sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O torneio que ninguém quer jogar no campo que ninguém queria


Campo, construído em área ambiental, será usado para quem puder pagar R$ 500 por uma volta nos 18 buracos
Com desistências em massa das principais estrelas e sob a sombra de polêmicas ambientais e de especulação imobiliária, começam nesta quinta-feira (11/08) as disputas de golfe – esporte que voltou ao programa olímpico depois de 112 anos. Depois de anos de lobby da federação internacional da categoria (IGF) e atletas, o golfe volta aos Jogos Olímpicos com a imagem arranhada e sob risco de voltar rapidamente a ser um esporte não olímpico.

Os quatro líderes do ranking mundial – Jason Day (Austrália), Dustin Johnson (EUA), Jordan Spieth (EUA) e Rory McIlroy (Irlanda do Norte) – não foram ao Rio de Janeiro. Eles justificaram a abstenção do maior evento esportivo do mundo com os perigos atrelados ao vírus zika.

A doença também foi a alegação dada pelo irlandês Shane Lowry e pelo japonês Hideki Matsuyama – também grandes nomes do PGA Tour (principal circuito do golfe profissional). Por outro lado, embora o vírus seja mais perigoso às mulheres, apenas a sul-africana Lee-Anne Pace desistiu dos Jogos. A nata do golfe feminino, incluindo Lydia Ko (Nova Zelândia) e Lexi Thompson (EUA), confirmou presença.

Mas críticos suspeitam que as razões pelas desistências sejam outras: no mesmo período dos Jogos Olímpicos serão disputados três torneios no PGA Tour com altas premiações e pontos para o FedExCup – lucrativo playoff no final da temporada no qual competem os melhores golfistas do mundo. Os Jogos Olímpicos não distribuem dinheiro nem pontos, apenas medalhas.

"Eu vejo isso [o vírus zika] como uma desculpa conveniente para alguns", disse o alemão Martin Kaymer. "Estamos extremamente mimados em nosso esporte. Muito difícil compreender alguém que não queira participar do evento mais antigo do mundo esportivo."

O desinteresse com os Jogos Olímpicos entre muitos golfistas é claro. Enquanto o sul-africano Louis Oosthuizen preferiu ficar com a família, o australiano Adam Scott justificou sua ausência afirmando que há torneios mais importantes na temporada. "As Olimpíadas são algo que jamais aspirei participar e acho que nunca o farei", disse, ainda em 2015. "Tudo gira em torno dos quatro majors, e acho que é assim que as coisas devem ficar no golfe."

Os majors – The Masters, US Open, The Open e PGA Championship – são os quatro principais torneios do ano, comparáveis ao grand slam no tênis. Dos quatro vencedores de 2016, apenas dois estão no Rio de Janeiro: o inglês Danny Willett (The Masters) e o sueco Henrik Stenson (The Open).

"Não há dúvidas que as desistências arranharam a imagem do golfe e nós temos que aceitar isso", disse o presidente da IGF, Peter Dawson. "Espero que, quando chegar Tóquio 2020, os melhores golfistas apoiem o golfe olímpico. É a melhor oportunidade de crescimento da modalidade, e não vejo uma maneira melhor para os jogadores darem algo pelo jogo do que apoiar o golfe olímpico."

O golfe iniciou em 2008 seu processo de candidatura para voltar ao programa olímpico. Entre os principais apoiadores estavam as estrelas Tiger Woods, Phil Mickelson, Annika Sörenstam e o irlandês Padraig Harrington. "Acho que logo o torneio olímpico será o evento mais importante no golfe e acredito que não levará muito tempo", apostava Harrington, que está no Rio de Janeiro.

Mas quanto tempo? Quando o tênis foi readmitido, em 1988, apenas três tenistas do Top 10 participaram dos Jogos de Seul. Em 2012, em Londres, um lesionado Rafael Nadal foi a única ausência. Porém, há quem acredite que este tempo não será dado ao golfe. "Se estou preocupado? Estou muito. Se eu estivesse no comando do COI, obviamente daria uma segunda olhada [sobre a inclusão no programa olímpico]", disse o golfista escocês Colin Montgomerie.

E o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, está a par da polêmica. "É óbvio que isso [as desistências] não ajuda na atratividade da competição de golfe", disse. O COI decidirá quais esportes estarão no programa de 2020 em meados de 2017.

Depois deste longo hiato de 112, os Jogos de 2016 podem vir a ser os únicos com golfe. Mas não sem antes ter a sua polêmica também no Rio de Janeiro. A escolha do local e o modelo de financiamento do campo olímpico renderam muitas críticas. Os 18 buracos foram construídos numa área de proteção ambiental que separa o Atlântico da lagoa de Marapendi – 58,5 mil m² do parque natural foram utilizados para a construção do campo de 970 mil m².

Houve protestos de ambientalistas e dos movimentos "Golfe para quem?" e "Ocupa golfe". Mas um laudo feito por um perito que analisou o caso para a Justiça garante que a área usada para o campo de golfe estava degradada, era usada para extração de areia, além de depósito de peças pré-moldadas de concreto, e que a vegetação nativa não foi alterada.

A Prefeitura do Rio afirmou que a construção do campo de golfe representa o maior programa de recuperação de vegetação de restinga do Brasil – cerca de 625 mil mudas de vegetação nativa de restinga foram plantadas no local. Além disso, a descaracterização do ambiente natural ocorreu uma extensa área antrópica, ou seja, sem vegetação.

A revista americana Golf Digest, mais importante publicação de golfe do mundo, conferiu ao campo olímpico o prêmio Green Star Award 2016, concedido a campos que se destacam na proteção ao meio ambiente. É a primeira vez que o prêmio anual é concedido a um

Outra polêmica ligada ao campo é o fato de o empreendimento feito na Barra ser privado. Os 60 milhões de reais dos custos da obra foram quitados pela construtora Fiori. Em troca de fazer o campo e as instalações necessárias para jogadores, público e imprensa, a Fiori recebeu uma readequação do potencial do terreno vizinho, onde será construído um condomínio de luxo com prédios mais altos do que o normalmente permitido.

Pelo projeto anterior, poderia haver 96 torres de seis andares; agora, pode ter 22 prédios de 22 andares. Alguns estão em construção. Os exclusivos apartamentos já estão à venda: os preços variam entre 4 e 12 milhões de reais. Um lucro maior do que o valor gasto com a construção do campo de golfe. Também por isso, a Prefeitura do Rio está sendo investigada por improbidade administrativa pelo Ministério Público.

Segundo os movimentos ambientalistas, há perdas volumosas aos cofres públicos – entre elas perdão de dívidas de IPTU, estimado em 100 milhões, além de isenções fiscais por 20 anos, estimados em outros 100 milhões, sem mencionar o valor do terreno, estipulado em 300 milhões. De acordo com o "Golfe para quem?", a Prefeitura do Rio gerou uma receita de mais de 1 bilhão para a Fiori.
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