segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Uma palavra agradecida ao governo Bolsonaro

Só quem parece satisfeita com mais de cem mil mortos, a corrupção viva por todos os cantos, é a palavra “descalabro”. Ninguém mais a amava, ninguém mais a escrevia. Ela estava entregue à sanha das traças dos dicionários, abandonada à própria infelicidade por sua decadência e som de bolero. “Descalabro” voltou.

A palavra foi reincorporada aos jornais, na tentativa de exprimir com ênfase polissílaba o estupor nacional. “Vergonha”, “pouca vergonha”, “bando de sem vergonha”, todas essas veemências da língua fracassaram. 


A pobre coitada estava no limbo vernacular, amaldiçoada pelo excesso cafona de seu alvoroço denunciatório. Pior. Carregava a necessidade constrangedora de se fazer acompanhar a cada citação por um outro escorraçado da boa escrita moderna - o infeliz do ponto de exclamação.

Breguerérrima, a dupla “descalabro!” era uma espécie de porta bandeira e mestre sala das escolas de texto ruins. Zero, nota zero. Mas, com a floresta amazônica em chamas e os terraplanistas no poder, ficou claro que para nomear o horror não havia no mercado uma palavra razoável – “negacionistas”, “milicianos” e “assassinos” soavam fracas. “Descalabro” agradeceu a lembrança. Pôs-se às ordens.

Ela parecia para sempre excomungada, junto com o ioiô da Coca-Cola e as perucas Lady, nos almanaques da nostalgia furreca. Está vivinha da silva. Humilde, diz entrar em campo para somar. Ao lado de “não é possível”, “onde vamos parar”, “genocídio” e outras expressões cúmplices do mesmo assombro, quer contar a verdadeira história do país em 2020.

A palavra era a queridinha dos editoriais udenistas da Tribuna da Imprensa (brandida num esquema saia-e-blusa, “descalabro moral”). Nunca desapareceu das páginas. De vez em quando, à sorrelfa, burlava o esquema de segurança do copydesk e dava os ares de sua antiguidade. Surgia em alguma carta de leitor que denunciava o prefeito da cidade e precedia o fecho invariável de “até quando?!”.

“Descalabro” – com o “a” tônico parecendo gritar “pega ladrão” - embute o som de safadeza larga a ser investigada. É a língua afetiva que falava vovó. Ilustra também a crença nacional de que quanto mais sílaba tiver uma palavra, melhor e inconstitucionalissimamente mais culta ela soará. O deputado barroco baiano não saía de casa sem a sua.

Pois aqui, diante dos gastos com quatro milhões de comprimidos de cloroquina, está a “descalabro” de novo. Sempre despenteada, ela põe a cabeça para fora da janela, nem aí para o que vão dizer de sua histeria. Faz a doida, na esperança de que alguém ouça a gritaria que vem do editorial e chame a autoridade competente.

Ao lado de “crime contra a humanidade”, “ignorância” e “quadrilha organizada”, ela reage como pode quando os fatos já não bastam, os cheques na conta da Michele não são suficientes, e é preciso aos observadores do país se boquiabrir com um espanto tão tradicional.

Pode ser muita semântica numa hora dessas, mas “descalabro” tem sido termômetro seguro para medir crises. Quando os mais finos redatores se lembram dela é sinal que a coisa está quedando peluda e urge deixar de lado o bom gosto exigido pelo manual de redação. Sempre foi um “J’accuse” do português ruim, uma pedrada nos vitrais do palácio. Por enquanto, infelizmente, tem a mesma eficácia curativa da cloroquina, esse imenso descalabro.

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