A História ensina-nos que a linguagem política nunca é inocente. No século XIX e início do século XX, antes de qualquer declaração formal, um Estado podia enviar uma mensagem inequívoca simplesmente ao deslocar uma frota de guerra para junto da costa de outro país. Era a chamada gunboat diplomacy: uma retórica feita de aço e vapor. Os navios comunicavam mais do que qualquer nota diplomática: diziam “cedam” sem uma única palavra, mostrando que a ameaça não era abstrata, mas física, material, pronta a agir. O analista britânico James Cable estudou exaustivamente esta prática e demonstrou como a presença militar funcionava como linguagem coerciva — eficaz precisamente porque conjugava silêncio e intimidação. Um navio, ali parado, dizia tudo.
Com o pós‑Segunda Guerra Mundial, a exibição de poder mudou de forma, mas não de essência. Já não eram as canhoneiras a pairar no horizonte; era a ameaça, calculada ao milímetro, de destruição total. No auge da Guerra Fria, o teórico Thomas Schelling viria a descrever esta lógica como “diplomacia da violência”: não a violência exercida, mas a violência anunciada. A ameaça torna‑se um instrumento de regateio, uma peça no tabuleiro que permite a cada ator “fazer saber” o custo de uma provocação. Daí que as palavras — mais do que os mísseis, mais do que as tropas — tenham passado a carregar o peso de possíveis catástrofes. A linguagem transformou‑se em arma: cada frase pode aproximar ou afastar o conflito, cada tom pode abrir portas ou fechá‑las para sempre. Schelling dizia que, numa relação tão delicada, a firmeza não podia dispensar a contenção. Um líder que não mede a voz pode, involuntariamente, desencadear aquilo que mais teme.
A Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, tornou esta verdade impossível de ignorar. Quando o mundo esteve a poucos centímetros de uma catástrofe nuclear, não foram gritos, nem bravatas, nem insultos que evitaram o desastre. Foram cartas cuidadosamente redigidas, firmes mas controladas, escritas com a precisão de quem sabe que cada palavra transporta consequências irreversíveis. A correspondência entre Kennedy e Khrushchev tornou‑se exemplar, porque uniu a clareza da exigência ao reconhecimento da vulnerabilidade mútua. Não havia teatralidade; havia responsabilidade. A linguagem, nesse momento, salvou vidas — possivelmente milhões.
É à luz desta História que devemos observar o presente. Nos discursos recentes daquele líder global que tantos ouvem — e muitos temem — surgem elementos que ecoam os piores capítulos da comunicação internacional: a personalização da ofensiva, o desprezo pelos parceiros, o enaltecimento da força como ferramenta natural de relação e a ameaça sugerida como forma de pressão. Não estamos perante meras frases soltas, mas perante um estilo comportamental que fragiliza o sistema internacional, que confunde aliados, que encoraja adversários e que, sobretudo, normaliza a ideia de que a política externa pode ser conduzida ao ritmo do impulso e da humilhação. De uma certa demência, provavelmente.
Num mundo hiperligado, onde cada declaração se transforma em ação potencial, a agressividade verbal já não é apenas um gesto simbólico: é um risco real. Os Estados observam, avaliam e reagem não apenas ao que é feito, mas ao que é dito — e ao modo como é dito. Quando um líder fala como se o mundo fosse um ringue, uma arena, o mundo começa a comportar-se como tal.
Perante isto, a Europa tem uma responsabilidade histórica — talvez a mais importante das últimas décadas. Um continente que nasceu da memória da devastação e que construiu a sua identidade política sobre o primado do direito, da cooperação e da previsibilidade, não se pode dar ao luxo de ceder à tentação de imitar o estilo hostil que hoje se alastra. O que se exige não é silêncio; é altura, elevação. Não é aquiescência; é firmeza sem estridência. A Europa deve responder com a força tranquila das instituições que criou, com a disciplina do discurso que preserva pontes, com a clareza moral de quem sabe que a paz começa na forma como se fala.
A linguagem europeia deve ser ancorada no direito internacional, precisa na descrição dos factos, firme na defesa das normas e, sobretudo, imune à retórica da intimidação. Sempre que a agressividade surgir, a resposta não deve ser subir de tom, mas subir de nível. A serenidade, quando sustentada pela lei e pela convicção, não é fraqueza; é estratégia. A diplomacia não vive de volume — vive de autoridade. E a autoridade, na política internacional, conquista‑se pela capacidade de não perder a cabeça quando outros a perdem.
Se há algo que a história confirma, é isto: as palavras podem precipitar desastres — ou evitá‑los. Hoje, mais do que nunca, precisamos da segunda hipótese.

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