sábado, 15 de agosto de 2020

De novo, o sanatório geral

Não esqueço nunca o dia em que ouvi, pela primeira vez, o magistral “Vai Passar” de Chico Buarque. O ano: 1984. O Brasil nas mãos do último general-presidente, João Batista de Figueiredo. A emoção que a música despertou em mim foi imensa. Chorei muito. E sonhei muito. Tinha 46 anos, e até então nunca votara para presidente da República. Não que não tivesse idade para isso na eleição em que venceu Jânio Quadros, mas estava fora do Brasil e naquele tempo não votávamos quando no exterior.

Acreditava piamente que “dormia nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”, os versos iniciais dessa linda música, eram a mais pura verdade.

Vem o Collor e foi aquele horror. Vem o Fernando Henrique, excelente Ministro e depois Presidente da República e, em seu primeiro mandato, renova minha fé. Já no segundo, começa tudo a desandar. Nas eleições seguintes, ouço pessoas a quem respeitava, e outras a quem respeito muito ainda hoje, a declarar o voto abertamente: Lula.

Revi minha posição e percebi que o que me colocava contra o Lula era um preconceito. Julgava que sendo alguém sem instrução formal, ele não saberia governar o Brasil. Mas me convenci que isso, no fundo, era uma bênção, pois ele, mais do que qualquer outro, iria compreender e encaminhar o Brasil de modo a afastar de vez as injustiças e a fazer de nosso povo um povo finalmente feliz, educado, saudável, bem cuidado.


Entretanto, eu não contava com um dos versos mais terríveis de “Vai Passar”: “palmas pra ala dos barões famintos”. E eles chegaram, os barões, famintos, sedentos, alucinadamente ansiosos para recuperar o tempo perdido. O tempo deles, e não o tempo do Brasil. A fome e a sede dos senhores barões, e não a fome e a sede dos brasileiros. E começou a mais tremenda das desilusões.

Estamos vendo, nestes dias, fatos quase que inacreditáveis: as filas de gente sofrendo, horas a fio, nos hospitais; a dor, o sofrimento de uma nação. E o governo querendo convencer o mundo que o Brasil venceu a pandemia.

Do presidente, nem falo. Esse vive em outra galáxia: no mundo dos palanques. Recorro outra vez aos versos de Chico Buarque: “O estandarte do sanatório geral vai passar”.

Está passando, Chico. E repara que os homens que o carregam são, em sua maioria, aqueles filhos que “erravam cegos pelo continente, levando pedras feito penitentes”. Quem poderia imaginar que ao assumir o controle do Brasil, esses penitentes fossem aceitar de vez sua condição de membros do sanatório geral?

O sanatório geral que está a pleno vapor. Um dossier montado no seio do Governo Federal assusta muita gente. Pretende servir como arma de defesa caso a oposição adquira força para mostrar à pátria ainda tão distraída, que as tenebrosas transações continuam. O sanatório se agita. Como? Quem vai entregar o ouro ao bandido? Você sabe?

Será o presidente? Ele que tem uma imensa desinibição para falar besteira? Ainda mais se tratando de uma pessoa que passou quase 30 anos perseguindo o objetivo de chegar à Presidência da República? Não lhe faltaram condições para estudar mas o que lhe sobrou foi preguiça, desinteresse, malandragem e esperteza. E ainda por cima só pensa numa coisa: na reeleição!

Pobre Brasil! E que ninguém se iluda. A força do sanatório geral é imensa. Tudo vai continuar como dantes neste quartel d’Abrantes. Infelizmente.

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