quarta-feira, 31 de julho de 2019

Governo despreza corpos e fronteiras de quem não é do 'povo'

Um cacique foi morto na terra dos Waiãpi, no Amapá. Segundo relatos de indígenas, a facadas.

Ao menos 57 detentos foram mortos no Centro de Recuperação de Altamira, no Pará. Houve 16 decapitações , e as cabeças foram exibidas juntas, evocando o que as forças policiais fizeram com Lampião e seus cangaceiros.

Jair Bolsonaro disse, em tom de ameaça ao filho de um homem morto há 45 anos , que poderia contar como se deu o assassinato. Mais tarde, embora documentos produzidos pelo Estado brasileiro confirmem que Fernando Santa Cruz morreu após ser preso (tendo o corpo incinerado, segundo relato de um coronel), o presidente afirmou que o servidor público fora justiçado por companheiros de militância.


Esses fatos dos últimos dias têm algo em comum: corpos. Ampliando a resposta, corpos destruídos barbaramente. Acrescente-se que são corpos desprezados pelos que governam o país – e, possivelmente, por parcela significativa da população, já que o atual presidente foi eleito com mais de 57 milhões de votos.

Por desprezados entenda-se que são alvos de ataques à sua existência, à sua liberdade, à sua dignidade, à sua história e à sua memória: indígenas, “bandidos”, inconformados. Sempre foi assim neste Brasil de extrema violência, jamais pacífico. Mas causa espanto que isso esteja tão forte em plena democracia – ou “democradura”, como intelectuais têm definido.

Bolsonaro insiste que as terras indígenas precisam ser abertas para mineradoras e garimpeiros. Não reconhece as fronteiras protegidas pela Constituição e que demarcam o resto do muito que os chamados povos originários já tiveram. Por outro lado, estimula que fazendeiros atirem em quem tente invadir suas propriedades. Uns têm espaços que devem defender, outros têm espaços que devem desocupar. Uns têm direito ao próprio negócio, outros estão “inviabilizando nosso negócio” – o de um Brasil onde não há espaço para o modo de vida dos indígenas.

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