sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Hora de aprender

Enquanto o interlúdio democrático por aqui se desenvolve aos socos e pontapés, além de alguns puxões de cabelos e taças de vinho atiradas em direção a insuspeitados galanteadores extemporâneos, a sábia lição que condensa nossa crise em poucas e curtas palavras vem do oráculo de sempre: o eterno presidente Lula, que resume a sapiência brasileira acumulada ao longo de cinco séculos.
Em uma de suas andanças pelo exterior, deixando aqui ao desamparo a sua criatura entretida na batalha diária contra a sintaxe e o impeachment, Lula disse ao jornal “El País” que não teme que aqueles que, segundo ele, deixaram de ser pobres durante o seu governo, voltem à pobreza por causa da crise econômica.

“Não voltarão”, disse. “É como se disséssemos que, em vez de comer carne todos os dias, vão comer arroz. Isso é passageiro”.

Uma metáfora? Uma parábola?

O ex-presidente não parou ai:

“Quando cheguei ao poder, tinha medo de terminar como o ex-presidente (polonês) Lech Walesa. Eu dizia aos meus companheiros: não posso falhar, por que, se falhar, jamais outro trabalhador será presidente”.

Quando o repórter do jornal espanhol perguntou a Lula se ele será candidato a presidente, ele disse “nem que sim, nem que não".

"Eu gostaria que fosse outro. Mas, se tenho que me apresentar para evitar que alguém acabe com a inclusão social conseguida nesses anos, farei isso”.

Lula, como Jesus Cristo, está disposto a fazer o supremo sacrifício de candidatar-se de novo, se necessário for, para cuidar da nossa Redenção. Haverá alguém mais santo?

Quanto ao panorama desolador do País sob a direção da “mãe Dilminha”, que ele nos impingiu com tanto fervor, nenhuma palavra. A mãe do PAC e a mãe de todos, só foi lembrada en passant, numa referência ao processo de impeachment que ela enfrenta. Sem problemas, nos garantiu do alto de sua sabedoria jurídico- constitucional, porque o processo “não tem nenhuma base legal ou jurídica"

Este certamente não é o mesmo Lula que pedia o impeachment de Collor, de Itamar, de Sarney, de FHC e de todos que aparecessem pela frente, nem o mesmo que aquele dizia que “o povo que elege tem o direito de tirar”. Uma metamorfose ambulante, como ele mesmo se define.

É bem verdade que, pelos sortilégios da política, o mais conveniente, para Lula, seria que a sua criatura tropeçasse nos próprios cadarços e deixasse o caminho livre para a sua volta triunfal de redentor. Por isso ele apoia o ajuste fiscal, que sabe ser necessário e indispensável, e ao mesmo tempo manipula sua tropa para ir à rua xingar Joaquim Levy.

Ele se sente à vontade no papel daquele que investe contra tudo e contra todos na janela, mas na intimidade da sala de estar deixa todos os móveis arrumadinhos como Palocci e Henrique Meirelles mandam e o mercado aplaude.

Enquanto Lula joga sua grande cartada sebastianista para 2018, o Brasil econômico e político se desmancha diante de uma recessão cada vez mais profunda e uma degradação política galopante.

O populismo de Kirchner e Maduro, sustentado pelo olhar e pela omissão benevolente do Brasil, foi duramente golpeado nas duas eleições recentes. Isso quer dizer que um modo de governar está se esgotando na América Latina.

O Brasil, num espaço de tempo relativamente curto, terá a chance de mostrar se aprendeu a lição ou não.

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