quinta-feira, 28 de março de 2019

Nova política, velha palavra

O culto do novo é velho. Um grego chamado Homero —ou as gerações de poetas anônimos embutidos nesse nome— já observava na "Odisseia", muitos séculos antes de Cristo, que o número musical mais aplaudido era sempre o mais recente.

O interesse despertado pela novidade se reflete nas palavras que nomeiam o que é notícia. Hoje pouco usamos "nova" nessa acepção, mas a boa nova, a notícia auspiciosa, mantém viva uma associação presente em diversas línguas, do latim medieval "nova" ao francês "nouvelles" e ao inglês "news".


Se isso é notícia antiga, só nos últimos dois ou três séculos virou cacoete de uma época de progresso tecnológico desembestado sair colando o adesivo "novo" nas coisas do mundo.

Que a busca do novo já começava a virar neurose no século 18, comprova-o uma ponderação do filósofo Denis Diderot em 1762: "Só Deus e alguns raros gênios conseguem forjar continuamente o novo". Ou seja: calma, pessoal. Na maior parte das vezes, estaremos no lucro se aprendermos a reproduzir bem o já sabido.

"Novo" e suas traduções ("new", "nouveau", "neu" etc.) fizeram a carreira brilhante que se viu. Pelo menos na cultura ocidental, ficamos viciados na musa das vanguardas, aquela que promete simplesmente reinaugurar a história.

Mais que desejável, o novo passou a ser nossa única saída, o que vai nos libertar do passado com seus protocolos que caducam cada vez mais depressa —a princípio a cada 50 anos, depois a cada 20, dez, um...

O envelhecimento nos morde os calcanhares. A obsolescência ridiculamente rápida de nossos telefones não deixa ninguém esquecer: o novo é um valor em si, mas envelhece correndo.

O jeito é fugir para a frente. Para a frente fugimos até nos momentos —felizmente raros— em que a realidade dá um cavalo de pau, o cenário gira 180 graus à nossa volta e acontece de, fugindo para a frente, irmos cada vez mais para trás.

O Brasil, estrela grandalhona do Novo Mundo, é só mais um fiel seguidor desse culto. No entanto, é provável que o peso do novo seja ainda maior em nossa cultura, que preza menos que outras a tradição.

Além de relativamente curta e escassa de heroísmo, nossa história de ex-colônia escravocrata portuguesa habita um cercadinho escolar sobre o qual a sociedade guarda um silêncio entre constrangido e abestalhado.

Das glórias que temos, raras e por isso mais valiosas, fazemos pouco. "A cada 15 anos, o povo brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos", disse o genial Ivan Lessa, também ele em processo de esquecimento.

Nossa relação apaixonada com a palavra "novo(a)" pode ser demonstrada assim: daria para contar uma versão bem razoável da história do Brasil, dos anos 1950 para cá, só com coisas que a trazem no nome.

Bossa nova. Novacap. Cinema Novo. Neoconcretismo. Novos Baianos. Cruzeiro novo, cruzado novo. Nova República. Nova matriz econômica. As novinhas. O Novo. E, por fim, estrela de um ano tumultuoso, a nova política do governo Bolsonaro.

Está claro que essa "nova política", que se oporia à "velha" de um Congresso fisiológico, é uma mistificação: conjunto vazio, trata-se da simples negação da negociação política. Subscrevo os argumentos de Carlos Melo, do Insper, em artigo publicado terça-feira (26) nesta "Folha".

Só faltou dizer que, como palavra-fetiche, "novo(a)" é das mais fortes que há. Embalando —e engambelando— a humanidade há séculos, não dá pinta de envelhecer tão cedo.

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