A dificuldade de conceber outras formas de organização do mundo que escapem à lógica do sistema interestatal moderno e à reprodução do capitalismo global gera pânico. Esse terror se manifesta em demandas por respostas rápidas e soluções supostamente técnicas e racionais. É nesse terreno que os ideais clássicos do realismo em Relações Internacionais recuperam força, com a proposta, aparentemente pragmática, de que países do Sul Global deveriam desenvolver arsenais nucleares como estratégia de dissuasão, reproduzindo a lógica de poder das grandes potências globais. Essa formulação ignora que o imperialismo, conforme elaborado por Lênin, não é atributo de determinados Estados, mas uma fase estrutural do capitalismo. Portanto, é um erro achar que a atuação imperial se restringe aos Estados Unidos ou mesmo ao Ocidente. Não obstante, reduzir o problema à distribuição de capacidades militares entre Estados desloca o foco das relações sociais que sustentam a acumulação global. A consequência dessa leitura é a substituição da crítica ao imperialismo por uma disputa entre projetos armamentistas concorrentes.
A lógica que defende o armamentismo estatal desconsidera o imperialismo como forma precária de extrativismo, isto é, superexploração econômica e o reduz a um problema de poder bélico ou demonstração de força. A proliferação de armas nucleares não interrompe as diversas e novas formas de violência demandadas pela acumulação de capital. É necessário recolocar os interesses de classe no centro da análise. Historicamente, enquanto saúde, educação, literatura e artes permanecem subfinanciadas, os gastos com militarização e estratégias de defesa nacional atingem patamares exorbitantes. Em vez de sustentar que Venezuela, Colômbia ou Brasil devam desenvolver arsenais nucleares, o debate deveria se concentrar na construção de autogoverno, na organização da classe trabalhadora e na solidariedade internacional.
A mesma crise do pensamento opera no debate ambiental quando soluções capitalistas e individualizadas são apresentadas como resposta a problemas estruturais. A aposta nos veículos elétricos ilustra esse deslocamento, pois são vendidos como alternativa ecológica, enquanto preservam o núcleo do problema ao manter intacto o modelo de mobilidade baseado no transporte individual, na expansão urbana desigual e na dependência de cadeias globais de extração mineral. A questão não deveria ser quem detém o direito de explorar a natureza, se o petróleo deve ser nosso ou se o comprador será Estados Unidos, China ou Rússia. Como lembra Sabrina Fernandes, há caminhos possíveis para a superação dos combustíveis fósseis, pois impossível é um mundo habitável pautado no consumo vigente. Soluções capitalistas para problemas capitalistas apenas deslocam o impasse. O colapso ambiental é tratado como falha tecnológica a ser corrigida por escolhas individuais de consumo, enquanto permanecem fora do debate a precariedade da mobilidade urbana, o colapso do transporte público, o abandono da malha ferroviária e a subordinação das políticas urbanas aos interesses do capital automobilístico. Há grupos que lucram com a exploração do petróleo, com a expansão do armamento nuclear e com respostas simplificadoras; certamente, não se trata de nossa classe, a maioria da população.
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias

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