quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Faxismo nunca +

O desejo de mudarmos era antigo, mas demorou muito até conseguirmos trocar a modesta casa térrea pelo primeiro andar quase a estrear que – palavras dos meus pais – mandava ventarolas. Um morador dos bairros acima da linha dos caminhos de ferro que cortava Luanda em duas não encontraria diferenças significativas entre a casa velha e a nova, nas ruas de terra batida por que ambas eram servidas nada podia merecer atenção, mas para nós a casa nova era o prenúncio de que a partir dali tudo nos iria correr bem.

Mudáramos há menos de um ano, eu saltava à corda perto da igreja que se ia construindo com as contribuições dos fiéis, quando a Editinha magricelas apareceu afogueada com a notícia, Houve uma revolução na metrópole. Nem eu nem os meus amigos nos distraímos da brincadeira, a capital do Império era, para nós, tão irreal quanto o céu que, mesmo baixo de nuvens escuras, continuava lá longe. Aos sábados de manhã, cantávamos hinos ao Império com o mesmo desprendimento com que entoávamos os cânticos da missa de domingo. Dali a menos de três meses, eu faria dez anos.


Nesse meu aniversário, enchi-me de alegria infantil com os dois dígitos que desenhariam a minha idade para o resto da vida. Forrámos o quintal com folhas de palmeira, comprámos um barril de cerveja para acompanhar o churrasco, pusemos merengues a tocar, a festa durou até de manhã. Ter-se-ão ouvido tiros também nessa noite, a revolução da metrópole, que não parara as nossas brincadeiras, trouxera já os movimentos independentistas para Luanda, os soldados portugueses desleixavam-se com canhangulos e liamba, os novos donos da cidade patrulhavam as ruas armados até aos dentes, mas a nossa vida parecia poder seguir quase igual, o meu pai continuava a transportar café para os navios que atracavam no porto, a minha mãe tomava conta de nós e da casa, íamos à escola, almoçávamos no Vilela aos domingos. E eu continuava a brincar na rua.

No dia em que a revolução fez um ano, corriam já, há muito, boatos de que os comunistas da metrópole queriam deixar os colonos morrer às mãos dos soldados independentistas, não interessava se homens, mulheres ou crianças, eram todos fascistas, colonialistas e imperialistas, ia haver maca da grossa. O martelar de caixotes tornou-se ensurdecedor, os mais previdentes encafuavam dentro deles os seus haveres, despachando apressadamente as suas vidas para fora dali, o ouro esgotou-se nas ourivesarias, a modista Clotilde ofereceu à lavadeira as peças de bordado inglês que guardava para o enxoval da filha, as escolas fecharam, deixou de haver quem fizesse pão, o carpinteiro António queimou a oficina para que ninguém se ficasse a rir dele, a lista dos desaparecidos lida na rádio antes e depois do Simplesmente Maria era cada vez maior, o recolher obrigatório não era suficiente para nos proteger. Mesmo assim eu rezava todas as noites para que o meu pai não nos conseguisse arranjar lugar na ponte aérea de que todos falavam, cheguei até a ajoelhar-me em frente ao altar da igreja nova, para sempre inacabada, pedindo a Deus que nos deixasse ficar no único chão que eu conhecia e de que era pertença. Deus não me ouviu, a mitificada capital do Império revelou-se uma desilusão que me deixou sem palavras e recebi um nome que nunca mais me largou: retornada. O Império apodrecido de cinco séculos ruía, finalmente, mas apanhava-me na queda.

Quando fiz onze anos já não tinha casa nem infância. Os sítios onde depois fui vivendo, quinze semanas com uns avós desconhecidos, em Trás-os-Montes, dezassete meses no quarto 315 do Hotel Paris, onde os meus pais desesperavam com a falta de futuro e a minha irmã estudava Introdução à Política para se envergonhar deles e dos outros retornados, onze anos num T1 do sétimo andar do Lote 11 do J. Pimenta, um bairro de retornados tão mal afamado que os taxistas se recusavam a fazer serviços para lá, nunca foram a minha casa. E quando a História deixou de me ferir, já não havia infância a que regressar.

Ainda éramos retornados quando a revolução celebrou o seu décimo segundo aniversário. Eu era das poucas moradoras do desalentado Lote 11 que continuavam os estudos. Teria, nas palavras dos meus pais, uma enxada para a vida. Nesse ano, o 25 de Abril calhou num dia quente, Cascais encheu-se de veraneantes e eu passei a tarde encostada ao muro da praia dos Pescadores, a fingir que estudava as maçadoras lições de Direito. Ao regressar a casa, parei no café do Bento para comprar tabaco. Sendo o único café do bairro, estava sempre cheio de retornados que ali matavam a amargura do desemprego ou da velhice empobrecida, bebendo cervejas e comendo petiscos à moda de lá. Lá era sempre África. Nesse, como em todos os outros feriados do 25 de Abril, alguns velhos retornados exibiam um fumo no braço, em sinal de luto por si próprios, em luto por aqueles que tinham deixado de ser quando foram arrancados de lá. Nunca soube de onde vinha nem para onde ia a Nampula, a cadela que andava por ali quase todos os dias e cuja cauda fazia de chicote sempre que alguém chamava pelo nome da cidade em honra da qual fora batizada. O mais certo era ser uma cadela vadia, alimentada de restos por todos. Também nunca soube quem, naquela tarde, a envenenou e a fez morrer ali, à nossa frente.

Dali a dois anos, os meus pais conseguiram mudar-se, por fim, do J. Pimenta, mas eu era já adulta. Tornara-se impossível pertencer a outra casa que não uma que eu própria criasse, e pouco depois vim para Lisboa. Por essa altura, alguém escreveu em letras enormes, no prédio que ainda hoje continua a desdentar o primeiro quarteirão da Avenida da República, junto ao Saldanha, 25 de abril sempre, faxismo nunca mais. Faltavam mais de vinte anos para que a economia de carateres dos contactos virtuais com que passámos a estar ligados ditasse um novo acordo ortográfico, ainda achávamos sem x e não dispensávamos a sílaba inicial ao conjugarmos o verbo estar. Mas talvez já tivéssemos começado a esquecer.

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