domingo, 22 de abril de 2018

É bife ou não é?

O Impossible Burger, primeiro produto do gênero a ser vendido em grande escala numa grande rede de fast food americana, a White Castle que começou a oferece-los nas suas 140 lojas de Nova York, New Jersey e Chicago esta semana, não contém carne mas tem o gosto, cheira e sangra como a coisa verdadeira.

Qual é o ingrediente secreto?

Neurociência.

Nada a ver com os hamburgueres vegetarianos que andam por aí ha tempos. Essa mistura de trigo, óleo de coco, batata e um composto vegetal que contém muito ferro nunca chegaria ao que chegou não fosse o intrincado processo de alta tecnologia que permitiu à Impossible Burguer “enganar o cérebro humano”, por assim dizer, para fazer tudo nessa massa “soar” como carne para cada um dos nossos sentidos (veja como no video).

Mas essa ainda não é a grande revolução.

O que vai mudar o mundo mais uma vez – e com todas as alegrias e tristezas que mudanças desse calibre trazem – são as carnes cultivadas em bioreatores a partir de células-tronco de fibras musculares e de gordura mergulhadas em caldos de nutrientes. Os hambúrgueres que “crescem” assim já existem. O gosto ainda é um problema porque não é fácil reproduzir tudo que um organismo vivo consome e processa para produzir as carnes que conhecemos, mas Sillicon Valley jura que acabará chegando lá (startupsisraelenses e européias também disputam a ponta nessa corrida).

Em 2013 desenvolver 1 quilo dessa carne custava 2,5 milhões de dólares. Desde então esse custo caiu 99% mas ainda é muito mais alto que o da carne animal. O gargalo é um ingrediente essencial: o soro fetal bovino extraído dos fetos ainda dentro das vacas prenhes. É isso que desencadeia a reprodução out ou in vitro das células. Controlar a mistura certa de carne e gordura ao longo desse processo também não é simples, mas a “carne limpa” definitivamente vem aí e é pra já.

2020 é o ano de consenso para ela ultrapassar a faixa da viabilidade comercial. Será também o ano que marcará o início do fim final da cultura boiadeira/cauboy, com todos os dramas implicados, e o início da devolução de vastas porções de terra roubadas à natureza para a criação de gado e do grande tsunami econômico que tudo isso vai provocar.

Então, para além da alegria de vermos os 2ésleys quebrarem a cara e a lavanderia gigante do PT minguar, teremos de amargar a culpa por termos destruído florestas que tecnologia nenhuma será capaz de replicar que vieram da eternidade até aqui incólumes, às vésperas disso se confirmar como um desperdício ainda mais insano e sem sentido do que já parece hoje.

Fernão Lara Mesquita, matéria condensada da Quartz

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