quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A polaridade como problema

Para um olhar distanciado – se isso é possível quando vivemos a primeira lei de Murphy segundo a qual “se algo pode dar errado, dará” – um dos fatos mais notáveis dessa eleição é a polaridade lida como uma indesejável “polarização”. Como prenúncio de crise e violência. Como o lado negativo da concorrência eleitoral inevitável no “Estado Democrático de Direito”.


Competição sem a qual não haveria senso de realismo e de renovação como algo central da democracia tal como a conhecemos nos seus dilemas, riscos e qualidades. A menos que se pense em novas regras para o regime democrático – e tais formulações têm surgido tanto nos seus feitios fascistas quanto nos liberais (no sentido preciso de articular de modo franco e possível individualismo, liberdade e igualdade) – toda derradeira fase de um processo eleitoral ou de substituição de atores em papéis exclusivos, só pode terminar num dualismo. Numa oposição final que, diferentemente dos sistemas fechados nos quais os governantes são substituídos por assassinatos incestuosos como ocorria na Roma Antiga, é um belo exemplo disso e os nossos “golpes de Estado” são assassinatos políticos nos quais uma polaridade tida como irreversível é resolvida pela eliminação do adversário. Todos conhecemos esse caso que, como uma compulsão, teima em retornar. Nele, a discordância transforma-se em hierarquia pela submissão ou eliminação do outro.

A pergunta de fundo, portanto, é como ter Política (com “p” maiúsculo) sem polaridades? Sobretudo quando sabemos que as democracias se fundam na paradoxal adversidade destinada a resolver os clamores da maioria pelo voto dessa mesma maioria. Nelas, nada é perfeito, exceto o Ditador ou a Nomenclatura que está acima da lei e na raiz da manutenção de privilégios garantidos e irremovíveis.

O que parece revelado ao cronista de outro planeta não é o risco expresso na batida oposição entre “direta e esquerda” ou em outros dualismos, mas é a sua interpretação restritiva. A busca do “centro”, como se o centro não fosse, uma vez criado, engendrar outros dualismos, não funciona. O cuidado é garantir a competição dentro dos limites das leis e do bom senso.

Reconhecer isso não é dizer que o enredo e os atores sejam ideais. Longe disso. Mas onde existiriam artistas e enredos perfeitos?

Onde se faz história controlando, como advertia Marx, todas as circunstâncias? Se um voto por cidadão é criticável, sabemos bem o quanto é perverso o voto apenas por um partido ou segmento.

Um observador distanciado sugere que as polaridades são indigestas em sociedades e sistemas fundados na lógica aristocrática do mais ou menos, do maior e do menor, passando – como a nossa – pela multiplicidade de intermediários, os quais permitem o jeitinho e o apêndice jurídico. Enfim, tudo isso que tem permitido mudar não mudando e crescer sem distribuir.

No Brasil ainda dominado pela “turma do deixa disso”, como dizia o Millôr, passamos pela prova do um ou outro e, a menos que se tenha plena consciência de que democracia é uma responsabilidade de governantes ou governados, a eleição será sempre um perigo.

Até que se compreenda que uma eleição não dá de presente um país a qualquer um. E que ela nomeia por tempo determinado quem representa a nossa honra, a nossa honestidade e o nosso bem-estar.

Pior do que a polarização política é a social que consolida no limite da decência ricos e pobres, governantes impunes por legislações obsoletas; e dominantes e dominados. Privilegiados e gente comum. Esses que, dentro do feitio paradoxal da democracia, têm – graças às polarizações – o poder de escolher.

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