sábado, 10 de março de 2018

A última esperança

Ninguém sabe o seu nome real.

Conheci pelo apelido do bar, que pegou: Brasílio.

Brasílio é o último brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.

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Esperança mesmo. Inabalável.

E não é de hoje, vou dar uns exemplos.

Quando Tancredo foi internado, Brasílio garantiu:

– ‘Ces sabem o que é isso? Apendicite. Meu primo teve. Em uma semana está de volta à ativa. — explicando porque tinha comprado uma passagem para Brasília para assistir à posse.

O bar, alias, é o palanque do Brasílio.

É ali que, nos finais de tarde, ele divide sua esperança infindável no País.

Os amigos, claro, já sabem e se divertem.

Fazem perguntas justamente para provocar.

Como o dia que perguntaram para ele o que achava do período da ditadura militar.

– Olha, a gente tem sempre que ver o lado bom, por exemplo…

Percebem?

Brasílio é assim. Tem esperança no futuro e até no passado!

Tem fé. Não só em Deus, mas nas coisas e nas pessoas.

Nas diretas já, Brasílio dormiu com a cara pintada por duas semanas.

– Tem de apostar, gente. Tem que se comprometer. Senão a vida não muda!

Foi fiscal do Sarney.

Tanto que o gerente do supermercado do bairro proibiu sua entrada, de tão chato que era.

Na época do Collor, quando a Zélia arrancou o dinheiro de todo mundo, ele mandou essa:

– Se precisam de dinheiro, nada mais justo que nós colaborarmos.

Quando a inflação era de quatro dígitos, Brasílio foi visto comprando uma geladeira à prazo.

– É simples: se a gente parar de consumir, aí é que o País para mesmo.

Desemprego, corrupção, segurança não é problema para o Brasílio.

– Sabe o que é isso tudo? Dores do crescimento. Um sinal de que o País está crescendo.

Não importa o assunto, Brasílio sempre tinha uma palavra de otimismo.

De crença num futuro melhor.

No Maracanã, quando estava cinco a um para a Alemanha, ele, na arquibancada, levantou para puxar o coro:

– Vai virar! Vai virar! Vai virar!.

Tomou um copo de urina na nuca.

No dia que Lula afirmou que a crise de 2008 era só uma marolinha, Brasílio comprou ações da Petrobras.

Mas não achem, por isso, que Brasílio é petista ou mesmo de esquerda.

Brasílio nunca teve uma posição política clara.

– Eu voto no candidato que está na frente das pesquisas. Eleição não é jogo. Se o povo aposta, eu aposto também.

Veio o Mensalão e o Petrolão.

Veio a Dilma.

Nada do Brasílio desanimar.

Para ele o importante não eram os problemas.

– Mas gente, não estão investigando? Não estão prendendo? Então, pô. Democracia é isso mesmo. Um processo. Leva tempo mas a gente chega lá.

Faz um tempão que eu não via o Brasílio.

Essa semana meio desanimado com tanta bandalheira e principalmente com a frase que mais se ouve: “o pior é que não tem em quem votar, é ou não é?”, resolvi passar pelo bar para ouvir o que ele tem a dizer.

Quem sabe, né?

Cheguei lá e encontrei a turma toda reunida, como sempre.

Menos o Brasílio.

Sentei, pedi uma cerveja, esperei uma brecha no papo e perguntei:

– E o Brasílio, hein pessoal? Por onde anda?

– Como assim? Você não sabe o que aconteceu com o Brasílio??? — o Gordo perguntou.

– Nossa…não sei…coisa grave, morreu?

Não tinha morrido.

O Gordo mesmo respondeu.

– Quem dera tivesse morrido. Muito pior. Mudou para a Argentina.

Aí complicou.

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