segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Gilded Age e a bolha das big tech

Fala-se em Mark Twain e imediatamente nos lembramos das aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, no sul dos Estados Unidos da América. Mas foi o seu menos conhecido livro The Gilded Age: A Tale of Today que deu o nome ao período histórico entre 1870 e finais de 1890. Um período da História dos EUA marcado pela expansão económica e o excesso materialista. O desenvolvimento tecnológico, com a expansão do caminho de ferro, marcou a época, financiado via mercado de capitais de Wall Street. A economia era dominada por monopólios, que controlavam todas as fases de produção de um determinado bem. A mecanização promoveu a eficiência. Os comboios criaram a gestão moderna, que se expandiu dos caminhos de ferro para os setores financeiro, industrial e comercial. O comboio mudou a América, homogeneizando culturalmente um país de dimensão continental.

O lado negro do desenvolvimento desenfreado foi a disparidade económica, onde 1% dos mais ricos detinham 51% da riqueza. Isto, enquanto o big business condicionava as decisões políticas, financiando políticos de forma a garantir que os negócios em expansão não eram objeto de regulação. Para a História, os presidentes americanos da Gilded Age são denominados forgotten presidents (os presidentes esquecidos), dada a sua prestação medíocre na defesa da causa pública.

A industrialização exigia mão de obra, fomentando a imigração europeia e chinesa. A imigração tornou-se um tema político e a imigração chinesa chegou a ser proibida.


A Golden Age terminou fruto de duas crises financeiras, conhecidas como Panic 1873 e Panic 1893. Mais de 100 empresas ferroviárias e 500 bancos faliram e 15 000 negócios sucumbiram. Um número gigantesco para a economia da época. O índice de desemprego escalou, atingido 35% no estado de Nova Iorque (o mais dinâmico). Multiplicaram-se as sopas dos pobres.

A bolha dos comboios explodiu e deixou rasto.

Lemos sobre a Gilded Age e parece o nosso presente. O desenvolvimento tecnológico, os monopólios, a promiscuidade entre a política e as grandes empresas tecnológicas, a desregulação, a desigualdade social, a imigração…

Discute-se se, ou melhor, quando, irá explodir a bolha das big tech. As próprias já se prepararam. A dívida tomada para construir a infraestrutura desta revolução está a ser desviada dos balanços destas empresas para SPV (special purpose vehicles), ou seja, sociedades que emitem dívida, que financia a construção dos data centers. Como garante da dívida já não estão os balanços das big tech e os seus muito rentáveis negócios, mas os data centers cuja construção afirmam ser indispensável para atingir a Inteligência Artificial Genérica. O jornal Financial Times dava conta, num artigo recente, de que o risco de a bolha tecnológica explodir “estava agora em Wall Street”.

Mas o que significa “estar” em Wall Street? Significa que o risco está com os investidores institucionais e entre estes os mais relevantes são os fundos de pensões e seguradoras. Pressionados por garantir rentabilidades que lhes permitam no futuro fazer face aos compromissos de uma população envelhecida, são atraídos pelas rentabilidades mais elevadas da dívida das big tech. Caso a bolha venha de facto a explodir, não serão Mark Zuckerberg ou Larry Ellison (respetivamente, os donos da Meta e da Oracle) a sentir o estoiro, mas o cidadão comum, que mensalmente paga prémios de seguro e desconta para o fundo de pensões.

A crise financeira de 1890 permitiu reequilibrar poderes, com o Estado a assumir o seu papel de regulador da economia. À Gilded Age sucedeu a Progressive Era, marcada por um esforço reformista. Será também necessário a bolha das big tech explodir, com o seu expectável custo social, para que o Estado retome o seu papel na defesa do bem público?

Ilusionismos são perigosos em ano eleitoral

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.


Uma elefanta que pesava perto de 7 toneladas fora trazida para o palco dentro de um contêiner giratório, aberto, como carroça de circo. Chamava-se Jennie, era filha de Jumbo, gentil e gostava mais de açúcar que de ganchos. Apresentada aos três níveis da sala (orquestra, balcões e galerias), sem jamais sair do campo de visão do público, a mastodonte rotacionava 180 graus iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais parecia haver no palco além de 30 homens que acionavam polias e cabos. Em determinado momento, Jennie sumiu. Houdini a fizera desaparecer num passe de mágica analisado até hoje. Para aficionados do caso ou de leitura de férias, “Hiding the elephant”, de Jim Steinmeyer, talvez seja a melhor entre as muitas versões, explicações e teorias sobre o feito.

Viradas de ano costumam ser propícias à construção de ilusões, luas de papel ou castelos de areia. Não confundir com a arte da magia, a que Houdini deu grandeza benigna e humanista. Coube ao alemão Thomas Mann fazer caminho inverso, ao explorar o uso maligno e desumanizante do ilusionismo como arma política.

“Mário e o mágico: Uma experiência trágica de viagem” é uma novela de pouco mais de cem páginas publicada depois do colossal “A montanha mágica”, de 1924. Ambientada num balneário do sul da Itália em período de ascensão do fascismo, a história acompanha uma família alemã de férias, cujos dias de descanso são assombrados por uma atmosfera opressiva, indefinida.

A experiência da família atinge o clímax quando ela se junta à população local para assistir à apresentação de um hipnotizador de audiências, o mágico Cipolla. Figura grotesca e carismática, o ilusionista criado pelo escritor porta o título de “Il Cavaliere Cipolla”, evocando Mussolini. Seus métodos e manipulações funcionam como alegoria para o autoritarismo emergente na Itália. Cipolla é o “moderno domador das multidões, homem de vontade e ação, cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço do mal”.

A aparência do mágico — um homem fisicamente deformado, fumante inveterado, de dentes estragados e pele amarelada — apenas camufla seu extraordinário poder hipnótico. Domina a multidão com um carisma inquietante e uma espécie de supremacia psicológica. Ao longo do espetáculo, Cipolla constrange o público a executar atos bizarros e humilhantes, como fazer um homem contorcer-se de dor por mera sugestão ou obrigar outro a servir de banquinho humano. Escolhe uma pessoa por noite para servir-lhe de alvo. O público ri, aplaude, se entrega à manipulação, e o espetáculo vai ganhando em intensidade, mal-estar e crueldade. O clímax ocorre quando Cipolla chama um garçom local que assistia de pé ao espetáculo — o Mário do título — e o obriga a beijar sua repulsiva boca na presença da noiva.

Nesse momento, a obediência de Mário se rompe. Ele se rebela contra a humilhação pública e mata Cipolla com dois tiros após descer do estrado, quebrando o feitiço que o mágico exercia sobre os demais. Com a chegada da polícia, a família de veranistas alemães foge do local, no que pode ser lido como uma libertação ambígua e ilusória, tingida de trauma. Afinal, não tardaria muito para que brotasse, na própria Alemanha, a insânia hitlerista.

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições múltiplas na agenda, convém lembrar o poder sedutor de manipuladores de massas. Candidatos a Cipollas não faltam, e cumplicidade passiva de multidões perante regimes sem freios, também não. É relativamente rápida a decomposição ética de uma sociedade enquanto o público ri.

O que falta são Houdinis, cuja arte é honesta. E faltam Mários, muitos Mários, para quebrar a marcha da ilusão. Mas sem tiros, por favor.

Fascismo e irracionalidade

O fascismo e suas variantes são uma preocupação constante para os democratas ao redor do mundo. Suas principais características estão presentes na política externa norte-americana e, também, no populismo latino-americano.

Tanto Donald Trump quanto Nicolás Maduro são exemplos perfeitos disso.

Refiro-me aqui às características do fascismo clássico italiano. São elas: nacionalismo exacerbado, irracionalidade, corporativismo sindical, conluio com o grande capital, presença do líder carismático, desprezo pelas instituições, demagogia recorrente, autoritarismo frequente e corrupção sistêmica. Um pacote completo, logo se vê.

Contudo, desses componentes da doutrina e da prática fascistas, o principal, a meu ver, é a irracionalidade. Se a Grécia desenvolveu, sobretudo no século V a.C., o pensamento, a literatura e a retórica, isso se deveu ao seu compromisso inabalável de buscar entender o homem do seu tempo por meio da razão. E razão é o que mais falta faz no mundo de hoje, sobretudo no contato entre as nações.

A situação atual se aproxima perigosamente daquela que forjou um cenário de guerras mundiais no passado. Daí a necessidade de uma política de Frente Ampla, e, também, da valorização da coexistência pacífica entre os povos do mundo.
 Ivan Alves Filho

Auto-consumação

Esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro.
Mia Couto

Uma ideia subversiva: o ar é de todos

Os cientistas descobriram uma forma de canalizar todo o ar respirável que há no mundo. Nem um fôlego fica de fora. São agora capazes de o separar por grau de pureza, odor e níveis de concentração de oxigénio. Foi a maneira ideal de fugir à poluição que se instalou em vastas zonas do planeta. E, claro, agora o ar está à venda. Há para todos os gostos e (claro) para todas as carteiras. Há o que vem canalizado diretamente das mais altas montanhas dos Alpes, puro, sadio e frio. O que vem misturado com a maresia do Atlântico Norte, salgado e intenso, ou o mais cálido e com cheiro a aloendros, vindo do Mediterrâneo. Há o seco e ligeiramente áspero, que vem dos desertos, ou o húmido, carregado de notas de verde, trazido das florestas tropicais. Isto para os que podem pagá-lo.

Há, obviamente, versões mais baratas. Ares saturados de químicos, recolhidos junto a fábricas, poluídos e estafados, apanhados nos centros das grandes metrópoles, pestilentos e pesados, vindos diretamente das imediações de esgotos a céu aberto das mais sombrias favelas. Cada um paga o que pode. Mas todos pagam.

Há quem só respire de vez em quando, caindo zonzo no chão, de tanto suster a respiração. Há quem trabalhe horas extraordinárias para levar para casa mais um pouco de ar para a família. Há quem ande de mão estendida, mendigando pelo sopro de que precisa para se aguentar. Para os que são realmente miseráveis, inventou-se um sistema subsidiado pelo Estado, que entrega a conta-gotas ar de baixa qualidade. Mas as filas de espera são enormes. De cortar a respiração.


A iniciativa privada, que controla todo o negócio, incluindo a parte que vende aos serviços públicos, a preços inflacionados, também não se esquece dos que mais precisam. Por isso, há eventos de caridade, destinados a angariar fundos para quem não tem como pagar o ar que respira. E uma vez por ano organiza-se um grande sorteio para atribuir ar gratuito vitalício a quem comprar a senha vencedora. Há quem diga que esta lotaria tem levado muitos sonhadores à miséria, gastando o pouco que têm na esperança de serem premiados com ar, mas, como é claro, o problema é o vício do jogo que afeta os mais fracos.

Nos recreios, as discussões deixaram de acabar com a frase: “O ar é de todos.” Já não faz sentido. O ar é de quem pode pagá-lo. E essa é que é uma frase que não tem discussão, porque já ninguém se lembra dos tempos em que pagar para respirar era só uma piada arrevesada. Só os muito antigos têm uma vaga lembrança de que em tempos não era preciso comprar o ar. Mas já só de ouvir contar. E a maioria aposta que a história é uma lenda, daquelas que se contam às crianças, ou talvez o delírio de uma utopia esquecida do passado.

Só os historiadores sabem que tudo começou quando se percebeu que toda a água tinha de ser cobrada. Não só a que saía das torneiras, pura e cristalina, mas também a que jorrava dos céus em dias de tempestade, a que corria por rios e riachos e, claro, a que estava nos lagos, mares e oceanos. Era o que fazia sentido. Era o que era sensato. Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?

Foi assim que começou a combater-se o desperdício. Claro que muitos morreram à sede e milhares foram explorados para ter o que beber. Mas foi o progresso a acontecer. E se milhões caíram numa endividada miséria para ter o que beber e o que respirar, é preciso que se diga que isso os impediu de cair numa indolência acomodada, fê-los sair da sua zona de conforto e permitiu estimular o empreendedorismo. Além disso, floresceram as fortunas antigas, já donas de terrenos onde corriam cursos de água, e capazes de investir nas tecnologias inventadas para garantir a monetização deste recurso.

Isso aumentou a desigualdade? Sem dúvida. Mas esse é o efeito colateral do progresso. Pelo menos, é isso que acham os ricos herdeiros, sentados em cima do seu mérito, vivendo das rendas do ar e da água.

Um dia, houve alguém que encontrou um livro poeirento, esquecido numa velha biblioteca abandonada, que falava de Direitos Humanos e coisas que tinham de ser garantidas a todos. Foi preciso encontrar grandes especialistas para decifrar aquela mensagem bizarra e antiquada, na qual se falava – entre outras excentricidades esdrúxulas – da habitação como um direito. “Como assim?”, perguntou-se quem leu sobre este escrito antigo nas notícias. “O que é um direito?”, questionaram-se alguns, antes de passar à frente para ver os resultados do campeonato de futebol.

Felizmente, ninguém levou a sério aquelas patacoadas, sobreviventes em páginas amarelecidas, escritas num tempo em que uns tolos sonhadores, desconhecedores das maravilhas do pragmatismo realista dos nossos dias, ousaram pensar que podiam existir coisas dadas a quem nada fez para as merecer sem que elas fizessem parte de uma herança. Eram ideias loucas, insensatas. E, por isso, ficaram guardadas no mais recôndito e escuro depósito de um museu, acessíveis apenas a especialistas devidamente habilitados a lidar com tais pensamentos subversivos sem ficarem por eles contaminados.

Agora, falta perceber como é que se pode cobrar pela luz do dia ou pelo céu nas noites estreladas ou nas (obviamente) mais caras noites de lua-cheia. Os cientistas já estão a estudá-lo. E chegarão certamente à melhor fórmula para garantir que nada se desperdiçará. Nada ficará por explorar. E, sobretudo, que ninguém ouse pensar que tem direito a alguma coisa só por existir (a menos, claro, que se trate de alguma coisa herdada da família). É assim que o mundo faz sentido. E nem é possível imaginar que pudesse ser de outra maneira.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


A mente humana

A escritora e naturalista americana Diane Ackerman é craque — costuma abordar temas complicadíssimos sem medo de escorregar. Sua obra mais conhecida no Brasil, “O Zoológico de Varsóvia” (2019), relata o cotidiano do diretor da instituição Jan Zabinski, e sua mulher Antonina, ambos poloneses e da resistência. Narrado em ordem cronológica e baseado nos diários dela, se inicia nos primórdios da invasão alemã de 1939. Com a invasão, veio a terra arrasada pelo ar, e, com os bombardeios, também o zoológico virou matadouro. O massacre dos bichos foi ordenado por um zoologista e colecionador alemão (que, antes, separou os espécimes mais raros para si). A execução foi obra das SS hitleristas. Foi tão brutal que Antonina anotou no diário mantido até o final: “Quantos humanos morrerão da mesma forma nos próximos meses?”. Não ficaram parados. Enquanto os nazistas despovoavam o gueto de Varsóvia enviando-o ao extermínio, o casal Zabinski repovoava o zoológico — desta vez, com judeus contrabandeados do gueto. Conseguiram escondê-los nas jaulas esvaziadas, protegeram-nos da deportação e salvaram mais de 300 da morte certa. É uma baita história narrada com notável conhecimento das espécies — humana e animal.


Acaso ou coincidência para esta semana arrastada de 2025, outro título da mesma Ackerman — “Uma alquimia da mente” (sem edição no Brasil) — dá o que pensar. À época do lançamento nos Estados Unidos, a autora estava em turnê de promoção da obra quando recebeu a notícia de que o marido sofrera um AVC. Afasia global. Tendo investido quase uma década em pesquisas neurológicas para escrever sobre o funcionamento da mente, ela fechou o foco: conseguiria que o marido voltasse a pronunciar seu nome. Levou anos e conseguiu. Em “Alquimia da Mente”, ela nos convida a ver nosso cérebro de forma pouco científica, amigável para leigos:

— Imagine o cérebro como aquele lustroso monte de vida, um parlamento acinzentado de células, uma fábrica de sonhos, um pequeno tirano dentro de uma bola de osso, aquele amontoado de neurônios comandando todos os lances [...], muitos ‘eus’ entupidos no crânio como roupas demais enfiadas num saco de ginástica. O neocórtex tem cumes, vales e dobras porque o cérebro continua a se remodelar, mesmo no espaço apertado. Consideramos normal o fato, à primeira vista ridículo e ainda assim inegável, de que cada pessoa carrega no alto do corpo um universo completo em que trilhões de sensações, pensamentos e desejos se escoam. Misturam-se em privado, em silêncio, agitam-se em muitos níveis, alguns dos quais nem percebemos — melhor assim.

Em linguagem também não científica, costuma-se descrever o cérebro como o objeto mais complexo de que se tem conhecimento no universo. Ele abriga 86 bilhões de neurônios, todos dissemelhantes, conectados a milhares de outros neurônios que, por sua vez, transmitem sinais uns aos outros através de 100 trilhões de sinapses. Foi o estudo racional desse organismo (sua química, mecânica e estrutura celular) que desembocou, entre outros, na publicação das primeiras sequências do Projeto Genoma Humano e seu inesgotável leque de triunfos para a medicina e a biotecnologia.

Beleza. Mas o ponto, aqui, é outro. Enquanto o cérebro é obra da biologia, é a vida que transforma o cérebro em mente. E lá se vão 5 mil anos desde que poetas e filósofos, doutores de divindade e da medicina se debruçam sobre esse mistério. É na imensa vastidão da mente humana, com sua história, arte, literatura, religião, filosofia, poesia, música, mitos que se construiu a humanidade passada e se formarão nossos pares humanos do futuro.

Ou, como escreveu o saudoso ensaísta americano Lewis H. Lapham: “O trabalho do cérebro consiste em receber presentes; a arte da mente está em desembrulhá-los”. Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida.

Embriague-se de Natureza em 2026

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão. Mas de quê? De vinho. De poesia. Ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.

E se (...) você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!”

Esse poema, acima, de Baudelaire (1821-1867), um dos “malditos” franceses, me acompanhou no fim do ano e na entrada de 2026. Escuto uma vez, e de novo, em looping, em francês. Interessante como acordo de ressaca neste primeiro de janeiro. Se bebi duas taças de champagne e duas de vinho, por que desperto assim? Sim, estou embriagada. De Natureza.

Baudelaire foi quem primeiro conceituou o flâneur, o observador urbano que passeia pelas ruas de uma cidade. A cada ano mais, prefiro flanar na Natureza. O mar, o mato, as flores, o vento, os seres que nos habitam e passam despercebidos a tantos de nós. Escrevo esse texto e vejo, à minha frente, um imenso lagarto desfilar calmamente. Três pavões gritando. E um exército de aves. Sou invasora aqui, mas os acolho.

Descobrir um novo hobby a cada ano, que desafie você a sair de sua casca, seu sofá, suas angústias, suas telinhas, seu cinismo e até de seu conforto, talvez seja a melhor lição de resistência. E lucidez. Em 2025, comecei a praticar birdwatching, com binóculos e algum método. Incrível como a observação se torna mais rica quando se decide escutar e enxergar direito as aves.

Ao oferecer frutas variadas na varanda de meu apartamento do Rio, passei a conviver com uma orquestra particular e com visões de aves alaranjadas, azuladas, multicores. Soltas. É uma dádiva. Moro ali há 30 anos. E nunca tinha sido visitada por sanhaços, sabiás-laranjeiras, saíras.

Quando Baudelaire recomenda embriaguez, interpreto como intensidade, como rendição aos sentidos. Menos razão, mais emoção. Fujo dos bêbados de virtude, eles são uma fraude. A cada virada de ano, um momento em que sentimos a energia do mundo despejada sobre nós, busco inspirações e pensadores, vivos ou mortos.

E me identifico com o israelense Yuval Noah Harari. “Adeus velho mundo, olá bravo mundo novo. Para criar um futuro melhor, deixe a ansiedade de lado e convoque a sua coragem”. A civilização humana, da religião à política, diz Harari, foi construída com base em palavras. “No entanto, até as palavras ditas por nossas vozes interiores serão moldadas por IA”.

Para permanecer livre, é tempo de não ficar refém das palavras – ou da tecnologia. Harari posta um vídeo caminhando na floresta e observando um lago. Assim me sinto quando me isolo na montanha, e busco a verdade que transcende as palavras. Somos muito pequenos diante do Universo. E podemos ser imensos em nossas atitudes.

Sou Capricórnio e carrego o enorme peso das responsabilidades, constâncias, estabilidades e lealdades. Meu aniversário cai naquele triângulo das bermudas entre Natal e réveillon, e por isso dezembro é tomado por reflexões.

Meu mantra é uma citação da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013): “Seja lá o que for que você tem de fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis”.

Feliz 2026, leitores e leitoras. É o ano do Cavalo de Fogo no horóscopo chinês. Promete movimento, escolha e coragem. Vamos votar direito e eleger um Congresso amigo do povo.

Precursores do desmantelamento

O segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países..

Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.

Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.

Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.

Jürgen Habermas, palestra na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025

Refletir sobre o futuro aos 104 anos

”A ignorância é a mãe de todos os vícios”, afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos “sabedoria” entre os votos para o ano novo, junto com “saúde, amor e prosperidade”. Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil, deveríamos acrescentar “serenidade e tolerância”.

Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.

A lição de um dos mais respeitados filósofos contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial, células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. “Fica claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso generalizado”.

A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: “Lições da História”, publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a História] “nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em transformação”.

A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso “O Método”, publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.

Em “Lições da História”, ele adverte que, em 2025, a humanidade estava “sendo arrastada para um grande retrocesso por um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, realidades humanas essenciais”.

Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. “É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital”, reconhece. “Enquanto o planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises interligadas numa policrise”, lamentou.

Morin reflete que essa ideologia promete “a imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo”. Contudo, critica a “ausência de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico”, e retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso seria a “compreensão humana”.

O debate que envolve avanços científicos, longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem “compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, o que não seria muito “no mundo de hoje”.

O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. “Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna - e pode até mesmo alcançar a imortalidade”, disse Putin. “Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver até 150 anos”, completou Xi.

Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.

Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.

Segundo Morin, outra lição da História é “fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores e das melhores potencialidades”. Que venha um 2026 com saúde, prosperidade e sabedoria para todos nós.
Andrea Jubé