domingo, 21 de agosto de 2016

Mais Gandhi, menos chimpanzé e Maquiavel

A democracia é um jogo de cooperação e oposição. No jogo de cooperação, as regras são a persuasão, a negociação, os acordos, a busca de espaços de consenso. Já no jogo de oposição, procura-se medir forças, confrontar o adversário, provocar tensões, desgastar, impor a vontade pela força.

No Brasil da era lulopetista, as manobras divisionistas deram o tom, suplantando os modelos de cooperação. Este é o pano de fundo que explica o estado psicológico de uma Nação intensamente repartida entre “nós e eles”, bons e maus, mocinhos e bandidos.

Não por acaso, o presidencialismo de coalizão foi substituído por um presidencialismo de colisão. O país pouco tem avançado no campo da política. O episódio do mensalão e o propinoduto do petrolão contribuíram para corroer as vigas do regime.


As reformas praticamente estancaram. O lulismo, ao qual se seguiu o dilmismo, plasmou uma “República sindicalista”, tomada por organismos que substituíram a doutrina pelas tetas do Estado. Passamos a conviver com a versão moderna do peleguismo sindical. Nada pode ser mudado, nada pode avançar sem o placet da CUT, que, nesses últimos anos, comandou suas congêneres, dando-lhes as palavras de ordem, os comandos de rua e formando corredores poloneses nas cúpulas côncava e convexa do Congresso.

As oposições comeram o pão que o diabo amassou. O confronto se intensificou ao longo da era petista. Grupos incrustados nas entranhas do próprio Governo petista lutavam por espaços.

As querelas entre integrantes dos grandes e médios partidos que formavam a base governista tinham como leit motiv a divisão de recompensas, a briga por cargos, sob a cultura de partidarização do Estado que o PT tão bem desenvolveu, principalmente nos Ministérios da Educação e da Cultura. Criou-se um jogo de soma zero. O ganho de um era a perda de outro.

Para usar a concepção do sociólogo espanhol Carlos Matus, em seu ensaio Estratégias Políticas, por aqui o estilo chimpanzé de fazer política - baseado no projeto do poder pessoal, da rivalidade permanente, da hierarquização da força – supera o modelo Maquiavel, onde o personalismo do Príncipe, eixo do sistema, se subordina a um projeto de Estado. (A propósito, Fernando Henrique, em seu tempo, era designado “príncipe” por seu entorno. Lula, com seu carisma e verbo populista, queria mais aparecer como “salvador da Pátria”).

Dois estilos

Vivenciamos uma luta renhida entre dois estilos. De um lado, o setor político, inspirado no lema “o poder pelo poder”, se empenhava com capricho para ganhar espaços, usando a arma do voto para atingir o objetivo de preservar e ampliar territórios e influência. O PT até conseguiu ultrapassar o PMDB na representação parlamentar na Câmara. Perdeu essa condição só em tempos recentes.

Os representantes, tanto os de ontem como os de hoje, adotam a tática de disparar processos de tensão, ameaçar o Governo com retiradas de apoio, buscar coalizões de um lado e de outro. Um exemplo recente é o Centrão. Elegeu Rodrigo Maia. Desfez-se e agora tenta voltar. Quer estar no eixo de poder. Veja-se o debate em torno da dívida dos Estados. O governo federal tenta controlar as torneiras. Já os governadores querem abri-las com força. A natureza política, pelo vocabulário de Matus, amolda-se ao instinto do chimpanzé, para quem o ideal de vida é a conservação da própria espécie (“o fim sou eu mesmo”).

E a vontade popular, o ideal coletivo? Ora, ficam em segundo plano.

Noutra posição do arco político, há um núcleo que age à moda Maquiavel. Seu discurso tem uma especificidade: o grupo não encarna o projeto - o projeto é o Brasil - mas a conquista da meta parece impossível sem o grupo. Por isso, os meios devem se adequar ao fim. Que, nesse momento, é a redenção nacional. Valerá tudo para recuperar a economia, voltar a crescer o PIB, baixar a inflação e os juros. Portanto, tudo deve ser sacrificado pelo projeto, até o uso de verbas para que os parlamentares possam cumprir promessas com suas regiões. Afinal de contas, se nada fizerem receberão o bilhete de volta às suas casas, sem mandato. Essa é a lógica da política. Para atender à competição feroz da classe, a conduta maquiavélica faz concessões ao estilo chimpanzé. Interessante é que este acaba ganhando o jogo.

Não há como escapar à sensação de que o país fica, portanto, à mercê dos estilos Chimpanzé e Maquiavel de fazer política. Por isso, só mesmos grandes movimentos de mobilização empurrarão o carro das reformas. Ou seja, só uma imensa força centrípeta – da sociedade – será capaz de impulsionar a força centrífuga (da representação política e do Executivo) na direção das mudanças.

A cultura ética

Por isso, às elites e aos setores organizados, devem se somar as margens da sociedade. Sozinhos, sabemos bem, os pobres não terão munição para fazer guerra. No meio dos humildes e marginalizados, o pão é pouco. Mas é nesse espaço que se vê germinar a semente da amizade, da cooperação. Essas margens querem ver alguém com roupa asséptica. Daí a necessidade de o país encontrar a terceira modelagem da política: o estilo Ghândi. Que tem como foco a busca de consenso, da austeridade, da solidariedade, do zelo, do ideal do bem comum.

A forma Ghândi de governar dispensa a força física, evita a competitividade dos Chipanzés e não aceita a emboscada maquiavélica. Seu poder repousa na espiritualidade. Trata-se do grau superior de fazer política. O problema é: existe entre nós alguém que possa simbolizar tal figurino? Há perfis assemelhados à Ghandi ou à Madre Tereza de Calcutá em nosso meio? Em outras palavras, o padrão ético existe por estas plagas?

Nunca precisamos tanto como agora do diálogo, da elevação dos espíritos, da negociação, da convivência, de um pacto por causas coletivas. O país se defronta com um grande desafio: transformar a cultura egocêntrica da política numa cultura sociocêntrica, inspirada na motivação pelos ideais da sociedade. Tivéssemos um pouco mais de estilo Ghandi, os cidadãos sentiriam mais vergonha de cometer atos ilícitos. Por falta de vergonha, o estilo chimpanzé vira moda. Sob as bênçãos de Maquiavel. É muito triste.

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