sexta-feira, 27 de julho de 2018

Lições da Tailândia

Nesta Copa, cada povo torceu por sua seleção até que, em 2 de julho, o mundo inteiro passou a torcer pelo Javalis Selvagens. Doze jogadores mirins e seu técnico, presos dentro de uma caverna na Tailândia, atraíram a atenção tanto quanto as seleções na Rússia. Aquele país deu algumas lições ao mundo.

Mostrou gestão para mobilizar recursos, com o heroísmo de voluntários, realizando uma operação que parecia impossível. Venceram desafios quase insuperáveis: localizar os meninos, alimentá-los a 3 km da entrada da caverna e a 1 km de profundidade.


A primeira lição é que o salvamento seria impossível sem conhecimento técnico e sem a coordenação de profissionais de diversas especialidades e nacionalidades.

Outra lição é que a operação só foi possível graças à decisão política dos governantes tailandeses. Sem ela, os recursos disponíveis não seriam utilizados. A desmoralização da política faz esquecer que, sem ela, as decisões não são tomadas, os recursos não são utilizados ou servem a causas erradas. A bem-sucedida operação nos ensinou que os países não aplicam recursos para resgatar milhões de pobres, porque as decisões políticas são tomadas com base na moral prevalecente na sociedade.

O salvamento exigiu técnicas mais complexas do que as necessárias para educar, alimentar, construir moradias, levar água para milhões de pobres. As sociedades não usam a política para mobilizar recursos que salvem os milhões sem teto, sem comida, sem educação, porque não há um imperativo moral para isso.

A ética induz a política ao resgate de meninos presos em uma caverna, mas tolera a omissão da condenação de milhões de outras crianças à pobreza. A moral criou um imperativo que leva à mobilização para resgatar o Javalis Selvagens e força uma pessoa que sabe nadar a heroicamente saltar para salvar quem se afoga, mas não a alfabetizar quem não lê.

Todos se empenham para evitar que uma pessoa morra por falta de oxigênio em uma caverna, mas toleram a morte por falta dele em um hospital. Todos sofremos diante do risco dos meninos com fome e frio na caverna, mas aceitamos a fome endêmica, o frio e a negação de escola e saúde para milhões de meninos que caminham livres em nossos países. Viver na pobreza implica a mesma escassez de uma caverna.

Outra lição é que o imperativo moral que impele as decisões políticas trata com diferença os condenados na caverna geológica e os da caverna social da pobreza. Não se considera “afogado” quem fica sem oxigênio por falta de atendimento médico; não se usa “resgate” para retirar alguém da rua; não se chama “escuridão” o mundo em que vive um analfabeto, não se considera “genocídio” a morte por inanição.

Felizmente, a moral salvou os meninos; mas ela não empurra a política para “resgatar” os pobres nas “cavernas sociais”: do analfabetismo e da deseducação; da desnutrição crônica; da falta de água potável, coleta de lixo e esgoto; da falta de atendimento médico.

Talvez as lições da Tailândia nos levem a mudar a linguagem, a moral e o uso da política a serviço da justiça social. Que pelo menos os políticos aprendam a lição.

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