domingo, 1 de fevereiro de 2026

Todos os que fingem não ver são culpados

Desço a rua em direção ao Rato. Passo, como tantas vezes, por aquele edifício cor de salmão, com a tinta a esboroar-se nas paredes, as portadas antigas de madeira gasta, o toldo azul-escuro carregado de pó que a chuva tornou lama e lhe dá um tom acinzentado. Desço a rua, como tantas vezes. Mas, desta vez, detenho-me. O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda. A mulher espancada, amarrada a uma cadeira como se estivesse num crucifixo, o homem a quem obrigaram a beijar as botas dos agentes, o que foi sodomizado com o pau de uma vassoura, os ciganos que, segundo uma testemunha, terão sido obrigados a praticar sexo oral.


A descrição destes horrores está numa acusação do Ministério Público. E a investigação foi aberta graças a uma denúncia encaminhada pela Direção Nacional da PSP. E talvez isso devesse sossegar-me. Mas não sossega. Leio nas notícias que, além dos dois detidos, há dez agentes “investigados pelas agressões de extrema violência cometidas contra detidos e pessoas vulneráveis” que continuam a trabalhar. E que os vídeos das torturas e dos abusos sexuais foram partilhados em grupos de WhatsApp com 70 participantes, acredita-se que muitos deles polícias, que recebiam as imagens com comentários jocosos e racistas.

Enquanto desço a rua, penso em Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhos, sem registo criminal, que foi baleada, depois de, vendo-se rodeada de agentes do ICE (a polícia anti-imigração de Trump), tentar afastar-se no carro onde seguia antes de parar para ver o aparato policial. Os vídeos que circulam na internet mostram-na a olhar de frente para o agente que ia matá-la. “Não estou zangada consigo”, foram as suas últimas palavras. A sua cara não mostra raiva nem medo. Mas é difícil acreditar que os homens armados que a rodeavam não a tenham intimidado.

Depois de ser atingida a tiro várias vezes, continuou viva durante oito minutos. Um vizinho, médico, tentou aproximar-se do corpo para lhe prestar auxílio. Foi impedido pelos agentes do ICE. O carro de Renee estava cheio dos peluches do filho mais novo e a mulher não tinha sequer um passado de ativismo político. Mas isso não impediu a Administração Trump de a culpar da sua própria morte, acusando-a de tentar atropelar os agentes que a mataram, apesar de se ver nas imagens que o carro só seguiu já depois dos primeiros tiros. A verdade não importa. E o que não falta é gente disposta a acreditar que “quem não deve não teme” e a aceitar que qualquer desobediência a um agente da lei (real ou imaginada) pode ser punida com a pena de morte.

Tenho o Instagram cheio de fotografias e vídeos dos horrores do ICE. Um menino de 5 anos, com uma mochila do Homem-Aranha às costas, a ser detido. Um bebé de 6 meses com os olhos inchados depois de ser gaseado com gás pimenta. Um pai a ter um ataque de epilepsia, com um bebé de 1 ano ao colo, enquanto é arrancado à força do carro pelos agentes. Uma mulher deficiente arrastada pelo chão. Uma menina de 6 anos cujo pai foi detido e que ficou sozinha a deambular pela rua. Uma mãe com um bebé, forçada a deixá-lo a um estranho, enquanto a arrastam para dentro de uma carrinha. Há de tudo nestas imagens: homens e mulheres, brancos, negros e latinos, alguns até cidadãos americanos. Nada importa. Ninguém está a salvo. E essa é que é grande mensagem política.

O medo é a nova política. A força é a nova lei. Não há espaço para o “quem não deve não teme” dos mais ingénuos ou simplesmente dos que se acham imunes a tudo porque só se metem na sua vidinha. Que ninguém diga que não sabia, que não viu, que não percebeu o que estava a acontecer. Não há ninguém que não tenha visto a fome e a morte a abater-se sobre Gaza. Não há ninguém que não tenha visto os campos de concentração em El Salvador para onde são enviados homens apanhados ao acaso nas ruas dos EUA, por serem latinos ou estarem tatuados, sem direito a julgamento nem defesa. Não há ninguém que não tenha ouvido Trump a anunciar como iria apoderar-se do petróleo da Venezuela depois de ter sequestrado um Presidente ou como iria “adquirir” território na Dinamarca.

Todos os que fingem que nada se passa são culpados. E ninguém ficará a salvo. Nem o mais servil colaboracionista. Porque a onda de terror, de depredação dos recursos naturais, de exploração dos mais fracos e de humilhação dos que se lhe opõem fará de todos vítimas, mais cedo ou mais tarde.

As 12 pessoas mais ricas do mundo têm hoje mais dinheiro do que a metade mais pobre da Humanidade. É um nível de desigualdade nunca antes visto, que significa apenas uma coisa: existem 12 predadores no planeta. Todos os outros são suas presas. Mesmo os que se acham a salvo por serem mais brancos, mais homens, mais ricos, mais poderosos. Qualquer um deles pode ser esmagado por um destes 12. E a velocidade a que serão esmagados está em aceleração. Segundo um relatório divulgado na semana passada pela Oxfam, “em 2025, a riqueza dos multimilionários cresceu mais de 16%, um ritmo três vezes superior à média dos últimos cinco anos”.

Os polícias que agora torturam e humilham fazem-no porque podem. Porque se sentem esmagados e humilhados por um sistema que se serve deles e os despreza, condenando-os a uma vida miserável. Vingam-se com crueldade não dos que os oprimem, mas daqueles que não podem fazer-lhes frente. E podem fazê-lo, porque o sistema os tolera, beneficia deles até, mantendo um nível de medo que evita a revolta dos que são explorados.

E qual é a nossa força perante tudo isto? É que somos muitos. Somos muitos mais. Eles sabem-no. E por isso querem-nos sonolentos, apáticos, de ombros encolhidos ou tolhidos pelo medo. Se começarmos a abrir os olhos, se não nos vergarmos à injustiça, se pararmos de fingir que não vemos, se perdermos o medo, podemos ganhar.

Não podem matar-nos a todos, não há prisões no mundo suficientes para nos prender. O mal só se instalará pela nossa inação. O mal só vencerá se aceitarmos participar na sua farsa, fingindo que se trata da lei ou de uma inevitabilidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário