segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Metáforas: as lentes invisíveis do poder

Na política, há duas maneiras de dizer a mesma coisa: pela régua da razão ou pelo pincel da imaginação. A primeira mede; a segunda mobiliza. E, entre medir e mobilizar, vence quem consegue traduzir a aridez dos conceitos em imagens que falem ao coração do eleitor. É nesse território que a metáfora se transforma em ferramenta de poder.

A política é, por natureza, abstrata. Fala de déficit, soberania, arcabouço fiscal, governança, inflação inercial, pacto federativo. Conceitos que não moram no cotidiano do cidadão comum. O eleitor não toma café da manhã com a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem leva para o trabalho a taxa Selic. Mas entende o que significa dizer que “o país está à deriva”, que “o governo perdeu o leme”, que “a economia patina” ou que “a inflação corrói o salário”.

 


A metáfora cumpre, assim, uma função pedagógica: simplifica o complexo. Quando se afirma que “o Brasil é um navio em mar revolto”, não se está apenas ornamentando o discurso. Está-se oferecendo ao público uma moldura cognitiva para compreender a instabilidade política e econômica. O governante vira capitão. A oposição, tempestade. O mercado, correnteza. E o eleitor, passageiro — ora apreensivo, ora esperançoso.

Mais do que explicar, a metáfora orienta. Ela indica culpados e sugere saídas. Ao dizer que “o Estado é um paquiderme lento”, o orador já está insinuando a necessidade de reformas. Ao afirmar que “a corrupção é um câncer”, legitima-se a ideia de extirpação radical. Ao tratar a polarização como “um campo minado”, adverte-se sobre os riscos do confronto. Cada imagem carrega uma agenda implícita.

Campanhas não se vencem apenas com dados, mas com narrativas. E narrativas são tecidas com metáforas. O “caçador de marajás”, o “pai dos pobres”, a “mãe do PAC”, o “mito”. Cada rótulo condensa uma história inteira em duas ou três palavras. É a economia simbólica do discurso.

Mas há perigos nesse recurso. Metáforas não apenas iluminam; também ocultam. Ao comparar a política a uma guerra, por exemplo, naturaliza-se o inimigo, a trincheira, o combate sem quartel. O adversário deixa de ser concorrente e passa a ser ameaça existencial. O debate vira batalha; o parlamento, campo de confronto; o voto, munição. E, nesse ambiente, o compromisso soa como rendição.

George Lakoff, linguista americano, demonstrou que as metáforas estruturam nosso modo de pensar. Quando a política é vista como jogo, aceita-se a trapaça como estratégia. Quando é tratada como mercado, tudo vira negociação. Quando se converte em espetáculo, a performance supera o conteúdo. A escolha da imagem não é inocente: molda percepções e comportamentos.

No Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Fala-se em “tomar o poder”, “resistir ao avanço”, “derrotar o inimigo”, “defender a democracia”. O vocabulário é de quartel. E o risco é que, ao militarizar a linguagem, militarize-se também a prática política.

Cabe, portanto, ao comunicador público — jornalista, marqueteiro ou líder — usar a metáfora com responsabilidade. Em vez de incendiar, pode-se iluminar. Em vez de dividir, pode-se conectar. A política não precisa ser sempre um ringue; pode ser uma ponte. Não precisa ser um tabuleiro de xadrez; pode ser uma mesa de negociação. Não precisa ser um campo de batalha; pode ser uma arena de consensos.

A metáfora é inevitável. O desafio é escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade; que inspirem ação sem estimular o ódio; que traduzam a realidade sem deformá-la. Afinal, como ensinava Aristóteles, metáfora é ver o semelhante no dessemelhante. E, na política, ver bem é metade do caminho para governar melhor.

Gaudêncio Torquato

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