quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sobre a luz e a escuridão

Na semana passada estive em Haia, na Holanda, participando num festival literário cujo tema, “Hello Darkness!” (Oi, Escuridão!), já prenunciava um programa original. Assim aconteceu. Ao longo de vários debates e leituras os escritores presentes foram desafiados a discutir a maldade e a escuridão nas suas vidas e nas suas obras. Muitos, como o poeta sírio Adonis, o romancista egípcio Alaa al Aswany, ou a romancista chinesa Jung Chang, provinham de países sujeitos a regimes ditatoriais. Outros haviam atravessado longas guerras civis. Vários afirmaram escrever para tentar compreender a maldade. A bondade é como a água pura: não tem grande mistério.

A mim fascinam-me os personagens perversos. Tento encontrar neles algo que os resgate. Uma centelha de humanidade. Também me interessa perceber como alguém escolhe um lado ou outro: pessoas cujo destino as empurrou, desde muito cedo, para a escuridão, mas que conseguem (rindo) alçar-se para o lado luminoso da vida; pessoas que, pelo contrário, nasceram com o caminho desimpedido e escolheram a corrupção e a maldade.

Numa guerra, combatentes e não combatentes estão autorizados a ser maus. A maldade é encorajada. Cidadãos comuns transformam-se em monstros. Acontece algo semelhante a populações sujeitas a regimes totalitários. Em países democráticos, mas com graves distorções sociais, como o Brasil, a situação pode não ser muito melhor. Sociedades doentes empurram as pessoas para o lado escuro.
Rosa de porcelana (Etlingera elatior)
Quando estou em Lisboa gosto de correr junto ao rio. No Inverno isso é um pouco mais difícil porque o tempo nem sempre ajuda. Então inscrevi-me numa academia com vista para as águas do Tejo. Corro numa esteira, mas os meus olhos continuam a acompanhar o rio, até a ponte, quer chova ou faça sol. Há poucos dias um amigo apresentou-me a um dos professores. “O gajo tem uma história extraordinária”, disse-me. E realmente tem. Sérgio nasceu numa fazenda, no interior de Alagoas. Abandonado pela mãe à nascença, foi recolhido por um casal, e criado numa cidade próxima. Aos 12 anos zangou-se com o pai adotivo e decidiu partir sozinho, à carona, para São Paulo. Passou a viver nas ruas, com outros garotos, roubando comida para sobreviver. Um dia, aos 14 anos, tropeçou num mendigo. Ocorreu-lhe, tomado por um brusco sentimento de horror, que ele próprio poderia vir a ser, dali a poucos anos, aquele homem sujo e cheirando mal. Nesse mesmo dia começou a trabalhar como entregador para um feirante. Mais tarde arranjou emprego numa academia de jiu-jitsu. Limpava as instalações e treinava. Dormia lá. Veio a ser campeão mundial de MMA, modalidade de artes marciais mistas. Após uma passagem de dois anos pela Legião Estrangeira, em França, fixou-se em Portugal. Lembra-se de ter vivido 45 dias ao relento, nas ruas de Lisboa. Tinha prática, portanto não lhe custou muito. Hoje é um dos personal trainers mais requisitados da cidade. As pessoas gostam dele porque está sempre rindo, brincando, e aquilo que poderia ser uma hora de tortura física acaba se tornando num divertimento.

Há pessoas boas por pura preguiça. Outras são más pela mesma razão. Quer a verdadeira bondade quer a verdadeira maldade exigem esforço. Sérgio é um bom exemplo de alguém contra quem a vida se acirrou, desde muito cedo, à dentada e à patada, e que parecia condenado a permanecer para sempre no seu lado mais sombrio. Contudo, escolheu lutar contra a escuridão e triunfou. “Você leu ‘Capitães da Areia’?”, perguntou-me. E os olhos dele encheram-se de lágrimas. Sim, eu li Jorge Amado de uma ponta a outra. Aprendi com Jorge Amado, o qual, por sua vez, deve ter aprendido, nos terreiros, com a filosofia dos orixás, que somos todos feitos de um pouco de luz e de outro tanto de sombras.

Conheci um antigo guerrilheiro, que viveu quase 20 anos nas matas de Angola, combatendo numa guerra insana e particularmente cruel, e que hoje cultiva e vende rosas de porcelana. A rosa de porcelana (Etlingera elatior) é uma planta, originária da Ásia, que foi introduzida com imenso sucesso em Angola, ainda no tempo colonial. Dá uma flor enorme, belíssima e delicada, que parece realmente ter sido moldada em porcelana. Visitei o antigo guerrilheiro em Benguela, uma velha cidade junto à costa, onde agora vive. Perguntei-lhe, como pergunto sempre a quem fez guerras, como consegue adormecer, à noite, tendo às costas tantos mortos e tanta dor. “Matar era fácil”, disse-me. “Era o que se esperava de nós. É muito mais difícil agora pensar nessas mortes. O que me salva hoje é a beleza das rosas.”

Não estou certo de que a beleza nos salve. Mas ajuda.
José Eduardo Agualusa

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