quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pesadelo judeu

A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.

Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.

Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.


O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).

Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.

No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.

Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.

Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.

Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.

O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano. 

Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.

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