sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na aritmética da crise, valem frações ordinárias


No mercado persa que se instalou ao redor do pedido de impeachment de Dilma, a moeda que vigora é a fantasia, não o Real. Ganhará a guerra quem chegar à véspera da batalha final com a melhor pose de vencedor. Na fase atual, marcada pela compra e venda de votos, o político procura não parecer o que é. Faz isso porque o interlocutor pode não ser o que parece. Ou, enganação suprema, pode ser e parecer.

Um fato ocorrido na Câmara nesta quinta-feira ajuda a entender o que se passa. Membro do pelotão de resistência de Dilma, o deputado Silvio Costa (PTdoB-PE) encontrou-se com o colega Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), que pega em lanças pelo impeachment. A dupla travou um diálogo elucidativo:

— Lúcio, meu velho, fico cada vez mais decepcionado com a política. Vou te contar uma coisa porque gosto de você. Mas peço que não comente com ninguém. Estou vindo do Planalto. Encontrei lá cinco malandros do PMDB querendo ser recebidos. Pediam que não lhes retirassem os cargos porque não votarão a favor do impeachment.

— Silvio, meu caro, diferentemente de você eu já nem me decepciono mais. Encontrei há poucos instantes dez malandros seus. Disseram que fingem ser contra o impeachment de Dilma para evitar que lhes tirem os cargos. Mas querem mesmo é conversar com o Michel Temer. Pediram para eu marcar o encontro.

Os dois gargalharam ao se dar conta de que, na aritmética do impeachment, o que conta são as frações ordinárias.
Josias de Souza

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