domingo, 1 de fevereiro de 2026

O silêncio de Auschwitz

Na gelada madrugada de 27 de janeiro de 1945, o soldado soviético Ivan Martynushkin avançava cautelosamente entre edifícios cinzentos cercados por arame farpado. Esperava resistência alemã, minas, armadilhas, um potencial ataque. Em vez disso, encontrou silêncio. Um silêncio pesado e fantasmagórico. À sua frente surgiram figuras humanas que pareciam sombras. Homens e mulheres de olhar vazio, envoltos em farrapos, demasiado fracos para celebrar a libertação. Algumas crianças observavam sem chorar, como se o choro tivesse sido engolido algures entre a fome e o medo. Auschwitz tinha sido libertado. E o mundo, finalmente, via.

É esse dia concreto — 27 de janeiro de 1945 — que o mundo agora assinala como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Trata-se de um dia de ancoragem histórica que nos remete para um momento em que as portas se abriram e a extensão do horror deixou de poder ser negada. Nesse dia, os soldados encontraram mais de sete mil sobreviventes, toneladas de cabelo humano, malas com nomes escritos à pressa, sapatos de crianças. Provas materiais de um crime que desafiava qualquer linguagem conhecida.

O Holocausto, contudo, não se revelou nesse dia, apenas se confirmou. O que ali se tornou visível foi o resultado de anos de perseguição sistemática, planeada, burocratizada. Auschwitz era apenas um dos centros de um mecanismo de extermínio que assassinou cerca de seis milhões de judeus, para além de pessoas de etnia cigana, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos e outros considerados “indesejáveis”. A libertação não apagou o crime — apenas impediu que ele continuasse naquele lugar.

Por isso, evocar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é como regressar a esse silêncio inicial. Um silêncio que não é vazio, mas saturado de perguntas. Como foi possível? Quem sabia? Quem escolheu não saber? E, talvez a pergunta mais incómoda: o que faríamos nós, colocados nas mesmas circunstâncias?

A primeira lição do Holocausto é que ele não começou nos campos. Começou muito antes, em palavras de desumanização, em caricaturas que ridicularizavam grupos específicos, em leis que separavam, numa insidiosa e crescente “banalização do mal”. Começou quando a diferença passou a ser apresentada como ameaça e o vizinho como inimigo. Assim, o extermínio foi o ponto final de um processo gradual, aceite passo a passo por uma sociedade que se habituou a ceder princípios em troca de conforto ou medo.

Por isso, a memória deste dia não pode ser apenas cerimonial ou meramente simbólica, mas antes deverá constituir pretexto para nos deixarmos inquietar, reconhecendo que a civilização, então como agora, não é imune à barbárie. De facto, convém notar que Alemanha nazi não era um deserto cultural; era uma sociedade moderna, instruída e organizada. O Holocausto prova, por isso, que o progresso técnico e intelectual, sem ética, pode servir o mal com uma eficiência devastadora.

Nos dias de hoje, esta lição torna-se novamente urgente. Assistimos ao regresso de discursos que dividem o mundo em perigosas polarizações e que simplificam a complexidade humana em rótulos hostis. O racismo, a xenofobia e o desprezo por minorias ganham novamente espaço público, legitimados por linguagem agressiva e pela normalização do insulto. A acrescer, verifica-se que o maior perigo não reside apenas nos extremismos declarados, mas igualmente na erosão lenta do limite do aceitável. Quando se começa a tolerar a humilhação do outro, quando se relativiza a dignidade humana em nome da segurança, da identidade ou da maioria, entra-se num terreno perigosamente conhecido. O Holocausto ensina-nos que a indiferença é fértil e que nela o mal cresce sem resistência.

Por tudo isto, o desafio que este dia nos coloca para o futuro é talvez o mais difícil. As testemunhas diretas estão a desaparecer e, em breve, não haverá sobreviventes que possam dizer o que viram na primeira pessoa. A memória passará a depender exclusivamente da nossa responsabilidade coletiva, do rigor histórico contra a negação e o revisionismo, da educação contra a ignorância e da empatia contra o cinismo.

Recordar o Holocausto é também um compromisso para com os vivos. Com aqueles que hoje são marginalizados, perseguidos ou silenciados. Não porque a História se repita de forma mecânica, mas porque os seus mecanismos são reconhecíveis. O “nunca mais” não é uma garantia automática, mas antes uma tarefa permanente que exige vigilância, coragem cívica e a recusa clara de qualquer hierarquia de humanidade.

Quando Ivan Martynushkin saiu de Auschwitz, anos mais tarde diria que nunca conseguiu esquecer aqueles olhos que o olhavam em silêncio. Esse olhar atravessa o tempo e chega até nós. O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto existe para que não desviemos o olhar, porque lembrar não é um gesto passivo: é uma escolha moral. E dessa escolha depende, ainda hoje, o futuro da nossa humanidade.

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