sábado, 4 de fevereiro de 2017

Deixa pra depois

Tenho um amigo brincalhão, fino observador da cena nacional, que hesita há anos entre dois caminhos garantidores de seu futuro. Bem típicos do Brasil, exemplos da criatividade que consagra nosso jeito de ser. Ambos escancaram portas para a riqueza crescente, a sombra e água fresca, assegurando vencer na vida sem fazer força. É só aproveitar a moleza que a lei permite e fundar uma grande organização que permita receber muito dinheiro sem trabalhar. E sem se preocupar com impostos, graças ao privilégio de isenções fiscais. Isto é, desde que não se tenha que contribuir para o desenvolvimento do país, criar empregos, resultar em produtividade e geração de riqueza. Basta ser um partido político ou uma igreja, como os que grassam entre nós e parecem se multiplicar até por cissiparidade — aliás, uma palavrinha boa para homenagearmos o saudoso João Ubaldo Ribeiro, que nos brindava periodicamente com a recomendação zelosa: “Dicionário, amigos, dicionário...”


Com o pai dos burros na mão, ou diante de suas páginas digitais abertas na tela, talvez haja quem queira aproveitar para nova consulta lexical. Que tal olhar também “procrastinação”? É que meu amigo brincalhão acabou chegando a ela, ao optar por fundar uma igreja de preferência a um partido. Descobriu que os templos, além de compartilharem com agremiações políticas a possibilidade de isenções fiscais, prestígio público, carteirada, projeção midiática e licença para cobrar dízimos sem controle, ainda acrescentam benesses legais a familiares — escapar ao serviço militar obrigatório, por exemplo.

Decidido isso, era preciso passar à fase seguinte e escolher um nome adequado para a nova religião, após alguma pesquisa entre os modelos existentes. Pensou em coisas como Igreja da Escritura Pentagonal, pois, afinal, há uma do Evangelho Quadrangular, e não ficaria bem aludir a triângulos com sua implícita sugestão de adultério, ou a octógonos a evocar artes marciais. Alguém lhe ponderou que pentágono podia despertar sensibilidades militares americanas, que hexágono poderia melindrar franceses (que assim chamam seu país), e ele decidiu deixar de lado a Geometria. Além do mais, o termo escritura podia fazer algum desavisado esquecer o conceito de Palavra Sagrada e pensar em registro de imóveis — associação de ideias a ser evitada por uma nova igreja

Saindo das referências espaciais, talvez fosse o caso de buscar uma âncora temporal ou cronológica, inspirando-se em algumas que celebram Últimos Dias e noções afins. Meu amigo descartou Última Hora, para não pensarem que homenageava combativo jornal de outras eras. Também rejeitou Últimas Semanas, pela associação com chamados para liquidação de loja — atualmente falando inglês, como sales e black qualquer coisa. Mas gostou da ideia de ser guru de um templo que evocasse o tempo. Insistiu nela.

Insistiu tanto que lhe veio à memória um antigo slogan da Loteria Federal que propunha: “Não desista, insista.” Mas lembrou que Tom Jobim ensinou que somos um país de cabeça pra baixo, com tudo ao contrário. Invertido o lema, a recomendação passou a “não insista, desista.” Eureca! Grande potencial de aliciar seguidores. Afinal, desistir é só o que tem feito o país, deixando pra lá o saneamento, a segurança pública, a educação, a infraestrutura, a desburocratização, a modernização da economia. Sábia iluminação, que levou a definir a nova igreja. Encarna a índole dos fiéis: é a da Procrastinação Perpétua de Todos os Dias. Com a vantagem de já ter uma ótima sigla, PPTD, se algum dia precisar fazer dela um partido político.

Os antecedentes históricos são notáveis. Nem precisamos invocar o processo da Abolição, em que a Lei Áurea só saiu depois de inacreditável sucessão de adiamentos e leis pontuais sobre tráfico de escravos, sobre sexagenários, recém-nascidos, e não foi capaz de indenizar os ex-escravos ou garantir seu futuro e de seus descendentes. Para ficarmos apenas no período republicano, basta ver o que ocorre com as reformas essenciais para acertar o país.

Nem falemos nas tais reformas de base, da Agrária à Universitária, consideradas imprescindíveis lá no início dos anos 1960, celebradas em prosa, verso, comício e passeata, e causadoras de 21 anos de governo militar — sem jamais sair do blá-blá-blá. Fiquemos só com as que estão em evidência agora. A da Previdência, a trabalhista, a do ensino, a fiscal... O negócio é falar muito e adiar sempre. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Empurrar com a barriga. Aproveitar qualquer pretexto para postergar. Procrastinar todos os dias, bingo! Justamente o que prega a nova igreja. Uma encarnação perfeita da alma nacional.

Só não foi ainda registrada porque demanda um mínimo de providências concretas, e pra que correr? Devagar com o andor que o santo é de barro. Quem corre cansa. Afinal, somos perfeitos, e a pressa é inimiga da perfeição, pode nos prejudicar. Eu quero é sossego. Deixa pra depois. Ou como dizia o profeta Macunaíma:

— Ai, que preguiiiiii...

Ana Maria Machado

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