quinta-feira, 22 de maio de 2025

Destruição do licenciamento ambiental ameaça liderança climática mundial do Brasil

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30 da ONU em Belém, evento crucial para o futuro climático global, o Senado debate um projeto de lei que pode agravar irremediavelmente a destruição da maior floresta tropical do mundo. O Projeto de Lei 2159/2021, sob o pretexto de “agilizar” o licenciamento ambiental, representa um ataque direto à estrutura de proteção ambiental construída nas últimas décadas. Longe de ser uma modernização, o projeto enfraquece drasticamente a capacidade do Estado brasileiro de avaliar riscos, prevenir danos e garantir o equilíbrio ecológico que sustenta a própria economia e segurança hídrica do país.

Ao permitir que projetos sejam de médio impacto e se autolicenciem por uma simples declaração, sem critérios claros e rebaixando a relevância da manifestação de órgãos como a Funai e o Iphan, este PL basicamente delega ao empreendedor afirmar se haverá risco ambiental ou não, o que suprime objetivamente os princípios de precaução e da prevenção, conforme previsto na Constituição Federal e na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), princípio 15:

“Com a finalidade de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente aplicado pelos Estados, segundo suas capacidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não deverá ser usada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.”

Impactos ambientais indiretos, como o desmatamento ilegal, a poluição do ar e a contaminação de rios, praias e mares advindos desses empreendimentos deixarão de receber uma análise ambiental criteriosa, mesmo quando envolvam termelétricas próximas a setores residenciais, hospitais e escolas, pavimentação de estradas em áreas sensíveis para a fauna silvestre, mineração em cabeceiras de nascentes e áreas de recarga de aquíferos que abastecem agricultores – para ficar em poucos exemplos. Caso esse PL seja aprovado, também os instrumentos de ordenamento urbano e zoneamento ecológico econômico não mais serão um impeditivo para empreendimentos com impactos negativos conhecidos em cidades por todo o país.

Assim redigido, esse PL oferece um salvo-conduto para a destruição ambiental, com impactos profundos sobre o abastecimento de água, a qualidade do ar, a produção de alimentos e a saúde das populações no Brasil inteiro – mas não só isso, como veremos a seguir. 


O climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), referência mundial em Amazônia e mudanças climáticas, alerta que a floresta se encontra sob grave risco de colapso ecossistêmico, o chamado “ponto de não retorno”. Em suas palavras:

“Estamos muito próximos do ponto de virada da Amazônia. Se a taxa de desmatamento ultrapassar os 20% a 25% da cobertura original, a floresta não conseguirá mais se sustentar como floresta tropical. A transição para uma vegetação semelhante ao Cerrado será irreversível em grandes áreas.”

Atualmente, a Amazônia brasileira já perdeu mais de 18% de sua cobertura original, com outros 17% em processo severo de degradação (MapBiomas, 2023). Diversos projetos, como o asfaltamento da BR-319, entre Porto Velho (RO) e Manaus (AM), poderão ser o estopim para esse colapso ecológico. Chico Mendes, seringueiro e companheiro histórico da atual ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que deu sua vida em defesa da floresta amazônica e hoje empresta seu nome ao Instituto responsável pela gestão de áreas protegidas federais, já advertia sobre essa estrada nos anos 1980: “A BR-319 vai cortar o coração da floresta. Não é estrada, é um rastro de morte.”

Apenas 2% a 7% de desmatamento do bioma Amazônia é o que nos separa do ponto de não retorno. Em português direto, a liberação do asfaltamento dessa única BR basta para que os impactos indiretos de desmatamento ilegal dela oriundos – a abertura de estradas vicinais irregulares, as famosas “espinhas de peixe”, atinjam e rompam o limiar alertado por Carlos Nobre. Essa obra, por configurar “melhoria de projeto existente”, é uma das que passa a ter aprovação praticamente automática e sem medidas de mitigação, independente dos graves impactos previsíveis de sua realização. Caso o licenciamento ambiental no Brasil seja desfigurado pela aprovação e sanção do PL 2159/2021, a viabilização deste e de dezenas de outros projetos trará consequências irreversíveis para o bioma amazônico e a estabilidade climática brasileira.

O colapso anunciado da floresta não se limita à Amazônia, pois poderá afetar todos os ecossistemas e biomas conexos não apenas do Brasil, mas também dos países vizinhos, como as florestas andinas e mesmo os glaciares que abastecem milhões de pessoas, configurando uma perspectiva de crise climática de escala continental. A Amazônia e os biomas conexos do Pantanal e Cerrado desempenham um papel fundamental na regulação climática de toda a América do Sul, ao prover e conduzir os “rios voadores” de vapor d’água do Norte para o Centro-Oeste, Sudeste, partes do Nordeste até o Sul do Brasil, que abastecem de água também países vizinhos como Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina. Essa é a dimensão do risco que o PL 2159/2021 traz ao aprofundar o vetor de desmatamento para um sistema tão ameaçado quanto vital para a realidade climática com que estamos acostumados, e que já dá seus primeiros sinais de desequilíbrio.

Para se ter ideia da escala dos danos climáticos que podem acontecer caso esse sistema hidrológico-climático seja desequilibrado, basta olhar o mapa mundi e localizar três estados brasileiros – Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Traçando um paralelo latitudinal, na África, o deserto da Namíbia é a primeira parada, seguida pelo deserto australiano, e por fim, o deserto de Atacama, no Chile. Nessa latitude de aridez, a única faixa verde em todo o globo terrestre se restringe à faixa contida entre os Andes e o Atlântico, ou seja, as geografias irrigadas pelos rios voadores e bacias que nascem em sua maioria na Amazônia.

A savanização da Amazônia, os incêndios florestais e a seca já vivida em várias de suas cidades são oriundas do desmatamento e do aquecimento global causado pela atividade humana, e infelizmente esta não é uma crise isolada desse bioma. Desde 2023, temos já oficialmente o primeiro deserto brasileiro, com quase 6.000 km². Maior que o Distrito Federal ou que a área das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo juntas, está situado no centro norte da Bahia e divisa com Pernambuco, atingindo importantes municípios que dependem da agricultura irrigada, como Juazeiro. Esse primeiro caso de desertificação consolidada, identificado pelo Inpe e Cemaden, se insere em outro contexto maior, mapeado desde os anos 1960, que é a expansão do semiárido brasileiro. Em setenta anos, aproximadamente 75.000 km² de terras se tornaram semiáridas como consequência direta do desmatamento e do ressecamento de rios, córregos e aquíferos – o equivalente à área do Espírito Santo. Uma média de 10.000 km² a cada década.

Tanto na Caatinga como na Amazônia, o vetor de desmatamento e degradação é o mesmo: a abertura de novas fronteiras agrícolas. A aprovação do PL 2159/2021 deverá intensificar significativamente a expansão da agropecuária sobre áreas de vegetação nativa não apenas nestes, mas em todos os biomas brasileiros, ao permitir a dispensa automática do licenciamento ambiental para atividades como pecuária extensiva, cultivo de grãos e manutenção de pastagens. Sob a justificativa de serem de “baixo impacto”, essas práticas poderão ser autorizadas sem qualquer estudo de impacto ambiental, mesmo quando realizadas em áreas recentemente desmatadas. Isso representa, tacitamente, a legalização do desmatamento para agropecuária.

Segundo o MapBiomas (2023), cerca de 97% do desmatamento no Brasil é ilegal, e a pressão crescente sobre as áreas de transição entre o Cerrado e a Amazônia, atualmente protegidas por exigências legais, será diretamente impactada com a flexibilização proposta pelo PL 2159/2021 – justamente aquelas áreas na porção sul da Amazônia, com maior índice de degradação por fogo, maiores percentuais de desmatamento, e com maior risco de savanização. As perspectivas são de perda de 50% a 70% da floresta em sua metade sul, do Atlântico à Bolívia, caso seja atingido o ponto de não retorno do bioma amazônico.

Atualmente, a valorização de terras desmatadas em regiões de expansão agropecuária transforma a destruição ambiental em ativo econômico, e terras públicas não destinadas, inclusive em Unidades de Conservação e florestas protegidas tornam-se alvo primordial desse modelo. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam, 2022) estimou que mais de 24 milhões de hectares de florestas públicas estão sob ameaça direta de grilagem – um risco amplificado pela eliminação de barreiras legais e pela fragilização dos instrumentos de licenciamento ambiental.

A savanização da Amazônia poderá comprometer gravemente o regime de chuvas no Norte, Centro Oeste e Sudeste, afetando culturas agrícolas essenciais em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará, Rondônia, Acre e Goiás. Igualmente, com a diminuição das precipitações nas cabeceiras dos rios glaciares no Peru e na Bolívia, serão impactadas diretamente diversas regiões e cidades desses países. A recarga das geleiras dos Andes, hoje já em processo acelerado de derretimento pelo aquecimento global, poderá ser ainda mais comprometida, colocando em risco o abastecimento hídrico de milhões de pessoas. Na Argentina e no Paraguai, a agricultura depende criticamente das chuvas do verão austral, cuja regularidade é garantida pelos rios voadores e bacias hidrográficas que nascem na Amazônia. Além disso, eventos extremos como as enchentes no Rio Grande do Sul e as secas históricas na Amazônia tenderão a se intensificar em frequência e gravidade, segundo os modelos climatológicos que soam o alerta há anos.

A destruição da floresta amazônica não apenas ameaça a estabilidade climática regional, mas poderá desestruturar cadeias produtivas inteiras, forçando deslocamentos populacionais e gerando insegurança alimentar e energética em escala continental, sem falar nos danos globais da emissão de gases do efeito estufa que esse processo pode incorrer. Estudos recentes estimam que a Amazônia armazena cerca de 200 bilhões de toneladas de carbono (Brienen et al., Nature, 2015).

Caso a floresta colapse e entre em processo de savanização, grande parte desse carbono será liberado na atmosfera, acelerando o aquecimento global e convergindo para os cenários mais agravados de aquecimento, acima de 2 graus. Isso se conectaria a outros sistemas instáveis, como o degelo do Ártico e o colapso da calota da Groenlândia, em um efeito dominó de tipping points globais, conforme descrito por Lenton et al. (Nature, 2019). Segundo esses cientistas, ultrapassar tais pontos pode levar o planeta a uma nova era geológica desestabilizada, marcada por temperaturas elevadas e eventos extremos irreversíveis. O colapso da Amazônia é um dos gatilhos mais próximos e perigosos dessa cadeia, e o Senado brasileiro está sendo o dedo a apertá-lo.

Para além das consequências ambientais no curto horizonte de tempo, a eventual aprovação do PL 2159/2021 trará consigo prejuízos multilaterais e comerciais de curto prazo ao Brasil, ao direcionar o país à rota de colisão com diversos compromissos assumidos em tratados e blocos internacionais. Imediatamente, se destaca o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, paralisado justamente por preocupações ambientais. O PL viola frontalmente cláusulas do acordo, como o respeito ao Acordo de Paris e ao princípio da precaução. França, Alemanha e Áustria já alertaram que não ratificarão o tratado caso o Brasil não fortaleça – ao invés de enfraquecer – suas salvaguardas ambientais.

A OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), baseada na cooperação e conservação regional, também terá seu funcionamento minado caso o PL 2159/2021 seja aprovado, haja vista o prejuízo reputacional já no curto prazo para o Brasil junto a seus vizinhos amazônicos, que afetará sua estratégia de integração e dificultará ações coordenadas contra o desmatamento e em favor do desenvolvimento sustentável – razão de ser daquela organização. Cabe ressaltar que esse prejuízo reputacional já foi exposto pela chancelaria colombiana publicamente, em razão das tensões causadas pela insistência brasileira em prospectar petróleo na Margem Equatorial, a despeito da fragilidade dos estudos e diligências de segurança para esse projeto.

A desfiguração do licenciamento ambiental tende a desestimular investimentos estrangeiros, especialmente em setores que exigem certificações ESG, com risco de interromper negociações multilaterais para além do tratado de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, que levou mais de vinte anos para ser negociado. Além de afetar diretamente exportações agrícolas e industriais, o Brasil ainda poderá sofrer sanções diplomáticas, comerciais e climáticas, como barreiras alfandegárias ambientais, e enfrentar processos em instâncias internacionais como a Organização Mundial do Comércio, comprometendo irremediavelmente a imagem internacional do país, justo quando ele busca protagonismo climático em foros tão importantes como o G20, Brics e a própria ONU.

Por fim, segundo o Instituto Socioambiental e o Observatório do Clima, o PL fere compromissos do Acordo de Paris (art. 4º) e da Convenção da Diversidade Biológica (arts. 6º e 8º), e contraria a jurisprudência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), especialmente quanto ao direito a um meio ambiente saudável e à consulta prévia a povos indígenas, prevista na Convenção 169 da OIT e na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (art. 32).

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, §1º, inciso I, impõe ao poder público, incluindo o Congresso Nacional, o dever de “preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas”, o que implica a garantia da sustentabilidade intergeracional, isto é, assegurar os direitos ambientais não apenas para a presente, mas também para as futuras gerações.

Sediar a COP30 em Belém é uma oportunidade histórica de liderança, mas liderança exige exemplo e coerência. Quando o Brasil conclama o mundo a rever suas contribuições nacionais determinadas (NDCs) à luz do fracasso do Acordo de Paris, em um mundo que já rompeu o limite de aquecimento global de 1,5 graus, em vez de inspirar pelo exemplo, o Senado estará legalizando a degradação, a poluição atmosférica e o desmatamento ambiental, caso o PL 2159/2021 seja aprovado. Tamanha contradição comprometerá todos esses acordos necessários e almejados para a COP30, afastará parceiros internacionais e enfraquecerá o protagonismo diplomático do Brasil no cenário global, além de prejudicar irremediavelmente a imagem do governo federal perante a opinião pública brasileira, com consequências diretas para o pleito de 2026.

Jared Diamond, em seu livro Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, publicado há vinte anos, lista diversos exemplos históricos de sociedades que fizeram escolhas civilizacionais que respeitam seus ecossistemas e recursos naturais, bem como aquelas que fizeram o contrário, e por isso não mais existem. Estamos hoje, no Brasil, precisamente diante de um destes momentos históricos. Nas palavras do autor:

“O que mais me impressiona nas sociedades do passado é que muitas delas cometeram erros ambientais catastróficos mesmo tendo exemplos prévios diante de si. Elas sabiam o que estavam fazendo – mas fizeram assim mesmo.”

A Amazônia não é apenas uma floresta – é um sistema climático vital para a América do Sul e o planeta. O PL 2159/2021 é mais do que uma proposta legislativa: é uma sentença de morte para esse bioma, e muito além. O Congresso Nacional e especialmente o Senado têm a escolha de consagrar o maior retrocesso ambiental da história e condenar o equilíbrio climático no Brasil e na América do Sul, ou ser uma força de liderança e responsabilidade para frear a erosão democrática e a normalização do absurdo, e liderar uma transição econômica e ecológica que abrirá novas cadeias de desenvolvimento, paz e estabilidade democrática. O mundo e a sociedade brasileira estão observando.

Hamas venceu: inteligência morreu

Em geral, artigos em jornal morrem no dia seguinte à sua publicação. Mas, ao assistir ao noticiário do último fim de semana sobre a violência do exército israelense em Gaza, 20 meses depois de um artigo, publicado em outubro de 2023, creio que se justifica republicá-lo, sem mudar uma vírgula, nem título:


"Nenhum país do mundo tem o acervo de Israel em inteligência. Apesar disso, a política externa israelense não consegue construir uma nação em paz com seus vizinhos porque, ao serem provocados por grupos terroristas, seus dirigentes abandonam a inteligência da diplomacia, construtora da convivência no longo prazo, e optam pelo poder militar, da destruição da população palestina. Caem nas armadilhas dos que precisam incentivar o radicalismo que se retroalimenta impedindo a paz e promovendo o ódio que os terroristas precisam.

O Hamas aproveitou um primeiro-ministro israelense fragilizado política e moralmente, sem estatura de estadista, defensor da ocupação de todo o território palestino. Seus terroristas invadiram Israel, assassinaram e sequestraram centenas de civis e conseguiram provocar a reação militar contra a população de Gaza. Sacrificaram os próprios irmãos palestinos soterrados em escombros, mas venceram porque mataram a inteligência que caracteriza a história e o pensamento judaico.

Sobre os escombros de Gaza e os cadáveres de crianças palestinas, o Hamas venceu ao trazer Israel para a barbárie. Mesmo que o exército de Israel mate todos os militantes do Hamas e seus irmãos, primos e netos e destrua todos os prédios onde eles habitam, no longo prazo, Israel não terá vencido a guerra, porque muitos dos que se opõem ao Estado de Israel devem estar usando a destruição de Gaza e as imagens de crianças soterradas para alimentar o antissionismo (contra a criação do Estado de Israel) e o antissemitismo (contra o povo judeu). O Hamas conseguiu diminuir o número dos que dizem: "Faça o que fizer o governo de Israel com as crianças de Gaza, continuarei respeitando e admirando o povo judeu".

O mundo precisa continuar a respeitar e ser solidário com os judeus, não esquecer as diásporas, genocídios, holocaustos e guetos que eles sofreram, mas Israel precisa de estadistas que não pratiquem diáspora, genocídio, holocausto, guetos contra os palestinos.

Segundo Hannah Arendt, o nazista gestor da "solução final" foi um burocrata banal movido pelo clima antissemita, hoje os dirigentes israelenses são políticos banais com obsessão por solução militar, sem inteligência política nem diplomática, sem visão de longo prazo, movidos pelo clima de raiva provocado por um insano e bárbaro grupo terrorista. Políticos banais que, para atender ao explicável desejo de vingança dos eleitores israelenses, cometem o erro moral de explodir bombas contra famílias para atingir um bandido que está no meio, e o erro histórico de comprometer o próprio país, mantendo-o em guerra permanente; além de provocar a erosão do apoio internacional para a causa do direito de Israel a sua sobrevivência. Presos ao imediato, reagindo a terroristas, os políticos banais usam o direito de Israel a se defender no presente contra alguns terroristas e matam a chance de convivência no longo prazo com os palestinos. O ódio e a raiva matam a inteligência e dão ao Hamas a vitória de serem confundidos com o povo que sacrificam. Matam alguns indivíduos criminosos dando-lhes a vitória da sobrevivência e fortalecimento da ideia do antissionismo. A morte da inteligência impede os políticos banais de Israel de agirem para matar as ideias que alimentam o terror. Matam alguns ou todos terroristas insanos alimentando as ideias insanas que seguirão motivando novas gerações.

Se fossem estadistas, denunciariam a brutalidade desumana dos terroristas, preparariam as armas, mas convenceriam seus eleitores de que o momento da vitória chegaria com o apoio do mundo inteiro, inclusive de palestinos, chocados com os atos do Hamas e com a própria tragédia social em que vivem sob o governo desse partido insano. E formulariam um mapa para a construção de dois Estados convivendo em paz. Essa seria a verdadeira derrota do Hamas, sem dar-lhes o combustível de milhares de inocentes soterrados nos escombros que servirão de plataforma para ampliar o terrorismo, o antissionismo e o antissemitismo."

Cego e lerdo, torpe e indecente

Mas por que a verdade gera o ódio? Por que os homens olham como inimigo aquele que a prega em teu nome, uma vez que amam a felicidade, que mais não é que a alegria nascida da verdade? Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente que amam, querem que seja verdade; e, não admitindo ser enganados, também não querem ser convencidos de seu erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem aquilo que tomam pela verdade. Amam-na quando ela brilha, mas odeiam-na quando os repreende; e, como não querem ser enganados, mas enganar, eles a amam quando ela se manifesta, mas a odeiam quando ela os denuncia. Porém ela os castiga; não querem ser descobertos pela verdade, mas esta os denuncia, sem que por isso se manifeste a eles. É assim o coração do homem! Cego e lerdo, torpe e indecente: quer permanecer oculto, mas não quer que nada lhe seja ocultado. Em castigo, sucede-lhe o contrário: não consegue esconder-se da verdade, enquanto esta lhe continua oculta. Contudo, apesar de tão infeliz, prefere encontrar alegrias na verdade que no erro. Será, portanto, feliz quando, livre de perturbações, se alegrar somente na Verdade, origem de tudo o que é verdadeiro. 
Santo Agostinho, “Confissões“

Os brasileiros do Chega

Mulher, negra e imigrante. A brasileira que fez questão de ir às comemorações do Chega, partido de extrema-direita que elegeu 58 deputados para a Assembleia da República, é o retrato claro de parcela dos imigrantes que estão em Portugal e defendem, equivocadamente, políticas restritivas para quem vem de fora com o intuito de construir uma nova vida no país.

Em um tom acima do normal, olhando para as câmaras das tevês, ela ressalta que é trabalhadora, que paga seus impostos, como se os demais imigrantes fossem vagabundos e só estivessem em território luso para se aproveitarem de benesses governamentais, como prega o líder do partido radical, André Ventura.


Como a brasileira — negra e imigrante —, muitos conterrâneos dela espalhados por Portugal depositaram nas urnas votos no Chega. Insuflados por mentiras e propagandas de incentivo ao ódio e à xenofobia, esses brasileiros acreditam que são imigrantes de primeira classe, que têm todos os direitos de estar em Portugal, enquanto os demais, sobretudo indianos, nepaleses, bengalis e paquistaneses, devem ser barrados e expulsos do território luso.

Em entrevista ao PÚBLICO Brasil, uma produtora cultural disse que fazia questão de votar nas eleições de domingo por acreditar que Portugal estava livre do fascismo que ela viu crescer no Brasil nos últimos anos e que a apavorou. Contudo, muitos brasileiros que vivem em terras portuguesas têm batido no peito e falado, em alto e bom som, que as propostas fascistas e anti-imigração do Chega — endossadas por 23% dos eleitores — são “muito bem-vindas”.

Não são apenas brasileiros que vivem em Portugal que apoiam o partido de André Ventura. Nas eleições de 2024, o Chega teve a maioria dos votos dos portugueses que moram no Brasil, a ponto de eleger um deputado no círculo fora da Europa. E, muito provavelmente, não será diferente neste ano — os resultados serão conhecidos nos próximos dias. Isso só confirma o quanto a indústria das fake news administrada pela extrema-direita é eficiente e está disseminada.

Portugal, onde se imaginava haver um cordão sanitário para barrar o extremismo de direita, está flertando com o perigo. E, ressalte-se, parte dos brasileiros, que formam a maior comunidade de imigrantes do país, tem contribuído para esse movimento perigoso, ao propagandearem mentiras.

Recentemente, um português açougueiro me disse que as principais fontes de informação dele eram grupos de WhatsApp administrados por cidadãos do Brasil, em que o discurso majoritário era sobre como “a esquerda estava destruindo Portugal ao defender a imigração”.

Impor regras para a imigração é do jogo, assim como integrar os imigrantes à sociedade em que vivem. Mas transformá-los em bandidos como arma eleitoral é inaceitável. E, pior, dá votos.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


O que importa ao Estado

Nascemos sujeitos. Desde o momento de nosso nascimento somos sujeitos. Uma marca dessa sujeição é a certidão de nascimento. O Estado aperfeiçoado detém e mantém o monopólio de certificar o nascimento. Ou você recebe (e leva consigo) uma certidão do Estado, adquirindo assim uma identidade que no curso da vida permite que o Estado o identifique e localize (vá em seu encalço), ou você segue em frente sem uma identidade e se condena a viver fora do Estado como um animal (animais não têm documentos de identificação).

Não apenas lhe é vedado entrar no Estado sem identificação: aos olhos do Estado, você não morre enquanto não tiver uma certidão de óbito; e a certidão de óbito só lhe pode ser dada por um funcionário que possua ele (ela) próprio (a) uma certidão do Estado. O Estado procede com extremo rigor na certificação da morte - veja-se o envio de uma horda de cientistas forenses e burocratas para esquadrinhar, fotografar, cutucar e espetar a montanha de corpos humanos deixada pelo grande tsunami de dezembro de 2004 a fim de determinar suas identidades. Não se poupam despesas para garantir que o censo de sujeitos esteja completo e acurado.

Se o cidadão vive ou morre não é preocupação do Estado. O que importa para o Estado e seus registros é se o cidadão está vivo ou morto.

J. M. Coetzee, "Diário de um ano ruim" 

Expulsando ‘fascistas’ do campus

A imagem das universidades públicas brasileiras talvez nunca tenha sido tão ruim. É crescente o número de pessoas convencidas de que se trata de um desperdício de recursos, já que essas instituições estariam mais empenhadas em formar militantes radicais de esquerda —e não os profissionais de que o país precisa—, além de oferecerem a estudantes privilegiados um parquinho privado e caríssimo para o desfrute narcisista, entre pares, de sua ideologia.

Em vez de entregar formação de alto nível, ciência e inovação, as universidades seriam parte da linha de produção da elite identitária. E, longe de espaços de liberdade intelectual, teriam se tornado ambientes intolerantes ao pluralismo de ideias e clubes privados dos progressistas, desconectados da população que os sustenta.

Não deveria ser necessário dizer isso, mas, nestes tempos em que a raiva política precede a leitura do texto, é preciso esclarecer: trata-se da percepção pública. Sei que as universidades públicas são muito melhores do que a imagem que delas fazem seus detratores. Acontece que, na hora da decisão parlamentar sobre os enormes orçamentos das universidades, ou quando se discute, por exemplo, se vale a pena gastar tanto com o ensino superior em vez da educação básica —dado o cobertor curto da fazenda pública—, é essa percepção, não a realidade, que costuma decidir as coisas.


Feito o diagnóstico, surgem os clichês para justificar os fatos. A esquerda tem uma coleção deles, que vai desde o "à direita interessa destruir a universidade pública para manter a dominação da elite" até o "a extrema direita sabe que a universidade é a última resistência contra o fascismo". Mas recusa qualquer explicação sobre a deterioração da imagem das universidades públicas que envolva os próprios progressistas e as consequências de seus atos.

Esses atos, contudo, não são poucos. Não vou comentar o uso da universidade como laboratório de provocação social por parte de vanguardas identitárias, nem os cancelamentos semanais de professores acusados de racismo, misoginia ou transfobia, com ampla repercussão. Tampouco o avanço do lobby trans nas universidades, que, a golpes de acusações de transfobia, vem aprovando, de forma atropelada, cotas para pessoas trans em todos os níveis. Sobre isso, gostaria muito de entender como a esquerda pretende explicar aos eleitores, no ano que vem, que "pessoas não binárias" são vítimas mais merecedoras de políticas compensatórias do que, por exemplo, adolescentes mães solteiras ou filhos de pais analfabetos.

Tudo isso tem um impacto tremendo sobre o que se pensa das universidades públicas, mas hoje quero chamar atenção para outro fenômeno: a violência contra "intrusos" de direita. Na semana passada, foi na Universidade Federal Fluminense; na anterior, na Universidade Federal de Minas Gerais. Toda semana há um novo episódio.

O roteiro é conhecido. Provocadores de direita, cientes da imagem que as universidades têm, visitam determinados campi para demonstrar que são ambientes de uma só ideologia, usados como propriedade ideológica privada pelos progressistas e, além de tudo, intolerantes e violentos. E, invariavelmente, provam-no. Filmam pichações, banheiros degradados e registram o uso político "monoideológico" do espaço público. Por fim, são expulsos por turbas de estudantes de esquerda, à base de tapas, ameaças, pauladas e berros de "recua, fascista, recua!". Tudo isso transmitido ao vivo em canais digitais.

O provocador obtém, invariavelmente, o que foi buscar: a demonstração de que a esquerda não suporta divergências, de que não há espaço para conservadores na universidade, de que os progressistas são dogmáticos e violentos. Os estudantes de esquerda, também. Afinal, consideram-se guerreiros da justiça que enfrentaram mais uma batalha contra bárbaros fascistas que ousaram entrar em seu território, e acreditam ter defendido a democracia dos intolerantes —mesmo que à base de pauladas e insultos, como deve ser. No dia seguinte, reitorias e conselhos lamentarão, não o fato de que pessoas tenham sido expulsas do campus por razões ideológicas, mas o fato de que "pessoas estranhas à comunidade" tenham ousado conspurcar os nossos templos do saber e da liberdade.

Todos ganham: cada lado confirma a própria superioridade moral e comprova que o outro é intolerante e perigoso. Só quem perde é a universidade pública, claro. Mas quem se importa? Há causas mais urgentes a cumprir —como "destruir o fascismo", para uns, ou "provar que a universidade é um antro de reprodução de militantes com dinheiro público", para outros.

Cerco de Gaza: 'Vou dormir pensando que não vou acordar'

"Estamos vivendo um inferno. A segurança e a vida em Gaza perderam o sentido", disse Alaa Moein à DW da Cidade de Gaza, onde buscou refúgio com a esposa e os três filhos. "Todos os dias penso que vou morrer com meus filhos. Vou para a cama à noite pensando que nunca mais vou acordar", continua a mulher de 35 anos.

Moein e sua família fugiram da cidade de Jabaliya no final da semana passada enquanto mísseis caíam no norte da Faixa de Gaza em meio a uma crescente ofensiva israelense . Os cinco agora estão amontoados em um único quarto com outros parentes. Além da ameaça constante que paira sobre suas vidas, a família de Moein também luta para encontrar algo para comer. "Não temos pão nem comida. Comemos tudo o que encontramos, sem saber se é comestível. Dependemos de ervas e da culinária. Tudo é caro. Usei todas as minhas economias para comprar comida", diz Moein.


A história de Moein, que foi deslocado inúmeras vezes e sofre de fome constante, é comum em toda Gaza, lar de cerca de 2,1 milhões de pessoas e devastada pela guerra. O agricultor Naim Shafi'i e sua família mais uma vez tiveram que fugir de sua casa nos arredores de Beit Lahia, no norte de Gaza. Agora ele vive em uma tenda na Cidade de Gaza, que ele montou na beira da estrada. "Os bombardeios não pararam [no norte], estão em todo lugar", disse o homem de 39 anos à DW por telefone. O Governo de

Israel não permite a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza desde que iniciou sua guerra contra o Hamas em 2023, após ataques contra Israel pela organização, que é considerada uma organização terrorista pela União Europeia, pelos Estados Unidos e por outros países. Por isso, a DW muitas vezes precisa falar com os moradores de Gaza por telefone. "Eu tinha um saco de farinha e o levei comigo. Era a coisa mais importante que eu poderia levar quando saímos de Beit Lahia", diz Shafi'i.

Quando Shafi'i retornou a Beit Lahia em janeiro, em meio a um cessar-fogo entre o exército israelense e o Hamas, ele plantou alguns vegetais perto do prédio bombardeado onde eles haviam se refugiado. Agora esse jardim também desapareceu.

"Todos os dias há notícias de um possível cessar-fogo e, na manhã seguinte, tudo o que vemos é bombardeio, destruição e matança. Não sei para onde vamos a partir daqui", diz ele.

O governo israelense anunciou no domingo que começaria a permitir ajuda limitada em Gaza, suspendendo parcialmente um bloqueio humanitário de 11 semanas que deixou uma em cada cinco pessoas no território enfrentando fome.

Israel alegou que o bloqueio faz parte de uma estratégia de "pressão máxima" que visa derrubar o Hamas e forçar o grupo militante palestino a libertar os 58 reféns restantes. Cinco caminhões da ONU transportando ajuda humanitária cruzaram para Gaza na segunda-feira, de acordo com a unidade COGAT do Ministério da Defesa de Israel, que monitora as travessias de Israel para Gaza.

As Nações Unidas disseram que Israel autorizou um total de nove caminhões a cruzar a fronteira para Gaza na segunda-feira (19.05.2025). A agência acrescentou que era muito perigoso permitir que os caminhões continuassem sua jornada para o território tão tarde da noite.

Os nove caminhões são "uma gota no oceano do que é urgentemente necessário", disse o chefe de ajuda da ONU, Tom Fletcher, que pediu que muito mais ajuda seja permitida em Gaza. Notícias de que uma "quantidade básica de comida" seria permitida em Gaza se espalharam por todo o território.

"É bom que algo se saiba, mas até agora não vimos nenhuma mudança", disse Raed al-Athamna à DW da Cidade de Gaza, onde mora com a família.
Alertas de evacuação em massa antes da ofensiva israelense

Enquanto a ajuda é autorizada a chegar, as Forças de Defesa de Israel (IDF) continuam sua ofensiva terrestre. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram no domingo que tropas terrestres estavam operando em diversas áreas no "norte e sul da Faixa de Gaza" como parte de uma nova ofensiva militar com o codinome "Operação Gideon".

Na semana passada, o exército israelense emitiu alertas significativos de evacuação para algumas áreas de Gaza, incluindo os arredores de Khan Yunis, a segunda maior cidade de Gaza, e Rafah, no sul, bem como vários bairros no norte de Gaza.

Antes do último alerta de evacuação ser emitido para Khan Yunis, mais de dois terços da Faixa de Gaza já estavam sob ordens de deslocamento ou em zonas militarizadas por Israel, de acordo com as Nações Unidas. Autoridades da ONU já descreveram o deslocamento em massa de civis dentro de Gaza como um possível crime de guerra.

O último cerco de Israel a Gaza atraiu duras críticas internacionais . O primeiro-ministro do Catar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, cujo país tem sido um mediador fundamental entre Israel e o Hamas, disse que "o comportamento irresponsável e agressivo de Israel prejudica qualquer possibilidade de paz".

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também alertaram em uma declaração conjunta na segunda-feira que "não ficaremos de braços cruzados", ameaçando "tomar mais medidas concretas" se Israel continuasse a bloquear a ajuda.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reagiu na terça-feira  dizendo que os três líderes "estão oferecendo um prêmio enorme pelo ataque genocida [do Hamas] contra Israel em 7 de outubro [de 2023] e convidando mais atrocidades desse tipo" ao exigir que Israel encerre seu cerco. "Esta é uma guerra da civilização contra a barbárie . Israel continuará a se defender com meios justos até que a vitória total seja alcançada", disse Netanyahu.

De volta à Cidade de Gaza, Raed Al Athamna e sua família estão entre aqueles que buscam refúgio após fugir de Beit Hanoun, uma cidade perto da fronteira com Israel. Esta é a segunda vez que eles são deslocados; A primeira ocorreu logo após Israel lançar sua guerra contra o Hamas em retaliação aos ataques realizados pelo grupo islâmico radical palestino em Israel em outubro de 2023.

Por enquanto, as noites de Al Athamna consistem em se mover de um canto do apartamento para o outro, em um esforço para se manter segura. "Ouvimos os caças F-16 bombardeando o tempo todo. Às vezes, eles chegam muito perto e o chão treme", explica ele.

"No momento, a pior parte são as noites. Estamos só esperando a manhã seguinte", continua ele, acrescentando que sua família estava exausta por não conseguir dormir. Sua família passa os dias procurando comida e outros suprimentos, esgotando cada grama de sua energia. "Ficamos oito dias sem comer pão", explica ele. "Comemos lentilhas cozidas uma vez [na segunda-feira], mas as crianças sempre me pedem mais comida; elas estão sempre com fome." E ele acrescenta que cada vez mais pessoas estão se aglomerando na cidade, com barracas surgindo por toda parte. "As pessoas não sabem para onde ir."

Apoteose da corrupção trumpista

Uma nova era de corrupção começou. Conhecia-se a sua extensão no trumpismo, mas não as dimensões astronômicas e a ausência de limites legais ou morais reveladas em apenas quatro meses, após a desativação dos famosos freios e contrapesos . A primeira presidência foi apenas um ensaio geral. Com a segunda onda, pilhagens, extorsões, propinas e subornos adquiriram alcance e magnitude globais, além do escopo da investigação ou mesmo da compreensão.

Se um marco fosse marcado, seria difícil encontrar um momento tão significativo quanto a viagem de negócios presidencial a três monarquias do Golfo, onde as pessoas mais ricas do mundo se reuniram em palácios enormes e cerimônias gigantescas em torno do destruidor da democracia americana e dos monarcas absolutos que governam seus países como se fossem propriedade privada. Um emblema perfeito dessa corrupção flagrante é o avião de US$ 400 milhões que o presidente dos Estados Unidos receberá como um presente gentil do emir do Catar.


Interesses públicos e privados são inseparáveis para Donald Trump, que se olha no espelho das autocracias árabes e se sente como o pequeno rei dono de um vasto emirado americano. O significado da viagem preparatória que precedeu a sua é eloquente. Os filhos do presidente, Eric e Donald Jr., e Steve Witkoff, o negociador presidencial para tudo (Gaza, Irã e Ucrânia), fecharam acordos enormes com as famílias reais, especialmente em imóveis e criptomoedas. Os Trumps pretendem se posicionar entre os maiores magnatas das criptomoedas por meio da plataforma World Liberty Financial, atraindo investimentos estrangeiros de empresas, indivíduos e fundos soberanos, além de deterem a política regulatória e todos os poderes presidenciais.

Um bom número de decretos presidenciais serve para abrir caminho para tais negócios suspeitos. Merece destaque a suspensão de seis meses da Lei de Práticas Corruptas de 1977, uma lei pioneira na época para processar criminalmente empresas que pagam propinas no exterior. O Departamento de Justiça eliminou forças-tarefa e orçamentos para investigar, processar e apreender bens de oligarcas russos sancionados pela invasão da Ucrânia, combater a influência de agentes estrangeiros e lidar com campanhas de desinformação. Com o desaparecimento da agência de desenvolvimento internacional USAID, os subsídios para jornalismo investigativo e organizações que combatem a corrupção internacional foram cancelados.

A abordagem transacional de Trump dificilmente pode ser separada da corrupção, da extorsão e, por fim, da transição para a cleptocracia. Com dinheiro e poder coercitivo, é fácil forçar as coisas e comprar testamentos. Nenhum acordo é impossível, e qualquer decisão presidencial pode gerar receitas substanciais. Até mesmo o direito ao perdão, que ele exerceu generosamente com seus seguidores condenados pelos tribunais, tornou-se “o Velho Oeste”, nas palavras do conservador The Wall Street Journal , graças ao mercado febril de compra e venda de perdões.

No mundo de Trump, a ética é uma dimensão desconhecida. Não há conflitos de interesse ou incompatibilidades. Elon Musk é o modelo ético. Ele financiou e participou da campanha eleitoral de Trump e, mais tarde, ocupou um cargo único e não remunerado à frente do Departamento de Eficiência Governamental. Dedicado a eliminar agências e demitir dezenas de milhares de funcionários, ele se beneficiou diretamente do desaparecimento de agências e departamentos reguladores que poderiam prejudicar seus negócios. Devido à sua influência, a implementação da Lei de Transparência Corporativa, um elemento-chave no combate ao financiamento do terrorismo e à lavagem de dinheiro, foi suspensa. Essa legislação exigia a identificação dos verdadeiros proprietários das empresas e proibia empresas de fachada. Os diretores da Biblioteca do Congresso e o chefe do Escritório de Direitos Autorais foram removidos, provavelmente a conselho de Musk, que está irritado com as atuais leis de propriedade intelectual que cercam suas empresas de inteligência artificial.

A supervisão legal sobre lavagem de dinheiro, fraude em licitações e corrupção em geral foi destruída ou neutralizada. Esta é a nova ordem internacional trompista. Em vez do líder do mundo livre, um líder corrupto e corruptor está comandando os negócios globais. A cidade brilhante no topo de uma colina que deveria inspirar com seu caráter liberal e democrático exemplar, evocada por Ronald Reagan quatro décadas atrás, agora é a fortaleza corrupta de Mordor, atraindo elogios e agradecimentos de ditadores e oligarcas. Trump deu a eles permissão para se governarem como quiserem e atenderem melhor aos seus interesses comerciais, em troca de compras substanciais de armas e investimentos nos Estados Unidos. O semáforo é verde para crimes de Estado e violações de direitos humanos. O crime global está em festa. Eles tomaram o poder.

Ninguém ganha com um planeta destruído

Tive o prazer de conhecer a diplomata costa-riquenha Christiana Figueres há alguns anos, em Londres. Completamente intimidada pela força daquela mulher — que liderou as negociações do Acordo de Paris, em 2015 —, não me atrevi a me aproximar. Fiquei feliz apenas em ouvi-la e observá-la cercada por pessoas do mundo inteiro, ávidas por uma palavra sua.

Quase uma década depois do Acordo de Paris, Christiana permanece otimista, apesar do ritmo lento no cumprimento das metas climáticas. Para ela, o otimismo não é ingenuidade — é uma escolha consciente, bem informada, baseada no reconhecimento dos enormes desafios. Foi o que afirmou em uma recente entrevista ao site Fair Planet. Entre suas maiores decepções está o comportamento da indústria dos combustíveis fósseis e seus lucros exorbitantes ao longo do tempo. Ainda assim, ela vê sinais positivos: a demanda por esses combustíveis está em queda, o que considera uma boa notícia.


No campo da ação climática, sabe-se que já temos a tecnologia, o capital e o conhecimento científico necessários para reduzir pela metade as emissões até 2030. Falta agora transformar possibilidade em ação.

Em sua newsletter publicada no fim de 2024, no site do grupo Global Optimism, Christiana compartilhou a emoção de se tornar avó, justamente enquanto se preparava para a COP29, em Baku. Era um misto de alegria e apreensão diante do mundo que esse novo ser encontraria. Ao ler suas palavras, lembrei-me de um evento aqui em Brasília em que a jornalista Sônia Bridi — uma das grandes vozes do jornalismo ambiental brasileiro — falava, também emocionada, sobre as incertezas deste mundo volátil. E sobre o futuro de seus netos.

Já são quase 30 anos de negociações climáticas — e, embora os avanços tenham sido muitos, ainda há um longo caminho. Além das metas do Acordo de Paris, os países agora concordaram em eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, encerrar subsídios ineficientes, deter o desmatamento até 2030, operacionalizar o mercado global de carbono e, em sua maioria, aderiram ao Global Methane Pledge.

Governos, organizações e líderes de todo o mundo agora se preparam para a COP30, em Belém. A expectativa de vozes como a de Christiana Figueres é que o encontro seja menos sobre negociações e mais sobre ação. Que traga soluções concretas, com foco em financiamento sustentável, tecnologia e equidade.

Sobre isso, Christiana é clara: a COP precisa reconhecer que a atual degradação da natureza — com a escassez de água doce e a poluição dos oceanos — afeta diretamente a vida de comunidades no mundo inteiro.

Entre as muitas frases marcantes que ouvi dela, uma segue ecoando dentro de mim: “Ninguém ganha com um planeta destruído.”

terça-feira, 20 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


Velho, pobre, mal educado

O País jovem, tendo a porta aberta para um destino de prosperidade e bem-estar ao lado das grandes nações, parece ter-se perdido na história. O Brasil como que se conformou em ficar nas posições intermediárias na corrida mundial pelo progresso. E os brasileiros, em média, concordaram com isso. Muita coisa melhorou – e melhorou muito nas últimas décadas. Mas também em muitas coisas o Brasil patinou, quando não andou para trás. Não se trata de buscar responsáveis. Trata-se de entender como o Estado e a sociedade lidaram e lidam com as grandes questões que afetam a qualidade de vida de cada brasileiro.


O Brasil envelheceu, não ficou mais rico e continua lendo e escrevendo mal. É este o retrato que pesquisas recentes nos mostram. Há informações estimulantes e animadoras, o que nos permite alimentar sonhos. Mas há também a constatação de como nos acostumamos com a mediocridade, o que deveria levarnos a refletir sobre o que temos feito de nós mesmos.

Nascem cada vez menos brasileiros. As Estatísticas do Registro Civil divulgadas na sexta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2023, o País manteve a tendência de redução do número de nascimentos, observada por cinco anos consecutivos. Em 2023, foram registradas nos cartórios 2,523 milhões de crianças nascidas naquele ano. É o menor número desde o início da pesquisa, em 2015.

Demógrafos preveem que a queda do número de nascimentos se manterá até o fim do século. A taxa de fecundidade já está abaixo do nível de reposição da população (dois filhos por mulher). Por isso, talvez em menos de duas décadas a população total do Brasil começará a diminuir. E será uma população com idade média mais alta. O chamado bônus demográfico, período em que a proporção da população em idade ativa é maior do que a de idosos e crianças, começou há várias décadas, mas está se esvaindo e se esgotará em algum momento não muito distante.

É uma mudança do padrão demográfico que, nisso sim, iguala o Brasil aos países desenvolvidos. Mas o País chegou a essa condição sem ter alcançado indicadores fundamentais que as nações mais prósperas do planeta já tinham alcançado, como renda média alta, menos desigualdade de renda, escolaridade mais elevada, alto nível de produtividade da economia, bem-estar social como característica predominante de seu padrão de vida, horizonte para a vida dos jovens.

Dados de curto prazo podem instilar algum otimismo. A informalidade no mercado de trabalho baixou para seu menor nível desde a pandemia de covid-19, em 2020. Excetuado esse período, em que os indicadores sociais e econômicos tiveram fortes oscilações (para mais ou para menos, mas superadas nos anos seguintes), a taxa de informalidade aferida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua atingiu seu nível mais baixo desde o início da série da pesquisa. Também o chamado desperdício de mão de obra, medido pelo critério de taxa de subutilização da força de trabalho, ficou no segundo nível mais baixo de toda a série da Pnad Contínua.

Juntando outras informações recentes, como o aumento da população economicamente ativa (e ainda assim houve queda do índice de desemprego ou sua manutenção em níveis historicamente muito baixos), do número de trabalhadores empregados e da renda real média, vê-se um mercado de trabalho dinâmico.

A mesma Pnad Contínua examinou o padrão de rendimentos da população e constatou que, em 2024, pelo terceiro ano consecutivo cresceu o rendimento domiciliar. É mais dinheiro para as famílias. O aumento veio acompanhado de outro dado animador. O Índice de Gini voltou a cair no ano passado (tinha ficado estável no ano anterior), para 0,506. É o menor nível desde o início da pesquisa, em 2012. O Índice (ou coeficiente) de Gini é o indicador universalmente utilizado para aferir a distribuição de renda de um território, um grupo ou um país. Varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade na distribuição. Ou seja, o Brasil ficou menos desigual, ainda que de maneira muito discreta.

Mas esse mesmo país deixou o futuro escapar-lhe das mãos, pois não soube cuidar de outro aspecto essencial para o progresso e o bem-estar de sua sociedade. Tratou e continua a tratar mal o ensino da população. O dado mais impressionante que prova essa desídia social é o que mostra a persistência do analfabetismo. O Brasil tem 29% de analfabetos funcionais. É o mesmo índice de 2018. Não conseguiu melhorar nada. São mais de 60 milhões de pessoas que não conseguem ler palavras ou números ou, quando conseguem, têm dificuldades para entender o texto ou fazer contas com números maiores. O dado faz parte de uma pesquisa de uma instituição privada, com o apoio de empresas privadas. É um triste retrato de um país parado no tempo em matéria de educação, vital para o progresso.

Que o fracasso nos seja suave

"Suave fracasso" foi a expressão que ouvi muitos anos atrás da boca do embaixador Rubens Ricupero para qualificar o Brasil. Quanto mais o tempo passa, mais me convenço da precisão do diagnóstico.

Muita coisa aconteceu desde que saí em férias duas semanas atrás, mas nada mudou. Os três Poderes da República continuaram a dar sucessivas demonstrações de incúria. O Legislativo, cobrado pelo Judiciário a dar materialidade à norma que determina que as bancadas dos estados na Câmara obedeçam ao critério da proporcionalidade populacional — pilar da democracia representativa—, propõe uma regra que obviamente a viola.


Aumentar o número de deputados dos estados que ganharam habitantes sem reduzir o dos que perderam, além de ser medida perdulária, atropela a linguagem e a matemática. É o Legislativo atuando para burlar regra que ele próprio criou com o intuito de preservar conveniências antirrepublicanas.


Enquanto isso, o Judiciário, que, registre-se uma vez mais, foi importante para evitar o golpe de Estado tentado contra o país, não desperdiça oportunidades de vilipendiar a própria credibilidade.

Ministros do STF seguem no circuito Elizabeth Arden de convescotes no exterior, dão rédeas soltas aos apetites antiteto salarial de várias carreiras jurídicas e ignoram por completo os apelos para exercer a autocontenção e abandonar heterodoxias.

Já no Executivo, Lula, que foi eleito vendendo-se como contraponto democrático ao golpismo do antecessor, atravessa um oceano e um continente para sentar-se na primeira fila dos que foram aplaudir o belicismo de um dos mais nefastos autocratas da atualidade.

Também dá repetidos sinais de que não hesitará em sacrificar os interesses de longo prazo do país em favor da reeleição no ano que vem. No macro, a educação continua qualitativamente péssima e o bônus demográfico vai se fechando. O Brasil envelheceu sem ter enriquecido, e dificilmente conseguirá fazê-lo agora.

É claro, poderia ser pior. Daí a aplicação do adjetivo "suave".
 Hélio Schwartsman

Grande momento


Estamos num momento da História em que tanto podemos conseguir feitos notáveis como ir na direção de um grande desastre

Amin Maalouf

'Influenciadores do Tigrinho' e a cultura do escárnio

Nas redes sociais, Virginia Fonseca, a maior influenciadora do Brasil, com quase 53 milhões de seguidores, mostra sua vida em família e uma rotina de luxo, com direito a viagens de jatinho e exibição de bolsas e roupas de grife que chegam a custar R$ 1 milhão. É dela a frase: "me mimei", usada para mostrar que tinha comprado um presentinho para si mesma, uma bolsa da Hermés de R$ 500 mil.

Virginia é a representante do momento de uma categoria que abarca várias celebridades das redes sociais com milhares de seguidores: a dos " influenciadores do Tigrinho", aqueles que usam a fama para ganhar milhões anunciando de forma irresponsável jogos online com o Tigrinho ou as chamadas bets.

O vício nesse tipo de aposta é um problema de saúde pública seríssimo no Brasil. De acordo com pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cerca de 11 milhões de brasileiros fazem uso "arriscado" dos aplicativos de apostas. Outra pesquisa mostra que 22 milhões de brasileiros haviam apostado em bets em apenas um mês.


O problema é muito sério. Há quem gasta todo dinheiro que guardou na vida, quem rouba dos pais idosos, quem perde tudo e depois comete suicídio. E também quem deixa de comprar comida. Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), em parceria com a AGP Pesquisas, mostrou que 63% dos apostadores no país tiveram parte da renda comprometida com as bets. Outros 19% pararam de fazer compras no mercado e 11% não gastaram com saúde e medicamentos.

Mas os "influenciadores do Tigrinho" parecem não estar nem aí para nada disso. Na verdade, eles fingem nem saber que o Brasil vive uma epidemia de vício em apostas online e que eles, influenciadores anunciantes das apostas, têm, sim, participação nisso. Não adianta usar a desculpa de "só estou fazendo o meu trabalho" quando você está levando gente vulnerável a se endividar com a oferta tentadora de que há maneira fácil e rápida de ganhar dinheiro, o que é uma ilusão.

Semana passada, Virginia chocou parte do país ao comparecer à "CPI das Bets" no Senado em Brasília e se comportar como se não tivesse ideia do que estava fazendo. A CPI investiga os impactos das plataformas de apostas e jogos online no orçamento das famílias brasileiras, além de crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo apostas.

"A senhora não tem conhecimento de pessoas que tiraram suas vidas, de separações, de famílias indo à bancarrota de agiotas?", perguntou a senadora Soraya Thronicke. "Não", respondeu a influenciadora, como se vivesse em outro planeta. Ela também disse que não se arrepende de "absolutamente nada que já fez na sua vida".

A participação de Virginia na CPI gerou revolta e fez com que ela perdesse seguidores (o drama máximo para uma influenciadora). Mas, pelo jeito, ela não ligou. Neste sábado, ela foi filmada pulando e cantando com alegria um trecho de uma música composta por seu marido, Zé Felipe, em parceria com o trapper Oruam, que diz: "Tá doida com o dinheiro do Tigrim".

O vídeo foi filmado durante participação em reality produzido por outro mega "influenciador do Tigrinho", Carlinhos Maia. Ou seja, em outras palavras, Virginia e seus amigos influenciadores lucram e riem do sofrimento enquanto incentivam seus seguidores a ficarem doidos com o dinheiro do tigrinho.

Ela não é a única a divulgar esse tipo de coisa e ostentar riqueza nas redes. São muitos os influenciadores que fazem isso. Entre eles, há nomes bilionários como Neymar.

Essas pessoas vivem de influenciar as pessoas, diz o nome da profissão, mas o que fazem não é influência, mas exploração. E muitos dos seus seguidores ainda os defendem: "Cada um faz o que quer", "as pessoas têm inveja porque elas são ricas", muitos repetem, em coro. Onde foi parar a ética? Essa postura do "não estou nem aí" não devia ser "tendência".

Unidade partidária

— Sr. presidente, eu acho… — começou o orador, logo aparteado pelo líder:

— Perdão, vossa excelência não acha nada. É claro que o nobre deputado está de acordo com o pensamento do nosso partido.

— O nosso partido — tentou dizer o orador, e não prosseguiu, pois o líder e o primeiro vice-líder acudiram uníssonos:

— O nosso partido não está em discussão, aliás nunca pode estar em discussão. E vossa excelência sabe disso.


— Muito bem — confirmou o segundo vice-líder. — Não pronunciemos em vão o seu santo nome.

— É o que sempre digo aos nossos correligionários — interveio o terceiro vice-líder, chegando afobado ao recinto.

— Mas — tentou prosseguir o orador, que só tinha direito a este nome porque se inscrevera para falar, embora ainda não fizesse jus a ele.

— Não há mas nem porém nem todavia nem contudo no vocabulário de nossa pujante agremiação — sentenciou o líder. — O ilustre parlamentar que enobrece as nossas fileiras certamente não vai erigir o mas em bandeira partidária. Vai, pelo contrário, condenar esta anomalia, incompatível com a filosofia construtiva, otimista e desenvolvimentista do nosso valoroso partido, que apoia incondicionalmente a belíssima orientação do excelentíssimo doutor atual presidente da República.

O orador em perspectiva acenou com a cabeça que sim e sentou-se. Aprendera que toda palavra é escândalo, e que para evitá-lo todas as palavras são oportunas.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos plausíveis"

Uma contrarrevolução moderna

Em uma enxurrada de decretos e declarações de emergência, o presidente Donald Trump deu um golpe no governo americano e na ordem global. Ele está destruindo o Estado administrativo, fechando agências e demitindo funcionários federais. Está deportando residentes permanentes por seus discursos protegidos pela Primeira Emenda, revogando vistos de estudantes internacionais e enviando imigrantes para Guantánamo e para uma megaprisão em El Salvador. Ele está tentando eliminar a cidadania por direito de nascimento e cortando o financiamento de pesquisa das Universidades. Todos os dias, Trump lança outra ofensiva sem precedentes — ou muda de rumo, deixando seus críticos na dúvida enquanto se protege.

Ele continua extremamente popular entre sua base, mesmo que sua popularidade geral tenha caído para níveis recordes. Seus críticos, porém, o atacam de todas as formas possíveis. Chamam-no de fascista, autoritário, tirano, ferramenta cleptocrática dos bilionários da tecnologia, aproveitador, impostor de reality show, encarnação da masculinidade tóxica, valentão. No entanto, nenhum desses rótulos captura totalmente o alcance ou a coerência do que está acontecendo nos EUA hoje. Esses diagnósticos se concentram demais no indivíduo, e este é um indivíduo que, como um ilusionista virtuoso, mantém seu público hipnotizado pelo espetáculo e distraído do que realmente está acontecendo. Os desenvolvimentos radicais em curso devem ser colocados em uma perspectiva mais profunda. Não apenas porque muitos deles foram prefigurados no projeto de 900 páginas chamado Project 2025, mas também porque forças muito maiores impulsionaram a ascensão de líderes de extrema direita em todo o mundo.

Na verdade, o governo Trump II representa – a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas. O ativista conservador Christopher Rufo admitiu isso em uma entrevista recente ao New York Times: “O que estamos fazendo é realmente uma contrarrevolução. É uma revolução contra a revolução”. Na verdade, as ações do presidente Trump durante os primeiros cem dias de seu segundo mandato é o episódio mais recente de uma vasta e coerente contrarrevolução com um arco histórico mais longo e um alcance global mais amplo. 

Nesse sentido, é essencial voltar ao argumento de Marx em seu O 18 Brumário, de que a ascensão de Luís Napoleão não foi simplesmente uma história de um grande homem. O objetivo de Marx era demonstrar, em suas palavras, “como a luta de classes na França criou circunstâncias e relações que tornaram possível que uma mediocridade grotesca desempenhasse o papel de herói”. Temos a tendência de enfatizar o humor nessa frase em detrimento do impulso teórico. Mas o ponto importante é que nosso diagnóstico deve se concentrar nos conflitos sociais mais amplos e nas forças econômicas que são o motor da história em nível global, e não na ascensão de qualquer indivíduo — mesmo quando ele se assemelha a uma mediocridade grotesca.

Não quero minimizar a extravagância ou a natureza radical dos espetáculos diários do presidente Trump — o que Marx chamou, ao falar de Luís Napoleão, de seus “golpes de Estado em miniatura todos os dias”. Mas, em vez de focar nos truques diários, é importante entender, em primeiro lugar, as estratégias mais amplas que os motivam.

Nos primeiros meses do seu segundo mandato, o presidente Trump implementou três estratégias principais:  Criar inimigos internos. Com um recorde de 143 decretos executivos até 6 de maio de 2025 — mais do que qualquer outro presidente dos EUA, incluindo FDR —,Trump colocou na mira um punhado de alvos e transformou-os em inimigos internos: candidatos D.E.I. [Diversity, equality and inclusion]: um proxy para afro-americanos, hispânicos, deficientes e transgêneros), “ideologia de gênero” (um proxy para pessoas LGBTQ+), defensores das mudanças climáticas globais (ou qualquer pessoa que supostamente contribua para a “ansiedade climática”), imigrantes e estudantes internacionais, Universidades de ponta, funcionários federais e qualquer pessoa que tenha investigado ou processado pelo presidente norte-americano anteriormente.

Um dos principais artifícios que ele usa para demonizar esses inimigos internos é rotulá-los como malfeitores e privá-los de proteções legais. O presidente Trump adicionou a organização de tráfico de drogas Tren de Aragua à lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) dos EUA e invoca isso para caracterizar qualquer imigrante venezuelano nos Estados Unidos como um terrorista. Ele também invocou a Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798 para afirmar que os imigrantes venezuelanos são inimigos estrangeiros. O presidente Trump afirma que o Tribunal Penal Internacional de Haia é “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”; como resultado, funcionários americanos agora estão potencialmente sujeitos a sanções do país. Ademais, o governo cita o fato de que o Hamas é considerado uma FTO para caracterizar as pessoas que protestam contra a guerra de Israel em Gaza como apoiadores do terrorismo, mesmo que seu discurso seja protegido pela Primeira Emenda. 

Outra forma de atacar os inimigos internos é declarar emergências menores — como a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, a Lei de Emergências Nacionais ou, mais uma vez, a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798. O presidente Trump já anunciou uma dúzia dessas emergências. Há uma na fronteira sul dos EUA. Agora, as forças armadas dos Estados Unidos a policiam. Trump declarou uma emergência devido à “ameaça extraordinária representada por estrangeiros ilegais e drogas, incluindo o fentanil mortal” como base para impor tarifas ao Canadá, China e México. Ele também declarou uma emergência em relação à “insuficiente produção de energia, transporte, refino e geração dos Estados Unidos”.

O jurista nazista, Carl Schmitt, definiu um soberano como “aquele que decide sobre a exceção”. Algumas décadas depois, o filósofo Giorgio Agamben argumentou que as sociedades ocidentais haviam entrado em “um estado de exceção permanente”. Mas o presidente norte-americano utiliza as emergências apenas como um dispositivo técnico para exercer o poder executivo e demonizar inimigos internos; elas são apenas uma ferramenta entre outras e não constituem um estado de exceção global. Em vez disso, permitem-lhe reivindicar como suas as zonas cinzentas da lei e expandir as suas fronteiras (como com a deportação de residentes permanentes ou o corte geral do financiamento das Universidades ao abrigo do Título VI). Michel Foucault referiu-se a tais métodos como illégalismes (ilegalismos): criam um espaço entre o legal e o ilegal, onde é a contestação política que determina o que é permitido e o que não é.6 Eliminar esses inimigos internos. Em seguida, o presidente Trump erradica ou neutraliza esses inimigos produzidos. Ele está cortando programas de DEI, não apenas em todo o governo federal, mas também na indústria privada. O governo está tentando acabar com os cuidados de afirmação de gênero e banindo o reembolso pelo Medicaid para jovens menores de 19 anos. Revogou mais de 1.500 vistos de estudante em mais de 100 Faculdades e Universidades. Está eliminando empregos de dezenas de milhares de funcionários federais, deportando estudantes internacionais e residentes permanentes que protestaram contra a forma como Israel está conduzindo sua guerra em Gaza. Donald Trump prometeu enviar 30.000 imigrantes para Guantánamo. Operações de imigração estão ocorrendo em todo o país; em algumas, centenas de pessoas são presas ao mesmo tempo. Conquistar os corações e as mentes do povo americano. Todos os dias surge um novo segmento chocante do que parece ser um reality show. De acordo com um artigo do New York Times, Trump disse a seus assessores, antes de assumir o cargo em 2017, que eles deveriam “pensar em cada dia presidencial como um episódio de um programa de televisão em que ele derrota seus rivais”. Eles se superaram, em parte graças à revolução tecnológica. Musk, certa vez, descreveu o Twitter (antes de comprá-lo) como um ponto de acesso ao id gigante do povo americano. O Truth Social e o X agora estão dando a ele, ao presidente e a outros, o acesso constante e direto à libido nacional. Para sua base MAGA, isso tem sido uma fonte constante de entretenimento e justificação. No final do ataque verbal dele e do vice-presidente J.D. Vance ao presidente Volodymyr Zelensky no Salão Oval, em fevereiro, ele reconheceu: “Isso vai ser ótimo para a televisão”.

Essas três estratégias permeiam o segundo mandato do presidente Trump. Para compreendê-las, proponho dar um passo atrás — conceitualmente, historicamente e contextualmente.

Para explicar o que quero dizer com a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas, vou analisar cada termo separadamente.

Primeiro, uma “contrarrevolução” está em curso desde a invenção da guerra contra a insurgência, na década de 1950 e 1960, por comandantes franceses, britânicos e americanos durante as guerras de independência na Argélia, Indochina, Malásia, Vietnã e em outras ex-colônias. Essas campanhas deram origem à lógica e às estratégias da guerra de contrainsurgência — também conhecida como guerra não-convencional ou antiguerrilha ou, como diriam os franceses, “la guerre moderne”, guerra moderna. Depois, essa lógica e essas estratégias foram trazidas de volta e aplicadas em solo nacional.

A lógica da guerra de contrainsurgência baseava-se numa visão única, essencialmente moldada pela crença de Mao de que a sociedade é composta por três grupos: um pequeno grupo de insurgentes ativos, a grande massa de cidadãos passivos que podem ser influenciados de um lado ou de outro e uma pequena minoria de ‘contrainsurgente’. As estratégias da guerra de contrainsurgência foram desenvolvidas para, em primeiro lugar, reunir informações completas sobre a população a fim de identificar os inimigos internos; em segundo lugar, eliminá-los; e, em terceiro lugar, ganhar a lealdade das massas passivas.

Essas estratégias de contrainsurgência foram utilizadas pela primeira vez nas colônias europeias e americanas durante as guerras de independência. Após o 11 de setembro, os EUA voltaram a utilizá-las nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Sob a presidência de George W. Bush, houve execuções simuladas, afogamento simulado e detenções por tempo indeterminado em Guantánamo; com o presidente Barack Obama, houve assassinatos com drones, vigilância total e a execução sumária de um cidadão americano no exterior. Os métodos foram refinados pelos generais americanos em uma abordagem de contrainsurgência centrada na população, que foi então inculcada nos soldados americanos.

Trazer técnicas de contrainsurgência para casa e aplicá-las nos próprios cidadãos pode ser chamado de “uma contrarrevolução”. Herbert Marcuse já utilizava o termo em seu livro de 1972, Contrarrevolução e Revolta, para caracterizar a repressão aos protestos contra a Guerra do Vietnã na Kent State University e no Jackson State College.7 Na medida em que essa contrarrevoluçãofoi, e é, uma criação da guerra moderna — em contraste com as contrarrevoluções mais antigas, que buscavam restaurar monarcas —, eu a chamaria de “contrarrevolução moderna”.

Em segundo lugar, o governo Trump II representa uma “nova ofensiva”, pois não é único, mas sim mais um episódio da contrarrevolução conduzida em solo americano. Houve ofensivas anteriores ao 11 de setembro, com a revolução conservadora do presidente Ronald Reagan e a Guerra às Drogas na década de 1980; e, mesmo antes disso, com a repressão do presidente Richard Nixon aos negros e aos manifestantes contra a Guerra do Vietnã, o programa COINTELPRO, de J. Edgar Hoover e o Red Scare (medo vermelho) durante a era McCarthy.

Descrevi a última ofensiva em um livro intitulado The Counterrevolution: How Our Government Went to War Against Its Own Citizens (A Contrarrevolução: como o governo entrou em guerra contra os próprios cidadãos), publicado em fevereiro de 2018, durante o primeiro mandato do presidente Trump. Na época, argumentei que ele estava infundindo o paradigma da guerra de contrainsurgência com um populismo nacionalista branco que tinha como alvo muçulmanos americanos, imigrantes da América Latina e manifestantes do movimento Black Lives Matter. Tudo isso chegou ao auge durante as manifestações pelo assassinato de George Floyd no verão de 2020, quando o Trump enviou a 82ª Divisão Aérea para Washington/D.C., e mobilizou a polícia militar e um helicóptero Black Hawk do Exército dos EUA como se o local fosse, nas palavras do então secretário de Defesa Mark Esper, um campo de batalha que precisava ser “dominado”. A polícia militar lançou gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha contra manifestantes pacíficos, abrindo caminho para o presidente Trump marchar com Esper e seu general de mais alta patente, Mark A. Milley (em uniforme de combate completo), para uma infame foto do presidente com uma Bíblia nas mãos.

Em terceiro lugar, digo que esta é a “fase de demolição” da última ofensiva porque o presidente está destruindo o governo federal como o conhecemos, ao mesmo tempo em que endurece as estratégias de contrainsurgência. Como um incorporador imobiliário que está embarcando numa reforma radical, o presidente Trump está demolindo o edifício federal, está cortando a força de trabalho federal, fechando agências federais (a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, o Departamento de Educação), demitindo inspetores gerais em 17 agências e assumindo o controle de agências independentes. Musk e o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) estão cortando o orçamento federal em US$ 150 bilhões (até o ano fiscal que termina em setembro de 2026) e demitindo milhares de outros funcionários federais. O presidente Trump está demolindo o estado administrativo em alta velocidade.

O presidente está, literalmente, sozinho — ao assinar um número recorde de decretos presidenciais — criando uma presidência imperial sem freios e contrapesos. Embora o Partido Republicano controle ambas as câmaras do Congresso e tenha jurado lealdade a ele, Trump está evitando usar o poder legislativo tanto quanto possível, ignorando efetivamente o Congresso. Tendo garantido uma supermaioria conservadora na Suprema Corte dos Estados Unidos, ele está cumprindo em grande parte as decisões dos tribunais federais de primeira instância — confiante de que a revisão judicial acabará por absolvê-lo (como já aconteceu).

Este projeto radical não visa a eliminar o governo federal ou delegar o poder de decisão aos estados. Não se trata de direitos dos estados: o presidente exercerá o poder federal no momento em que discordar de uma política estadual. Em vez disso, ele está transformando o governo federal em um instrumento mais enxuto e mais forte dos poderes policiais — reforçando as fronteiras, deportando brutalmente pessoas, proibindo a D.E.I. e a chamada ideologia de gênero, policiando banheiros, impondo tarifas e sanções econômicas, supervisionando universidades e escritórios de advocacia. Somente no contexto da imigração, o governo Trump pediu o que equivale, segundo o New York Times, a “mais do que um aumento de seis vezes nos gastos para deter imigrantes”. Sua visão do governo federal é altamente ativa e intervencionista.

Estamos testemunhando, portanto, uma contrarrevolução moderna, na medida que, em primeiro lugar, ela se baseia na lógica e nas estratégias brutais da guerra moderna; em segundo lugar, consolida o poder executivo nas mãos do equivalente funcional de um monarca absoluto moderno e tenta reverter os valores do universalismo que fizeram parte da Fundação em 1776 ou da Refundação em 1866; em terceiro lugar, representa uma reversão do Estado administrativo americano construído desde o New Deal, cujo objetivo era proteger a classe média e os desfavorecidos; e, quarto, constitui uma contrarrevolução preventiva e antecipada dentro do quadro que o historiador Arno Mayer desenvolveu para estudar a dinâmica das contrarrevoluções.

É certo que há uma discordância substancial sobre se houve algo como uma revolução completa contra a qual a contrarrevolução moderna estaria reagindo hoje. Para Rufo ou Steve Bannon, ex-assessor de Trump, fronteiras abertas e “imigração descontrolada”, a natureza mutável da família nuclear, a Teoria Crítica da Raça e os Estudos de Gênero representam uma tomada revolucionária pela “wokeness” (conscientização política). Para muitos outros, porém, tudo isso parece evolução, não revolução.

Em 1972, Marcuse disse uma frase famosa sobre a repressão policial aos protestos contra a Guerra do Vietnã: “A contrarrevolução é em grande parte preventiva e, no mundo ocidental, totalmente preventiva. Aqui, não há nenhuma revolução recente a ser desfeita, nem nenhuma à vista.” Da mesma forma, não vejo nenhuma revolução real, nem na história recente, nem em formação. Especialmente quando tantas mudanças seminais desde a década de 1960 foram tão facilmente desfeitas: Roe v. Wade revogada; programas de D.E.I. desmantelados; proteções aos transgêneros eliminadas. Mas, seja uma revolução ou mera evolução, em qualquer caso, o ataque do presidente Trump contra ela certamente faz parte da “contrarrevolução moderna”.

E essa é uma ofensiva vasta, impulsionada por forças geopolíticas, macroeconômicas, sociais, tecnológicas, demográficas e culturais mais amplas, que explicam a ascensão do presidente Trump e de líderes com ideias semelhantes em todo o mundo.

Em todo o mundo, mudanças geopolíticas e macroeconômicas — globalização, financeirização, os efeitos das mudanças climáticas e o surgimento de novas tecnologias digitais, mídias sociais e inteligência artificial — alimentaram ataques virulentos contra os imigrantes. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o discurso anti-imigração está no centro de uma plataforma populista nacionalista que clama pela proteção das fronteiras nacionais e pela melhoria da vida das pessoas dentro do país — America First, La France d’abord pour les Français, Zeit für Deutschland, Brexit e assim por diante.

O gráfico Lakner-Milanovic — também conhecido como elephant graph (gráfico do elefante) — representa a mudança global na concentração de renda entre 1988 e 2008. Muitos economistas, incluindo Paul Krugman, interpretam isso como evidência dos efeitos prejudiciais da globalização sobre as classes baixas e médias nos países ocidentais. Pesquisas apartidárias, por exemplo, do PEW Research Center, confirmam que “a diferença de riqueza entre as famílias mais ricas e mais pobres dos Estados Unidos mais que dobrou entre 1989 e 2016”. De acordo com a maioria dos indicadores, os americanos de classe média estão em pior situação hoje do que antes da Grande Recessão de 2008; apenas as camadas mais ricas da sociedade americana ganharam significativamente desde então.

E 12 dos últimos 16 anos foram sob governos democratas — o que significa que a desigualdade nos EUA cresceu principalmente sob a supervisão do Partido Democrata, que tem promovido o neoliberalismo desde a presidência de Bill Clinton e mantido à distância políticos mais progressistas, como Bernie Sanders. A globalização também corroeu os sistemas bipartidários de muitos países, o que tornou muitos governos tímidos em relação às políticas redistributivas e, por sua vez, alimentou o populismo nacionalista.

Projeções do U.S. Census Bureau indicam que, até 2050, as pessoas não brancas serão mais numerosas do que as pessoas brancas não hispânicas nos EUA. Esse crescimento, ou pelo menos algumas de suas percepções, estão alimentando o movimento MAGA, cujos adeptos são pelo menos 60% brancos, cristãos e homens, e em sua maioria aposentados, com mais de 65 anos. A sensação entre os apoiadores do MAGA de que suas vidas estão estagnadas e de que estão sofrendo com a inflação está alimentando um conjunto de ideias odiosas. A teoria da “grande substituição”: os brancos serão substituídos por imigrantes e trabalhadores estrangeiros. A tese da “invasão criminosa”: os imigrantes são criminosos, estão inundando o país e precisam ser expulsos. E os movimentos “radicais de exclusão trans”: as pessoas transgênero, especialmente as mulheres transgênero, representam uma ameaça existencial à família, à reprodução social e à própria civilização.

As mudanças culturais também são importantes, como Stuart Hall demonstrou com suas análises dos thatcheristas na virada da década de 1980.10 A Fox News está moldando a maneira como os americanos pensam sua realidade política, assim como as redes sociais, especialmente o Truth Social e o X, que agora estão nas mãos da extrema direita. Isso também é verdade no exterior, com magnatas da mídia como Vincent Bolloré na França, Rupert Murdoch e outros. À medida que a propaganda política se globaliza, a informação tornou-se exponencialmente mais fácil de divulgar, quase incontrolável.

O populismo nacionalista está no centro da contrarrevolução americana moderna, tal como na França ou na Alemanha. É o principal dogma da maioria das pessoas do movimento MAGA, incluindo os seus líderes ideológicos, como Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca para a política, e o Sr. Bannon, com o seu Breitbart News. Bannon relembrou em uma entrevista no início deste ano como ele jogou todo o seu peso atrás de Donald Trump; e como o futuro presidente retribuiu com seu próprio tipo único de populismo nacionalista e patriotismo.

Mas enquanto Bannon frequentemente diz que quer “espremer os ricos”, que é a favor de impostos mais altos para os ricos e para as corporações e que acha que os bilionários da tecnologia são “tecno-feudalistas”, Trump formou uma aliança com os magnatas mais ricos. Entre eles estão tanto os bilionários da tecnologia presentes em sua segunda posse quanto também outro grupo de doadores e benfeitores, como Timothy Mellon, Miriam Adelson e Linda McMahon, bem como elites republicanas mais antigas que resistiram a ele no início, mas que desde então se alinharam. Essas pessoas extremamente ricas — referindo-nos à Rússia, nós as chamaríamos de “oligarcas” — entendem muito bem que é do seu interesse financeiro desmantelar o estado regulador federal.

O presidente também consegue atrair o apoio das populações rurais que se consideram a antítese das elites urbanas e dos moradores das cidades, como protetores dos valores familiares. Ele também inspira evangélicos, eleitores da maioria moral e nacionalistas brancos (comício Unite the Right em Charlottesville em 2017). E agora, também, segmentos crescentes de homens negros e latinos, que foram afastados do Partido Democrata.

O resultado é uma coalizão inesperada de aliados aparentemente improváveis. Hoje, tanto os bilionários quanto a base do MAGA querem desmantelar o estado regulador federal como o conhecemos e substituí-lo por um estado policial enxuto, focado em gastos militares e policiais, na imposição da família tradicional, nas crenças conservadoras, nas fronteiras e tarifas.

Engels observou certa vez que uma revolução requer audácia: “nas palavras de Danton, o maior mestre da política revolucionária até hoje conhecido, de l’audace, de l’audace, encore de l’audace!”. Isso se aplica também às contrarrevoluções modernas. A “audácia da esperança” do Sr. Obama empalidece em comparação com o que o presidente Trump fez nos últimos 100 dias. 

Será que Trump conseguirá reestruturar tão profundamente o governo dos EUA durante os próximos quatro anos e que este momento político constituirá um ponto de inflexão a longo prazo, como o New Deal? Se assim for, precisamos nos preparar para um país fundamentalmente diferente — e um planeta diferente. Este novo modo de governar anda de mãos dadas com a negação das alterações climáticas, e é difícil imaginar o resto do mundo a lidar com sucesso com o aquecimento global sem a participação ativa dos EUA. No seu livro  Slow Down: The Degrowth Manifesto (Devagar: manifesto sobre o decrescimento), Kohei Saito alerta para o “fascismo climático” (desigualdade extrema e poder estatal forte) ou a “barbárie climática” (desigualdade extrema e poder estatal fraco).

Mas pode haver uma reação e um movimento pendular em direção ao Estado administrativo ou mesmo mais além, em direção a alguma forma de coletivismo igualitário ou cooperação. Considerando a inevitabilidade das mudanças climáticas, Saito também descreve a possibilidade de um “maoísmo climático” (igualdade e poder estatal forte) e defende uma quarta opção, o “comunismo do decrescimento” (igualdade com acordos cooperativos e mutualistas). Mas ambos os futuros alternativos exigiriam um movimento social concertado.

Nos EUA, até agora, os democratas têm adotado principalmente uma estratégia de “rope-a-dope” de Muhammad Ali, para usar uma expressão do estrategista James Carville. Ou talvez até mesmo o que Carville chama de “rolar e fingir de morto”: “Deixar os republicanos desmoronarem sob seu próprio peso e fazer com que o povo americano sinta nossa falta”.

A única força contrária nos EUA neste momento parecem ser os tribunais federais de primeira instância, que proibiram provisoriamente mais de uma dúzia de decretos presidenciais. Eles têm sido eficazes em impedir ou atrasar a fase de demolição, pelo menos até agora. É incerto por quanto tempo o poder executivo irá cumprir ou fazer cumprir as ordens dos tribunais federais de primeira instância que o proíbem. A crise constitucional que muitos juristas temem ainda pode estar por vir. O governo Trump, por exemplo, está desafiando os tribunais federais em vários casos de deportação. E o vice-presidente Vance aconselhou o presidente Trump: “quando os tribunais o impedirem, fique diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente do Supremo Tribunal Federal tomou sua decisão. Agora deixe-o cumpri-la’”.

Por enquanto, o crescente número de litígios está alimentando uma resistência cada vez maior. Aplausos generalizados irromperam nos campi de todo o país quando a Universidade de Harvard se recusou a cumprir a carta do governo Trump exigindo auditorias nos departamentos acadêmicos e, em vez disso, entrou com uma ação judicial. Manifestações massivas estão sendo realizadas aos sábados em todo o país.

Usar a estrutura da contrarrevolução moderna deve abrir novos caminhos sobre como resistir e se revoltar. Afinal, há uma longa história de resistência às forças contrarrevolucionárias. Há muitas maneiras de se revoltar, como Marcuse nos lembra no próprio título de seu livro  Contrarrevolução e Revolta. E a história mostra que, quando as pessoas mantêm seus valores, as contrarrevoluções raramente têm sucesso.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


O que se passa com os rapazes?

“Boys will be boys” diz a famosa expressão condescendente em língua inglesa… e agora os rapazes preferem a extrema-direita.

No relatório "From Provider to Precarious: How Young Men’s Economic Decline Fuels the Antifeminist Backlash", publicado há dias pelo European Policy Center, vemos que, em Portugal, por cada rapariga (com menos de 25 anos) que vota num partido de extrema-direita, 4,9 rapazes fazem o mesmo. O número é tão alto que só a Croácia nos ultrapassa.

Outro estudo, de que um artigo no site do European Consortium for Political Research dá conta, mostra que, em 2024, 21% dos jovens rapazes europeus (com idades entre 18 e 29 anos) apoiavam partidos de extrema-direita, enquanto as raparigas se ficavam pelos 14%. O que se passa aqui?


Estávamos habituados a que o clássico voto de protesto antissistema, tão caro à juventude, se situasse na extrema-esquerda. Mais liberais do que os seus pais conservadores, radicais e revolucionários, os jovens pendiam para um extremo político antes de se “aburguesarem”, com a meia-idade, no colo do centrão. O voto antissistema foi capturado pela extrema-direita. Com uma grave distinção: se o sistema que a extrema-esquerda combate é o capitalismo, o sistema que a extrema-direita repudia é a democracia.

Para Đorđe Milosav, um dos autores do segundo estudo acima mencionado, a questão dos rapazes vai muito além do simples “boys will be boys”, no sentido em que o voto masculino jovem reflete a idade da exploração da identidade, do testar de limites, do correr riscos, atitudes mais acentuadas do que no sexo feminino. Se assim fosse, esclarece o investigador de Ciência Política, essa realidade estaria refletida em toda a juventude de décadas passadas. Mas não está. “Esta diferença de género do voto na extrema-direita por parte dos jovens é muito mais pronunciada agora, na Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), do que foi nas gerações passadas. Mas também vemos isso, embora em menor grau, nos Millennials (1981-1996)”, escreve.

“Muitos homens jovens veem o crescente sucesso das mulheres na educação e no trabalho como uma ameaça. Isto alimenta o ressentimento e o desejo de controlo”, acrescenta Đorđe Milosav, alertando para o facto de o voto na extrema-direita lhes dar um sentido de propósito e validação. Pior: “Os partidos de extrema-direita movem-se das franjas para o mainstream. Já não se trata só de um voto de provocação contra pais e professores – à medida que estes partidos se normalizam, a tendência é a de que o voto dos jovens neles não cesse à medida que vão envelhecendo.”

“Há uma crescente divisão ideológica entre os géneros”, diz, por seu lado, Javier Carbonell, autor do relatório do European Policy Center, “em que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores. Esta divisão mostra o poder eleitoral das forças antifeministas”. Mas a ascensão do feminismo não explica tudo.

“A deterioração das condições económicas tem levado a que os rapazes sejam menos escolarizados, ganhem menos e se debatam para estar à altura do que tradicionalmente é esperado do papel masculino: ser o sustento das suas famílias. A extrema-direita tem sabido explorar isto, oferecendo uma visão regressiva da masculinidade”, continua Javier Carbonell.

A ideia tradicional de masculinidade está ultrapassada e entrou em crise. O problema é quando são os próprios jovens a preferir olhar para trás em vez de seguir em frente.

Submissão

Um homem submisso atrai naturalmente um homem que se compraz em submeter, em mandar. Mais cedo ou mais tarde, um homem muito submisso vai atrair e até criar um déspota junto a si. Eles formarão um casal.
Henri Michaux, "Um bárbaro na Ásia"

Transformando macarrão em pão: a luta de Gaza pela sobrevivência

Os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança.

Em meio ao bloqueio imposto pela ocupação israelense e seu governo em Gaza, os moradores recorreram a meios não convencionais para sobreviver, incluindo transformar macarrão em pão depois que a farinha quase desapareceu dos mercados.

No norte da Faixa de Gaza, Fadwa Hussein compartilhou sua história com o The Palestine Chronicle: “Estamos vivendo em condições catastróficas. Desde que as passagens de fronteira foram fechadas, produtos e alimentos essenciais desapareceram dos mercados. Armazenei alguns suprimentos de comida, mas eles estão se esgotando rapidamente, pois não há alternativa para o que consumimos.”

Fadwa continuou: "Eu tinha dois sacos de farinha, mas com o fechamento das travessias, eles acabaram. Começamos a comprar farinha por quilo a preços altíssimos, mas a falta de dinheiro nos impossibilita de comprar mais a preços tão exorbitantes."

Ela explicou que pesquisou alternativas para fazer pão na internet e encontrou uma maneira de transformar macarrão em pão.

Comecei a experimentar com a minha filha e funcionou. Começamos deixando a massa de molho em água por 5 a 6 horas e depois a sovamos até ficar firme. Também reservei um pouco de farinha para misturar à massa, para ajudar a mantê-la unida.


À medida que a crise se agrava, Fadwa acrescentou: “Tentamos nos adaptar a todas as circunstâncias apenas para sobreviver. Apelamos a todas as consciências e nações vivas do mundo para que nos acompanhem, para que levantem nossas vozes e as vozes dos famintos para o mundo. Israel usa a fome como arma de punição contra nós, contra crianças, mulheres e bebês.”

Enquanto isso, em um centro de deslocados a oeste da Cidade de Gaza, Mona Salama, mãe de três filhos, agora vive com sua família depois de perder sua casa em um bombardeio.

"Depois de perdermos nossa casa, não temos mais dinheiro para comprar farinha por conta própria. Costumávamos contar com a ajuda da UNRWA, mas como a ajuda foi impedida de entrar, não temos condições de comprar nada", disse ela ao The Palestine Chronicle.

“Ouvi dizer que algumas famílias em Gaza começaram a usar lentilhas e macarrão para fazer pão, então perguntei e comecei a preparar pão para meus filhos com meu marido”, acrescentou.

Mona continua com tristeza: “Tenho filhos pequenos que não entendem o que significa fome. Eles choram constantemente, querendo comida. Fico impotente diante deles e, às vezes, choro porque não consigo lhes dar três refeições. Fazemos uma pequena quantidade de pão apenas para os nossos filhos, para aplacar a fome deles, enquanto meu marido e eu comemos o que mais encontramos.”

Mais de dois milhões de palestinos em Gaza estão enfrentando uma crise humanitária sem precedentes devido às restrições impostas por Israel à entrada de ajuda desde o início de março, após o colapso da primeira fase de um acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito, Catar e Estados Unidos em janeiro.

O Gabinete de Imprensa do Governo em Gaza alertou recentemente que os moradores estão "à beira da morte em massa" devido à fome crescente e ao colapso completo de setores vitais, pedindo a criação imediata de um corredor humanitário para resgatar mais de 2,4 milhões de palestinos.

Em um comunicado, o gabinete confirmou que “a fome em Gaza se tornou uma realidade sombria, não apenas uma ameaça, depois que 52 mortes foram registradas devido à fome e à desnutrição, incluindo 50 crianças, em um dos cenários mais horríveis de matança lenta”.

A UNRWA disse que tem milhares de caminhões prontos para entrar em Gaza e que suas equipes estão preparadas para aumentar as entregas assim que forem permitidas.

Em uma publicação no Facebook, a UNRWA escreveu: “Já se passaram mais de nove semanas de bloqueio em Gaza, com Israel impedindo a entrada de toda ajuda humanitária, suprimentos médicos e produtos comerciais.”

A agência acrescentou: “Quanto mais tempo esse bloqueio durar, mais danos irreversíveis serão causados ​​a inúmeras vidas”.

Em meio a essa trágica realidade, os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança para salvar as vidas de milhares de crianças, mulheres e idosos.