Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.
O esforço compensou. Hoje tem um cargo de gestão na empresa, está na maçonaria, trata com familiaridade os funcionários do governo estadual e da prefeitura e viaja muito para a Europa em trabalho. Não é estranho que acredite no mérito, porque a sua história é feita de um suor que está a dar frutos. E, claro, tornou-se um jovem conservador de direita, que classifica o PT de Lula como um partido de extrema-esquerda. De extrema-esquerda?, interrogo-o, pedindo-lhe que me aponte uma política do Presidente do Brasil que tenha posto em causa o sistema capitalista, a democracia representativa ou a livre iniciativa de mercado. Sempre muito definitivo, desta vez hesita, para depois me falar dos “programas sociais” que são, no seu entender, “muletas para pobres”.
Para este rapaz vindo da classe trabalhadora, os apoios dados pelos programas para a ajuda à compra de casa ou para escapar à fome para os mais pobres são “muletas”. Mas como teria ele conseguido subir na escada social sem essa “muleta” da escola pública que frequentou sempre e que lhe permitiu tirar “três faculdades”, como diz com orgulho antes de chegar aos 30? A minha pergunta provoca-lhe um trejeito no rosto. É a favor da escola pública, claro. E começa com a história da “minha vizinha” para apontar um abuso. Para todos os casos há exemplos, cada um escolhe o que quer. E é óbvio que a minha arenga sobre a importância de redistribuir a riqueza através de serviços públicos de uso universal e gratuito, sustentados pelos impostos dos que mais têm, não vai fazê-lo mudar de ideias. Mas insisto, ainda assim, na esperança de que, olhando-se ao espelho, perceba que tem mais que ver com os pobres que considera uns falhados do que com os ricos que quer imitar.
No dia seguinte, aterro em Lisboa. Vinda do frio do inverno do Paraná e após 12h30 de voo, o calor deixa-me impaciente e corro para um táxi, onde, poucos minutos depois de me ter sentado, o motorista já se confessava admirador da extrema-direita nacional e me dizia com um sorriso triunfante: “Proibimos as burcas.” Soltei uma gargalhada pouco sensata para a situação em que me encontrava, mas ele tinha começado por elogiar a minha “boa energia” e eu, apesar do cansaço da viagem, arrisquei comentar: “Com tantos problemas no País, que diferença faz a lei das burcas, se não for só para nos distrair dos nossos problemas?” Eu nunca vi uma burca em Lisboa. Será que ele tinha visto uma burca? Para meu alívio, sorriu-me pelo retrovisor e lá confessou que não há muitas, não. Mas, por acaso, até viu uma mulher toda tapada na praia um dia e aquilo não lhe pareceu bem. Afinal, quando as “nossas mulheres vão lá ao país deles” também não podem usar decotes. “Sabe o que é que vai acontecer a essa mulher que viu na praia? Não vai deixar de usar burca. Vai deixar de ir à praia”, ousei, animada pela simpatia do taxista, que me respondeu com um riso abafado que eu traduzi como a confissão de que o regozijo dele com a nova lei não se prende com a vontade de ajudar as mulheres que são oprimidas pelo machismo, mas só com o desejo de não ver o que acha diferente.
A minha oposição não o fez acabar a conversa. Senti que tinha simpatizado comigo e não tinha nada a opor ao discurso que fiz sobre como andam a vender o País aos imigrantes ricos que tornam tudo insuportavelmente caro enquanto nos entretêm com a história das burcas. Por isso, passou para novo tópico: a queixa sobre como os polícias não fazem nada para controlar os ciganos que estão à saída do aeroporto a angariar clientes para os Uber e preferem perseguir os taxistas e andar constantemente a pará-los por coisas menores. Decidi não dizer que nunca tinha visto esses ciganos ali à saída do aeroporto, mas perguntei-lhe se já lhe tinha acontecido ser parado pela polícia. Pelo relato exaltado que fazia, ia jurar que seria um acontecimento, se não diário, pelo menos semanal. “Nunca aconteceu”, respondeu de rompante. “Mas há colegas a quem está sempre acontecer.” E logo sacou de uma inverosímil história sobre um taxista que teria ido a tribunal por ter cobrado um euro a mais numa corrida.
A partir daí, a conversa foi para tópicos mais leves. E acabei a agradecer-lhe genuinamente a simpatia com que fez o serviço. Mas saí do carro a pensar em como a conversa se tornou um terreno minado, quase impossível, onde cada um dos interlocutores se agarra ao seu chão e não se afasta um milímetro das suas convicções iniciais. Não me interpretem mal: não me sinto acima disso. Na verdade, estou quase sempre demasiado cheia de certezas e, demasiadas vezes, atiro-as para cima de quem está à minha frente ainda antes que aquele com quem falo consiga acabar sequer uma frase.
A conversa tornou-se um combate. Sair ilesa, sem despertar a fúria daqueles com quem converso, é já uma vitória. O ódio está quase sempre a pairar sobre as mais banais trocas de palavras entre estranhos, como uma substância altamente inflamável, à espera de iniciar a sua combustão. Por isso, acabar a conversa entre sorrisos e cumprimentos de simpatia é já uma vitória que celebro. Mas como é que se pula o muro das convicções absolutas? Como é que se passa do caso da “minha vizinha” para um terreno feito de realidades e não só de perceções? Como é que se convence o outro? Como é que nos deixamos convencer? Não é só a democracia que está em causa quando se perdem essas capacidades, é a própria vida em sociedade que se torna impossível.
Não tenho uma resposta definitiva para este problema, que me parece um dos mais sérios que enfrentamos neste mundo de hoje, feito de grandes indignações, que se esfumam à velocidade de um vídeo no TikTok, de verdades absolutas alicerçadas em sensações, de ódios e amores divididos por tribos e seitas. Mas há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos. Quando tentamos compreender aquilo que nos parece inaceitável, não abdicamos das nossas convicções, mas cortamos caminho ao ódio. E isso, não sendo tudo, é já alguma coisa.
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