quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Uma breve história de Marte

Dos filmes e livros às sondas de exploração da NASA, Marte é sinônimo de fascínio e mistério. Haverá vida no planeta vermelho? O planeta Marte está sempre nas manchetes. Recentemente, foi a descoberta de água líquida fluindo na sua superfície, e mais um tanto acumulada em crateras. A lista de filmes sobre Marte ou marcianos é longa. O filme de Ridley Scott, Perdido em Marte, baseado no livro de Andy Weir, lotou cinemas pelo mundo afora. Parece que o planeta vermelho não quer ser ofuscado pela Lua, especialmente agora que o bilionário Elon Musk diz que quer colonizar o planeta com sua empresa SpaceX.
Na mitologia greco-romana, Marte é o deus da guerra, guardião dos soldados e dos fazendeiros. A conexão com a guerra pode ser traçada aos egípcios. Os gregos o chamavam de Ares, um dos deuses do Olimpo, filho de Zeus e Hera. A cor avermelhada de Marte, plenamente visível a olho nu, inspira certo temor, dando ao planeta um ar de mistério. Que tipo de criatura pode habitar um mundo que aparenta ser coberto de sangue? Com a astronomia restrita a observações a olho nu até 1609, pouco foi aprendido sobre Marte até então. Entre 1601 e 1609, o astrônomo alemão Johannes Kepler usou o planeta para deduzir que sua órbita tinha a forma de uma elipse, e não a de um círculo perfeito. Talvez a inspiração de Kepler tenha vindo do impulso guerreiro atribuído a Marte, refletido na sua órbita um tanto excêntrica (no sentido de não circular).

O astrônomo bem sabia que sua visão ruía milênios de conhecimento astronômico, e que forçaria uma nova atribuição de imperfeição aos desenhos celestes. {14} Já bem na era dos telescópios, e aproveitando a aproximação de Marte durante um período de ótima visibilidade em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou certos detalhes do relevo marciano que descreveu usando a palavra italiana “canali”. Mesmo que Schiaparelli estivesse se referindo às longas depressões e sulcos na superfície de Marte, algumas pessoas acreditaram que houvesse descoberto canais escavados, que cruzavam a superfície do planeta em padrões extremamente regulares.

Na imaginação popular, os canais logo se transformaram em vias artificiais, construídos por uma antiga e sábia civilização, dirigindo água dos polos aos centros urbanos das áreas equatoriais, castigadas por terríveis secas. Centenas de canais foram “observados” e batizados, mesmo se revelados apenas através de observações munidas de telescópios. Estranhamente, as fissuras recusavam-se a aparecer em fotografias tiradas com os mesmos telescópios. Astrônomos ofereceram várias explicações para essa situação um tanto peculiar, argumentando que técnicas fotográficas precisam de um longo período de exposição, tornando-as, assim, mais sensíveis a flutuações térmicas na atmosfera. Segundo eles, essas flutuações comprometem a qualidade das imagens fotográficas, apagando qualquer traço de existência dos canais.

Algo semelhante ocorre quando viajamos em estradas com o asfalto aquecido pelo Sol e observamos imagens distorcidas à nossa frente. Astrônomos de excelente reputação acreditaram com entusiasmo na existência dos extensos canais marcianos. Entre eles, o milionário e astrônomo amador americano Percival Lowell ficou fascinado com a possibilidade de vida inteligente em Marte. Em 1895, Lowell publicou um livro expondo suas ideias com grande convicção e autoridade. Usando sua fortuna pessoal, fundou um observatório em Flagstaff, no estado do Arizona, inicialmente dedicado exclusivamente a observar Marte. Não é por coincidência que H. G. Wells publicou seu livro A Guerra dos Mundos em 1898, um dos grandes clássicos da ficção científica, que conta a história de uma invasão marciana.


No livro, Wells usa os marcianos como metáfora para o futuro da humanidade, dominada pelos grandes impérios do final do século XIX (Austro-Húngaro, Otomano, Britânico, a América do Norte emergente...). Da mesma forma que duas espécies inteligentes não podem coexistir no mesmo planeta, uma conflagração entre os grandes impérios seria inevitável no futuro próximo. (Que se materializou, profeticamente, com a Primeira Guerra Mundial.) Os marcianos, forçados a abandonar o seu mundo, haviam criado terríveis máquinas de destruição, um aparato bélico que fazia das nossas armas brinquedos de criança. Não foi nossa inteligência ou estratégia que derrotou os invasores, mas a Natureza.

Wells, imbuído dos ensinamentos de Darwin e sua teoria da evolução, sabia que qualquer espécie, inteligente ou não, só está bem adaptada ao ambiente onde vive. Os marcianos não tinham os anticorpos necessários para se defender contra os nossos micróbios. Inspirado pelo livro de H. G. Wells, ainda mais dramático foi o programa de rádio criado e produzido em 1938 pelo genial Orson Welles, alertando os habitantes do estado de Nova Jersey para uma invasão de marcianos. A Guerra dos Mundos tornou-se “real” logo antes da Segunda Guerra Mundial. A série de transmissões, na forma de noticiários urgentes, causou verdadeiro pânico na população local.

A maioria das pessoas acreditou passivamente nos noticiários, sem questionar a existência de uma civilização tecnologicamente avançada em Marte, aparentemente com péssimas intenções com relação à Terra e seus habitantes.

Essa credibilidade só foi possível porque o planeta vermelho ocupava já um local privilegiado na psique coletiva como um mundo habitado por seres mais avançados, cuja índole destruidora causaria o nosso fim. Poucos entenderam que o que viam nos marcianos era um reflexo de nós aqui na Terra, uma espécie que, movida pela ganância e pela sede de poder, cria meios terríveis de autodestruição.

As duas versões do livro de Wells para o cinema – a primeira, de 1953, dirigida por Byron Haskin, e a segunda, de 2005, dirigida por Steven Spielberg – adaptam a narrativa para a realidade social da época. A versão de 1953 ecoa a era atômica e a Guerra Fria. Os marcianos querem aniquilar os humanos, sem, aparentemente, um motivo óbvio. Na versão de 2005, o foco é a desintegração da família e o medo da ameaça terrorista. Os monstros que vêm de Marte são os monstros que carregamos em nós mesmos.

Durante as décadas de 1960 e 1970, as várias sondas espaciais da linha Mariner e Viking provaram definitivamente que os extensos “canais marcianos” não existem. Também não existe qualquer traço de uma civilização inteligente em Marte, no presente ou no passado. Por outro lado, sabemos agora que o planeta apresenta uma geologia extremamente rica, mesmo se desértica e com temperaturas muito baixas. Vales e leitos de rios, vastos sistemas de cânions com mais de 4 mil quilômetros de extensão, enormes vulcões extintos, tudo isso indica que, no passado, Marte era um planeta muito diferente do que é hoje, com muita água e até, quem sabe, clima tropical.

Com as sondas mais recentes, que pousaram em Marte e exploraram a região vizinha ao seu local de pouso com pequenos jipes robóticos, ficou claro que o planeta é mesmo um deserto gelado, semelhante a certas regiões do Oeste americano. Seu tom avermelhado vem do acúmulo de poeira na superfície, formada por vários compostos de ferro e oxigênio. Essa poeira é levantada com frequência em terríveis tempestades de areia, que podem ser vistas até por telescópio. Apesar de alguns alarmes falsos, a vida não foi detectada em Marte. Se existe vida lá, será simples, provavelmente bacteriana.

Difícil que seja na superfície, dado que a atmosfera de Marte é muito fina, em média com menos de 1% da densidade da atmosfera terrestre: sem a proteção da atmosfera, a superfície é eficientemente esterilizada pela radiação ultravioleta oriunda do Sol. Para piorar, o gás carbônico (o que a gente exala quando respira) compõe 96% da atmosfera, tornando-a inviável para seres como nós. Com massa menor do que a Terra, em Marte o peso dos humanos seria em torno de 40% menor. Bom lugar para dietas, mas não para passar as férias. Seria uma viagem de pelo menos seis meses, sem qualquer garantia de volta. Missões recentes confirmaram a presença de água líquida em certas encostas de Marte.

Estrias escuras em terreno seco indicam a presença de água, semelhante ao que ocorre com o concreto, que escurece quando molhado. A alta quantidade de vários tipos de sais na água faz com que permaneça líquida mesmo a baixas temperaturas, no caso em torno de -30 graus Celsius. Infelizmente, essa alta salinidade também dificulta a existência de vida, semelhante ao que ocorre no Mar Morto em Israel e, mais dramaticamente, na lagoa de Don Juan, na Antártica, com salinidade 9,6 vezes mais elevada que no Mar Morto.

Mesmo que a possibilidade de a vida existir nessas condições seja baixa, só saberemos se alguma criatura pode sobreviver nessas condições extremas se tivermos a oportunidade de investigar a área diretamente. Apesar de parecer uma decisão simples, enviar uma sonda para essas regiões é um processo não só caro como complexo. O maior problema é a possibilidade de contaminação, isto é, de a própria sonda levar consigo criaturas terrestres, bactérias ou vírus. Certamente, numa questão dessa grandeza não queremos ser enganados, especialmente se a vida descoberta em Marte for idêntica à encontrada aqui, o que seria muito suspeito. Não há dúvida de que a descoberta de vida extraterrestre seria uma das maiores notícias de todos os tempos. Contemplar a existência de outras formas de vida é contemplar a natureza de nossa própria existência como seres humanos.

Até que ponto somos únicos e especiais? Sabemos hoje que apenas em nossa galáxia existem em torno de 250 bilhões de estrelas, e que a maioria delas têm planetas girando à sua volta. Devemos, também, incluir as luas, que são potencialmente plataformas para a vida. Isso significa que existem trilhões de mundos apenas em nossa galáxia, cada qual com sua própria composição e história. Se as leis da física e da química são as mesmas nesses mundos – e sabemos que são –, fica difícil imaginar que somos o único planeta com vida.

A probabilidade de vida extraterrestre é alta, mesmo se limitarmos nossa busca à Via Láctea e a criaturas semelhantes a nós, com química baseada em carbono e dependendo de água líquida. Astrônomos que trabalham nessa área – chamada de astrobiologia – especulam que teremos indicação indireta de que a vida existe em outro planeta (fora do sistema solar) em duas ou três décadas. Essa “detecção” se dará através da análise da composição da atmosfera do planeta, que, otimisticamente, teria gases associados à presença de vida, como oxigênio e ozônio. Vale lembrar, no entanto, que detectar vida não é o mesmo que detectar vida inteligente. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas, a vida inteligente sendo certamente muito mais rara. (Veja ensaio anterior, “A questão alienígena”.)

A vida existe na Terra há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Em números arredondados, durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida aqui consistia apenas em seres unicelulares. A complexidade dos dinossauros veio muito depois. Nós estamos aqui apenas há 200 mil anos, resultado de uma série de mutações genéticas e acidentes cósmicos. A vida não é como uma semente, que brota e vai dar numa grande árvore. A vida não tem um plano final. A existência de inteligência é a exceção e não a regra. Essa revelação da ciência moderna põe nosso medo dos marcianos num outro patamar, decididamente o da ficção científica. Voltando à obra de H. G. Wells, é melhor tomá-la como metáfora dos perigos que nossa espécie confronta no presente e no futuro próximo. Numa era em que a automação cega e a distância entre nós e o resto da vida em nosso planeta aumentam impunemente, a raridade da vida deveria ressoar com uma nova identidade para a humanidade, guardiões da Natureza num Universo profundamente hostil à vida. É hora de repensar nossa importância e raridade, tomando o destino da vida e do nosso planeta em nossas mãos.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

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