segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quase imortais - ou quase mortos

No passado dia 29 de novembro festejou-se em Itália o aniversário de Emma Morano. Na ocasião foi lançada uma biografia da aniversariante. Mas, afinal, o que fez ela? Viveu. Viveu muito tempo. Aos 117 anos, é a última pessoa no mundo que ainda nos liga diretamente ao século XIX. Emma passeou-se sob o mesmo sol que iluminou, em diferentes geografias, Eça de Queirós, Machado de Assis, a Princesa Isabel ou Buffalo Bill.

Emma Morano sustentou-se sem ajuda até os 115 anos. Segundo ela, o segredo por detrás de uma vida tão longa está na boa e velha grappa, que bebe regularmente, nos três ovos crus que come todos os dias, e no soberano desprezo com que olha para frutas e legumes. Os médicos, é claro, estão muito mais inclinados a pensar que Emma beneficiou de simples vantagem genética, além de alguma ajuda da moderna medicina.

Se tivéssemos nascido há mil anos não poderíamos esperar envelhecer. O mais provável seria morrermos ainda crianças, vítimas de fome ou de uma infinidade de doenças que, entretanto, já vencemos. Se conseguíssemos sobreviver a esses primeiros anos, seríamos certamente mortos, um pouco à frente, de forma muitíssimo violenta. Raras pessoas ultrapassavam então os 25 anos. A humanidade vivia em permanente estado de ódio e conflito.

Desde então muitas doenças foram vencidas, as guerras diminuíram, e a esperança de vida mais do que triplicou na maior parte dos países do mundo. Quando eu nasci, a notícia de que alguém completara 100 anos era manchete nos jornais. Hoje, para ser notícia, temos de nos esforçar um pouco mais, e alcançar pelo menos os 117.

Reaper:
Há quem pense que, por mais que a ciência progrida, nunca será possível estender a vida para além dos cento e poucos anos. Contudo, são cada vez em maior número os cientistas que investigam e defendem a possibilidade de a alargar indefinidamente. Não se trata de viver para sempre. Trata-se de viver sem prazo de validade e, já agora, sem o horror da decrepitude. Um desses acadêmicos é Michio Kaku, físico americano de origem japonesa, autor de vários livros de divulgação científica. Num dos seus livros, recentemente publicado no Brasil, “O futuro da mente: A busca científica para entender, aprimorar e potencializar a mente” (Editora Rocco), Michio diverte-se a imaginar formas de prolongar a vida humana. Uma das possibilidades é transferir toda a informação de um cérebro para um computador. A consciência dessa pessoa ficará preservada, por tempo indefinido, num lugar asséptico e remoto, muito semelhante àquilo que os crentes costumam chamar paraíso, inferno ou purgatório (dependendo das memórias e dos remorsos de cada um). Mais tarde, seria possível transferir toda essa informação para um corpo mecânico, ou até orgânico, e a pessoa voltaria a interagir normalmente com o mundo físico e os restantes seres vivos.

Segundo Michio Kaku isso, ou algo muito semelhante a isso, irá sem dúvida acontecer, na medida em que não ofende nenhuma lei da física. A questão, segundo ele, não é se irá acontecer, mas quando irá acontecer, e isso depende sobretudo da potência dos computadores.

Em 1949, a revista “Popular Mechanics” publicou um artigo no qual previa que “no futuro, os computadores não pesarão mais do que uma tonelada e meia”. Muita gente, lendo aquilo, achou a previsão incrivelmente otimista.

Dezesseis anos depois, Gordon Moore fez uma previsão que se revelou muito mais acertada do que a anterior e se tornou famosa com o nome equivocado de Lei de Moore: “a velocidade ou capacidade de processamento dos computadores tende a duplicar a cada dois anos”. Até aqui tem sido assim. Se essa previsão se mantiver, então o admirável mundo novo sonhado por Michio Kaku pode estar mesmo ao virar da esquina.

O triste paradoxo é que nunca estivemos tão perto da “imortalidade”, mas também nunca estivemos também tão próximos do grande final. É verdade que o número de conflitos armados no mundo diminuiu muito, em especial nas últimas décadas. O arsenal nuclear, porém, não diminuiu. EUA, Rússia, Reino Unido, China e França possuem armas nucleares. Suspeita-se que Israel também. O Irã está a tentar produzi-las. Não bastasse Putin, e restantes colegas de loucura, em breve o botão do fim do mundo estará também ao alcance de Donald Trump e tudo leva a crer que, dentro de pouco tempo, igualmente da senhora Le Pen. Não me parece um panorama nada tranquilizador. Ao perigo nuclear soma-se ainda o desastre ambiental.

A ciência que nos pode dar a “imortalidade” é a mesma capaz de nos destruir a todos. Talvez seja melhor investir mais em educação cívica, ética e ambiental e menos no desenvolvimento tecnológico — enquanto isso, sempre temos a cachaça e os ovos crus.

José Eduardo Agualusa

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