— Cuidado, papá! Os leões!
— Leões?!
— Aqui está escrito “Cuidado com os leões”!
Juntei-me a ela, surpreso e, confesso, também eu um pouco inquieto. Ocorreu-me que estando nós tão próximos da reserva natural talvez fosse mesmo possível surgirem leões. Olhei para todos os lados, imaginando o que aconteceria caso aparecesse uma fera, mostrando os dentes, rugindo. Como poderíamos fugir? Correndo para a água? Será que os leões sabem nadar?
Então, li o cartaz. Dizia: “Cuidado com as lesões! Não nos responsabilizamos por eventuais quedas!”
Expliquei à menina que não eram leões, e sim lesões. Aquela palavra estranha queria dizer ferimentos, arranhões, ossos quebrados. Ela escutou-me com atenção, assentiu, e depois proclamou, definitiva:
— Ah. Então está mal escrito.
Perguntei-lhe por quê.
— Porque assim como está assusta as pessoas.
Enquanto avançávamos na trilha eu pensava no cartaz. Não no erro de leitura, mas na correção moral da interpretação. O aviso não nos alertava para o perigo — protegia quem o colocou. Não dizia apenas tenham cuidado. Dizia: se acontecer algo, o problema é vosso.
O equívoco pode ser lido como um pequeno retrato deste nosso tempo. Vivemos cercados de avisos que não avisam, de comunicados que não informam, de discursos cujo verdadeiro objetivo não é tanto proteger os cidadãos, e sim resguardar as instituições. Nos últimos anos assistimos à multiplicação de cartazes invisíveis. Estão nas redes sociais, nos discursos políticos, nos comunicados oficiais, nos contratos que aceitamos sem ler. Dizem-nos, todos os dias, que a responsabilidade é dos outros. Que os danos são colaterais. Que as vítimas são inevitáveis. Que os erros são técnicos. Que ninguém sabia. Que ninguém viu. Que ninguém tem culpa. Chamam a isto pragmatismo. Boa gestão. Realismo.
As crianças, com o bom senso ainda intacto, dão-lhe o nome adequado — leões!
Talvez por isso o mundo contemporâneo seja tão difícil de explicar a uma criança — e, ao mesmo tempo, tão fácil de explicar por uma criança. Quando nós escutamos “danos aceitáveis”, elas ouvem feras à solta. Onde nós invocamos cláusulas, elas perguntam: quem vai ser comido?
Sempre que um governante alerta para “o pequeno desconforto” de certas medidas, há leões escondidos na frase. Quando uma empresa pede desculpa “se alguém se sentiu ofendido”, há leões passeando entre as palavras. Quando se fala de guerras “cirúrgicas”, de migrações “ilegais”, de mortes “inevitáveis”, os leões estão lá — sentados no afável crepúsculo dos seus cadeirões de couro, de terno elegante, gravata a condizer, e óculos escuros.
Completamos a trilha, eu e Kianda, e regressamos sem lesões — e sem ter visto leões —, com os olhos cheios da bela luz do Índico.

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