno Malta (PL-ES), a base bolsonarista voltou a repetir alegações que não são sustentadas pelas evidências científicas, segundo especialistas.

Na semana passada, em 29 de julho, Fauci, ex-principal assessor médico da Casa Branca, compareceu perante um comitê do Senado dos Estados Unidos que investiga sua atuação durante a pandemia.

Durante o depoimento, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si mesma — o que irritou parlamentares republicanos.

O advogado de Fauci afirmou que seu cliente está "amparado pela lei" e negou que a decisão represente qualquer admissão de culpa.

Invocar a Quinta Emenda não constitui crime e é um instrumento amplamente utilizado no sistema judicial americano. O próprio presidente Donald Trump recorreu ao dispositivo durante um depoimento em um processo civil envolvendo a Trump Organization, em 2022, antes de retornar à Casa Branca.


O fato de Fauci ter optado por não responder às perguntas não altera, por si só, o conhecimento científico acumulado sobre vacinas, máscaras ou tratamentos contra a covid-19, afirmam especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.

Para elas, a audiência e, principalmente, a forma como ela vem sendo explorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem parte de uma estratégia de mobilização política em meio à aproximação das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil, previstas para outubro.

A audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. Há anos, Paul acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de financiar pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan, na China.

A origem da pandemia, no entanto, continua sendo alvo de debate dentro do próprio governo americano.

Segundo um relatório desclassificado do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência, divulgado em 2023, o Conselho Nacional de Inteligência e outras quatro agências concluíram que a primeira infecção humana ocorreu por exposição natural a um animal infectado. Já o Departamento de Energia e o FBI avaliaram que a hipótese de um incidente relacionado a laboratório era mais provável.

Em 2025, já durante o segundo mandato de Donald Trump, a CIA informou que passou a considerar mais provável a hipótese de vazamento em laboratório, mas classificou essa avaliação como de baixa confiança, ressaltando que as evidências continuam limitadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou no ano passado que a hipótese de transmissão natural de animais para humanos segue sendo a mais bem sustentada pelas evidências disponíveis, embora a origem da pandemia permaneça inconclusiva.

Durante a audiência, parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia. As orientações foram alteradas conforme novas evidências científicas surgiam, algo que Fauci já havia defendido em outras ocasiões.

Diversos senadores democratas saíram em sua defesa. A senadora Maggie Hassan afirmou que a audiência foi "planejada para criar uma armadilha".

Fauci nega qualquer irregularidade.

Após a audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a usar o episódio para afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido desmentidas.

Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a vir a público dizer que pessoas deveriam "pedir desculpas" a seu pai. "Eu sei que muita gente de bom coração culpou Jair Bolsonaro pela morte de um parente querido, ou por alguma coisa, né. Caiu em uma fake news em relação à vacina."

Além dele, outros aliados do ex-presidente adotaram discurso semelhante de "Bolsonaro tinha razão".

"Essas últimas revelações do governo americano sobre o Dr. Anthony Fauci só provam que nós e o presidente Bolsonaro estávamos certos desde o início", publicou Magno Malta.

O jornalista e influenciador Paulo Figueiredo escreveu no X: "Bolsonaro tinha razão em basicamente TUDO durante a covid", afirmou, seguindo com uma série de xingamentos à imprensa e aos defensores das políticas de distanciamento.

Já a médica Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como "capitã Cloroquina" quando atuou no Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente, afirmou que segue "de mãos limpas" e que Fauci "mentiu e foi desmascarado".

O vídeo de maior alcance, no entanto, foi publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados. Com a promessa de contar "a verdade" sobre a covid-19, a gravação ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram.

No vídeo, Nikolas afirma, sem apresentar evidências, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições entre suas conversas privadas e suas decisões públicas durante a pandemia.

O deputado também afirma, sem provas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso pulmonar após ser vacinado e escondido essa informação do público.

Em outro trecho, sustenta que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após o então presidente Donald Trump defender o medicamento e afirma que essa mudança teria impedido um tratamento que "poderia ter salvado milhões de pessoas".

A hipótese, porém, não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos realizados sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute.

Ao final do vídeo, Nikolas conclui: "Ou seja, tinha alguém que tinha razão. Jair Bolsonaro. Nada como o tempo".

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello publicou um vídeo em que afirma, também sem citar novas evidências científicas, que a narrativa construída durante a pandemia "está sendo desmontada" cinco anos depois dos acontecimentos.

No vídeo, ele afirma que o ex-presidente e médicos que questionaram medidas adotadas durante a pandemia foram injustamente rotulados como "genocidas", "negacionistas" e "antivacina".

Segundo ele, as recentes discussões envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos reforçariam críticas feitas à condução da pandemia.

Ele defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid-19 com a preservação da atividade econômica, afirmando que Bolsonaro defendia "o direito de trabalhar" e a "autonomia médica" para que médicos e pacientes discutissem tratamentos. Segundo Pazuello, isso "nunca significou negar a ciência", mas reconhecer as incertezas existentes no início da pandemia.

As alegações feitas por Nikolas Ferreira e por outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado desde o início da pandemia, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.

Entre as principais afirmações contestadas estão a de que máscaras seriam ineficazes, que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que os efeitos adversos das vacinas teriam sido ocultados.

Segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, essas conclusões não são sustentadas pelas evidências científicas.

"Não ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente pelos sistemas de vigilância de segurança", afirma.

"No início da pandemia era correto investigar esses medicamentos. Mas, quando foram realizados ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis, os benefícios esperados não foram confirmados."

Garrett também ressalta que o fato de Anthony Fauci ter invocado a Quinta Emenda durante seu depoimento ao Senado americano não altera o consenso científico sobre a pandemia.

"Invocar um direito constitucional não comprova nenhuma alegação científica. Não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países."

Segundo a especialista, a audiência pode investigar a atuação de autoridades públicas, mas não modifica as evidências produzidas ao longo da pandemia.

"O que sabemos hoje sobre vacinas, máscaras, medicamentos e transmissão não depende do depoimento de Anthony Fauci, mas de milhares de estudos realizados por pesquisadores em vários países."

Para a infectologista, o aspecto mais perigoso do vídeo é combinar fatos verdadeiros com conclusões que eles não sustentam. "A desinformação mais convincente normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto necessário."

Ela reconhece que houve falhas na condução da pandemia, como mudanças nas recomendações à medida que novas evidências surgiam, problemas de comunicação das autoridades e restrições que provocaram impactos sociais, econômicos e educacionais.

Também lembra que as vacinas podem provocar eventos adversos raros, como miocardite, sobretudo em adolescentes e homens jovens após determinadas doses das vacinas de RNA mensageiro.

"Mas reconhecer que houve um risco raro de miocardite não significa que as vacinas tenham sido mais perigosas do que a doença. Reconhecer que algumas restrições foram excessivas não significa que todas as medidas de distanciamento foram inúteis."

Para Garrett, é legítimo discutir erros cometidos durante a pandemia, mas isso não pode servir para reescrever o consenso científico. "Uma revisão honesta não pode transformar falhas reais em argumentos para defender medicamentos ineficazes ou negar que as vacinas reduziram doença grave e mortes."

Para a cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos faz parte de uma estratégia eleitoral baseada em um tema que continua mobilizando a polarização política.

"Ele pega a questão da pandemia, que sabe que divide opiniões, e a recoloca na agenda política. É a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base", afirma.

Na visão de Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico sobre a pandemia, mas reforçar convicções já existentes entre apoiadores.

"O que eles precisam é do efeito do viés de confirmação. Quando uma liderança como Nikolas Ferreira ou Jair Bolsonaro fala sobre esse tema, eles sabem que haverá um grande grupo de eleitores que vai repercutir esse conteúdo e se sentir validado."

Na sua avaliação, essa estratégia vem sendo utilizada desde a campanha presidencial de 2018 e ganhou força com a consolidação das redes sociais como principal arena de disputa política.

"Você pega uma informação falsa ou distorcida e uma liderança política a distribui para milhões de pessoas porque sabe que ela será rapidamente multiplicada."

Botelho avalia que a retomada desse debate também pode ajudar a mobilizar a base bolsonarista em um momento considerado delicado para o grupo político.

"Eles movimentam a base eleitoral e trazem atenção para um momento em que Flávio Bolsonaro enfrenta um cenário mais desfavorável. Faz sentido que tentem recolocar na agenda um tema que mobiliza fortemente seus apoiadores."

Mas ela pondera que o tiro pode sair pela culatra, já que o alcance dessa estratégia tende a ser limitado.

"A maioria da população brasileira acredita nas vacinas e reconhece que elas tiveram um papel importante para reduzir casos graves e mortes durante a pandemia. Esse tipo de narrativa tende a fortalecer quem já concorda com ela, mas dificilmente amplia muito esse público."

Segundo a pesquisadora, os vídeos não apresentam elementos novos, apenas retomam discursos que circulam desde a pandemia. "Parece uma novidade, mas não é. O discurso é praticamente o mesmo, com ataques às vacinas, à ciência e aos especialistas. O objetivo continua sendo mobilizar a própria militância."

Ela afirma ainda que a escolha do tema também dialoga com a lógica das plataformas digitais.

"Assuntos controversos circulam mais rapidamente nas redes sociais. Nikolas Ferreira domina essa dinâmica e sabe que esse tipo de conteúdo gera grande engajamento entre seus apoiadores."

Para a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, a circulação dos vídeos não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um processo de desinformação que, segundo ela, persiste desde o auge da pandemia.

"Essa desinformação jamais cessou. Mesmo depois do fim da emergência sanitária, continuamos vendo perfis, organizações e cursos que sistematicamente divulgam informações falsas sobre saúde pública e covid-19", afirma.

Na avaliação da pesquisadora, a permanência dessas narrativas está ligada à falta de responsabilização de quem difundiu desinformação durante a pandemia.

"Estamos colhendo os frutos da impunidade. A desinformação continua rendendo dinheiro, gerando engajamento e sendo usada politicamente. Não se trata apenas desse vídeo, mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública."

Ventura afirma que o Estado brasileiro falhou ao não reagir de forma mais contundente à disseminação de informações falsas.

"Na primeira fake news divulgada por autoridades públicas, se houvesse responsabilização, estaríamos em outro lugar hoje", afirma. Ela também aponta a ausência de uma política de memória sobre a pandemia como um fator que facilita a retomada dessas narrativas.

Sobre a audiência de Anthony Fauci no Senado americano, a professora também afirma que ela vem sendo utilizada politicamente, mas não altera o conhecimento científico produzido desde o início da pandemia.

"Não há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida", diz.

"A reiteração da ideia de que vacinas fazem mal ou de que a ciência ocultou a verdade serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir conhecimento."

Segurança pública é um bom negócio racista

O Anuário de Segurança Pública 2026 (FBSP) confirma o caráter racista da violência no Brasil, com origem econômica histórica. Foram 36 mil brasileiros negros assinados em 2025 (80% do total dos homicídios). Pior ainda nas mortes causadas por intervenção policial (82% dos mortos eram negros). Não é um número casual. Reduzir a análise do problema da segurança pública no Brasil a casos de polícia é varrer o lixo para baixo do tapete. O fenômeno da criminalidade brasileira é político-racial. Um modelo socioeconômico. Tem origem colonial. Em 1500 não havia por aqui pessoas brancas e negras, tampouco agropecuária e mineração em larga escala. Havia uma biodiversidade exuberante, sob a qual repousavam terras potencialmente agricultáveis com dimensões continentais, habitadas por milhões de indígenas (centenas de etnias que falavam dezenas de idiomas).

A violência que fustiga o país é remanescente do modo de produção que motivou a vinda dos mercantilistas portugueses, assim como espanhóis, holandeses e franceses que invadiram esses territórios que atualmente constituem o Brasil. A escravização de povos negros africanos pelos europeus era o fator de viabilização dos novos negócios de larga escala daquela época e estava na base do modelo colonial. Os europeus procuravam onde instalar sua produção baseada em escravidão. Nesse sentido, o Brasil foi uma invenção econômica-escravista, cuja feição racista perdura até hoje. No século XVI, o que aconteceu aqui foi a implantação em escala empresarial de dois experimentos macabros bem sucedidos realizados no século anterior. Um deles foi o uso de pessoas negras para trabalharem como escravos em lavouras e minerações na própria África, Caribe e em ilhas atlânticas. O outro laboratório exitoso, também no século XIV, foi a própria comercialização em si desses negros em mercados da África Ocidental, Moçambique, Península Ibérica e América Central.


Portanto, não houve descoberta incidental do Brasil pela esquadra de Cabral. Foi jogo combinado. Os colonizadores europeus haviam transformado o trabalho escravo no negócio mais lucrativo da história da humanidade. Um modelo econômico desumano em escala mundial. O que aconteceu em 22 de abril de 1500 foi a formalização da posse pelas cortes de Lisboa de um território ideal para a instalação de empresas minerais, florestais e agropecuárias baseadas no uso da mão-de-obra negra escrava e na rapina de recursos naturais. A tentativa inicial foi a escravização dos nativos, mas as condições objetivas para sua escravização produtiva – no seu próprio local de origem e captura – não se mostraram lucrativas e funcionais. Por 400 anos o Brasil foi erguido e consolidado em cima da exploração violenta de uma população majoritariamente negra e escravizada.

Há apenas pouco mais de cem anos a escravidão foi oficialmente abolida. Ao invés de se proceder uma inclusão social e econômica desse estrato da população brasileira, na esteira da modernização capitalista, o que se viu foi a cristalização de uma desigualdade social manifestada nas diversas dimensões da cidadania: renda, riqueza, saúde, educação, segurança, bens públicos, moradia, urbanismo, entre outros direitos democráticos sonegados. Uma desigualdade com motivação original econômica e racista em um país com população atual de mais de 120 milhões de pessoas negras (cerca de 56% do total). Mudar essa realidade é responsabilidade de todos, a começar pelo andar superior do PIB e da política.