segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Vegetarianos não praticantes

Jonathan Safran Foer escreveu dois dos romances mais inteligentes, surpreendentes e divertidos que li nos últimos anos: “Tudo se ilumina” (Rocco, 2002) e “Extremamente alto e incrivelmente perto” (Rocco, 2005). Depois disso, publicou um livro de não ficção, “Comer animais” (Rocco, 2009), sobre a crueldade da indústria alimentar e as virtudes do vegetarianismo. Recentemente, surgiu no Brasil mais um título de Jonathan: “Nós somos o clima — Salvar o planeta começa no café da manhã” (Rocco, 2020), no qual o escritor americano regressa à sua obsessão preferida: a comida. A tese de Jonathan é de que o mundo tal como o conhecemos está à beira do colapso devido ao aquecimento global, e de que esta tragédia tem sobretudo a ver com a agroindústria.

Sem surpresa, há diversas referências ao Brasil e a Jair Bolsonaro. Jonathan lembra que Bolsonaro fez campanha por um plano para explorar extensões anteriormente protegidas da Amazônia, acrescentando que tal política libertará 13,2 gigatoneladas de carbono, mais do que o dobro das emissões totais dos Estados Unidos. O agronegócio é responsável, segundo Jonathan, por 91% da destruição da Amazônia.


Para o romancista americano, bastaria deixarmos de comer carne e produtos lácteos ao almoço e café da manhã para impedir uma catástrofe maior. Jonathan, portanto, não está a exigir à Humanidade que se converta ao vegetarianismo puro e duro. Pede apenas uma redução no consumo de carne. Não me parece um sacrifício insuportável — é apenas uma questão de bom senso.

Estudei agronomia e silvicultura no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, há mais de 30 anos. Lembro-me de um professor que já nessa época defendia teses semelhantes às de Jonathan, demonstrando, através de cálculos muito simples, o absurdo energético que representa a criação de gado bovino. Também ele achava que a pecuária industrial iria destruir o planeta. Desde essa época que simpatizo com os ideais vegetarianos, embora, como Jonathan, não esteja disposto a abandonar por completo o consumo de carne. Sou, digamos assim, um vegetariano não praticante. 

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

Gosto de escritores com causas. Um escritor sem causas não produz literatura, mas entretenimento. Nada contra o entretenimento. Mas nos dias que correm precisamos mesmo é de literatura. 
José Eduardo Agualusa"

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