segunda-feira, 3 de julho de 2017

Saiu pelo ladrão

Sempre seguir a tudo tolerar. Viver virou aturar. A gente já nasceu desigual. Assistimos tanta injustiça que nem dá para contar. Aceitamos tudo. Como se não fosse conosco. Falta indignação. Saiu pelo ladrão.

Não mais importa o que se fez, o que se faz ou o que se vai fazer. Todos os favores indevidos são sempre por nós pagos. E mesmo as migalhes que sobram, nos debitam nos tratando como otários. Falta razão. Saiu pelo ladrão.


Seguimos arrastando pelo mundo a vergonha de ter sido, e a dor de já não ser. Sem saber se somos ou fomos frouxos, ou cegos. Desiludidos, certamente. Seguimos rolando costa abaixo as ilusões passadas que não já não se podem alcançar. Conformados com a mediocridade. Com razão. Sobra arrependimento. Falta sonho. Saiu pelo ladrão.

Vivemos tempos de maldade insolente. Não há quem negue. Tudo misturado na mesma lama. Parecendo igual. Nada parece melhor. Aceitamos a falta de respeito. Vivemos o atropelo a razão. Sem dignidade. Saiu pelo ladrão.

Tudo a luz do dia. A céu aberto. Sem segredos. Sabemos dos feitos, dos idos e dos descaídos.

A tudo assistimos. Paralisados. Aceitando o impensável como realidade. E o inaceitável como normal. Nem mais se nota.

Estamos cansados. Sem dignidade ou indignação. Presos e acostumados à lama que nos espera. Insensíveis ao absurdo. Falta justiça. Saiu pelo ladrão.

Somos muitos cidadãos. Iguais em quase tudo na vida. Desiludidos antes depois trinta. Perdidos de depois dos vinte. E um pouco mais cínicos a cada dia. Falta vergonha. Saiu pelo ladrão.

Elton Simões

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