Seu pai foi morto em um ataque aéreo que destruiu sua casa. "A vida não é mais a mesma. Não temos o luxo de sofrer", diz ela.
Bissan, de 16 anos, sobreviveu a um terrível ataque com cinto de fogo que matou sua mãe, duas irmãs e dois irmãos. Ela sofreu ferimentos graves e agora mora longe do pai, em tratamento no exterior.
“Não sei quem lamentar primeiro”, ela diz com a voz fraca.
Em outro lugar, num abrigo, um menino de quatro anos grita: "Quero que Baba me carregue!" Seu avô o envolve em seus braços, sussurrando: "Lembre-se, eu sou Baba agora". Seu pai biológico foi morto junto com o resto da família em um massacre.
Aisha, de cinco anos, que já foi a princesinha do pai, agora olha para a foto dele e diz: "Quero que ele me veja indo bem na escola".
Sua irmã mais nova, Sewar, de apenas quatro anos, lamenta a morte do irmãozinho Youssef, que foi martirizado nos braços do pai. "Só quero ver Baba por alguns minutos... depois ele pode voltar a ser morto", lamenta.
A mãe, tentando se recompor, diz: "Consolá-los é como decodificar uma equação química complexa... uma para a qual não tenho as respostas."
O Dr. Youssef Awadallah, psicólogo clínico em Gaza, pinta um quadro sombrio: “As crianças aqui não estão apenas de luto — elas estão envelhecendo antes do tempo. Elas carregam consigo cemitérios de memórias.”
Ele diz que muitas crianças pararam de falar. Algumas não conseguem mais brincar. Meninas de apenas seis anos carregam bebês e cuidam de famílias inteiras.
“Essa maturidade forçada causa fraturas psicológicas profundas”, explica o Dr. Awadallah.
Ele enfatiza que “o trauma se agrava diariamente — perda, deslocamento, medo, falta de segurança, tudo se acumula em corpos jovens que nunca foram feitos para suportar tanto peso.
Algumas crianças sofrem de mutismo, enurese noturna ou retraimento emocional. Outras fazem perguntas aterrorizantes como: 'Por que estamos vivos? Por que nossas famílias foram levadas?'”
O que essas crianças precisam, ele enfatiza, não é apenas comida ou remédios, mas “um espaço emocionalmente seguro para chorar, pedir, lamentar — sem vergonha ou repressão”.
Segundo Aziza Al-Kahlout, porta-voz do Ministério do Desenvolvimento Social de Gaza, o número de órfãos saltou de 24 mil antes de 7 de outubro para quase 40 mil atualmente. Isso inclui 2 mil crianças que perderam ambos os pais e 500 crianças que são as únicas sobreviventes de suas famílias inteiras.
“Os mais vulneráveis são os órfãos com deficiência — eles não têm acesso a cuidados básicos de saúde e emocionais”, acrescenta ela.
A guerra paralisou o sistema de apadrinhamento de órfãos. A ajuda internacional foi interrompida devido ao fechamento de bancos, enquanto o apoio local está chegando apenas parcialmente aos recém-órfãos.
“Agora temos mais de 1.400 crianças órfãs com menos de um ano”, diz ela. “Elas começaram a vida sem mãe, sem pai — e sem leite ou cama.”
Cada figura conta a história de uma criança que perdeu um dos pais, um lar ou o mundo inteiro. A crise dos órfãos em Gaza não é apenas uma estatística humanitária — é uma ferida aberta na consciência da humanidade.
Essas crianças não precisam apenas de ajuda — elas precisam de segurança, dignidade, amor e um futuro livre do pesadelo da guerra.
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